Uma Luz No Coração Da Escuridão
Amy Blankenship







Uma Luz no CoraÃ§Ã£o da EscuridÃ£o

SÃ©rie o Cristal do CoraÃ§Ã£o GuardiÃ£o Livro Quatro



Amy Blankenship, RK Melton

Translated by Magda Mendes Marques (https://www.traduzionelibri.it/profilo_pubblico.asp?GUID=550db578e78cae03a4147965e198cb64&caller=traduzioni)



Copyright Â© 2009 Amy Blankenship

EdiÃ§Ã£o em InglÃªs Publicada por Amy Blankenship

Segunda EdiÃ§Ã£o Publicada por TekTime

Todos os direitos reservados.




A Lenda do CoraÃ§Ã£o do Tempo


Os mundos podem mudar... mas as lendas verdadeiras nunca desaparecem.

As trevas e a luz lutaram constantemente desde o inÃ­cio dos tempos. Os mundos sÃ£o formados e esmagados sob os pÃ©s de seus criadores, mas a necessidade contÃ­nua do bem e do mal nunca foi questionada. No entanto, Ã s vezes, um novo elemento Ã© jogado na mistura... a Ãºnica coisa que ambos os lados querem, mas apenas um pode ter.

Paradoxal por natureza, o Cristal do CoraÃ§Ã£o GuardiÃ£o Ã© a Ãºnica constante que ambos os lados sempre se esforÃ§aram para alcanÃ§ar. A pedra cristalina tem o poder de criar e destruir o universo conhecido, mas pode acabar com todo o sofrimento e conflito ao mesmo tempo. Alguns dizem que o cristal tem uma mente prÃ³pria... outros dizem que os deuses estÃ£o por trÃ¡s de tudo.

Cada vez que o cristal apareceu, seus guardiÃµes sempre estiveram prontos para defendÃª-lo de todos os que o usariam egoisticamente. As identidades desses guardiÃµes permanecem inalteradas e eles amam com a mesma ferocidade, independentemente do mundo ou do tempo.

Uma garota estÃ¡ no centro desses antigos guardiÃµes e Ã© o objeto de suas afeiÃ§Ãµes. Ela mantÃ©m dentro de si o poder do prÃ³prio cristal. Esta Ã© a portadora do cristal e a fonte do seu poder. As linhas muitas vezes ficam borradas e proteger o cristal lentamente se transforma em proteger a sacerdotisa dos outros guardiÃµes.

Este Ã© o vinho que o coraÃ§Ã£o das trevas bebe. Ã a oportunidade de tornar os guardiÃµes do cristal fracos e suscetÃ­veis ao ataque. A escuridÃ£o anseia o poder do cristal e tambÃ©m a garota, como um homem desejaria uma mulher.

Dentro de cada uma dessas dimensÃµes e realidades, vocÃª encontrarÃ¡ um jardim secreto conhecido como o CoraÃ§Ã£o do Tempo. LÃ¡, uma estÃ¡tua de uma jovem sacerdotisa humana estÃ¡ ajoelhada. Ela estÃ¡ cercada por uma mÃ¡gica antiga que mantÃ©m seu tesouro secreto escondido e bem conservado. As mÃ£os da donzela estÃ£o estendidas como se estivessem esperando que algo precioso seja colocado nelas.

A lenda diz que ela estÃ¡ esperando que a pedra poderosa conhecida como o Cristal do CoraÃ§Ã£o GuardiÃ£o volte para ela.

Somente os GuardiÃµes conhecem os verdadeiros segredos por trÃ¡s da estÃ¡tua e como ela surgiu. Antes que os cinco irmÃ£os dessem seu primeiro suspiro, seus antepassados, Tadamichi e seu irmÃ£o gÃªmeo, Hyakuhei, protegiam o coraÃ§Ã£o do tempo durante sua histÃ³ria mais sombria. Durante sÃ©culos, os gÃªmeos protegeram o selo que impediu que o mundo humano se sobrepusesse ao reino demonÃ­aco. Essa tarefa era sagrada e a vida dos humanos e dos demÃ´nios tinha que ser mantida segura e em segredo uns dos outros.

Inesperadamente, durante o seu reinado, um pequeno bando de seres humanos atravessou acidentalmente o mundo dos demÃ´nios por causa do cristal sagrado. Durante um tempo de tumulto, seus poderes causaram uma fenda no selo que havia separado as dimensÃµes. O lÃ­der do grupo humano e Tadamichi rapidamente se tornaram aliados, fazendo um pacto para fechar a fenda no selo e manter os dois mundos trancados um do outro para sempre.

Mas durante esse tempo, Hyakuhei e Tadamichi se apaixonaram pela filha do lÃ­der humano.

Contra os anseios de Hyakuhei, a fenda foi reparada por Tadamichi e o pai da menina. A forÃ§a do selo havia sido aumentada dez vezes, separando o perigoso triÃ¢ngulo amoroso para sempre. O coraÃ§Ã£o de Hyakuhei foi despedaÃ§ado. Mesmo seu prÃ³prio irmÃ£o de sangue, Tadamichi, o havia traÃ­do, certificando-se de que ele e a sacerdotisa ficassem separados por toda a eternidade.

O amor pode se tornar a mais perversa das coisas quando estÃ¡ perdido. O coraÃ§Ã£o partido de Hyakuhei se transformou em raiva e ciÃºmes maliciosos causando uma batalha entre os irmÃ£os gÃªmeos, acabando com a vida de Tadamichi e dividindo as almas imortais dos dois irmÃ£os. Aqueles fragmentos de imortalidade criaram cinco novos guardiÃµes para assumir a guarda sobre o selo e protegÃª-lo de Hyakuhei, que se juntou aos demÃ´nios dentro do reino.

Encarcerado dentro da escuridÃ£o que ele havia se tornado, Hyakuhei expulsou todo o pensamento de proteger o coraÃ§Ã£o do tempo, em vez disso, ele canalizou sua energia para banir completamente o selo. Seus longos cabelos escuros, passando da altura dos joelhos, e um rosto pertencente apenas aos mais sedutores, contradiziam o verdadeiro mal escondido dentro de sua aparÃªncia angÃ©lica.

Ã medida que a guerra comeÃ§a entre as forÃ§as da luz e da escuridÃ£o, uma luz azul ofuscante Ã© emitida pela estÃ¡tua santificada, sinalizando que a jovem sacerdotisa renasceu e o cristal ressurgiu do outro lado.

Como os guardiÃµes sÃ£o atraÃ­dos para ela e se tornam seus protetores, a batalha entre o bem e o mal verdadeiramente comeÃ§a. EntÃ£o, entra-se em outro mundo onde a escuridÃ£o Ã© dominante dentro do mundo de luz.

Esta Ã© uma das suas muitas aventuras Ã©picas...




CapÃ­tulo 1


Durante sÃ©culos, a lua vermelha sempre foi um sinal do portador da morte. Aqueles que testemunharam a visÃ£o mortal se esconderam por medo de perder suas vidas para a poderosa trÃ©gua do sono interminÃ¡vel que o portador prometeu. Na distÃ¢ncia, um grito de gelar a alma foi ouvido a quilÃ´metros enquanto o sÃ­mbolo perigoso pairava alto no cÃ©u da meia-noite.

Em um clarÃ£o na floresta, duas figuras solitÃ¡rias estavam em pÃ©, uma ferida, respirando pesadamente com uma das adagas gÃªmeas apertadas em sua mÃ£o, a outra ameaÃ§adora olhando de acima, um sorriso malicioso que enfeitava seu rosto desumanamente belo. Olhos de rubi predatÃ³rios brilhavam ao luar, aguardando o prÃ³ximo movimento da vÃ­tima. A pele anormalmente pÃ¡lida de Hyakuhei parecia brilhar na noite, dando-lhe a aparÃªncia de um ceifador angÃ©lico.

â VocÃª nos matou sem a morte! â rosnou Toya, revelando seus caninos alongados. Seus olhos de pÃ³ dourado queimaram em aversÃ£o pelo homem que estava diante dele. Uma vez seu amigo... o irmÃ£o de seu prÃ³prio pai... agora seu inimigo mortal. â Seu desgraÃ§ado!

â Agora vocÃª diz isso com convicÃ§Ã£o, mas eu lhe dei uma vida eterna, treinei vocÃª e cuidei de vocÃª. Amei vocÃª e seu irmÃ£o como se fossem meus filhos. â Os olhos escarlates brilharam com raiva em direÃ§Ã£o ao insolente rapaz diante dele.

â VocÃª chama e nos torna monstros... amor? VocÃª roubou nossas vidas! VocÃª me transformou para tentar obrigar meu irmÃ£o a se tornar seu! VocÃª mentiu para nÃ³s, dizendo que vocÃª poderia reverter a maldiÃ§Ã£o se nos juntÃ¡ssemos a vocÃª â sua respiraÃ§Ã£o virou um assobio irritado enquanto ele continuava. â Se nÃ£o fosse pelo seu fascÃ­nio doentio por meu irmÃ£o, serÃ­amos seres humanos normais, vivendo vidas normais como uma famÃ­lia, e nÃ£o as criaturas sanguinÃ¡rias da noite em que vocÃª nos tornou! â LÃ¡grimas amargas derramaram dos olhos de Toya devido Ã  raiva e traiÃ§Ã£o... dando-lhes um prateado estranho.

â VocÃª Ã© um idiota em pensar que vocÃª era normal! â A voz de Hyakuhei continha o traÃ§o malicioso de amargura. â VocÃª e seu irmÃ£o choram erroneamente por algo que nunca foi seu. â Sua voz suavizou por um momento enquanto engolia as memÃ³rias de seu irmÃ£o gÃªmeo, pai deles. â NÃ£o importa â seus olhos queimaram quando ele se concentrou em Toya. â VocÃª Ã© igualzinho ao seu pai: egoÃ­sta.

â A morte de seu pai deixou vocÃª sob meus cuidados! VocÃª e seu irmÃ£o sÃ£o meus e eu sempre pego o que me pertence. Terei a obediÃªncia dele depois de eu ter terminado com vocÃª. â A mÃ£o de Hyakuhei se curvou em antecipaÃ§Ã£o, ansiosa para sentir o sangue do jovem escorrer de seu corpo. â Foi vocÃª que traiu sua prÃ³pria carne e sangue!

Toya se virou, ouvindo a voz odiada enquanto Hyakuhei tremeluziu e desapareceu apenas para reaparecer do outro lado dele. Ele sabia que o vampiro fatal sÃ³ estava brincando com ele, mas Toya jÃ¡ nÃ£o estava com medo. Esse medo morreu com ela.

â Por que vocÃª a matou? â Toya ordenou que sua voz fosse um assobio suave, mas cheia de raiva e desespero. â VocÃª achou que, ao matÃ¡-la, ganharia o cristal? Nunca! Ela se recusou a dar-lhe esse poder e vocÃª ficou enfurecido. NÃ£o Ã©, Hyakuhei? â gritou ele enquanto girava, tentando seguir seu inimigo enquanto Hyakuhei o rodeava com uma intenÃ§Ã£o mortal. â NÃ£o era segredo que vocÃª a queria para si â A mÃ£o de Toya apertou sua adaga com fÃºria quando se lembrou dos olhares assombrados, a perseguiÃ§Ã£o, a visÃ£o do corpo dela sem vida. â Qualquer um poderia ver a maneira como vocÃª olhava para ela quando achava que eu ou o Kotaro nÃ£o estÃ¡vamos prestando atenÃ§Ã£o. â Sua respiraÃ§Ã£o virou um soluÃ§o enquanto ele se moveu por um momento, sabendo que ele e Kotaro a amavam. Eles haviam lutado contra Hyakuhei e entre si por ela. NinguÃ©m venceu. â NÃ³s vimos vocÃª. Kyoko era minha e sempre serÃ¡! â gritou Toya, enfurecido por perder aquela que ele amava mais do que o ar. Ela se foi. Ela tinha sido a luz na escuridÃ£o em que seu mundo se tornara.

Era a razÃ£o pela qual ele desafiava Hyakuhei. Agora, seu motivo para o desafio desapareceu e Toya sentiu o fogo em sua alma subir a uma temperatura fatal. Ele a encontrou sem vida, deitada com uma pequena adaga que atravessava seu coraÃ§Ã£o. No fundo, ele sabia, ele e Kotaro sabiam. Hyakuhei de alguma forma a matou.

Os olhos negros de Hyakuhei tornaram-se mais escuros quando olhou com desprezo para o filho mais novo de seu irmÃ£o.

â Ah sim, o evasivo Cristal do CoraÃ§Ã£o GuardiÃ£o. Tal poder nÃ£o pertence a uma crianÃ§a tola como vocÃª. Os seres mais poderosos procuraram o Cristal do CoraÃ§Ã£o GuardiÃ£o. Achou que vocÃª era o Ãºnico queridinho? NÃ£o sÃ³ vampiros, mas tambÃ©m imortais e feiticeiros e atÃ© lobisomens compartilham desse desejo de reunir tanto poder.

â NÃ£o percebe o que aconteceria se o licantropo a tivesse reivindicado primeiro? â Os olhos de Hyakuhei sangraram carmesim ao pensar em Kotaro, lÃ­der das tribos dos licantropos, ganhando tal poder. Sua raiva aumentou quando ele lembrou o aroma do licantropo na carne dela nesta mesma noite. Ele nÃ£o ficaria quieto e deixaria uma coisa tÃ£o traiÃ§oeira acontecer.

â NÃ£o, menino imprudente, jÃ¡ cuidei da sacerdotisa que carregava o cristal dentro de si. â Os olhos de Hyakuhei se endureceram ao pensar na pequena mentira.

Na verdade, ele nÃ£o havia matado a menina. Ela se suicidou para evitar que ele obtivesse o cristal. Ele a tinha ao alcance, pronto para reivindicar o poder que ela segurava dentro de si. O poder de que a lenda falava, se tal lenda pudesse ser levada a sÃ©rio, teria permitido que a escuridÃ£o andasse dentro da luz e se alimentasse disso.

Seus dedos ainda formigavam devido ao toque brevÃ­ssimo Ã  pele dela. Ele estava parado atrÃ¡s dela, sentindo o calor do corpo dela com sua mÃ£o fria. Seus olhos de esmeralda se viraram e se chocaram com os dele por um mero segundo, desafiando-o. Ele sÃ³ queria ter um gostinho dela. Tarde demais, ele viu a adaga na mÃ£o dela quando desapareceu rapidamente em seu peito. Ele poderia tÃª-la transformado e compartilhado tudo com ela, mas ela recusou sua oferta generosa.

A corajosa, mas tola mulher acreditava que, ao se matar, ela bloquearia o poder do cristal do alcance dele para sempre. Para sempre foi um longo perÃ­odo de tempo para tentar se esconder dele.

