A Morgadinha dos Cannaviaes
Júlio Dinis




Júlio Dinis

A Morgadinha dos Cannaviaes





A MORGADINHA DOS CANNAVIAES





I


Ao cair de uma tarde de dezembro, de sincero e genuino dezembro, chuvoso, frio, açoutado do sul e sem contrafeitos sorrisos de primavera, subiam dois viandantes a encosta de um monte por a estreita e sinuosa vereda, que pretenciosamente gosava das honras de estrada, á falta de competidora, em que melhor coubessem.

Era nos extremos do Minho e onde esta risonha e feracissima provincia começa já a resentir-se, senão ainda nos valles e planuras, nos visos dos outeiros pelo menos, da vizinhança de sua irmã, a alpestre e severa Traz-os-Montes.

O sitio, n'aquelle ponto, tinha o aspecto solitario, melancolico, e, n'essa tarde, quasi sinistro. D'alli a qualquer povoação importante, e com nome em carta corographica, estendiam-se milhas de pouco transitaveis caminhos. Vestigios de existencia humana raro se encontravam. Só de longe em longe, a choça do pegureiro ou a cabana do rachador, mas estas tão ermas e desamparadas, que mais entristeciam do que a absoluta solidão.

Não se moviam em perfeita igualdade de condições os dois viandantes, que dissemos.

Um, o mais moço e pela apparencia o de mais grada posição social, era transportado n'um pouco esculptural, mas possante muar, de inquietas orelhas, musculos de marmore e articulações fieis; o outro seguia a pé, ao lado d'elle, competindo, nas grandes passadas que devoravam o caminho, com a quadrupedante alimaria, cujos brios, além d'isso, excitava por estimulos menos brandos do que os da simples e nobre emulação.

Contra o que seria plausivel esperar d'este desigual processo de transporte, dos dois o menos extenuado e impaciente com as longuras e fadigas da jornada não se pode dizer que fôsse o cavalleiro.

A postura de abatimento que lhe tomára o corpo, o olhar melancolico, fito nas orelhas do macho, a indifferença, a taciturnidade ou o manifesto mau humor, que nem as bellezas e accidentes da paizagem natural conseguiam já desvanecer, o obstinado silencio que apenas de quando em quando interrompia com uma phrase curta mas energica, com uma pergunta impaciente sobre o termo da jornada, contrastavam com a viveza de gestos e desempenado jôgo de membros do pedestre, com a sua torrencial verbosidade, a que não oppunha diques, e com as joviaes cantigas e minuciosas informações a respeito de tudo, por meio das quaes se encarregava de entreter e ao mesmo tempo instruir o seu sorumbatico companheiro.

Explica-se bem esta differença, dizendo que o cavalleiro era um elegante rapaz de Lisboa, que fazia então a sua primeira jornada, e o outro um almocreve de profissão.

O leitor provavelmente ha de ter jornadeado alguma vez; sabe portanto que o grato e quasi voluptuoso alvoroço, com que se concebe e planisa qualquer projecto de viagem, assim como a suave recordação que d'ella guardamos depois, são coisas de incomparavelmente muito maiores delicias, do que as impressões experimentadas no proprio momento de nos vermos errantes em plena estrada ou pernoitando nas estalagens, e mórmente nas classicas estalagens das nossas provincias. As pequenas impertinencias, em que se não pensa antes, que se esquecem depois, ou que a saudade consegue até dourar e poetisar a seu modo; esses microscopicos martyrios, que de longe não avultam, actuam-nos, na occasião, a ponto de nos inhabilitar para o gôso do que é realmente bello. A dureza do colchão, em que se dorme, do albardão ou selim sobre que se monta, o tempêro ou destempêro do heteróclito cozinhado com que se enche o estomago, a lama que nos encrusta até os cabellos, o pó que se nos insinua até os pulmões, o frio que nos inteiriça os membros, o sol que nos congestiona o cerebro, tudo então nos desafina o espirito, que traziamos na tensão necessaria para vibrar perante as maravilhas da natureza ou da arte.

Só pelo preço de muitas jornadas se compra o habito de ficar impassivel no meio dos episodios d'estas pequenas odyssêas, que atormentam e exhaurem o animo dos Ulysses novatos; mas ai, quando se adquire esse habito, tambem nos achamos já com a sensibilidade mais embotada para as commoções do bello.

Examina-se com mais minuciosidade, mas com menos enthusiasmo; analysa-se mais e melhor; porém a propria analyse é a prova de que se sente menos. Onde domina o sentimento e a imaginação, mal teem cabida a paciencia e phleúgma, necessarias aos processos analyticos. O homem positivo e frio recolhe de qualquer excursão á patria com a carteira cheia de apontamentos; o enthusiasta e poeta nem uma data regista. Viu menos, sentiu mais.

Mas Henrique de Souzellas – que era este o nome do cavalleiro – fôra educado e passado da infancia á plena juventude, em Lisboa, levantando-se por avançada manhã, frequentando o theatro, o Gremio, as camaras, parolando no Chiado ou no Rocio, e indo alguns dias no anno a Cintra, ou qualquer praia de banhos, desenfadar-se da monotonia da capital.

Desde que fazia perfeito e consciente uso da razão, fôra esta jornada, em que o encontramos, a primeira levada a effeito, e logo sob tão maus auspicios, que era para suffocar-lhe á nascença os instinctos de touriste, se porventura quizessem despertar n'elle.

Havia dois dias que cavalgava aquelle rocinante, unico vehiculo accommodado aos caminhos por que passára. E então que dois dias! D'aquelles, durante os quaes o céo, uniformemente pardo, parece desfazer-se em agua, e a chuva cae sem interrupção e com uma teimosia e constancia impacientadoras; d'aquelles em que a terra saciada rejeita já a agua que recebe, a qual escorre nos declives, transborda dos algares, e encharca-se nos terrenos baixos, transformando em brejos as lezirias; em que as lufadas do sul vergam e torcem os ramos, melancolicamente despidos, dos álamos e sobreiros, e emprestam aos pinheiraes a voz dos mares; em que os campos se mostram desertos, a noite se anticipa, e tão densas nuvens cobrem o firmamento, que parece tomar-nos a persuasão de que nunca mais o veremos com as suas formosas vestes de azul.

Vejam se, n'estas circumstancias, o pobre rapaz podia deixar de ir cabisbaixo, triste e dando ao diabo a viagem que commettera.

E para quê e por quê a commettera elle assim?

Em poucas palavras procuraremos satisfazer a natural interrogação, que é de suppôr nos dirigissem os leitores, se podessem fazel-o.

Este Henrique de Souzellas attingira a idade dos vinte e sete annos, vivendo, como dissémos, aquella enlanguescedora vida da capital, e dividindo as attenções do espiri Este Henrique de Souzellas attingira a idade dos vinte e sete annos, vivendo, como dissémos, aquella enlanguescedora vida da capital, e dividindo as attenções do espirito pela politica, pela litteratura e pelos destinos do theatro de S. Carlos, do qual estava habilitado a fazer circumstanciada chronica, que abrangesse os ultimos dez annos.

Não concebia vida fóra d'aquillo.

O mundo para elle era Lisboa. Não sentia desejos, nem imaginava possibilidade de visitar a Europa, quanto mais a provincia; o que seria maior façanha.

Não que lhe faltassem recursos para realisar qualquer projecto d'esta natureza.

Henrique herdára dos paes rendimentos bastantes, dos quaes vivia folgadamente e sem precisar de sacrificar nos altares da economia.

Mas a indolencia lisbonense manietava-o alli. A poucos ia tão direita a apostrophe de Garrett aos seus «queridos alfacinhas», a qual se pode ler no livro setimo das Viagens.

De certo tempo em deante começou, porém, a incommodal-o uma especie de vácuo interior, um mal-estar, doença infallivel nos celibatarios sem familia, quando chegam á idade a que chegou Henrique, e passam a vida como elle.

Tudo lhe causava fastio. Bocejava em S. Carlos, bocejava nas camaras, bocejava no Gremio, bocejava no Suisso, no Chiado e nos circulos dos seus amigos, os quaes principiaram tambem a achal-o insupportavel de insipidez; porque poucas coisas ha que mais perturbem o espirito, do que o espectaculo d'um homem que boceja ou dorme, onde e quando os outros forcejam por divertir-se.

O demonio da hypocondria, esse demonio negro e lugubre, implacavel verdugo dos ociosos e egoistas, o qual havia muito o espiava, apoderou-se d'elle em corpo e alma.

Ahi temos, desde esse instante, Henrique muito preoccupado com a sua pessoa, imaginando-se victima de mil e uma molestias, as mais disparatadas e incompativeis, suspeitando-se conjunctamente predestinado para a apoplexia e para a phtisica, para o cancro e para a alienação, para a cegueira e para as aneurismas, tremendo á leitura do obituario da semana, folheando livros de medicina, construindo theorias physiologicas, consultando todos os medicos da capital, experimentando todo o arsenal pharmaceutico e todos os annuncios, em parangona, da quarta pagina dos periodicos, e elevando as crenças do seu espirito amedrontado até ás mysteriosas e nevoentas alturas do credo homoepathico! Ao mesmo tempo manifestou-se n'elle uma progressiva degeneração de gôsto; não podia ler uma pagina dos livros que lhe eram predilectos; desfazia-se sem desgôsto de quadros, móveis, estatuas e objectos curiosos que colleccionára com paixão; detestava a musica, o theatro, n'uma palavra, tornára-se um dos maiores flagellos, que podem pesar sobre a humanidade e que muito em especial causam o supplicio dos medicos que os aturam.

Foram estes os que, em parte de boa fé, em parte com o desculpavel intuito de sacudirem de si tal pesadelo, lhe deram um dia de conselho, que fôsse viajar.

Henrique de Souzellas julgou ouvir uma heresia n'esta palavra: viajar.

Viajar? E as suas aneurismas? E as suas imminencias apopleticas? E as suas disposições para tantas outras enfermidades? Pois um homem pode lá viajar com esta bagagem pathologica?

E se lhe désse alguma coisa pelo caminho? Recusou com mau humor a receita, e ficou na capital.

Exacerbaram-se os padecimentos, repetiram-se as consultas, e os medicos, como se para isso apostados, a insistirem em que saisse de Lisboa.

– O senhor não tem nada – diziam alguns.

Henrique perdia a cabeça, ao ouvir isto.

Prolongou-se este estado de coisas, até que um dia o hypocondriaco rapaz persuadiu-se muito sériamente de que estava chegada a sua hora extrema.

Um medico velho e grave, que por essa occasião o escutou, em vez de se rir d'elle, disse-lhe, muito sisudo:

– Homem! O senhor está realmente mal. Esse estado de imaginação não pode prolongar-se mais tempo, sem romper por ahi em alguma doença que o sacrifique. Se quizer salvar-se, saia-me d'aqui, emquanto é tempo. Quebre por todos os habitos, e escolha entre as fortes impressões de uma grande capital, como Paris ou Londres, ou as mornas sensações de um completo viver de aldeia. Os revulsivos e os emollientes curam por meios oppostos ás vezes as mesmas molestias.

Ora succedeu que n'esse mesmo dia recebesse Henrique um presente de fructa de uma sua tia, santa creatura que elle, desde creança, não tornára a vêr.

Vivia regalada em uma aldeia sertaneja do Minho onde na idade de cinco annos Henrique passára alguns mezes na companhia de sua mãe.

Aquelle presente frugal recordára-lhe esse tempo, já meio apagado na memoria, e conseguira fazer-lhe saudades. D'ahi uns vagos desejos de voltar a vêr aquelles sitios.

Por isso ao ouvir o conselho do doutor, Henrique nomeou-lhe a aldeia, em que esta sua parenta vivia.

O velho facultativo applaudiu a ideia e instou para que fôsse abraçada.

O sobrinho escreveu então á tia, e, passados dias, punha-se a caminho.

Mil vezes se arrependeu, depois da resolução tomada; mil vezes mandou ao diabo o conselho do medico e phantasiou horriveis exacerbações em todos os seus males. Os inconvenientes de uma jornada, feita ainda segundo os velhos processos, com malas, coldres e pistolas, botas de montar e almocreve, ampliava-lh'os a proporções estupendas, o prisma da hypocondria.

No momento em que nos associámos ao cavalleiro, caira elle n'um desalento profundo, n'um quasi convencimento de proxima anniquilação, do qual nem a loquacidade do almocreve, condimentada, como era, de pragas eloquentes e de cantigas pouco edificantes, o conseguia arrancar.

Havia mais de uma hora que estavam luctando com as difficuldades da ascensão do ingreme e escabroso caminho, que torneava o monte como as voltas de uma helice.

Era este monte uma como irregular pyramide, levantada no meio da amplissima bacia, onde tinha assento a aldeia que Henrique demandava; por isso o estafado rapaz não podia atinar a razão de conveniencia pela qual, tendo de procurar o valle, assim porfiavam em descrever as fastidiosas curvas da quasi interminavel espiral, que os approximava do vertice.

Não se concebe uma estrada menos logica do que aquella.

No nosso paiz são porém frequentes estas faltas de logica nas estradas.

O almocreve havia-se separado por momentos de Henrique com o fim de encurtar distancias, seguindo por um atalho só franqueavel a gente de pé.

Henrique nem desviára os olhos para o fundo valle, que se abria á esquerda, velado pela densa nevoa d'aquella atmosphera saturada de humidade, nem prestava attenção á agreste e selvatica paizagem, do lado direito, toda encrespada de pinheiraes nascentes e de espinhosas tojeiras.

Os olhos procuravam, em anciosa interrogação, o mais alto da flexuosa ladeira que subia, no sitio em que ella, formando um cotovello, furtava á vista o seguimento ulterior.

N'estas curvas das estradas sorri sempre de longe ao viajante, cançado e aborrecido, que pela primeira vez as trilha, uma promettedora esperança.

– D'alli verei talvez o termo do caminho – pensa elle.

Mas quantas vezes, ao approximar-se, esta esperança lhe foge!

Assim aconteceu a Henrique, que, ao chegar á almejada inflexão e quando esperava principiar emfim a descer para o valle e approximar-se da aldeia, viu que o macho, pratico no caminho, e á disposição de cujo instincto elle collocára a razão, dobrava ainda para a direita e continuava a contornar e a subir o monte. A espiral não terminára ainda. Henrique olhou em torno de si, profundou a vista nas sombras do valle, nada pôde descobrir, que lhe promettesse a aldeia procurada. Muita arvore, povoação nenhuma!

Teve um paroxismo de impaciencia!

– Isto não é estrada! – exclamou elle, exasperado. – São os nove circulos do Inferno de Dante virados para fóra.

E a luz do dia a fugir cada vez mais, e a chuva a augmentar, a calar através do grosso gabão de jornada que Henrique vestia! O desgraçado vergava sob o pêso da sua consternação.

Ajuntou-se-lhe outra vez o almocreve, assobiando com fleugma desesperadora.

– Com um milhão de demonios! – bradou-lhe Henrique, não podendo conter-se. – Essa maldicta terra foge deante de nós, homem!

– Estamos quasi lá, meu patrão. É alli logo adeante – respondeu o almocreve, sem se alterar. Vê aquella capellinha branca em cima d'aquelle monte? pois fica já para além da povoação. É a ermida da Senhora da Saude. É um instante.

– Desde as duas horas da tarde que me dizes que é um instante, e eu estou acreditando que cada vez nos afastamos mais. Pois se a aldeia fica alli em baixo, para que diabo subimos nós? Ás voltas que temos dado, estou persuadido de que vamos tão adeantados como quando principiámos a subir.

– Pois olha que dúvida! Se se fôsse a direito lá por baixo, era mais perto, mas…

– Mas foi então pelo prazer de trepar, que me trouxeste por aqui?

– Não é isso, patrão; mas bem vê v. s.a que o caminho lá por baixo é todo cortado por quintas e campos, e é preciso dar taes voltas, que a final fica mais longe. Depois, com a chuva que tem caído, faz lá ideia de que o caminho lá por baixo é todo cortado por quintas e campos, e é preciso dar taes voltas, que a final fica mais longe. Depois, com a chuva que tem caído, faz lá ideia de como estão os riachos por lá! Só o esteiro do almargeal é para uma pessoa se afogar. Mas tenha o patrão paciencia, que pouco falta agora. Vê v. s.a aquelle tronco de sobreiro que parece, visto d'aqui, um frade de capuz?

– É alli?

– Não, senhor – disse o homem, rindo; – mas vêem-se d'aquelle sitio as primeiras casas da aldeia.

– As primeiras! – murmurou Henrique em tom lastimoso; e penderam-lhe os braços com mais desalento e augmentou-se-lhe a flexão da columna vertebral.

O almocreve proseguiu, para o distrair:

– Tenho passado por estes sitios muita vez com neve de se cortar á faca e de noite. E olhe que nunca tive mêdo. Qual historia! Mêdo? Isso sim! E vamos lá! o sitio não é dos mais seguros. Vê o senhor essa cruz preta, ahi á sua mão direita, pregada no tronco d'esse pinheiro? Pois ahi mesmo mataram um homem, que vinha com uns centos de mil réis da feira franca de Vizeu, fez pelo S. Miguel um anno. E ainda hoje se está para saber quem foi. N'um ermo d'estes só os santos podem valer a uma creatura.

Henrique sentiu-se pouco á vontade com as elucidações do cicerone; olhou para elle com desconfiança e quasi julgou vêr moverem-se sombras suspeitas por entre os troncos dos pinheiros. Apalpou nos coldres os cabos das pistolas, e approximou as esporas dos ilhaes da cavalgadura.

Dentro em pouco attingiam o indicado tronco de sobreiro, de junto do qual deviam avistar a aldeia.

Henrique olhou; viu lá no fundo do valle muitas arvores, mas continuou a não enxergar vestigios de casas.

– Onde está a aldeia que dizias, homem?

– D'ahi já se vê – disse o almocreve, correndo para alcançar o cavalleiro. – Não vê v. s.a, além, além, aquelles pinheiraes mansos?

– Vejo, sim.

– Pois já são da freguezia. Se fôsse mais claro havia de avistar a casa do guarda. É a tapada dos Bajuncos, que pertence á morgadinha dos Cannaviaes.

Henrique não respondeu. A distancia a que ficava ainda a tal tapada fel-o suspirar.

Emfim, passados minutos, principiaram a descer para o valle, costeando sempre obliquamente o monte.

Cem passos andados, fez-lhe o almocreve notar um pequeno ponto branco, que se divisava ao longe por entre a rama do arvoredo, mas já indistinctamente, em virtude do adeantado da hora e da intensidade da neblina.

– Lá está a capella da freguezia – dizia o homem.

– Alli? É um seculo para lá chegar!

– Qual! Estamos aqui, estamos lá. Eh, russo!

E applicou uma vigorosa vergastada nas ancas do macho, que accelerou o passo.

O homem continuou:

– Até se fôsse mais dia podia-se vêr d'aqui a pedra, que está no cemiterio novo, e que é da familia da morgadinha dos Cannaviaes. Foi a mãe d'ella a primeira pessoa que lá se enterrou, e até hoje mais ninguem. O povo, como o outro que diz, tem sua aquella em se enterrar fóra da egreja. Elle, a falar a verdade… Eu bem sei que tudo vae do costume… mas emfim a gente foi creada n'isto… Mas a pedra é coisa asseada. É como as que estão na cidade.

Henrique, transido de frio, quebrado de desalento, já nem attendia ao que o homem ia dizendo.

Cerrára-se a noite de todo, quando attingiram emfim o valle. O terreno mudava agora de aspecto. Appareciam já, aqui e alli, alguns indicios de cultura, annunciando a proximidade de um povoado. Os caminhos estreitavam, internando-se no valle, e seguiam tortuosamente por entre muros tôscos de pedra ensossa, silvados e sebes naturaes. A chuva, que não cessára de cair, transformára estes caminhos, onde o declive não dava escoamento ás aguas, em charcos e tremedaes.

Novos indicios da vizinhança da aldeia iam successivamente apparecendo.

Aqui era uma manada de bois soltos, em direcção do curral, guiados por uma creança de palhoça e pernas nuas, os quaes paravam a olhar com aquella expressão de composta curiosidade, que lhes é peculiar, para o recem-chegado visitante da aldeia. Não faltou receio a Henrique, que suppôz a estes bonacheirões quadrupedes a indole travêssa e bravia dos touros, a cuja chegada tantas vezes fôra assistir em Lisboa.

Mais adeante passava por elles uma fileira de carros a vergarem sob o pêso do matto e atroando os ares com o chiar incómmodo das rodas sob o eixo, incómmodo para os ouvidos cidadãos de Henrique, cujos nervos se irritavam com elle, mas apparentemente agradabilissimo para os conductores aldeãos, que ou dormiam ou cantavam com aquelle acompanhamento.

N'um e n'outro ponto deparavam-se-lhe já algumas casas de tectos de colmo, de cujas innumeras fendas saía um fumo espêsso, que a atmosphera humida mal deixava elevar nos ares. No olfacto deshabituado de Henrique de Souzellas o cheiro resinoso e activo das pinhas e das agulhas sêccas dos pinheiros, queimadas no lar, produziam sensações muito longe de serem agradaveis.

Augmentava-se-lhe com tudo isto a funda melancolia que já lhe tomára o animo.

– Tantas fadigas para este resultado! – pensava elle. – Sair de Lisboa para me enterrar n'esta aldeia escura e suja! Enganou-se o parvo do doutor. Cuidava que me salvava e matou-me. Eu morro por certo aqui. Deus lhe perdôe o homicidio.

Os caminhos succediam-se aos caminhos, qual mais tortuoso e incómmodo de trilhar; as curvas complicavam-se como as ruas de um labyrintho. Aqui subiam; desciam mais além, para subir outra vez. Umas vezes caminhavam em terreno descoberto, outras penetravam em tão estreitas quelhas, apertadas entre paredes argilosas e humidas e toldadas de ramos entrelaçados, que só o instincto do animal podia evitar-lhes os perigos. Ora soavam as patas do macho como em chão lageado, ora amortecia-lhes o som um terreno, que a chuva encharcava, e a agua lamacenta vinha salpicar o rosto do cavalleiro.

As casas eram já frequentes, e algumas de menos humilde apparencia.

Os cães, que, pelo timbre de voz, mostravam ser gigantes, ladravam raivosos por dentro dos portões ou de sobre os muros das quintas, ao ouvirem os passos da cavalgadura ou a voz do almocreve, que falava ou cantava sempre.

Outras vezes era um inharmonico grunhir suino que accusava a vizinhança das córtes ou, partindo de um casebre rustico, o chorar de creanças, entremeado com os ralhos das mães e com as pragas dos chefes de familia.

O almocreve não desistira das suas funcções de cicerone, que sómente interrompia para saudar alguns conhecidos seus, a cuja porta passavam.

– Estes campos e lameiros – ia dizendo – são da morgadinha dos Cannaviaes; andam arrendados a um compadre meu.

E exclamava para dentro de uma casa terrea, escassamente allumiada por uma candeia:

– Boas noites, tia Escolastica. Como vae a pequenada?

– Ai, é vossemecê, sr. José? Então não entra? – respondia-lhe uma voz feminina.

– Agora, não, ámanhã.

E proseguiu para Henrique:

– É uma santa creatura. A morgadinha…

Henrique interrompeu-o:

– Onde fica a final, a quinta de Alvapenha? onde mora minha tia? Não me dirás?

– É logo ahi adeante, meu patrão. Em nós passando umas casas amarellas que ha ahi… é logo ao pé. Essas casas que digo são tambem da morgadinha, mas ha uma demanda pelos modos.

O almocreve falava pela decima ou undecima vez na morgadinha. Até esta periodica referencia a uma personagem que elle não conhecia, impacientava Henrique de Souzellas.

E continuavam a succeder-se em enredado dedalo as quelhas e azinhagas, a ponto de fazer perder toda a orientação. Umas vezes ouviam o ruido das levadas, que as ultimas chuvas tinham engrossado; adeante, transpunham uma ponte rustica, escutando das profundezas do despenhadeiro, que ella atravessava, o fragor das cascatas nos açudes ou o ranger das rodas dos moinhos.

Henrique a cada momento imaginava cair n'um abysmo.

– São os açudes do Casal – dizia o almocreve berrando para se fazer ouvir através do estrondo da torrente. – Pertencem á morgadinha dos Cannaviaes.

Henrique nem alento já tinha para falar.

Ao triste e quasi sinistro aspecto d'aquella aldeia tão cerrada lhe envolveu o coração a nuvem de melancolia, que cedeu sem resistencia ao crescente torpor que o invadia, como o que desespera da vida e da salvação.

Mais adeante, excitou-lhe ainda as attenções uma toada plangente, melancolica, monotona, que exacerbou estes effeitos.

– É uma fiada em casa do Tapadas – disse o almocreve. – É um dos maiores amigos do pae da morgadinha. Vê aquelle muro acolá?

– Eu não vejo nada. Deixa-me!

– Pois pertence já á quinta dos Cannaviaes, que a morgadinha…

– Outra vez! Cala-te para ahi com essa morgadinha – exclamou Henrique.

Era evidente emfim que estavam em pleno coração do povoado. As casas appareciam mais juntas. De algumas saía um surdo rumor de vozes que tinha o que quer que era de lugubre. Era a corôa rezada em familia a Nossa Senhora. A voz grave do lavrador casava-se com a voz quebrada e trémula do avô, com a voz sonora e fresca da mãe, e a juvenil das raparigas e creanças n'aquelle piedoso côro, produzindo um effeito que acabou por levar ao auge a impaciencia do nosso spleenetico viajante.

– Sumiu-se essa endiabrada quinta de Alvapenha, que não a acabamos de attingir?

O almocreve d'esta vez nem respondeu; sacudiu uma chicotada sibilante junto ás orelhas do muar, o qual com desusada rapidez galgou uma ladeira orlada de arvores, volveu á direita e, á voz do almocreve, estacou em frente de um portão de quinta resguardado por um telheiro rustico.

– É aqui – disse o guia.

– Até que emfim! – exclamou Henrique, suspirando. Suspiro de conforto e de tristeza ao mesmo tempo, como o do homem cançado da vida, quando antevê o repouso do tumulo. Em Henrique era intima a convicção de que a quinta de Alvapenha lhe havia de servir de cemiterio.




II


O almocreve assentou duas vigorosas pancadas no solido portão de castanho, deante do qual tinham parado.

As primeiras vozes, a responderem-lhe, foram as de dois cães, que acudiram de longe ao signal e vieram ladrar á porta com furia, que fez agourar mal a Henrique da cordialidade da recepção que o esperava. De facto as intenções dos quadrupedes não pareciam demasiado hospitaleiras. O almocreve divertia-se excitando-os de fóra com uma vara de vime, apesar de quantas recommendações de prudencia lhe fazia Henrique, não em demasia socegado.

A final ouviu-se uma voz aspera e rouca, chamando os cães á ordem, se é licito, sem irreverencia, empregar n'este caso a phrase consagrada para outro genero de algazarra.

Henrique ouviu rodar a chave, correr os ferrolhos, levantar a aldraba, gemerem os gonzos, e emfim um homem de lavoura alto e magro, trazendo em punho um lampeão de frouxissima luz, appareceu-lhes á porta e saudou-os com a fórmula do estylo:

– Ora Nosso Senhor lhes dê muito boas noites.

E, levantando a luz á altura do rosto de Henrique, poz-se a miral-o com a menos ceremoniosa curiosidade.

– É o sobrinho cá da senhora, não é verdade?

– Sou eu mesmo.

– Está um tempo muito azêdo. Eu já julgava que não vinham. Entre.

Henrique não se resolvia a acceitar o convite, porque lhe continuavam a impôr respeito os olhares ferinos e os rugidos surdos dos dois façanhosos quadrupedes, cuja má vontade era a custo refreada.

– Entre, entre – insistia o homem.

– Mas esses animalejos?..

– Ah! isto não faz mal. Sae-te p'ra lá, Lobo: passa, Tyranno!

Lobo! Tyranno! Que nomes! E dizia o homem que não faziam mal!

– C'os diabos! ti'Manuel – disse o almocreve – em occasião de se esperarem hospedes, não se soltam assim os cães. Os diabos não são nenhuns cordeiros. Olhe no outro dia o sr. Joãosinho das Perdizes, que por pouco lhes deixava nos dentes as barrigas das pernas.

– Forte perca! – resmoneou o outro. – Não trouxesse cá os d'elle. Não tem dúvida; entre o senhor, que elles não lhe fazem mal.

– Não entro; assim é que não entro – teimou Henrique, a quem as palavras do almocreve acabaram de fortificar na sua resolução.

