Lash
L. G. Castillo


Anjos Caídos #1
Ren achou que havia capturado um ladrãozinho qualquer apenas para descobrir que, escondida sob camadas de sujeira e roupas de menino, estava a pessoa mais desejável e sedutora que ele já tinha visto. Percebendo que ela tinha sido marcada com um símbolo do demônio e parecia ter um desejo mortal, Ren rapidamente decide que a única forma de mantê-la viva é não perdê-la de vista. Se os demônios eram suicidas o bastante para acharem que iam afastá-la dele, Ren lhes mostraria seu próprio desejo mortal.

A mistura com o círculo de roubos realizados por demônios tinha sido fácil… Lacey estava tendo problemas era com a forma de fugir deles quando decidiram matá-la. Quando seu parceiro morre, apenas para dar-lhe uma vantagem inicial, ela não permite o sacrifício dele seja em vão e corre, como se uma horda de demônios a perseguisse… e é o que acontece. Como ela deveria saber que sua rota de fuga iria levá-la bem para o meio de uma guerra de demônios e para os braços de um estranho sexy que era mais poderoso do que seu pior pesadelo? Ren achou que havia capturado um ladrãozinho qualquer apenas para descobrir que, escondida sob camadas de sujeira e roupas de menino, estava a pessoa mais desejável e sedutora que ele já tinha visto. Percebendo que ela tinha sido marcada com um símbolo do demônio e parecia ter um desejo mortal, Ren rapidamente decide que a única forma de mantê-la viva é não perdê-la de vista. Se os demônios eram suicidas o bastante para acharem que iam afastá-la dele, Ren lhes mostraria seu próprio desejo mortal.








Lash




Contents


Livros de L.G. Castillo (#ue4c95fe2-c4b8-5fea-87e6-ed1bb25eacce)

CapÃ­tulo 1 (#u5f211306-8278-57c6-9bb4-a59e90f37945)

CapÃ­tulo 2 (#ud5439240-3537-52e2-b888-a358561af4d1)

CapÃ­tulo 3 (#u02453e6d-7cc7-5900-ae0c-f2c82ce55927)

CapÃ­tulo 4 (#u42243e6f-fbd8-5e84-80f5-39ae50d3a01d)

CapÃ­tulo 5 (#u450d7803-19c8-558d-9ac0-0346eb657241)

CapÃ­tulo 6 (#litres_trial_promo)

CapÃ­tulo 7 (#litres_trial_promo)

CapÃ­tulo 8 (#litres_trial_promo)

CapÃ­tulo 9 (#litres_trial_promo)

CapÃ­tulo 10 (#litres_trial_promo)

CapÃ­tulo 11 (#litres_trial_promo)

CapÃ­tulo 12 (#litres_trial_promo)

CapÃ­tulo 13 (#litres_trial_promo)

CapÃ­tulo 14 (#litres_trial_promo)

CapÃ­tulo 15 (#litres_trial_promo)

CapÃ­tulo 16 (#litres_trial_promo)

CapÃ­tulo 17 (#litres_trial_promo)

CapÃ­tulo 18 (#litres_trial_promo)

CapÃ­tulo 19 (#litres_trial_promo)

CapÃ­tulo 20 (#litres_trial_promo)

CapÃ­tulo 21 (#litres_trial_promo)

CapÃ­tulo 22 (#litres_trial_promo)

CapÃ­tulo 23 (#litres_trial_promo)

CapÃ­tulo 24 (#litres_trial_promo)


Copyright Â© 2013 por L.G Castillo.

Todos os direitos reservados.

Nenhuma parte desta publicaÃ§Ã£o pode ser reproduzida, distribuÃ­da ou transmitida de qualquer forma ou por qualquer meio, incluindo fotocÃ³pia, gravaÃ§Ã£o ou outros mÃ©todos eletrÃ´nicos ou mecÃ¢nicos, sem a permissÃ£o prÃ©via por escrito do autor, exceto no caso de breves citaÃ§Ãµes incorporadas em resenhas crÃ­ticas e outros usos nÃ£o comerciais permitidos pela lei de direitos autorais.

Esta Ã© uma obra de ficÃ§Ã£o. Nomes, personagens, lugares e incidentes sÃ£o produtos da imaginaÃ§Ã£o do autor. Lugares e nome pÃºblicos sÃ£o usados com propÃ³sitos de ambientaÃ§Ã£o. Qualquer semelhanÃ§a com pessoas reais, vivas ou mortas ou negÃ³cios, empresas, eventos, instituiÃ§Ãµes, ou locais Ã© completamente coincidÃªncia.

Design de capa: Danielle @ Coffee and Characters (http://www.coffeeandcharacters.com/)




Livros de L.G. Castillo


SÃ©rie dos Anjos CaÃ­dos

Lash (Anjos CaÃ­dos #1) (http://smarturl.it/lash-br)

ApÃ³s a Queda (Anjos CaÃ­dos #2) (http://smarturl.it/AnjosCaidos2)

Antes da Queda (Anjos CaÃ­dos #3) (http://smarturl.it/AnjosCaidos3)

Jeremy (Anjos CaÃ­dos #4) (http://smarturl.it/AnjosCaidos4)

Anjo de Ouro (Anjos CaÃ­dos #5) (http://smarturl.it/AnjosCaidos5)

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CONTEMPORARY ROMANCE

Stillwater Dusk (https://www.books2read.com/StillwaterDusk)

Strong & Wilde (Texas Wild Hearts #1) (https://books2read.com/StrongWildeNovel)

Secrets & Surrender (Texas Wild Hearts #2) (https://books2read.com/SecretsSurrenderNovel)

Your Gravity (https://books2read.com/YourGravityNovel)

PARANORMAL ROMANCE

Lash (Broken Angel #1) (https://books2read.com/LASH)

After the Fall (Broken Angel #2) (http://books2read.com/AftertheFall)

Before the Fall (Broken Angel #3) (https://books2read.com/BeforeTheFall)

Jeremy (Broken Angel #4) (https://books2read.com/JeremyBrokenAngel4)

Golden Angel (Broken Angel #5) (https://books2read.com/GoldenAngel)

Archangelâs Fire (https://books2read.com/ArchangelsFire)

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1


Lash olhava confuso para o quadro de chegadas, seus olhos cor de avelÃ£ examinando a lista de voos entrando e saindo do aeroporto de Houston.

â 1724. 1724 â ele murmurou. NÃºmeros de voos, cidades e portÃµes apareciam enquanto as mudanÃ§as eram feitas no portÃ£o de chegada. â Droga. Como se lÃª essa coisa?

Ele passou a mÃ£o pelo cabelo escuro com frustraÃ§Ã£o. Um serafim deveria ser capaz de encontrar algo tÃ£o simples quanto o portÃ£o em que chega sua atribuiÃ§Ã£o de trabalho.

Lash suspirou enquanto olhava para a informaÃ§Ã£o que a Arcanjo Gabrielle, sua supervisora direta, deu a ele. SÃ³ ele para ter a sorte de ser atribuÃ­do para a Ãºnica pessoa que se deleitava com a sua misÃ©ria. Ele nÃ£o descartara a possibilidade de ela ter lhe dado intencionalmente as informaÃ§Ãµes erradas do voo para fazÃª-lo correr no Ãºltimo minuto para encontrar a sua atribuiÃ§Ã£o.

â Javier Duran, oito anos. Voo 1724, chegando Ã s 12h05 â ele leu. Virou o cartÃ£o e olhou para a foto do menino com pele de um tom claro de cafÃ©, bochechas rechonchudas e grandes olhos castanhos.

â Onde estÃ¡ o seu aviÃ£o, pequenino? â Ele olhou novamente, e os nÃºmeros "1724" apareceram na tela.

â Finalmente. â Ele memorizou o nÃºmero do portÃ£o e atravessou a agitada multidÃ£o no aeroporto.

â O que? Eu nÃ£o posso te ouvir? â Lash ouviu uma jovem gritar no telefone pÃºblico. â NÃ£o, o aviÃ£o dele ainda nÃ£o pousou. Deveria estar aqui em alguns...

Ele se virou para olhar a mulher que parou no meio da frase, curiosa para ver o que aconteceu. A mulher olhou atravÃ©s dos Ã³culos cor de rosa diretamente para ele.

Lash saltou de surpresa. Era como se ela pudesse vÃª-lo. A maioria dos humanos nÃ£o podia quando ele tomava sua forma de anjo - exceto por crianÃ§as pequenas ou animais, mas mesmo isso era raro. Quando um adulto conseguia vislumbrÃ¡-lo, ele muitas vezes descartava isso como uma invenÃ§Ã£o de sua imaginaÃ§Ã£o.

â Anita, quÃ© paso? â perguntou a voz do outro lado da linha. â O que aconteceu?

â Espere um minuto. â Anita tirou os Ã³culos e limpou as lentes com sua blusa floral de poliÃ©ster.

Lash ficou imÃ³vel, esperando para ver se ela diria algo sobre sua presenÃ§a. Anita colocou os Ã³culos de volta. Olhos castanhos olharam em sua direÃ§Ã£o novamente. Depois de um momento, ela balanÃ§ou a cabeÃ§a e continuou sua conversa.

â NÃ£o importa, eu pensei que tinha visto alguma coisa â disse ela quando voltou sua atenÃ§Ã£o para o interlocutor. â Me dÃª a informaÃ§Ã£o novamente, preciso anotar. â Ela enfiou a mÃ£o na bolsa e tirou um pedaÃ§o de papel. Embalagens de doces e chiclete caÃ­ram no tapete junto com uma caneta preta. â Onde estÃ¡ minha caneta? NÃ£o consigo encontrar nada nesta bolsa.

â FaÃ§a uma oraÃ§Ã£o para SÃ£o Longuinho â disse a voz ao telefone.

â Boa ideia. â Anita fechou os olhos. â SÃ£o Longuinho, SÃ£o Longuinho. Por favor, me ajude a achar o que eu perdi e nÃ£o consigo encontrar. Ajude-me a encontrar minha caneta para poder escrever as informaÃ§Ãµes que Gloria deveria ter me dado esta manhÃ£ antes que meu filho de oito anos subisse sozinho no aviÃ£o. E enquanto vocÃª estÃ¡ nisso, vocÃª pode pedir ao Senhor para perdoar Gloria por seu esquecimento? Ela tem que aturar o meu ex-marido, e sÃ³ o Senhor sabe como esse homem Ã© imprestÃ¡vel - especialmente quando se trata de lavar a roupa de baixo.

â Ã oraÃ§Ã£o suficiente â retrucou Gloria do outro lado da linha.

Lash riu. NÃ£o havia SÃ£o Longuinho â pelo menos nÃ£o no aeroporto. Ele pegou a caneta e colocou-a na borda da prateleira do telefone pÃºblico.

Anita estremeceu. â Dios mÃ­o, senti um calafrio. Eles deixam o ar muito frio aqui. Eles deveriam... â Seus olhos se arregalaram quando ela viu a caneta. â Como que isso foi parar aqui?

Anita se virou e Lash prendeu a respiraÃ§Ã£o. Ela estava nariz-a-nariz com ele, tÃ£o perto que ele podia sentir o hÃ¡lito de menta e ver uma mancha de batom vermelho no dente da frente. Ela respirou fundo, fechou os olhos e sorriu. â Gracias, SÃ£o Longuinho. Me sinto abenÃ§oada. â E deu os trÃªs pulinhos para o santo.

Lash piscou com espanto. JÃ¡ fazia muito tempo desde que se deparara com um humano como ela. Ele nÃ£o conhecia a minÃºscula mulher de cabelos escuros, mas uma aura de paz a cercava. Era como se soubesse que estavam cuidando dela.

Ele olhou para o relÃ³gio e deixou Anita conversando com sua amiga. O aviÃ£o do garoto estava programado para pousar em breve. Enquanto corria pelo corredor, ele se perguntou se sua tarefa era o menino de Anita.

Quando chegou ao portÃ£o, olhou pela grande janela para o espaÃ§o vazio onde deveria estar o aviÃ£o. Em vez disso, Jeremy, seu melhor amigo, estava no asfalto. Ele estava vestido impecavelmente, parecendo mais um modelo de capa de uma revista GQ do que o Arcanjo da Morte. Seus cabelos dourados, escovados do rosto, brilhavam sob o sol do Texas. Lash sempre achou estranho que ele se importasse com a sua aparÃªncia, considerando que raramente aparecia em sua forma humana. A maioria das pessoas o conhecia apenas pelo seu nome de anjo, Jeremiel, e quando aparecia para eles, era porque estavam morrendo. Jeremy, como Lash, decidiu modernizar seu nome alguns anos atrÃ¡s. Pena que ele nÃ£o fez o mesmo com suas roupas. Comparado a Jeremy, Lash parecia o perpÃ©tuo rebelde adolescente, preferindo jeans rasgados e camisetas justas.

Lash se perguntou por que Jeremy nÃ£o mencionou que tinha uma missÃ£o em Houston durante o jogo de pÃ´quer da noite anterior. Pela primeira vez desde que comeÃ§aram a jogar, dÃ©cadas atrÃ¡s, Lash estava ganhando, e eles estavam se divertindo muito â fumando charutos e bebendo uÃ­sque. NÃ£o foi atÃ© que Gabrielle apareceu e entregou a Lash a tarefa, que Jeremy ficou estranhamente quieto. Jeremy parecia tÃ£o incomumente chateado quando pediu a Lash uma garantia dos seus ganhos, embora Lash nÃ£o conseguisse pensar em uma Ãºnica vez onde precisou cobrÃ¡-lo. Gabrielle parecia estar de mau humor tambÃ©m. Talvez ele devesse ter reconsiderado o sopro de fumaÃ§a que deu diretamente em seu rosto. Ela provavelmente nÃ£o gostou disso.

Lash estava prestes a se juntar a ele na pista quando Gabrielle apareceu. Ela sussurrou algo no ouvido de Jeremy e seu sorriso sempre presente, congelou. O que quer que ela tenha dito a ele, nÃ£o poderia ter sido bom.