â Ela vai renascer! â Toya gritou de angÃºstia, sabendo que ele falhou em protegÃª-la da ira de Hyakuhei. Sua culpa por nÃ£o estar lÃ¡ para salvÃ¡-la estava devorando-o por dentro. Ela sabia que ele era um vampiro, uma criatura da noite e ainda assim nÃ£o tinha dado as costas para ele. Ela jÃ¡ havia feito amizade com ele. Kyoko confiou a vida dela a ele.

A mente de Toya recuou ao tempo em que a conhecera... ele caiu de joelhos, se agarrando ao chÃ£o, observando suas lÃ¡grimas caÃ­rem. â NÃ£o foi tempo suficiente! â gritou silenciosamente em negaÃ§Ã£o.

SÃ³ a conhecia por tÃ£o pouco tempo; seis ciclos da lua. Quando ele a conheceu pela primeira vez, ele sÃ³ queria o cristal. O cristal que ela nem sabia que estava carregando no inÃ­cio. Mas ele podia vÃª-lo brilhando dentro dela, chamando-o. EntÃ£o algo mudou. Toya se viu tentando protegÃª-la em vez de tirar o cristal dela.

Como ela tinha adentrado seu mundo sombrio, Toya encontrou a verdade por trÃ¡s da lenda do Cristal do CoraÃ§Ã£o GuardiÃ£o, mesmo que Hyakuhei nÃ£o percebesse. Ele queria contar os segredos ao seu irmÃ£o, mas Hyakuhei tinha impossibilitado o encontro dele com Kyou a tempo... agora era muito tarde.

â VocÃª nunca terÃ¡ a luz do cristal na escuridÃ£o. Vou encontrar Kyoko novamente e manter o cristal longe de vocÃª! â A voz de Toya era severa devido Ã  necessidade de vinganÃ§a. â Ela vai viver novamente e eu estarei lÃ¡ esperando por ela â Uma Ãºnica lÃ¡grima prateada deslizou despercebida pelo rosto enquanto ele gritava: â Juntos! Ela e eu encontraremos outra maneira de libertar Kyou de vocÃª!

Hyakuhei aproximou-se de Toya, uma risada sombria vinda do fundo do peito.

â Ah, sim, meu querido Toya, ela vai viver de novo. O cristal voltarÃ¡ a este mundo e eu serei o Ãºnico a reivindicar nÃ£o sÃ³ seu poder, mas tambÃ©m a garota. Quanto ao meu precioso Kyou... estou certo de que posso encontrar algo para ocupar o tempo do seu irmÃ£o atÃ© esse dia chegar.

Toya rosnou sabendo que era uma faca de dois gumes.

â Guarde suas ideias doentias para si mesmo. Vou encontrar uma maneira de nos tornar normais de novo. E vocÃª... vou te fazer morrer! â ele terminou de falar em um grito enquanto o vento comeÃ§ou a ficar mais forte, uivando maliciosamente pela clareira.

O punhal em sua mÃ£o brilhou em um arco de luz prateada, mal agarrando a tÃºnica escura que adornava o corpo de Hyakuhei. Toya nÃ£o conseguia acreditar em quÃ£o rÃ¡pido seu oponente era, mas seu rosto estava franzido com determinaÃ§Ã£o. Uma segunda adaga apareceu em sua outra mÃ£o e ele a brandiu, seguida imediatamente pela primeira.

Hyakuhei se esquivou das lÃ¢minas mortais devido aos sÃ©culos de treinamento que ele jÃ¡ havia suportado. Os seres humanos eram criaturas tÃ£o fÃ¡ceis de derrotar e Toya, embora transformado, ainda era muito humano em seu modo de pensar, ainda uma crianÃ§a nos olhos de um vampiro.

Ele admitiria que de alguma forma, a proteÃ§Ã£o de Toya Ã  sacerdotisa tinha envelhecido o poder deste para quase o mesmo nÃ­vel de um vampiro antigo. Levar a sacerdotisa para longe dele serviu dois propÃ³sitos. Sem um motivo para lutar, o poder de Toya diminuiu muito.

A mÃ£o esquerda de Hyakuhei atacou, de alguma maneira prendendo os dois pulsos de Toya em um aperto esmagador. Toya nÃ£o conseguiu se defender quando as garras do vampiro cruelmente laceraram seu rosto.

Os olhos prateados se chocaram com os carmims por um momento suspenso no tempo, enquanto Hyakuhei retraÃ­a suas garras. Seus lÃ¡bios insinuaram um sorriso corrompido enquanto ele esticou a mÃ£o para acariciar suavemente a ferida que ele acabara de causar tÃ£o cruelmente.

â Ã uma pena estragar esta perfeiÃ§Ã£o. Ã muito parecido com seu irmÃ£o. â Ele lambeu de seu dedo as gotas de sangue recÃ©m-derramado antes de acrescentar: âMas eu nÃ£o posso deixar seu amor rebelde distraindo Kyou de mim.

Sentindo seus pulsos serem liberados, Toya deu um passo para trÃ¡s e tentou bloquear o prÃ³ximo ataque vindo em direÃ§Ã£o do seu torso. Ele resmungou de dor quando o sangue derramou dos cortes feitos no seu peito. Pressionando um braÃ§o nas feridas, seus olhos dourados se arregalaram quando ele cambaleou para trÃ¡s e, desta vez, Hyakuhei o deixou.

Toya podia sentir os ossos quebrados em seus pulsos se esmagando uns contra os outros e teve que se concentrar para evitar que suas adagas caÃ­ssem no chÃ£o. Olhando para o homem que ele odiava mais do que a morte, Toya tentou sacudir a dor sabendo que isso nÃ£o era um jogo, mesmo os mortos-vivos poderiam morrer.

â VocÃª Ã© uma crianÃ§a tola. Pensou em salvar seu irmÃ£o, me matando? VocÃª mal consegue segurar suas lÃ¢minas agora, muito menos tentar tirar minha vida â zombou Hyakuhei, depois seu rosto tornou-se plÃ¡cido, sua raiva de repente desapareceu. A brisa noturna ergueu as extremidades de seus longos cabelos de Ã©bano, fazendo parecer que estavam vivos.

âVocÃª nunca teve uma chance, garotinho. Vou ajudÃ¡-lo a descansar para que vocÃª nÃ£o sinta mais dor â murmurou Hyakuhei, seus olhos se suavizando em direÃ§Ã£o ao homem ferido como um pai que repreendera uma crianÃ§a rebelde.

Os olhos prateados ficaram vermelhos de raiva por suas palavras.

â VocÃª nunca terÃ¡ meu irmÃ£o, seu filho da mÃ£e! Enquanto puder respirar, Kyou nÃ£o o deixarÃ¡ vencer, e eu tambÃ©m nÃ£o! â gritou Toya, avanÃ§ando sobre a figura vestida de preto em uma Ãºltima tentativa de salvar sua alma imortal.

Hyakuhei desapareceu em um piscar de olhos antes que a adaga de Toya pudesse penetrar no coraÃ§Ã£o frio escondido no fundo de seu corpo intemporal. Os olhos vermelhos penetrantes brilhavam, famintos por derramar o sangue do jovem que pensava desafiÃ¡-lo.

Sua forma escura levitando lÃ¡ no alto parou por um momento antes de descer para atacar sua presa.

Os sentidos de Toya estavam alertando o perigo quando ele sentiu a ameaÃ§a que se aproximava de seu ser, mas ele nÃ£o era habilidoso o bastante para determinar de onde o atacante estava vindo. Ele procurou freneticamente, mas com seus sentidos agora adormecidos pela perda de sangue e pela ferida escondida dentro de seu coraÃ§Ã£o, Toya sentiu seu medo aumentar.

Seu coraÃ§Ã£o doÃ­a por causa das palavras que o seu prÃ³prio "pai" lhe lanÃ§ara.

â NÃ£o posso deixar vocÃª ganhar, seu monstro. A vida do meu irmÃ£o depende disso â sussurrou Toya atravÃ©s de sua respiraÃ§Ã£o esforÃ§ada, fazendo as palavras tropeÃ§arem em seus prÃ³prios ouvidos.

Um raio de medo subiu por sua espinha quando ele olhou para o cÃ©u noturno. Seus olhos se arregalaram de terror ao ver que ele sÃ³ sabia o final vindo do ataque, nunca o da vÃ­tima. EntÃ£o... Ã© assim â o pensamento filtrou-se por sua mente atormentada.

Ele tentou se mover, mas foi mantido imobilizado por uma forÃ§a desconhecida. Seus olhos presos em um olhar mortal. Os olhos vermelhos perfuraram sua prÃ³pria alma e Toya sabia que a morte estava chegando.

O grito alojado em sua garganta foi substituÃ­do por um som balbuciante. Seus olhos prateados voltaram a ser dourados e encontraram os olhos vermelhos de seu assassino, enquanto o tempo parecia parar. Seu corpo comeÃ§ou a ficar entorpecido enquanto ele lentamente olhava para baixo entre seus corpos.

As lÃ¡grimas caÃ­ram dos olhos de Toya quando sua cor dourada brilhante deles comeÃ§ou a desaparecer. Eu falhei com vocÃª, por favor me perdoe... Kyoko... Kyou. Esses foram seus Ãºltimos pensamentos quando deu seu Ãºltimo suspiro.

Ele podia sentir seu coraÃ§Ã£o bater cada vez mais longe, Ã  medida que a dor desaparecia. Os mistÃ©rios se desdobraram com seus batimentos cardÃ­acos finais enquanto ele silenciosamente sussurrava maravilhado.

â Kyoko... hÃ¡ quanto tempo vocÃª estÃ¡ aqui?

Observando com um sentimento de prazer doentio, a figura vestida de preto com olhos vermelhos ardentes sorriu satisfeito. Ele baixou lentamente os olhos para a terra dura. Sua mÃ£o de garras ia fundo no peito do jovem com olhos como o sol.

Hyakuhei rasgou violentamente o coraÃ§Ã£o que parara de bater.

Olhando nos olhos sem vida de Toya, ele sussurrou:

â Sempre me perguntei como os olhos de Kyou ficarÃ£o quando ele chorar. Aposto que serÃ£o lindos â ele se inclinou e beijou a testa de Toya antes de se levantar para se virar e encarar o homem que acabara de chegar a uma curta distÃ¢ncia atrÃ¡s dele.

Um sorriso sÃ¡dico agraciou seus lÃ¡bios enquanto ele segurava o coraÃ§Ã£o sangrando e esperava que Kyou fechasse a distÃ¢ncia entre eles.

â Para vocÃª, meu animal de estimaÃ§Ã£o, agora nÃ£o hÃ¡ nada entre nÃ³s â Sua voz atravessou a brisa noturna.

Os olhos de Kyou se estreitaram de desgosto quando ele olhou para o coraÃ§Ã£o fresco que estava sendo estendido para ele. Hyakuhei viveu tanto tempo sem morrer que a morte agora era um presente para ele?

Enojado, Kyou se afastou da visÃ£o perturbadora. Ele sentiu a angÃºstia de seu irmÃ£o e tinha vindo investigar. Em vez disso, encontrou o chamado "pai" e ele nÃ£o podia mais sentir a aura de seu irmÃ£o.

Algo estava terrivelmente errado e Kyou podia sentir os nervos dentro de seu corpo pinicarem em sua pele em alerta.

Ele nÃ£o conseguia ver o dono do coraÃ§Ã£o que ainda goteava sua vida na mÃ£o do vampiro antigo, pois Hyakuhei bloqueou sua visÃ£o. Isso o irritou, pois fora detido em sua busca por seu irmÃ£o mais novo. Ele nÃ£o via seu irmÃ£o hÃ¡ mais de um ano, mas esta noite... ele sabia que Toya precisava dele. Deve ter sido importante, pois Kyou sentiu o chamado com muita forÃ§a.

Percebendo a antecipaÃ§Ã£o no homem diante dele, os olhos dourados de Kyou se prenderam aos de Hyakuhei.

â Qual alma vocÃª roubou desta vez? â perguntou com desprezo em sua voz.

â Por que vocÃª nÃ£o vem ver, meu animal de estimaÃ§Ã£o? Tenho certeza de que vocÃª ficarÃ¡ muito surpreso. Ã meu presente para vocÃª â Um sorriso consciente acendeu seus traÃ§os sombreados enquanto Hyakuhei se afastava, deixando uma visÃ£o clara de sua vÃ­tima. Estendendo sua mÃ£o vagarosamente em direÃ§Ã£o a Toya, ele se virou para olhar para o cadÃ¡ver no chÃ£o.

O olhar de Kyou seguiu o de Hyakuhei enquanto ele lentamente se aproximava, confundido com a importÃ¢ncia da identidade dessa vÃ­tima. Seus olhos dourados se arregalaram diante da forma amarrotada, deitada no chÃ£o, enquanto um imenso sinal de alarme subia por sua espinha. Seu coraÃ§Ã£o comeÃ§ou a acelerar quando viu as tÃ£o familiares luzes prateadas e brilhantes que atravessavam os cabelos negros, agora emaranhados com sangue e terra, espalhados pelo rosto do homem como se escondessem sua verdadeira identidade.

Ele sentiu todo o seu ser gritando de raiva e negaÃ§Ã£o ao saber que agora estava olhando a forma abatida de seu irmÃ£o desaparecido.

â NÃO! â Kyou jogou a cabeÃ§a para trÃ¡s e rugiu. LÃ¡grimas encheram os olhos quando ele se virou para enfrentar o responsÃ¡vel. â O que vocÃª fez? â rosnou ele, enquanto avanÃ§ava, parando a poucos centÃ­metros do assassino de seu irmÃ£o. Seus olhos dourados de sol sangraram vermelho, caninos alongados expostos como os de um cÃ£o raivoso. Dobrando suas garras, ele esperou a confissÃ£o, mal segurando a ira.

â Somente o que eu deveria ter feito desde o inÃ­cio: remover aquele que nÃ£o lhe apreciou como eu. â A expressÃ£o de Hyakuhei suavizou por um breve momento enquanto via seu filho preferido.

Ele deu a Kyou toda a sua atenÃ§Ã£o e carinho desde que lhe deu o dom da imortalidade das trevas, mas ainda assim Kyou nÃ£o tinha sido feliz. Era a tristeza no olhar dourado de Kyou que o atraÃ­a tanto... a solidÃ£o dentro dele era adorÃ¡vel e imitava a prÃ³pria melancolia de Hyakuhei. Ele entÃ£o transformou o irmÃ£o de Kyou, Toya, na esperanÃ§a de ganhar a devoÃ§Ã£o de seu precioso filho. Mas, isso sÃ³ chateou Kyou ainda mais.