O homem em vista d'isto encolheu os hombros e bradou:

– Ó Luiz!

Uma creança de cinco annos, e quasi nua, correu ao chamamento.

– Enxota para lá esses cães, que aqui o senhor tem mêdo.

A creança, á palavra mêdo, fitou Henrique com uns olhos espantados, e tomando do chão um tronco de tojo, deu-se a zurzir desapiedadamente nas feras, que, com todos os signaes de respeito, de orelha baixa e cauda abatida, fugiram deante d'ella.

O orgulho de Henrique de Souzellas ficou um tanto maltratado com o desfecho da scena; mas a prudencia consolava-o, dizendo-lhe que andára ajuizadamente.

– Agora vossemecê – disse o camponez para o almocreve – arranje-se como puder e mais a bêsta ahi pelas lojas, emquanto eu ensino o caminho ao senhor.

– Vão, vão com Nossa Senhora, que eu cá me arranjarei. Muito boas noites, sr. Henriquinho.

– Adeus, José – disse Henrique, passando para a mão do guia a esportula da gorgeta, e após seguiu, com as pernas trôpegas de cavalgar, o homem do lampeão.

Não era para dissipar a impressão penosa, que subjugava o espirito de Henrique, o aspecto que lhe offerecia, áquella hora da noite, a parte da quinta, por onde era conduzido para a casa de Alvapenha.

Primeiro, trilhou o pavimento molle de um quinteiro ou eido, estradado de altas camadas de matto e embebido de chuva, d'onde se exhalava um cheiro de cortumes, pouco de lisonjear o olfacto mal habituado a estes aromas campezinos. A luz do lampeão a custo conseguiu evitar a Henrique o tropeçar n'um carro desapparelhado, n'uma dorna, n'uma pia para gallinhas, e em outros objectos que atrancavam o quinteiro. Transpondo a cancella que terminava este, seguiram por uma rua de folhas; atravessaram diagonalmente a horta, pelo carreiro que a dividia; ladearam a eira e a casa do cabanal, e, effectuados mais alguns rodeios, acharam-se finalmente junto da escadaria de pedra, por onde se subia para uma especie de patamar ou varanda alpendrada, que servia de um modesto portico á casa de Alvapenha.

A propriedade da tia de Henrique era um genuino typo de casa rustica, á moda do Minho.

Ao subir as escadas, e apesar de mal poder divisar os objectos á escassa luz que os allumiava, recebeu Henrique a primeira impressão agradavel de toda aquella mal estreada excursão.

Estas escadas, esta varanda de pedra e este alpendre avivaram n'elle memorias, quasi apagadas. Lembrava-se agora vagamente de ter brincado alli, a cavallo n'esse mesmo parapeito, então, como agora, enfeitado de uma formidavel cohorte de aboboras meninas, victimas votadas ás festas do proximo Natal.

A um canto do patamar deparou-se-lhe ainda um grande vaso de louça, que elle, havia vinte e tantos annos, conhecera, e ao qual tinha a ideia vaga de haver quebrado uma aza; abaixou-se no intento de se certificar, e viu que de facto ainda lhe faltava a aza, sendo este o unico estrago que após tanto tempo o velho utensilio soffrêra.

– É admiravel! – não pôde deixar de exclamar Henrique ao fazer a descoberta, vendo que em oito dias operava maior reforma nos seus aposentos em Lisboa, do que n'um quarto de seculo se realisava em Alvapenha.

O hortelão bateu á porta e disse para dentro que era o sobrinho da senhora que chegava.

Seguiu-se um mexer de cadeiras, um trocar de vozes, um arrastar de passos; moveu-se a chave na fechadura; abriram-se as portas e no limiar appareceu de braços abertos a tia Dorothéa, e por traz d'ella, elevando a luz acima do hombro da ama, a criada Maria de Jesus, a que, havia trinta annos, lhe era companheira e interessada em lagrimas e pesares. Já Henrique lhe andára ao collo no tempo em que estivera creança na quinta.

Deante da figura esbelta, do typo varonil e do comprido bigode de Henrique, a sr.a Dorothéa reprimiu as suas expansões e quasi recuou.

Nunca mais vira Henrique desde que este, aos cinco annos, deixára Alvapenha, e dir-se-hia que esperava ainda encontrar os mesmos cabellos louros e annelados e o mesmo rosto menineiro da travêssa creança de outros tempos, em vez do homem feito, em que os vinte e tantos annos volvidos o tinham transformado.

Ha d'estas illusões na gente.

A mais segura razão não está precavida contra ellas; a infundada surpreza invade-nos de subito, e os labios não podem prender a exclamação que a denuncia.

– Pois na verdade tu és o Henriquinho?! – disse espantada a boa senhora.

– Eu julgo que sim, tia Dorothéa.

– Tu! Ai como estás um homem! Ó Maria de Jesus, você não quer vêr isto!?

– Parece mesmo um soldado! – disse a criada, igualmente estupefacta.

– Credo, mulher! Santissima Trindade! Você que está a dizer? Nossa Senhora nos livre de tal! – exclamou a ama, em cujo conceito o soldado estabelecia a transição do homem para o diabo.

No entretanto Henrique de Souzellas abraçava a tia, que havia tanto tempo que não vira, e ella correspondia-lhe, beijando-o com todo o carinho e chorando.

Chorando por quê? Por quê? Pela muita bondade que tinha n'aquella alma. A bondade é um rico manancial, que brota lagrimas ao toque da menor commoção.

Henrique não tinha ainda bem conseguido libertar-se dos roxeados amplexos e mais provas de affecto de sua tia, quando se sentiu prêso em novos laços. Era Maria de Jesus, que o abraçava tambem e lhe pespegava nas faces dois beijos muito chiados, como aquelles que veem a ferver do coração, e isto acompanhado de um – Ai o meu rico filho! – tão eloquente como os beijos.

Henrique, habituado ás etiquetas da civilisação urbana, que estabelece entre amos e criados distancias desconhecidas na aldeia, extranhou um pouco a familiaridade, mas sujeitou-se a ella sem reflexões.

Maria de Jesus dizia, ainda admirada:

– Ó senhora! Não que uma coisa assim! Pois é este o menino que vinha á cozinha limpar o tacho, em que se fazia a marmelada!

– É verdade! E que boa marmelada cá se fazia!

– Lambareiro! – disse a tia, sorrindo. – Se eu soubesse que eras assim, não tinha mandado lavar o tacho do dôce, que ainda hoje serviu.

– Sim? Então ainda se faz dôce cá em casa, como d'antes? – perguntou Henrique.

– Pois então? todos os annos. Mas valha-me Deus! E não querem vêr nós aqui postas á palestra! Entra, menino, entra cá para dentro, que está frio e tu deves vir cançado.

– Um pouco, um pouco, tia Dorothéa.

E Henrique entrou para a sala.

Demoremo-nos no limiar para informar o leitor sobre as pessoas, em cuja casa se vae alojar com Henrique de Souzellas.

Não se imagina a santa paz de espirito, a placidez de paraiso, que estas duas mulheres – D. Dorothéa e Maria de Jesus, ama e criada – gosavam na quinta de Alvapenha, onde Henrique de Souzellas ia procurar allivio aos seus muitos e variados males.

Ambas da mesma idade, ambas muito aferradas aos seus habitos, ambas muito tementes a Deus e amigas do proximo, as duas celibatarias passavam alli uma vida, rescendente a um suave perfume de santidade, como o da alfazema e do rosmaninho, que lhes aromatizava as gavetas e de que se repassava toda a roupa branca, objecto muito dos seus cuidados.

A inalteravel harmonia, mantida havia tantos annos entre as duas, poderia ser exemplo á maior parte das familias d'este mundo. Entre velhas, que nunca tiveram filhos, circumstancia que em geral faz o humor mais acre e desabrido, era tanto mais para admirar o caso.

Tinham ellas porém a precisa tolerancia para fazerem mutuas concessões; cada uma fechava os olhos aos pequenos caprichos da outra, e tudo corria bem. Nunca a dentro d'aquellas paredes se ouviu uma só palavra, que, por mais alto pronunciada ou por menos expressiva de paciencia, destoasse da invariavel monotonia dos seus habituaes dialogos.

Eram um exemplo edificante para os vizinhos, que, pela maior parte, devorados por demandas entre primos e irmãos, paes e filhos, marido e mulher, mostravam infelizmente ser esta abençoada semente caída em improductivo terreno.

As discordias intestinas nas familias do seu conhecimento affligiam as duas sexagenarias e augmentavam o numero de Padre-Nossos com que todas as noites se faziam lembrar dos santos, de quem eram validas, pedindo-lhes a felicidade dos outros tanto ou mais do que a sua propria.

Ouvir rezar as duas santas velhas – e era essa a occupação dos seus curtos serões – equivalia a escutar uma resenha das differentes calamidades, que perseguem e apoquentam o genero humano, e que ellas, d'esta maneira, pretendiam evitar.

– Um Padre-Nosso e uma Ave-Maria a S. Marçal, para que nos livre do fogo – dizia D. Dorothéa, e seguia-se o Padre-Nosso. – Outro a Santa Luzia milagrosa, para que nos dê vista e claridade na alma e no corpo; outro a S. Braz, para que nos proteja da garganta; outro a S. Vicente, por causa das bexigas, etc. Seguia-se um Padre-Nosso por todos os que andam sobre as aguas do mar; outro por os pobres sem abrigo nem alimento; outro por os orphãos; outro pelos doentes; um pelos vivos; outro pelos mortos; um pelos justos; outro pelas almas do purgatorio, não hesitando até a sua caridade em transpôr as portas do inferno e pedir tambem a remissão dos condemnados. E ainda depois d'esta minuciosa e longa enumeração, um ultimo Padre-Nosso fechava a primeira serie, comprehendendo todos os não contemplados por esquecidos, ou por não terem logar na classificação.

Compunha a segunda serie a menção especial de cada uma das pessoas fallecidas das suas relações: parentes, amigos e conhecidos, por cujo «eterno descanço entre os resplendores da luz perpetua» oravam com verdadeira compunção. N'esta phalange ia tambem D. João VI, por quem, havia quarenta annos, se costumára a rezar D. Dorothéa, e não era ella mulher que rompesse com habitos semi-seculares. Era esse talvez o unico Padre-Nosso que a alma do monarcha recebia no Céo, com procedencia do seu antigo reino.

Quanto ás qualidades physicas, a imaginação dos leitores pintar-lh'as-ha melhor do que a minha descripção. Forçosamente conheceram uma d'estas boas velhas, para quem nos sentimos attrahidos; a quem se estima e com quem se brinca ao mesmo tempo; que nos podem inspirar sacrificios e simultaneamente nos tentam a travessura; a quem mystificamos agora e logo beijamos respeitosamente a mão; contra quem não reprimimos impaciencias, escutando depois submissos os seus nunca terminados sermões.

Ora estas velhas assim teem quasi sempre um typo uniforme, que é o reflexo exterior da bondade do coração; esse era o typo da tia Dorothéa com o seu vestido rôxo, o seu lenço castamente cruzado no peito, a sua touca de folhos alvissimos e de fitas escuras, o mólho de chaves á cinta, o livro de orações na algibeira e os oculos a marcarem no livro a reza habitual.

Maria de Jesus de igual maneira. Era apenas uma edição popular da mesma alma. Succedêra de mais com ellas o que é sempre de esperar de uma longa e intima convivencia; haviam reciprocamente adoptado maneiras e modos de pensar e de vêr e de dizer as coisas uma da outra, a ponto de qualquer d'ellas ser como que uma premissa d'onde a modo de conclusão, se deduzia a outra facilmente.

Tudo isto percebeu logo Henrique de Souzellas ao primeiro exame que fez das duas santas mulheres.

Entremos agora com elle para dentro da sala.

Quem, vinte annos antes, tivesse visitado a casa de Alvapenha e ahi voltasse de novo com Henrique julgaria, á vista da uniforme disposição de coisas mantida alli dentro em tão distantes épocas, que todo esse tempo não fôra mais do que um sonho de momentos.

Encontraria os mesmos móveis, na mesma collocação; as mesmas cobertas nos leitos, apenas mais desbotadas; as mesmas ou iguaes cortinas nas janellas; o mesmo cheiro de feno e alfazema na atmosphera dos quartos, os mesmos quadros na parede, as mesmas jarras nas cómmodas.

A memoria de Henrique, aquella inconstante e leviana memoria de rapaz estouvado, sentia-se acordar, á vista d'aquillo tudo.

A sala tinha uma physionomia caracteristica.

Supponha-se uma não muito ampla quadra de pouca altura, toda pintada a óca, e alumiada por duas mal rasgadas janellas de peitoril, com os seus competentes assentos de pedra, um defronte do outro, com meias cortinas de cambraia sempre corridas – pleonasmo de discrição que se não justificava, visto que as janelas, abrindo para a quinta, não tinham vizinhança de cujos olhares precisassem de recatar-se. O tecto era de almofadas de castanho, em tempos pintado de azul, agora de uma côr duvidosa. Havia quinze annos que D. Dorothéa falava em o mandar retocar, mas o projecto, momentoso como era, ia sendo adiado de primavera para primavera. Orlava a sala, no alto, um friso ou cornija saliente, onde coroadas maçãs de inverno aguardavam, em vistosa fileira, a completa maturação, e derramavam no aposento o mais agradavel aroma. O pavimento, apesar de muito picado de caruncho, andava limpo e escafunado– termo do vocabulario de casa – que mettia gôsto vêl-o. Cada parede era um museu de estampas de devoção. Poucos santos e santas da côrte celestial não estavam alli representados e com um colorido, que era o maior peccado, a que estes bemaventurados haviam dado logar cá no mundo.

Cá se via Santa Quiteria e as suas sete companheiras; Santa Anna ensinando Nossa Senhora a ler; o Senhor dos Passos, venerado em S. João Novo, no Porto; o Bom Jesus de Bouças, representação da imagem, que, segundo reza a respectiva chronica, é obra das mãos de José de Nicodemus; os Santos Martyres de Marrocos, da igreja de S. Francisco, etc., etc. Sobre a cómmoda de pau preto era devotamente venerado o mais rubicundo, menineiro e bem disposto Santo Antonio, que ainda modelaram as mãos de santeiro afamado. E seja dito de passagem que não sei por que a tradição popular dá a este austero franciscano o aspecto chorudo de um moderno reitor de farta abbadia de aldeia.

No interior da redoma onde se abrigava o santo estava estabelecido o museu de raridades da tia Dorothéa. Eram flores artificiaes, concharinhas e caramujos, um rosario de caroços de azeitonas, uns poucos de vintens de prata, enfiados e pendentes do braço do menino Jesus, que o santo sustentava ao collo, veronicas, escapularios, uma campainha benta, uma medida do braço do Senhor de Mattosinhos, um pão do sacco de Santa Isabel, que vae na procissão de Cinza, no Porto, e outros objectos curiosos.

A mobilia da sala consistia em cadeiras de palhinha, que gemiam quando entravam em serviço, como militar, cujas articulações o rheumatismo invadiu; mesas cobertas com colchas de chita; bahús cravados de pregaria amarella, disposta em lettras e arabescos; uma papeleira de pau santo, e uma gaiola com um canario decrepito, objecto, havia muitos annos, das tentações de um gato, mais decrepito do que elle e pertencente ás classes inactivas.

Henrique, adivinhando por todo aquelle cheiro de beatitude e de antiguidade que alli se respirava, os habitos da casa, sentia já certo desconfôrto, como de quem é arrancado de subito ao ambiente, em que se educou e vive, e engolfado n'um ambiente extranho; especie de asphyxia moral, não menos angustiosa do que a do peixe fóra da agua.

A saudade que ao principio sentira, dissipára-se já. O perfume da saudade é como o de certas flores, que só se percebe quando de longe o recebemos. Se, illudidos, as tentamos aspirar de perto, dissipa-se.

Acontecera isto com Henrique.

Cada vez portanto se lhe radicava mais funda a crença de que não seria por muito tempo que se demoraria alli.

– Os emollientes do doutor – pensava elle, emquanto sua tia falava – serão efficazes para quem os pudér soffrer sem enjôo, mas para mim…

No entretanto sentou-se.

– Ora o Henriquinho! – dizia ainda D. Dorothéa, pondo-se de braços cruzados em contemplação defronte d'elle. – Ó menino, onde foste tu arranjar esses bigodes tamanhos? Então isso agora usa-se?

Pergunta que sobremaneira embaraçou Henrique.

– Quem quer usar, usa, tia. Não é obrigação – respondeu elle, com leve mau humor.

– Em nome do Padre e do Filho! – dizia Maria de Jesus, benzendo-se e tomando logar ao lado da ama. – Até nem sei que parece, lembrar-se a gente que trouxe este marmanjão ao collo!

O termo «marmanjão» não soou bem a Henrique. Principiava tambem a impaciental-o o vêr as duas embasbacadas deante d'elle; um homem sujeito a uma exposição d'estas, por mais que faça, não atina com o modo de arrostar com ella, que não seja ridiculo. Ora Henrique, como todo o homem da sociedade, o que mais que tudo temia n'este mundo era o ridiculo.

Felizmente acudiu-lhe a caridosa intervenção da tia Dorothéa, que fez perceber á criada a conveniencia de ir preparando a ceia de Henrique, que havia de querer recolher-se. Henrique, apesar de não costumar cear, acceitou a ideia, porque o frio, as fadigas e a má alimentação dos ultimos dias, haviam-lhe desafiado o appetite. Demais, o espanto de D. Dorothéa, quando lhe ouviu dizer que as ceias não entravam nos seus habitos, foi tal que lhe tirou o animo de rejeitar.

– Não ceias! Ó menino, que me dizes? então vaes-te deitar sem ceia? Ora essa! Por isso vocês são uns pelens. Vejam lá que arranjo este! ficar toda a santa noite sem alguma coisa que dê sustento ao estomago, que aconchegue. Nada, nada; a ceinha em todo o caso. E tu has de tambem querer mudar de fato?

– Eu venho bastante molhado.

– Ai, então depressa, menino, que não ha nada peor do que a roupa molhada no corpo. Ó Maria… ou deixe estar, eu vou… Anda, Henriquinho, anda lá, que eu guio-te ao teu quarto para te arranjares.

Meia hora depois, Henrique banhado, enxugado e commodamente vestido, saboreava uma gorda gallinha de canja, sobre uma mesa coberta de toalha lavada, e na melhor louça da copeira.

Elle que tinha sempre severidades de critica contra os mais afamados cozinheiros de Lisboa, estava achando deliciosa aquella comida primitiva, com que o regalava a tia.

Esta sentou-se a vêl-o comer, e com a mesma familiaridade, que Henrique já anteriormente extranhára, Maria de Jesus sentou-se ao lado da ama.

Ambas tinham ceado já; pois que o faziam ao cerrar da noite.

Emquanto Henrique comia, ellas, sem deixarem de o observar com a natural curiosidade de quem havia tanto tempo não tivera um hospede, faziam-lhe perguntas, ás quaes elle ia respondendo conforme lhe era possivel.

– Tu dizias-me na tua carta que estavas doente; pois olha que na cara não o parece.

– Não – concordou a criada – tem boas côres, e, vamos, a magreza inda não é lá essas coisas.

Era este o ponto fraco de Henrique; respondeu logo ao reclamo.

– Não me digam isso! Então não vêem como estou? Pois isto é lá côr de saude? de febre, será. Gordo? pois acham-me gordo?!

– Gordo, não digo, mas assim, assim… E depois como vieste de jornada… Mas a final que molestia é a tua, menino?

– Eu sei lá, tia Dorothéa? Nem os medicos a conhecem bem. É, entre outras coisas, uma tristeza, uma melancolia, que me não deixa, que me persegue por toda a parte. Ás vezes parece-me que sinto apertar-se-me dolorosamente o coração; outras, são palpitações, ancias… Tenho quasi vontade de chorar, irrito-me, impaciento-me, não quero que me falem, nada quero vêr, nada quero ouvir; não leio, não durmo, não como. Finalmente todo eu sou doença e tristeza.

A boa tia Dorothéa olhava com sisudez e attenção para o sobrinho, emquanto elle falava, e na physionomia iam-se-lhe desenhando, ao ouvil-o, os mais expressivos signaes de espanto e consternação.

Assim que Henrique terminou a exposição, ella disse-lhe com uma adoravel candura:

– Então é assim uma especie de mania!

Á palavra «mania» Henrique sobresaltou-se. Seria a consciencia que se sentiu ferida?

– Mania? Ó tia Dorothéa! Mania! Veja bem, olhe que o termo é forte? Mania!

– Sim, menino – insistiu ingenuamente a boa senhora – pois olha que não é outra coisa. Pois isto de estar triste sem ter de quê… sim… porque não te morrendo ninguem, nem te doendo nada…

Ó poetas devaneiadores, ó almas melancolicas, que percebeis no sussurrar das brisas, no ciciar das folhas, no murmurar dos arroios, queixas occultas de dryades e de nayades, sentidas vibrações das harpas de fadas aereas, que vivem em palacios de nuvens; ó corações inoculados de poesia, que vos confrangeis e gottejaes lagrimas sinceras ao desmaiar do dia, ao desfolhar das arvores no outomno; poetas, que escutaes, com Victor Hugo, as vozes interiores, os cantos do crepusculo, e com elle adivinhaes os mysterios dos raios e das sombras, perdoae a involuntaria blasphemia da tia Dorothéa, que não contem o menor fermento de malicia; perdoae-lhe a dura expressão de que ella se serviu para caracterisar os vossos arroubamentos, as vossas tristezas vagas, os vossos devaneios, e crêde que, apesar da phrase, terieis n'ella uma alma mais afinada para sympathisar comvosco, do que tantas que por ahi fazem gala de vos comprehender melhor.

Henrique não podia porém digerir a expressão, de que se servira a tia, para diagnosticar o seu mal.

– Mania! – repetia elle – essa agora! Sempre é forte de mais. Mania, não, tia Dorothéa, lá isso não. Mania!

– Eu lhe digo – acudiu a criada. – Não vá sem resposta; que está quasi como o cunhado da Rosa do Bacello. A senhora não se lembra? Andou aquella alminha por ahi sempre triste, sempre a falar só, até que a final lá foi parar…

– Aonde? – perguntou Henrique, erguendo os olhos interrogadoramente para a criada.

– Lá foi parar a Rilhafolles – concluiu esta, espevitando a véla o mais naturalmente d'este mundo.

Henrique de Souzellas pulou com a sinceridade.

Nem acabou de sorver a ultima colhér de caldo de arroz, que lhe estava sabendo como nunca manjar lhe soubera.

– Então não comes mais? – perguntou a tia.

– Muito agradecido; eu o mais que tenho é somno.

– Pois sim, mas é preciso fazer por comer – insistiu ella.

– Ora vá mais este côxão – disse a criada.

– Não é possivel – teimou Henrique, e insistiu para se recolher ao quarto.

– Tens razão, tens – concordou a tia Dorothéa – deves estar fatigado. Vae com Nossa Senhora, menino. E deixa-te lá de pensar e estar triste, que isso não é bom. É fazer por espairecer. Come, bebe, passeia, que é o que dá saude. Nada de malucar.

– Sim – accrescentou a criada – e não queira estar doente, que não tem graça nenhuma.

– E olha, Henriquinho, tu tens por ahi com quem te podes distrahir. O brazileiro Seabra, que tem uma casa como um palacio; o Augustito do doutor, que é um bom mocinho. E depois vae dar um passeio por ahi, um dia até os moinhos outro dia até á ermida da Senhora da Saude. Agora me lembra: a Lenita já mandou ahi outra vez saber se tinha chegado o hospede – disse D. Dorothéa.

– Não foi só a morgadinha…

– Ahi está você a chamar-lhe tambem a morgadinha.

– Então, senhora?! isto é o costume. Mas todas as outras senhoras mandaram tambem o Torquato saber do sr. Henrique. A sr.a D. Victoria e a Christininha.

– Ai, pois cuidadosas são ellas! Tu has de te entender com aquella gente. É uma gente muito dada e sem ceremonia. É preciso lá ir. Olha, ámanhã podes ir visital-as. É um passeio bonito.

Henrique, que tinha estado distrahido durante a conversa das duas, nem se dava ao trabalho de intervir no dialogo em que ellas dispunham já do seu tempo e traçavam-lhe planos de vida.

– Mas vae descançar, menino, vae e faze por dormir. Olha lá, tu costumas dormir com luz?

– Não, tia, não costumo.

– É porque n'esse caso… Ó Maria, onde está aquella lamparina, que me serviu quando eu estive doente, ha seis annos?

– Está lá dentro, senhora; se a senhora quer eu…

– Vê lá, menino…

– Não tia, não quero.

– Ha pessoas que não podem dormir ás escuras – dizia a criada. – Eu, graças a Deus, durmo bem de qualquer fórma.

– Pois sim, mas nem todos são como você. Olha, ó Henriquinho, has de vêr se queres o travesseiro mais alto ou…

– Muito agradecido, tia Dorothéa, tudo deve estar bom – disse Henrique, procurando fugir ás muitas reflexões, perguntas e conselhos, com que as duas o iam perseguindo até o quarto.

– Olha, ó menino, tu bebes agua de noite?

– Ás vezes.

– Você poz-lhe agua no quarto, Maria?

– Puz, sim, minha senhora; pois então? Já minha mãezinha dizia, que antes sem luz do que sem agua.

– Bem, então está bom. Então muito boa noite, menino.

– Boa noite, tia.

– Ai, é verdade. Has de vêr se queres mais roupa na cama.

– Não hei de querer, não, tia.

– Olha que está muito frio. Você quantos cobertores lhe deitou, ó Maria?

– Cinco, senhora.

– Cinco! – exclamou Henrique, quasi horrorisado. – Cinco cobertores!

– É pouco?

– Pouco? – É de morrer esmagado debaixo d'elles.

– Ai, quer não! Olha que está muito frio.

– Bem, bem; eu cá me arranjarei.

– Então, muito boa noite.

– Muito boa noite, tia.

E Henrique ia a fechar a porta.

– Olha… – disse ainda a tia.

Henrique parou.

– Não sei o que é que me esquece…

– Não ha de ser nada, tia; boa noite.

– Não esquecerá?.. Eu sei?.. Emfim… boa noite. Ai, é verdade… Sempre é bom ficar com lumes promptos.

– Ai, sim; lá isso sempre é bom.

– Vês? não que bem me parecia.

– Já lá estão, senhora – disse a criada de longe.

– Melhor; então muito boa noite nos dê Nosso Senhor, menino.

– Muito boa noite, tia.

E Henrique conseguiu fechar a porta.

Estava finalmente só.

– Que desastrada lembrança a minha! – disse o pobre rapaz, ao fechar a porta sobre si. – Como posso eu viver com esta santa e virtuosa gente, que chama manias aos meus padecimentos? Que futuro de impertinencias me espera! Ai, Lisboa, Lisboa, e pensar eu que só posso voltar para ti á custa de outra jornada!

O quarto de Henrique era arranjado com simplicidade. Um alto leito de almofadas na cabeceira e rodapé de chita, tão alto que se não dispensava o auxilio de cadeira para trepar acima d'elle, uma commoda com um pequeno espelho, um bahú, um lavatorio e duas cadeiras mais, constituiam a mobilia toda.

Henrique de Souzellas sentiu a falta de mil pequenos objectos de toucador, a que estava habituado. Aquelle estrictamente necessario não lhe promettia grandes confortos.

Deitou-se. A roupa da cama era de linho alvissimo e respirava um asseio e frescura convidativos: os travesseiros, de largos folhos engommados, possuiam uma molleza agradavel ás faces; o colchão de pennas abatia-se suavemente sob o peso do corpo fatigado.

Henrique conchegou a roupa a si; á falta de velador, pousou o castiçal no travesseiro, e, abrindo um livro que trouxera de Lisboa, poz-se a ler, para obedecer a um habito adquirido.

Não teria ainda lido um quarto de pagina, quando ouviu a voz da tia Dorothéa, que lhe dizia de fóra da porta:

– Ó menino, tu já te deitaste?

– Já, sim, tia Dorothéa.

– Olha se tens cautela com a luz. Eu tenho um mêdo de fogos!

– Esteja descançada, tia. Eu apago já.

– Então será melhor. S. Marçal nos acuda.

E afastou-se, rezando ao santo.

Henrique continuou a ler.

D'ahi a pouco a mesma voz:

– Tu já dormes, Henriquinho?

– Não, tia, ainda não durmo.