Ele seguiu o olhar de Jeremy e olhou para o cÃ©u sem nuvens. Ao longe, viu uma pequena partÃ­cula e, instintivamente, soube que era o vÃ´o 1724. Lash olhou para Jeremy e imaginou se sua tarefa envolvia alguÃ©m no mesmo voo.

Jeremy acenou para Gabrielle e, num instante, desapareceu. O pavor atingiu a boca do estÃ´mago de Lash quando Gabrielle levantou os braÃ§os no ar e girou as mÃ£os delgadas em cÃ­rculos. Ãrvores ao redor do aeroporto balanÃ§avam enquanto o vento aumentava e nuvens escuras comeÃ§avam a se formar.

Lash pressionou as palmas das mÃ£os contra o vidro. O que ela estava fazendo? Ele cerrou os dentes, imaginando se ela estava intencionalmente tentando dificultar seu trabalho. Foi-lhe dito para cuidar de Javier e ter certeza de que ele retornasse em seguranÃ§a para sua mÃ£e. Ela convenientemente esqueceu-se de lhe dizer que o menino estaria em perigo â ou que o perigo seria a prÃ³pria Gabrielle.

Lash observou enquanto ela continuava a manipular o vento e as nuvens, e o cÃ©u que escurecera.

â Parece que uma tempestade estÃ¡ chegando â disse uma mulher sentada na fileira de cadeiras atrÃ¡s dele.

â O clima do Texas Ã© assim â disse o companheiro masculino ao lado dela. â Um minuto estÃ¡ um dia ensolarado; vocÃª pisca e entÃ£o todo o inferno se solta.

Um estrondo de trovÃ£o fez o vidro vibrar sob as mÃ£os de Lash. Ele se afastou quando um fluxo de pedaÃ§os de gelo bateu no chÃ£o.

â Senhor, tenha misericÃ³rdia â disse a mulher enquanto pressionava a mÃ£o contra o peito. â Isso foi alto. â Ela olhou pela janela. â Espero que passe em breve. NÃ£o queria ser pega lÃ¡ fora nesta tempestade.

Foi entÃ£o que Lash soube por que Gabrielle e Jeremy estavam lÃ¡ e por que ele recebeu essa tarefa. Nem todos os passageiros do voo 1724 iriam pousar em Houston - nÃ£o vivos.

Ele fechou os olhos e projetou-se no aviÃ£o. Quando os abriu, estava de pÃ© no corredor ao lado de uma garota bonita. Seu cabelo loiro claro estava enfiado atrÃ¡s das orelhas, destacando vibrantes olhos azuis. Ela nÃ£o poderia ter mais de doze anos, mas algo sobre ela, a fez parecer sÃ¡bia alÃ©m de seus anos.

Lash olhou pela janela. Um nevoeiro de escuridÃ£o cercava o aviÃ£o. As pessoas sentadas nos bancos perto dele murmuravam freneticamente enquanto olhavam para fora. Eles estavam assustados. Ele rapidamente afastou os sentimentos que ameaÃ§avam borbulhar, precisava se concentrar.

Um choramingo vindo do assento atrÃ¡s da garota chamou a sua atenÃ§Ã£o, e ele deu um passo em direÃ§Ã£o a ela. Sentado no banco estava um menino pequeno, seus pÃ©s mal tocando o chÃ£o. Javier.

â MÃ£e, ele estÃ¡ com medo â disse a menina. â Posso ir sentar com ele?

A mulher, uma rÃ©plica mais velha da moÃ§a bonita, tomou um gole de seu coquetel. â NÃ£o, nÃ£o Ã© seguro. â O aviÃ£o deu um solavanco, e ela deixou cair a bebida no chÃ£o, o lÃ­quido Ã¢mbar espirrando em seu terno de linho branco. A cor sumiu de seu rosto quando ela agarrou o braÃ§o da cadeira. â Meu Deus.

A garota se inclinou para o lado e olhou para o menino. â Mas ele estÃ¡ sozinho.

â FaÃ§a o que eu disse, ou terei que contar ao seu pai quando chegarmos em casa â A mulher estalou enquanto limpava as calÃ§as com um guardanapo. â O comissÃ¡rio de bordo irÃ¡ cuidar dele.

Lash observou a garota piscar rapidamente e sentiu um puxÃ£o em seu peito enquanto ela enxugava as lÃ¡grimas. Ela colocou um olhar determinado em seu rosto antes de voltar sua atenÃ§Ã£o para o menino.

â EstÃ¡ tudo bem. Shh, nÃ£o chore. NÃ³s estaremos pousando em breve â disse ela. â Qual o seu nome?

O garotinho olhou para cima. Olhos castanhos emoldurados por longos cÃ­lios travados com os dela. LÃ¡grimas cobriam suas bochechas rechonchudas. â Ja-Javier. â Ele fungou e limpou o nariz com as costas da manga da camisa.

â Oi, Javier. Eu sou Jane.

O aviÃ£o desceu, levantando Javier de seu assento por uma fraÃ§Ã£o de segundo antes que voltasse para baixo. Ele soluÃ§ou e Lash se ajoelhou ao seu lado enviando uma onda de calma, esperando que o menino pudesse sentir sua presenÃ§a.

Javier ofegou para dentro e para fora como se tentasse recuperar o fÃ´lego. Uma mÃ£o pÃ¡lida se estendeu em direÃ§Ã£o a ele. â VocÃª vai ficar bem, Javier. NÃ£o se preocupe. Eu vou segurar sua mÃ£o atÃ© pousarmos. Ok?

Javier olhou para Jane. Seus cachos negros balanÃ§aram quando ele assentiu.

Doeu em Lash quando Javier estendeu a mÃ£o e colocou na de Jane. Fazia muito tempo desde que vira alguÃ©m agir de maneira tÃ£o abnegadamente. Ele olhou ao redor do aviÃ£o, esperando ver Jeremy. Como ele nÃ£o estava lÃ¡, talvez houvesse esperanÃ§a para a menina e os outros.

O aviÃ£o tremeu violentamente e os comissÃ¡rios de bordo correram pelo corredor, ordenando que os passageiros apertassem os cintos de seguranÃ§a. Eles entÃ£o correram para seus prÃ³prios lugares e se afivelaram.

Houve um estalo alto seguido por um grito de metal se rasgando. Gritos encheram a cabine e mÃ¡scaras amarelas de oxigÃªnio caÃ­ram do teto.

Jane soltou a mÃ£o de Javier por um momento para colocar a mÃ¡scara e ele chorou. Lash se inclinou e sussurrou: â NÃ£o tenha medo. Estou aqui com vocÃª.

Javier continuou a chorar enquanto Lash pairava sobre ele, olhando para Jane, cujas mÃ£os trÃªmulas estavam colocando a mÃ¡scara amarela sobre o rosto. Quando terminou, recostou-se, esticando a mÃ£o para Javier. â Coloque a sua mÃ¡scara â ela gritou.

Javier pegou a mÃ£o e olhou para ela com uma expressÃ£o vazia. Jane olhou diretamente nos olhos dele e apontou para o plÃ¡stico amarelo que pairava. â Coloque-o.

Javier assentiu e colocou freneticamente a mÃ¡scara sobre a cabeÃ§a. Houve um estrondo alto, gritos foram engolidos assim que comeÃ§aram. Os olhos de Javier se arregalaram, Jane se virou para ver o que ele estava olhando e deu um grito estridente. Luz laranja e vermelha refletiam na mÃ¡scara de Javier, e Lash endureceu. Uma onda de calor bateu em suas costas e ele se preparou para lutar contra o que estava prestes a prejudicar o garoto. Seu estÃ´mago se apertou quando uma onda de chamas rolou pelo corredor em direÃ§Ã£o a eles.






Os passos de Lash ecoaram na Sala das Oferendas, uma ampla sala onde os arcanjos exibiam os presentes que os humanos ofereciam ao CÃ©u ao longo dos sÃ©culos. Pinturas e esculturas se alinhavam nas paredes. Ele parou em frente a uma grande caixa de mogno e olhou para uma pequena estatueta, uma figura de Gabrielle, atravÃ©s da vidraÃ§a. Seus olhos claros escureceram quando pegou e passou as mÃ£os sobre a pedra lisa. Ele arrancou a cabeÃ§a e esmagou-a entre os dedos, transformando-a em pÃ³, entÃ£o colocou a estatueta na frente e no centro da prateleira e sorriu, sabendo que Gabrielle ficaria furiosa quando visse.

Ele se virou quando a grande porta de carvalho se abriu, e o Arcanjo Raphael entrou na sala, seus solenes olhos azuis pousando em Lash quando se aproximou. â Lahash â Sua voz estava cheia de decepÃ§Ã£o.

NÃ£o era a primeira vez que Raphael escoltava Lash ao SalÃ£o do Julgamento, um lugar onde os anjos eram disciplinados por seus erros e julgados se eram dignos de permanecer no cÃ©u. Lash nunca se preocupou se alguma vez seria considerado indigno â Raphael sempre cuidava disso.

Olhando para a estatueta sem cabeÃ§a, Raphael franziu os lÃ¡bios, mas nÃ£o comentou sobre isso. â Michael vai ver vocÃª assim que terminar de questionar Gabrielle.

â Ã Lash â Lash murmurou sob sua respiraÃ§Ã£o. Ele odiava ser chamado por seu nome celestial, mas Raphael, antiquado em seus modos e inflexÃ­vel em manter tradiÃ§Ãµes, insistia.

Raphael passou a mÃ£o pelas ondas loiras de cabelo com frustraÃ§Ã£o. Ele nÃ£o reconheceu que o havia escutado, mas Lash sabia que ele ouviu. Algumas das vantagens especiais de ser um anjo incluÃ­am visÃ£o, audiÃ§Ã£o e forÃ§a amplificadas - o voo era um bÃ´nus adicional.

â Por que vocÃª fez isso, Lahash? Gabrielle lhe deu instruÃ§Ãµes especÃ­ficas. Tudo o que vocÃª tinha que fazer era segui-las.

Que resposta ele poderia dar ao seu mentor, a Ãºnica pessoa que sempre o defendeu quando decidia seguir o seu prÃ³prio caminho? Ele desejou poder dizer a Raphael a verdade. Quando Gabrielle lhe deu instruÃ§Ãµes para salvar o menino, ele ficou feliz em fazÃª-lo. Depois de anos ajudando humanos que jogavam suas vidas fora com atividades frÃ­volas, ele achava que pelo menos com as crianÃ§as havia esperanÃ§a. Havia algo sobre crianÃ§as, com suas mentes abertas e coraÃ§Ãµes imaculados, que eram tÃ£o diferentes dos coraÃ§Ãµes cansados ââda idade adulta. Salvar o menino foi fÃ¡cil; deixar a menina de cabelos loiros para o seu destino nÃ£o foi.

â Gabrielle cometeu um erro. Ela deve ter esquecido que outro jovem estava no aviÃ£o, entÃ£o imaginei qual seria o mal de salvar os dois?

â NÃ£o houve erro â disse Raphael.

â A menina merecia viver.

â NÃ£o cabe a vocÃª decidir. VocÃª sabe disso.

â Sim, sim, o Chefe toma as decisÃµes. â Lash acenou para ele e sentou-se em um dos sofÃ¡s de couro no centro da sala. Ele tentava seguir suas atribuiÃ§Ãµes, mas ultimamente tornava-se mais difÃ­cil aceitÃ¡-las, mesmo sabendo que Michael e Gabrielle recebiam suas instruÃ§Ãµes de Deus.

Raphael se sentou em frente a ele e se inclinou. â Lash, vocÃª se importa profundamente com os humanos, e Ã© isso que faz de vocÃª um grande serafim. Mas vocÃª deve aprender a ter controle. VocÃª nÃ£o pode tomar decisÃµes sem pensar sobre elas.

â Eu sei o que estou fazendo. â Lash afundou no sofÃ¡ branco e se inclinou para trÃ¡s, entrelaÃ§ando as mÃ£os atrÃ¡s da cabeÃ§a. â Eu nÃ£o concordo com algumas das decisÃµes tomadas por aqui.

â VocÃª Ã© jovem. VocÃª vai crescer e aprender que as decisÃµes que tomamos sÃ£o baseadas em muito mais do que aquilo que Ã© colocado diante de nÃ³s. â A voz de Raphael ficou severa. â Toda aÃ§Ã£o tem consequÃªncias que devem ser levadas em conta.

â Deixa disso. Ela Ã© uma garotinha. â Lash jogou as mÃ£os para cima. â Eu dei a ela uma chance de crescer e viver sua vida. Qual poderia ser o mal disso?

â Mais do que vocÃª sabe.

Lash revirou os olhos e seu rosto ficou sÃ©rio. â VocÃª deveria tÃª-la visto, Raphael. Havia algo bom nela que eu nÃ£o vi em alguÃ©m hÃ¡ muito tempo.

â Tenho certeza de que havia, mas vocÃª nÃ£o tem conhecimento do que ela irÃ¡ se tornar. â Raphael sentou-se e um olhar distante cruzou seus olhos. â Houve uma Ã©poca em que segui meu coraÃ§Ã£o. Eu me atrevi a desafiar Michael e os outros. â Os olhos de Raphael se abriram, uma expressÃ£o triste cruzou seu rosto. â Eu fiz isso a um alto custo.

Lash tinha visto essa expressÃ£o algums vezes e se perguntara o que tinha acontecido com Raphael para causar-lhe uma mÃ¡goa tÃ£o aparente. Ele desejou poder lembrar a primeira vez que o conheceu. Por alguma razÃ£o, havia uma lacuna em sua memÃ³ria. Tudo o que conseguia se lembrar era de acordar uma manhÃ£ com Raphael sentado ao seu lado.