Hyakuhei observou as lÃ¡grimas agridoces se formando nos olhos de Kyou e sabia que ele estava certo. Kyou foi muito divino quando chorou.

Naquele momento, algo profundo dentro de Kyou disparou quando um grito triste de sacudir a terra rasgou seu corpo. Cego de raiva, ele atacou o assassino de seu irmÃ£o, as presas expostas e as garras afiadas.

â Vou arrancar seu coraÃ§Ã£o e deixar seu corpo para ser devastado pelas criaturas da noite pelo que vocÃª fez!

Com destreza, o homem perverso esquivou o ataque e em um borrÃ£o de preto e prendeu Kyou no chÃ£o. Com uma calma que nÃ£o refletia em seu ser profundo, Hyakuhei inclinou-se para perto, seu olhar fixo no rosto que o assombrara tanto, o rosto de seu prÃ³prio irmÃ£o.

â Fiz o que era necessÃ¡rio para nÃ³s. Toya nÃ£o queria que vocÃª ficasse com meu presente e procurou tirÃ¡-lo de vocÃª. VocÃª entenderÃ¡ com o tempo â murmurou ele enquanto seus lÃ¡bios macios roÃ§avam fugazmente por grunhidos enquanto falava essas palavras.

Com uma forÃ§a que ele nÃ£o percebera possuir, Kyou atirou o homem agressor a seis metros de seu corpo trÃªmulo. Ele passou o antebraÃ§o pela boca com desgosto enquanto rosnava perigosamente.

â Calma, crianÃ§a, acalme-se â falou o homem enquanto se levantava e tirava a sujeira de suas roupas. Seus olhos brilharam com promessas enquanto seu corpo cintilava levemente e entÃ£o desapareceu na noite. â Vou estar assistindo, esperando por vocÃª, meu animal de estimaÃ§Ã£o.

O mundo de Kyou se despedaÃ§ou enquanto olhava para o corpo sem vida de seu irmÃ£o.

â Vingarei a morte do meu irmÃ£o e passarei a eternidade caÃ§ando vocÃª se for preciso. Quando eu lhe encontrar, vocÃª pagarÃ¡ por isso, Hyakuhei.

Ele ficou de joelhos e ergueu suavemente o corpo de Toya em seu peito, encostando sua cabeÃ§a suavemente. O cabelo de seu irmÃ£ozinho havia se afastado de seu rosto fazendo com que a visÃ£o de Kyou nublasse enquanto tentava conter o fluxo de lÃ¡grimas, sem conseguir. Parecia que Toya estava simplesmente dormindo, pacÃ­fico pela primeira vez em muito tempo.

Ele observava enquanto suas lÃ¡grimas escorriam sobre o rosto de Toya e Kyou sentiu seu coraÃ§Ã£o se partir. Apertando seu amado irmÃ£o forte contra ele, Kyou sussurrou com uma voz instÃ¡vel:

â Toya, por favor, perdoe-me por nÃ£o ter chegado aqui a tempo â sua respiraÃ§Ã£o estremeceu quando ele cerrou os olhos diante de tanta dor. â Eu sabia que vocÃª precisava de mim. Eu deveria ter salvado vocÃª.

A mente de Kyou correu para o dia em que Hyakuhei o transformou no que ele era agora, um dia depois da morte de seu pai. Kyou sabia que Hyakuhei sÃ³ queria a ele e Toya era apenas uma crianÃ§a pequena. EntÃ£o, para proteger Toya, Kyou deixara Toya com seu tio mesmo quando seu irmÃ£ozinho tinha chorado, implorando para ele nÃ£o partir.

Ele ainda lembrava da desconfianÃ§a que brilhava nos grandes olhos dourados de Toya quando olhava para Hyakuhei, desafiando-o a tirar seu irmÃ£o mais velho dele. Era a lembranÃ§a desse olhar assombrado que ajudara Kyou a ficar longe de seu irmÃ£o por vÃ¡rios anos para protegÃª-lo.

Quando Toya ficou mais velho, Kyou se viu ansioso por vÃª-lo, secretamente visitando-o e observando de longe, observando seu irmÃ£o viver a vida que ele nÃ£o podia. Observar Toya secretamente tinha sido a Ãºnica felicidade de Kyou durante aqueles dias sombrios. Muitas vezes, ele se escondia no quarto de Toya para vÃª-lo dormir.

Se ele soubesse que Hyakuhei o seguia e observava enquanto Kyou olhava por Toya, ele nunca colocaria Toya em perigo assim. Seu tio transformou Toya porque ele pensou que era o que Kyou queria. Tinha sido culpa dele que Toya tivesse morrido na primeira vez.

Toya lutou contra seu tio, durante a transformaÃ§Ã£o e depois. Ã medida que seus argumentos se tornaram mais viciosos, Kyou tentou manter a atenÃ§Ã£o de Hyakuhei longe de seu irmÃ£o. EntÃ£o Toya comeÃ§ou a falar sobre uma cura para vampiros: o Cristal do CoraÃ§Ã£o GuardiÃ£o. Ele jurou que iria encontrÃ¡-lo e curar os dois.

Toya encontrou sua cura na morte.

Fazendo o que podia para evitar olhar para a cavidade agora vazia onde o coraÃ§Ã£o de seu irmÃ£o havia residido, Kyou levantou-se e levou o corpo de Toya longe daquele local para lhe dar um enterro digno.

Ele nÃ£o podia mais sentir a presenÃ§a de Hyakuhei, mas sabia que estava perto, observando-o de alguma forma, sempre o observando. Kyou entendeu agora que ele teria que partir, se esconder atÃ© ser forte o suficiente para derrotar o mal que havia roubado a Ãºnica coisa que lhe era mais querida: seu irmÃ£ozinho. Ele passou pela escuridÃ£o deixando a clareira em total silÃªncio.

Kamui soltou um suave suspiro de alÃ­vio quando os irmÃ£os se foram e abaixou sua barreira de invisibilidade em torno da forma maltratada de Kotaro. Olhando para o Lycan, Kamui sabia que levaria um tempo para que as feridas de Kotaro pudessem curar, nÃ£o apenas as feridas de seu corpo, mas as feridas que agora estavam profundamente enraizadas no coraÃ§Ã£o tambÃ©m.

â Vamos â sussurrou Kamui, puxando um dos braÃ§os de Kotaro nos ombros e ajudando-o a ficar de pÃ©. â Hyakuhei nÃ£o foi longe e eu preciso tirar vocÃª deste lugar desprotegido. â Os olhos dele brilhavam com a cor do pÃ³ do arco-Ã­ris enquanto tentava reter suas prÃ³prias lÃ¡grimas. Foi em vÃ£o, pois ele podia senti-las escorregando pelo rosto em trilhos quentes.

Muita coisa foi perdida no perÃ­odo de apenas algumas horas mortais... ele agora entendia o que ser mais sombrio do que as sombras realmente significava. Ele nÃ£o perderia Kotaro tambÃ©m.

Eu nÃ£o o odiava tanto â sussurrou Kotaro, olhando abatido para onde o corpo de Toya tinha ficado momentos antes. Ambos amaram Kyoko e ela, por sua vez, teve carinho por ambos... nunca escolhendo um em vez do outro quando eles estavam lutando... atÃ© hoje Ã  noite. O destino sÃ³ lhe havia dado poucas horas, pelo menos Toya nÃ£o sabia disso.

Sua mÃ£o se fechou em um punho e ele apertou. Toya teria ficado louco, mas ele estaria vivo. â Preferiria enfrentar a raiva dele... nÃ£o isso... nÃ£o isso. â Sua voz vacilou.

Ambos tentaram protegÃª-la, mas agora Toya... os olhos azuis gelo de Kotaro nadaram com lÃ¡grimas nÃ£o derramadas:

â Eu nunca o odiei.

â Ele sabe que nÃ£o â disse Kamui, levando o Kotaro na direÃ§Ã£o do Ãºnico lugar seguro que conhecia... o mago, a casa de Shinbe. Ele precisava contar para o amigo sobre o destino de Toya e de Kyoko. Shinbe de alguma forma sabia o que fazer, ele sempre sabia.

â Eu vou matar aquele bastardo do Hyakuhei! â rosnou Kotaro enquanto lutava contra a restriÃ§Ã£o de Kamui, sua natureza de licantropo indo Ã  superfÃ­cie. â Ele a matou... ele matou Toya por causa dela. Quando eu o encontrar, ele desejarÃ¡ nunca ter nascido humano.

Como se o vento tivesse sido arrancado de si, o corpo de Kotaro estremeceu. Ele sabia que Toya era muito mais forte do que ele jamais reconhecera, mas sem Kyoko para proteger, Toya perdeu a vontade de lutar. Hyakuhei sabia disso antes da luta ter comeÃ§ado.

O sofrimento de Toya o fez ficar irritado, impaciente. â Se ele tivesse esperado mais alguns momentos, Kyou poderia tÃª-lo salvado. â A tristeza pendia em todas as sÃ­labas enquanto Kotaro limpava as lÃ¡grimas com raiva, lÃ¡grimas que silenciosamente deixavam trilhas em seu rosto.

â Eu queria salvar os dois... Kyoko. â A dor em seu corpo enfraquecido era demais quando ele fechou os olhos azuis brilhantes e cedeu ao nada que acalmaria a dor por um curto perÃ­odo de tempo.

Kamui assentiu enquanto levantava o corpo mole de Kotaro e o carregava.

â VocÃª jÃ¡ fez o suficiente. Descanse agora â sussurrou ele. â Ã minha vez de salvar as pessoas.




CapÃ­tulo 2


Perto da hora do amanhecer, Kamui pairava acima de uma sepultura nÃ£o marcada. Os dois homens de cada lado dele eram tudo o que ele tinha. Ele observou Shinbe usar seus poderes telecinÃ©ticos para remover a terra do tÃºmulo de Toya e ampliÃ¡-lo o suficiente para dois corpos.

Shinbe e Kotaro tinham a mesma expressÃ£o agora... tristeza e uma forÃ§a teimosa. Kamui sabia que eles estavam tentando parecer fortes para ele, mas ele podia ver a melancolia que ambos escondiam.

Todos olharam para o tÃºmulo... a realidade dolorosa de tudo aquilo sendo absorvida. As coisas nÃ£o deveriam acabar assim... o lado bom nÃ£o deveria perder... ou morrer. Shinbe os ajudou a tomar uma decisÃ£o sobre o que fazer. Buscando o corpo de Kyoko, eles o levaram para o tÃºmulo onde Kyou colocou seu irmÃ£o e enterrou-os juntos.

Toya teria querido assim... era a Ãºnica coisa que fazia sentido.

Kamui tinha sido incapaz de levar o corpo de Kyoko para o tÃºmulo quando o encontraram. O sangue que a rodeava nÃ£o era o que o incomodava. Era apenas muitÃ­ssimo doloroso ver alguÃ©m tÃ£o gentil e puro, carregando tanta luz dentro de si, estar ali agora, deitada na escuridÃ£o, com os olhos abertos, mas vazios. Isso Ã© que doÃ­a ver.

Percebendo o choque de Kamui e vendo suas mÃ£os tremendo, Kotaro interveio e ergueu Kyoko amorosamente em seus braÃ§os, tentando ignorar a rigidez no corpo dela. Ele nÃ£o conseguia sentir nada exceto raiva e tristeza naquele momento. Se ele se permitisse sentir o resto das emoÃ§Ãµes, o quanto ele a amava, seus joelhos se curvariam. A dor pesava muito sobre ele.

Ver o olhar no rosto de Kamui foi suficiente para ajudÃ¡-lo a controlar suas prÃ³prias emoÃ§Ãµes e a dormÃªncia que havia se estabelecido tambÃ©m ajudou. Kamui nÃ£o era humano nem era criatura, o que quer que ele fosse, seu coraÃ§Ã£o estava em destroÃ§os. Kotaro decidiu que seria sua missÃ£o cuidar dele de agora em diante, mesmo que o garoto provavelmente nÃ£o precisasse disso.

Kamui limpou a trilha de lÃ¡grimas de seus olhos, tentando ser forte como Kotaro e Shinbe. Seu cabelo roxo indomado sacudiu ao vento enquanto ele olhava para a terra recÃ©m-revirada. Ele tirou seu prÃ³prio manto e gentilmente envolveu-os para aumentar o poder do feitiÃ§o que ele estava prestes a lanÃ§ar.

Ao fechar os olhos brilhantes, ele cruzou os dedos enquanto as asas iluminadas brotavam de suas costas em um turbilhÃ£o de penas. Elas brilhavam com cores tÃ£o intensas que o olho humano desconhecia.

Shinbe e Kotaro, assustados, deram um passo para trÃ¡s, de repente entendendo o que Kamui era. A palavra anjo pairava em seus lÃ¡bios, mas ele parecia tÃ£o triste. Como um anjo com um coraÃ§Ã£o partido... um anjo caÃ­do.

Com dedos gentis, Kamui tirou uma pena de sua asa direita e segurou sua mÃ£o com a palma para cima. A expressÃ£o triste e serena em seu rosto nÃ£o vacilou. Seus olhos brilharam com um vislumbre de esperanÃ§a enquanto ele rapidamente deslizou a pena afiada em sua palma causando um corte raso.

O lÃ­quido carmesim se acumulou em sua palma e Kamui fechou lentamente o punho antes de se dirigir ao tÃºmulo nÃ£o marcado. As gotas sagradas do sangue de sua vida caÃ­ram sobre a terra, fazendo o solo brilhar com um poder azul elÃ©trico sobrenatural.

Chocados, Shinbe e Kotaro sÃ³ podiam ficar de pÃ© e assistir enquanto tudo acontecia. Eles nÃ£o se atreveram a se mover por medo de perturbar o rito que Kamui estava realizando. Ambos compreenderam que estavam testemunhando algo incrÃ­vel e, sem dÃºvida, nunca mais veriam algo assim novamente.

O ar em torno de Kamui girou em um vÃ³rtice que o rodeava em uma luz azul fluorescente. Sua voz ecoante deixou seus lÃ¡bios parecendo mais velhos e sÃ¡bios do que um dia jÃ¡ foram. A voz ricocheteou pelos cÃ©us, um som assustador que viajava por quilÃ´metros, fazendo com que tudo que a ouvia ficasse imÃ³vel em reverÃªncia ao seu poder:



Mil anos serÃ£o necessÃ¡rios.

Desta vez, obedeceremos para o seu prÃ³prio bem.

Quando o sangue de um guardiÃ£o derrama

Ã hora desta profecia se cumprir.

SÃ³ entÃ£o duas almas irÃ£o reviver.

Trazendo-as para a luz,

Fadadas a combater a magia negra da noite.

Com essa promessa, nÃ³s imortais tomaremos as armas,

Protegendo contra o mal aqueles que renasceram.

