Escravo
Luigi Passarelli







Luigi Passarelli


âESCRAVO â O Programa Priceâ

Escrito por Luigi Passarelli

Copyright Â© 2017 Luigi Passarelli

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Traduzido por Marta de Camargo Fernandes

Titulo original (The) Slave

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toc


Um dia qualquer, quase para todo mundo. Ivano esperava a sua vez, com os rapazes nascidos no mesmo dia que ele, na elegante sala de espera. Tinha visto apenas outros quatro ou cinco. Ele era o penÃºltimo. NinguÃ©m falava, ninguÃ©m dizia nada, melhor assim. Na verdade era tudo uma formalidade. Todos liam o manualzinho com as instruÃ§Ãµes que jÃ¡ conheciam de cor, apreendidos nos anos de escola e de vida familiar. Uma grande repetiÃ§Ã£o. Mas sabia que atÃ© as coisas mais Ã³bvias podiam ser arquivadas da um cÃ©rebro como supÃ©rfluas. E que em alguns casos, dificilmente noticiado nos jornais, alguma coisa anda mal. Mas Ivano nunca tinha vivido pessoalmente ou conhecido alguÃ©m com alguma histÃ³ria que pudesse fazer ele se preocupar. Como os outros, se mostrava ocupado, responsÃ¡vel e que se interessava ao manualzinho, lendo a parte histÃ³rica onde estÃ¡ escrito de quando os jovens como ele eram obrigados a trÃªs dias de visitas mÃ©dicas para a idoneidade ao serviÃ§o militar obrigatÃ³rio. Nada de novo. O mundo era sempre o mesmo. Sempre muito chato. Provavelmente mais chato. Como naquele verÃ£o em que terminou a escola. Aquele estranho verÃ£o no qual se abre um mundo novo: o da universidade ou o do trabalho. Tarefas de casa nÃ£o existiam mais. Estudar por estudar, nem pensar. Em fÃ©rias a sua famÃ­lia nunca tinha ido. Ele, filho Ãºnico, tinha participado de algumas viagens da escola na sua regiÃ£o mas sempre para estudos. Nunca duravam mais que um dia. Lembrava dos amigos e colegas. Gostaria que alguÃ©m se tornasse um seu colega no futuro. Mas precisava ter muita sorte. Invejava quem podia jÃ¡ se mudar para outro lugar. O desejo de viajar o tinha sempre acompanhado. Deveria conseguir ser mandado a fazer a universidade. Existia muitos trabalhos que permitiram que ele viajasse, quem sabe um dia.

âIvano? Vamos, Ã© a sua vez.â  Era a sua hora.  Questionar-se sobre o Programa Price nÃ£o era recomendado. A felicidade significava ir alÃ©m. AlÃ©m de todo o peso da vida. Existiam muitas tÃ©cnicas. O seu pai, nos Ãºltimos dias, o tinha obrigado a assistir todos os telecursos de preparaÃ§Ã£o ao grande evento. O dia que o esperava deste a sua nascida. E esse dia finalmente chegou. Ele sÃ³ tinha que se levantar daquela cadeira confortÃ¡vel, esquecer a sua velha vida e deixar-se guiar pela enfermeira.  A sala da operaÃ§Ã£o lembrava aquela da sua dentista.  Ivano sabia que duraria menos de dez minutos. E isso bastava.  O anestesiologista, jÃ¡ afeito ao trabalho, comeÃ§ou imediatamente. Nenhuma palavra. AlguÃ©m mantinha um sorriso cansado por pura educaÃ§Ã£o.  DifÃ­cil fingir para sempre. Mesmo em frente ao evento mais importante na vida de um jovem adulto.  Eram todas pessoas bem treinadas. Ivano se preparou e usou as tÃ©cnicas de isolamento mental. A anestesia e o cheiro da sala ajudaram.  NÃ£o perdeu a consciÃªncia. Mas o mal estar causado pela cÃ¢nula que penetrava em uma de suas narinas era Ã³bvio e repugnante. Tinha que chegar Ã  proximidade da glÃ¢ndula pineal, depositar a versÃ£o mais recente do microchip e voltar sem fazer graves danos.  SÃ³ entÃ£o se perguntou que relaÃ§Ã£o podia haver entre orgÃ¢nico e tÃ©cnica. Mas, na verdade, nÃ£o importava. Certamente, o microchip e os mÃ©dicos nÃ£o sofriam.  Depois de poucos minutos, tudo tinha acabado. O alÃ­vio da extracÃ§Ã£o da cÃ¢nula foi acompanhada pelo diminuir dos efeitos da anestesia. Logo ele poderia levantar e dar os primeiros passos no mundo dos adultos.  Sentia-se de um lado renascido, do outro pesado e consciente de uma grande mudanÃ§a.  âPode ficar de pÃ©, Ivano.â  Sim, podia se levantar. Uma leve dor de cabeÃ§a, um pouco de tontura e uma tendÃªncia a perder o equilÃ­brio o acompanhou atÃ© a mesa do consultÃ³rio.  O seu livrinho esperava por ele. Seus arquivos com a senha temporÃ¡ria e as instruÃ§Ãµes que jÃ¡ conhecia a memÃ³ria.  âBem-vindo ao Programa Price, Ivano!â  Era tudo. Era mais demorada a espera que tudo o resto. Nada de tÃ£o especial em si. Talvez sÃ³ as consequÃªncias tinham um real significado.  Ele sÃ³ tinha que refazer seus passos em direÃ§Ã£o a casa, e tentar nÃ£o causar danos.