Quando Raphael se levantou e caminhou atÃ© a porta, Lash seguiu e deu um soco no ombro dele. â Ei, nÃ£o se preocupe. Eu vou receber uma palmatÃ³ria como da Ãºltima vez.

Raphael sacudiu a cabeÃ§a. â Algum dia; sua rebeldia irÃ¡ alcanÃ§Ã¡-lo.

Ele sorriu. â Hoje, nÃ£o. Tenho certeza disso.

Ao descerem pelo corredor, um anjo alto e esguio se aproximou deles. Ondas de cabelos louros emolduravam um rosto carrancudo. â Michael estÃ¡ pronto para ver vocÃª.

Lash sorriu. â Bom dia para vocÃª tambÃ©m, Gabrielle.

Gabrielle estreitou os olhos verdes de gato. â VocÃª nÃ£o entende as ramificaÃ§Ãµes do que vocÃª fez? Ou vocÃª simplesmente nÃ£o se importa?

Ele estava prestes a responder quando Raphael entrou na frente dele. â NÃ£o responda a isso. Gabrielle, acredito que Ã© melhor ter essa conversa com Michael. Vamos?

Seus olhos suavizaram quando ela olhou para Raphael e entÃ£o ficaram gÃ©lidos. â VocÃª nÃ£o pode protegÃª-lo desta vez. â Ela se virou para Lash, e o olhou com Ã³dio. â Por que vocÃª se importa? â Virando-se, ela caminhou em direÃ§Ã£o ao SalÃ£o do Julgamento.

Na porta, ela se afastou e ficou ao lado de Raphael. Quando Lash entrou, piscou para ele, tentando esconder sua crescente ansiedade. Estranho. Em todas as vezes que jÃ¡ esteve em apuros antes, ele nunca ficou ansioso. Algo estava diferente.

â NÃ£o se preocupe, Raphael. Eu tenho isso sob controle â disse Lash. Qual a pior coisa que poderiam fazer com ele?




2

Trinta e cinco anos depois


Naomi Duran desligou a moto e sentou-se por um momento observando as crianÃ§as da vizinhanÃ§a jogar basquete. TrÃªs garotos correram descendo a rua enquanto duas garotas estavam na calÃ§ada, avisando-os sobre os carros que passavam. Ela soltou a alÃ§a do capacete e riu.

Ela nÃ£o podia acreditar que finalmente se formara na faculdade.

Percorrera um longo caminho desde a magricela que estava nos ombros de seu primo Chuy enquanto pregava a cesta de basquete no poste de telefone. A cicatriz em seu joelho e o tapa no traseiro que levou do seu pai valeram totalmente a pena, no entanto. Ela ganhou a aposta contra Lalo Cruz, o melhor amigo de Chuy, e gastou dez dÃ³lares em refrigerante Big Red. Ela nÃ£o podia acreditar que o aro ainda estivesse pendurado no mesmo lugar.

Naomi tirou o capacete e o cabelo escuro caiu sobre o rosto. Eu preciso de um corte de cabelo, ela pensou enquanto afastava a massa emaranhada. A Ãºltima vez que teve um foi quase dois anos atrÃ¡s quando sua mÃ£e perdeu o prÃ³prio cabelo durante a quimioterapia. Sem hesitar, ela cortou as tranÃ§as que estavam na cintura e o usou para fazer uma peruca. Um ano depois, seu cabelo cresceu e sua mÃ£e faleceu. Ela queria cortar o cabelo curto novamente, mas toda vez que ia ao cabeleireiro, isso trazia de volta memÃ³rias que nÃ£o queria lembrar.

Era doloroso pensar em sua mÃ£e e Naomi evitava isso sempre que possÃ­vel. Ela comprou a motocicleta Ninja 250R usada, depois que sua mÃ£e morreu. A moto vermelha gritava: "Dirija-me!" e ela teve que tÃª-la. GraÃ§as Ã s habilidades mecÃ¢nicas de Chuy, ele fez a moto funcionar como nova. SÃ³ enquanto dirigia era capaz de afastar a memÃ³ria de sua mÃ£e murchando em sua cama ou seu pai afogando a sua dor no Ã¡lcool depois que ela morreu.

â O que vocÃª estÃ¡ fazendo sentada aqui fora?

Chuy saiu da pequena casa branca, a porta de tela se fechou atrÃ¡s dele. Ele percorreu um longo caminho desde o garoto magro com acne. Agora estÃ¡ todo musculoso, graÃ§as ao seu trabalho na Companhia Cruz de MudanÃ§a. Levantar diariamente muitos quilos de mobÃ­lia o preencheu muito bem, embora Naomi nunca admitiria isso em voz alta. Ele jÃ¡ tinha seu ego acariciado regularmente por vÃ¡rias garotas da vizinhanÃ§a que se reuniam em torno dele.

â Estou apreciando o silÃªncio antes de ter que enfrentar a multidÃ£o que chamamos de famÃ­lia. â Ela jogou a perna por cima do banco e prendeu o capacete na moto.

â Deixe-me empurrar essa armadilha da morte para vocÃª. â Ele se inclinou sobre sua motocicleta e flexionou seus braÃ§os musculosos para ela. â Confira minhas armas. Elas ficaram maiores.

Ela revirou os olhos e empurrou-o para longe. â Eca, Chuy. VocÃª precisa de um banho.

â O que estÃ¡ errado? Seu nariz Ã© bom demais para a Eau de Mexicano? Alguns de nÃ³s tÃªm que trabalhar para viver. Nem todos nÃ³s podemos ser universitÃ¡rios como vocÃª. â Chuy sorriu.

Naomi bufou. Ele sempre a provocava quando estava tentando esconder seus verdadeiros sentimentos. Ele era como um irmÃ£o mais velho, sempre cuidando dela, especialmente depois que as coisas ficavam difÃ­ceis com o seu pai. Ãs vezes, ela ficava com ciÃºmes do relacionamento especial entre pai e filho que Chuy e seu pai tinham, mas ela nÃ£o podia culpar seu pai por tomar Chuy sob sua asa depois que seus prÃ³prios pais foram mortos quando ele tinha cinco anos. Sua avÃ³ criou Chuy, seus olhos de falcÃ£o sempre atentos para que ele nÃ£o fosse recrutado por nenhuma das gangues da vizinhanÃ§a. Se Chuy tivesse algum problema, seu pai estava lÃ¡ para colocÃ¡-lo em seu lugar.

â VocÃª poderia ter seu prÃ³prio negÃ³cio agora, se vocÃª nÃ£o tivesse desistido apÃ³s o primeiro semestre.

â VocÃª pode me culpar? Como aprender sobre SÃ³crates ajuda a pagar as contas? â Chuy baixou o suporte.

Ela olhou para ele com cuidado. Era um ponto dolorido para ele, jÃ¡ que queria ficar na faculdade, mas tambÃ©m nÃ£o podia pagar as mensalidades e sustentar a avÃ³. Na Ã©poca, papai estava lutando para manter o seu prÃ³prio emprego e tambÃ©m nÃ£o podia ajudar.

â EstÃ¡ bem, estÃ¡ bem. Eu admito. VocÃª Ã© muito inteligente, vocÃª sabe disso. â Ela o cutucou no braÃ§o. â Eu nÃ£o conseguiria passar em Ã¡lgebra sem a sua ajuda.

â NÃ£o tÃ£o alto. â Chuy olhou em volta nervosamente quando chegaram aos degraus da frente da casa. â Eu tenho uma reputaÃ§Ã£o para proteger.

â Oh, que horror! Eu nÃ£o quero que ninguÃ©m pense que vocÃª Ã© inteligente.

Naomi ouviu a mÃºsica crescendo antes que visse. Os garotos da vizinhanÃ§a deram um passo para o lado e observaram o mustangue preto virar a esquina. Aros semelhantes a espelhos giravam devagar enquanto o carro descia a rua. Na grade do carro, luzes LED brilhantes contornavam o logotipo do cavalo como um halo branco-azulado.

â Realmente, papai. Depeche Mode? â Naomi perguntou quando o seu pai, Javier Duran, parou o carro na frente dela.

â VocÃª sabe que gosta disso. VocÃª costumava danÃ§ar o tempo todo quando era pequena. â Javier tomou-a nos braÃ§os e deu-lhe um abraÃ§o. â ParabÃ©ns, Mijita. VocÃª ficou linda esta manhÃ£ com seu chapÃ©u e beca.

â Obrigada, pai. â Naomi adorava quando ele usava o carinhoso termo espanhol para filha.

â VocÃª nos ouviu? Batemos palmas para vocÃª. â Javier abriu o porta-malas do carro e tirou uma sacola de compras.

â Sim, pai. Acho que todo mundo ouviu a buzina de Chuy.

â Ei, eu tive que agitar um pouco as coisas â disse Chuy enquanto pegava as sacolas restantes do porta-malas. â Foi tÃ£o chato que estÃ¡vamos caindo no sono.

â MissÃ£o cumprida. O chanceler quase teve um ataque do coraÃ§Ã£o. â Naomi foi atÃ© a frente do carro e traÃ§ou a luz ao redor do cavalo. â VocÃª terminou de instalar as luzes. Ficou bom.

Javier sorriu e deu um tapinha no capÃ´ do carro. â VocÃª precisa ver Ã  noite, parece que o cavalo estÃ¡ vindo direto para vocÃª.

Ela riu. Fazia muito tempo desde que tinha visto seu pai tÃ£o feliz. â Papai, vocÃª parece um adolescente.

â A vida Ã© difÃ­cil, Mijita. VocÃª tem que aproveitar quanto puder.

â Sim, nÃ£o podemos todos ser verdadeiros devoradores de livros como vocÃª, Naomi â disse Chuy. â AlÃ©m disso, vocÃª tem vinte e dois, nÃ£o oitenta e dois. Viva um pouco.

Se ela conseguisse. Houve um tempo em que foi capaz de agir de acordo com sua idade. Durante os primeiros dois anos na faculdade, foi para uma sÃ©rie de festas de fraternidade. Tudo mudou durante seu primeiro ano quando sua mÃ£e foi diagnosticada. Ao contrÃ¡rio de outras garotas da idade dela, ela nÃ£o tinha interesse em namorar, mesmo quando sua mÃ£e a estimulava. Ela tinha a sensaÃ§Ã£o de que sua mÃ£e estava esperando que ela encontrasse alguÃ©m em quem pudesse se apoiar uma vez que fosse embora.

Depois que ela morreu, Naomi nÃ£o teve tempo de chorar porque estava ocupada cuidando de seu perturbado pai. Na verdade, ela queria desistir da faculdade. Se nÃ£o tivesse prometido a sua mÃ£e que se formaria, teria feito.

Naomi sorriu enquanto Javier e Chuy conversavam animadamente sobre o carro a medida que caminhavam em direÃ§Ã£o ao quintal. Parecia que as coisas estavam melhorando para todos eles. Algumas semanas atrÃ¡s, Javier iniciou as reuniÃµes do AA e parou de beber, colocando toda a sua energia em consertar o Mustang com Chuy. Naomi tinha um novo emprego como assistente social no ServiÃ§os de ProteÃ§Ã£o Ã  CrianÃ§a, que comeÃ§arÃ¡ daqui a algumas semanas. Com mais dinheiro chegando, ela poderia atÃ© mesmo se dar ao luxo de ajudar Chuy com os pagamentos da hipoteca de sua avÃ³.

â Mijita! VocÃª estÃ¡ aqui. Por que vocÃª demorou tanto? â A avÃ³ de Naomi correu pelas escadas da varanda e envolveu um par de finos braÃ§os marrons ao redor dela.

â Ow, Welita. VocÃª estÃ¡ me esmagando â Naomi disse.

Sua avÃ³ - ou Welita, como todos a chamavam carinhosamente - era pequena, mas forte. Ela usava o cabelo preto curto, dizendo que estava quente demais para ter qualquer outro comprimento. Anos de trabalho duro, criar seu filho e, em seguida, Chuy, a deixaram com pouco tempo para cuidar de si, especialmente quando se tratava de roupas. Se alguÃ©m abrisse o seu armÃ¡rio, eles pensariam que tinham sido transportados de volta no tempo para os anos setenta. Naomi tentou convencer a avÃ³ a mudar de poliÃ©ster para algodÃ£o e atÃ© se ofereceu para comprar um novo guarda roupa, mas Welita recusou, dizendo que suas roupas estavam perfeitamente bem e que um dia elas estariam na moda novamente.

â CÃ³mo se dice? â Welita murmurou entÃ£o estalou os dedos. â Eu lembro. Coloque no ebaie.

â VocÃª quer dizer eBay. Sim, eu posso fazer isso. â Chuy olhou para Naomi com um sorriso maligno. â Ou talvez eu pegue para mim.

â De jeito nenhum! VocÃª nÃ£o estÃ¡ colocando minha moto no eBay. â Naomi deu um tapa no braÃ§o dele. â Eu amo a minha moto.

â TÃ£o parecida com Stacey â resmungou Javier.

â O que? â Naomi olhou para a cerveja que ele segurava e se perguntou se ele tinha cometido um deslize. Ela nÃ£o queria Ã¡lcool em sua festa de formatura, ela nunca se importou com essas coisas, mas Chuy insistiu, dizendo que nÃ£o seria uma festa sem isso. Naomi ficou cÃ©tica a princÃ­pio, mas Chuy prometeu ficar de olho em Javier.

â Sua mÃ£e. VocÃª Ã© tÃ£o teimosa quanto ela. Uma vez que colocava algo na cabeÃ§a, nÃ£o havia como impedi-la. â LÃ¡grimas brilhavam em seus olhos, e ele engoliu em seco. â Ela ficaria tÃ£o orgulhosa de vocÃª hoje.