Nas mÃ£os da pedra e do mÃ¡rmore, ao nosso inimigo daremos

O Ãºnico desejo que ele anseia... dentro da luz para viver.



Ã medida que o vÃ³rtice circundava Kamui, uma pluma incandescente de cada asa iluminada se soltou e voou para a frente dentro do ciclone, girando como duas pequenas adagas e pousando diretamente no tÃºmulo. As penas brilhantes ficaram presas no solo suave por alguns breves momentos antes de se afundarem na terra para fundirem-se com as almas de seus amigos.

Os joelhos de Kamui se chocaram com o chÃ£o quando o feitiÃ§o se dispersou, enviando uma onda de choque em todas as direÃ§Ãµes.

â AtÃ© que nos encontremos novamente, Kyoko... Toya â murmurou Kamui ao sentir a solidÃ£o lhe cercar. â Talvez a prÃ³xima vida seja em um tempo melhor e muito mais iluminado.

Shinbe permaneceu em silÃªncio ao lado dele, sem querer nada alÃ©m de derramar suas lÃ¡grimas, mas ele nÃ£o podia se dar a este luxo. Hyakuhei ainda estava por lÃ¡ e ele sabia que o vampiro de coraÃ§Ã£o negro acabaria por vir atrÃ¡s dele. O inimigo saberia o que tinham feito. Por enquanto, ele apagaria todos os traÃ§os que podia.

AlcanÃ§ando seu bolso, Shinbe tirou uma pequena garrafa ametista cheia de um pÃ³ mÃ¡gico intemporal. Pulverizando levemente o solo, ele circundou o tÃºmulo para protegÃª-lo de todos os olhos curiosos. O solo imediatamente se tornou sÃ³lido para esconder a localizaÃ§Ã£o da nova sepultura.

Os olhos de Shinbe iluminaram-se com a mesma cor ametista, enquanto sussurrava palavras que apenas ele podia entender.

Ele sentiu um velho vÃ­nculo entre irmÃ£os que haviam lutado uma batalha eterna contra a escuridÃ£o atravessar sua alma para se tornar um sÃ­mbolo de proteÃ§Ã£o sobre a sepultura. Acima do lugar de descanso de seus amigos flores surgiram sem que fossem plantadas sementes. Flores de cinco cores apareceram em vinhas espinhosas: prata, ouro, azul gelo, ametista e pÃ³ cintilante do arco-Ã­ris.

â Estou me despedindo â disse Shinbe depois de um longo silÃªncio. Ele nÃ£o queria que sua presenÃ§a indicasse a localizaÃ§Ã£o dos outros e sabia que era hora de seguir em frente. Seu olhar voltou para o arbusto de flores estranhamente colorido. Toya e Kyoko agora estavam protegidos de Hyakuhei e o feitiÃ§o nÃ£o seria perturbado.

Por enquanto, era tudo o que ele poderia oferecer alÃ©m da tristeza.

Kamui olhou para o mago, chocado com este novo desenrolar.

â O quÃª? Mas... por quÃª? â Seus olhos se arregalaram em um momento de pÃ¢nico... todos iriam deixÃ¡-lo agora? JÃ¡ nÃ£o era ruim o bastante perder Toya e Kyoko?

Sentindo o medo de Kamui emergir, Shinbe colocou uma mÃ£o firme no ombro de seu amigo e tentou explicar:

â VocÃª sabe tÃ£o bem quanto eu que Hyakuhei acabarÃ¡ sabendo o que fizemos aqui. â Olhou para Kotaro sobre o ombro de Kamui, sabendo que o licantropo entenderia seu abandono.

â VocÃª serÃ¡ capaz de escapar dos olhos sempre vigilantes de Hyakuhei, mas eu nÃ£o tenho esse tipo de poder. No entanto, eu poderei me esconder, mas nÃ£o tenho certeza por quanto tempo. â Shinbe soltou um longo suspiro e olhou para a lua indo baixa no cÃ©u. â Meus dias sÃ£o contados agora... â Um sorriso suave inclinou os cantos de seus lÃ¡bios como se ele soubesse um segredo. â EntÃ£o, que seja! Vou embarcar no prÃ³ximo navio indo para o oeste, sobre o oceano. LÃ¡, terei uma chance melhor de manter minha identidade a salvo de Hyakuhei e talvez atÃ© encontre um caminho para a minha prÃ³pria alma reencarnar ao mesmo tempo que nossos queridos amigos. â Ele esperava que o que ele dizia fosse a verdade. Eles precisariam dele quando chegasse o momento.

Kamui olhou para o tÃºmulo embaixo dele e depois para o amigo com mais calma do que havia sentido desde que esta noite de pesadelo havia comeÃ§ado. Ele nÃ£o queria que Shinbe fosse a prÃ³xima vÃ­tima, entÃ£o, sim, ele entendeu. Gentilmente arrancou uma pena cor de arco-Ã­ris de sua asa direita e pressionou-a no pescoÃ§o de Shinbe.

Shinbe ofegou quando a pena comeÃ§ou a brilhar intensamente antes de ser absorvida em sua pele. Olhou para baixo e viu o contorno mais suave da pena logo abaixo da gola de seu manto.

â Isso irÃ¡ ajudÃ¡-lo quando chegar a hora â disse Kamui com um sorriso e deu um abraÃ§o apertado em Shinbe. Ele nÃ£o perderia Shinbe durante muito tempo, custasse o que custasse.

â NÃ³s nos veremos novamente, meu amigo â sussurrou Shinbe antes de se afastar do abraÃ§o de Kamui. Ele assentiu com a cabeÃ§a para Kotaro, sabendo que o licantropo cuidaria de Kamui por todos eles. Shinbe olhou de novo para o tÃºmulo, depois afastou o olhar, deixando sua franja cair no rosto para esconder sua tristeza.

â EntÃ£o, que seja assim â sussurrou ele novamente, desaparecendo na escuridÃ£o.

â VocÃª estÃ¡ pronto, garoto? â perguntou Kotaro baixinho enquanto mantinha as costas para o tÃºmulo. Ele sabia que nÃ£o poderia ficar. Shinbe estava certo, quanto mais longe ficassem, mais protegido ficaria o feitiÃ§o.

Kamui queria se zangar pelo apelido que Kotaro acabara de lhe dar, mas nÃ£o tinha energia. Seu coraÃ§Ã£o estava sepultado na terra a seus pÃ©s e, mesmo se demorasse atÃ© o fim dos tempos, ele veria Hyakuhei pagar por seus crimes.

â Sim â disse Kamui, passando o braÃ§o nos olhos. â Estou pronto.

Kotaro colocou um braÃ§o em volta dos ombros e o conduziu. O licantropo descobriu que nÃ£o poderia derramar mais lÃ¡grimas pela mulher que ele amara com todo o seu ser. Sua alma sentiu como se alguÃ©m a tivesse arrancado de seu corpo, rasgando-a em pedaÃ§os e sÃ³ devolvido metade dela.

Se o feitiÃ§o que Kamui e Shinbe fizeram funcionasse, ele veria sua amada Kyoko novamente. Ele nÃ£o podia deixar de sorrir diante das palhaÃ§adas que ele e a reencarnaÃ§Ã£o de Toya iriam inventar para ganhar o afeto de Kyoko. Ele teria prazer em lutar por ela mais uma vez se Toya pudesse voltar. Afinal, ele amava os dois.

Ele lutou contra o desejo de olhar para o tÃºmulo de novo.

â Mil anos Ã© muito tempo para esperar, mas eu estarei lÃ¡ por vocÃª, Kyoko.



*****



Mais de mil anos no futuro.

Dias atuais.



Uma figura solitÃ¡ria estava em um telhado do prÃ©dio mais alto, avistando a cidade populosa abaixo. Seus traÃ§os nunca traindo a dolorosa lembranÃ§a de seu Ãºnico irmÃ£o, deitado sozinho e sem vida na terra fria e dura, sÃ©culos atrÃ¡s. Seu coraÃ§Ã£o, uma vez quente e pulsando, preso pelas garras do monstro sÃ¡dico que criara ambos os irmÃ£os.

Ele tinha feito tudo o que estava ao seu alcance para se separar do mal que o rodeava silenciosamente. Assim como os humanos deste mundo, ele sÃ³ se alimentava dos animais que a natureza fornecia. Mesmo que a escuridÃ£o fosse tudo o que lhe era permitido, como Ã© a maldiÃ§Ã£o de um vampiro, ele nunca se tornaria o demÃ´nio que seu tio tinha pretendido.

Nos Ãºltimos anos, algo dentro dele se agitou. Uma saudade que ele nÃ£o conseguia entender e que nÃ£o sentia em mais de mil anos.

MemÃ³rias nunca esquecidas, relembradas na mente de Kyou, de um jovem inocente, que havia enchido sua vida de felicidade, mesmo dentro de um mundo de trevas. Toya... ele era tÃ£o cheio de vida, com olhos dourados risonhos e a ignorÃ¢ncia de uma crianÃ§a. Mais uma vez essas lembranÃ§as trouxeram dores de culpa ao seu coraÃ§Ã£o por nÃ£o ter conseguido proteger seu irmÃ£o mais novo.

Olhos dourados que se tornaram endurecidos devido a centenas de anos de solidÃ£o, sangraram vermelho com a lembranÃ§a de uma promessa que ele ainda nÃ£o havia cumprido. Kyou ficava cada vez mais forte a cada dÃ©cada que passava. Muitas vezes ele chegou bem perto, mas o objeto de seu Ã³dio e ira o eludia toda vez.

Ele nÃ£o descansaria atÃ© que a vil criatura que procurava se contorcesse em agonia aos seus pÃ©s e sua alma fosse lanÃ§ada ao inferno onde pertencia.

O olhar de Kyou foi atraÃ­do para o Ãºnico lugar sereno em toda a cidade, o parque tranquilo no centro.

â Tais lugares nÃ£o devem estar perto de tanto mal â murmurou ele na noite.

Saltando do prÃ©dio, Kyou continuou sua busca como fazia por tantos sÃ©culos. Hyakuhei pagaria com a prÃ³pria vida por roubar o Ãºnico ser com quem Kyou se importava e sempre se importaria. Seu irmÃ£o estava perdido para sempre e nunca mais retornaria.

â Toya... â sussurrou Kyou enquanto desapareceu na noite, deixando para trÃ¡s a imagem de um anjo vingador.



*****



O parque era sempre pacÃ­fico nesta hora do dia. Ainda era tarde e o sol estava alto no cÃ©u. Kotaro passeava vagarosamente pelas Ã¡rvores perto do centro onde havia um enorme bloco de mÃ¡rmore. Ele nÃ£o tinha ideia de onde o bloco havia vindo, estava lÃ¡ desde que ele se lembrava e era ainda mais velho que a prÃ³pria cidade. Tudo o que ele sabia com certeza era que ele sentia uma sensaÃ§Ã£o de paz cada vez que estava perto dele.

â Quem pensaria que uma pedra quadrada traria pensamentos tranquilos? â murmurou Kotaro para si mesmo.

Tomando outro caminho entre as Ã¡rvores, ele dirigiu-se atÃ© a pedra para que pudesse olhar para ela. Mesmo que ele estivesse completamente feliz naquele dia, sÃ³ o fato de se certificar que ela ainda estava lÃ¡ o fazia se sentir melhor.

Kotaro parou quando entrou no centro onde a pedra estava e franziu a testa para o indivÃ­duo que estava sentando no estilo indiozinho no topo dela, com os cotovelos nos joelhos e o queixo preso em suas mÃ£os. Os cabelos curtos e roxos balanÃ§avam com a suave brisa, fazendo o jovem parecer muito infantil.

â O que diabos estÃ¡ fazendo aqui? â exigiu Kotaro.

Kamui sorriu sem olhar para ele. Em vez disso, ele assentiu na direÃ§Ã£o da faculdade Ã  distÃ¢ncia.

â Esperando que a aula comece.

Kotaro balanÃ§ou a cabeÃ§a e seguiu em frente antes de parar de novo e virar o rosto para encarar Kamui.

â Do que vocÃª estÃ¡ falando? VocÃª nem frequenta aquela escola.

Kamui deu uma piscada de olhos antes de desaparecer lentamente em um turbilhÃ£o de pÃ³ de arco-Ã­ris cintilante.

â Eu sei.

Kotaro olhou para o pÃ³ girando antes dele desaparecer completamente.

â Ãs vezes, esse garoto Ã© um enigma â informou ao espaÃ§o agora vazio, depois seus olhos se moveram mais para baixo, como se acariciando a pedra. Ele ouviu o som de pÃ©s correndo no pavimento, mas na verdade nÃ£o notou atÃ© que alguÃ©m o tocou no ombro. Ele literalmente pulou e girou para ver Hoto e Toki curvados com as mÃ£os apoiadas nos joelhos tentando recuperar o fÃ´lego.

â O que tirou o fÃ´lego de vocÃªs dois? â perguntou Kotaro com um sorriso malicioso enquanto recuperava a compostura.

Hoto acenou com um pedaÃ§o de papel na frente dele.

â Para vocÃª... da polÃ­cia... importante.

Kotaro pegou o papel.

â Da polÃ­cia, hein? Deve ser realmente importante para fazer vocÃªs correrem uma maratona.

Toki assentiu antes de cair ao seu lado para descansar. Hoto simplesmente afundou em seus joelhos e apoiou a cabeÃ§a na grama.

â VocÃªs sÃ£o os maiores chorÃµes que jÃ¡ vi - reclamou Kotaro com benevolÃªncia.

â Este lado dÃ³i â gemeu Toki. â Preciso voltar... para... ar condicionado... escritÃ³rio.

Kotaro suspirou resignado e deixou-os assarem sob o sol quente antes de abrir o bilhete. Sua mÃ£o fechou, enrugando o papel que acabara de receber da delegacia de polÃ­cia, nÃ£o muito longe do campus. Outra menina desapareceu sem deixar vestÃ­gios. Ele havia passado muito tempo investigando os desaparecimentos de muitas meninas, que por fim o levaram Ã  faculdade onde agora era chefe de seguranÃ§a.

Seus pensamentos imediatamente se voltaram para sua amada Kyoko. Ele a encontrou novamente e, assim como esperava, Toya nÃ£o estava longe. Uma coisa que o surpreendeu foi o fato de Toya ter renascido normal, humano, ou assim parecia.

Ãs vezes, ele podia sentir o verdadeiro Toya sob a superfÃ­cie, desconhecendo sua prÃ³pria existÃªncia, mas, atÃ© agora, essa parte permanecia adormecida.

â GraÃ§as a Deus por pequenos favores. â Kotaro passou uma mÃ£o agitada em seus cabelos sacudidos pelo vento.