Passeava no caminho de volta, como de costume. Se viu na frente da loja onde ele tinha se apaixonado por muitas mulheres e garotas durante a sua adolescÃªncia. Na vitrina, agora, nÃ£o tinha nenhuma que despertasse o seu interesse. Mesmo assim fez um tentativo, um teste.

Ele apontou para uma menina de biquÃ­ni o seu telefone celular para verificar o funcionamento do Programa. Ela parecia feliz e amigÃ¡vel. No entanto, a conta ainda nÃ£o tinha sido ativada. Ivano nÃ£o podia saber o custo da operaÃ§Ã£o, nem mesmo adicionar a garota no carrinho ou na lista de desejos.  A menina acenou de volta. Ele nÃ£o podia ouvi-la. Mas se fez entender. Evidentemente ela nÃ£o desapreciava a aparÃªncia de Ivano. Pena que nÃ£o fosse reciproco. Ivano se afastou para pensar naquelas meninas que fizeram ele sonhar tantas noites, elas eram uma companhia real e sensual em suas fantasias. E de como gradualmente elas desapareciam da sua vida no cotidiano. Tinha um pouco de vergonha. Especialmente por sua famÃ­lia. Avisaram que nÃ£o devia nem pensar em certas coisas. Criar uma famÃ­lia era outra coisa, mesmo naquela Ã©poca. Ele iria encontrar a mulher certa no momento certo. Suas pequenas aventuras na escola com algumas de suas colegas nÃ£o o tinha satisfeito completamente. Vividas sempre com medo e escondidas...  Um mendigo que pedia comida chamou a sua atenÃ§Ã£o. Ivano queria fazer uma outra tentativa. Entender o seu poder, se tudo era verdade.  Apontou seu telefone.  Sim, desta vez funcionou. O homem tinha um valor de cerca de trÃªs mil crÃ©ditos. O velho homem com as pernas mutiladas, a barba de um profeta, sujo como poucos e vestido como um soldado do exÃ©rcito napoleÃ³nico, olhou para ele com um sorriso irÃ´nico.  âEntÃ£o, garoto! Quer me comprar? VocÃª estÃ¡ se divertindo? Faz um presente para sua mÃ£e! Leve-me para casa sua, me dÃª um quarto e lenÃ§Ã³is! Vou ser muito Ãºtil pra sua famÃ­lia, nÃ£o acha?â  Ivano se assustou. E se envergonhou. Sim, era assim. Era assim mesmo que funcionava.  Ele saiu depressa e pensou no respeito pelas pessoas. Mas tambÃ©m na utilizaÃ§Ã£o deles, a prÃ¡tica real. Sim, havia ainda uma possibilidade de escolha no Programa. Precisava ser esperto, como sempre, ou pelo menos preservar uma linha de lucro. Agora ele estava com medo de que alguÃ©m na rua pudesse descobrir o seu real valor e que se aproveitasse.  Todos sabiam a memoria a regra principal do programa: somente as outras pessoas podiam saber o real valor de crÃ©ditos que uma pessoa possuÃ­a. Somente o aparelho de uma outra pessoa pode te avaliar, nunca o prÃ³prio.  O seu pai tentou tranquilizar Ivano antes que ele fosse ao consultÃ³rio mÃ©dico: apenas entrado no programa se pode ficar tranquilo. Os crÃ©ditos eram os mesmos para todos, dependia do seu prÃ³prio caminho na vida, mas ele jÃ¡ sabia orientar-se, e esperava uma quantia reconfortante. Uma quantia que o teria mantido livre, pelo menos no comeÃ§o.  No entanto, Ivano podia imaginar o seu retorno a casa.  SermÃµes e mais sermÃµes. AtenÃ§Ãµes e mais atenÃ§Ãµes. Seu pai nÃ£o perderia a oportunidade de fazer mais um punto da situaÃ§Ã£o.  No entanto, tinha que respeita-lo. Na sua casa, na verdade, nunca faltou nada do bÃ¡sico. Apenas a oportunidade de viajar que ele nunca teve.  O mundo em si era algo distante e desconhecido. Apenas alguns bairros da sua cidade eram realmente frequentados pela sua famÃ­lia. E isso deveria bastar.  Simplesmente, o mundo era perigoso demais para ser vivido plenamente. As viagens eram todas organizadas pelo Programa e somente poucos tinham a sorte de poder sair da prÃ³pria Ã¡rea. Exatamente como ele e seus pais. E, talvez, todos os seus amigos e colegas.  Ivano foi passando em frente das poucas lojas abertas ao longo do caminho. Eram quase todas lojas de alimentos frescos. Ele teve a tentaÃ§Ã£o de fazer escondido a primeira compra da sua vida. Quem sabe, apenas uma bala. Mas sabia que o pai ficaria furioso. Teria arruinado o seu aniversÃ¡rio Price. E, talvez, o pai, choramingando com os tutores do sistema, teria imposto limites de gastos.  Sim, para ser um verdadeiro adulto, fazer feliz seus pais, tinha que se comportar de uma maneira desprovida de tolas tentaÃ§Ãµes. Basicamente, nada mudava em relaÃ§Ã£o aos anos anteriores. Antes ele nÃ£o podia comprar nada, e muito menos agora. Ele sÃ³ tinha que esperar o momento certo para investir em algo de seu. Certamente nÃ£o em um doce bobo e infantil.  E mais, ele tinha que esperar que seu pai controlasse os seus crÃ©ditos. Sim, agora ele tinha medo de saber o quanto haviam reconhecido o seu empenho, a sua carreira, praticamente, a sua vida.  Ele confiava em seu pai, mas nÃ£o cegamente. Tinha medo de nÃ£o saber tudo, de ter perdido alguma coisa. Tinha, atÃ©, medo que os seus colegas tivessem presso muito mais que ele. Seria uma vergonha.  Apertou o passo. Agora faltava pouco para chegar na porta de casa.


Ivano tocou o interfono. Ele nunca teve as chaves. O pai correu para abrir. Estava de repouso, como todos os pais, para o aniversÃ¡rio Price do filho.