â Eu sinto falta dela tambÃ©m. â Naomi nÃ£o podia contar as vezes que desejou que sua mÃ£e estivesse lÃ¡ para compartilhar o momento com ela. NÃ£o percebeu o quanto se parecia com sua mÃ£e atÃ© aquela manhÃ£ quando colocou o capelo preto de formatura na cabeÃ§a, olhou para o espelho e viu a mesma imagem que tinha como papel de parede do celular. A Ãºnica diferenÃ§a Ã© que, na foto, cabelos ruivos saÃ­am do chapÃ©u, em vez do cabelo escuro de Naomi.

â Ela adoraria ver vocÃª assim, tÃ£o crescida. Se apenas a famÃ­lia dela tivesse sido capaz de dirigir para a cerimÃ´nia â disse ele.

â Eu tenho toda a famÃ­lia que preciso aqui comigo. â Naomi nunca tinha conhecido a famÃ­lia de sua mÃ£e, exceto atravÃ©s do cartÃ£o postal anual com uma foto de todo o clÃ£ Hamilton sentado na frente de uma grande Ã¡rvore de Natal.

NÃ£o era segredo que a famÃ­lia Hamilton, uma famÃ­lia abastada da regiÃ£o de Dallas, nÃ£o aprovava o casamento de sua filha com Javier. Eles devem ter convenientemente esquecido o fato de que, se nÃ£o fosse pelas habilidades de tutoria de Javier, a filha nunca teria passado nas aulas de ciÃªncias. Naomi imaginou que deve ter sido sua chegada inesperada durante o Ãºltimo ano de faculdade de Stacey e o subsequente anÃºncio de que ela nÃ£o iria se formar, o que pode ter alienado a famÃ­lia dos Durans.

Naomi colocou um braÃ§o ao redor da cintura do pai quando entraram no quintal. Quando dobraram a esquina, trombetas soaram, e ela pulou para trÃ¡s com a surpresa. â Mariachi? VocÃª me trouxe Mariachis?

â Ã Mariachi Cascabel â disse Welita com orgulho. â Eles vieram de Laredo. Eles sÃ£o os melhores.

LÃ¡grimas encheram os olhos de Naomi enquanto sua avÃ³ e seu pai sorriam orgulhosos. Ela sabia que uma banda como essa era muito cara e nÃ£o tinham como pagar. Faz apenas um mÃªs que o pai de Lalo, proprietÃ¡rio da Companhia Cruz de MudanÃ§a, ofereceu-se para contratar Javier em tempo parcial para ajudÃ¡-lo a administrar o negÃ³cio. Quanto Ã  avÃ³, a Ãºnica renda que recebia era de seus benefÃ­cios previdenciÃ¡rios.

â Welita, pai, isso Ã© demais. VocÃª nÃ£o deveria...

â Sem reclamar. â Welita deu um tapinha na mÃ£o de Naomi. â NÃ£o se preocupe. NÃ£o custou muito. AlÃ©m disso, todos na vizinhanÃ§a ajudaram.

Naomi olhou para os vizinhos sentados juntos, conversando, comendo e bebendo. A maioria deles, ela conhecia desde que era uma garotinha - como a famÃ­lia de Lalo, os Cruzes, que se sentaram em uma das mesas de piquenique conversando com alguns de seus parentes em Los Angeles. Os Durans tambÃ©m apareceram com forÃ§a total, viajando de longe atÃ© Laredo apenas para estar lÃ¡. As graduaÃ§Ãµes na faculdade eram raras em sua famÃ­lia, e a tocava que eles queriam estar lÃ¡ com ela para comemorar. â Eu nÃ£o sei o que dizer.

â VocÃª diz obrigada â disse Chuy quando colocou as sacolas de compras em uma mesa de piquenique prÃ³xima.

â Eu sei disso. â Ela beijou Welita e depois seu pai na bochecha. â Muito obrigada.

â Chuy, aqui, cara. Traga a bebida.

Naomi viu quando Lalo esguichou fluido de isqueiro na churrasqueira. Ele limpou uma toalha de papel sobre a testa suada e enfiou nos bolsos. Lalo era um grande fÃ£ de camisas havaianas trÃªs vezes maior que ele e fajita. Ele era um cara doce e extremamente leal. Uma pessoa poderia confiar nele com qualquer coisa, exceto substÃ¢ncias inflamÃ¡veis.

â VocÃª colocou Lalo no comando do churrasco? VocÃª estÃ¡ maluco? Ele vai queimar toda a vizinhanÃ§a. â Ela estava prestes a correr para ele quando Welita a deteve.

â Espere um momento. Eu tenho um presente para vocÃª â disse Welita.

Chuy protegeu os olhos quando ela enfiou a mÃ£o na blusa. â Ugh, Welita. NÃ£o faÃ§a isso na frente de todos.

â Ay, Ama! Por que vocÃª coloca coisas aÃ­ dentro? â Javier ficou na frente dela, olhando ao redor do quintal para ver se alguÃ©m estava assistindo.

Welita pegou um envelope dobrado. â Ã o lugar mais seguro que eu conheÃ§o.

â Nisso vocÃª estÃ¡ certa â disse Chuy.

â VÃ¡ ajudar Lalo, pendejo. â Welita o golpeou.

â NÃ£o, Lalo! â Chuy lamentou enquanto corria para ele. â Uma lata Ã© suficiente.

â Isto Ã© para vocÃª, Mijita. â Welita colocou o envelope branco na mÃ£o de Naomi.

â Eu nÃ£o posso aceitar isso. VocÃª jÃ¡ fez muito. â Naomi tentou colocar o envelope de volta no bolso de sua avÃ³.

â NÃ£o, nÃ£o. VocÃª aceita. Ã um presente. VocÃª nÃ£o pode recusar um presente. Seria um insulto.

As mÃ£os de Welita estavam em seus quadris e seus olhos instigando Naomi a desafiÃ¡-la. Seria como uma bofetada no rosto da avÃ³ se ela nÃ£o aceitasse o presente. Era uma questÃ£o de orgulho que Welita conseguisse juntar a pequena quantia de dinheiro.

Ela se abaixou e beijou sua bochecha. â Gracias, Welita. â De alguma forma, Naomi jurou para si mesma que iria devolvÃª-lo para ela. Era melhor fazÃª-lo sem que Welita soubesse disso. Ela era teimosa desse jeito.






Enquanto a noite prosseguia, Naomi recostou-se com Welita e os outros, ouvindo os mariachis. A certa altura, Welita liderou todos cantando a popular mÃºsica do ranchero Cielito Lindo.

â Oh, Anita. VocÃª Ã© tÃ£o boa quanto a cantora Lola BeltrÃ¡n â disse Chela, sua vizinha, quando Welita terminou de cantar.

Naomi olhou surpresa para Welita, estava tÃ£o acostumada a todos chamando-a de Welita que, Ã s vezes, esquecia seu nome â Anita. Ela entregou Ã  avÃ³ uma garrafa de refrigerante Big Red, observando os olhos cintilantes que se enrugavam quando Welita ria. As mÃ£os, revistidas pelo desgaste de dÃ©cadas de trabalho duro, acariciou o joelho de Naomi quando ela agradeceu pela bebida.

Algumas horas depois, Welita cochilou e as pessoas comeÃ§aram a deixar a festa. Naomi procurou por seu pai e acenou para ele quando o viu conversando com o Sr. Cruz.

â Ela estÃ¡ dormindo? â Javier perguntou quando se aproximou. Ele olhou para a mÃ£e roncando e riu. â Ela parece tÃ£o jovem quando estÃ¡ dormindo. Ã como se ela nÃ£o tivesse mudado nem um pouco.

â MÃ£e. â Ele cutucou seu ombro, tentando acordÃ¡-la. â MamÃ£e. Ã hora de ir para a cama.

â O que? NÃ£o, Ã© uma festa. Eu posso ficar acordada um pouco mais â disse ela, esfregando os olhos.

â Ã quase meia-noite, Welita. Estou bem cansada tambÃ©m. â Naomi fingiu um bocejo e se levantou da cadeira. â Eu vou limpar. VocÃª vai para a cama.

â Eu vou ajudÃ¡-la. â Welita deslizou-se para a borda do assento. â Me ajude a levantar, Javier.

Javier colocou a garrafa que estava segurando na mesa e estendeu um braÃ§o. Ela pressionou seu peso contra ele quando se levantou.

â VÃ¡ para a cama. Eu ajudarei Naomi â ele disse.

Welita se virou para o filho e deu um tapinha na bochecha dele. â VocÃª Ã© um bom menino e vocÃª criou uma boa filha. Meus graduados â ela disse enquanto pegava suas mÃ£os nas dela. â Estou muito orgulhosa de vocÃªs dois.

Naomi olhou para Chuy, que ainda estava conversando com alguns de seus amigos, enquanto ela e seu pai pegavam os copos e os pratos sujos. Sempre que Chuy olhava para uma das garotas, ela piscava os olhos e fingia que estava arrebatada por cada palavra que saÃ­a de sua boca. Ele as recompensava flexionando seu bÃ­ceps toda vez que levava a garrafa de cerveja aos lÃ¡bios, ou quando se movia em volta da caixa de gelo, o que ele fazia muito.

Em um momento, Chuy olhou para Naomi e balanÃ§ou as sobrancelhas quando uma garota chamada Rosie roÃ§ou contra ele. Ela era uma daquelas garotas â o tipo com impressionante decote que fazia os homens babarem. Rosie passou os longos cabelos ondulados por cima do ombro e deu a Chuy um dos seus jÃ¡ conhecido sorrisos. Naomi enfiou o dedo na boca e fingiu engasgar. Ela nÃ£o ficou impressionada. Rosie tinha uma reputaÃ§Ã£o de flertar com qualquer coisa que se movesse, e ela tinha alguns bebÃªs para provar isso. Se Welita estivesse acordada, provavelmente pegaria sua vassoura e afastaria Rosie.

â Ei, Naomi, venha aqui â gritou Chuy.

â O que houve? â Naomi acenou com uma oferta de cerveja de Lalo.

â O que hÃ¡ de errado com sua prima, cara? Ela Ã© boa demais para beber conosco? â perguntou Mateo, um dos amigos de Chuy.

â Estou bem aqui, Mateo â disse Naomi, colocando as mÃ£os nos quadris. â E para responder Ã  sua pergunta, vim de moto, entÃ£o a menos que eu queira passar a noite no sofÃ¡ com os roncos de Chuy sacudindo a casa inteira, sem bebida para mim.

â Eu nÃ£o ronco. VocÃª ronca â disse Chuy.

â Uh, huh. Sim, claro. â Ela revirou os olhos.

â Vamos lÃ¡, Chuy, esfregue logo â disse Lalo. â Se sairmos agora, podemos ficar um par de horas na mesa de dados e estar de volta antes do nosso trabalho a tarde.

â Esfregar o que? E onde vocÃª estÃ¡ indo tÃ£o tarde? VocÃª nÃ£o tem trabalho amanhÃ£? â Naomi golpeou as mÃ£os de Chuy enquanto ele tirava o cabelo do ombro dela. â O que vocÃª estÃ¡ fazendo?

â Estamos indo para o Casino Lake Charles em Louisiana â disse ele enquanto tentava dobrar a parte de trÃ¡s do colarinho da sua camisa. â Vamos lÃ¡, Naomi. Deixe-me esfregar para dar sorte.

Naomi bateu novamente nas mÃ£os dele. â Pare com isso, Chuy. Meus esquisitos defeitos de nascenÃ§a nÃ£o sÃ£o para o seu entretenimento.

â Eu vou te dar vinte dÃ³lares, se eu ganhar.

â NÃ£o.

â Aww, vamos lÃ¡.

â Ã apenas uma mancha de sardas, Chuy.

â Eles dÃ£o boa sorte.

â VocÃª estÃ¡ falando sobre suas sardas? â Javier gritou enquanto passava por eles, arrastando um par de sacos de lixo cheios. â Elas dÃ£o boa sorte â disse ele antes de desaparecer no jardim da frente.

â Papai. â Ela gemeu.

â Viu? AtÃ© seu pai acha que dÃ¡ boa sorte â disse Chuy.

â Eu tenho que ver isso. â Mateo deu um passo em direÃ§Ã£o a Naomi.

Chuy ficou na frente dele e colocou a mÃ£o em seu peito, mantendo-o Ã  distÃ¢ncia. â Sem chance, cara. Ã uma coisa de famÃ­lia.

â SÃ©rio, Chuy, vocÃª estÃ¡ ficando supersticioso como Welita. SÃ³ porque minhas sardas formam o nÃºmero sete, isso nÃ£o significa que dÃ£o sorte. Se fosse, vocÃª acha que eu deixaria Welita morar neste bairro... com vocÃª? â Era uma marca estranha na parte de trÃ¡s do seu pescoÃ§o. Ela nÃ£o tinha notado isso aparecendo atÃ© um dia, quando ela e Chuy foram nadar. Ele tinha se esgueirado atrÃ¡s dela e estava prestes a empurrÃ¡-la na piscina quando notou a marca de formato estranho. Welita lhes dissera que Naomi nasceu com isso e que ela estava destinada a algo especial. Chuy entendeu que era um amuleto de boa sorte.

â Ã sorte. Na semana passada, depois de massagear seu pescoÃ§o, comprei um bilhete de loteria e ganhei cinquenta dÃ³lares.

Ela se irritou. â Eu pensei que vocÃª estava tentando ser legal porque eu estava tÃ£o estressada durante a Ãºltima semana de aula!

Chuy tentou tocar seu pescoÃ§o novamente, e ela bateu nas mÃ£os dele. â Pare com isso! Eu nÃ£o sou um gÃªnio em uma garrafa.

â E se eu deixar vocÃª entrar na minha aula de autodefesa?

Chuy se oferecera para dar aulas de autodefesa no centro comunitÃ¡rio local e ela estava pedindo a ele durante semanas para deixÃ¡-la entrar. Morando em Houston, especialmente neste bairro, autodefesa era algo que toda mulher precisava saber.

Naomi suspirou. â Tudo bem. â Ela levantou o cabelo e puxou a gola de sua camisa. â Depressa, acabe logo com isso.