– Olha que não vás adormecer sem apagar a luz. Eu tenho um mêdo de fogos! Não descanço, emquanto não vejo tudo apagado em casa.

Henrique perdeu a paciencia.

– Pois pode socegar, olhe.

E apagou a véla, meio zangado.

– Fizeste bem, fizeste bem; isto já é tarde, e é melhor fazer por dormir. Então, muito boas noites.

– Muito boas noites – respondeu Henrique quasi amuado; e ageitando-se na cama, dizia comsigo: – E esta! Já vejo que nem ler me é permittido aqui. Olhem que vida me espera! É isto o que me devia curar? Que fatalidade!

Dentro em pouco, os dois felpudos cobertores de papa, unicos que conservava dos cinco primitivos, começaram a fazer o seu effeito, insinuando nos membros cançados da jornada um agradavel calor. Convidavam ao somno o som da agua n'um tanque que ficava por debaixo das janellas do quarto e as gottas da chuva, que dos beiraes do telhado caíam compassadas na taboa do peitoril.

A noite socegára. De quando em quando apenas algumas lufadas de vento, já menos impetuosas, faziam bater as vidraças.

Eram como estes estados, que succedem a um choro aberto. Correm ainda algumas lagrimas nas faces, mas já não brotam novas dos olhos: saem ainda do peito os soluços, porém mais espaçados; dentro em pouco será completa a serenidade.

Henrique começou a experimentar uma languidez, um delicioso bem-estar n'aquelle confortavel leito e no meio d'aquelle socego; fecharam-se-lhe enfraquecidos os olhos, e deslisou suave, insensivelmente, no mais profundo, tranquillo e restaurador somno, que, havia muito tempo, tinha dormido.




III


Ao romper da manhã, quando a consciencia principia, pouco a pouco, a acudir aos sentidos, até então tomados pelo torpôr de um somno profundo, Henrique de Souzellas sonhava-se commodamente sentado em uma cadeira de S. Carlos, disposto a assistir ao desempenho de uma opera favorita.

Moviam-se os arcos nas cordas dos violinos, violoncellos e contrabassos; sopravam, a plena bôca, os tocadores dos instrumentos de vento; agitavam descompostamente os braços os ruidosos timbaleiros; dedos amestrados faziam vibrar as cordas da harpa; a batuta do mestre fendia airosamente os ares, e comtudo não chegava aos ouvidos de Henrique, de toda esta riqueza de instrumentação, mais do que uma nota unica, arrastada, continua, plangente, baixando e subindo na escala dos tons, e sem formar uma só phrase musical.

Era de desesperar um dilettante como elle; torcia-se na cadeira, inclinava convenientemente a cabeça, fazia das mãos cornetas acusticas, e sempre o mesmo resultado!

Este violento estado de attenção, este esforço do sensorio, principiou n'elle a obra de despertar; principiou pois pelos ouvidos, mas cêdo se transmittiu a todos os outros orgãos.

Antes de dar a si proprio conta do que era aquelle som, e quasi esquecido ainda do logar em que estava, Henrique abriu os olhos.

A luz do dia penetrava já pelas frestas mal vedadas das janellas e espalhava no aposento uma tenue claridade.

Veio então a Henrique a consciencia do logar em que estava, e uma alegria profunda lhe dilatou o coração.

O leitor se ainda não padeceu de insomnias, de pesadêlos, ou de somnos febris, não avalia por certo o contentamento intimo, que se apossa das desgraçadas victimas d'esses demonios nocturnos, quando por excepção elles as deixam em paz, e lhes respeitam o somno de uma noite completa. Acordar só aos raios da aurora é um dos mais ineffaveis prazeres, a que elles aspiram na vida.

Penetra-lhes então nos membros um insolito vigor; a arca do peito expande-se-lhes mais livre e as sombras do espirito dissipam-se-lhes com aquelle clarão matinal.

Foi o que succedeu a Henrique. Pela primeira vez depois de muitos mezes, dormira de um somno a noite inteira.

Sentia-se com isto tão bom, tão vigoroso, tão contente que teve vontade de cantar.

Mas o som, que o acordára, aquella nota unica, em que se confundiam todas as notas da sonhada orchestra, ainda lhe soava aos ouvidos.

Prestando-lhe a attenção de acordado, conheceu que era o chiar dos carros – o mesmo som, que na vespera o irritára, agora assim a distancia, estava-lhe agradando, como nota extrahida por mão habil das cordas de um violino.

Não resistiu mais tempo ao impulso que n'aquella manhã o incitava ao exercicio, rara disposição no indolente filho da capital, que tinha por habito ouvir o meio dia na cama.

Ergueu-se e abriu as janellas.

Não é licita a comparação entre a mais surprehendente transmutação de uma d'essas apparatosas magicas, que tanto extasiam as multidões embasbacadas nas plateias e camarotes de um theatro, e as que de instante para instante, realisa a natureza. Descerrando o véo de nuvens que encobre o fulgor do sol, elevando, acima do horizonte, esse magestoso lampadario do mundo, ou o brilhante reflectidor que illumina as noites desanuviadas, a natureza opéra, a cada momento, as mais admiraveis e completas metamorphoses.

Durante o somno de Henrique realisára-se um d'esses effeitos magicos.

Abrandára gradualmente a violencia do sul; o vento, mudando, voltou em sentido opposto a grimpa do campanario; dispersaram-se as nuvens; luziram trémulas por momentos as estrellas, empallideceram perante o alvor do dia, e quando o sol assomou por sobre a crista das serras, estendia-se-lhe deante um vasto manto azul, tapetando a estrada, que tinha a percorrer. Só, muito para o occidente, ainda algumas nuvens amontoadas formavam uma como franja, que o astro nascente em breve tingiu de carmim e de ouro.

Foi pois a luz de um dia esplendido e a brisa, cheia de aromas, que vem dos campos nas alvoradas serenas que penetraram no quarto de Henrique, quando elle abriu as janellas.

A inesperada surpreza quasi lhe soltava do peito uma exclamação de prazer!

A aldeia, aquella mesma aldeia, escura e triste que, com o coração apertado, atravessára na vespera, parecia outra.

O sol da manhã baixára sobre ella, dissipára-lhe as sombras, colorira-lhe as verduras, reflectira-se-lhe nas presas, dispersára-se em iris cambiantes na espuma das torrentes e cascatas naturaes, perfumára-a de aromas, animára-a de cantos, transformára-a emfim na mais risonha paizagem, em que os olhos de Henrique, pouco habituados ás esplendidas galas do Minho, tinham nunca repousado.

O inverno despojára parte d'essas galas; embora! Até da propria nudez de algumas arvores resultavam encantos. As folhas crestadas, os ramos despidos, as moitas sem flores infundem tristeza; mas não tem a tristeza poesia tambem? Pode haver completa paizagem onde não haja uns tons escuros de melancolia?

Henrique de Souzellas, debruçado na varanda de pedra do quarto, não se cançava de admirar aquella scena.

Parecia-lhe estar assistindo a um milagre de fadas, que, n'um momento, elevam, nos ermos, jardins e paços, como os de Armida e Alcina.

Pois era esta a mesma aldeia, através da qual elle cavalgára de noite?

Os accidentes do terreno, aquelles accidentes, que tão do fundo da alma amaldiçoára na vespera, produziam, vistos então d'alli, os mais pittorescos effeitos. Abatia-se-lhe aos pés um não muito profundo valle, opulento em vegetação, e que a certa distancia se continuava insensivel e gradualmente com uma amenissima collina.

Além, um bello bosque de carvalhos seculares, que o inverno, privando-os de folhas, tingira quasi da côr da violeta, contrastava com a fronde sempre verde das laranjeiras nos pomares vizinhos, fronde por entre a qual se divisavam abundantes os dourados fructos, poupados pela mão do lavrador. As copas, como umbelladas dos pinheiros mansos, desenhavam nas encostas e eminencias fronteiras as mais suaves ondulações. Dispersos aqui e alli, e entremeiados com a verdura, grupos de casas campestres, alvejantes á luz do sol, moinhos e azenhas, noras toldadas de ramadas conicas, eiras, pontes rusticas, as mesmas talvez que com mau humor trilhára na vespera, tão sinistras então, como graciosas agora; extensas e virentes campinas e lameiros, onde pastavam numerosas manadas de gado. Mais longe a igreja com a sua alameda á entrada e o cemiterio, onde um só mausoléo avultava ainda; uma ou outra casa apalaçada, ennegrecida pelo tempo; algumas ruinas, consolidadas pelas heras, revestidas de musgos, douradas de lichens; finalmente, tudo o que tenta os paizagistas, tudo o que exalça os poetas, tudo quanto suspende os passos ao viajante; e, encobrindo todo o quadro, um tenuissimo sendal de vapores azulados, dando-lhe a apparencia de uma das mimosas composições a pastel da mão de Pillement.

A mudança de aspecto da scena operou não menor mudança nos sentimentos e disposição do enlevado espectador que das varandas de Alvapenha a estava observando.

– É preciso sair! é preciso sair! – disse Henrique comsigo. – Quero vêr isto de perto; quero entranhar-me n'estes bosques, quero trepar por aquelles montes, debruçar-me d'aquellas ribanceiras.

E vestindo-se á pressa, e sem sentir a necessidade de uma escrupulosa toilette, saiu do quarto.

Encontrou nos corredores a tia Dorothéa, que o saudou amavelmente.

– Muito bons dias, menino, então como passaste tu a noite?

– Deliciosamente minha querida tia – respondeu elle, abraçando-a com maior affecto e bom humor do que na vespera.

O que é sentir-se a gente bem!

– Então não estranhaste?

– Estranhei immenso!

– Sim?! – disse a tia, mortificada.

– Dormi a noite de um somno, e acordei bem disposto; o que para mim é a mais estranha das occorrencias.

A tia sorriu satisfeita.

– Pois antes assim. E agora…

– E agora quero sair, quero vêr esta terra, que me está parecendo um paraiso terreal.

– Espera, menino. Não vás sem almoçar.

– Almoçar! Pois que horas são?

– Não é cêdo; são já sete horas.

– Já sete horas!

E Henrique insensivelmente desviou os olhos para a janella, para vêr como era a natureza, a uma hora a que raras vezes a examinava.

– E então acha que se pode almoçar ás sete horas?

– Por que não? Se está já prompto.

– Bom; almocemos. O doutor disse-me que tomasse os habitos da aldeia. Principiemos por este.

Entrando para a sala do jantar, Henrique viu deante de si uma taça de leite espumante, tépido, odorifero, extrahido de pouco tempo.

Foi por elle que principiou o almoço.

Pela primeira vez na sua vida disse elle ter bebido o leite verdadeiro, o leite que não faz mentir a analyse dos chimicos, de que os physiologistas exaltam as qualidades nutritivas, de que os poetas das georgicas cantam as delicias e virtudes; só agora os comprehendeu elle, que bem differente d'aquillo era o aguado e quantas vezes derrancado sôro, a que estava habituado na cidade.

D. Dorothéa, almoçando, e Maria de Jesus, servindo, falaram, segundo o costume, continuadamente.

Henrique, d'esta vez, falou tanto como ellas.

Ouvia-as já com mais attenção e respondia-lhes com mais vontade e paciencia.

Falaram em muitas coisas.

A tia deu parte ao sobrinho de que varias pessoas da vizinhança, sabendo-o chegado, lhe tinham mandado presentes de gallinhas, offerecendo-se, ao mesmo tempo, para lhe mostrarem as raridades da terra; disse mais que as senhoras da quinta do Mosteiro tambem tinham já mandado saber d'elle, Henrique, e lembrou que seria delicado ir visital-as aquella manhã.

Henrique concordou em tudo, quasi sem reparar em quê, e terminando o almoço apressou-se a sair para o campo.

– E se te perdes, menino? – lembrou a tia.

– Se me perder, farei por achar-me.

Riram-se muito as boas mulheres e deixaram-o ir.

Dentro em pouco, Henrique atravessava a quinta, que tambem então lhe parecia graciosa, de uma graça bucolica, a que não estava habituado. O aspecto melancolico da vespera desvanecera-se. Até para ser completa a mudança, estavam encadeados nas casotas o Lobo e o Tyranno, cujas boas graças comtudo procurou conquistar, atirando-lhes biscoutos.

Foi um passeio delicioso o que elle deu. Tudo quanto via lhe era novidade, tudo lhe captivava a attenção e o distrahia dos seus lugubres pensamentos.

Depois de muito andar, de subir collinas, de descer valles e costear ribeiros, foi sair a um pequeno largo, ao fim do qual havia uma casa terrea, caiada de branco, com portas verdes e janellas envidraçadas, sendo os vidros em alguns dos caixilhos substituidos por papel. Á porta d'esta casa estava muita gente parada; mulheres, velhos, moços, creanças, uns sentados, outros deitados, outros a pé e encostados á umbreira, e todos apparentemente aguardando alguma coisa ou alguem do lado de uma das ruas, que vinha terminar no largo, e para a qual se dirigiam todos os olhares.

Henrique approximou-se d'esta casa com alguma curiosidade, que cêdo satisfez, vendo em uma taboleta, suspensa no alto da janella, a seguinte pomposa inscripção: «Repartição do correio», e, como a confirmar o distico, um córte feito na porta para a recepção das cartas.

Lembrando-se da conveniencia de avisar o empregado do correio para lhe serem remettidas a Alvapenha as cartas que lhe viessem de Lisboa, Henrique entrou na repartição.

Consistia esta n'uma loja apenas, mobilada com um banco de pinho e dividida por um mostrador, para dentro do qual se alojava todo o pessoal do serviço, isto é, um homem por junto; e era este o sr. Bento Pertunhas, personagem importante na terra, e a cuja intelligencia e solicitude estavam confiadas mais do que uma funcção. Além de servir, em interinidade permanente, como muitas vezes são as interinidades do nosso paiz, este cargo, dito por elle, de «director do correio», estava de posse s. s.a de uma das cadeiras de latim e de latinidade, com que se procura em Portugal fomentar nos concelhos ruraes o gôsto pelas lettras antigas; era ainda regente e director da philarmonica da terra, armador de igreja em dias festivos, ensaiador de autos e entremezes populares, e, quando Deus queria, auctor de alguns tambem.

Vendo entrar Henrique nos seus dominios, o illustre funccionario tirou cortezmente o seu bonnet de pelle de lontra e ergueu-se da banca para cumprimentar tão honrosa visita. Nos cumprimentos que formulou disse o nome de Henrique.

Admirado por ser já conhecido, Henrique interrogou o latinista e, achando-o muito informado de tudo quanto lhe dizia respeito, convenceu-se de que estava na presença de um esmerilhador de vidas alheias do mais fino quilate e de um falador de assustar.

Com o fim de cortar a divagação, em que o homem entrára a respeito de certa viagem que fizera a Lisboa, perguntou-lhe Henrique se o correio não chegára ainda.

– Saiba v. s.a que ainda não – respondeu o sr. Bento Pertunhas – mas não deve tardar; o homem que d'aqui vae buscar as malas á villa, se bem andasse, já cá podia estar. Esse formigueiro de gente, que v. s.a ahi vê á porta, está á espera d'elle. Hoje então, que chegam as cartas do Brazil, ninguem pára com este povo. Dão-me cabo da paciencia. Isto é um inferno! Eu sirvo este logar interinamente, emquanto o empregado está paralytico; porque eu tenho outro cargo publico; sou professor de latinidade.

– Ah!..

– É verdade, mas a minha vocação era para as artes. Meu pae queria que eu fôsse padre e mandou-me ensinar latim; mas já então a minha paixão era a musica. Eu ainda queria que v. s.a me ouvisse tocar trompa, que é o instrumento que mais tenho estudado… Se v. s.a se demorar ha de fazer-me o favor…

– Com muito gôsto.

– Não poder um homem seguir no mundo a sua vocação!

– Ainda assim não se pode queixar muito. O cultivo das lettras latinas deve-lhe proporcionar gosos; porque emfim para quem possue instinctos de arte, a leitura dos poetas já é um lenitivo contra as agruras da vida.

O mestre Pertunhas fitou Henrique com olhos muito abertos.

– Os poetas? Os poetas latinos! Ora essa! Então parece-lhe que pode achar-se gôsto em lêl-os? Ai, meu caro senhor, eu por mim tenho-lhe uma vontade!.. O latim!.. a mais destemperada e desesperadora lingua que se tem falado no mundo! Se é que se falou – accrescentou em voz baixa.

– Então duvida que se falasse latim? – perguntou Henrique, sorrindo.

– Eu duvido. Não sei como os homens se podessem entender com aquella endiabrada contradança de palavras, com aquella desafinação que faz dar volta ao juizo de uma pessoa. Sabe o senhor o que é uma casa desarranjada, onde ninguem se lembra onde tem as suas coisas quando precisa d'ellas e passa o tempo todo a procural-as? Pois é o que é o latim. Abre a gente um livro e põe-se a traduzir e vae dizendo: «As armas, o homem e eu, canto, de Troia, e primeiro, das praias.» Quem percebe isto! Ora agora peguem n'estas palavras e em outras, que elles punham ás vezes em casa do diabo, e façam uma coisa que se entenda! É quasi uma adivinha. Ora adeus! E depois – continuou elle, enthusiasmado com o riso de Henrique, suppondo-o de approvação – e depois as differentes maneiras de chamar a um objecto? Isso tambem tem graça. Nós cá dizemos por exemplo: «reino e reinos» e está acabado; lá não senhor; diz-se regnum e regna e regni e regno e regnis e até regnorum. Ora venham-me cá elogiar a tal lingua!

Henrique estava achando delicioso o odio entranhado de mestre Bento Pertunhas á latinidade que ensinava com a proficiencia, que o leitor pode imaginar, depois do que ouviu.

– Ai, meu caro senhor – continuou o atribulado magister– eu se me vejo um dia livre d'este amaldiçoado latim, faço uma fogueira, na qual me hei de regalar de vêr arder o Tito Livio e os Virgilios todos tres.

É de advertir que mestre Bento falava sempre no plural, ao referir-se a Virgilio.

Quer-me parecer que para este interprete da litteratura latina tinham de facto existido tres Virgilios, provavelmente irmãos, e cada um auctor de cada um dos tres volumes da edição, que lhe servia de texto. Dizia Virgilio 1.º, 2.º e 3.º, como quem se refere aos monarchas homonymos, que succederam n'um mesmo reino.

– Não me salvo se morro mestre de latim – proseguia elle. – Afunda-me no inferno o trambolho da syntaxe.

Ia continuar, quando toda a gente, que Henrique viu fóra da porta, principiou em desordenada azafama a entrar para a loja, que em breve não comportava mais ninguem.

– Ahi vem o homem, sr. Pertunhas; ahi vem. Graças a Deus, que ahi vem! – diziam todos á uma.

O funccionario principiou a impacientar-se.

– Então! então! Por onde ha de elle entrar, fazem favor de me dizer? Saiam, saiam. Não ouvem? Então não fazem caso das minhas ordens? Dêem logar. Não vêem que estão molestando este senhor?

Cada um dos reprehendidos n'estes termos indignava-se, ao vêr que os outros não obedeciam ás ordens, mas, pela sua parte, não cedia um passo, como se lhe valesse algum especial privilegio.

– Saia você, mulher – dizia um.

– E você por que não sae? Olha agora!

– A todos ha de chegar a vez. Descance. Se tiver carta lh'a darão. Lá por estar aqui não é que…

– Pois então saia tambem. Ora essa!

– Ó santinha, não empurre.

– Ó filho, quem é que lhe faz mal?

– Por onde é que se quer metter, homem de Deus?

– Eu não sou menos que os outros.

– Que quereis vós d'aqui, canalhada?

– Não bata, que ninguem lhe tocou, seu velhote.

– Espera que eu te falo.

Estas e analogas vozes abafavam n'um rumor tumultuoso as agudas declamações do «director do correio», o qual obrigou Henrique a passar para dentro da teia, para se salvar das ondas populares.

Henrique estava achando igualmente curiosa a indignação do homem e a alvoroçada anciedade do povo.

Ha de facto poucas scenas tão animadas, como a da chegada do correio e da distribuição das cartas em uma terra pequena. Durante a leitura dos sobrescriptos, feita em voz alta pelo empregado respectivo, um observador, que estude attento as impressões que essa leitura opéra nos semblantes dos que ávidos a escutam, como que vê levantar-se uma ponta de cortina, corrida a occultar-nos as scenas da comedia ou da tragedia da vida de cada um.

Que hora de commoções aquella, em que se abrem as malas, onde veem encerrados porventura os destinos de tantas pobres familias! Quantas vezes verdadeira boceta de Pandora, d'onde se espalham as desgraças e os pezares!

Nas grandes cidades dispersam-se estas commoções; passam-se no recato dos gabinetes de cada um. Lembrem-se porém das vezes, em que teem segurado com mão trémula na correspondencia, que o correio lhes traz; no anciar do coração com que lhe rasgam o sêllo; nas lagrimas ou sorrisos com que lhe interrompem a leitura; no irresistivel movimento de desespero com que a amarrotam depois, ou nas expansões apaixonadas com que beijaram o nome que a subscreve; lembrem-se d'isso, multipliquem depois esses affectos todos, despojem-os das reservas que a etiqueta impõe ás classes mais civilisadas, façam-os manifestarem-se n'um mesmo momento e n'um mesmo logar, e digam se concebem muitas outras scenas, em que mais sentimentos e paixões se agitem em lucta travada.

Chegou emfim o homem das cartas, e a custo conseguiu romper até ao mostrador, onde pousou a mala. O «director», depois de tossir, de assoar-se, de suspirar e de limpar os oculos com umas delongas, que formavam com a anciedade do povo um contraste desesperador, abriu fleugmaticamente o sacco, extrahiu um não muito volumoso masso de cartas, que despejou n'um cesto de vime, e tomou apontamentos.

Era digno do pincel de um artista aquelle grupo de physionomias, que seguiam ávidas todos os movimentos de mestre Bento. Olhos e bôcas abertas, mãos juntas, pescoços estendidos, a cabeça inclinada para receber o menor som, tudo caracterisava profundamente a anciedade que lhes dominava os animos.

Mestre Bento Pertunhas achou a occasião apropriada para dizer a Henrique:

– Pois, senhor, eu nasci para artista. Quasi sem mestre aprendi a tocar trompa e, não é por me gabar, mas prezo-me de tocar com certo mimo e expressão.

Henrique volveu o olhar para o auditorio; apiedou-o a consternação d'aquellas physionomias. Resolveu valer-lhe.

– Tem a bondade de vêr se ha alguma carta para mim?

– Ah! pois já as espera hoje?

– Não é provavel; porém…

Mestre Bento Pertunhas, em vista d'isto, começou em voz lenta e fanhosa a leitura dos sobrescriptos.

Seguiu-se novo e não menos interessante espectaculo.

A cada nome proferido, erguia-se quasi sempre uma voz, ás vezes um grito; estendia-se por cima das cabeças um braço, e, podemos accrescentar ainda que se não visse, alvorotava-se um coração.

Outros, os não nomeados ainda, olhavam com anciedade para o masso, que diminuia, e cada vez mais se lhes assombrava o semblante.

– Luiza Escolastica, do logar dos Cójos – lia mestre Pertunhas.

– Sou eu, senhor, sou eu; ai, o meu rico homem! – exclamou uma mulher joven, apoderando-se ávidamente da carta.

– Joanna Pedrosa, de Serzedo – continuava elle.

– Aqui estou; será do meu Antonio, senhor? – disse uma velha, pobremente vestida.

– Será do seu Antonio, será – respondeu o insensivel funccionario; – o que lhe posso dizer é que traz obreia preta.

A mulher, que já tremia ao receber a carta, deixou-a cair, ouvindo aquellas sinistras palavras. Apanharam-lh'a; e ella, tomando-a, saiu da loja, a chorar lastimosamente.

– Se foi o filho que lhe morreu, não sei o que ha de ser d'ella – disse um dos circumstantes.

– Coisas do mundo! – respondeu outro.

Estes commentarios foram interrompidos pela continuação da leitura.

– João Carrasqueiro.

– Prompto, senhor – bradou um velho.

– A mezada, hein? – disse Bento Pertunhas, fitando-o por cima dos oculos. – O rapaz não se esquece.

– Deus Nosso Senhor o ajude, que bem bom filho tem saido.

– D. Magdalena Adelaide de…

– É a morgadinha, é a morgadinha – disseram a um tempo muitas vozes.

– Agradecido pela novidade; era cá muito precisa a explicação – disse o Pertunhas: e passando a carta para uma mulher, que era a encarregada de fazer a distribuição a quem a podia gratificar, accrescentou:

– Leve-lh'a a casa.

E proseguiu:

– Augusto Gabriel…

– É o mestre-escola…

– Ora fazem o favor de estar calados! Esta… como elle vem por aqui… pode ficar… ainda que… será melhor levar-lh'a a casa, leve, leve tambem…

– João Cancella.

– É o João Herodes.

– Esse foi a Lisboa.

– Então, quando vier, que appareça.

– O tio Zé P'reira ficou de receber as cartas. É compadre d'elle.

– Eu não quero saber de compadrices. O tio Zé P'reira que se occupe com o seu zabumba e deixe lá os outros.

A leitura mais ou menos acompanhada d'estes dialogos proseguiu, redobrando de momento para momento a anciedade dos que iam ficando. Um fundo suspiro, unisono, melancolico, expressivo de desalento, seguiu-se á leitura do ultimo nome e ás poucas palavras, com que o funccionario fechou a tarefa.

– E acabou-se.

Os que ainda estavam na loja sairam cabisbaixos, morosos e com tão má vontade, como se ainda tivessem esperança de commover a inexoravel sorte.

Henrique, ficando só com Bento Pertunhas, teve de lhe escutar ainda, por muito tempo, a narração dos seus passados triumphos artisticos, das suas amarguras presentes no magisterio, e das suas esperanças em melhoramentos futuros. Entre as ambições mais inquietas do mestre, a de obter o logar de recebedor de comarca, proximo a vagar por a morte imminente do respectivo empregado, figurava em primeira linha.

Depois de varias tentativas, Henrique conseguiu deixar o seu interlocutor, e continuou o passeio que este episodio interrompera, tão satisfeito e distrahido, que nem apprehensões lhe causava a ideia de trazer as botas humedecidas pelas hervas do caminho, ideia que, em outra occasião, bastaria para o fazer doente.

Ladeava elle um campo, cingido de altas silvas, a procurar saida para a deveza, da qual um fundo vallado o separava, quando lhe pareceu ouvir um rumor de vozes, como de alguem, que conversasse perto d'alli.

Parou a certificar-se.

Não se enganára. Era do outro lado da sebe, e na deveza, para onde tentava passar, que se estava falando.

Espreitou por entre as folhas do silvado que o encobria, e viu uma scena, que lhe moveu a curiosidade.

Um grupo de creanças e de mulheres do povo escutavam em pleno ar e com religiosa attenção, a leitura que uma senhora joven e elegante lhes fazia das cartas, que ellas para esse fim lhe davam. A senhora estava montada, não como romantica amazona, em hacanêa fogosa, mas modesta e simplesmente n'um digno exemplar d'aquelles pacificos animaes, a que Sterne não duvidou dedicar algumas palavras de sympathia nas suas paginas mais humoristicas, e que Pelletan incluiu entre os collaboradores da humanidade na grande obra do progresso, ou, deixando a periphrase, em uma possante e bem apparelhada jumenta.

Á roda as ouvintes encostavam-se com familiaridade ás ancas e ao pescoço do immovel quadrupede.

A leitora segurava no collo a mais pequena e a mais nua das creanças do rancho.

Lia com voz agradavel e sonora; e, graças á serenidade da manhã e ao socego do logar, ouviam-se distinctas, á distancia que ficava Henrique, as palavras, que ella pronunciava lentamente, como para as deixar penetrar bem na intelligencia do auditorio.

Henrique reconheceu muita d'esta pobre gente, por a mesma que, momentos antes, vira na casa do correio.

Mas as suas attenções voltaram-se com especialidade para a leitora.

Era uma mulher muito nova ainda. Uma graciosa figura de mulher, suave, elegante, distincta, um d'esses typos que insensivelmente desenha uma mão de artista, quando movida ao grado da livre phantasia; a côr, essa côr inimitavel, onde nunca dominam as rosas, mas que não é bem o desmaiado das pallidas, encarnação surprehendente, a que ainda não ouvi dar nome apropriado.

Os cabellos em fartas tranças, em ondas naturaes, não de todo pretos, porém, mais distinctos ainda dos louros; a estatura esbelta, sem ser alta, o corpo flexivel, sem ser languido; um vulto de fada, emfim, com a magestade, com a graça que deviam ter estas creações da poesia popular, se fôsse certo tomarem a fórma de virgens, para matar de amores.