Era bom para ele que nenhum deles se lembrasse do passado. Era uma lembranÃ§a melhor esquecida. Ele desejou ter o mesmo privilÃ©gio de esquecer, mas para ele, a lembranÃ§a permaneceu, muitas vezes acordando-o de noite com um suor frio.

Deixando o parque, ele viu-se parado na calÃ§ada de pedra em frente ao campus. Kotaro ergueu os olhos azuis gelo na direÃ§Ã£o em que Kyoko morava. Ele franziu o cenho quando a preocupaÃ§Ã£o entalhou seus traÃ§os e teve o sÃºbito desejo de ver "sua mulher".

A parte longa de seus cabelos escuros em camadas foi presa para trÃ¡s em um rabo de cavalo baixo. O resto de seu cabelo, da franja ao topo, ficava em um estado que parecia constantemente esvoaÃ§ado pelo vento, dando-lhe a aparÃªncia de um menino mau punk, mas isso lhe caÃ­a bem. Essa aparÃªncia lhe ajudou mais de uma vez nos Ãºltimos anos.

Seu corpo era alto com mÃºsculos esbeltos, mas as aparÃªncias podiam enganar. Ele nÃ£o tinha um pingo de gordura de sobra e era mais forte do que cinquenta homens humanos juntos. As Ãºnicas pessoas que conheciam sua forÃ§a inumana eram aquelas que escolheram lhe chatear ou ousaram cruzar seu caminho. E aquelas poucas estavam muito amedrontadas para dizer sequer uma palavra. NinguÃ©m no campus conhecia o lado secreto de Kotaro e ele queria continuar assim.

Kotaro era responsÃ¡vel pela seguranÃ§a de todas as pessoas que caminhavam no campus: visitantes, alunos ou membros do corpo docente. As jovens comeÃ§aram a desaparecer desta Ã¡rea hÃ¡ cerca de um mÃªs, a um ritmo alarmante e, principalmente, da Ã¡rea que cercava os campos da faculdade.

Um grunhido baixo formou-se profundamente em seu peito enquanto ele inalava os aromas ao seu redor. O ar se contaminou com um cheiro antigo... mal. Ele estava se aproximando daquele que era responsÃ¡vel por mais do que apenas o sumiÃ§o das meninas, ele conseguia sentir isso. Deixando esses pensamentos de lado por hora, ele comeÃ§ou a caminhar rapidamente para os apartamentos vizinhos que abrigavam muitos universitÃ¡rios inocentes.

Ele iria ver Kyoko e se ela o deixasse, seus olhos escureceram atraentemente, ele nÃ£o sairia de seu lado pelo resto do dia, ou da noite. Ele sÃ³ esperava que Toya nÃ£o estivesse com ela novamente hoje. Ele a queria toda para si. Afinal, na verdade ela era sua mulher e aquele "menino" teria que se mancar.

Seus passos diminuÃ­ram um instante com a ironia disso. Ele estava contente por Toya pelo menos ter vida agora. Um sorriso quase divertido apareceu quando ele mentalmente ameaÃ§ou aquela vida se Toya nÃ£o parasse de perseguir Kyoko o tempo todo.

SÃ³ o pensamento dela sentada ao lado dele em seu confortÃ¡vel sofÃ¡, comendo pipoca e vendo um filme bobo parecia uma noite perfeita. Eles faziam algo assim pelo menos uma vez por semana e para ele essa era a parte favorita da semana. Ele aproveitava seu tempo ininterrupto com a bela dos cabelos castanhos. NÃ£o importava se estavam assistindo um filme ou simplesmente sentados em seu sofÃ¡ conversando. Ele simplesmente amava a sensaÃ§Ã£o dela estar aconchegada ao seu lado.

Kotaro sorriu para si mesmo com satisfaÃ§Ã£o enquanto se perguntava como seria estar sempre ao lado dela, dia e noite.

O sorriso dele desapareceu com seu prÃ³ximo pensamento. Kyoko ainda nÃ£o o escolhera ao invÃ©s de Toya. Pelo menos, nÃ£o durante sua vida.

â Algumas coisas nunca mudam. â Ele olhou para cima como se enviasse um silencioso e sarcÃ¡stico "obrigado por toda a ajuda com isso" para quem estivesse ouvindo. Algo lhe disse que os deuses deveriam ter o mais perturbador senso de humor.



*****



As provas finais finalmente terminaram e Kyoko passou a tarde cantando essas palavras. Ela tinha sido uma boa garota e estudara atÃ© ficar doente, mas tudo valeu a pena. Ela sabia que tinha gabaritado estes testes cruÃ©is. SÃ³ de pensar nisto a fazia querer danÃ§ar feliz durante todo o caminho de volta para seu apartamento.

De fato, a primeira coisa que fez assim que atravessou a porta foi jogar seus livros pela sala de estar como se estivessem infestados de doenÃ§as e, finalmente, sucumbiu Ã  vontade, realizando uma "danÃ§a feliz" improvisada na entrada, parecendo que ela tinha talento para danÃ§a, afinal.

Isto foi imediatamente seguido por sua prÃ³pria versÃ£o de uma danÃ§a que ela tinha visto Toya fazer uma vez, sacudindo o bumbum por todo o corredor atÃ© o banheiro, para que ela pudesse tomar um banho quente de espuma. Kyoko entÃ£o decidiu que, se ia fazer isso, teria que fazer direito, e foi ligar o aparelho de som e pegar algumas velas.

Ela ainda estava fazendo barulhinhos fofos de vitÃ³ria quando a banheira se encheu e ela mal se deu ao trabalho com suas roupas, tirando-as e jogando-as onde quisesse. Provavelmente vou encontrar minha calcinha pendurada no ventilador de teto quando eu acabar â pensou consigo mesma, depois sacudiu os ombros e entrou na Ã¡gua.

Ela deslizou mais para dentro da banheira para deixar as bolhas flutuantes acariciarem seu pescoÃ§o e ombros. Seus olhos verde esmeralda, que Ã s vezes eram conhecidos por se tornarem tempestuosos a cada momento, estavam brilhando de satisfaÃ§Ã£o.

Suas ondas de cabelo castanho-avermelhadas estavam soltas ao acaso e sua pele lisa e sedosa estava escondida agora sob as bolhas. Ela era uma garota feliz e tudo o que realmente queria fazer era relaxar pelo resto do dia. Um pouco de mÃºsica suave ao fundo, algumas velas com cheiro doce acesas em todo o banheiro e estava pronto o cenÃ¡rio perfeito.

Ela fechou os olhos, sabendo que a imagem dele logo entraria em foco, como se estivesse esperando por ela. Este era seu segredo.

Os olhos azuis gelo a observavam dentro de sua mente. Ela sonhava com ele tantas vezes durante a noite que agora podia convocar estes sonhos, mesmo quando acordada. Quanto mais profundamente ela se engrenhava no sonho, mais real ele se tornava, atÃ© parecer que ele estava realmente lÃ¡, ajoelhado ao lado da banheira.

Os lÃ¡bios dele formaram um sorriso sensual ao estender a mÃ£o e tirar a toalha dela. Seus olhos se tornando tÃ£o brilhantes quanto a chama azul.

â Os sonhos sÃ£o agradÃ¡veis â sussurrou ela enquanto rolava a cabeÃ§a para o lado, deixando-o fazer o que ele quisesse.

Trimmm!

Um dos sons mais irritantes do mundo ecoou em todo o apartamento. Kyoko se ergueu na banheira, derrubando a Ã¡gua sobre a borda e sobre o chÃ£o de cerÃ¢mica. Levantando a mÃ£o na bochecha, sentiu o calor e corou quando o telefone tocou novamente.

â Droga!

Ela se levantou rapidamente sabendo que o telefone estava na sala de estar. Saindo da Ã¡gua, ela pegou o robe de seda da bancada e a envolveu enquanto corria para atender.

Percebendo que estava deixando umas pegadas de Ã¡gua, ela fez uma nota mental para lembrar de levar o telefone sem fio ao banheiro na prÃ³xima vez.

Na outra extremidade do toque irritante, Suki batucava as unhas na bancada da cozinha, desejando que Kyoko se apressasse e atendesse o telefone. Ela teve aquela sensaÃ§Ã£o inquietante de que Shinbe chegaria a qualquer momento e nÃ£o queria que ele soubesse nada sobre o que ela estava planejando.

Ela ouviu o clique na outra extremidade.

â AtÃ© que enfim!

Kyoko tirou o telefone da orelha para encarÃ¡-lo com raiva e colocou-o de volta.

â Suki, eu estava no banho! â quase choramingou Kyoko enquanto olhava ansiosamente para a porta do banheiro, onde sabia que a Ã¡gua ainda estava quente e perfumada com jasmim. A banheira a chamava para que ela voltasse e curtisse... e o sonho tambÃ©m. Ela mordeu o lÃ¡bio inferior enquanto desviava os olhos do que ela ansiava.

â VocÃª estÃ¡ parada aÃ­, nua? â riu Suki sabendo que Kyoko corava facilmente.

â Suki! â gritou Kyoko no receptor. Sua amiga simplesmente tinha um senso de humor pervertido, o que provavelmente se deve ao fato de passar muito tempo com Shinbe. Ela sorriu maliciosamente enquanto respondeu:

â VocÃª precisa de alguma coisa? Estou com uma banheira quente e vaporosa chamando meu nome e vocÃª estÃ¡ interrompendo meu pequeno encontro.

â Encontro? â Suki olhou para o telefone e revirou os olhos. â VocÃª definitivamente precisa de ajuda, Kyoko. Quem jÃ¡ ouviu falar em se sentir romÃ¢ntica na banheira sem alguÃ©m lÃ¡ para acompanhar? Pelo menos, tenha uma centelha de imaginaÃ§Ã£o e pense em um homem sexy para lavar as costas quando estiver lÃ¡ - suspirou ela com um tom exasperado, inconsciente de que acabara de surpreender Kyoko em cheio em quÃ£o perto sua imagem mental realmente era.

â De qualquer forma, vocÃª e eu vamos ter uma noitada para celebrar o fim das provas â chilreou Suki. Ela nÃ£o estava querendo deixar Kyoko dizer nÃ£o. â TambÃ©m nÃ£o aceitarei um "nÃ£o" como resposta, entÃ£o comece a se arrumar. E use aquela roupa que compramos no Ãºltimo fim de semana. Vou fazer o mesmo. â Suki inalou profundamente e logo comeÃ§ou a falar antes que Kyoko pudesse dar um pio. â Esteja pronta lÃ¡ pelas 7:30. Te amo. Tchauzinhoooo!

Kyoko piscou quando o telefone desligou. Seus lÃ¡bios ainda estavam abertos porque ela estava prestes a dizer ânÃ£oâ em sua primeira oportunidade. Ela enviou um olhar silencioso e zangado para a parede mais distante da sala de estar que separava os apartamentos das duas garotas, se perguntando se Suki havia telefonado de lÃ¡ ou de seu celular em algum outro lugar.

Olhando para a identificaÃ§Ã£o de chamada, ela suspirou.

â Celular, certo. NÃ£o preciso ir bater na parede, entÃ£o. â Mas a imagem de suas mÃ£os em volta do pescoÃ§o de Suki trouxe um sorriso para o rosto dela. â Mas, posso fingir.

LanÃ§ando o telefone sem fio na bancada, Kyoko olhou para o robe de seda agora agarrando-se ao seu corpo Ãºmido e gemeu. A Ã¡gua morna ainda na sua pele agora tinha ficado fria, causando arrepios. Rapidamente, ela se virou para voltar ao banho.

Trimmm! Trimmm!

Kyoko se contraiu.

Girando enquanto a sobrancelha esquerda se erguia em frustraÃ§Ã£o, disse:

â Espero que seja Suki para que eu possa dizer o quanto gosto de ser incomodada! â Agarrando o telefone, ela falou um pouco mais alto do que o normal.

â AlÃ´.

Toya sorriu com a saudaÃ§Ã£o de Kyoko:

â Qual Ã©? Sua mÃ£e nunca te ensinou a ser educada ao atender o telefone?

Kyoko se sentiu calmamente caminhando atÃ© a janela, abrindo-a e deixando o telefone escorregar de sua mÃ£o para o desconhecido.

â Por que Ã© que ninguÃ©m quer me deixar terminar meu banho? â choramingou ela, batendo os pÃ©s, mas sentindo o ar condicionado entrar sob seu robe.

O sorriso de Toya desapareceu quando sua imaginaÃ§Ã£o extrapolou e visÃµes explÃ­citas comeÃ§aram a danÃ§ar em sua mente.

â VocÃª estÃ¡ pelad... â parou, de repente sem fala, antes de perguntar se ela estava lÃ¡ nua. Sacudindo o pensamento de sua cabeÃ§a, Toya respirou profundamente para se acalmar e esperou que seus hormÃ´nios agora furiosos ficassem sob controle. â Droga, esta era uma linda imagem...

Kyoko franziu a testa, se perguntando se Toya estava de pÃ© ao lado de Suki naquele momento.

Toya tentou novamente.

â Deixa para lÃ¡. Olha, eu estou indo aÃ­ para a gente ir ao cinema esta noite, entÃ£o se arrume.

Kyoko estreitou os olhos, se perguntando sobre quem havia dito que hoje era o "Dia dos Chatos".

â Ah, tenho planos esta noite. â Claro que seus planos tinham sido transformar-se em uma ameixa no banho, ficar no sofÃ¡ e ver um filme. Talvez atÃ© adormecer durante o banho, sem ter ninguÃ©m no mundo para incomodÃ¡-la dizendo "saia".

â QuÃª? Cancele tudo, pois vocÃª vem comigo! - Toya praticamente ordenou, ficando irritado por ela nÃ£o estar fazendo o que ele queria que ela fizesse, como se ela alguma vez ela fizesse.

Kyoko fechou os olhos e afastou o telefone, cantarolando:

â NÃ£o vou jogÃ¡-lo pela janela, nÃ£o vou jogÃ¡-lo pela janela.

Toc, toc.

Kyoko se virou para encarar a porta pensando: â Mas eu vou JOGÃ-LO na cara de quem estiver na maldita porta! Ela podia ouvir um riso demente vindo de algum lugar no fundo, onde residia seu gÃªnio do mal.

Ela calmamente caminhou atÃ© a porta e destrancou-a, depois espiou para ver quem era.

â Kotaro â suspirou ela um pouco sem fÃ´lego e depois calou-se com culpa, esperando que ele nÃ£o tivesse notado.