Chuy deu um rÃ¡pido esfregar. â AÃ­, isso nÃ£o foi tÃ£o ruim, foi?

â Ugh, vÃ¡ embora. E leve seus amigos com vocÃª. â Ela o empurrou de brincadeira e foi procurar o pai.




3


Naomi jogou o Ãºltimo saco na lata de lixo e sentou-se em frente ao pai nos degraus da varanda da frente. Ele estava brincando com uma moeda vermelha, seu sÃ­mbolo de sobriedade de um mÃªs, lanÃ§ando-a por entre os dedos. Ela se encostou no corrimÃ£o olhando as estrelas no cÃ©u sem nuvens e ambos ficaram em um silÃªncio confortÃ¡vel, nÃ£o querendo perturbar a rara quietude da noite. Tiros e sirenes soando Ã  distÃ¢ncia eram comuns. Mesmo que Naomi morasse a poucos quilÃ´metros de distÃ¢ncia, ela se preocupava com a avÃ³ e Chuy morando em um bairro tÃ£o perigoso.

â VocÃª se divertiu, Mijita? â Perguntou Javier.

â Eu adorei, pai. â Naomi olhou para a garrafa marrom que ele segurava. Ela esperava que ele nÃ£o estivesse bebendo de novo.

â Ã cerveja de raiz â disse ele, lendo a expressÃ£o em seu rosto. â Eu sei que vocÃª estÃ¡ preocupada que eu vou comeÃ§ar a beber de novo. VocÃª tem a minha palavra que nÃ£o vou beber novamente.

â VocÃª mantÃ©m contato com seu padrinho?

â Todo dia.

â Bom.

Seu pai ficou quieto por um momento, se mexeu e limpou a garganta antes de falar. â HÃ¡ algo que eu quero te dar.

â Papai...

â Antes de dizer nÃ£o, deixe-me explicar. â Ele deu um tapinha no local ao lado dele. â Venha aqui.

â Mas...

â Por favor, isso Ã© importante.

Ela deslizou atravÃ©s do degrau, e o desconforto tomou conta enquanto esperava que seu pai falasse. A Ãºltima vez que ele fez a cara que estava fazendo agora foi quando teve que dizer a ela que sua mÃ£e morreu.

Ele enfiou a mÃ£o no bolso e tirou um delicado colar de prata. FaÃ­scas azuis e brancas brilhavam nos minÃºsculos diamantes que se alinhavam no crucifixo enquanto pendia sob a luz da varanda â o colar de sua mÃ£e. LÃ¡grimas nadaram em seus olhos quando se lembrou de estar sentada na cama do hospital, a mÃ£e pÃ¡lida de dor, cÃ­rculos escuros sob os olhos, as bochechas magras, mas sempre que ela tocava o colar, a paz cintilava em seus olhos. Sua fÃ© era tÃ£o forte; Era algo que Naomi desejava que tambÃ©m tivesse.

Ela deslizou os dedos, sentindo o toque frio da prata. Quando a mÃ£e morreu, o pai guardou-a numa pequena bolsa aveludada e levava-a sempre consigo. â Eu nÃ£o posso.

â Ã seu â disse ele, sua voz soando alta na noite tranquila, mesmo que ele falasse com um sussurro.

Naomi baixou a mÃ£o. â Isso pertence a vocÃª.

Ele pegou a mÃ£o dela e virou-a. Ele largou o colar na palma da mÃ£o e olhou para o colar por um momento antes de fechar a mÃ£o dela. Colocando a mÃ£o sobre, ele olhou em seus olhos com um olhar firme. â O futuro estÃ¡ em suas mÃ£os.

â Papai, eu...

â VocÃª ouviu o que eu disse?

â Sim, mas...

â Vou me sentir melhor sabendo que vocÃª tem isso. VocÃª estÃ¡ crescida e tem uma vida plena Ã  sua frente. VocÃª precisa sair para se divertir, conhecer alguÃ©m especial. Quando foi a Ãºltima vez que vocÃª foi a um encontro?

Naomi fez uma careta. Havia algo sobre ver seu pai perder o amor de sua vida que colocava a palavra namoro em perspectiva. Ela pensou em todos os caras que tinha namorado antes, e nÃ£o conseguia pensar em um com quem se importasse tÃ£o intensamente quanto seus pais se importavam um com o outro.

â Eu nÃ£o estou interessada em namorar, pelo menos nÃ£o por agora.

Javier sacudiu a cabeÃ§a. â NÃ£o se feche para o amor, Mijita. Quando for a hora certa, a pessoa irÃ¡ encontrÃ¡-la. Tudo que vocÃª precisa Ã© ter fÃ©. â Ele pegou o colar da mÃ£o dela e colocou-o em volta do pescoÃ§o.

Naomi estudou seu rosto e se perguntou por que ele estava agindo tÃ£o estranho. Ele parecia querer contar mais a ela, entÃ£o ficou em silÃªncio, esperando que ele falasse. Em vez disso, ele suspirou e se levantou.

â Onde vocÃª estÃ¡ indo? â Ela perguntou, surpresa por ele estar saindo.

â Trabalhar. â Ele tirou as chaves do carro do bolso. â Estou fazendo limpeza no escritÃ³rio Ã  noite.

â VocÃª tem dois empregos de meio perÃ­odo?

â Eu tenho um monte de contas para pÃ´r em dia. NÃ£o olhe para mim assim. â Ele bateu na linha de expressÃ£o no meio de sua testa. â VocÃª vai ter rugas antes dos trinta anos.

â Agora que vocÃª estÃ¡ melhor, talvez possa conseguir um emprego de TI. â Ela olhou para longe, sabendo que atÃ© mesmo o seu diploma em ciÃªncia da computaÃ§Ã£o nÃ£o poderia apagar o rastro de repreensÃµes que recebera de seus empregadores anteriores. Ela nÃ£o podia deixar de manter a esperanÃ§a de que em uma cidade grande como Houston, ele pudesse encontrar um emprego e que alguÃ©m lhe desse um novo comeÃ§o antes que o mundo da tecnologia decolasse.

â Talvez. â Javier ligou a igniÃ§Ã£o, e as luzes que envolviam o Mustang piscaram para a vida.

â VocÃª e Chuy fizeram um bom trabalho. â Naomi se afastou para ver melhor. â Ã muito legal. VocÃªs dois deviam entrar nesse negÃ³cio juntos.

â Isso nÃ£o Ã© uma mÃ¡ ideia. Embora, conhecendo Chuy, ele devoraria todos os lucros. â Ele colocou o carro em marcha a rÃ©. â Te vejo amanhÃ£. NÃ£o esqueÃ§a de colocar o capacete.

â Eu sempre coloco. â Ela acenou.

Ele estava na metade da rua quando do nada ela teve um forte desejo de correr atrÃ¡s dele. Ela balanÃ§ou a cabeÃ§a e se repreendeu por agir como boba.

â Eu o vejo amanhÃ£. â Ela ligou a moto e seguiu na direÃ§Ã£o oposta.






Jane Sutherland encostou-se Ã  pia e tirou os Jimmy Choos. Depois de cinco horas conversando e bebendo com os ricos de Houston e com os mais importantes do Texas, seus pÃ©s gritavam de dor. Ela mexeu os dedos quando o chÃ£o esfriou seus pÃ©s doloridos. Muito melhor, pensou. Se pudesse participar de eventos formais descalÃ§a, isso tornaria tudo muito mais divertido.

Ela olhou para o espelho e aplicou uma nova camada de batom rubi. Seu cabelo loiro platinado penteado para trÃ¡s em um coque, destacava grandes olhos cor de safira. Quarenta e sete anos evitando o sol â ela queimava com facilidade â mantiveram o rosto pÃ¡lido e sem rugas.

Houve uma batida na porta. â Senadora Sutherland? O Sr. Prescott tem um convidado que gostaria de lhe apresentar.

â Eu jÃ¡ estou indo. â Jane suspirou e colocou o batom em sua bolsa Gucci. Outro convidado. Outra bebida.

Quando ela comeÃ§ou sua carreira polÃ­tica, nÃ£o tinha idÃ©ia de que a maior parte do tempo seria gasto na captaÃ§Ã£o de recursos. Havia ingenuamente pensado que ela seria diferente dos outros. Ela faria a diferenÃ§a. Agora, a Ãºnica diferenÃ§a que fazia era se seus apoiadores financeiros se beneficiariam de suas generosas doaÃ§Ãµes para sua campanha.

Ela abriu a porta para encontrar um homem de aparÃªncia distinta em pÃ© no corredor.

â Senadora. â Ele abriu um sorriso glorioso. â Eu estava prestes a ver se vocÃª precisava da minha ajuda.

â Se bem me lembro, da Ãºltima vez que vocÃª se ofereceu para me ajudar e veio atrÃ¡s de mim no banheiro feminino, espirrei Ã¡gua em toda a sua gravata de seda. â Jane sorriu para Luke Prescott.

Ele ofereceu seu braÃ§o, e ela colocou a mÃ£o. â Eu estava te fazendo um favor, te levantando para poder lavar as mÃ£os. Eu nÃ£o tinha ideia de que vocÃª destruiria minha gravata de seda favorita.

â Esse Ã© o risco de ter uma crianÃ§a de cinco anos de idade como companhia. â Jane apertou o braÃ§o carinhosamente.

Seu pai trabalhava para Luke Prescott e ele era um amigo prÃ³ximo da famÃ­lia. Ao crescer, Luke estava sempre presente nos eventos importantes de sua vida, na lideranÃ§a da peÃ§a da escola, graduaÃ§Ã£o, formatura, mesmo quando o pai nÃ£o estava. EntÃ£o, quando a mÃ£e morreu, ele ligava pelo menos uma vez por dia. Ele se tornou seu confidente mais prÃ³ximo. Foi ideia dele ir para a faculdade de direito, e depois disso, ele encorajou e apoiou sua corrida para o congresso.

â GraÃ§as a Deus, eu tinha uma dÃºzia mais como aquelas. â Seus olhos cinzentos brilharam.

â E por que vocÃª nÃ£o teria? Eu imagino que um bilionÃ¡rio teria pelo menos um par.

â Vamos lÃ¡, Jane. Seja gentil com os super ricos, nÃ³s tambÃ©m temos sentimentos.

Jane parou na entrada do salÃ£o de baile. A sala estava cheia de apoiadores do partido da FederaÃ§Ã£o Americana, todos esperando grandes coisas dela. Tudo o que sempre quis foi ajudar a dar Ã s pessoas uma vida melhor. Quando isso se transformou em usar um vestido de grife e conversar com pessoas que pagavam o preÃ§o de um carro pequeno sÃ³ para estar na mesma sala que ela? Se nÃ£o fosse Luke insistindo e comprando seu guarda-roupa, o que ele considerava um uniforme necessÃ¡rio, ela usaria algo menos ostensivo.

â Estou um pouco cansada, Luke. Vamos encerrar a noite.

â Mais uma pessoa â ele sussurrou em seu ouvido. â Os Conoleys estÃ£o morrendo de vontade de conhecÃª-la pessoalmente. Eles voaram todo o caminho desde Oklahoma.

â Em seu jato particular, tenho certeza.

â Ã um pequeno.

â Oh, minhas desculpas. â Jane fingiu preocupaÃ§Ã£o. â Eu nÃ£o sabia o quanto eles estavam sofrendo. Vamos conhecÃª-los. â Ela poderia muito bem acabar com isso. Por mais que odiasse a arrecadaÃ§Ã£o de fundos, ela era apaixonada pelo partido da FederaÃ§Ã£o Americana, acreditando que seu valor central de responsabilidades fiscais e comunitÃ¡rias beneficiaria o paÃ­s.

Depois de conhecer os Conoleys e tomar uma bebida com eles, Luke a levou para outro grupo de pessoas para se conhecerem. Toda vez que tentava sair, Luke achava uma desculpa para ela ficar. Era estranho que, Ã  medida que a noite avanÃ§ava, ela se sentia bÃªbada, embora mal tivesse bebido um copo de vinho. Ela olhou para a bebida, imaginando como ainda poderia estar meio cheia, era como se nÃ£o estivesse bebendo nada.

â JÃ¡ tive o suficiente, Luke â disse ela.

â VÃ¡ e tenha o seu sono de beleza. â Ele acenou para um homem alto de pÃ© na periferia da sala. â Sal vai te seguir atÃ© em casa.

â Isso nÃ£o Ã© necessÃ¡rio â disse ela. Sal era o guarda costa pessoal de Luke. Onde quer que Luke fosse, Sal estava logo atrÃ¡s, espreitando nas sombras. Ele tentva se misturar com os outros, o que era difÃ­cil para uma enorme massa de dois metros de mÃºsculos, e as botas de crocodilo que sempre usava tambÃ©m nÃ£o ajudavam.

Sal estava ao lado de Luke, seu rosto vazio de emoÃ§Ã£o. Seus olhos negros olharam por cima de Jane e, por um momento, ficaram tensos e a olharam como se ela estivesse abaixo dele. Uma sensaÃ§Ã£o fria atingiu a boca do seu estÃ´mago, ele nunca tinha olhado para ela assim antes e se perguntou o que fez para ganhar um olhar assim.

Luke deu-lhe um leve aceno e Sal deu a Jane um Ãºltimo olhar antes de abrir caminho pela multidÃ£o e desaparecer do salÃ£o de baile. â Eu vou deixÃ¡-la ir agora, mas vocÃª terÃ¡ que se acostumar a ter pessoas ao seu lado em todos os momentos quando for presidente. â Luke a pegou pelo cotovelo e caminhou atÃ© o saguÃ£o.

Jane riu. â VocÃª estÃ¡ se adiantando. Vamos esperar e ver se consigo sobreviver ao meu mandato atual. Eu mal ganhei meu assento na primeira vez. â Quando Luke e seus amigos sugeriram que concorresse para o Senado pelo Partido da FederaÃ§Ã£o Americana, ela nunca pensou que realmente venceria, jÃ¡ que o partido era novo e tinha poucos apoiadores. Luke, por outro lado, nÃ£o teve dÃºvidas.