Não se concebe attenção tão distrahida, que esta mulher não fixasse; olhos, que se não voltassem para seguil-a, depois de a vêr passar; coração, que não se perturbasse na sua presença.

Trajava um singelo vestido de xadrez branco e preto, adornado no collo e punhos apenas por collarinhos lisos. Descaía-lhe natural e elegantemente dos hombros um chale de casimira escura, sem lhe occultar as bellezas da airosa conformação; o chapéo de palha de largas abas, cobrindo-lhe a cabeça, espalhava pelo rosto as meias tintas, tão favoraveis ás bellezas delicadas.

Henrique comprehendeu logo a significação da scena, a que, tão inesperadamente, viera assistir. Aquella mulher parára alli, para ler a essa gente pobre e ignorante, as cartas que haviam recebido do correio.

Tambem era caridade a acção, muito mais cumprida com o bom modo e com o carinho com que ella o fazia.

Henrique applicou a attenção.

– …«E por isso, minha mãe» – lia ella – «se Deus me ajudar, espero dentro em pouco ir a essa terra e darei remedio a tudo. E não me fale vossemecê mais em vender o cordão e as arrecadas. Diga ao senhorio que tenha paciencia, que eu satisfarei a tudo.»

Aqui a leitora parou para perguntar:

– Então que historia é esta das arrecadas, Anna?

– É, senhora, que o aluguer estava vencido…

– E não podia falar-me antes de se lembrar do seu filho?

– Ora, senhora, bem basta o que…

– Fez mal. Estar a affligil-o com estas coisas! Elle que precisa de toda a coragem!

E continuou a ler a carta, no meio das lagrimas e das expansões de alegria da ouvinte, mais interessada n'ella.

Acabando, deu um beijo na creança, que tinha ao collo, e estendeu a mão a receber a carta, que outra mulher do grupo lhe passou. Esta era menos de consolar. Não se falava alli senão de contratempos, de revezes e desesperanças. Mais do que uma vez teve de suspender a leitura, para mitigar a dôr e enxugar as lagrimas, que ella estava produzindo na pobre mulher, a quem era dirigida.

Após esta, ainda outra e outra; uma do marido para mulher; outra de filho para mãe; outra de noivo para noiva.

Foi com o riso nos labios e inoffensiva malicia nas inflexões da voz e no olhar, que ella decifrou os mal legiveis caracteres, com que em papel bordado, pintado e recortado, vinham expressos os mais arrebicados conceitos amorosos, que ainda dictou uma paixão.

A noiva córava, sorria; mas, no meio da sua modesta turbação, era evidente que estava exultando de jubilo.

Com esta terminou a leitura.

Henrique não resistiu a esboçar rapidamente o gracioso grupo na carteira, que trazia comsigo. Não pôde, porém, deixar de dar-lhe um sabor de idade média, substituindo a jumenta por um palafrem de pura raça e dando á donzella, pelos trajes com que a desenhou, os ares de uma castellã rodeada dos seus vassallos.

Não lhe bastou o natural do quadro, quiz revestil-o de um figurino de convenção. Perdôe-lhe a arte, que julgou servir.

Depois de distribuir mais alguns beijos pelas creanças, a gentil rapariga passou a que tinha no collo para os braços da mãe e partiu rodeada de agradecimentos e bençãos, perdendo-a Henrique de vista, por entre as arvores do caminho.

Aquelle typo delicado de mulher, aquella singeleza do apurado gôsto, em que não podiam enganar-se olhos conhecedores, como os d'elle, aquella preciosa perola alli na aldeia! em uma terra para chegar á qual era necessario fazer uma comprida e laboriosa jornada! D'onde viera ella e como? que nuvem a trouxera? que viração a transportára?

Em tudo isto ficou a pensar Henrique, e quando se lembrou de que podia, para esclarecer-se, interrogar alguem do grupo, já não ia a tempo; tinham dispersado.

Conseguiu finalmente passar para a deveza, e foi sentar-se no logar, em que lhe apparecera a visão e ahi se demorou algum tempo; mas lembrando-se de que eram quasi onze horas, levantou-se para não faltar ás promessas feitas á tia Dorothéa, e que eram: a de visitar as senhoras do Mosteiro e a de estar em casa pouco depois do meio dia, para não transtornar a regularidade dos habitos domesticos em Alvapenha.

Pediu pois a uma creancinha que passava, que o guiasse á quinta do Mosteiro, e ahi chegou depois de um quarto de hora de caminho.




IV


A casa do Mosteiro, com a quinta annexa á casa, como o dava a entender o nome, pelo qual o povo a conhecia, tinha pertencido em tempo a uma ordem monastica.

Era um d'estes conventos campestres, que hoje ou se encontram em ruinas ou transformados em solar de alguma notabilidade provinciana. Ao de que falamos coubera o ultimo destino.

Incluido, depois do acto dictatorial de 1834, na lista dos bens nacionaes, fôra, por insignificante preço, vendido a um modesto proprietario das immediações, mais arrojado do que os vizinhos, ou mais convencido da estabilidade da nova ordem de coisas politicas, que se inaugurava no paiz.

E em tão auspiciosa hora lhe acudira aquella inspiração, que, em pouco tempo, lhe restituia a quinta o capital empregado, regalando-o todos os annos com não calculados juros, e elle, sem intermittencias, cresceu d'ahi por deante em prosperidade a ponto de deixar, ao morrer, a familia no numero das mais abastadas d'aquella terra.

A propriedade do Mosteiro, apesar de varios melhoramentos e reformas effectuados n'ella, offerecia, ainda claros, muitos vestigios de seus primitivos usos. Não era raro encontrar-se, aqui e alli, em pé uma cruz de pedra marcando antigos logares de devoção; no alto de algumas portas conservava-se visivel o emblema e divisa da ordem, ou restos de inscripções latinas; nas paredes da arcaria, em que se apoiava a face posterior do edificio, mantinha-se ainda um azulejo contemporaneo dos frades; finalmente resistira a successivas reformações certo colorido monastico, que só após muitos annos se dissiparia de todo.

Entrava-se para a propriedade por uma larga, comprida e magestosa álea de sobreiros seculares, alcatifada de relva, que, sobretudo dos lados, por pouco trilhada, crescia espêssa e verdejante. Abria-se, ao fim d'esta rua, o alto portão do pateo.

Henrique, deixado só pelo guia ao chegar alli, foi caminhando vagarosamente por esta avenida, dominado por a intima commoção e sentimento quasi de temor, que se apodera de nós, em todos os logares a que se ligam memorias do passado.

A phantasia estava-o transportando a tempos, a que não chegavam já as suas recordações, ás épocas, em que, por entre estas arvores gigantes, se via passar, como um phantasma, o habito escuro do monge, cuja sombra o sol, ao declinar no horizonte, tantas vezes projectou, esguia e estirada, ao longo d'aquella mesma avenida.

Impressionado por esta ordem de pensamentos, chegou Henrique ao portão, transpondo o qual se introduziu no pateo. Era um largo terreiro de perfeita fórma rectangular, limitado ao fundo pela fachada da casa, e lateralmente por elevadas paredes, armadas á maneira de pannos de Arrás, com tapeçarias de vigorosas heras. A cada uma das paredes encostavam-se dois tanques de vasta capacidade.

No tempo dos frades vomitavam, sem cessar, as feias e enormes carrancas de todos estes quatro tanques grossos jorros de fresca e purissima agua; porém as medidas economicas do ultimo proprietario e as exigencias dos seus projectos agricolas haviam derivado para outros fins, parte d'esta abundante veia, de maneira que tres d'aquellas bacias estavam agora completamente a sêcco.

Os fetos de folhas recortadas, as pegajosas parietarias, os funchos odoriferos, havia muito que tinham invadido a bôca dos encanamentos inuteis onde encontravam asylo imperturbado lagartos, aranhas e myriapodes, e se estabeleciam pacificas colonias de caracoes.

A fachada do ex-mosteiro nada tinha de notavel pelo lado architectonico. A arte não tivera fadigas, ao concebel-a; o cinzel pouco se embotára a executal-a; nem uma columna singela, nem um florão, nem um tympano lhe davam a menos pretenciosa apparencia monumental. Imagine-se uma vasta casaria de um andar além do terreo, com muitas janellas de peitoril e uma só varanda de pedra sobranceira á porta principal; acima do telhado, uma especie de agua furtada, de construcção evidentemente posterior e aconselhada aos proprietarios modernos por conveniencias de accommodação domestica; e ter-se-ha concebido o edificio.

Emquanto Henrique se occupava a examinar estas particularidades, um velhito, que, sentado em um banco de pedra, que havia á porta de casa, se estava aquecendo ao sol, ergueu-se e veio ao encontro do recem-chegado, tossindo e arrastando os passos.

Junto de Henrique, o velho, de apparencia meia rustica, meia urbana, depois de o saudar com grave cortezia, que deixou a descoberto o solideo fradesco com que resguardava a fronte calva, perguntou se havia alguma coisa, em que o pudesse servir.

Ouvindo, depois de repetida, a resposta de Henrique, que disse procurar as senhoras, com nova cortezia lhe fez signal para que o acompanhasse, e ambos atravessaram o pateo em direcção da casa.

No portal o velho afastou-se de lado com toda a deferencia para deixar passar Henrique; em seguida abriu-lhe a porta de uma primeira sala, e, voltando-se, pediu-lhe para que lhe dissesse quem havia de annunciar. Henrique deu-lhe para esse fim um bilhete de visita, cuja significação teve de explicar, porque o velho não a comprehendia bem.

A final porém retirou-se por outra porta, levando o bilhete.

A sala, em que Henrique ficou esperando, era toda mobilada com pesadas cadeiras de couro lavrado e alto espaldar, mesas de pés em espiral, e pelas paredes alguns ennegrecidos retratos de frades, pertencentes provavelmente aos antigos proprietarios do mosteiro.

No momento em que o velho servo, que era uma especie de feitor honorario da casa, abriu outra porta da sala, para ir annunciar á familia a visita de Henrique, chegaram aos ouvidos d'este, de mistura com um tinir de louças e de crystaes, as vozes e risos de creanças, que falavam ao mesmo tempo. Com a entrada do velho produziu-se um certo silencio, e após uma voz de mulher, de timbre fresco e agradavel, disse audivelmente e como em resposta ás palavras do criado:

– Ora as etiquetas com que esteve, Torquato! Mande entrar para aqui.

O feitor parece que resmoneou não sei o quê, a que ainda a mesma voz redarguiu:

– O que não é bonito é fazel-o esperar. Ande, vá.

Torquato – chamemos-lhe assim, visto que assim lhe chamaram – appareceu outra vez e fez signal a Henrique, de que o esperavam na sala immediata.

Henrique que presentiu ir achar-se na presença de uma mulher nova e porventura bonita, correu, com instincto de perfeito homem de côrte, os dedos pelos cabellos, afagou o bigode, ageitou rapidamente o laço da gravata e entrou.

Era completo o contraste d'este aposento com o primeiro; transpondo aquella porta dissipava-se todo o perfume antigo, todo o caracter de vetustez, que até alli reinava em tudo. Era moderno o estuque do tecto, modernissimo o papel que forrava as paredes, e a mobilia toda de um cunho de actualidade, visivel aos olhos menos pesquizadores. Como para tornar mais frizante o contraste, a presença do velho feitor estava aqui substituida por a de duas creanças, a mais velha das quaes mal passaria dos seis annos.

O reposteiro, que caiu atraz de Henrique, foi como que uma cortina corrida sobre o passado. A porta, que elle transpuzera, a barreira que separava dois seculos.

Sentadas no tôpo de uma longa mesa de jantar, coberta de louça fina ingleza, estavam as duas creanças que dissemos, com os seus babeiros brancos e tendo cada qual defronte de si um prato de odorifera sôpa. Em pé, á cabeceira, presidia ao lunch infantil uma mulher, de quem Henrique só pôde notar vagamente os contornos geraes do corpo e não as particularidades das feições, porque, ficando voltada de costas á luz das janellas, velavam-lhe o rosto umas meias sombras, que não favoreciam o exame.

Ao vêr entrar Henrique, ella disse-lhe jovialmente:

– Na aldeia a sala de recepções é aquella em que a gente se acha, quando lhe annunciam uma visita. É assim pelo menos que eu comprehendo o viver do campo.

– E é assim que eu o aprecio, minha senhora – respondeu Henrique, approximando-se da mesa.

As creanças, interrompendo a refeição, fitavam o recem-chegado com aquelles olhos espantados e penetrantes, com que ellas, promptamente, e quasi sempre com a certeza de um verdadeiro instincto, decidem para si das sympathias ou antipathias de que lhes é merecedor um estranho, a quem vêem pela primeira vez.

A mulher, que presidia ao banquete, não suspendeu com a entrada de Henrique a occupação domestica, na qual estava empenhada. Mostrava receber-lhe a visita com um perfeito «á vontade», que nada tinha porém de affectado.

– Não sei se v. ex.a sabe… – ia dizendo Henrique, quando, ao chegar perto d'ella, parou subitamente em meio da phrase.

Na mulher, que estava deante de si, reconheceu a leitora da deveza, a interessante rapariga, que tanto o preoccupára.

Era ella, era o mesmo vestido de xadrez, era a mesma cabeça, agora melhor apreciada ainda, porque nada havia a encobrir-lhe a fronte de um primoroso modelo, e os cabellos penteados com tanta graça como singeleza. Em vez do longo chale de casimira, trazia agora uma especie de jaqueta, curta e larga, apertada por alamares, de fórma pouco mais ou menos similhante á que, na nomenclatura das modistas, nomenclatura quasi sempre absurda, e de mau gôsto, teve depois a impropria e desastrada denominação de zuavo!

A surpreza de Henrique não passou despercebida a quem era causa d'ella e que lhe correspondeu com um gesto de curiosa interrogação.

– Perdão, minha senhora – disse Henrique, comprehendendo aquelle gesto – mas ignorava que vinha encontrar aqui uma pessoa, que já me não era estranha.

– E sou eu essa pessoa?

– É v. ex.a effectivamente.

– Pois já nos vimos?

– Já… quero dizer, eu já vi v. ex.a

– Pode ser; pela minha parte confesso-lhe que me não lembra de o ter visto nunca. Apesar d'isso sei que é o sr. Henrique de Souzellas, sobrinho d'aquella boa senhora de Alvapenha, a tia Dorothéa; não é verdade?

– Eu proprio. O conhecimento que tenho de v. ex.a não é antigo tambem; data de algumas horas apenas.

A interlocutora de Henrique, ouvindo isto, contrahiu levemente as sobrancelhas bem desenhadas, fez um movimento de labios e deu á cabeça uma ligeira inclinação sobre o hombro, d'onde resultou para aquella gentil physionomia a mais adoravel expressão de estranheza, que pode animar um semblante de mulher.

– Esta manhã – proseguiu Henrique, a quem os encantos d'aquelle gesto não tinham passado despercebidos – assisti a uma scena commovente. O logar era uma deveza; uma joven senhora… joven e… e com outras qualidades, além d'esta, para excitar attenções, lia, em voz alta, as cartas que algumas pobres mulheres do povo acabavam de receber pelo correio…

Ella não o deixou continuar.

– Ah! entendo agora. Viu-me? Já andava por fóra? Não o suppunha assim madrugador. Mas onde estava tão escondido? Vejo que é indiscreto… Não admira, habitos da cidade. É verdade, é. Aquella gente encontrou-me no caminho quando eu voltava de uma visita a uns parentes pobres, e não me deixou sem que eu lhe abrandasse a ancia de coração que a affligia. Coitados! Que havia eu de fazer? Diga-me, já pensou no supplicio que deve ser olhar a gente para uma folha de papel escripta, na qual sabemos que se fala de uma pessoa querida, e não ter poder para decifrar aquelle enygma? Que martyrio! Eu por mim, confesso que me falta o animo para recusar pedidos d'aquelles, como me faltaria para negar uma gotta d'agua ao desgraçado que visse a morrer de sêde. A crueldade seria quasi igual. Não lhe parece?

Henrique formulou um galanteio, que ella porém não ouviu, entretida já a escutar o que uma das creanças lhe dizia.

– Lena, olha a Annica, que está a deitar a sôpa d'ella no meu prato.

– Deixa falar, Lena, deixa falar, foi ella que primeiro a deitou no meu. Não tem vergonha de mentir!

– Então – disse Magdalena, que a este nome correspondia a contracção familiar, de que se serviam as creanças. – Olhem agora se teem juizo. Vejam se querem que eu vá dizer á mamã que venha para aqui.

– Não é ella a mãe, visto isso – pensou Henrique, como quem modificava uma opinião que concebera antes e folgava com a modificação. – Será irmã? Talvez… Ou mestra… É mais provavel que seja mestra. Esta mulher foi de certo educada na cidade. Tem uns ares distinctos…

E elevando a voz:

– v. ex.a está-me recordando uma scena de um precioso livro, que nunca me canço de ler.

– Qual é?

– Werther.

– Ah!

– Conhece?

– Conheço… quero dizer, li-o, por acaso, ha pouco tempo. Compara-me a Carlota? É por estar a distribuir as rações d'estas creanças? Que mulher ha que não seja Carlota, n'essa parte? Em todas as casas se passa uma scena assim. Bem se vê que não tem familia.

– Por quê?

– Por lhe fazer tanta sensação o espectaculo d'esta.

– É certo – respondeu Henrique com melancolia. – Deve ser essa uma das causas; mas não a unica – accrescentou galanteadoramente.

E, de si para si, estava encantado de saber que a sua interlocutora tinha lido Werther.

Magdalena, para mudar de conversa, perguntou-lhe:

– Então que lhe parece esta nossa aldeia?

– Um jardim. Hontem, ao chegar, confesso que me foi desagradavel a impressão recebida. Nem admira; a noite, o frio, a chuva, o cansaço. Esta manhã, porém, a transformação foi completa. Estou encantado, fascinado! N'uma palavra, minha senhora, eu, cidadão em corpo e alma, reconciliei-me em poucas horas com a vida do campo.

– Desconfie da mudança rapida. Habitos radicados, qualidades ou defeitos de educação não se perdem assim depressa. Alguns dias aqui, e suspirará por Lisboa outra vez.

– Talvez não. Hoje estou até em acreditar que tinha razão o doutor, que me prometteu a cura das minhas doenças, se me costumasse devéras a estes habitos campestres.

– Ai, prometteram-lhe isso? E espera costumar-se?

– Por que não? Hoje já almocei ás sete horas, já andei mais do que uma semana inteira ando em Lisboa. E inda tenho por vêr as raridades da terra.

– As raridades?! E que raridades são essas que inda tem para vêr? A nossa pobre aldeia não lhe merece essa ironia.

– Então acha tão pouco curiosa esta terra? Do quasi nada que d'ella observei esta manhã, parece-me até…

– Ai, se fala da natureza, é outra coisa. A cada passo se encontra um ponto de vista, que nos obriga a uma exclamação. Mas ha por ahi certos cicerones, que insistem em mostrar aos hospedes as bellezas da arte. Peça a Deus que o livre d'esse flagello.

– v. ex.a assusta-me. Embora; se lhes cair nas mãos, farei por achar curioso o que elles acharem. Vae ser esse o meu systema de cura. Interessar-me por tudo o que a um homem da aldeia interessa. Foi o regimen que me prescreveu o medico, quando me receitou o campo, a titulo de emolliente; se o seguir, salvo-me.

– E não o diga a rir. Se quizer prender-se á aldeia, abjurar os attractivos da cidade, deve rustificar-se em tudo; principiar por cultivar o interesse por as questõesinhas da terra; deve, por exemplo, declarar-se pelo abbade contra a junta de parochia ou pela junta de parochia contra o abbade; ralhar do regedor na questão com os taberneiros ou defendel-o. Emquanto não chegar a isso, desconfie da sua acclimação.

– Farei por conseguil-o o mais depressa possivel. Outra coisa necessaria é deixar-me convencer ingenuamente dos inexcediveis dotes de espirito das notabilidades da terra, o que é de rigor; estar em perpetua admiração deante de uns certos nomes famosos que ha sempre em todas as terras pequenas, e que nos atiram á cabeça a cada momento. Por exemplo, aqui já sei de um, com que encherei a bôca a proposito de tudo; é o de uma celebre morgadinha dos Cannaviaes, pessoa em quem ouço falar, desde que puz os pés, ou por mim a alimaria que me trouxe, n'este productivo torrão.

Magdalena sorriu de uma maneira singular, ouvindo isto.

– Então com que, tem ouvido falar muito n'essa morgadinha?

– Oh! mas não faz ideia; de uma maneira desesperadora. Não ha pinhal, quinta, azenha, choça ou lameiro que não pertença a essa entidade, para mim desconhecida. Este nome anda-me já nos ouvidos, como um estribilho de cantiga popular; na estrada, nos campos, em casa de minha tia, na loja do correio, em toda a parte o ouço pronunciar. Parece que voga nos ares.

– Isso deve ter-lhe excitado a curiosidade de conhecer a pessoa.

– Qual! tem-me impacientado a ponto de nem perguntar por ella. E demais parece-me que a estou a vêr.

– Ora diga. Então como a imagina? Annica, não tens ahi um guardanapo?

– Como a imagino? Imagino-a uma morgada, e está dicto tudo; uma senhora nutrida, a rever saude por todos os póros, encarnada como uma romã, sobre quem os vestidos á moda assentam como pendurados de um cabide, as mãos cheias de anneis, meias luvas de retroz, um chapéo com uma cercadura de rendas, pousado no cocoruto da cabeça… v. ex.a ri-se? Acertei?

– Parece-me que sim; mas julgue-o por si já que tem á vista o original.

– Como?!

– A morgadinha dos Cannaviaes, sou eu.

– Vossa Excellencia!..

Henrique de Souzellas, apesar do seu uso do mundo, esteve por muito tempo sem saber como sair da situação em que se puzera.

Magdalena ria com toda a vontade; os pequenos riam, por contagio, sem saberem de quê. Tudo augmentava pois a confusão de Henrique.

– Ora confesse – insistia cruelmente Magdalena – confesse que o está lisonjeando a exactidão das suas conjecturas.

Henrique teve emfim uma lembrança. Tirou do bolso a carteira, em que, horas antes, esboçára rapidamente a figura esbelta da morgadinha, rodeada das mulheres do povo, e mostrando-lh'a, disse:

– Veja v. ex.a se esse esboço, apesar da sua imperfeição, está de accordo com a estupida concepção, que eu formára.

Magdalena lançou a vista para a carteira e sorriu.

– Ah! desenha?

– Quando os modelos tentam, tenho d'essas ousadias. Os resultados são lastimosos, como estes. Perdôe-me o original, que julguei possivel copiar, o desacato, mas…

Magdalena fitou em Henrique um olhar penetrante.

– Isso que diz sabe-me a um galanteio. Devo advertil-o de uma coisa, sr. Henrique de Souzellas. Não ha nada tão mal empregado como uma fineza no campo. Tudo quer o seu logar. Em Lisboa talvez o achasse pouco delicado… ou pelo menos pouco amavel, se me não dirigisse d'essas phrases conceituosas e bonitas. Vive-se d'isso lá. Aqui acho-as affectadas e inuteis… Que quer? Influencias da scena. Ha tanta semceremonia no campo! Aqui todos nos tratamos como parentes: ha de vêr. Não repara como eu o recebo n'uma sala de jantar, sem nem sequer tirar os babeiros a estas creanças? Olhe lá que fizesse o mesmo em Lisboa…

– Então v. ex.a já lá esteve?

– Eu nasci lá e lá me eduquei.

– Ah! bem se vê.

– Ah? Ahi está um ah, que eu desejaria muito que me explicasse.

– Não me será difficil fazel-o. É que antes já de ouvir falar v. ex.a, só ao vêr certa distincção, certa elegancia de maneiras, conjecturei…

– Basta. É um ah portanto, que tem umas poucas de más qualidades.

– Devéras? Uma interjeição tão innocente!

– Pelo contrario, é a voz mais perfida e inconstante da nossa lingua; tudo exprime, a hypocrita. O seu ah é vaidoso, adulador e iniquo pelo menos. Pela vaidade castigue-o algum resto de modestia que ainda se abrigue no seu coração lisbonense; a adulação competia-me castigal-a, mas perdôo-lh'a porque quero ainda suppôr que é um symptoma da doença das cidades, a meu vêr, a principal doença, que o obrigou a procurar a aldeia; da iniquidade, da injustiça, que faz á educação que se pode dar na provincia, ha de convencer-se dentro em pouco, quando eu lhe apresentar minha prima Christina, uma rapariga, que tem vivido aqui sempre e que protesta contra essa sua opinião; possue tudo quanto pode dar de bom a educação das cidades, e, o que mais vale, aquillo que lá é tão facil perder-se depressa, uma candura adoravel. É a irmã mais velha d'estas creanças – accrescentou, pousando a mão na cabeça dos pequenos, que comiam e conversavam um com o outro.

– Mas v. ex.a…

– Perdão. Outra coisa. Já agora que entrei no caminho das admoestações, permitta-me mais uma, antes de perder o ar grave, que hei de por força ter. Não me sôa bem o impertinente tratamento de excellencia, que me dá. Essa excellencia está a pedir-me uma senhoria, pelo menos, e, confesso-lhe ingenuamente que me custaria a voltar na lingua uma palavra tão comprida.

– Como quer então que a trate?

– Eu sei?.. Olhe, uma ideia! Ha pouco não me comparou á Carlota de Goethe? Deixe-me pois adoptar uma lembrança d'ella. Está certo de que tratou o Werther por primo, a primeira vez que lhe falou? É um tratamento como outro qualquer; e entre nós mais justificado, porque sendo o sr. Henrique sobrinho direito de D. Dorothéa, e teimando minha tia Victoria, a mãe d'estes pequenos e de Christina, que D. Dorothéa é ainda uma especie de nossa tia arredada, e como tal a tratamos, nós a final de contas vimos a ser uma especie de primos tambem. Pelo menos assim o sustentou e decidiu hontem minha tia Victoria; e ha de vêr como por primo o tratará! É um tratamento menos incómmodo; eu chamar-lhe-hei primo Henrique; chamar-me-ha, se quizer, prima Magdalena, e desterraremos para sempre a antipathica senhoria e excellencia; concorda?

– Acceito e acho deliciosa a proposta. Adoptamos o principio falso, admittido pela fidalguia em Portugal, de que «os primos dos nossos primos, nossos primos são.»

– Fica pois ajustado?

– Fica ajustado.

– Bem. Mas que ia dizer ha pouco?

– Nem eu já sei… Ah!.. Perguntava se tinha estado muito tempo em Lisboa e o que a obrigou a vir viver para aqui.

– Isso é nem mais nem menos do que pedir-me a historia da minha vida. Seja; é um sacrificio inevitavel a quem se vê pela primeira vez. Deixe-me primeiro attender a estes pequenos, que eu principio.

E, depois de partir a cada creança uma fatia de queijo, a morgadinha principiou:

– A historia é curta e sem peripecias, tranquillise-se. Eu sou filha de Manuel Bernardo de Mesquita e…

Este nome era o de um dos principaes vultos politicos da época, e que então militava no campo opposicionista, sendo indigitado para ministro na primeira reforma ministerial, homem influente, de grande capacidade politica, tendo sempre advogado no parlamento as ideias mais liberaes, e militado no partido progressista.

Henrique de Souzellas, que conhecia todas as personagens de importancia no paiz, fitou Magdalena com olhar estupefacto: tão longe estava de encontrar alli a filha de um futuro ministro.

– Filha do conselheiro Manuel Bernardo! v. ex.a?

– Excellencia! Esquece-se da nossa convenção? Repare! É verdade. Não sabia que meu pae era d'aqui? Eu e meu irmão Angelo, que estuda actualmente n'um collegio em Lisboa, somos os unicos filhos de meu pae. Nasci, como disse, em Lisboa, mas as continuas enfermidades de minha mãe fizeram-nos vir para aqui viver na companhia d'ella; aqui mesmo morreu, e aqui está sepultada. O Angelo nasceu já n'esta casa. A morte de minha mãe deixou-me orphã aos doze annos, e incompleta a educação que ella principiára a dar-me e para a qual, se vivesse, ella só bastaria. Fui pois obrigada a voltar a Lisboa, onde continuei com mestra a minha educação. Mas, ao chegar á idade dos quinze annos, receiando meu pae que os ares da cidade desenvolvessem em mim germens de molestia, que porventura tivesse herdado, mandou-me outra vez para aqui, onde sempre passava alguns mezes no anno, e para onde me chamavam tambem habitos adquiridos em creança. Eu sou muito aldeã. Para aqui vim pois. A morte de meu tio, passado pouco tempo, impressionou profundamente a minha tia Victoria, que ficou desde então um pouco… um pouco… com pouca paciencia para olhar por as coisas domesticas. Isto creou-me novos deveres; havia aqui muitas creanças, estas duas, outras que estão lá dentro, e Christina, que era então creança tambem; occupei-me a ajudar minha tia.