Os olhos de Kotaro se iluminaram e escureceram ao mesmo tempo quando a porta se abriu. Ele estava feliz em ver Kyoko segura e, obviamente, nÃ£o totalmente vestida. Ele ergueu uma sobrancelha pelo jeito que ela havia dito seu nome. Pressionando a mÃ£o na porta acima da cabeÃ§a de Kyoko, ele a abriu totalmente com seu habitual sorriso confiante enquanto passava pela jovem, quase tocando-a.

â Como estÃ¡ a minha mulher hoje? â Kotaro passou por ela e entrou no apartamento como se ele pertencesse ali.

NÃ£o vou cometer assassinato, nÃ£o irei atirar o telefone, nÃ£o vou... A mente de Kyoko continuou a cantarolar enquanto Kotaro a encarava com seu habitual sorriso de parar o coraÃ§Ã£o. De repente, ela sentiu que o ar condicionado parara de funcionar.

Como esse homem, que sÃ³ pode ser descrito como sexo ambulante, a afetava assim? Ela sempre sentiu como se estivesse tentando impedir que o jogasse no chÃ£o. BalanÃ§ando a cabeÃ§a, ela olhou para baixo e gritou quando viu que o robe dela estava parcialmente aberto. NÃ£o dava para revelar muita coisa, mas o suficiente para fazÃª-la corar.

Toya ficou tenso, ouvindo pelo telefone a batida na porta em segundo plano e, em seguida, a voz de Kotaro. Ele gritou no telefone para chamar a atenÃ§Ã£o dela.

â Droga, Kyoko! O que diabos Kotaro estÃ¡ fazendo aÃ­? â resmungou ele, irritado com o fato de o seguranÃ§a ter aparecido no "seu" apartamento de Kyoko novamente.

Kyoko se encolheu quando o grito do telefone pode ser ouvido alto e claro dentro da sala de estar. Olhando sobre o ombro de Kotaro para o relÃ³gio na parede, ela sabia que precisava comeÃ§ar a se arrumar ou Suki seria a prÃ³xima a bater na porta. JÃ¡ bastava. Ela se virou e caminhou atÃ© a bancada, pretendendo desligar o telefone.

Levantando-o de volta ao ouvido, ela gritou:

â Te vejo mais tarde! Click... um jÃ¡ era, sÃ³ falta mais um.

Kotaro sorriu sabendo que tinha sido Toya com quem ela gritou. Seus olhos atravessaram a seda que se agarrava a um corpo bem formado como uma segunda pele e ele nÃ£o conseguiria ter evitado se ele tivesse tentado avanÃ§ar, mais perto dela. Ele lentamente fechou os olhos por apenas um segundo enquanto inalava profundamente, todo o seu corpo agora a menos de um centÃ­metro do dela. O pensamento de tocar sem fazer contato fazia com que ele curvasse mentalmente seu corpo em torno dela e a abraÃ§asse.

Ele se inclinou para a frente, aproximando os lÃ¡bios da orelha de Kyoko antes de sussurrar seu nome. Seus lÃ¡bios suavizaram, assim como seus olhos azuis. Muitas vezes ele se via quase desejando que ela se lembrasse do passado e do quÃ£o Ã­ntimos eles foram certa vez. O que ela faria se se lembrasse que eles costumavam morar juntos? Ele, ela e Toya, para que pudessem protegÃª-la.

Kyoko perdeu o fÃ´lego e sentiu a pele ao longo de seu pescoÃ§o e bochecha formigar. Era difÃ­cil demais pensar direito com ele tÃ£o perto, mas agora ela podia sentir que ele a tocava, mesmo que ele nÃ£o a estivesse tocando. Lembrando o que ela estava fazendo antes do telefone ter interrompido fez um seu calor instantÃ¢neo subir ao seu rosto.

NÃ£o querendo que ele percebesse sua culpa, ela se manteve de costas para ele e tentou reprimir a memÃ³ria do banho. Ao fechar os olhos, ela lutou contra o impulso de se recostar nele e teve que agarrar-se Ã  mesa para se estabilizar.

Kotaro queria colocar as mÃ£os sobre a mesa em ambos os lados dela, prendendo-a entre seus braÃ§os, mas de repente se acalmou. Ele podia sentir o cheiro dos sabÃµes que ela usara no banho, mas um sabor abriu caminho para ele e sua expressÃ£o ficou curiosa: excitaÃ§Ã£o? Ele se afastou dela, se sentindo excitado.

Passando a mÃ£o por seus cabelos indomÃ¡veis, ele recuou para uma distÃ¢ncia mais segura, tentando ignorar a sacudida na boca do estÃ´mago. Por que ele havia vindo aqui mesmo? Era importante.

Ele sentiu seus instintos protetores aflorarem pela lembranÃ§a dos recentes alertas que ele havia recebido.

â VocÃª vai passar a noite comigo? â A pergunta que soava inocente escondia um duplo significado, enquanto ele provava o desejo.

Kyoko abrandou sua respiraÃ§Ã£o, mais uma vez pronta para lutar contra seus sentimentos. Franziu a testa, sabendo que seria muito perigoso ficar sozinha com ele. De repente, ela queria agradecer a Suki por mandar nela.

Ao vÃª-la franzida, Kotaro rapidamente acrescentou:

â NÃ³s podemos fazer o que vocÃª quiser. Alugar um filme e ficar em casa... ou sair.

â Alugar um filme e ficar em casa... â repetiu Kyoko ansiosamente pensando que era exatamente o que queria fazer. EntÃ£o, percebendo os olhos de Kotaro se acenderem, ela rapidamente mudou:

â Pelo menos Ã© isso que eu queria fazer e se eu nÃ£o tivesse sido arrastada para os planos de outra pessoa. Eu adoraria ficar assistindo filme com vocÃª. Mas desculpe, Kotaro. NÃ£o posso. â Ela deu-lhe um sorriso apologÃ©tico batendo mentalmente o pÃ© ao pensar em perder uma noite muito quente com o belo guarda de seguranÃ§a.

Os ombros de Kotaro caÃ­ram um centÃ­metro, mas ele sorriu de qualquer jeito, sabendo que ela nÃ£o estava tentando ferir seus sentimentos. Ele poderia atÃ© notar que ela queria que ele ficasse e ele se perguntou sobre a atraÃ§Ã£o daquela vontade. Era o mesmo que ele queria? Para ele, Kyoko era a gema mais preciosa da Terra e ele faria tudo que pudesse para fazÃª-la sorrir e mantÃª-la segura ao mesmo tempo.

Afinal, ele esperou mais de mil anos apenas para vÃª-la novamente.

Precisando certificar-se de que ela estava protegida e fora de perigo, ele perguntou:

â EntÃ£o, quais sÃ£o seus planos, talvez eu possa participar da diversÃ£o? â Ele deu a ela o seu sorriso mais travesso, esperando que isso funcionasse. Se nÃ£o, entÃ£o ele poderia recorrer a persegui-la. Os cantos de seus lÃ¡bios perfeitos se inclinaram em um sorriso secreto.

Kyoko sabia que Suki nunca aceitaria. A noitada sÃ³ de mulheres significava "sÃ³ de mulheres". Ela tambÃ©m sabia que se Kotaro descobrisse que estava com apenas Suki, ele iria junto, de alguma forma aparecendo como se por acaso. Ela o viu fazer isso muitas vezes.

Enquanto Toya era insistente, Kotaro sempre tentava ser sutil, mas se vocÃª coloca os dois caras no mesmo ambiente, eles parecem agir de forma muito parecida e se provocam constantemente. Ambos tinham um coraÃ§Ã£o de ouro e ela sabia disso. De certa forma, ela os amava tanto... tanto que era doloroso, e Ã© por isso que ela escolheu nÃ£o escolher e simplesmente permanecer solteira por enquanto. Honestamente, ela nÃ£o quis magoar os sentimentos de nenhum deles.

Mas uma coisa que Kyoko sabia com certeza era que se Kotaro pensasse que ela iria sair com Toya esta noite, ele nÃ£o se incomodaria em seguir. Pelo menos ela esperava que nÃ£o.

â Desculpe, Kotaro, jÃ¡ tenho planos com Toya, mas prometo que vamos alugar filmes ou algo assim qualquer hora destas. â Kyoko abaixou os olhos, nÃ£o gostando do fato de que ela estava mentindo para ele, mas era a Ãºnica maneira de fazÃª-lo desistir. Observando o chÃ£o, ela percebeu que ele deu um passo Ã  frente e ela imediatamente deu um passo atrÃ¡s mordendo o lÃ¡bio inferior, quando sentiu a mesa atrÃ¡s dela.

Kotaro sentiu o ciÃºme vibrar dentro dele, mas o manteve sob controle. Seu Ãºnico consolo era que, se ela estivesse com Toya esta noite, pelo menos ele poderia ter certeza de que ela nÃ£o seria uma das prÃ³ximas garotas desaparecidas.

AlÃ©m disso, ele sabia que Kamui estava secretamente vigiando Toya e Kyoko. Mentalmente, ele teve que admitir que Toya era superprotetor em relaÃ§Ã£o a ela e a manteria segura. Ele queria ser o Ãºnico com Kyoko esta noite, protegendo-a. Mas mesmo que ele nÃ£o gostasse, Toya nÃ£o deixaria que nenhum mal acontecesse a ela.

Ele a observou lentamente, levantando os olhos para ele, e ele pode ver a preocupaÃ§Ã£o dela, achando que Kotaro tentaria detÃª-la. Ele queria impedi-la, mas nÃ£o faria isso. Com o tempo, ela faria sua prÃ³pria escolha.

Inclinando a cabeÃ§a ligeiramente em uma aceitaÃ§Ã£o relutante, Kotaro pegou a mÃ£o dela mÃ£o e a segurou por um momento, fixando seus olhos azuis aos de esmeralda dela. Olhando nos seus olhos, ele sabia que ela tivera um dia difÃ­cil. Ele sempre podia ler os sentimentos dela atravÃ©s da cor de seus olhos. Ele aprendeu isso hÃ¡ mais de mil anos. Ele sÃ³ queria que ela se lembrasse.

â Combinado, entÃ£o, Kyoko. Vejo vocÃª amanhÃ£. Tenha cuidado, linda. â Inclinando-se para a frente, ele roÃ§ou os lÃ¡bios sobre a testa dela, depois soltou sua mÃ£o, virando-se para sair.

Kyoko sorriu.

â Obrigada, Kotaro. â Sua testa ainda formigava onde os lÃ¡bios quentes dele a tocaram. Ela estava feliz por ele ser mais fÃ¡cil de lidar do que Toya. Muitas vezes, ele beijava sua bochecha, testa ou mÃ£o, deixando essa sensaÃ§Ã£o formigante e quente.

Ela se perguntava sobre o que ele pensaria se soubesse que ela nunca tinha sido beijada nos lÃ¡bios. NinguÃ©m jamais acreditaria que, com a idade de dezoito anos, ainda era tÃ£o pura, bem, fisicamente pura. Ela corou de novo sabendo que seus pensamentos nÃ£o eram tÃ£o irrepreensÃ­veis. Ela culpava o traidor que vivia dentro de si e acelerava toda vez que pensava nele.

Kotaro abriu a porta para sair, mas nÃ£o antes de lhe lanÃ§ar um sorriso sobre o ombro, acrescentando:

â Apenas lembre-se, vocÃª ainda Ã© minha mulher. â Ele saiu rapidamente, fechando a porta atrÃ¡s de si, sorrindo maliciosamente com o comentÃ¡rio.

Ele sabia que ela nÃ£o iria cruzar a linha com Toya e nÃ£o estava preocupado. Mesmo no passado, quando ele e Toya tinham brigado, ela o escolheu ao invÃ©s de Toya. Ela sempre adorou Toya, mas Kotaro sabia que era ele por quem ela realmente estava apaixonada. A velocidade dos batimentos cardÃ­acos dela quando ele estava por perto sempre revelava seus verdadeiros sentimentos... nesta vida e no passado. Ele sÃ³ tinha que esperar para que ela percebesse mais uma vez.

Kotaro inalou suavemente, saboreando o perfume dela. Mesmo agora ele podia sentir o cheiro de sua pureza e sabia que ela era o tipo de pessoa que levava isso a sÃ©rio. Ela era muito inocente acerca do mundo real.

O pensamento fez o sorriso de Kotaro desaparecer. Ele nÃ£o tinha tanta certeza de que queria que ela descobrisse o lado sombrio deste mundo. NÃ£o queria arriscar a felicidade dela. Nem mesmo ele era o que ela pensava que fosse. Ele sabia que ela o aceitaria de qualquer jeito, mas a lembranÃ§a de tÃª-la sepultado selava seus lÃ¡bios, impedindo-os de falar do passado. Era melhor nÃ£o se lembrar de algumas coisas.

Quando Kotaro saiu do prÃ©dio e voltou para a calÃ§ada, ergueu os olhos do pÃ¡tio abaixo para a janela, imaginando o que Kyoko faria quando descobrisse sobre ele. E sim, ele lhe contaria a verdade, mas ainda nÃ£o. Como vocÃª explica que Ã© mais velho do que qualquer ser humano normal e que vocÃª tem poderes como ela sÃ³ viu nos filmes?

Kotaro balanÃ§ou a cabeÃ§a quando comeÃ§ou a voltar para a faculdade, contemplando seu prÃ³ximo passo em relaÃ§Ã£o Ã s meninas desaparecidas.

Ele sabia o que estava acontecendo com elas e que provavelmente jÃ¡ estavam mortas ou pelo menos mortas-vivas. Seus olhos brilharam com raiva por apenas um momento, revelando o lado mais sombrio de sua alma licantropo. Ele precisava captar o cheiro desses malditos sanguessugas e aquele que os liderava antes que eles pudessem encontrar Kyoko de novo.




CapÃ­tulo 3


Kyoko revirou o armÃ¡rio procurando o que Suki a havia convencido de comprar no fim de semana anterior. Ela riu para si mesma lembrando que Shinbe as havia seguido ao shopping, se oferecendo para que desfilassem para ele para saber sua opiniÃ£o. O ponto alto foi quando ele entrou no vestiÃ¡rio das meninas e ficou conversando com a Suki atravÃ©s da cortina.

Shinbe estava falando com uma voz fina para enganar Suki, se passando pela vendedora do setor, e se ofereceu para ajudÃ¡-la a fechar o zÃ­per.

Suki havia aceitado a oferta de ajuda e virou as costas para a cortina. Kyoko quase caiu quando Shinbe saiu voando pelo provador e aterrissou contra a parede do outro lado.

Kyoko perguntou Ã  Suki como ela tinha percebido que era Shinbe e Suki respondeu:

â NÃ£o acho que eles iriam deixar uma lÃ©sbica trabalhar no provador feminino, entÃ£o quando ele colocou a mÃ£o dentro do meu vestido em vez do zÃ­per, foi tipo uma entrega de jogo.