â Eu nunca estive errado quando se trata de situaÃ§Ãµes como esta. Marque minhas palavras, Jane. VocÃª serÃ¡ a presidente dos Estados Unidos.

As palavras enviaram um arrepio atravÃ©s de Jane. Ela deveria ter ficado feliz em ouvir essas palavras, Presidente Sutherland. Por que o frio que sentia parecia mais medo do que excitaÃ§Ã£o?

Uma leve chuva caia enquanto ela dirigia seu prateado Jaguar XF â um presente de Luke quando se formou na faculdade de direito hÃ¡ muito tempo â nos arredores de Houston em direÃ§Ã£o a sua casa nos subÃºrbios. Sentindo-se leve, ela ligou o ar e dirigiu o ar frio em direÃ§Ã£o ao rosto. Agarrando o smartphone, apertou um botÃ£o e esperou pelo bipe familiar.

â Toque Mozart â ela instruiu.

Eine Kleine Nachtmusik tocou atravÃ©s dos alto-falantes enquanto dirigia por uma estrada sinuosa. Os farÃ³is do carro ricochetearam no vidro dos prÃ©dios de escritÃ³rios pelos quais passou. Enquanto ela olhava para a estrada, lutando para se manter acordada, viu uma luz na rua piscando Ã  distÃ¢ncia. Quando passou, a luz se intensificou e depois voltou ao normal. Ela entÃ£o viu outra luz fazendo a mesma coisa â piscar, ficar mais brilhante, depois voltar ao normal â enquanto passava por cada um deles.

Eu devo ter bebido mais do que pensei. Ela deu um tapa nas bochechas levemente.

O telefone tocou e ela pulou assustada. Olhando para baixo, viu o nome âLuke Prescottâ escrito na tela.

Tudo pareceu acontecer de uma vez. Um peso enorme pressionou seu peito, e por um segundo, ela pensou que estava tendo um ataque cardÃ­aco. A pressÃ£o se espalhou como se envolvesse todo o seu corpo em um casulo, protegendo-a. Foi o mesmo sentimento que teve trinta e cinco anos atrÃ¡s, pouco antes do aviÃ£o em que ela e sua mÃ£e estavam, caÃ­sse. Houve um grito de pneus e uma descarga de adrenalina a varreu. A Ãºltima coisa que viu antes de desmaiar foi um cavalo danÃ§ando em direÃ§Ã£o a ela.




4


Lash observou a ruiva alta enquanto ela escaneava a sala cheia de fumaÃ§a. A Ãºnica iluminaÃ§Ã£o vinha da fileira de luzes que se alinhava no palco, onde alguns de seus colegas de trabalho se apresentavam no pole. Era o final da tarde, e o negÃ³cio estava lento, exceto pelo grupo de velhos aposentados que eram frequentadores do bar. Quando seus olhos vagaram para o canto de trÃ¡s da sala e se trancaram com o dele, ele sorriu para a luxÃºria Ã³bvia escrita em seu rosto enquanto ela observava a camiseta preta desbotada que moldava seu peito esculpido, jeans rasgados abraÃ§ando seus quadris, e cabelo escuro e selvagem.

Lash abriu um sorriso quando ela se aproximou dele. Seus olhos viajaram sobre seu corpo, olhando as longas curvas de suas pernas, os seios cobertos por uma estampa de leopardo, e o fio dental forrado de dÃ³lar que abraÃ§ava a sua cintura, deixava pouco para a imaginaÃ§Ã£o. Ele se levantou para encontrÃ¡-la quando uma mÃ£o bateu em seu ombro e o empurrou de volta para o seu assento.

â Gabrielle â ele rosnou. â Como vocÃª me achou?

â Saia daqui, irmÃ£. Este Ã© meu â a ruiva disse enquanto olhava para Gabrielle.

Gabrielle olhou para a ruiva e franziu a testa. BalanÃ§ando a cabeÃ§a, ela tirou a jaqueta de couro e jogou para a garota. â Deixe este lugar e nÃ£o retorne.

A ruiva piscou, parecendo confusa.

Gabrielle se inclinou para ela e sussurrou: â VocÃª encontrarÃ¡ um emprego melhor amanhÃ£. Eu prometo.

Atordoada, a ruiva simplesmente balanÃ§ou a cabeÃ§a, colocou a jaqueta de Gabrielle e saiu pela porta.

â Michael nÃ£o gosta quando vocÃª usa seus truques mentais Jedi em humanos. â Lash sacudiu um dedo.

Gabrielle puxou uma cadeira e limpou-a com um guardanapo antes de se sentar. â Trinta e cinco anos na Terra e o mÃ¡ximo que vocÃª conseguiu foi um conhecimento profundo dos filmes de George Lucas. Excelente.

â Vamos chamÃ¡-lo de um estudo antropolÃ³gico da natureza humana. â Lash sorriu enquanto levantava sua bebida.

Gabrielle franziu a testa. â VocÃª contamina o seu corpo assim como a sua mente.

â Eu acho que vocÃª acharia divertido.

â Eu tenho coisas mais importantes para fazer do que assistir vocÃª mergulhar em sua misÃ©ria autocriada.

â O que? VocÃª nÃ£o se importa se eu fui para o lado negro? â Lash fingiu inocÃªncia ao arregalar os olhos. â Estou ferido.

â Eu nÃ£o sei o que Raphael vÃª em vocÃª. Estou perdendo meu tempo aqui.

â Se vocÃª nÃ£o planeja tirar essas roupas e danÃ§ar em torno daquele poste lÃ¡, entÃ£o, sim, eu diria que vocÃª estÃ¡.

Seus olhos ficaram frios. â Grosso.

â Algumas mulheres gostam. â Ele sorriu sem se arrepender.

â Ugh, vamos acabar com isso. Eu tenho uma tarefa para vocÃª.

â Eu estou fora dos negÃ³cios da famÃ­lia, lembra? â Lash se recostou em seu assento. â Pelo que me lembro, vocÃª estava lÃ¡ quando fui jogado sem cerimÃ´nia para fora da porta.

â Foi o destaque do meu sÃ©culo.

â Tenho certeza que foi. â Lash olhou em seus olhos de gato e desejou que ele pudesse apagar a presunÃ§Ã£o de seu rosto. â O que quer que tenha, eu nÃ£o estou interessado.

Gabrielle arqueou uma sobrancelha. â VocÃª tem certeza? â Ela tirou um pedaÃ§o de papel dobrado do bolso de trÃ¡s da calÃ§a jeans e acenou na frente do rosto dele. â VocÃª nÃ£o estÃ¡ nem um pouco curioso do porquÃª Michael lhe daria uma tarefa depois de todos esses anos?

Ele estava curioso, mas de maneira nenhuma queria que Gabrielle soubesse disso. Inclinou a cadeira para trÃ¡s, equilibrando-se nas pernas traseiras e colocou as pernas sobre a mesa. â Eu nÃ£o poderia me importar menos.

â Eu disse a Raphael para nÃ£o perder o seu tempo.

Sua cadeira vacilou, ameaÃ§ando desequilibrÃ¡-lo. Ele rapidamente se ajustou. Sem tirar os olhos dela, ele disse: â Pela primeira vez, nÃ³s concordamos em algo.

Gabrielle jogou o papel para o centro da mesa. â Se vocÃª se importa ou nÃ£o, nÃ£o Ã© da minha conta. O que vocÃª faz com isso Ã© sua escolha.

Lash olhou para o papel com o canto do olho. Ele sabia que ela continuaria a observÃ¡-lo depois que saÃ­sse para ver se ele iria dar uma olhada. â Saindo tÃ£o cedo? â Ele deixou cair as pernas da frente da cadeira para o chÃ£o quando ela se levantou.

â Eu tenho coisas melhores para fazer do que assistir vocÃª desperdiÃ§ar seus dons. Michael deveria ter tirado tudo de vocÃª no momento em que te expulsou.

â Dons? Por favor. NÃ£o me faÃ§a rir. Estou limitado com o que posso fazer em minha forma humana, vocÃª sabe disso. â Sua capacidade de ver e ouvir ainda era melhor do que a de um humano, e ele era muito mais forte do que eles, mas sua habilidade de vÃ´o foi severamente diminuÃ­da e odiava isso.

â Oh, pobrezinho â disse ela antes de se virar e caminhar em direÃ§Ã£o Ã  porta. â Eu acabei por aqui.

â Espere â Lash gritou atrÃ¡s dela. â Por que Michael mandou vocÃª entregar a tarefa?

Gabrielle se virou, os olhos penetrantes travados com os dele e os lÃ¡bios se transformaram em um sorriso perverso. â Eu me ofereci.

Suas palavras eram como um tapa na cara. Ela sabia que entregando a mensagem, ele iria recusar. Deve ser algo realmente importante para ela estar desesperada o suficiente para ter certeza de que ele nÃ£o aceitasse.

Lash estendeu a mÃ£o para o papel e o sorriso de Gabrielle congelou. Ele riu. â VocÃª realmente nÃ£o quer que eu veja isso, nÃ£o Ã©?

Gabrielle suavizou suas feiÃ§Ãµes e encolheu os ombros. â Como eu disse, realmente nÃ£o me importo. â Ela abriu a porta, deixando a luz da tarde se infiltrar no clube escuro. Quando ela saiu pela porta, murmurou baixinho. â Fraco â E fechou a porta com forÃ§a.

â Cadela! â Lash gritou atrÃ¡s dela, sabendo muito bem que ela podia ouvi-lo mesmo se tivesse sussurrado isso. Sem pensar, ele pegou o papel, rasgou-o e jogou-o no ar. Quando os pedaÃ§os brancos flutuaram atÃ© o chÃ£o, ele drenou o Ãºltimo gole de seu uÃ­sque e bateu o copo na mesa, quebrando-o.

Maldito corpo humano e sua sensibilidade Ã  dor. Ele estremeceu quando abriu a mÃ£o e arrancou cacos de vidro da palma da mÃ£o. O sangue escorria e pingava na mesa.

â Querido, vocÃª estÃ¡... oh Meu Deus, vocÃª estÃ¡ sangrando â uma mulher falou pausadamente. Ela correu para o bar e voltou com um pano de prato. â Envolva isso em volta da sua mÃ£o.

Lash tirou a toalha dela com raiva porque Gabrielle levou a melhor sobre ele.

â Ei! VocÃª nÃ£o precisa ser um idiota â disse a mulher.

Lash olhou para cima e olhou para um par de olhos verdes semelhantes aos de Gabrielle, exceto que eram muito mais gentis. Ela ofegou.

â VocÃª Ã© lindo â ela murmurou, hipnotizada. â Existe alguma coisa que eu possa te trazer?

Lash sorriu. Em suas formas humanas, todos os anjos eram vistos como impressionantes para os humanos, mesmo os caÃ­dos. Felizmente para ele, todas as mulheres que encontrou desde que foi expulso, estavam desesperadas por sua atenÃ§Ã£o e fizeram qualquer coisa que ele pediu a elas. No comeÃ§o, ele nÃ£o queria se aproveitar, mas quando percebeu que estava sozinho, precisava ganhar a vida de alguma forma. Belo corpo ou nÃ£o, precisava ser vestido, alimentado e abrigado. Os humanos tinham uma manutenÃ§Ã£o tÃ£o alta.

â NÃ£o, estou bem. Ã sÃ³ um arranhÃ£o â disse Lash enquanto limpava a mÃ£o e colocava no bolso da jaqueta. Ele sabia que dentro de alguns minutos a ferida seria curada. Era um dos dons que foi autorizado a ter ainda e que veio a calhar ao longo dos anos.

â VocÃª tem certeza? Parecia muito ruim.

â Sim, tenho certeza. â Ele a estudou enquanto ela pegava os cacos de vidro com cuidado e os jogava em uma lata de lixo nas proximidades. No bar esmaecido, ela parecia uma versÃ£o mais jovem de Gabrielle. Quando ela voltou, seus olhos percorreram as marcas em seus braÃ§os. Sua mÃ£o tocou um saquinho dentro do bolso e ele sorriu. Um pensamento surgiu em sua mente sobre como ele poderia dar o troco em Gabrielle e se divertir um pouco ao mesmo tempo.

Ele deu Ã  mulher seu olhar mais ardente. â Qual o seu nome?

Seus olhos escureceram. â Megan â disse ela sem fÃ´lego.

Ele se inclinou e colocou uma mecha de cabelo loiro atrÃ¡s da orelha. â Interessada em um bom momento?






Lash se concentrou na pressÃ£o que crescia na boca do estÃ´mago. Seu corpo balanÃ§ava para frente e para trÃ¡s, saboreando o calor em sua pele â o Ãºnico tipo de calor que podia lhe dar alÃ­vio da dormÃªncia dos Ãºltimos trinta e cinco anos.

No comeÃ§o, ele pensou nisso como uma aventura, viver entre os humanos. Estava sinceramente curioso em saber como era estar do outro lado. Ele pensou que seria perdoado e levado de volta ao rebanho, nÃ£o era como se tivesse cometido um pecado mortal ou algo assim. Mas os meses se transformaram em anos e anos em dÃ©cadas e quando percebeu que nunca iria para casa, seu coraÃ§Ã£o ficou frio.

Ele fechou os olhos, tentando apagar a expressÃ£o presunÃ§osa no rosto de Gabrielle quando foi mandado embora, mas ficou gravado em sua mente.

Incomodava-lhe que fosse expulso tÃ£o facilmente, que nÃ£o reconhecessem como foi difÃ­cil para ele ajudar pessoas que eram tÃ£o ingratas. Chegou ao ponto em que muitos se sentiam merecedores do que ele tinha para dar, acreditavam que tudo o que tinham que fazer era pedir e receberiam. Sim, houve momentos em que ele foi contra as ordens, mas tudo deu certo no final, e suas atribuiÃ§Ãµes foram deixadas melhores por isso. Quando se tratava da menininha que realmente merecia viver, ele seguiu puro instinto. Ele tinha certeza de que Michael estaria do seu lado sobre isso. Bem, foda-se isso e foda-se o trabalho dele.