– E tão admiravelmente, que a mais carinhosa mãe o não faria melhor.

– Dou-me bem com as creanças, dou. E a meu pae devo, em parte, o ter aprendido cedo esta sciencia. Porque é uma sciencia tambem.

– Então como procedeu o conselheiro para a ensinar?

– Eu lhe digo. Meu pae tem em certas coisas umas ideias muito singulares. Excellentes as acho eu. Oh! não imagina que boa e excellente alma é a de meu pae! Era eu uma creança, tinha onze annos, talvez, quando elle, um dia, vindo de Lisboa passar aqui algum tempo comnosco, me trouxe uma boneca, realmente bonita; uma maravilha de Nuremberg. Nos primeiros dias não me fartava de a vêr, de a beijar, até commigo a deitava. Oito dias depois succedia o que era de esperar, já nem d'ella sabia. Meu pae notou-o. – Então, Lena – aqui todos me chamam assim – já não gostas da tua boneca? – Disse-lhe eu: Gosto, mas… – Bem sei, já fizeste tudo o que tinhas a fazer por ella, e como, pela sua parte ella nada faz por ti, enfastias-te, canças-te de conceber, a cada momento, brinquedos novos. Tens razão; onze annos já não é idade em que o interesse se sustente com tão pouco, é necessario mais. Ora dize-me, Lena, – continuou elle – se eu te mandasse vir uma boneca que movesse os braços e os olhos, que te sorrisse, que chorasse tambem, que te beijasse até… – Pois ha bonecas assim? – perguntei eu, admirada. – E desejaval-a? – Oh! se a houvesse!.. – Trago-t'a ámanhã. Não dormi aquella noite a pensar na boneca. No dia seguinte apresentou-me meu pae uma creança de um anno, orphã de uma pobre familia, que uma epidemia extinguira, e disse-me: – Ahi tens a boneca que te prometti, Lena; vou confial-a aos teus onze annos. Veremos se tens juizo para brincares com ella. É assim que eu quero que aprendas os deveres de mãe, que é a verdadeira sciencia apropriada a mulheres. E o que é certo é que eu, dissipado o desgosto dos primeiros momentos, porque o tive, confesso, costumei-me a querer áquella pobre creança, fui avara nas suas caricias, troquei por ella todos os meus brinquedos, e senti-lhe do coração a morte, quando, um anno depois, ella me expirou nos braços. Quando fui para Lisboa, já ia educada para amar creanças.

Magdalena contára tudo isto naturalmente, sem a menor affectação, sem deixar até de attender aos primos, o que augmentava o interesse com que a escutava Henrique.

– E assim fica sabendo quem é a morgadinha dos Cannaviaes – concluiu ella, desatando o babeiro das creanças, que tinham terminado o lunch.

– É verdade, mas d'onde lhe vem este titulo singular, prima Magdalena? – perguntou Henrique, tomando ao collo uma das creanças, que a morgadinha pousou no chão.

– É que eu sou realmente a morgadinha dos Cannaviaes. Quero dizer, minha madrinha vivia na quinta dos Cannaviaes, uma quinta que fica d'aqui perto. Era uma senhora velha, rica, elegante e muito caprichosa; chamavam-lhe todos a morgada dos Cannaviaes. Tomou-me ella affeição, e, sempre que passeiasse, me havia de levar comsigo; d'ahi começaram a chamar-me de pequena a morgadinha. Quando ella morreu deixou-me tudo quanto possuia; n'esse legado entrava a quinta dos Cannaviaes, de que sou proprietaria ainda. Foi uma como confi – É que eu sou realmente a morgadinha dos Cannaviaes. Quero dizer, minha madrinha vivia na quinta dos Cannaviaes, uma quinta que fica d'aqui perto. Era uma senhora velha, rica, elegante e muito caprichosa; chamavam-lhe todos a morgada dos Cannaviaes. Tomou-me ella affeição, e, sempre que passeiasse, me havia de levar comsigo; d'ahi começaram a chamar-me de pequena a morgadinha. Quando ella morreu deixou-me tudo quanto possuia; n'esse legado entrava a quinta dos Cannaviaes, de que sou proprietaria ainda. Foi uma como confirmação do titulo, que já desde creança me tinham dado; e para todos sou aqui a morgadinha, titulo na verdade pouco elegante e que tão mau conceito fez conceber ao primo Henrique da possuidora d'elle.

– Retracto-me, prima Magdalena; agora que sei a pessoa a quem elle pertence, parece-me outro. Acho-o bonito, gracioso…

– Vamos, vamos. Confesse que o titulo não é dos mais romanticos e que, de boa vontade, escreveria outro nome debaixo do desenho de phantasia que ahi fez, da mesma maneira que deu á humilde e fiel jumenta, que eu montava ha pouco, a conformação e orelhas elegantes de um palafrem, e quasi me transformou em uma amazona ingleza.

Henrique respondeu, sorrindo:

– Na impossibilidade de reproduzir as graças naturaes, soccorri-me ao expediente das bellezas de convenção. Confesso o meu deploravel erro.

– Olhe que não estamos em Lisboa, primo Henrique. Repare para essas arvores e refreie o sestro galanteador, com que está.

– Por quem é! Não leve o rigor a tal extremo. Tão injusta é comsigo, que se recuse a acceitar, como naturaes e sinceras, as phrases que a sua presença inspira?

– Ai, meu Deus, como refina! Veja como essa creança, que tem no collo, o está encarando com os olhos espantados. Se ella nunca ouviu falar assim aqui!

Henrique beijou as faces da creança, movimento em que não ia uma intenção menos lisonjeira do que nas phrases que dissera, porque elle percebia que Magdalena era extremosa pelos seus pequenos primos.

Abriu-se, n'este meio tempo, a porta da sala, e entrou, saltando, outra creança mais crescida, mas ainda de vestidos curtos, trazendo na mão uma folha de papel.

– Lena – dizia ella em alta voz. – Olha; queres vêr o que o sr. Augusto só me emendou hoje no thema francez?

Chegando ao meio da sala, parou a olhar com estranheza para Henrique.

– É o sr. Henrique de Souzellas – disse Magdalena. – O hospede da tia Dorothéa. Esta é Marianna, outra de minhas primas – accrescentou, voltando-se para Henrique. – Já vê que não faltam creanças n'esta casa; e ainda ha mais. É o que lhe dá o ar alegre que tem.

Marianna cumprimentou Henrique e não se constrangeu por mais tempo; mostrando á prima a composição que o mestre lhe emendára, disse:

– Ora vê que não tive muitos erros.

Magdalena sorria, examinando o thema.

Henrique ia a fazer não sei que pergunta a Marianna, quando á mesma porta, por onde ella entrára, appareceu o mestre, de quem se falava.

Augusto, que assim se chamava o recem-chegado, era um rapaz de pouco mais de vinte annos de idade; de rosto pallido e physionomia intelligente.

Ninguem adivinharia n'aquelle typo um mestre-escola de aldeia.

Trajava com simplicidade, porém com asseio e gôsto, e havia em toda a sua figura certo ar de distincção, que feria quem pela primeira vez o visse.

N'um leve pendor de cabeça, no olhar penetrante e fixo, e nos labios, como habituados a fecharem-se á saida dos pensamentos intimos, lia-se o caracter pouco expansivo d'aquelle adolescente.

Magdalena dirigiu-lhe a palavra, em tom de manifesta deferencia.

– Como vão os seus discipulos, sr. Augusto?

– Optimamente, minha senhora – respondeu o interrogado.

– O sr. Augusto – disse Magdalena, apresentando-o a Henrique – o primeiro mestre de meu irmão Angelo e hoje mestre de Marianna e Eduardo.

– Esquece-se, minha senhora, – accrescentou Augusto – que de Angelo sou discipulo tambem, e mais discipulo do que fui mestre.

– Do que me esqueci, e, a falar a verdade, não devia, foi de que de Angelo é effectivamente mais do que mestre, é amigo; assim como de todos nós. Este senhor – continuou ella, concluindo a apresentação – é o senhor Henrique de Souzellas, que se esperava em Alvapenha; é ainda nosso primo.

Os dois cortejaram-se com affavel delicadeza.

– Teve carta de Angelo? – perguntou em seguida a morgadinha.

– Não recebi ainda o correio de hoje.

– Nem nós; e é de estranhar que meu pae pelo menos não me escrevesse! Angelo não virá passar a festa comnosco? Pobre rapaz! Parece que renasce quando se vê aqui. É uma perfeita creança então.

Eduardo, outro primo de Magdalena, que Henrique ainda não vira, entrou n'este momento na sala, trazendo um masso de cartas na mão. Depois de cumprimentar Henrique, a quem Magdalena o apresentou, disse para Augusto:

– A mamã deu-me essas cartas para o sr. Augusto escolher d'ahi aquellas que eu pudesse ler.

– Eu verei devagar – disse Augusto, guardando-as n'uma pasta que trazia.

– Ah! já temos o Eduardo a ler cartas! – disse a morgadinha, afagando o primo.

– Pelo que vejo – disse Henrique de Souzellas, vendo Augusto em disposições de partir – tem uma vida muito occupada?

– E tanto que sou obrigado a pedir licença para me retirar. Tenho de ir esta tarde a casa do Seabra…

– Ai, lecciona ainda as pequenas do brazileiro? – perguntou Magdalena.

– Ainda, sim, minha senhora.

– E como vão essas mulatinhas?

Augusto encolheu os hombros, sorrindo; gesto que não devia lisonjear a vaidade do sobredicto brazileiro, se tomasse a peito os dotes intellectuaes das referidas mulatinhas.

Passados segundos, Augusto retirou-se, apertando a mão a Magdalena que familiarmente lh'a estendeu, e a Henrique, que a imitou.

– Ia apostar que vae alli uma intelligencia – disse Henrique ao vêl-o sair – algum d'esses grandes espiritos, que vivem e morrem ignorados e improductivos, porque os não aquece o sol do favor publico, nem os bafeja a aura da moda caprichosa. É terra de maravilhas esta, ao que estou vendo.

– É um rapaz intelligente, é – disse a morgadinha – e uma alma generosa. Desde tenra idade costumou-se a trabalhar. Não tem familia. O pae foi um pobre e honrado advogado de um logar perto d'aqui, que morreu quasi na miseria, deixando-o por educar. A mãe, que era d'estes sitios, para ahi veio, depois que viuvou. Elle tem sido, pode dizer-se, mestre de si mesmo. Dirigiu os primeiros estudos de Angelo e hoje é o seu melhor amigo. A morgada, minha madrinha, legou-lhe um patrimonio para elle se ordenar: não quiz, e preferiu ser mestre-escola. Meu pae, que lhe reconhecia intelligencia para mais, tentou dissuadil-o d'isso, mas nada conseguiu. Não ha quem o arranque d'estes sitios.

– Prende-o talvez alguma paixão?

– Não sei. É certo que é um professor modelo. O seu primeiro despacho foi temporario; agora, porém, espera meu pae fazel-o effectivo; para o que já elle fez novo concurso. Já vê que ambições são as d'este rapaz.

– Na verdade! com muito menos fundamentos ha quem aspire a ser ministro. Mas com certeza o coração entra como elemento no problema d'esse caracter.

– Mas ainda agora reparo! – exclamou a morgadinha – eu esquecida a conversar, e sem avisar a minha tia e Christina da sua chegada! Não o fiz logo, porque as sabia occupadas em umas longas novenas, em que andam; mas agora é tempo. Vae, Marianna, e tu, Eduardo; ide ambos dizer-lhes que está aqui o… o primo Henrique de Souzellas.

Marianna e o irmão sairam a correr.

– Vae conhecer duas boas almas – disse Magdalena, voltando-se para Henrique – minha tia é uma santa senhora, cujo peor defeito é suppôr-se victima dos criados; e Christina… Christina é um anjo.




V


Henrique de Souzellas sentia-se cada vez mais penetrado da sympathia, que logo á primeira vista, aquella mulher lhe despertára.

Havia na morgadinha um mixto de candura e de ironia, certa delicada reserva fluctuando, como uma sombra diaphana, na conversa familiar, a que tão espontaneamente se dava; um visivel conhecimento dos usos e etiquetas sociaes, e ao mesmo tempo uma coragem para cortar por elles, como quem se sentia sobranceira a toda a ousadia, inaccessivel ás suspeitas dos mais atrevidos: havia tantos enygmas n'aquella sympathica indole feminina, que poucos seriam impassiveis deante d'ella.

A pensar n'isto se ficou Henrique de Souzellas, calado, immovel, absorto, seguindo com os olhos os movimentos de Magdalena, que, sem o menor constrangimento, proseguia nas suas occupações domesticas.

Ouviram-se finalmente passos e vozes de differentes timbres na sala immediata.

– Ellas ahi veem – disse a morgadinha.

De feito, precedidas por Marianna e Eduardo, entraram na sala D. Victoria e Christina.

A mãe vinha dizendo:

– É o que eu digo… Não que vocês não querem crer! Ora vejam se isto se atura… se isto não é para metter uma pessoa no inferno!.. Não tem que vêr!.. Não ha ninguem que mais dinheiro gaste com criados e que seja tão mal servida como eu!.. Eu só queria saber o que fazem os criados d'esta casa? Sim, só queria que me dissessem o que elles fazem, esse bando de mandriões!.. Elle é o Torquato, elle é o Luiz, elle é o Damião, elle é a Ermelinda, elle é a Rosa, elle é a Violante… e não havia um só que me viesse dizer que tinha chegado o primo! É forte coisa!.. Compromettem uma pessoa! Então como está? – accrescentou ella, mudando de tom para cumprimentar Henrique, a quem estendeu a mão.

Magdalena, ao ouvil-a, tinha já trocado com este um olhar malicioso.

Henrique correspondeu delicadamente á saudação das senhoras e procurou justificar os criados.

– Não m'os desculpe, – atalhou D. Victoria, elevando outra vez o tom de voz – aquillo é de proposito para fazerem ficar mal uma pessoa; ninguem me tira isto da cabeça… Aquillo é de proposito!

– Mas a mamã não vê que as criadas estavam comnosco á novena? – lembrou timidamente Christina.

– Pois que não estivessem. Quem tem serviço a fazer não pode ouvir novenas.

– Mas se a mamã é que as mandou!

– Pois sim… pois sim… mas… mas ellas é que me deviam dizer que tinham que fazer. Então eu é que lhes hei de estar a lembrar as suas obrigações? Não me faltava mais nada! Ora tens coisas, menina! Mas então vamos a saber, primo Henrique, fez bem a sua jornada?

Henrique principiou a falar para desvanecer a irritação de D. Victoria.

Como nós já sabemos dos pormenores da tal jornada, aproveitaremos a occasião para dizer duas palavras a respeito das novas personagens, que estão em scena.

D. Victoria, havendo attingido já a idade respeitavel dos quarenta e tantos annos, dispensa-nos grandes longuras e esmeros de descripção. Basta que o leitor saiba que era uma senhora nutrida, bondosa no fundo, e que sabia muito bem trazer os vestidos escuros da sua viuvez. Impertinente com os criados, doida pelos filhos e sobrinhos, muito sujeita a esquecimentos, e confundindo-se facilmente sempre que tentava forçar o espirito a abraçar alguma ideia mais complexa; mãos rotas com a pobreza; intolerante, em theoria, com os ladrões e malfeitores, porém felizes d'elles se d'aquellas mãos lhes dependesse a condemnação; eis o que era D. Victoria. Christina, porém, tinha dezenove annos; e esta idade gosa de privilegios, que eu não posso infringir. O leitor não me perdoaria se me visse passar estouvadamente por deante da prima de Magdalena, sem um olhar de homenagem á sua juventude e ao seu typo feminino. Reparemos pois.

Christina era mais bonita do que bella. Não havia n'aquelle rosto uma só feição, que não fôsse correcta e delicada. Tez alva e finissima; olhos meigos e quebrando-se com suavidade infantil; bôca, d'onde parecia sempre prestes a sair um afago ou uma consolação; voz, que da muita piedade d'aquelle bom coração, tirava ás vezes modulações commoventes; n'uma palavra, uma figura de cherubim, como as sonharam os mais inspirados artistas, cuja mão representou na téla os augustos mysterios do christianismo, tal era a primogenita de D. Victoria. Mas não procurassem n'ella alguns d'aquelles attractivos, que fixam de repente e como por magnifico influxo, a attenção dos olhos, uma d'essas particularidades physionomicas, pelas quaes a natureza, destruindo com arrojo feliz a geral harmonia de um semblante, consegue tornal-o mais fascinador; temperavam-se alli tão completamente todas as feições, que a attenção não se sentia obrigada a passar do conjuncto d'ellas, o que lhes diminuia muito a intensidade. É o grande senão dos rostos harmonicamente perfeitos.

Concordava-se em que Christina era galante, ninguem lhe negaria sympathias; mas o pensamento na ausencia d'ella, não se sentia dominado por a sua imagem: perdia-a até n'um vago, quando pretendia fixal-a: eram suaves de mais as inflexões d'aquelles contornos, brandas as tintas que lhes davam relevo, para que a memoria conseguisse reproduzir facilmente o typo angelico, de que lhe ficára uma agradavel, mas vaga impressão.

Por um homem, em quem predominasse a razão, Christina poderia vir a ser adorada; mas nas imaginações ardentes, nos corações inflammaveis, difficil lhe seria produzir alguma impressão duradoura.

Para bem se comprehender a belleza de Christina, era preciso sondar-lhe primeiro o coração, apreciar todo o thesouro de sentimentos que alli se continha; então descobrir-se-lhe-hia nas feições certa belleza ideal, reflexo de bondade e candura, uma d'essas claridades que as almas puras e generosas vertem nas physionomias. Se não fôsse receiar-me de linguagem que saiba a philosophia, diria que a belleza, que possuem umas mulheres assim, é uma belleza subjectiva.

De tudo isto é natural concluir que Henrique de Souzellas podia sympathisar com a candida figura de Christina, a qual baixava timidamente os olhos deante d'elle, córando cheia de enleio e confusão, mas que qualquer sentimento que ella lhe inspirasse, não conseguiria por muito tempo desviar-lhe o sentido dos encantos mais attrahentes da morgadinha – que a muitos respeitos, menos na bondade de coração, formava contraste completo com sua prima.

Travára-se animada conversação entre as pessoas presentes, e principalmente entre Henrique, D. Victoria e Magdalena.

D. Victoria quiz ser informada da doença de Henrique. Este passou a fazer-lhe uma exposição igual, com pequenas variantes, á que fizera á tia.

Mencionou, como a ella, aquelles vagos symptomas, aquellas tristezas, impaciencias e desalentos, que tão ingenuamente a boa senhora classificára como mania.

Emquanto Henrique falava, Magdalena poz-se a rir.

Henrique tornou para ella os olhos.

– Ó menina, de que ris tu? – perguntou D. Victoria, com certo tom de severidade.

– Rio-me d'aquella doença, tia. Pois já viu alguem padecer d'aquillo? Ora diga?

– Eu?.. mas…

– Pode dizer que não. E comtudo o primo Henrique não mente. Ha d'aquellas doenças na cidade, ha; mas na aldeia são tão raras, que eu mesma as estranho já, eu que as vi em outro tempo…

– Então não crê na realidade d'ellas.

– Não lhes estou a dizer que sim? Ouço até que já teem levado ao suicidio. Acredito-o. Os habitos da civilisação affeiçoam a seu modo a natureza humana e criam molestias novas, que nem por isso são menos naturaes. Mas que quer, primo? A minha estranheza, ao vêr um d'esses doentes em plena aldeia, não é modificada por todas essas considerações. É como um homem de casaca e gravata branca; não ha nada mais sério e mais grave n'uma sala de baile, mas colloque-m'o n'um monte, e diga se o pode olhar a sério.

– Quer dizer que não devo queixar-me aqui, sob pena de zombarem de mim.

– Tanto não digo; mas não o entenderão; isso não.

– Porém a minha doença não é só d'essas, que se não dão na aldeia, prima Magdalena; eu creio que verdadeiras desordens organicas…

– Ah! tambem? – Com esse aspecto de robustez?!..

– Se eu sei o que tu estás ahi a dizer Lena! – disse D. Victoria, que não tinha percebido bem o dialogo.

– É que eu, minha tia, teimei em fazer perder ao primo Henrique todos os maus habitos da cidade, com que veio para aqui. Sem isso não pode curar-se.

– Sujeitar-me-hei da melhor vontade a tão agradavel dominio.

– Principia mal, se principia com uma fineza. Já o avisei ha pouco…

– Será necessario tornar-me grosseiro, para me salvar? N'esse caso renuncio á cura.

– Grosseiro, não; basta que seja razoavel e sobretudo…

– Acabe.

– Acabo? eu sei? Eu ás vezes sou sincera de mais.

– Eu adoro as sinceridades.

– Já que o quer… É preciso que seja razoavel e sobretudo… desaffectado.

Henrique de Souzellas mordeu ligeiramente os labios, córando.

– Então acha?..

– Acho que está sempre a imaginar-se n'um salão; faz uns gastos de galanteria, desnecessarios e perdidos.

– Ó meninos, eu não vos entendo – repetia D. Victoria.

Magdalena sorriu.

– Digo eu que…

Um criado entrando com as cartas do correio não a deixou continuar.

– Sempre chegou o correio! – exclamou Magdalena com vivacidade, recebendo as cartas. – Por que veio tão tarde?

– A mulher contou-me lá umas historias de uma quéda, e…

– Coitada! Aconteceu-lhe algum mal?

– Esteja descançada, minha senhora. Ella partiu já e era um gôsto vêl-a a correr.

Magdalena abriu com pressa a carta recebida.

– É de meu pae – disse ella, olhando-lhe para a lettra e, depois de pedir licença, começou a ler para si.

– Pois agora – dizia, n'este meio tempo, D. Victoria a Henrique – o que deve é aproveitar estes bonitos dias para dar alguns passeios. As pequenas acompanham-n'o. Aonde me dizias tu no outro dia que querias ir, Christina?

– Eu! disse Christina, córando.

– Tu, sim, menina. Inda hontem me falaste n'isso. Ora onde era?..

– Á Senhora da Saude, mamã.

– Ai, é verdade, á Senhora da Saude. Ahi está já um passeio bonito. Vê? Saem d'aqui uma manhã cêdo, levam alguma coisa para lá comer, porque o ar do monte abre o appetite, e a cavallo estão lá n'um instante…

– A cavallo, mamã! d'aqui á Senhora da Saude? Ora! Vae-se muito bem a pé – notou Christina do lado.

– Isso é por os açudes.

– Pois por onde haviamos de ir?

– Por a Granja, que é melhor.

– Por a Granja! É uma legua!

– Que tem? mas escusam de trepar como cabras por o lado dos açudes, que é até perigoso; e depois para que hão de ir a pé, se para ahi estão os cavallos sem fazerem nada? É vontade de se cançarem.

– Mas appetece ainda mais n'este tempo. Só se… só se alli o sr. Henrique… – disse Christina, embaraçada ao continuar.

– Eu o quê, minha senhora?

– Perdão – interrompeu D. Victoria. – Por que não has de tu chamar primo ao primo Henrique? pois não chamamos tia á tia Dorothéa?

– Por isso mesmo, mamã, – respondeu Christina – os sobrinhos da tia Dorothéa não são…

– Não averiguemos d'esses parentescos, priminha, – acudiu Henrique – eu acceito a proposta da mamã, peço para ser considerado do numero de seus primos.

Christina baixou os olhos, sorrindo.

Henrique proseguiu:

– Mas parece que receiava por mim, quando falou em ir a pé á Senhora da Saude. Não sei onde é o logar, mas desde já me comprometto a não cançar.

– Não tem que saber – disse D. Victoria, caminhando para uma janella. – Ella lá está. Olhe que inda é necessario saber trepar.

– Tendo duas tão galantes companheiras de viagem – tornou Henrique, depois de reparar no monte escarpado que ficava a alguma distancia d'alli, o mesmo que o almocreve lhe mostrou – parece-me que daria a pé uma volta ao globo e que subiria a correr o Pico de Tenerife.

– O que eu lhe digo, primo – accrescentou D. Victoria – é que se acautele, porque se lhes vae a fazer todas as vontades, tem que vêr.

– Inda que morresse em tão agradavel serviço, teria de agradecer a Deus a morte.

– Cá me chegou aos ouvidos o cumprimento – disse Magdalena, que continuava a ler. – Logo ajustaremos contas.

– É implacavel esta nossa prima, não acha? – perguntou Henrique, sorrindo, a Christina, que por unica resposta só soube sorrir tambem.

– Pois então, é arranjarem, é arranjarem isso e quanto antes, que não ha que fiar no tempo. Eu se pudesse tambem ia, mas já não são passeios para mim, e depois estes criados…

Henrique de Souzellas receiou nova divagação sobre o assumpto predilecto de D. Victoria; mas felizmente acudiu-lhe a morgadinha, que disse, terminando a leitura da carta:

– Escreve-me o pae que tenciona vir passar comnosco as ferias do Natal e trazer Angelo comsigo. Promette demorar-se até o dia dos Reis.

As creanças saudaram a nova com gritos de alegria, e saltos de causarem inveja a um clown de circo.

D. Victoria zangou-se.

– Então que pouca vergonha é essa? Parecem-me um bando de patetas! Ora vamos! Já quietos. A culpa tem a Ermelinda, que já vos devia ter levado para a quinta. Ó Senhor, esta praga de criados, que nunca ha de fazer a sua obrigação!

As creanças reprimiram um pouco mais as expansões de seus jubilos, mas ainda ficaram cantando a meia voz, em musica de composição d'ellas, o seguinte:

– Vem o primo Angelo! Vem o primo Angelo! Ora viva, viva! Ora viva, olé!

– Pschiu! Calae-vos! – bradou ainda D. Victoria; e voltando-se para Magdalena: – Mas então como se entende isso, Lena? Então o pae diz que vem…

– Nas vesperas do Natal.

– Sim, nas vesperas do Natal, e vae…

– Depois dos Reis.

– Sim; está bem; e… sim… e então o Angelo?..

– O Angelo vem com elle. Quer vêr a carta?

– Não, menina. Mas é preciso não fazer confusão… Então…

– Não ha nada menos confuso… É só isto.

– Sim; pois agora, sim; agora está bem claro. Calae-vos, diabretes! Ó meu Deus, que consumição! Mas então por que não entregou o criado ha mais tempo essa carta? Eh! não que vocês dizem que elles…

– Ó tia, pois não ouviu que foi a mulher das cartas que se demorou, porque…

– Historias! Não me venham para cá com esses contos. Vocês estão sempre promptos para desculpal-os. São elles…

– Ó Lena, Lena – diziam as creanças – o primo Angelo não torna para Lisboa?

– Ha de tornar.

– Ora!

– Olha lá, ó Lena – disse D. Victoria – sabes tu o que me lembra?.. Mas eu nem sei… com estes criados que tenho… Mas a mim lembra-me… uma vez que teu pae vem com o pequeno… e… está agora cá o primo Henrique… lembra-me a mim… mas, já digo, era se eu pudesse contar com os criados que temos… lembra-me, juntarmo-nos todos para consoar… A prima Dorothéa tambem, e aqui o primo; mas era se…

Uma perfeita ovação acolheu o projecto; as creanças levaram as suas demonstrações de enthusiasmo até o delirio, penduraram-se ao pescoço, á cinta, ao avental da mãe, gritando todas a um tempo:

– Ai, sim, mamã, sim; mande convidar a tia Dorothéa, mande! E ha de ficar em casa, sim? Olhe e… e arma-se o presepe… e… e… e havemos de cantar as janeiras… Mande, mande, mamã, por as alminhas; ora mande.

D. Victoria fingia arrenegar-se com aquella pequenada, e erguia o braço, como para a fustigar asperamente, mas, contra a sua vontade, rompia-lhe o riso dos labios.