âIvo! Vem, entra! EntÃ£o? EstÃ¡ emocionado? VocÃª, finalmente, se sente adulto? Olha, tem uma boa surpresa para vocÃª!â  A mÃ£e apareceu com um pequeno bolo seco com em cima uma grande vela acesa.  Agora todos estavam sentados Ã  mesa. Todos, na verdade, nÃ£o. Faltava o resto da sua famÃ­lia.  Mas da quando o Programa nÃ£o dava mais crÃ©ditos suplementares para os presentes durante as festas ninguÃ©m festejava mais nada.  Ivano apagou a vela e jÃ¡ queria ir para o quarto, mas nÃ£o podia nem pensar.  O pai de Ivano pegou o telefone celular, e solenemente apontou-o na cabeÃ§a do rapaz.  âPronto? VocÃª quer saber ou nÃ£o quer? NÃ£o estÃ¡ curioso? Todos estes anos que estive perto, aconselhando, guiando vocÃª. Apenas um pequeno clique, para saber! Ah! Na rua alguÃ©m avaliou vocÃª? Ou vocÃª foi tÃ£o ingrato para pedir o favor a um desconhecido na rua? EntÃ£o, Ivo? Vou?â  O pai apontou e soube imediatamente. No comeÃ§o, ele se mostrou sÃ©rio e preocupado. Depois, relaxado.  âComo pensava. Exatamente como eu pensava. Nunca erro, eu. Verdade, amor? Olha isso!â  O pai tinha previsto. Em seu coraÃ§Ã£o, Ivano esperava por um valor bem mais alto. NÃ£o havia uma razÃ£o. Apenas um sonho. Sim, ele sonhava em ser melhor do que a dura realidade mostrava. Mas sonhar tambÃ©m era claramente enganoso. Sim, ele se enganava como na literatura. Tinha escrito na sua cabeÃ§a, um romance com um final feliz demais. Agora ele sÃ³ queria ir descansar. A sua cabeÃ§a doÃ­a, o equilÃ­brio ainda era precÃ¡rio, se sentia melhor em pÃ© e caminhando do que sentado e parado.  O bolo era velho, daqueles cheios de conservantes, teve que beber trÃªs copos de Ã¡gua para fazer descer o pedaÃ§o que a mÃ£e tinha entregado a ele. Sonhava com o creme de antes.  Ivano e seu pai sentaram na sala de estar. A mÃ£e nÃ£o se importava com nada, alÃ©m da normal administraÃ§Ã£o da casa. A gestÃ£o da despensa, limpeza, pequenas tarefas. O marido tinha a procuraÃ§Ã£o sobre o seu crÃ©dito, uma vez que ela tinha sido sempre uma estudante terrÃ­vel. Este fato a tinha deprimido e humilhado por toda vida. Por isso, ela nÃ£o participava de boa vontade nas decisÃµes da famÃ­lia. Mesmo se o marido, na intimidade, ou seja, no quarto do casal, tinha o hÃ¡bito de fazer perguntas, de se confrontar, de pedir conselhos e impressÃµes a ela. Mas ela sempre respondia com poucas palavras evasivas. O suficiente para agradar ao marido. Ela sentia falta da sua famÃ­lia, mas ninguÃ©m sabia por que as relaÃ§Ãµes tinham sido interrompidas. Pelo menos, oficialmente, ninguÃ©m sabia. Havia apenas uma lenda sobre uma prisÃ£o de um parente.  