Um gemido o distraiu de seus pensamentos, e ele olhou para a fonte. Fios de cabelo pintados de loiro balanÃ§avam em sincronia com os quadris dele, roÃ§ando as coxas na sua. SensaÃ§Ãµes quentes e Ãºmidas o envolveram enquanto pressionava nas profundezas escorregadias de sua boca mais rÃ¡pido, desesperado por calor, por liberar-se da escuridÃ£o que o dominava.

â Porra! â Ele gemeu quando a pressÃ£o dentro dele explodiu. Nesse pequeno momento, ele escapou das correntes invisÃ­veis que o amarravam ao frio, e o calor se espalhou por seu corpo. Ele estava em casa novamente, andando sob o cÃ©u azul brilhante, o sol brilhando em seu rosto.

TÃ£o rapidamente quanto veio, desapareceu e um frio deslizou pelas costas, fazendo-o estremecer. O fedor de ovos podres e urina o atingiu abruptamente, e seus olhos se abriram. Ele estava de volta ao inferno que era sua vida agora. Ontem foi o Motel Triple Leaf; hoje era o The Lucky Seven Inn. Eles eram todos iguais, assim como as mulheres que o ajudaram a encontrar sua fuga, mesmo que fosse sÃ³ por um minuto.

Olhos verdes olhavam para ele. Ele imaginou que era orosto dela, aquela que o condenara ao seu destino, a andar na terra longe da famÃ­lia e dos amigos. â Engole.

Megan engoliu em seco, depois se levantou devagar, esfregando seu corpo magro e nu contra o dele. â Vamos, baby, me dÃª um pouco â ela ronronou.

Ele pegou sua calÃ§a jeans, tirou um saquinho de cristal transparente e jogou para ela.

Ela gritou e correu para o outro lado da sala onde sua bolsa estava. Ela jogou seu conteÃºdo no chÃ£o, fazendo com que uma enxurrada de baratas corresse para se esconder.

Lash andou atÃ© a cozinha, se Ã© que poderia dizer isso em um apartamento de um quarto, serviu um copo de uÃ­sque enquanto observava Megan. Como um cirurgiÃ£o, suas mÃ£os se moviam com precisÃ£o, segurando um isqueiro sob uma colher enferrujada com uma mÃ£o e uma agulha na outra. Por um breve momento, sua consciÃªncia pesou com culpa.

â Oh, baby, essa Ã© da boa! â Ela soltou a faixa de seu braÃ§o, rastejou para a cama, e olhou para ele sedutoramente. â Por que vocÃª nÃ£o se junta a mim?

Na penumbra, ele viu uma sugestÃ£o da beleza que ela fora uma vez. Era Ã³bvio que seu vÃ­cio em drogas havia cobrado seu preÃ§o â o cabelo dela estava quebrado e oleoso, e sua pele parecia pÃ¡lida. BraÃ§os furados por agulhas estendiam-se para ele. â Venha aqui. Vou te ajudar.

â Eu precisaria de muito mais do que isso para conseguir qualquer tipo de barato. â Ele pegou suas roupas do chÃ£o e jogou-as para ela. â Coloque-as.

Ela puxou uma camiseta roxa desbotada pela cabeÃ§a. â Por que isso? VocÃª Ã© algum tipo de super-humano ou algo assim?

Ele bufou. â Se eu te mostrar uma coisa, promete manter isso em segredo?

Ela rastejou atÃ© a beira da cama. â Juro por Deus. â Ela fez o sinal da cruz sobre a parte esquerda de seu peito.

Lash sorriu e deu um passo para trÃ¡s. Ele baixou os braÃ§os para o lado, as palmas voltadas para cima e relaxou os ombros. EntÃ£o, ele empurrou.

A garota ofegou ao som de pele rasgando.

â O que vocÃª estÃ¡ fazendo? â ela gritou quando gotas de sangue caÃ­ram no chÃ£o.

Ele sorriu. â Espere. Tem mais.

Seus olhos se arregalaram quando dois objetos brancos surgiram, alinhando ao comprimento de suas costas. Ele deu um Ãºltimo empurrÃ£o e elas se expandiram.

â O que... â Ela esfregou os olhos. â Porra! VocÃª Ã© um anjo.

Ela pulou ao som de alguÃ©m batendo na porta.

â Lahash, sou eu, Raphael. Abra a porta. Eu sei que vocÃª estÃ¡ aÃ­.

â VÃ¡ embora! â Lash rosnou.

A porta se abriu e Raphael entrou. Frios olhos azuis olharam para Lash. â Eu tive o suficiente de seu absurdo, Lahash.

â Oh uau â disse Megan, seus olhos se arregalando. â VocÃª Ã© Ele? VocÃª Ã©... â ela engoliu â Deus?

Raphael olhou para a garota seminua. Seus olhos se suavizaram. â Qual Ã© o seu nome, minha filha?

â Megan. â Olhos vidrados olhavam para ele com admiraÃ§Ã£o.

Lash deu um passo Ã  frente. â Raphael, vocÃª nÃ£o tem...

â Eu sei o que vai dizer e vocÃª estÃ¡ errado, eu tenho o direito de estar aqui. â Os lÃ¡bios de Raphael pressionaram em uma linha fina enquanto olhava para frente e para trÃ¡s entre as asas de Lash e o rosto chocado de Megan. â VocÃª nÃ£o deveria ter se exposto assim para ela. SerÃ¡ apenas um sofrimento para a pobre garota.

â Oh, eu expus partes de mim que vocÃª sequer poderia sonhar. â Lash fechou sua calÃ§a jeans e sorriu.

â O que aconteceu com vocÃª? â Raphael deu um passo Ã  frente, seu rosto mudando de raiva para preocupaÃ§Ã£o. â VocÃª nunca falou comigo com tal desrespeito.

â Trinta e cinco anos aconteceram! O que vocÃª esperava? â Lash cruzou as asas em seu corpo e pegou sua camisa. â Ela provavelmente vai pensar que Ã© uma parte do barato por causa da droga. â Para o bem dela, ele esperava que ela nÃ£o se lembrasse. Raphael estava certo â ele nunca deveria tÃª-la trazido aqui. Ele nÃ£o estava prestes a admitir isso para ele, no entanto. Gabrielle pode ter sido aquela a expulsÃ¡-lo, mas ele nÃ£o tinha ouvido nada de quem achava ser seu amigo, atÃ© agora.

Raphael balanÃ§ou a cabeÃ§a e entÃ£o, se virou para Megan com uma expressÃ£o de pena. â Venha cÃ¡, minha filha.

Megan tropeÃ§ou em direÃ§Ã£o a Raphael e estava prestes a cair quando ele a pegou. Ele levantou a cabeÃ§a, estudando-a atentamente. â VocÃª sabe quem eu sou?

â Deus â ela sussurrou.

â Eu sou Raphael, Arcanjo da Cura, CompaixÃ£o e Amor. VocÃª corrompeu seu corpo para aliviar a dor que lateja profundamente em sua alma. Ele sabe o que seu coraÃ§Ã£o deseja, vocÃª sÃ³ tem que pedir e serÃ¡ dado.

Ela piscou confusa. â Quem Ã© ele?

â Ele Ã© conhecido por muitos nomes diferentes: Deus, Senhor, Allah, Yahwehâ¦ todos sÃ£o um e o mesmo. Saiba disso: Ele te ama.

â O que eu peÃ§o?

â O que vocÃª quiser. â Raphael embalou seu rosto em suas mÃ£os.

Ela olhou nos olhos de Raphael e seu rosto se contraiu. Ela caiu de joelhos, envolvendo os braÃ§os ao redor de suas pernas. â FaÃ§a isso ir embora, por favor. NÃ£o quero mais sentir a dor.

Raphael se agachou no chÃ£o e pegou as mÃ£os de Megan na sua. â O homem que se auto titula de pai, nÃ£o vai mais te machucar. VocÃª nÃ£o Ã© um objeto sexual ou a escrava sexual pessoal que ele fez vocÃª ser. VocÃª Ã© filha de Deus e, com fÃ© Nele, encontrarÃ¡ paz.

O coraÃ§Ã£o de Lash doeu quando viu as lÃ¡grimas escorrerem por suas bochechas, e a culpa o dominou novamente. Ela nÃ£o foi a primeira mulher que ele usou. Foi fÃ¡cil passar de uma garota para outra; era sÃ³ sexo. Elas estavam felizes â ele estava feliz. Qual era o mal? Contanto que ficasse por uma noite e nÃ£o as conhecesse, ele seria capaz de manter-se atrÃ¡s do muro que construiu. No fundo, no entanto, ele sabia que o que estava fazendo era egoÃ­sta e errado.

Raphael segurou o braÃ§o dela e passou a mÃ£o sobre os novos rastros de agulha. Megan gemeu quando uma onda percorreu o comprimento de seu braÃ§o, como um verme preso debaixo de sua pele. O movimento parou no pequeno orifÃ­cio do local da injeÃ§Ã£o e uma substÃ¢ncia branca semelhante a gel vazou.

Os olhos de Megan se arregalaram e ela estremeceu quando o gel branco caiu no chÃ£o. Quando acabou, ela olhou para Raphael, seus olhos claros e coerentes. â Obrigada.

â VÃ¡ agora e nÃ£o peques mais.

Megan beijou as mÃ£os dele. Rapidamente, vestiu a calÃ§a jeans e pegou a bolsa, jogando o conteÃºdo e a parafernÃ¡lia de drogas nela. Quando ela foi atÃ© a porta, seus olhos encontraram os de Raphael e suas bochechas ficaram vermelhas de vergonha.

Raphael tocou sua bochecha levemente. â Lembre-se, o que uma vez foi, agora nÃ£o Ã© mais.

Ela abriu um sorriso, olhou para a bolsa, entÃ£o se virou e jogou na lata de lixo antes de sair com a cabeÃ§a erguida.

Lash foi atÃ© a lata de lixo e vasculhou a bolsa, pegando um isqueiro e um baseado de maconha. Ele olhou para Raphael, desafiando-o a fazer algo quando acendeu e deu uma tragada.

â Lash, vocÃª nÃ£o pode me dizer que isso... essa coisa estÃ¡ realmente tendo qualquer efeito em vocÃª â Raphael reclamou. â Nossos corpos nÃ£o reagem a substÃ¢ncias estranhas como corpos humanos.

â NÃ£o â disse ele, prendendo a respiraÃ§Ã£o por um momento e, em seguida, expelindo lentamente a fumaÃ§a. â Eu nÃ£o sinto nada.

Raphael fez uma careta. Lash estava prestes a dar outra tragada quando â com um aceno da mÃ£o de Raphael â a fumaÃ§a se dissipou e o baseado se transformou em cinzas. â EntÃ£o, por que, por favor, diga, vocÃª sequer se incomoda em sujar seu corpo com isso?

â Porque isso enlouquece vocÃª. â Ele sorriu.

Os olhos de Raphael ficaram frios. Ele agarrou Lash pelo pescoÃ§o e o empurrou contra a parede. Ele se inclinou para perto, seu rosto a menos de um centÃ­metro de Lash. â Ã exatamente essa atitude que te fez ser banido do cÃ©u.

â Para o inferno que foi. â Lash lutou contra ele. â Aquela cadela, Gabrielle, me trouxe atÃ© aqui, ela nÃ£o precisava me denunciar.

â NÃ£o, Lahash . Foi vocÃª. Foi tudo vocÃª. â O rosto de Raphael avermelhou quando ele pressionou Lash na parede, fazendo com que a quebrasse. â VocÃª interferiu em seu papel e desafiou a autoridade dela como arcanjo. Todas as missÃµes sÃ£o dadas para um propÃ³sito e devem ser seguidas em conformidade. A garota nÃ£o deveria sobreviver ao acidente.

â Gabrielle â o nome cuspido como se fosse algo amargo â, estava esperando por uma oportunidade para me expulsar. Ela me odeia.

â Isso nÃ£o Ã© verdade.

Ele franziu o cenho. â Ela odeia. VocÃª Ã© muito cego para ver isso.

Raphael fechou os olhos, respirando fundo. Sua raiva nÃ£o estava ajudando Lash a ver a razÃ£o; estava fazendo o oposto.

â Eu sei que vocÃªs dois nÃ£o estÃ£o nos melhores termos.

â Isso Ã© um eufemismo â Lash murmurou.

Raphael o ignorou e continuou. â Ela tem o melhor interesse de todos no coraÃ§Ã£o, incluindo o seu. Tenho certeza disso. â Ele soltou seu aperto e se afastou. â VocÃª foi imprudente, desconsiderando aqueles ao seu redor. Eu nÃ£o entendo esse tipo de comportamento de vocÃª.

Lash suspirou e sentou-se na beira da cama. â Eu nÃ£o vejo o ponto. Por que nos incomodamos com o que fazemos? As pessoas farÃ£o o que quiserem, de qualquer maneira. Como Megan. Ela provavelmente estarÃ¡ drogada novamente dentro de uma hora.

â Esse Ã© o problema com vocÃª, Lash. VocÃª perdeu a fÃ©.

â FÃ©? â Lash pegou um controle remoto da mesa de cabeceira e ligou a televisÃ£o, passando os vÃ¡rios canais, pausando um momento entre cada toque do botÃ£o. Sua mandÃ­bula apertou enquanto fazia uma careta para cada imagem que cobria a tela: homens cobertos de sangue, corpos caÃ­dos em uma estrada de terra, e mulheres envoltas em preto, gritando em angÃºstia; um prÃ©dio destruÃ­do com fumaÃ§a e cinzas girando no ar, e mulheres e crianÃ§as saindo dele, cobertas de cinzas; um garotinho de pele escura, nÃ£o mais do que quatro anos de idade, vestido com uma bermuda enlameada, o estÃ´mago inchado de fome e rosto inexpressivo enquanto permanecia sozinho na beira de uma estrada.