â Coitado do Shinbe â suspirou Kyoko enquanto tirava uma blusa cropped branca com mangas de seda que tinham forma de sino do cotovelo ao pulso e fluÃ­am bem. Na verdade, ela achava a blusa bem bonita. A fazia lembrar de um manto de anjo, mas sexy. Era curta o suficiente para mostrar a sua barriga e combinava bem com a minissaia preta agarrada no quadril que ela tambÃ©m tinha comprado.

Depois de se vestir e encontrar os sapatos que queria, ela prendeu parte do cabelo ao redor das orelhas e fez um penteado alto atrÃ¡s, mas deixando o resto do cabelo solto, de forma atraente. Usando um pouco de maquiagem e um colar segurando uma pequena lÃ¡grima de cristal, ela se considerou pronta para o que quer que fosse que a Suki estava tramando.

Ela desejou secretamente que pudesse ter dito a Kotaro para onde estavam indo, mas nem ela sabia a resposta para isso. Mordeu o lÃ¡bio inferior percebendo que jÃ¡ estava sentindo falta dele, entÃ£o tentou enterrar o sentimento melancÃ³lico, sabendo que Suki notaria.

A Ãºltima coisa que ela precisava esta noite seria sua melhor amiga fazendo um milhÃ£o de perguntas que ela nÃ£o queria responder.



*****



Shinbe passou os dedos pelas mechas azuis que brilhavam por dentro de seus cabelos escuros enquanto se apoiava contra a porta sorrindo. Ele correu para o apartamento da Suki quando ela ligou dizendo que ela iria sair Ã  noite e que nÃ£o era para ele ir lÃ¡.

â Ela estÃ¡ muito maluca se achar que pode se livrar de mim tÃ£o fÃ¡cil â Shinbe ergueu uma sobrancelha enquanto esperava.

Quando Suki abriu a porta com o cabelo ainda enrolado em uma toalha, as primeiras palavras de Shinbe foram:

â Aaah, perdi vocÃª tomando banho, Suki? â sorriu ele, vendo a sobrancelha de Suki se contraindo.

Assim que conheceu Suki e Kyoko, ele sentiu a necessidade de ficar perto delas em todos os momentos. Ele e Suki, Toya e Kyoko costumavam sair juntos.

Suki sabia que Shinbe se considerava "seu namorado" apenas porque ele era o Ãºnico que ela namorava, mas Suki nunca havia concordado em ser sua namorada. Ela tentou esconder o rubor que ameaÃ§ava surgir e assumir seu rosto quando retrucou:

â Precisa de Ã¡gua sanitÃ¡ria e uma bola de demoliÃ§Ã£o para limpar sua mente suja.

Ele se aproximou mais dela, bloqueando todo o resto enquanto seus olhos de ametista escureciam atraentemente.

â Se vocÃª me deixar entrar, acho que a gente pode encontrar uma razÃ£o para vocÃª tomar outro banho.

Suki sentiu que seus batimentos cardÃ­acos aceleravam ao som de sua voz rouca e deu alguns passos para trÃ¡s quando ele deu vÃ¡rios passos para a frente, fechando a porta atrÃ¡s de si. Decidindo nÃ£o o deixar tomar vantagem, ela lhe deu seu melhor olhar de advertÃªncia e foi recompensada quando ele parou de persegui-la. Se ele descobrisse o quanto ele jÃ¡ a tinha conquistado, ela realmente estaria em sÃ©rios problemas.

â Ei, Shinbe, olha, tenho que terminar de me arrumar porque tenho planos esta noite com uma amiga. JÃ¡ te disse no telefone, lembra? â Ela sabia que ele viria de qualquer jeito, mesmo se fosse para tentar descobrir para onde ela estava indo.

Tirando a toalha da cabeÃ§a, os longos cabelos ainda Ãºmidos, Suki dirigiu-se para o banheiro ainda falando alto o suficiente para que ele pudesse ouvi-la.

â A gente pode fazer alguma coisa amanhÃ£ Ã  noite, ok?

Shinbe inclinou-se contra o bar que separava a cozinha da sala de estar. Ele estava prestes a comeÃ§ar a expressar suas queixas quando seu olhar caiu sobre um folheto largado na bancada. Pegando-o, ele rapidamente leu a pÃ¡gina. Suas duas sobrancelhas se ergueram em entendimento.

A MAIOR E MELHOR BOATE DA CIDADE

CLUB MIDNIGHT

SEXTA-FEIRA ESPECIAL

NOITE DAS MULHERES

As palavras noite das mulheres estavam circundadas. Shinbe ergueu uma sobrancelha enquanto colocava o papel de volta na bancada e andou em direÃ§Ã£o ao banheiro. Ele escondeu o sorriso quando entrou sem bater e deslizou atrÃ¡s de Suki enquanto ela estava com a escova prestes a deslizar pelos cabelos.

â AmanhÃ£, entÃ£o - sussurrou Shinbe sedutoramente em sua orelha e mergulhou seus lÃ¡bios para baixo para beijar seu ombro. Ele se virou para sair sem dizer outra palavra, escondendo um sorriso travesso.

Suki permaneceu imÃ³vel, olhando para o espelho, sem gostar das vibes que acabara de ter. NÃ£o era normal Shinbe nÃ£o implorar e insistir com ela. NÃ£o querendo olhar os dentes de um cavalo dado, ela se apressou e terminou de se arrumar. Com medo agora de que Shinbe tivesse algum plano, Suki decidiu que iria para o apartamento da Kyoko um pouco mais cedo do que o planejado.



*****



VÃ¡rios quilÃ´metros de distÃ¢ncia, olhos vermelhos penetrantes olhavam pela janela de uma suÃ­te de cobertura com vista para a cidade. Ondas longas de cabelo preto e sedoso caÃ­ram em cascata pelas costas nuas em contraste com a pele tÃ£o pÃ¡lida quanto a lua. Seu rosto angÃ©lico era impressionante, com Ã¢ngulos bem definidos, e seu corpo era magro e firme como o do deus mÃ­stico AdÃ´nis.

Seu corpo nu brilhava do luar, os mÃºsculos danÃ§avam com cada movimento que ele fazia. Ele era lindo para qualquer um que olhasse para ele, mas sua alma escura era mal-intencionada e mortal. Um sorriso agraciou seus lÃ¡bios perfeitos enquanto seus pensamentos se voltavam para os acontecimentos da noite anterior.

Afastando-se da janela, comeÃ§ou a se preparar para a noite. Seu olhar se desviou para a cadeira estilo Rainha Ann ao lado da lareira e da jovem universitÃ¡ria que estava sentava sem vida nela. Hyakuhei sorriu quando pensou no sangue fresco que ele tinha jantado na noite anterior.

â Pena, ela era uma menina tÃ£o linda â lambeu os lÃ¡bios lembrando o prazer de ter tido a menina e se alimentado dela. Ele nunca iria se cansar das jovens que atraÃ­a e tomava para si.

Esta noite, ele visitaria uma boate popular para caÃ§ar sua presa e precisava ter certeza de que seus "filhos" estavam ocupados. "Noite das Mulheres" era sempre perfeita para escolher a presa e era um buffet sem fim de carne para os noturnos.

Ele era um poderoso senhor dos vampiros e ninguÃ©m ousaria irritÃ¡-lo ou questionar sua forÃ§a. O prazer tinha sido seu Ãºnico desejo hÃ¡ mais de mil anos, mas agora ele queria mais. Ele queria o que era legÃ­timo dele. Um olhar franzido enfeou seu rosto enquanto ele ponderava sua busca, o objeto que se tornara sua obsessÃ£o: o lendÃ¡rio Cristal do CoraÃ§Ã£o GuardiÃ£o.

Acreditava-se que o cristal sagrado era uma joia que tem o poder de dar a um vampiro a habilidade de caminhar alÃ©m da noite e sob a luz do dia. Na lenda, diz-se que uma menina com sangue puro e o coraÃ§Ã£o de uma crianÃ§a possui a joia dentro do corpo. Ela seria uma sacerdotisa do mais alto ranking e poder, a protetora e detentora do Cristal do CoraÃ§Ã£o GuardiÃ£o.

Seu olhar sombrio voltou para o cÃ©u noturno, onde uma lua vermelha de sangue apareceu acima.

â Perdi vocÃª uma vez, querida sacerdotisa, mas nÃ£o se engane, vou encontrÃ¡-la novamente. - Seus olhos se estreitaram quando ele prometeu Ã  noite. â Vou possuir tanto vocÃª quanto o cristal desta vez...



*****



Suki levou Kyoko ao shopping no fim de semana anterior por esta mesma razÃ£o, sÃ³ que ela nÃ£o contou Ã  amiga por quÃª. Suki tambÃ©m comprou uma roupa. Tirando a roupa do armÃ¡rio, ela mergulhou nela com emoÃ§Ã£o. Era um vestido totalmente preto e muito colado ao corpo. Ela se apaixonou por ele assim que o viu.

Bom, Shinbe nÃ£o estÃ¡ por perto â pensou Suki com um sorriso contente enquanto olhava o vestido no espelho. Era muito curto, mas nÃ£o mostrava demais, apenas o suficiente para provocar e deixar a imaginaÃ§Ã£o vagar. Prendendo os cabelos escuros para trÃ¡s com uma xuxinha tambÃ©m preta, Suki pÃ´s um pouco de maquiagem e pegou suas chaves, indo ao apartamento de Kyoko, logo ao lado.

Kyoko saiu do quarto esperando que tivesse tempo de lanchar qualquer coisa antes de sair, mas antes mesmo de chegar Ã  cozinha, alguÃ©m estava batendo na porta.

â Deus, espero que nÃ£o seja Toya â disse ela e se perguntou se deveria atender. Ela ainda tinha 20 minutos antes que fosse hora de se encontrar com Suki, entÃ£o Kyoko escolheu ignorar os golpes na porta por um momento com medo de quem estaria do outro lado.

Ã incrÃ­vel como o medo faz vocÃª se sentir com cinco anos de idade. A sobrancelha de Kyoko se contraiu enquanto ela respirava.

A pancada tornou-se um pouco mais alta, mas desta vez seguida por uma voz.

â Tudo bem, Kyoko, sei que vocÃª estÃ¡ aÃ­. NÃ£o me faÃ§a derrubar esta porta! â disse com uma risadinha.

Kyoko revirou os olhos pensando que Suki parecia ser da polÃ­cia. Abriu a porta para sua melhor amiga, que imediatamente agarrou seu braÃ§o para tirÃ¡-la do apartamento.

â Anda, vamos. Tenho uma sensaÃ§Ã£o ruim se nÃ£o formos agora, Shinbe aparecerÃ¡ ou algo assim â Kyoko mal teve tempo de fechar a porta antes que Suki a puxasse para fora.



*****



Kyou abriu as pesadas cortinas escuras da janela, agora que o crepÃºsculo havia chegado. Seus longos cabelos prateados se curvaram ao seu redor enquanto ele abriu a janela, permitindo que o vento da noite chegasse para acariciar seu rosto angÃ©lico. Vestido de preto, ele tinha a aparÃªncia de um anjo caÃ­do.

O dinheiro lhe trouxe a liberdade de definir suas prÃ³prias horas e o poder assegurou que ele nÃ£o seria perturbado. Comprar todo o andar superior do hotel mais caro da cidade deu-lhe a solidÃ£o que ele precisava e a vista que ele queria. Olhando para o outro lado da rua, ele podia ver uma fila que jÃ¡ comeÃ§ara a se formar no Club Midnight, a boate mais popular da cidade. Era o lugar perfeito para as criaturas da noite.

A fila enorme estava repleta de universitÃ¡rias meio travessas e rapazes interesseiros que as seguiam. Os olhos assombrados de Kyou brilhavam com desprezo quando ele comeÃ§ou a passar a vista na fila, perguntando-se sobre qual das moÃ§as chamaria a atenÃ§Ã£o daquele que ele caÃ§ava. Quem seria a prÃ³xima vÃ­tima de Hyakuhei?

Kyou podia sentir Hyakuhei na cidade e se perguntou se Hyakuhei podia sentir a morte perseguindo-o. Desta vez, as coisas estavam diferentes. Kyou o encontrou com muita facilidade, como se Hyakuhei tivesse deixado uma trilha para ele seguir. As mortes e os desaparecimentos de universitÃ¡rias locais foram um cartÃ£o de chamada flagrante para Kyou, apontando para apenas uma pessoa.

Ele nÃ£o gostava de pensar que Hyakuhei o estava levando atÃ© aqui.

â NÃ£o estou mais sob seu controle - rosnou Kyou enquanto o sangue escorria entre seus dedos cerrados e seus olhos manchados de rosa. â VocÃª nÃ£o tem nenhum poder sobre mim, nÃ£o mais! â Acalmando sua raiva crescente, Kyou novamente pÃ´s a mÃ¡scara de indiferenÃ§a sobre seus traÃ§os, escondendo sua aura. Era hora de o predador se tornar presa.

Se ele conseguia sentir a forÃ§a da vida de Hyakuhei, Kyou precisaria de cautela para evitar que seu criador percebesse a dele tambÃ©m.



*****



Kyoko ficou surpresa com o tamanho da boate. Seus lÃ¡bios se separaram quando Suki parou o carro no enorme estacionamento. Suki queria chegar lÃ¡ um pouco cedo para evitar a fila, mas como Kyoko viu, uma fila jÃ¡ havia se formado, entÃ£o elas correram para fora do carro. Kyoko reconheceu rostos familiares da faculdade que frequentava e sorriu quando notou que Tasuki, seu amigo de longa data, era um deles.

Do seu lugar na multidÃ£o, Tasuki viu Kyoko e Suki. Ele havia deixado que suas amigas o convencessem a ir e, nÃ£o tendo nada melhor para fazer agora que as provas acabaram, ele concordou de bom grado. Ele era bonito e tinha um corpo bem feito, com os cabelos castanhos na altura dos ombros e os olhos cor de chocolate que derretiam o coraÃ§Ã£o de todas as garotas.

Ele tambÃ©m era um dos rapazes mais populares no campus, mas Tasuki era mais conhecido pelas notas altas que tirava em todas as matÃ©rias e ele era mais legal do que a maioria dos caras no campus. Claro, ser uma das pessoas mais ricas da faculdade tambÃ©m aumentava seu status, mas ele nÃ£o era esnobe e nem aparentava ser rico.

Fazendo um ziguezague pela multidÃ£o, Tasuki aproximou-se de Kyoko com um sorriso genuÃ­no. Ele a conhecia desde o ensino fundamental e sempre teve uma paixÃ£o secreta por ela. Eles haviam saÃ­do algumas vezes, mas nÃ£o era nada sÃ©rio, eram mais como melhores amigos na verdade, e fazia um tempo que eles nÃ£o se encontravam para sair.