– Saiam d'aqui! – exclamava ella, quando conseguiu estar séria. – Saiam!.. Não ouvem?.. Espera que eu vos falo… Ai, não fazem caso? Ora esperem… Marianna, já devias ter mais juizo… Então, Eduardo! Tu tambem? Não tem vergonha! Um homem quasi! Saiam d'aqui, estafermos!

A ideia das consoadas em familia fôra uma ideia que a ninguem deixára impassivel. Christina, a timida Christina, não disfarçou um movimento de jubilo; as mãos ajuntaram-se-lhe instinctivamente, e raiou-lhe no olhar suave um fulgor pouco costumado.

A propria Magdalena não se mostrou superior áquella tocante puerilidade.

Approximou-se com viveza da tia, e beijando-a nas faces, disse-lhe affectuosamente:

– Ora ahi está o que é muito bem pensado.

– Pois sim, sim, mas o peor é… os criados – disse D. Victoria.

– Quem fala n'isso? Na noite de Natal quem mais trabalha somos nós. Demais, teremos, para dirigir as tarefas, a Maria de Jesus, a criada da tia Dorothéa.

– Isso é que é a perola das criadas! Oh! aquella prima Dorothéa, aquella sua tia, primo Henrique, é que teve felicidade! Mas dizes tu… Bem se importam os de cá com a Maria.

– Não tem dúvida. N'aquella noite quanto mais barulho e desordem, melhor – aventurou-se a dizer Christina, com impeto revolucionario.

– Ahi temos outra! Não, filha; isso é que não. Para barulhos é que eu já não estou. Então, não.

– Está resolvido – disse a morgadinha, para cortar pelas divagações da tia. – Aqui o sr. de Souzellas – accrescentou, com maliciosa inflexão – fica desde já encarregado de transmittir á tia Dorothéa o nosso plano e, ao mesmo tempo, officialmente convidado.

– Acceito da melhor vontade.

– Não sei se o deverá dizer. É preciso que o avise de que n'aquella noite todos teem de trabalhar na cozinha; a ninguem se dispensa, um minuto, pelo menos, de collaboração nos guisados. Por isso veja lá…

– Ó menina, tens coisas! – disse D. Victoria. – Deixe-a falar, primo.

– Não é deixe-a falar. Eu não dispenso ninguem.

– E eu prometto não me recusar. Promptifico-me a tornar detestaveis os pratos em que puzer a mão. Que mais querem?

Foi alegremente acolhida a promessa.

As creanças, familiarisadas já com Henrique, em quem tinham adivinhado um humor jovial, o que é sempre para ellas um motivo de attracção, trepavam-lhe já aos joelhos e dirigiam-lhe perguntas sobre perguntas, difficultando-lhe as respostas.

– Havemos de jogar o rapa, não havemos?

– Havemos de jogar, havemos – respondeu Henrique.

– E o par ou pernão?

– Tambem; tambem havemos de jogar o par ou pernão.

– E?..

– Tudo, tudo; havemos de jogar tudo.

– Olhe: e sabe contar historias?

– Sei tambem contar historias.

– Então ha de contar-nos, que nós tambem lhe contamos a da Gata borralheira, a da Maria de pau e a da Menina com as tres estrellinhas na testa.

– Ora, o sr. Henrique já as sabe – disse, fazendo-se sisuda, Marianna.

– Pois não sei, não, senhora; quem lhe disse que eu as sabia? hei de querer ouvir isso tudo.

– Ó meninos! – exclamou D. Victoria, que até alli estivera distrahida a discutir com Magdalena. – Então isso que é? Já para baixo. Ai, se lhes dá confiança, está arranjado, primo.

– Deixe-os estar, minha senhora, este contacto de alegrias é salutar; pegam-se.

– E não o diga a brincar – disse Magdalena – que tambem confio n'essas creanças para o curarem dos seus males.

– Então devéras emprehendeu curar-me?

– Com toda a certeza.

– N'esse caso havemos de discutir devagar esse ponto de pathologia.

– Não havemos, não, senhor. É mau medico o que soffre que o doente o interrogue sobre a molestia e o tratamento. O medico deve ser obedecido com fé, e cega.

Christina que, havia muito, defronte de Magdalena, fazia esforços por lhe chamar a attenção, resolveu-se a falar-lhe.

– Lena – disse ella – que te parece a lembrança que teve ha pouco a mamã?

– A das consoadas? Excellente.

– Não, menina, a do passeio á ermida.

– Ah! Excellente tambem. Marquemos já o dia.

– Quando queres?

– Depois de ámanhã, que é quinta feira.

– Seja.

– Que diz, primo Henrique?

– Quando quizerem, primas; agora mesmo…

– Mas, veja lá, atreve-se a fazer uma madrugada?

– Pois não viu hoje?

– Ai, pois não! Na aldeia não se chama isso uma madrugada. É preciso que se levante ás horas, a que se deitava na cidade.

– Que estás a dizer, Lena? – acudiu Christina. – Deixa-a falar. Basta que saiamos d'aqui ás cinco horas.

– Esta innocente Christina! Pois não é o mesmo que eu digo? Pergunta ao primo Henrique se tinha costume de se deitar mais cêdo em Lisboa.

– Engana-se, prima Magdalena; lembre-se de que, ha perto de um anno, sou valetudinario.

– Ai, é verdade, que me tinha esquecido. O que vejo é que ha por aqui muita indolencia.

– Quem a ouvir falar, ha de julgar que será ella a mais madrugadora; ora havemos de vêr – disse Christina.

Magdalena poz-se a rir.

E o passeio ficou ajustado. A morgadinha lembrou que se convidasse Augusto, por ser conhecedor do sitio e poder mostrar os mais bellos pontos de vista.

Henrique saiu finalmente da quinta do Mosteiro, já retardado uma boa hora ao que promettera á tia Dorothéa.

Um criado serviu-lhe de guia até Alvapenha.

Henrique de Souzellas, ao findar aquella manhã, era inteiramente outro, do que viera para a aldeia. Todas aquellas horas se haviam passado, sem que o affligissem os males habituaes, sem que nem sequer pensasse n'elles. O viver intimo a que assistira, a troca reciproca de affectos entre os membros de tão numerosa familia, a franqueza cordial com que fôra recebido, produziram n'elle uma impressão profunda.

Costumado ao viver desconsolador e de gêlo de rapaz solteiro e só; não passando, nas casas que visitava, além da sala de visitas, esse palco artificioso e reservado, onde as familias ante as familias representavam a comedia social, Henrique estranhára, mas agradavelmente, o espectaculo, quasi novo, d'aquelle interior, d'aquelles modestos costumes, d'aquellas alegrias, que não se envergonham de apparecer sem reservas nem disfarces. Foi uma revelação que recebeu. Sorriu-lhe a ideia de ter um dia uma familia assim; de viver entre creanças que lhe trepassem aos joelhos, na companhia de affectos, que alli via manifestarem-se, e até com alguem que ralhasse com os criados, á maneira de D. Victoria.

Escusado é dizer que a imagem da morgadinha apparecia sempre n'estes quadros que lhe traçava a phantasia: assim como, nos quadros dos grandes mestres, apparecem quasi sempre reproduzidas as feições queridas da mulher que elles traziam no pensamento e a quem deram assim a immortalidade.

De manhã parecera-lhe a aldeia um paraiso terreal; completára-o a figura de uma mulher; sem o sorriso d'ella nem o primeiro homem seria feliz no eden, onde a mão de Deus o collocára.

– Anda, vagaroso, anda – disse D. Dorothéa a Henrique, assim que o viu chegar. – Se o jantar tiver esturro, a culpa é tua.

– Perdôe-me, tia. Demorei-me no Mosteiro…

– Ah! foste lá? E então gostaste d'aquella gente?

– É uma familia para o coração. Passa-se o tempo alli tão depressa! A morgadinha, sobretudo, é adoravel!

– Ai, ai; como elle nos vem! Olha lá no que te mettes, menino! A mina boa é, mas… filho, anda alli encanto, que ainda ninguem descobriu.

Henrique fitou os olhos na tia Dorothéa, que dissera isto com certa malicia.

– Que quer dizer, tia?

– Tu bem me percebes. Anda lá, anda. Se fizesses tu o milagre, se quebrasses o encanto, grande coisa seria; mas sempre te digo que não tomes a coisa a peito, que podes aggravar o teu mal.

Henrique levou o caso a rir, mas é certo que esteve um pouco mais preoccupado e distrahido no resto da tarde.




VI


O leitor, se alguma vez realisou uma viagem na companhia de qualquer amigo, ha de ter observado que, durante os primeiros tempos que passam juntos n'uma terra para ambos desconhecida, tão alheios ás coisas como ás pessoas, no meio das quaes se vêem, nem por momentos se soffrem separados; um segue sempre o outro em todos os passos que dá, precisa d'elle para communicar-lhe as primeiras impressões recebidas, e pedir-lhe em troca as suas; á medida porém que, pouco a pouco, se vão familiarisando mais com os logares e com as personagens d'aquelle mundo novo, afrouxa a constricção d'esses laços, e cada um principia a readquirir a independencia individual, que de motuproprio havia abdicado.

Um facto similhante nos succede com Henrique de Souzellas. Encontrámol-o na estrada; na companhia d'elle entrámos em uma terra, onde tudo nos era estranho; nada mais natural do que dar o braço um ao outro, passar juntos a manhã, e fazer, em commum, as nossas visitas. Agora, porém, que temos já algum conhecimento da terra e da gente, é tempo de nos declararmos independentes, e sacudirmos o jugo de uma companhia forçada, a qual, embora seja de um amigo estimavel, se é forçada, é sempre jugo, em certas occasiões.

Os proprios Castor e Pollux, ou Pylades e Orestes, penso eu, haviam de ter momentos em que se desejassem sós; se é que não deviam aos deuses a felicidade de possuirem curtos espiritos, o que não creio.

Deixemos, pois, Henrique de Souzellas entretendo com a tia Dorothéa a mais pacifica das conversas que podem auxiliar a digestão de um jantar; deixemol-o no tranquillo recinto de Alvapenha, e vamos associar-nos a um dos nossos recentes conhecimentos, que é Augusto, o mestre de Marianna e de Eduardo, aquelle pallido rapaz que entrevimos na sala da casa do Mosteiro.

Ao sair d'alli, Augusto seguiu através de campos e á beira de vallados, com aquelle ar pensativo que lhe era peculiar.

O pouco que da historia d'elle soubemos, pelas palavras da morgadinha, é já bastante para que nos não admire a quasi incessante melancolia de Augusto.

Aos vinte annos e sem familia! com intelligencia e mal podendo, á custa de sacrificios, cultival-a, e eleval-a á altura das suas aspirações! Alma generosa e compassiva, tendo muita vez de limitar-se a chorar os infortunios que via, porque a pobreza lhe negava meios de remedial-os!.. não serão estas ainda nuvens bastantes para toldarem a luz de uma existencia, embora a juventude as illumine?

Havia alguns annos que esta disposição para a tristeza se exacerbára em Augusto. Coincidiu o facto com algumas circumstancias, que convém referir.

A morgada dos Cannaviaes, madrinha de Magdalena e de quem viera a esta o nome de morgadinha, pelo qual mais conhecida era na aldeia, havia ao morrer instituido um legado a favor de Augusto, então creança, com a condição d'elle abraçar a vida ecclesiastica. O conselheiro, pae de Magdalena, devia administrar este legado, educando o rapaz nas escolas de Lisboa ou Porto, desde o dia do seu primeiro exame até o da primeira missa, porque n'esse lhe entregaria o capital por inteiro.

Isto succedeu no tempo em que a mãe de Augusto, que havia dois annos viuvára, luctava com a miseria, e o rapaz, pela sua penetração e pelo enthusiasmo com que aprendia, causava o espanto do velho mestre regio da localidade.

Foi por todos abençoada a memoria da morgada, por tão bem cabido legado, que era ao mesmo tempo que remedio ás privações de uma familia, premio e estimulo á intelligencia e á applicação de uma creança, que promettia vir a ser… Deus sabe o quê.

Ninguem se lembrou de perguntar a si proprio se a clausula, posta pela legataria como condição á concessão do beneficio, não podia ser uma crueldade que o annullasse; se comprar um futuro por dinheiro, sem querer saber a quantidade de aspirações, de esperanças, de phantasias que sejam, a que se tem de renunciar pelo contracto, não é uma iniquidade; se não era uma quasi simonia ir a casa do pobre, e fazendo luzir os reflexos do ouro nas sombras da miseria, propôr-lhe trocar por estes thesouros, que o fascinam, os valiosos thesouros da alma. Eu por mim abomino estes legados condicionaes, que um espirito malevolo, egoista e desejoso de dominar ainda depois da morte, tantas vezes dicta; essas meigas generosidades são ás vezes a causa do infortunio de uma vida inteira; acceites ou recusadas, é raro que depois, a cada provação que nos experimenta, uma voz interior nos não exprobre o partido que abraçamos. – «Louco! para que hesitaste em trocar meia duzia de phantasmas por um bem real? Quem te mandou sacrificar a vaporosos idolos de poetas o beneficio que te offereciam?» – dirá ella aos que rejeitaram o pacto. – «Ambicioso! – clamará aos outros – ahi tens a felicidade que julgaste comprar á custa do que ha de mais nobre na alma humana; embriaga-te agora no incenso, em que envolveste o altar do bezerro de ouro, consumindo ahi as tuas mais santas e generosas aspirações.» Augusto não adivinhou porém logo a crueldade da disposição testamentaria. Era muito creança ainda; e depois uma ideia nobre o preoccupou; comprehendeu que ia ser o amparo d'aquella pobre mãe, que só podia abrigal-o com os extremos do seu muito amor. Seu pae, morrendo, apenas conseguira deixar uma herança; foi á viuva o dever de velar pelo filho. Augusto exultou vendo que podia inverter aquelle legado, velando elle pela fraca mulher, que, para bem o cumprir, esgotaria de certo a vida.

Redobrou por isso a solicitude no aprender; desenvolveu-se mais e mais a intelligencia, quasi espontaneamente, pois justo é confessar que bem rudes eram os cuidados de cultura que o velho magister lhe sabia dar. Mas quem ignora os surprehendentes effeitos que da intelligencia e do estudo, da aptidão e da vontade, podem resultar? Dotem um homem d'essas duas faculdades poderosas e neguem-lhe embora os meios de progresso, elle caminhará, inventando-os primeiro, se tanto lhe fôr preciso.

E depois, é um grande alento aos espiritos superiores a consciencia de uma nobre missão a cumprir. Não ha fadigas que tal estimulo não vença; abnegação, que não inspire.

A Augusto era-lhe incitamento a ideia de que sua mãe precisava d'elle.

Quando ainda aos seus treze annos fôsse já bem conhecida a grandeza dos sacrificios que lhe exigiam, não hesitaria talvez, instigado por aquella aspiração; quanto mais que ainda mais lhe tinham animado os sonhos, as doces imagens, tão gratas ao coração do adolescente, e a que teria de renunciar.

Suspirava por o dia do seu primeiro exame, o qual, graças aos esforços empregados, não se fez esperar muito.

Quando se approximava a occasião, o pae de Magdalena mandou vir Augusto para Lisboa e hospedou-o em sua casa até que chegou o dia.

Não confiando demasiadamente no ensino publico da aldeia, o conselheiro quiz que o seu pequeno hospede recebesse algumas lições de um professor da cidade, e d'este obteve as melhores informações da intelligencia do rapaz, que só por milagre d'ella conseguira sair muito pouco eivado dos vicios do ensino de campo.

Augusto demorou-se algumas semanas em casa do conselheiro. A final fez o exame, no qual foi felicissimo, obtendo n'elle as mais distinctas qualificações.

Imagine-se o effeito que a noticia produziu na aldeia. Exaggerando-se, dizia-se por lá que em toda Lisboa corria a fama do rapaz, e houve até quem não hesitasse em affirmar que a creança confundira os mestres, que fôra uma maravilha.

O mestre-escola reclamou para si a gloria do acontecimento, fundando-se em que, através do discipulo, resplandecia a sciencia do mestre.

Os invejosos disputavam-lhe porém tão inquestionavel gloria e riam-se d'elle.

A pobre mãe, essa, levou todo o dia a chorar de prazer e a render graças á Virgem, a quem tanto encommendára o filho.

Voltou Augusto á terra.

Era o rapaz o assumpto de todas as conversas: olhavam-o como um prodigio. Todos o queriam vêr, como se até alli o não tivessem visto bem, e de feito todos o foram vêr; nem o abbade, nem o administrador, nem o presidente da camara faltaram. Foi tudo. Pois bem, de tantos que o viram, não houve um só que não notasse que o pequeno vinha triste.

Ninguem contestava o facto: que elle como que saltava aos olhos; as interpretações é que variavam.

– Aquillo é dos ares de Lisboa; a quem não está costumado… dizia um.

– São canceiras de estudos – aventava outro. – Ha lá coisa que puxe mais por uma pessoa do que o estudo!

– Não que vocês cuidam! Um exame sempre abala a gente cá por dentro – dizia um doutor, que levára dez annos a vencer um curso de cinco.

Fôsse pelo que fôsse, Augusto trouxera de Lisboa uma melancolia, que os ares da sua terra não dissiparam e que augmentava sempre que lhe falavam no futuro e no legado da morgada.

Quem mais a estudou, e sentiu aquella subita melancolia, foi, como era de suppôr, a receiosa mãe. Deus sabe que noites mal dormidas, que sustos e que intimos terrores ella lhe causou! Perguntas, supplicas, arguições, lagrimas, promessas, nada tiravam de Augusto, que teimava em responder que nada tinha que o affligisse, que era a illusão de quem o via a tristeza que lhe suppunham, e, para confirmar o que dizia ria; mas era mais triste aquelle riso, do que o pranto, em que se desafogasse.

Para breve estava a entrada de Augusto no collegio de Lisboa, onde, á custa do legado da defuncta proprietaria dos Cannaviaes, devia continuar nos seus estudos, quando o rapaz pediu para ficar algum tempo na aldeia. Não se pôde atinar com os motivos d'este pedido. Indolencia não era; pois no entretanto começou a estudar os rudimentos do latim com o illustre professor, que o leitor conhece já, mestre Bento Pertunhas.

A saude vacillante da mãe de Augusto declinou n'esse inverno; o que veio dar outro motivo á demora do filho.

Dias e dias passou o pobre rapaz sentado á cabeceira do leito dividindo os seus cuidados entre o estudo e os carinhos pela estremecida enferma. Dois annos se passaram d'esta vida, e quando, ao fim d'elles, Augusto abandonou aquelle leito, foi depondo um beijo nas faces geladas de um cadaver.

Era orphão.

A vaga sombra de melancolia, que já lhe toldava o rosto, condensou-se-lhe mais então. Era quasi um negrume de tristeza.

Por esse tempo, veio o conselheiro trazer Magdalena para a aldeia, pois receiava pela saude d'ella se persistisse em Lisboa.

O conselheiro propunha-se levar comsigo Augusto, quando voltasse a Lisboa. Uma manhã, porém, este, de pouco mais de quinze annos, procurou-o e disse-lhe com uma gravidade, que revelava uma tenção meditada e irrevogavel:

– Venho prevenir v. ex.a de que desisto do legado da sr.a morgada. Não quero ordenar-me.

O conselheiro fitou-o, estupefacto.

– Não queres ordenar-te! Por quê?..

– Já não tenho mãe a quem amparar. Por ella forçaria a minha vocação sem remorsos; por interesse proprio não o posso fazer; parece-me um sacrilegio.

O conselheiro era um homem muito do seculo. O seu trato social, a frequencia dos circulos politicos e elegantes, haviam-lhe dado todas as boas e más qualidades, que caracterisam aquella classe de homens, e sabe-se que a candura de sentimentos não entra no numero das mais habituaes d'essas qualidades. Tinha uma razão clara, mas fria; se abraçava uma boa causa, não o fazia cedendo ao enthusiasmo, mas sómente depois de ponderar fleugmaticamente os fundamentos em que ella se baseava; assim era que, em politica, se costumára a contemporisar, espaçando a adopção de qualquer medida, inquestionavelmente boa, para tempos em que fôsse mais conveniente; não se apaixonava por utopias, desconfiava d'ellas; havia muito tempo que desviára dos olhos o prisma encantado, através do qual olham o mundo os poetas e todos os mais sonhadores; costumára-se a marcar por modelo nas differentes carreiras da vida, não um typo ideal dotado de todas as virtudes, limpo de todos os defeitos e vicios; assentára a menor altura o alvo: parecia-lhe que bom fito eram já os individuos que tinham conseguido maior consideração na sua classe; as maculas que elles tivessem, eram, por esse facto, maculas auctorisadas. O pensar de outro modo era pensar de romance; agradavel para entreter, porém mau nas applicações ás coisas da vida. N'uma palavra, o conselheiro era um homem de bem, mas na esphera mundana; não um d'aquelles typos de pureza crystallina, através da qual parece passarem sem desvio os raios da luz celeste, mas já um tanto embaciado do bafo social, que não o fazia ainda totalmente opaco.

Por isso sorriu á declaração de Augusto. A carreira ecclesiastica não lhe parecia tão escabrosa como o futuro sacerdote a fazia; nem tão dura a lei, como em theoria se mostrava. O conselheiro não pensava necessario tomar ao pé da lettra certos deveres impostos; o mundo seria, como elle, tolerante em naturaes infracções; por tudo isso se riu. Fez a Augusto uma longa dissertação sobre as vantagens da vida ecclesiastica, sobre os muitos interesses que lhe promettia, e a leviandade com que elle queria renunciar a uma carreira segura movido pelas instigações de um espirito timorato ou de uma visão phantastica.

Augusto insistiu. Sem córar perante o sorriso sceptico do conselheiro, declarou que não abraçaria a vida ecclesiastica sem que se sentisse com a coragem precisa para cumprir todos os deveres que ella lhe impunha; que era precisa uma grande abnegação, e que elle, depois da morte de sua mãe, não tinha a certeza de a conseguir. Nos interesses não pensava, e se pensasse, seria isso a primeira prova de não estar preparado para a missão de que se queria encarregar.

Quando alguem abraça com lealdade e franqueza uma boa causa, difficilmente é vencido. O conselheiro, costumado a não recuar nas mais acerbas luctas do parlamento, calou-se dentro em pouco ás objecções d'aquella creança. Como que teve remorsos de tentar sequer desvanecer as illusões a que o via abraçado, – illusões pelo menos as suppunha elle; parecia-lhe uma obra satanica envenenar com um sorriso aquelle ideal, em que vivia. – Respeitou-o e calou-se.

– Alguma creancice amorosa dos quinze annos – pensou para si. Deixemos ao tempo convencel-o. Não me encarregarei eu d'esse papel, que é pouco sympathico. Quem me restituira aquellas canduras! Teria alcançado menos no mundo, mas talvez tivesse gosado mais… ou melhor…

O conselheiro cedeu apparentemente, esperando que a reflexão modificaria, mais tarde, as ideias do rapaz.

Exigiu d'elle que a ninguem annunciasse as tenções, em que estava de não se ordenar, pelo menos emquanto não passasse mais tempo sobre aquella resolução.

E uma vez que ficava na terra, pediu-lhe o conselheiro que se encarregasse da primeira educação de Angelo, então de nove annos; pois mais confiava para isso em Augusto, do que no professor official.

Augusto acceitou com prazer a incumbencia, que, sobre adequada aos seus gôstos, lhe abria uma carreira, que elle já imaginára adoptar.

De então nasceu uma intima amizade entre Angelo e Augusto. Foram rapidos os progressos do discipulo, e não menos reaes as vantagens que ao mestre resultaram do ensino, que lhe desenvolvia cada vez mais a intelligencia. – O conselheiro tinha motivos para estar satisfeito da escolha.

Ao fim de um anno as repugnancias de Augusto em acceitar o legado eram as mesmas; o egoismo paternal do conselheiro não o deixou ser muito ardente a combatel-as. – Espaçou-se mais uma vez a decisão.

Outras lições appareceram a Augusto, as quaes elle acolheu com gôsto; o mestre-escola reclamava tambem muitas vezes o seu auxilio; compadecido da sua velhice, Augusto nunca lh'o recusou.

O velho acabou por declinar n'elle o serviço todo, sem que Augusto consentisse em receber por isso o menor estipendio.

O publico não se cançava de perguntar quando seria que o rapaz principiaria os seus estudos em Lisboa e por que o não fazia já. Como não obtivesse resposta, commentava o facto, como costuma commentar todos os que não entende.

No entretanto a educação de Augusto não ficára estacionaria. Com grandes sacrificios a continuára elle; e n'um êrmo, como era aquella aldeia, tinha muito de milagre o que fazia.

O latim de mestre Bento já mal satisfazia ás impaciencias do espirito d'este discipulo enthusiasta; e não era raro que a intelligencia de Augusto visse mais fundo nos textos, do que a experiencia do mestre.

O acaso favoreceu os desejos do estudante.

N'uma freguezia proxima estava, como abbade, um doutor em theologia, homem de solido saber e de reputação extensa.

Um dia em que, por convite do seu collega, viera assistir e prégar na festa do orago da aldeia, o padre encontrou-se com Augusto na sacristia e, conversando-o, admirou-lhe a penetração, captivou-se da sua modestia e lamentou não estar mais perto d'elle, porque o auxiliaria, como pudésse, nos estudos.

Augusto perguntou-lhe se era sincera aquella vontade; affirmando-lhe o padre que sim, respondeu que não seria então estorvo a distancia, porque elle a venceria.

E d'ahi em deante, duas vezes por semana, ás quintas feiras e domingos, franqueava legua e meia dos mais escabrosos caminhos, para ir ouvir as lições do erudito abbade. Assim se aperfeiçoou na latinidade, cultivou a philosophia e adquiriu o gôsto pelos nossos velhos prosadores e poetas. Vinha de lá carregado de livros para ler durante a semana. Toda a bibliotheca do padre lhe passou pelas mãos.

Era porém o theologo classico exclusivo e nada visto em linguas e litteraturas modernas.

A sorte não recusou ainda a Augusto um novo mestre.

Entre os muitos estudos de estradas, de que os governos em Portugal fazem preceder, vinte annos antes, a construcção definitiva de uma só, que de ordinario sae sempre como se não fôsse tão estudada, um houve que levou á aldeia, em que eu e o leitor nos achamos, um engenheiro que ahi fez quartel e centro de operações, durante tres mezes inteiros.

A casa em que elle se alojou ficava proxima da de Augusto. Cêdo travaram conhecimento os dois. O engenheiro o menos que possuia eram livros de mathematica; mas, emquanto a litteratura moderna, trazia nas malas e bahús uma excellente provisão.

Não tendo que fazer ás noites, entreteve-se a ensinar o francez a Augusto e a ler-lhe os livros da sua bibliotheca portatil. Voavam as horas a Augusto n'aquelles serões; n'elles aprendeu todos os nomes da nossa litteratura moderna, bem como os principaes da de França e de Inglaterra.

Quando o engenheiro partiu da aldeia já Augusto sabia o francez bastante para se aperfeiçoar por si; este amigo deixou-lhe em lembrança grande parte dos seus livros, que Augusto releu muitas vezes.

Attingiu finalmente Angelo a idade de precisar do collegio. O conselheiro, ao leval-o comsigo, insistiu mais uma vez com Augusto para que viesse tambem e acceitasse o legado da morgada. Foi em vão, encontrou-o ainda inabalavel.

E d'esta vez fez publica a sua desistencia, e o ambicionado patrimonio foi concedido a outro.

Mezes depois morria o velho mestre-escola da aldeia.

Augusto escreveu ao conselheiro, declarando-lhe que pretendia aquelle logar, que já havia muito tempo servia, e pedindo-lhe para que se interessasse por que elle o obtivesse. O conselheiro quiz tirar-lhe da ideia tal projecto; escreveu-lhe que, na idade em que estava Augusto, o não ter ambições era indicio de uma profunda doença moral; que a posição a que elle aspirava, equivalia a uma sepultura estreita a que se acolhesse vivo. Augusto persistiu porém no intento; o conselheiro empenhou-se por elle em Lisboa. Conseguiu que uma portaria, meio pelo qual se faz em Portugal tudo que é contra lei expressa, o dispensasse da idade que ainda não tinha, pois mal completára dezenove annos, e Augusto foi por conseguinte admittido a concurso para tão pouco disputado logar e provido n'elle por tres annos. O conselheiro, a quem não fôra impossivel obter-lhe despacho vitalicio, quiz vêr assim se, no fim de tres annos, o obrigava a abandonar tão laboriosa e mal recompensada carreira, e de proposito o fez despachar temporariamente. Comquanto o legado da morgada tivesse tido já outra applicação, o conselheiro não hesitaria em proteger, em qualquer carreira, o mestre de seu filho.