Ele parou em um canal que mostrava um grupo de mulheres que se vestiam e vestiam crianÃ§as para parecerem prostitutas de alta classe com a intenÃ§Ã£o de ganhar um concurso de beleza.

Lash jogou o controle remoto, quebrando a tela. â Ã nisso que vocÃª quer que eu tenha fÃ©? Como posso confiar neles?

Raphael olhou para a televisÃ£o rachada, seus olhos brilhando. â Lash, vocÃª nÃ£o acha que eu me senti da mesma maneira que vocÃª? Eu tambÃ©m tenho lutado para colocar minha fÃ© nas pessoas, especialmente quando parece que ninguÃ©m se importa com outros alÃ©m de si mesmo. â Raphael colocou a mÃ£o em seu ombro. â Michael concordou em lhe dar mais uma chance. Ele permitirÃ¡ seu retorno se vocÃª provar sua devoÃ§Ã£o e fÃ©.

â Por que eu iria querer fazer isso? â Lash perguntou, fingindo desinteresse. O muro que ele havia construÃ­do em torno de si, para protegÃª-lo de se machucar, estava em pleno vigor.

â VocÃª nÃ£o pode me enganar, eu sei que vocÃª quer voltar.

Merda. Ele deveria saber que Raphael iria ver atravÃ©s dele.

â Bem. O que eu preciso fazer?

AlÃ­vio brilhou nos olhos de Raphael, e ele estudou seu rosto enquanto tirava um envelope do bolso interno de sua jaqueta. â Esta Ã© a localizaÃ§Ã£o e a foto da sua prÃ³xima tarefa.

Lash suspirou quando abriu o envelope e retirou o cartÃ£o. â Naomi Duran â ele leu. â Duran. Espere, ela estÃ¡ relacionada com Javier Duran?

Raphael abriu e fechou a boca. Lash poderia dizer que havia algo importante que ele queria dizer, mas parecia que algo o detinha.

â Tudo o que posso dizer Ã© que Ã© de vital importÃ¢ncia que vocÃª a mantenha segura â disse Raphael.

Lash amaldiÃ§oou em voz baixa. Eles nÃ£o iam facilitar para ele. Ele virou o cartÃ£o e olhou para a foto. Uma mulher jovem e bonita, com grandes olhos azuis pÃ¡lidos, olhava para ele. A sala ficou imÃ³vel enquanto estudava a foto. Ele olhou para cima e encontrou Raphael inclinado em direÃ§Ã£o a ele com expectativa.

â O que?

â Nada. â Raphael desviou os olhos. Ele caminhou atÃ© a Ãºnica janela na sala e puxou a cortina para trÃ¡s. â DÃª outra olhada. Se vocÃª precisa de uma foto de melhor qualidade, posso adquirir uma para vocÃª.

Lash olhou para Raphael desconfiado, ele estava agindo de forma estranha. Lash olhou para a foto novamente, havia algo familiar sobre ela que nÃ£o conseguia identificar. Ele traÃ§ou um dedo sobre seus lÃ¡bios vermelhos cheios. Ele nÃ£o poderia ter sido atribuÃ­do a ela no passado; teria se lembrado de alguÃ©m que se parecia com ela. â A foto estÃ¡ boa. EntÃ£o, tudo o que tenho que fazer Ã© mantÃª-la segura. De que?

Raphael olhou pela janela suja e depois inclinou a cabeÃ§a como se estivesse ouvindo alguma coisa. â Vamos fazer isso rÃ¡pido â disse e marchou para Lash. Ele colocou a mÃ£o contra as tÃªmporas de Lash, e uma visÃ£o de Naomi apareceu em sua mente.

â O que... ela estÃ¡ tentando se matar? â Lash gritou.

Rafael retirou a mÃ£o e dirigiu-se para a porta.

â VocÃª nÃ£o pode simplesmente me mostrar isso e correr â disse Lash.

â Eu nÃ£o deveria ter te mostrado isso. â O rosto de Raphael se enrugou de preocupaÃ§Ã£o quando saiu.

Lash correu para o corredor. â Espere! Michael pelo menos me deixarÃ¡ ter todos os meus poderes de volta?

Raphael continuou a andar, sua imagem desaparecendo a cada passo que dava. â NÃ£o. VocÃª deve fazer isso sozinho. â Com essas Ãºltimas palavras, ele desapareceu.




5


Jane limpou as mÃ£os suadas na bainha da saia preta e olhou pela janela escura do Mercedes para o pequeno aglomerado de pessoas reunidas em torno do caixÃ£o fechado. â Isso estÃ¡ errado, Luke. Eu nÃ£o deveria estar aqui.

Luke desligou o telefone e deu um tapinha na mÃ£o de Jane. â NÃ³s jÃ¡ discutimos isso. Seria pior se vocÃª nÃ£o desse a famÃ­lia suas condolÃªncias pela perda â disse ele. â VocÃª estÃ¡ perfeitamente segura, Sal estarÃ¡ bem atrÃ¡s de vocÃª.

â NÃ£o Ã© isso que eu quis dizer â disse ela. A Ãºltima coisa que precisava era intimidar a famÃ­lia com a presenÃ§a de Sal. â Por minha causa, o pobre homem estÃ¡ morto. Eu sou a Ãºltima pessoa que eles querem ver.

â Foi considerado um acidente â ressaltou.

â O homem estÃ¡ morto. â Ela fechou os olhos e apertou a mÃ£o na testa. Agora nÃ£o era hora de ter outra enxaqueca. â Eu nÃ£o estava prestando atenÃ§Ã£o na estrada e, por causa disso, um homem perdeu a vida.

Luke pegou a mÃ£o dela e deu-lhe uma aspirina. â VocÃª nÃ£o estava distraÃ­da. â Ele entregou-lhe uma garrafa de Ã¡gua. â Uma das minhas fontes na investigaÃ§Ã£o me disse que havia Ã¡lcool no sistema dele.

â Eu tenho certeza que eles teriam encontrado no meu tambÃ©m se tivessem se incomodado em verificar. â Jane colocou o comprimido em sua boca e voltou sua atenÃ§Ã£o para o funeral. Uma mulher pequena e idosa, provavelmente a mÃ£e do homem, encostou-se a um rapaz e chorou no peito dele.

â AgradeÃ§a ao pensamento rÃ¡pido do Sal. â Luke virou-se para o som de pedras esmagadas quando uma van de notÃ­cias parou ao lado do carro. â Boa. Eles estÃ£o aqui.

â VocÃª chamou a mÃ­dia? â Jane engasgou. â InacreditÃ¡vel.

â Olha Jane. NÃ£o podemos nos arriscar que esse incidente manche sua reputaÃ§Ã£o impecÃ¡vel. â Luke bateu na parte de trÃ¡s do banco do motorista. â Ela estÃ¡ pronta â disse ele para Sal.

â Eu prefiro fazer isso em particular. â Ela detestava a ideia de ter suas desculpas transmitidas no noticiÃ¡rio da noite.

â Sua corrida para cargos polÃ­ticos afeta alÃ©m de vocÃª â disse Luke inflexivelmente. â Pense em toda a mÃ£o-de-obra e dinheiro que fizeram vocÃª ser que Ã© hoje. VocÃª deve isso ao partido.

Por mais que Jane detestasse admitir, ele estava certo; muitas pessoas confiavam nela e no jogo da polÃ­tica, imagem era tudo.

Luke olhou para o relÃ³gio. â SÃ£o apenas alguns minutos. VocÃª tem a angariaÃ§Ã£o de fundos do Hospital Infantil de Houston em uma hora.

O estÃ´mago de Jane se agitou. Ela nÃ£o conseguia pensar em deixar esta pobre famÃ­lia e depois ir direto para um evento de angariaÃ§Ã£o de fundos, onde daria seu discurso sobre a importÃ¢ncia de uma comunidade se apoiar mutuamente em momentos de necessidade. Ela se sentia como uma fraude.

A porta se abriu e Sal estendeu a mÃ£o, esperando. Ela suspirou quando colocou a mÃ£o na dele e saiu. Enquanto caminhavam em direÃ§Ã£o ao encontro, ela podia sentir olhos olhando para ela com curiosidade. Ela manteve a distÃ¢ncia e esperou pelo momento apropriado para se aproximar dos Durans. Ela nÃ£o pÃ´de deixar de pensar no menino, Javier, que estava sentado atrÃ¡s dela naquele dia fatÃ­dico em que seu voo de Los Angeles caiu, matando todos, exceto eles dois.

Quando ela descobriu que o homem com quem colidiu se chamava Javier Duran, ela fez Luke checar seu passado. As chances de ele ser o mesmo Javier que ela conhecera hÃ¡ muitos anos eram pequenas, mas nÃ£o conseguia se livrar da sensaÃ§Ã£o incÃ´moda de que era a mesma pessoa. Ela ficou aliviada quando Luke disse que nÃ£o era, mas triste quando soube que o Javier do aviÃ£o havia morrido anos atrÃ¡s de cÃ¢ncer.

â Senadora â Sal tocou seu cotovelo e levou-a para mais perto do encontro.

Jane olhou para a equipe de reportagem e apertou os lÃ¡bios em uma linha fina. O poder do dinheiro, ela pensou. Certifique-se de obter a garota-propaganda do partido da FederaÃ§Ã£o Americana na foto consolando a famÃ­lia.

Quando a cerimÃ´nia chegou ao fim, Jane esperou que os outros saÃ­ssem antes de se aproximar. Respirando fundo, ela enxugou as mÃ£os contra a saia uma Ãºltima vez e caminhou em direÃ§Ã£o Ã  famÃ­lia em luto.






Levou cada grama de forÃ§a para Naomi ficar onde estava e nÃ£o fugir da dor que ameaÃ§ava dominÃ¡-la. Nos Ãºltimos dois dias de preparaÃ§Ã£o para o funeral, ela conseguiu afastar a dor de perder seu pai.

A visÃ£o de Welita chorando em seu lenÃ§o de renda preta rasgou seu coraÃ§Ã£o, e ela se perguntou que tipo de Deus faria isso com eles. De todas as pessoas do mundo, por que ele? Porque agora? NÃ£o era justo, seu pai estava finalmente transformando, reconstruindo sua vida, apenas para perdÃª-la em um instante.

Ela colocou uma rosa em seu caixÃ£o e se perguntou o que faria sem ele. Foi entÃ£o que viu, pelo canto do olho, uma mulher esbelta saindo de um Mercedes preto. Seus olhos se estreitaram quando reconheceu quem era. Quem diabos ela pensa que Ã©, vindo para cÃ¡?

Ela xingou baixinho quando dois homens com cÃ¢meras seguiram atrÃ¡s da senadora.

Chuy cutucou o braÃ§o dela. â O que estÃ¡ errado?

â Ali. â Ela inclinou a cabeÃ§a na direÃ§Ã£o dos intrusos. â A atitude daquela mulher. Ela trouxe sua prÃ³pria equipe de cÃ¢mera.

â Acabamos aqui, eu direi a Lalo para pegar o carro. Welita nÃ£o precisa passar por isso. â Chuy correu para Welita, que estava ocupada conversando com o padre.

â Depressa. â Naomi observou a senadora enquanto vinha na direÃ§Ã£o deles, com os sapatos de salto alto esmagando as pedras que se alinhavam no caminho. Um gigante imenso se arrastava atrÃ¡s dela. Com seu chapÃ©u de cowboy preto e botas de crocodilo, ele parecia o tÃ­pico texano, mas o olhar feroz em seus olhos gritava perigo. Ela estremeceu.

â O que hÃ¡ de errado, Mijita? â Welita se aproximou dela. â Chuy diz que vocÃª quer ir embora.

â EstÃ¡ ficando quente, e o calor nÃ£o Ã© bom para o seu problema cardÃ­aco â disse Naomi. â Precisamos levÃ¡-la para casa.

Welita parecia desnorteada. â Meu coraÃ§Ã£o estÃ¡â¦

â Sra. Duran â Jane chamou.

â Merda â Naomi murmurou baixinho.

Welita se virou e o reconhecimento cruzou seu rosto. â Senadora Sutherland.

Naomi entrou na frente de Welita. â Senadora, nÃ£o temos nada a dizer a vocÃª. â Ela pegou o braÃ§o de Welita e virou-a para a direÃ§Ã£o do carro deles.

â NÃ£o, por favor â disse Jane, dando um passo Ã  frente. â Por favor, nÃ£o se ofenda. Estou aqui para oferecer minhas condolÃªncias.

Naomi virou-se. â VocÃª nÃ£o estÃ¡ aqui por nÃ³s. â Ela lanÃ§ou um olhar para as cÃ¢meras de notÃ­cias. â VocÃª estÃ¡ aqui para o seu prÃ³prio benefÃ­cio, sua pâ¦

â No seas grocera, Naomi! â Welita repreendeu. â Cuidado com a sua lÃ­ngua.

â Eu sinto muito, Welita. Essa mulher nÃ£o merece nenhuma gentileza. Ela vem valsando aqui com sua Mercedes chique como se fosse dona do lugar, pensando que pode dizer "me desculpe" e nÃ³s vamos acreditar e perdoÃ¡-la.

â Essa nÃ£o Ã© minha intenÃ§Ã£o. Olhe â Jane respirou fundo â, vamos nos acalmar antes que as coisas saiam do controle.

â Acalmar? Acalmar? â Naomi soltou Welita e deu um passo ameaÃ§ador em direÃ§Ã£o a Jane, com as mÃ£os se fechando em punhos. â Senhora, vocÃª nÃ£o tem ideia do que eu sou capaz de fazer.

â Chuy, pare-a â disse Welita, arregalando os olhos enquanto observava Sal alcanÃ§ar o interior de seu terno.




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