O pai de Ivano trabalhava na manutenÃ§Ã£o de um parque de diversÃ£o, o Ãºnico na Ã¡rea de competÃªncia deles. O parque era enorme e tinha uma excelente infra-estrutura. Que, naturalmente, precisava de manutenÃ§Ã£o contÃ­nua e de supervisÃµes. O pai de Ivano se tornou um dos responsÃ¡veis do setor.  No entanto, o prazer ir ao parque para Ivano diminuiu com o passar dos anos. Nunca teve uma novidade, nenhuma atualizaÃ§Ã£o, tudo era perfeitamente idÃªntico ao original. Assim, ao longo do tempo, ele tinha perdido o interesse em ir lÃ¡. O pai nÃ£o o culpava, sabia que o seu trabalho era direcionado a famÃ­lias com crianÃ§as pequenas. Ele tinha certeza que os filhos de Ivano iram poder entrar grÃ¡tis todas as vezes que quisessem, graÃ§as a sua presenÃ§a, e isso era o bastante. Um pequeno privilÃ©gio do qual ele se orgulhava. O pai de Ivano precisava de incentivos, mesmo pequenos para nÃ£o pensar em todas as desvantagens.  Em sala, Ivano ouvia as palavras do pai, cheias de sabedoria, mas melancÃ³licas e chateadas.  NÃ£o compre nada que nÃ£o seja estritamente necessÃ¡rio, a reta da universidade incluiu a refeiÃ§Ã£o do dia na cantina, ebooks, apostilas, telecursos e tudo mais.  Ivano nÃ£o podia mudar em nada. Seguir exatamente o que jÃ¡ tinha feito de bom na escola. Na verdade, era imperativo alcanÃ§ar o mÃ¡ximo nas notas. EntÃ£o, eram quatro anos de seriedade e autodisciplina. Era tudo o que pedia. Depois iria para o passo sucessivo.  Sabia que nem todos os seus colegas tinham tido a mesma sorte, nem todos tinham os seus requisitos e capacidades. Precisava ter gratidÃ£o por tudo e todos. Reconhecer que era um meio privilegiado e contar com isso para manter a posiÃ§Ã£o. Manter a posiÃ§Ã£o.  Ivano tinha ouvido essa histÃ³ria por mais da metade da sua vida, mas naquele dia era repugnante. Queria se livrar e pular na cama, nÃ£o necessariamente para dormir, pelo menos, para colocar os fones de ouvido e ouvir os Ã¡udio-sonhos.  NÃ£o queria admitir, mas ele jÃ¡ nÃ£o conseguia seguir o monÃ³logo do pai. Tremores, combinados com uma espÃ©cie de ligeira paralisia faziam ele suar frio. A mÃ£e, passando umas duas vezes por lÃ¡, jÃ¡ tinha notado, mas nÃ£o disse nada. Como de costume.  âTudo bem, vai descansar um pouco. Pelo que sei, hoje a operaÃ§Ã£o Ã© moleza. Eu me lembro quando foi a minha vez, fiquei na cama por uma semana. PensÃ¡vamos em recorrer Ã  garantia. Mas depois tudo passou. Como para os upgrades.â  Ivano levantou-se mecanicamente. Por sorte havia um corrimÃ£o nas escadas. Arrastou-se atÃ© o quarto.