Mas ao fim de tres annos, Augusto, apesar de por experiencia conhecer já os espinhos da profissão, apresentou-se novamente ao concurso para obter novo despacho. Na época em que abrimos esta narração, voltára Augusto de pouco de ultimar a nova prova; e estava pendente ainda a decisão do ministerio competente. D'esta vez tivera um competidor, homem muito protegido por influencias da localidade, as quaes ainda não tinham podido vencer a do conselheiro, que pugnava por Augusto.

Desde que fôra para Lisboa, Angelo não se esquecera de escrever amiudadas vezes a Augusto, contando-lhe dos seus estudos, e descrevendo-lhe a sua vida na capital; e quando vinha a férias, procurava transmittir ao que fôra seu mestre a sciencia que durante o anno adquiríra.

Foi assim que Augusto principiou a estudar a lingua ingleza, a geographia e a historia.

Recebido o primeiro impulso, a sua intelligencia e applicação faziam o resto.

Um homem que havia na aldeia e com quem cêdo teremos de travar conhecimento, um velho herbanario, para alguns um sabio, para outros um louco, para todos um homem honrado, concorreu tambem, com o seu contingente, para a educação de Augusto.

De tempos a tempos, este velho mysterioso apresentava-se em casa d'elle com um pacote de livros debaixo do braço e, sorrindo, pousava-lh'os em cima da mesa.

Eram quasi sempre aquelles, que Augusto mostrava ou sentia mais desejos de possuir. Da primeira vez, Augusto fitou o herbanario com espanto. Ninguem o suppunha rico; como podia elle pois obter aquelles livros, alguns dos quaes eram de preço? O velho porém disse-lhe, ao perceber-lhe a surpreza:

– Não queiras saber da minha vida, rapaz. Suppõe que eu tenho a servir-me uma vara de condão ou uma fada qualquer, e deixa correr.

Augusto acabou por persuadir-se de que o herbanario tinha accumulado riquezas, á fôrça de economias: porque de economias vivera sempre.

De pequeno merecera áquelle velho uma singular sympathia, e com affecto de pae fôra sempre tratado por elle.

Resignou-se a acceitar sem reflexões; até porque sabia ser facil o escandalisar o velho com ellas. O que fazia era evitar, na presença d'elle, qualquer palavra que pudésse denunciar desejos de possuir um livro qualquer. Mas o velho, como se tivesse de facto algum poder occulto a informal-o, ás vezes parecia adivinhar; e trazia-lhe livros que Augusto devéras desejava, mas a respeito dos quaes tinha a certeza de lhe não ter falado, nem eram d'aquelles que o velho conhecia.

A seu pesar via-se quasi inclinado a adoptar a crença supersticiosa do povo a respeito d'aquelle seu velho amigo.

Pensando melhor, pareceu-lhe procederem de Angelo as informações, pelas quaes o velho se guiava na escolha. Não lhe attribuia porém o presente, porque as economias de Angelo não chegavam para tanto.

Depois de tudo quanto temos dito de Augusto, poderá ainda o leitor estranhar os ares pensativos com que o vemos?

Poucos passos andados, depois que saiu do Mosteiro, encontrou Augusto a distribuidora das cartas, que lhe entregou uma sobrescriptada para elle. Era de Angelo.

Augusto abriu-a immediatamente e leu-a ainda pelo caminho.

Era uma extensa carta, em que se succediam os periodos em um d'esses longos, incoherentes e diffusos arrazoados, que constituem a essencia de uma carta de amigo para amigo.

Angelo falava dos seus estudos, de saudades da terra, de esperanças e de projectos, projectos que, n'aquellas idades, nascem e morrem a todo o instante. Terminava esta carta, em que lhe participava a sua vinda á aldeia pelo Natal, com o seguinte periodo:

«Peço-lhe que diga á Lindita que se não esqueça de mim. Dentro de poucos dias conto ir vêr os coelhos do quintal d'ella, e ajudal-a a tirar a agua do poço. O pae d'ella chega ahi ao mesmo tempo que esta carta; leva um livro para si.»

Augusto sorriu, ao ler o post-scriptum.

– Pobre Angelo! – murmurou elle, – Deus não permitta que sobreviva á tua ultima creancice essa sympathia por Ermelinda. Estas generosas affeições de creança muitas vezes, ao crescer, envenenam o coração.

Havia tanta amargura n'estas reflexões de Augusto!

E, como absorvido n'ellas, caminhou para casa do recoveiro Cancella, que era o pae da pequena, a quem na carta se alludia.




VII


A casa do recoveiro Cancella ficava n'uma das mais estreitas ruas da aldeia e ao lado de um pequeno quintal, objecto dos cuidados e das diversões do proprietario, que alli gastava algumas horas disponiveis da sua occupada e laboriosa vida.

Cancella era um verdadeiro Judeu errante da aldeia. A maior parte do tempo ia-se-lhe nas estradas; pernoitava hoje n'uma estalagem; viam-o ámanhã já a mais de seis leguas de distancia; acotovelava um dia a multidão nas ruas e feiras da cidade; no outro entretinha os curiosos da sua terra, deixando-lhes entrever os thesouros da experiencia adquirida á custa de muitos annos de fadigas.

As estradas em Portugal e os novos meios de transporte, que conjunctamente vieram, não destruiram totalmente esse typo dos antigos tempos, anterior a ellas. Além da época, que parecia dever marcar-lhes limite á existencia, passaram, sustentados pela fôrça dos habitos e justificados pelas irregularidades do serviço das postas; e Deus sabe quando de vez acabarão. Mas Cancella era além d'isso um recoveiro de uma especie rara e superior. Em todas as profissões ha sempre, no meio do vulgo, que as exerce sem enthusiasmo nem consciencia dos gôsos, superiores aos interesses, que ellas podem offerecer, certo grupo de escolhidos, que as idealisam, e enxergam um raio de poesia através das sombras, uma flor entre os espinhos. Cancella era d'estes; era o poeta da sua profissão. Tinha em si o que quer que era de um touriste, e assim aproveitava todos os ensejos que se lhe offerecessem de explorar algum ponto do paiz, ainda por elle desconhecido.

Este instincto levava-o frequentemente a Lisboa. As muitas relações do conselheiro, pae de Magdalena, com as familias da aldeia, e a barateza relativa das recovagens operadas por este meio primitivo, proporcionavam-lhe algumas occasiões d'isso, as quaes o Cancella de boamente aproveitava. Era de uma d'essas expedições que elle devia voltar aquella manhã, como o dava a entender a carta de Angelo.

Quando porém Augusto lhe bateu á porta, achou-a ainda fechada; escutou á fechadura, mas não pôde verificar o menor signal de que alguem estivesse dentro.

– É cêdo ainda – pensou comsigo. – Vejamos se estará em casa do compadre.

Seguiu mais para deante pela rua por onde viera. – A poucos passos mais, e do lado opposto, deparou-se-lhe outra casa de aspecto não menos rustico do que a primeira, uma pequena casa terrea, de uma só porta e uma só janella, e com o respectivo quintal ao fundo.

Do interior vinha um sussurro de vozes, como de conversa animada; julgando que seria o Cancella, de quem o proprietario era, além de vizinho, confidente e compadre, Augusto empurrou a porta, que estava apenas cerrada e entrou.

A primeira sala achou-a deserta. Era um aposento quadrado, todo adornado á volta de cruzes de pau, para as devoções da via sacra, e de imagens de santos e santas em caixilhos de todos os tamanhos. Mais do que os outros enramalhetado e enfeitado, via-se alli o bento registo de uma confraria, havia pouco tempo instituida na terra pelos missionarios, o qual occupava o logar de honra n'aquella devota exposição.

Era recente na aldeia o estabelecimento d'esta confraria, sociedade um tanto mysteriosa, por meio da qual seus interessados instituidores só visavam a dar o reino do céo aos filiados, contentando-se apenas, em paga, com o do mundo, do qual, lembrados de antigos tempos, teem saudades já. Os missionarios, certos evangelisadores em terras onde a palavra do Evangelho não é chave que abra a porta, pela qual entraram os martyres no céo, lá andavam por aquelle tempo, na aldeia onde se passa a acção d'esta historia, plantando a vinha, que elles chamavam do Senhor; as mulheres, abandonando os lares, seguiam-os como rebanhos; o culto catholico era por elles cada vez mais arrebicado com orações absurdas e ceremonias ridiculas, e o eterno anathema da ignorancia contra o progresso da sociedade servia de thema predilecto aos seus barbaros discursos.

Ardente proselyta d'estes apostolos de fé duvidosa, a sr.a Catharina do Nascimento de S. João Baptista, a metade feminina do casal em questão, tomára por modo de vida as devoções da igreja, onde ia chorar as desgraças da humanidade, que tão fóra via andar da estrada direita.

Augusto pouco se demorou n'esta sala; respeitando a alcova conjugal, que era vedada aos olhares profanos por uma colcha de chita de largas e folhudas ramagens, tomou pelo corredor, que conduzia á cozinha d'onde lhe continuava a chegar aos ouvidos o som de vozes, que primeiro o attrahira.

Ao contrario do que esperava, porém, só uma pessoa encontrou na cozinha, comquanto falasse com a vivacidade que em poucos dialogos se mantem.

Esta pessoa era o dono da casa, o sr. José do Enxerto, ou vulgarmente chamado ti' Zé P'reira – nome que lhe vinha do popular e ruidoso instrumento, o classico zabumba, que nas nossas aldeias tem ainda hoje aquelle nome. – Era muito para vêr e admirar a mestria, com que o nosso homem o sabia tocar nas festas e arraiaes, á frente das procissões e cêrcos, e finalmente em todas as solemnidades publicas.

O ti' Zé P'reira era homem dos seus quarenta e tantos annos; tinha no rosto, principalmente no nariz, vestigios evidentes das suas sympathias pela divindade celebrada nos antigos dithyrambos. Esposo da sr.a Catharina do Nascimento de S. João Baptista, vivia em perenne sabatina com a sua cara metade, sujeitando-lhe todas as suas acções, mas salvando sempre o direito de protestar pela palavra. Ganhava a vida no officio de hortelão e, aos domingos e dias de festa, á fôrça de rufos e pancadaria na retesada pelle do seu companheiro inseparavel – o zabumba. Era aos cuidados e vigilancia d'este par conjugal que o recoveiro Cancella confiava o seu mais precioso thesouro, a pequena Ermelinda, uma mimosa creança, que lhe ficára á sua viuvez tão cheia de saudades, e a quem elle mais queria do que á menina dos olhos.

Ermelinda era afilhada da familia Zé P'reira, e a mesma a quem ouvimos referir-se Angelo no fim da carta.

Zé P'reira estava, como dissémos, só na cozinha, quando Augusto alli chegou: sentado, no meio da sala, sobre um alqueire voltado com o fundo para o ar, viradas as costas para a porta e a face para o lar apagado e vazio, falava, gesticulava e mudava de tom desde a nota mais grave e rouca da sua escala de barytono, até o mais agudo e desafinado falsete. A lingua pegava-se-lhe ao céo da bôca, difficultando-lhe suspeitosamente a articulação de algumas syllabas; era evidente que se apossára do hortelão o espirito familiar, o qual n'este caso, era um verdadeiro espirito, na accepção chimica do termo.

Ze P'reira era um homem baixo, já grisalho, sufficientemente nutrido, de olhos vesgos e que mais vesgos se faziam quando o enthusiasmo, o rapto artistico se apoderava d'elle; usava de umas suissas que pareciam tentar sumir-se-lhe pela bôca dentro; tinha longos braços, accommodados ás difficuldades e evoluções da sua arte, e pernas que, do joelho para baixo, lhe divergiam em angulo de mais de trinta graus.

Quando Augusto deu com elle, o homem monologava, gesticulando:

– Ora, senhores, que é forte desgraça a minha!.. É forte desgraça!.. Aqui estou eu!.. Um homem casado… casado á face da igreja… que me casou em dia de S. Thiago o abbade que foi… e que Deus tenha em descanço. Não faltou nada… correram-se banhos deante de quem os quiz ouvir, e não houve quem puzesse impedimento… porque eu não devia nada a ninguem… sempre fui liso de contas… Sou casado com a Catharina do Nascimento de S. João Baptista, filha do Antonio Canhestro, do logar dos Fójos… E casado para quê? Faz favor de me dizer? Para que casei eu?.. Forte desgraça a minha! Casei-me para isso!.. Para vir para casa e achal-a vazia, o lume apagado e o caldo na horta… e a mulher a papar missas e novenas lá por essas igrejas… Ora, senhores, que é forte desgraça a minha! É forte desgraça!.. Bem morria eu de frio e de fraqueza, se não fôsse aquelle quartilhito… o ultimo, que sempre me deu sua aquella… sim… sempre me conchegou o estomago. Não que dizem que o vinho que faz, que o vinho que acontece… Pois casem-se com uma mulher que vá de madrugada para a igreja e venha de lá quando muito bem lhe pareça, e verão depois se o vinho não serve de cobrir muita lazeira que se soffre… verão depois… Ora, senhores, que é forte desgraça a minha!.. Diz que Deus que disse, que a mulher que era a carne da nossa carne e o osso do nosso osso… Deus devia de vez em quando tornar a dizer estas coisas… para não esquecerem… como se faz na escola com a taboada. A minha Cath'rina já o não sabe, aposto… e pelos modos os padres não lhe dizem isto na igreja… pois deviam dizer!.. A carne da minha carne e o osso do meu osso!.. mas é carne e osso que me não fazem caldo… Ora, senhores, que é forte desgraça a minha!.. Como ha de um homem, se isto assim continua, pegar na enxada para dar uma cavadela, ou fazer qualquer sachada?.. E tambem quero vêr como hei de no arraial e procissão de Santo Amaro, que não tarda ahi, dar sequer um rufo assim mais tal… assim mais scientifico? Eu se fôsse bispo…

A caudalosa corrente d'este soliloquio foi interrompida pela apparição de nova personagem á porta do quintal.

– Deixe estar, meu padrinho, deixe estar; tenha um bocadinho de paciencia. É um instante emquanto accendo o lume e lhe faço o caldo. Verá.

A pessoa, que assim falava ao entrar para a cozinha, era uma rapariga de doze annos, alva e franzina, como a mais delicada creança da cidade, com os olhos negros e expressivos de intelligencia e de doçura, e com os mais formosos cabellos louros que ainda enfeitaram uma cabeça infantil. Não havia n'elles sombra, que desvanecesse aquella côr deslumbrante; reflectia-se-lhes a luz nas ondas, naturalmente lustrosas, como em tenuissimos fios de metal; usava-os soltos e caidos, sem vislumbre de artificio, de um e de outro lado do collo.

Condizia com a expressão angelica do semblante o suave e affectuoso timbre de voz com que falára.

O leitor prevê de certo que é Ermelinda, a filha do Cancella, ou Lindita, como geralmente na aldeia lhe chamavam, a creança que tem na sua presença.

Ermelinda sobraçava um mólho de hortaliça, que fôra colher ao quintal, e dirigia-se com ella para o lar, que o descuido e a indifferença conjugal deixavam ainda apagado áquella hora do dia.

Dando, porém, com os olhos em Augusto, parou, sorrindo-lhe.

– Ai, pois estava ahi, sr. Augusto?! E o meu padrinho talvez sem reparar.

A estas palavras o desditoso marido voltou a cabeça e fitou em Augusto um dos seus desemparelhados olhos.

– Olá, sr. Augusto! Viva! Passe muito bem! Entre; esta casa é sua… De jantar não lhe offereço… porque… porque… Forte desgraça a minha… Olhe! repare para este desaforo!.. Venho para casa, morto de trabalho… e vejo o lar apagado! A minha mulher está a ouvir missa, a confessar-se, a commungar… a tomar todos os sacramentos… acho que os está a tomar todos… Louvado seja Deus! Vem ahi tão limpa de consciencia, como eu estou do estomago… Ora, senhores…

– Deixe estar, padrinho… Verá como isto se arranja depressa… Olhe; o lume já está accêso – dizia Ermelinda, accendendo effectivamente o lume no lar.

– Já o devias ter feito antes, Lindita, – disse Augusto, sentando-se junto d'ella.

– Mas se inda agora vim das prêsas, onde fui lavar a roupa?

– Pobre pequena – disse o Zé P'reira – tambem não te ha de faltar lazeira, tambem!

– A mim? Agora. Não que eu não saí de casa com as algibeiras vazias.

– Pois sim… mas é sempre preciso coisa que conforte… Inda se tu bebesses… já não digo um quartilho…

– Credo, meu padrinho! Que está a dizer?

– Que espanto!.. Ora, senhores, que parece que o vinho é bebida amaldiçoada, que todos lhe teem mêdo! É vêr se o padre na missa…

– Padrinho! padrinho! que vae dizer? – interrompeu Ermelinda, quasi aterrada.

– Eu digo o que é verdade, rapariga!.. Tenho minha presumpção de nunca dizer senão a verdade… Lá o pespeguei na cara do sr. juiz de direito e mais do sr. doutor delegado e mais doutores, quando fui a um juramento, por causa d'aquellas pancadas no recebedor… É que nenhum d'esses santalhões, d'esses missionarios me teem que ensinar n'esse ponto… Os missionarios!.. Eu, um dia, tiro-me dos meus cuidados e dou-me ao trabalho de lhes ir perguntar, quando elles estiverem no pulpito, se Deus lhes manda que tirem as mulheres de casa, para que os maridos não tenham que comer, quando voltarem do trabalho… Um dia inda lhes vou perguntar… isso vou…

– Olhe; a agua não tarda a ferver; verá que dentro em pouco… – continuou Ermelinda.

– Bem, Lindita, bem – disse Augusto – em paga da boa vontade, com que trabalhas, vou dar-te uma alegre nova.

– A mim? Diga.

– Trago-te visitas de alguem, que em poucos dias te dará em vez de visitas, um abraço.

– De quem? Ah!.. Angelo escreveu-lhe?

– Como adivinhaste depressa!

– Pois de quem mais havia de ser? Mas diz que… em poucos dias… Então?

– Tel-o-hemos cá pelo Natal.

– Fala verdade?

– Assim m'o diz n'esta carta. Queres ler?

– Para quê? – respondeu a rapariga, fitando porém o papel com os olhos cheios de curiosidade.

– Ora lê, lê… Até para vêr se ainda te recordas das lições, que eu te dei.

– Ai, lá isso… mas, o caldo do meu padrinho…

– Deixa que o lume é que o ha de aquecer e não a tua presença.

Ermelinda approximou-se; tomando a carta das mãos de Augusto, começou a lêl-a com intensa curiosidade.

Zé P'reira proseguiu no seu monologo:

– A religião, senhores – dissertava elle – não manda tal… Isso é que não manda… A religião é a palavra de Deus… e Deus disse… sim… Deus disse… Deus disse muita coisa… Disse que por este deixarás pae e mãe. Ora a santa madre igreja é mãe, é, sim, senhores; que tem lá isso? mas não é mais mãe do que a outra mãe… e então… senhores, uma mulher não deve deixar por ella o seu marido; porque o marido, senhores, é o tudo de uma casa, e o ganhapão da familia. Ora, senhores, que é forte desgraça.

O monologo do desconsolado conjuge e a leitura de Ermelinda foram interrompidos por uma voz potente, que cantava na rua.

		O dinheiro paga tudo,
		Não se fica a dever nada;
		Toma, toma o limão verde,
		Ó da fresca limonada.

E logo em seguida estalaram as taboas do soalho no corredor sob uns passos pesados e ruidosos, e no limiar da porta da cozinha desenhou-se a figura agigantada e herculea do recoveiro Cancella, pae da Ermelinda. Cancella, ou o João Herodes, que assim tambem lhe chamavam por ter creado, nos autos em que era actor applaudido e popular, o typo do sanguinario e infanticida rei da Judéa, fôra pela natureza dotado de uma estatura e robustez, dignas de Adamastor.

Encontrava-se n'elle uma d'essas felicissimas realisações dos temperamentos sanguineos que, sem ameaçarem de insultos apopleticos, dão riqueza ao sangue, vigor aos musculos e á physionomia o aberto e colorido da saude e os reflexos da satisfação interior.

A barba negra e espessa cercava-lhe as faces córadas, e o natural fulgor dos olhos parecia augmentado sob o duplo arco de bastas sobrancelhas, que, quando contrahidas, os rodeavam de sombras ameaçadoras, d'onde fuzilavam relampagos. Era formidavel então!

O riso pairava-lhe porém, nos labios, quando na presença de amigos, descobrindo-lhe duas fileiras de alvissimos e bem dispostos dentes, d'esses que os excessos e absurdos culinarios ainda não deterioraram.

Parando á porta da cozinha, o Herodes (ás vezes lhe chamaremos assim, cedendo ao geral costume na aldeia) procurou com a vista alguem, que mais que tudo trazia na memoria – a filha. – Esta, pela sua parte, mal o reconheceu, correu a lançar-se-lhe nos braços.

O pae pegou n'ella, como se fôsse uma penna, levantou-a á altura dos labios e pousou-lhe nas faces dois sôfregos e ruidosos beijos, ainda palpitantes de todo aquelle intenso amor paternal.

– Ah! – exclamou, pousando-a no chão e respirando como quem acabava de satisfazer uma intensa necessidade do coração. – Isto consola que nem o copo de agua que a gente, em dias de calma, pede á borda da estrada, quando se leva a bôca secca e queimada de poeira! Mais do que isso me sabem estes dois beijos que te dou, pequena. Que querem?.. Ó sr. Augusto! tambem por cá?

– Esperava-o, Cancella.

– A mim? – continuou o homem, pousando no chão uma mala que trazia. – Pois aqui me tem. Mas, dizia eu, um homem quando anda lá fóra, e pensa no que lhe irá por casa, sente ás vezes uns sustos, que parece que lhe fazem tudo escuro… As desgraças, para succederem, não põem muito… De um momento para outro… E depois a gente ouve por lá conversas, vê coisas que parece que são agouros… e que nos fazem a noite no coração… Umas vezes é um enterro… outras, um desastre… um fogo… um… E as creanças sós, e os paes fóra de casa!.. Ai! Isto é de ralar o coração de uma pessoa… Eu bem sei que em boa companhia me fica a pequena. Aqui o compadre, tirante lá a sua aquella pelo sumo da uva… Quantos foram já hoje, compadre, hein?.. mas, tirante isso, é homem de bem: a comadre é uma santa, que só tem o defeito de querer ser santa devéras… mas emfim… tudo isso não obsta; uma coisa é uma pessoa saber o que lhe vae por casa, outra… Tremem-me as pernas sempre que entro na aldeia. A primeira alma de Christo, que encontro, estou sempre a vêr quando me vem dar alguma nova má. Salta-me cá por dentro o coração, que ninguem faz uma ideia; eu bem canto a vêr se disfarço, mas… Ai, filha da minha alma, quando me passa pelo pensamento que te posso um dia vir achar doente!.. Assim me succedeu com tua mãe… Deixei-a uma vez tão satisfeita e alegre, e vae, quando voltei, a primeira pessoa que encontro, diz-me á queima-roupa: «Venha, sr. João, venha, que já não vem sem tempo. Corra a casa, se ainda quer vêr sua mulher…» Foi como se recebesse uma descarga em cheio no peito… corri, e…

A commoção impediu-o de continuar; disfarçou como envergonhado d'aquella fraqueza, beijando a filha outra vez.

Ermelinda percebeu a perturbação do pae e disse-lhe carinhosamente:

– Para que está agora a pensar n'essas coisas que o affligem, meu pae?

– Deixa-me cá, rapariga. Isto ás vezes tambem faz bem. Mas, por isso, quando entro em casa e te vejo, pequena, e te vejo com boas côres e alegre… nem eu sei o que tem mão em mim, que não me ponho a dançar. Ah!.. ah!.. Ninguem tem uma filha como eu! Olhe que não, sr. Augusto; mal fica a mim dizel-o, mas… Lá por Lisboa e por o Porto ha muita menina galante, isso ha; muita inglezinha loura, bonitas como anjos, mas cabellos assim dourados? – e passava com orgulho os dedos pelos bastos cabellos de Ermelinda – mas uma pelle assim delicada, – e afagava-lhe com as mãos a face, quasi a mêdo – mas olhos assim a metterem-se mesmo pelo coração á gente? – e beijava-lh'os com paixão – isso é que eu ainda não vi, nem tenho de vêr. Como o Senhor concedeu um anjo d'estes a um selvagem como eu, é que não sei… É a imagem da mãe!.. Ella tambem era poucochinho de si… miudinha e… Mas não pensemos n'estas coisas. Sim, senhores; eis-me aqui outra vez, e por signal com a minha vida por arranjar e eu posto á taramela. Trago-lhe uma encommenda, sr. Augusto, e muitos recados, muitos.

– Já sei; Angelo escreveu-me.

– Escreveu? Ah, sr. Augusto, que rapaz aquelle! Aquillo é uma perola! Com tres milheiros de demonios do inferno! d'alli ha de sair coisa grande. Eu não queria morrer sem vêr o que saía d'alli. Brinca como uma creança, mas, quando quer, põe-se sério, e fala como homem. E nada de soberbas, nem de ares enfastiados, como tomam aquelles senhores da cidade, quando conversam com uma pessoa rustica… Qual historia! Elle tudo quer saber, tudo pergunta… isso é um nunca acabar, quando lá me pilha… Então como vae fulano? e sicrano? e se já se fez aquella casa, e se já acabou aquella obra, e se já casou este, e se inda vive aquelle, e mais para aqui, e mais para acolá, e tudo quer muito explicado… Ah! ah! ah!.. tem diabo o pequeno… Pois cá a respeito da rapariga?.. Isso é uma comedia!.. Não se farta de me ouvir falar d'ella… Ah, sr. Augusto, ás vezes chego a ter pena de que isto nascesse minha filha.

Ermelinda fitou o pae com olhos espantados.

– Sim, filha, – proseguiu elle. – Deus não te devia dar a um homem como eu, que emfim… Com os diabos! lá alma e coração… não quero que haja ahi quem me leve a barra adeante. Eu por um amigo… e com mil demonios, até por um inimigo, se não fôr soberbo, vamos lá, dou a camisa do corpo… Mas o mundo… Bem, bem, eu cá me entendo. Vamos á minha tarefa. Mas que tem você estado para ahi a prégar, compadre, desde que eu entrei? Humh! humh! parece-me que já se cantou a gloria, hoje, visto que já se está ao sermão.

Effectivamente Zé P'reira tinha apenas concedido ao seu compadre um olhar de distracção e um aceno de mão, e voltára de novo ás suas queixas amargas contra a sorte e contra a esposa.

Interrogado pelo Herodes, Zé P'reira reproduziu uma das suas lamentações; o compadre, emquanto desenfardelava a mala, ia cortando com reflexões proprias essa longa jeremiada.

– Então com que a ti' Zefa deixou-o sem caldo, hein? É mal feito, a falar a verdade. Lume apagado em casa de familia é coisa triste… Aqui está um livro para si, sr. Augusto… Mas deixe lá, compadre, que a minha pequena arranja-lhe n'um ai algumas berças… Tambem eu estou em jejum desde as cinco horas da manhã… mas estes missionarios! Ah! com seiscentas mil duzias de demonios, eu ainda queria um dia…

– Deus nosso Senhor seja n'esta casa – disse uma voz gemida á porta da cozinha.

– E o demo na do abbade – resmungou Herodes.

Era a sr.a Catharina do Nascimento de S. João Baptista, typo de beata, que dispensa descripção, que regressava a casa depois de completar o cyclo das suas devoções.

– Viva a comadre! – disse o João Cancella, continuando a mexer na mala.

Ermelinda foi beijar a mão á madrinha.

Augusto saudou-a affavelmente.

O marido obrigou o corpo a uma meia rotação sobre o alqueire, e, voltando-se para a mulher, disse-lhe, agitando os braços e as mãos, espalmadamente abertas:

– Mulher dos meus peccados, mulher de não sei que diga, olha que a paciencia um dia acaba-se, mulher! Isto não pode continuar assim, mulher! Eu não me casei para que tu me andes a ganhar indulgencias na igreja, mulher!.. Isto são preparos, mulher?.. Um homem chega a casa e acha o caldo por fazer, porque a senhora sua esposa deu em ouvir nove missas por dia e uma duzia de novenas!