A transiÃ§Ã£o principal tinha terminado. ComeÃ§ou, deitado na cama, a ter dÃºvidas acerca da utilidade de seus estudos, passados e futuros. Ele percebeu de nÃ£o ter feito escolhas de acordo com os prÃ³prios desejos. No entanto, tinha feito todos os testes para fazer um caminho adequado ao seu carÃ¡ter e adequado Ã s suas caracterÃ­sticas. NÃ£o deveria ter dÃºvidas, nÃ£o havia nenhuma possibilidade de escolha errada. Mas ele se sentia um medÃ­ocre. Sim, porque sabia que nÃ£o tinha, na verdade, desejos plausÃ­veis ou reais. Ele sÃ³ queria viajar e poder escolher cada vez o caminho da seguir. Mas do mundo sabia muito pouco. Ele conhecia Ã  memoria todos os mapas do mundo. Nos quais, de fato, havia muito pouco para conhecer e imaginar.

Apenas um dos seus colegas continuarÃ¡ os estudos com ele. Um rapaz com quem nunca tinha falado. NÃ£o tinha havido nenhum confronto, nem sequer tinha o seu nÃºmero. Mas, no Ãºltimo dia de aula se organizaram para ir juntos ver a estrutura que lhes teria hospedado. Cada faculdade disponÃ­vel era muito separada das outras.  Ele nunca tinha visto aquele edifÃ­cio, mas nÃ£o era muito longe da sua casa. Nunca tinha sequer ouvido falar. Era chamado de Container B1. Decidiu ver se encontrava imagens no tablet. Estranho nÃ£o ter pensado nisso antes.  Ficou desapontado. Tinha sÃ³ um aplicativo para download. O motor de busca nÃ£o deu outra, inÃºtil tentar novamente.  Achou que teria acesso aos dados depois da inscriÃ§Ã£o. Seu pai jÃ¡ tinha falado sobre quantos crÃ©ditos em um ano teria gastado, mas tambÃ©m das vÃ¡rias possibilidades de ganhar outros. Realmente ele teria que fazer um salto de qualidade.  Encheu-se de esperanÃ§a e energia. Sim, talvez valia a pena dar o mÃ¡ximo para ter os crÃ©ditos. Ele pensou em um saldo positivo. Temia sÃ³ que tudo fosse incrivelmente difÃ­cil.  Provas impossÃ­veis, perguntas e respostas enganosas, tudo para evitar que o justo empenho seja reconhecido. Afinal, se fosse tudo fÃ¡cil, nÃ£o teria gosto em aumentar os prÃ³prios haveres. Ou talvez nÃ£o.  Ele acendeu o audiofone em seu canal favorito, mas a Voz da ConsciÃªncia falou.  âIvano, agora que vocÃª pode ser o que sempre sonhou, pare de pensar negativo. Este Ã© um dia especial. Aproveite estes momentos com seus entes queridos. Mostre gratidÃ£o por aquilo que eles tÃªm feito por vocÃª, conosco. Ã graÃ§as a todos nÃ³s, que sempre estivemos perto de vocÃª, que vocÃª chegou ao Grande Dia. Torne-se consciente e grato. Quer ouvir o horÃ³scopo do dia?â  Ivano odiava horÃ³scopos. Odiava tudo o que poderia ter sem esforÃ§o. No entanto, eles pareciam ser feitos sob misura.  O audiofone escolheu para ele uma lista de mÃºsicas revigorantes. Mesmo se conhecia somente um artista entre aqueles. Um artista histÃ³rico, velho e selecionado. Um dos poucos que haviam sobrevivido ao longo dos anos.  Tinha estudado e re-estudado ele. Tinha uma matÃ©ria especÃ­fica no seu currÃ­culo de estudos. O abandono dos Ã­dolos e do amor pelos Ã­dolos. Eram produtos. JÃ¡ que o Programa nÃ£o era capaz de distinguir as deviaÃ§Ãµes puras das impuras, foi decido que deveriam ser eliminadas.  NÃ£o podendo entender se fosse uma coisa Ãºtil, justa, meritÃ³ria ou nÃ£o, preferiram cortar o mal pela raiz e jogar fora a criatividade livre. Ivano pensava que o artefato era uma coisa do passado, um passado cheio de dÃºvidas e problemas, de incertezas, com milhares de interpretaÃ§Ãµes erradas. Agora tudo isso tinha sido finalmente abandonado. Ele tinha experimentado a emoÃ§Ã£o e a cultura, mas certamente nÃ£o havia modo de voltar atrÃ¡s.  Ele nÃ£o se sentia nem um pouco capaz de criar algo, usufruÃ­a das energias positivas, e deixava a quem fosse mais adapto ser escolhido na SeleÃ§Ã£o.  Afinal, havia escolas especiais, muito difÃ­ceis, que ensinavam aos mais adequados ser objetivos e inevitÃ¡veis.  Ele nesse campo tinha obtido o pior resultado no teste.  Ele adorava ficar deitado observando o teto. Especialmente quando a programaÃ§Ã£o era em sintonia com ele. Amava o seu quarto.  Sim, a Voz estava certa. Realmente um sonho tinha se tornado realidade. Agora ele precisava descansar, mas dormir agora iria perturbar o sono noturno.  A sensaÃ§Ã£o de paz e realizaÃ§Ã£o pessoal, renovaram a confianÃ§a em si mesmo. Sentia-se, pouco a pouco, pronto para seguir em frente. Seguir em frente em suas pequenas coisas era a Ãºnica viagem que lhe era permitido. A viagem jÃ¡ sonhada e planejada. Tinha sÃ³ que deixar o tempo passar para poder realizar-la completamente. A fÃ© era essencial. Seus estudos viriam para ajudar, agora sim, ele entendia. Ele se abria ao sentimento de realizaÃ§Ã£o. Era o microchip a haver tanto poder? Ele nÃ£o sabia.


Alguns dias mais tarde, a sua mente, ou melhor, a Ã¡rea frontal da cabeÃ§a, parecia estar habituada ao elemento intrusivo. Ele recebeu o telefonema do seu colega, que tinha conseguido o nÃºmero da um amigo em comum. Obteve a permissÃ£o para se encontrar com ele, porque era uma prÃ¡tica que seu pai admitia.