– Cala-te, cala-te, – retorquiu azedamente a devota metade do Zé P'reira – cala-te para ahi, desalmado. Excommungado seja o mafarrico, que assim me quer attentar logo que entro em casa! Olha lá que não morresses de fome! Estás mal acostumado. Louvado seja Deus! Já não ha quem queira soffrer n'este mundo mortificações! cuidas que não tens de soffrer as do purgatorio? E Deus nos queira dar só o purgatorio e livrar-nos das penas do inferno. Que muito mal fazemos por lhe merecer misericordia! Ora que não ha de uma pessoa poder ter as suas devoções, que não venha encontrar lamurias em casa! Ó minha rica Mãe do céo, seja para desconto dos meus peccados! Sume-te, inimigo mau! E eu que deixei de rezar oito estações, que prometti á Senhora da Rocha, e vae… Ora digam como ha de esta gente cumprir os jejuns que manda a santa madre igreja, se, por duas horas de espera, já se choram todos! Bemdito e louvado seja o sacratissimo coração de Maria! Ó homem de Deus, e então aquelles santos eremitas, que viviam no deserto de raizes e de agua das fontes…

– Que lhes prestasse. Haviam de andar muito gordos. Eu queria-os vêr com uma enxada a trabalhar todo o dia no campo, e que lhes dessem depois raizes para roer, a vêr se gostavam. Ora, senhores, que é forte desgraça a minha! Mulher, a religião manda que olhemos pelo nosso cadaver. É má christã a mulher que deixa o seu marido na penuria. Isto é que os padres deviam ensinar. Vae-lhes lá perguntar se, quando chegam a casa, não teem a sôpa e o toucinho á espera d'elles?

– Cala-te, tentador, que me andas a tentar, cala-te, tem vergonha n'essa cara. Olha agora! Eu queria vêr-te com o trabalho do sr. padre Domingos. Coitadinho! desde as cinco horas da manhã até agora a confessar!

– Confessar é parolar; ora adeus!

– Tu estás doido, alma perdida?!

– E cuidas que elle não leva marmelada nos bolsos?

– Ó chagas do seraphico S. Francisco, ainda mais terei de ouvir?!

– Mulher, deixemo-nos de historias; com jejuns ninguem engorda. Só os santos… de pau.

– Vamos, vamos – disse o Herodes, intervindo. – Não vale zangarem-se por causa d'isso. A minha pequena deve ter o caldo quasi feito. Comam-o em santa paz e deixem-se de testilhas, que não é bonito; e muito menos entre marido e mulher. Você, compadre, tambem tem culpas em cartorio; vamos lá. Ha por ahi umas certas capellas, onde passa tambem bastante tempo em devoção; emquanto á comadre, acredite o que lhe digo: a palavra de Deus não é tão difficil, que uma pessoa precise de estar tanto tempo a ouvil-a explicar. Eu cá penso que, fazendo a gente aquillo que lhe diz o coração, e que não sente nenhuma aquella em fazer, vae por caminho direito. E mais vale fazer o que Deus manda, do que levar a vida a pedir perdão por o não ter feito. E tambem não é bonito estarem agora as mulheres, horas e horas, pegadas ao confessionario, como lapas nos rochedos, nem…

– Compadre! – atalhou escandalisada a sr.a Catharina – compadre! É essa a educação que dá á sua filha? São coisas que se digam deante de uma creança de doze annos? Ande lá, ande lá… Ora Deus queira que lhe não encontre ainda o pago. Era bem melhor que lhe ensinasse, ou mandasse ensinar, a doutrina; que é mesmo uma vergonha o pouco que sabe d'ella.

– Bem tenho eu tempo para isso. A minha Ermelinda não deixa passar pobre á porta, a quem não dê esmola; creança que não afague; velho ou velha, que não corteje; reza todas as manhãs a oração, que a mãe lhe ensinou, o Padre-Nosso e a Ave-Maria, onde se diz tudo o que se deve dizer a Deus; de dia trabalha, como filha de pobre que é, e mulher de casa que ha de ser… O Senhor me perdôe, se mais é preciso ainda, que mais não sei eu ensinar-lhe.

– Não tenha soberbas, compadre, não tenha soberbas! E cautela com o mimo que dá á pequena, que é o que perde muitas almas.

– Que mimo, que mimo? Logo eu com este genio de repentes é que hei de dar mimo a esta pobre creança, que nem o da mãe conheceu!

– Ora diga, compadre, acha que é muito bem feito, da sua parte, deixar andar a rapariga com esses cabellos soltos? Não sabe que o demonio… cruzes! arma com elles laços ás almas das creaturas?

– Fracas prisões são as do diabo, se as forja só de cabellos!.. Então, por causa das tentações é que a comadre rapou os seus? Ah! ah! Tem coisas! É teima velha! Eu já lhe disse, comadre: Deus, que deu á pequena esses cabellos tão bonitos, é porque lh'os quiz dar. Se quizer, que lh'os tire, eu é que não.

– Deus cerca-nos de tentações, para que nós as vençamos.

– Forte tentação venceu a comadre! aposto que os não cortaria assim, se os tivesse como os da minha Ermelinda, hein! Cortar os cabellos á minha filha, eu?! fazer d'aquella cabeça de cherubim uma d'essas cabeças tosquiadas, que por ahi andam!

– Talvez ainda se arrependa!

– Deixe lá, comadre. O que eu vejo é que, junto de Deus e da Virgem, se pintam anjos, como a minha pequena, e não figuras… respeitaveis, como a da comadre; ora então…

A beata, apesar de trazer sempre na memoria o Vanitas vanitatum do Ecclesiastes, não foi inteiramente insensivel ao remoque do compadre. Azedou-se-lhe o humor, e, voltando-se para Ermelinda, disse-lhe como para descarregar sobre ella a má vontade com que estava ao pae:

– Sae-te p'ra lá. O senhor meu homem tinha muita pressa de jantar! Deixar assim uma creança fazer uma fogueira d'estas! Nem para assar um boi! É preciso não ter consciencia.

E tirou do lume um pequeno cavaco, para justificar o dicto.

Zé P'reira monologava ainda. Augusto continuava examinando o livro recebido.

Ermelinda afastou-se do lar com timidez. No animo d'aquella creança, que era de uma organisação nervosa, excepcional na aldeia, exercia a beata uma especie de fascinação, um mixto de respeito e de terror, capaz de dissipar todos os risos dos seus labios infantis. Era outra na presença da madrinha, fitava-lhe nas faces descarnadas e macilentas os bellos olhos negros; seguia-lhe, quasi assustada, o movimento dos labios austeramente contrahidos; tremia ao escutar-lhe a voz aguda e penetrante, falando nas penas do inferno; chorava á menor reprehensão que d'ella recebia, e comtudo amava-a, amava-a, porque Ermelinda na sua candura de creança, suppunha a madrinha uma santa; avultavam-lhe, como virtudes beatificantes, os defeitos da devota velha; a innocente julgava-se uma grande peccadora quando, depois de ter na mente aquelle perfeito typo, voltava a olhar para si, para o fundo da sua consciencia; e que negros e hediondos peccados lá encontrava! Uma pequena mentira que dissera; um domingo em que faltou á missa; um juramento que, sem o sentir, lhe saira da bôca; um jejum que não guardára, e outros crimes da mesma fôrça. A amedrontada creança chegava a receiar pela salvação da alma.

É sempre funesta a influencia que exercem sobre a infancia os caracteres como os da beata.

O Herodes percebeu a impressão sob a qual estava a filha e acudiu-lhe.

– Toma lá, Ermelinda – disse elle, tirando da mala uma pequena medalha com um retrato. – É um presente do nosso amigo Angelo para nós, ou antes, para ti…

Ermelinda pegou no retrato com não reprimido alvoroço. Era outra vez a creança.

A madrinha lançou para a medalha um olhar obliquo e reconheceu o retrato.

– Em nome do Padre e do Filho e do Espirito Santo! – rompeu ella, com um espanto exaggerado. – Este homem não tem a cabeça no seu logar, por mais que me digam! Elle quer perder a filha de certo! A fazer a cabeça doida a uma creança!

O Herodes, ouvindo estas palavras, pousou com impeto a mala no chão, e com os olhos chammejantes e as faces injectadas, vociferou, cedendo o campo á cólera, que se lhe accumulou no seio:

– Com seiscentos milhões de diabos! Você que está ahi a dizer, mulher? São os sermões dos missionarios, que lhe teem assim afiado a lingua e deitado peçonha na baba? Com effeito! Saiba que dou mais pela creança, de quem é aquelle retrato, do que por quantos sotainas lhe ouvem os seus peccados todas as semanas e por quantas beatas andam comsigo a dar marradas no lagêdo da igreja. Fazer a cabeça doida á minha filha! Tenha mão na lingua, comadre, que lhe não soffro tanto. Doida lh'a trazem a vossemecê os missionarios e os sermões. Seu marido fôra eu, que a mania lhe tirava.

O Zé P'reira, apesar dos seus desgostos domesticos, zelava a dignidade do casal; e não levava á paciencia que outro, além d'elle, dissesse d'aquellas verdades á mulher; por isso, ouvindo-as, através dos sonidos que lhe chiavam nos ouvidos, levantou-se, e sustentando-se nas pernas vacillantes, e bracejando sempre, bradou:

– Compadre! Eu sei quaes são os meus deveres! Compadre, prudencia!.. Compadre, eu não consinto… Ora, senhores, que é forte coisa! Compadre!.. veja que eu é que sou aqui o chefe da familia e esta é minha mulher! Pschiu… Basta… Compadre… basta. Então? Ora, senhores.

Mas o Herodes já nada attendia; cada vez mais lhe crescia a vermelhidão nas faces; a irritação rompera os diques da cordura e ameaçava engrossar cada vez mais. Ás exclamações de Zé P'reira respondia já azedamente.

– Ora adeus, temos conversado… Seja homem, que bem precisa… Não basta dar á lingua… Na taberna não é que se governa a casa…

A sr.a Catharina abstinha-se agora prudentemente.

Ermelinda, pallida, a tremer, abraçou o pae, quasi chorando.

Augusto, que fôra alheio ao principio da contenda, conheceu emfim que precisava de intervir. Saiu-lhe difficil a empreza.

Ensurdeciam os ouvidos dos contendores, a um o sangue, a outro o vinho.

Depois de muito custo, conseguiu emfim apazigual-os. Deram-se mutuas satisfações, e separaram-se apertando as mãos.

Augusto retirou-se com João Cancella e Ermelinda.

O par conjugal ficou, renovando-se cêdo entre elles a interminavel contenda em que viviam.




VIII


Saindo de casa do Zé P'reira, Augusto teve de escutar, ainda por muito tempo, as vociferações e pragas, com que o Herodes acoimava a fraqueza do compadre, que assim deixára a mulher tomar sobre si um ascendente offensivo da dignidade varonil. Augusto ouviu tudo com resignado silencio e attenção um pouco distrahida, conseguindo emfim a custo soltar-se das mãos do seu interlocutor, que, no fogo da exposição de tão justos aggravos, lhe segurava os braços com pouco affavel vivacidade; a final, porém pôde deixal-o e voltou a casa.

Entrando no seu quarto, um pequeno e modesto quarto, mobilado com uma banca, poucas cadeiras e uma estante, cheia de livros, Augusto respirou.

Era alli o seu logar de descanço; a escola era em outra casa vizinha. N'esta não havia, a amargurar-lhe as horas do repouso, vestigios que lhe recordassem as do supplicio.

Leitor philantropo, que, abrazado em santo amor da humanidade, só entrevês delicias na tarefa do ensino, e fazes d'este vigiar e encaminhar o espirito infantil, que desabrocha e respira pela primeira vez no fecundo ambiente da sciencia, um seductor quadro de phantasia, perdôa-me a palavra, supplicio, de que me servi, e perdôa ainda mais ao caracter de Augusto o ter saido exacta a expressão, que te feriu os humanitarios instinctos.

Eu bem sei que é uma sublime missão a do mestre: e que é uma graciosa e amoravel idade a da infancia, e poucos melhor do que Augusto possuiam presente o ideal de uma e amenisavam á outra com branduras os amargores do penoso tirocinio; – mas que importa? nem por isso é menos real o supplicio. A cultura dos espiritos é como a cultura das terras. O lavrador exulta, estremece de prazer, vendo pullular do solo, arado e semeado de pouco, os rebentos do grão que o calor fez germinar, e volverem-se as folhas, estenderem-se e enflorarem-se os ramos, penderem os fructos e colorirem-se das tintas da madureza; mas, emquanto vergado, coberto de suor, arquejante, se afadiga a arrotear o terreno duro e quem sabe se ingrato aos seus cuidados, muita vez lhe fallece o alento, e se olha de quando em quando para o céo, não é para lhe agradecer, com risos os gôsos que elle lhe dá; mas para lhe pedir, com lagrimas, a fôrça que lhe mingúa.

De igual modo, se é grato ao cultor das intelligencias o vêl-as desenvolver, florir, fructificar; ardua, improba, desesperadora é muita vez a tarefa da sua primeira educação. É mister possuir um grande thesouro de ideal, para que o suave e risonho typo, que da infancia concebemos, não se transtorne, na phantasia d'estas victimas d'ella, em não sei que figura diabolica e maligna, que lhes envenena todos os momentos de alegria.

Além d'isso, o pobre professor de instrucção primaria, sobre quem pesam os mais fastidiosos encargos da instrucção, não pode ser comparado absolutamente ao agricultor do nosso simile; é antes o jornaleiro contractado por magro salario, para, á fôrça de braço, lavrar o solo, d'onde, mais tarde, romperá a vegetação, que elle não terá de vêr e que a outros concederá os gôsos e o beneficio. Venceu tambem o humilde professor, e por o mesmo preço que o jornaleiro, que não vão mais longe com elle as liberalidades dos nossos governos, venceu as maiores cruezas do magisterio; mas não verá tambem o resultado das suas fadigas. Fogem-lhe as intelligencias, que educou, justamente quando com mais amor as devia contemplar, e, se o destino reserva a qualquer d'essas intelligencias um futuro de glorias, raro é que volvam um olhar agradecido para as humildes mãos, que as sustentaram, quando ainda não tinham azas para voar.

Quasi todos os grandes homens commettem esta ingratidão. Falam nos seus mestres de philosophia, de mathematica, de litteratura, e não salvam do esquecimento, pronunciando-o, o nome do primeiro mestre, do que os ensinou a ler.

Considerações da ordem das que acabamos de fazer, quero acreditar, não são as que mais preoccupam o pensamento da maioria d'esses pobres diabos, que, por noventa mil réis annuaes, se deixaram ligar á atafona do ensino primario da aldeia; porém devem ser, além das miserias de tão mesquinha sorte, causas de grandes torturas moraes para alguma alma de instinctos e aspirações mais elevadas, que o destino amarrasse, como por escarneo, a este poste de expiação. N'esse caso estava por certo a alma de Augusto. No vasto mundo, que os livros abrem ás imaginações, que na vida real não encontram deleite, refugiava-se elle nas horas em que as suas obrigações lhe permittiam respirar.

D'esta vez, porém, por pouco tempo lhe foi dado saborear esse prazer.

Soaram nos vidros da janella pancadas repetidas e chamou-o de fóra uma voz bem conhecida d'elle.

Era a do mestre de latim, o sr. Bento Pertunhas.

– Sr. Augusto, ó meu querido sr. Augusto. Amice! Pode falar a um amigo e colega? – dizia elle.

Augusto foi abrir-lhe a porta, não reprimindo um gesto de enfado.

O latinista entrou esfregando as mãos.

– A ler, hein! sempre a ler! sempre amarrado aos livros! – dizia elle, batendo no hombro a Augusto. – Invejo-lhe mais a pachorra do que o proveito. Olhe que não medra com isso; nem ninguem lhe agradece as canceiras que toma. Meu rico, por dois dias que um homem passa cá n'este mundo, tolo é o que se mata. E então n'este paiz!.. Faça como eu.

E, imitando com a bôca os sons da trompa, seu instrumento predilecto, poz-se a examinar os livros que via sobre a mesa.

– Então que estava lendo? que estava lendo?.. Poh! poh! poh!.. Versos… Ora que nunca pude gostar de versos!.. Poh! poh!.. E não é agora porque se diga que não tinha quéda; não, senhores; em tempos fiz até algumas quadras… Poh! poh!.. já se sabe, até certa idade, mas nunca fui muito para ahi… Poh!.. A minha vocação é para a musica… Poh! poh!.. Lá para a musica, sim… Poh! poh! poh!.. Herman e Dorothéa – continuava elle, examinando os livros. – Novellas… Poh!.. E isto que é? Confessions de Rousseau – n'este nome deixou aos diphtongos o valor portuguez – Poh! poh! As Metamorphoses… Latim! Oh que massada! Poh! poh! poh! poh!.. – E o Ovidio, que lhe chegára ás mãos, foi arremessado como se estivesse em braza.

Augusto não pôde conservar-se sério, ante o instinctivo movimento de repulsão do mestre.

– Então que boa fortuna o traz por aqui, sr. Pertunhas? – perguntou elle.

– Ai, é verdade; eu lhe digo ao que venho. É para lhe pedir um favor, meu caro sr. Augusto. Eu bem sei que é abusar da sua bondade… Quousque tandem, Catilina… Mas, é por esta vez…

– Já sei; quer que lhe vá dar lição aos rapazes.

– Ah! grande maganão, que adivinhou – exclamou o mestre, abraçando Augusto com effusão. – É isso mesmo, se lhe não custasse…

– Irei.

– É que… eu lhe digo, eu tinha hoje de ir ao ensaio da philarmonica… Percebe o senhor? Os Reis estão ahi á porta e as outras festas do Natal, e não ha tempo a perder… Percebe? E eu tenho ainda umas peças do Trovador para ensinar á minha gente. São muito bonitas… Poh! poh! poh! E então este anno, que pelos modos temos cá o conselheiro e mais o pequeno… Não contando com esse sujeito que ahi chegou a Alvapenha. Chama-se Henrique de Souzellas, é sobrinho da velha, da D. Dorothéa, e julgo que ainda aparentado no Mosteiro. Lá chamam-lhe primo. Esteve lá esta manhã um par de horas, logo que saiu da minha repartição. Dizem-me que é filhote de Lisboa, solteiro, rico e sem modo de vida. Rico e sem modo de vida! Que lhe parece, hein? Olhe que sempre ha gente muito feliz! Aqui para nós, sabe ao que me cheira a visita d'este senhor? Aquillo é mosca que vem ao cheiro do mel. Que diz, hein? Ninguem me tira d'isto. Pois não lhe parece, hein?

– Não sei bem o que quer dizer com a imagem – respondeu Augusto, levemente enfadado. – Além de que não posso adivinhar as intenções de um homem que pela primeira vez encontrei esta manhã.

– Pois está claro que não; nem eu; mas emfim uma pessoa logo tira pelo que vê… Ora pois diga, um rapaz de Lisboa, afeito a divertimentos, a boa musica, et coetera, andar leguas e leguas para se metter n'este desterro… Porque isto é um desterro. Sim, deve concordar que não é natural. Mas se a gente se lembrar de que a morgadinha, et coetera… O senhor bem me percebe… Todos, hoje em dia, sabem o preço ao dinheiro, meu amigo.

A verbosidade do mestre Pertunhas estava evidentemente incommodando Augusto, que não redarguia.

– Nada, nada; alli anda plano, com certeza. Pelos modos, já depois de ámanhã vae o rapaz acompanhar as pequenas á ermida da Saude. Ah!.. mas agora me lembro! o senhor é tambem da sucia.

– Eu?!

– Com certeza. Disse-m'o o Damião, que tem ordem das pequenas para o convidar. Se ainda não recebeu o recado, ha de recebel-o. Em todo o caso, observe-o e verá se eu tenho razão.

– Vou jantar, sr. Pertunhas, que já ha muito para isso me chamou a criada – disse Augusto, erguendo-se como para fugir áquella conversa. – Em seguida irei aos seus rapazes.

– Então vá, vá. Deus lhe pague o favor que me faz e permitta que eu lhe não peça muitos d'estes. E eu tenho esperanças… Sabe que ando com ideias de arranjar o lugar de recebedor, que está, como diz o outro, a encher dias? Já falei ao conselheiro; mas o conselheiro promette muito e falta melhor, sobretudo a um homem que não tenha influencia em eleições. O sr. Joãozinho das Perdizes interessa-se por mim, é verdade; mas, por outro lado, o Seabra brazileiro faz-me guerra. Eu ando a vêr se consigo pôr o Seabra a meu favor, porque emfim… Mas vá, vá jantar, que eu espero.

– Se quizer fazer-me companhia…

– Muito obrigado. Eu já jantei. O meio dia é a minha hora. Jante á sua vontade.

Augusto saiu da sala. Mestre Bento Pertunhas, ficando só, deu algumas voltas cantarolando, sentou-se depois, e pegando na pasta de Augusto, poz-se a examinar os papeis que ella continha.

Ao mesmo tempo simulava umas variações de trompa, á fôrça de contracções e esgares dos labios.

A pasta, victima da indiscreção do mestre, era a mesma que Augusto trazia, quando o vimos no Mosteiro.

Entre os documentos contidos n'ella algum achou o mestre Pertunhas mais curioso do que as escriptas e themas dos discipulos, pois, ao lêl-o, desenhou-se-lhe no semblante a mais intensa curiosidade e cessou de todo a exhibição acustica, que com tanto ardor encetára.

Leu-o até o fim com crescente avidez; e depois, olhando em volta de si, para verificar que não era observado, dobrou-o e sorrateiramente o escondeu no bolso. Fechou outra vez a pasta, pousou-a no sitio d'onde a tirára, continuou a ler ou a fingir que lia com toda a attenção um livro e encetou novas variações de trompa.

– Então já! Apre! Isso é jantar a vapor – disse o latinista, pondo-se a pé, logo que Augusto voltou.

E momentos depois sairam juntos.

Querendo poupar os leitores á semsaboria de assistir a uma lição de latim e a um ensaio da philarmonica, deixal-os-hemos ambos, para voltarmos ao Mosteiro.

Ao fim da tarde, depois do jantar, estavam as duas primas sentadas ao parapeito do muro da quinta, d'onde, por sobre almargens e pomares vizinhos, a vista se espraiava em amplissimo horizonte até umas nuvens, que pareciam limital-o.

D. Victoria saboreava, no seu quarto, as delicias da sesta habitual. As creanças brincavam a alguma distancia, e os risos e os clamores d'ellas vinham como um chilrear de passaros aos ouvidos das duas raparigas, que, a cada momento, se surprehendiam em meditativo silencio.

A natureza estava serenissima. No occidente desenhavam-se estreitos e longos traços nebulosos, a que o sol dava um colorido tão ardente, que se o pintor paizagista o produzisse na palheta, hesitaria, ao passal-o á tela, com receio de que o acoimassem de exaggerado. O verde dos campos apresentava a gradação vigorosa, que a luz de um formoso dia de inverno costuma dar-lhe.

Christina interrompeu o silencio por fim.

– O que eu não sei – principiou ella – é como o primo Henrique de Souzellas…

– Onze! – atalhou a morgadinha, sem desviar os olhos do ponto da perspectiva, que fitava.

– Onze quê? – perguntou Christina, erguendo os d'ella.

– Com esta são onze as vezes que, esta tarde, depois de um longo silencio, abres a bôca para me falares no primo Henrique de Souzellas, uma vez que está decidido que seja primo.

Christina fez um gesto de despeito e córou levemente.

– E então que queres dizer com isso?

– Eu? Nada. Digo só que são onze vezes com esta.

– Não sabia que era prohibido falar-te no primo Henrique. Bem, n'esse caso falaremos em outra coisa. Está um tempo muito bonito: nem parece dezembro.

– Não; vae magnifico para os nabaes – replicou Magdalena zombeteiramente.

– Se não mudar com a nova lua – continuou Christina, ainda formalisada.

– É excellente para seccar os milhos, que bem precisavam ainda d'isso, principalmente os das terras baixas.

E, acabando de dizer estas palavras, a morgadinha desatou a rir.

– Não sei de que te ris! – acudiu Christina, cada vez mais séria. – Pois não é esta a conversa de que tu gostas?

– Ai, muito. Eu sou doida por estas coisas de lavoura; bem sabes. – E, mudando repentinamente de tom, accrescentou: – Ora vamos, Christe; não te zangues commigo.

– Não, mas é que ás vezes não te entendo, a falar verdade. Vens com umas coisas que mettem raiva – respondeu-lhe Christina, sempre agastada.

– Já estou arrependida; peço perdão. Fala lá á tua vontade no primo Henrique, fala; que eu não contarei as vezes que o fizeres.

Christina reproduziu o gesto de impaciencia.

– Agradeço a tua generosidade, mas já não tenho mais que dizer d'elle agora; por isso…

– Pelo menos completa a duzia.

– Lena! Então! Olha que se continuas com isso, fazes-me sair d'aqui.

– Sempre queria que te vissem agora, Christe, esses que andam por ahi a gabar a docilidade do teu genio, as branduras da tua indole; queria que te vissem essa cara arrenegada, para saberem que tambem ha um acidozinho na tal doçura… Mas fazes-me a graça de só para mim teres d'essas franquezas.

Christina sorriu, ainda que não de todo aplacada, ao ouvir esta reflexão da prima.

– E não sabes a razão d'isso? – respondeu-lhe ella – a razão é o genio que tens, Lena. O teu gôsto é mortificares uma pessoa. Não ha santo que não perdesse a paciencia comtigo.

– Que injustiça! que ingratidão! Eu, que sou a victima das tempestades que o teu genio pouco expansivo te junta no coração a todo o instante! Se alguma coisa te faz chorar, guardas as lagrimas para o meu quarto; se te irritam, vens desafogar as tuas cólerazinhas sobre a minha cabeça. E pagas-me assim!

– És muito infeliz commigo. Pobre Lena!

– Vamos, vamos, Christe! esquece o que eu disse ha pouco. Não te posso vêr assim. – E tomando um tom natural, mas sob o qual transparecia ainda certa malicia, Magdalena continuou: – Pois é verdade, dizias tu que não sabias por que o primo Henrique de Souzellas…

Christina fez um movimento impaciente, como para levantar-se.

– Então que é isso? Não me acceitas a expiação? – perguntou Magdalena, sorrindo.

– Não; não quero que se fale mais no sr. Henrique de Souzellas. Vejo que te não é agradavel que as outras se occupem d'elle. Sejam quaes forem as razões que tens para isso…

– Bravo! Foi admiravel de maldade o entono com que disseste esse: «Sejam quaes forem as razões.» E venham-me falar na candura d'esta creança!

– Eu não quero dizer…

– O que queres dizer, não sei; mas vejo que não és senhora tua quando se fala n'este assumpto.

– Que lembrança! – tornou Christina, cada vez mais embaraçada – pois imaginas devéras que eu?..

– E por que não?

– Lena!

– Não ha nada mais natural.

– Se queres, juro-te…

– Ah! atalhou a morgadinha, pondo-lhe a mão nos labios. – Isso não, que é mais sério. Jurar não te deixo eu. Conheço os escrupulos da tua consciencia, e não quero obrigar-te a remorsos. «Juro!» E com que ousadia ias pronunciar um juramento falso!

– Falso!

– Falso, sim; falso como os que o são. Olha, minha pobre Christe, queres então que te fale com toda a franqueza? Esta conversa trouxe-a eu de proposito para confirmar umas suspeitas, que se me formaram e que vejo agora que eram fundadas.

– Suspeitas! que suspeitas?..

– O primo Henrique de Souzellas deixou em ti uma tal ou qual impressão.

– Lena!

– Conheci isso ainda quando elle cá estava; verifiquei-o depois e agora. Então! tem juizo. Commigo sê sempre o que tens sido. Eu góso ha muito do privilegio de conversar á vontade comtigo e de te vêr sem aquella timidez que tens deante dos outros. Com o teu genio, precisas de uma pessoa, como eu, com quem não tenhas acanhamento e em quem possas até descarregar algumas maldadezitas; e acredita que me lisonjeio com me dares a preferencia.

– Mas como imaginaste?..

– Continuas? Não tens de que te envergonhar pelo interesse que por ventura te inspirou esse rapaz. Henrique de Souzellas é elegante, é espirituoso, affavel, possue uma intelligencia cultivada e muito trato do mundo…

– Mas…

– Faça favor de me ouvir – atalhou Magdalena, pondo um dedo nos labios. Reconhecendo todas essas qualidades n'aquelle nosso primo, não quero por isso concluir que seja natural e prudente denunciares-te já. E nem receio que isso aconteça, para te falar sinceramente, porque te conheço o genio timido e porque… porque te conheço o genio timido e mais nada.




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