Era de manhÃ£ e os dois amigos se encontraram na frente da velha escola fechada.  Um sentimento de nostalgia bateu nos dois. Depois de tudo tinha sido bom.  Eles trocaram as primeiras palavras da quando se conheciam, e eram todas relacionadas Ã  experiÃªncia passada. Porque eles nÃ£o tinham idÃ©ia do que os esperava no final do verÃ£o. Ambos mantinham um mÃ­nimo de senso alternativo, tÃ­pico dos jovens. Fingiam nÃ£o confiar nem no protocolo, nem nas fofocas. Que aparentemente coincidiam.  Era comum entre colegas surgir uma espÃ©cie de competiÃ§Ã£o sobre presuntas melhorias e privilÃ©gios que podiam conseguir no confronto do futuro comum. Quem costumava dizer que o prÃ³prio caminho era melhor, mais rico, mais satisfatÃ³rio, e quem dizia o contrÃ¡rio. Em qualquer caso, nÃ£o tinham, certamente, escolhido de forma independente. Mas a expectativa de que o Programa fosse magnÃ¢nimo e subjetivo acompanhava todos os estudantes esperanÃ§osos. Mais que os prÃ³prios esforÃ§os e resultados dos testes.  JÃ¡ nos primeiros passos em direÃ§Ã£o ao Container B1, o amigo de Ivano nÃ£o resistiu.  âOlha... VocÃª comprou alguma coisa? Eu nÃ£o. Se vocÃª quiser que eu verifico a sua conta e vocÃª confira a minha. Meu pai diz que tenho que ficar atento. E ter cuidado com o que eu faÃ§o e penso. VocÃª nÃ£o tem medo?â  Ivano a pedido de seu amigo apontou o telefone celular na sua testa, e para a sua surpresa saiu um nÃºmero trÃªs vezes maior do seu. NÃ£o deu explicaÃ§Ãµes, mas se recusou a ser avaliado.  âPor que nÃ£o? VocÃª vÃª na tela, melhor, pode fazer sozinho, te dou o meu celular e depois apaga o valor. VocÃª sabe com se faz, nÃ£o?â  Ivano se convenceu; na verdade, ele queria verificar e saber.  Pegou o telefone do amigo e controlou o seu crÃ©dito. Exatamente o que ele jÃ¡ sabia.  NÃ£o apagou os dados, e com um pouco de vergonha devolveu o celular ao amigo, que reagiu com uma mistura de compaixÃ£o e estranhamento.  âMeu pai tem razÃ£o.â Disse.  Ivano lembrou ao seu amigo a liÃ§Ã£o de Ã©tica: quando maduro vocÃª poderia dirigir os carros a hidrogÃªnio. Na estrada um teve que ser preciso, cauteloso e disciplinado. Mas precisava ter muita sorte. Se caÃ­sse uma Ã¡rvore ou alguÃ©m errasse a manobra poderia morrer sem ter culpa.  âMas o meu nÃ£o Ã© sorte. Ã mÃ©rito. MÃ©rito calculado.â  Ivano disse que o segredo era fazer as coisas complicadas serem simples.  Seu amigo mandou que calasse a boca e de nunca mais repetisse tal coisa. As palavras segredo e atalho nÃ£o eram permitidas. Ele tinha que sofrer e porque era justo. Merecer. Como ele.  O amigo ficou em silÃªncio por algum tempo. Em seguida, continuou dizendo que se Ivano tivesse continuado com a sua conversa seria forÃ§ado a fazer um boletim de mÃ©rito.  Ivano nÃ£o estava surpreso que os dois nunca tivessem se falado em cinco anos.  Em qualquer caso tranquilizou-o. E pensou sobre como conseguir o triplo dos crÃ©ditos. Precisava ter uma tÃ¡tica.  Os dois caminharam em silÃªncio, cabisbaixos, cada um nos prÃ³prios pensamentos sondados por microchip.  Ivano lembrou-se de quando foi visitar seu avÃ´ na casa dos veteranos. Sim, seu avÃ´ tinha lutado na Ãºltima guerra. Ele estava de serviÃ§o em uma estaÃ§Ã£o de mÃ­sseis. Portanto, pode, pelo menos, ver o mundo, mesmo que apenas pelo server e pelo scanner dos satÃ©lites, o pouco que era permitido, para a pontaria secreta. O avÃ´, na Ãºnica visita, disse poucas coisas em comparaÃ§Ã£o a enorme curiosidade infantil de Ivano. A guerra havia lhe ensinado que um nascer e um pÃ´r do sol poderiam parecer iguais a olhos cansados e cheios de dor. E agora ele estava convencido de que nÃ£o poderia haver uma maneira verdadeiramente realÃ­stica para aproveitar a vida. Muitos inputs microscÃ³picos e macroscÃ³picos entravam na nossa consciÃªncia. E os que venciam, aqueles mais fortes, eram sempre negativos. NÃ£o havia como escapar. NÃ£o se engane Ivano, nÃ£o se iluda, nem vocÃª vai conseguir.  Em qualquer caso, a memÃ³ria de seu avÃ´ parou quando Ivano recebeu um alerta no telefone: atividade nÃ£o permitida.  Tinham chegado em frente ao prÃ©dio. Ambos sorriram e disseram que era estranho que nunca tinha notado. SÃ³ que agora eles sabiam que aquele cubo sem janelas fosse um Container. Seu amigo contou que tinha passado em frente vÃ¡rias vezes sem perceber. Mesmo assim, ambos se encheram de orgulho. Eles queriam se aproximar da entrada, com a esperanÃ§a de que fosse acessÃ­vel. Mas ficaram decepcionados. Era uma zona off limit.  AlÃ©m do cubo tinha um perÃ­metro de trÃªs metros de jardim azulejado e um espaÃ§o um pouco mais largo na frente da entrada. Com dois degraus.  âSabia que o companho 13 e os seus colegas nÃ£o vÃ£o para um lugar fisico? VÃ£o se divertir em casa. Essa sim que Ã© uma grande injustiÃ§a. Meu pai diz que Ã© a melhor coisa. Tudo Ã  distÃ¢ncia, um monte de vantagens. Os exames sÃ£o mais fÃ¡ceis e os crÃ©ditos sÃ£o todos ativos. Ã como um trabalho. E depois tem o master! Entende? Master grÃ¡tis com acesso ao trabalho!â  Ivano nÃ£o entendia. NÃ£o conseguia entender de coisa o pai do amigo se ocupava para saber sempre tudo. Para ele, a vida de seus amigos era um mistÃ©rio. E seu pai parecia nunca ter ido alÃ©m da sua famÃ­lia. Em casa, nunca teve um discurso assim perigoso.  De fato, apÃ³s o alerta, Ivano voltou a devida modÃ©stia de sempre, e se consolou com o fato que um cara com o triplo dos seus crÃ©ditos e direitos fosse no mesmo Container dele.  Mas logo depois comeÃ§ou a suar frio em suposiÃ§Ãµes negativas. Aquelas do seu avÃ´. E se fosse um perdedor? Seu pai ficaria mortificado. Ao contrÃ¡rio do que costumava fazer, decidiu que deveria falar com ele imediatamente, prevenir. Planificar.  Ivano cumprimentou seu amigo, com a promessa de se rever em breve. Para um bate-papo, se tivessem notÃ­cias sobre a prÃ³xima experiÃªncia em comum.  No caminho para casa, Ivano estremeceu.  Lembrou-se de um poema que seu pai recitava Ã  memÃ³ria antes de ir para a cama. Mas sÃ³ quando ele era ainda muito pequeno. O pai, a Ãºltima vez que recitou para ele, estava em lÃ¡grimas. Desde aquele dia nunca mais a ouviu. E ele nunca pensou em pedir de sentir-la ou escrevÃª-la.  Sim. Decidiu que iria enfrentar seu pai falando daquela antiga poesia, naquela mesma noite.  O que despertava emoÃ§Ãµes esquecidas.




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