Ele a convidaria mais para sair, mas aquele tal de Toya ou o chefe de seguranÃ§a da escola estavam sempre rondando a Kyoko. Ele poderia jurar que tinha ouvido um rosnado na Ãºltima vez que se aproximou dela enquanto ela estava com um deles.

Com isso em mente, ele olhou nervosamente a Ã¡rea esperando que ela estivesse sozinha. NÃ£o que ele tenha medo deles, nÃ£o, nunca...

Suki viu o nervosismo de Tasuki e riu alto.

- EstÃ¡ tudo bem, Tasuki. Viemos sozinhas.

Ela riu do olhar confuso de Kyoko e agarrou Tasuki pelo cotovelo, puxando-o para a fila. Ela e todos os outros que o conheciam estavam conscientes do fato de que ele tinha uma queda por Kyoko. Bem, todos exceto a Kyoko, claro.

Kyoko corou quando Tasuki virou-se para olhar para ela. Ela nÃ£o tinha percebido o quanto mais alto ele havia ficado.

â Oi, Tasuki, quanto tempo. Ouvi dizer que vocÃª estÃ¡ arrasando com suas notas este ano. â Seu rosto iluminou-se de felicidade, percebendo que havia muito tempo que eles tinham saÃ­do juntos. Ela sempre se sentiu muito segura perto dele, como os melhores amigos se sentem. Caramba, ela tinha sentido muita saudade dele.

Um sorriso suave agraciou os lÃ¡bios de Tasuki, gostando do fato deles nÃ£o terem perdido contato, mesmo que fosse Ã  distÃ¢ncia. Talvez ele ainda tenha uma chance com ela. Ele realmente queria a chance de mostrar a ela o quanto ele ainda se importava com ela e queria estar com ela, que ele nÃ£o estava "fora de sua alÃ§ada" como ela sempre parecia acreditar.

Por algum motivo, ela parecia pensar que ele faria tudo apenas para vÃª-la sÃ³ porque eles tinham sido amigos desde o inÃ­cio do ensino mÃ©dio. Ele pretendia corrigir esse equÃ­voco.

â Ã, Kyoko, se vocÃª precisar de alguma ajuda, eu ficaria feliz em estudar com vocÃª, a qualquer hora. â Ele secretamente queria bater sua cabeÃ§a contra a parede de tijolos sabendo que estava mais uma vez soando como um melhor amigo em vez de um candidato a namorado.

Suki apenas balanÃ§ou a cabeÃ§a ao ver a tristeza silenciosa nos olhos de Tasuki quando ele sorria para Kyoko.

Coitado â pensou consigo mesma enquanto um sorriso malicioso se espalhava por seus lÃ¡bios. Ele sÃ³ precisava de um pequeno impulso na direÃ§Ã£o certa.



*****



Os olhos de Kyou se estreitaram enquanto a multidÃ£o de crianÃ§as ingÃªnuas aumentava.

Muitas opÃ§Ãµes para o Hyakuhei â pensou. Era sempre a mesma coisa: tomar uma vida e ficar impune, assim como o monstro se safou no passado. Frustrado, ele deixou suas garras agarrarem o parapeito da janela, perguntando-se se ele poderia impedir o massacre.

Ele teria que se aproximar e se misturar na multidÃ£o. Rindo ao pensar como faria seus cabelos prateados e olhos dourados estranhamente coloridos passarem despercebidos, Kyou voltou sua atenÃ§Ã£o para a multidÃ£o reunida.

Passando a vista pelo estacionamento mais uma vez, sua visÃ£o parou quando seu olhar assustado deslizou sobre um grupo de trÃªs pessoas bem prÃ³ximas Ã  frente da multidÃ£o. A aura em torno do triÃ¢ngulo era surpreendentemente diferente daquela dos outros humanos. Uma tonalidade suave de luz branca pura que cercava o grupo deslumbrou a visÃ£o interna de vampiro de Kyou.

Diminuindo a intensidade de seu olhar, Kyou balanÃ§ou a cabeÃ§a e olhou novamente para o grupo. Mesmo com seus sentidos intencionalmente atenuados, ele conseguiu detectar um leve brilho rodopiante fluindo em torno das trÃªs figuras. Um leve brilho de poeira do arco-Ã­ris veio diretamente acima deles, sombreando a luz como se alguÃ©m estivesse escondendo-a de seus olhos.

Kyou revistou o cÃ©u acima deles, mas sÃ³ viu a noite. Seus olhos se estreitaram compreendendo mais do que ele deveria antes de voltar seu olhar para o grupo.

Ele nunca tinha visto nada parecido em sua vida imortal. Uma leve memÃ³ria prendeu sua atenÃ§Ã£o, fazendo com que ele olhasse o grupo com olhos arregalados. Ele estava se lembrando das palavras de seu irmÃ£o mais novo antes de Hyakuhei tÃª-lo assassinado tÃ£o cruelmente:

â Se ao menos pudÃ©ssemos encontrar o Cristal do CoraÃ§Ã£o GuardiÃ£o, talvez pudÃ©ssemos ficar livres da escuridÃ£o, irmÃ£o.

Kyou havia zombado, dizendo a Toya que a joia era apenas um mito e impossÃ­vel de encontrar, mesmo nas lendas. Toya tinha ignorado sua rÃ©plica:

â A aura daquela que protege a joia brilharÃ¡ com luz sagrada. VocÃª nÃ£o quer ser livre?

Um sentimento melancÃ³lico se instalou em Kyou com a lembranÃ§a da pergunta de seu irmÃ£o. Ele teria dado qualquer coisa para libertar seu irmÃ£o da vida que Hyakuhei o dera. A brisa veio pela janela soprando seus longos cabelos no rosto, como se lhe dissesse para ir, como se o prÃ³prio Toya lhe pedisse que ele partisse.

Recolhendo a escuridÃ£o circundante em torno de seu corpo letal, Kyou emergiu despercebido na multidÃ£o de jovens inocentes, seu olhar intenso nunca deixando o local de onde a mais suave e pura luz brilhava.



*****



Kyoko riu quando viu Suki erguer as sobrancelhas por trÃ¡s de Tasuki. Suki definitivamente estava passando muito tempo com Shinbe ultimamente. Ela ficou vesga e deu a lÃ­ngua fazendo com que Suki quase morresse de rir, mas o olhar desapareceu instantaneamente quando Tasuki se virou para ver do que Suki estava rindo.

Isso fez com que Suki tivesse que se segurar na parede para evitar que seus joelhos cedessem enquanto Kyoko apenas deu de ombros para Tasuki dizendo:

â Quem sabe o que deu nela? Ela nunca foi normal. â Ela ergueu a sobrancelha, acrescentando: â Tenho que tirÃ¡-la do manicÃ´mio pelo menos uma vez por semana ou ela fica ainda pior e tenta roer as Ã¡rvores na frente do alojamento.

Tasuki sorriu enquanto se aproximou da orelha de Kyoko como se quisesse sussurrar, mas entÃ£o disse em voz alta o suficiente para que Suki ouvisse:

â Talvez durante o caminho para casa hoje, vocÃª deveria levÃ¡-la de volta.

Kyoko assentiu alegremente, entÃ£o sentiu o cabelo na parte de trÃ¡s do pescoÃ§o se arrepiar como se alguÃ©m a observasse. Esperando que nÃ£o fosse Toya secretamente seguindo-as, ela tentou ignorar a sensaÃ§Ã£o enquanto mantinha sua atenÃ§Ã£o em Suki e Tasuki.

Suki finalmente respirou o suficiente para lembrar a Kyoko que elas fariam uma festa do pijama na sala acolchoada mais tarde, entÃ£o perguntou a Tasuki se ele gostaria de se juntar a elas.

â A gente atÃ© conseguiu uma camisa de forÃ§a para a ocasiÃ£o.

Ela deu a lÃ­ngua para ambos.

â Guarde essa coisa antes de machucar alguÃ©m â retrucou Kyoko e foi rapidamente recompensada quando o queixo de Suki caiu.

Quando a fila comeÃ§ou a andar, Kyoko olhou por cima do ombro, imaginando quem a estava observando. Ela viu apenas as luzes do estacionamento e uma horda de pessoas esperando para entrar e entÃ£o zangou-se com sua prÃ³pria paranoia. A sensaÃ§Ã£o desconfortÃ¡vel de que havia alguÃ©m a observando recusava-se a ir embora e a preocupava. Ela lembrou-se do aviso de Kotaro sobre um manÃ­aco em torno do campus e de repente desejou que ela tivesse insinuado para ele onde elas estariam hoje.

Suki agarrou sua mÃ£o e puxou-a, pois Kyoko estava atrasando a fila. Kyoko afastou a sensaÃ§Ã£o ruim enquanto entraram no prÃ©dio e sua atenÃ§Ã£o foi atraÃ­da para o interior da enorme boate.

Kyou a viu virar o rosto como se ela estivesse sentindo sua presenÃ§a e ele ficou surpreso com isso. Os olhos de Kyoko haviam se deslocado muito lentamente para o ponto em que ele estava parado, mas ele sabia que ela nÃ£o podia vÃª-lo nas sombras. Sob o manto da escuridÃ£o, ele a manteve sob vigilÃ¢ncia ao entrar no estabelecimento.

Seu olhar dourado se movia pela sala sabendo que havia mais do que seres humanos dentro dos espaÃ§os mal iluminados, mas eram pequenas ameaÃ§as e nÃ£o valiam sua atenÃ§Ã£o.

Suki levou-os a uma Ã¡rea perto do bar para que eles nÃ£o tivessem que ir longe demais para pegar bebidas e ainda ter uma boa visÃ£o da pista de danÃ§a. A mÃºsica jÃ¡ estava tocando, mas nÃ£o tÃ£o alta que vocÃª precisasse gritar para ser ouvido.

Kyoko ficou surpresa em ver como o lugar era legal. Ela estava comeÃ§ando a se sentir feliz por ter deixado Suki convencÃª-la a vir. Afinal, a vida tinha que ser mais do que estudar, o que era tudo que ela sÃ³ fazia hÃ¡ mais de uma semana. Toda a energia no lugar era viciante e ela sorriu animada. Foi um daqueles raros momentos em que sentiu que qualquer coisa poderia acontecer.

Em vez de mesas e cadeiras, o estabelecimento tinha sofÃ¡s bem acolchoados aqui e ali, com pequenas mesas de vidro para apoiar as bebidas. Roxo, azul e preto eram as principais cores da boate, dando-lhe uma pitada de mistÃ©rio e magia com todas as luzes constantemente mudando de cor e criando uma sensaÃ§Ã£o de pandemÃ´nio sensual. A atmosfera da boate era quase intoxicante.

Sombras profundas emprestavam privacidade Ã queles que a procuraram e Kyoko corou, pensando em todas as coisas que Ã s vezes aconteciam no escuro, coisas que ela ainda nÃ£o experimentara. Sua mente voltou a se perguntar o que Kotaro estaria fazendo, antes de voltar sua atenÃ§Ã£o a seus amigos, se sentindo culpada.

Kyou sentou-se no canto mais escuro, perto da aura intensamente pura. Observando o grupo, ele agora podia ver que o brilho era proveniente de apenas um deles. Seus olhos se suavizaram pela primeira vez em inÃºmeros anos, por apenas um instante, enquanto a via sorrir, absorvendo a grandeza da boate. Era como assistir o nascer do sol e era algo que ele nÃ£o fazia hÃ¡ muito tempo.

Ela era linda, com longos cabelos castanhos que fluÃ­am, contrastados com a camisa branca sedosa que ela usava.

Seu olhar percorreu o corpo perfeito dela, absorvendo a pele exposta em sua cintura e olhando a minissaia, seguida de um par de pernas muito bem torneadas, antes de levantar seu olhar ao pescoÃ§o, que estava Ã  mostra. Ele seguiu o arco atÃ© o rosto dela com um grunhido desaprovador. Ela estava virada em um certo Ã¢ngulo e ele se viu precisando ver seus olhos, pois os olhos eram o espelho da alma.

Seus instintos estavam reagindo de um jeito que ele nunca experimentara antes. A sensaÃ§Ã£o que ele nÃ£o conseguia descrever o agitou e, de alguma forma, o fez lembrar de seu irmÃ£o. Ele nÃ£o gostava do desconhecido.

Ele escureceu as sombras ao redor de si enquanto ela se virou, passando seu olhar alÃ©m dele, mas ele tinha visto os olhos dela. A visÃ£o quase lhe tirou a respiraÃ§Ã£o. Ela tinha os olhos de esmeralda envoltos em inocÃªncia, mas ele tambÃ©m podia ver a travessura e o poder escondidos lÃ¡.

Kyou apertou o punho tÃ£o forte que pÃ´de sentir gotas de sangue se formando onde suas unhas afiadas haviam perfurado sua carne. Por que havia tal inocÃªncia aqui, em um lugar como este? Isso deveria ser proibido. Ele sentiu um rosnado surgir profundamente em seu peito e tentou suprimi-lo.

Se seu palpite estava correto e Hyakuhei aparecesse, entÃ£o as coisas poderiam ficar muito perigosas, muito rÃ¡pido. SerÃ¡ que era ela quem guardava o Cristal do CoraÃ§Ã£o GuardiÃ£o dentro de si? As palavras de seu irmÃ£o voltaram a persegui-lo pela segunda vez.

- IrmÃ£o, se acharmos a pedra, podemos ficar livres de Hyakuhei.

Bloqueando os outros sons da boate, Kyou dirigiu todos os seus sentidos para ela, para que ele pudesse saber mais e se preparar. Seus olhos dourados assombrados quase brilhavam enquanto mergulhava nos pensamentos do grupo sentado Ã  mesa. Ouvir o pensamento dos mortais era um recurso que ele nÃ£o usara hÃ¡ muito tempo.

Tasuki se ofereceu para pegar a primeira rodada de bebidas, jÃ¡ que o barman era seu primo. Ele nÃ£o iria desperdiÃ§ar sua Ãºnica chance de impressionar Kyoko. Ele sabia que ela pensava nele como um amigo, mas queria ser muito mais. Quem dera que ela abrisse os olhos e visse a devoÃ§Ã£o que ele lhe oferecia! Nunca haveria um homem que pudesse amÃ¡-la mais do que ele. NÃ£o era possÃ­vel.

Suki sorriu ao ouvir que ele conhecia o barman e pediu a Tasuki que trouxesse para todos um chÃ¡ gelado Long Island. Tasuki deu uma piscadinha envergonhada para Kyoko, balanÃ§ando a cabeÃ§a e dizendo que ele voltaria logo. Ele foi buscar as bebidas das meninas o mais rÃ¡pido possÃ­vel.

Os olhos de Kyoko se arregalaram quando ela olhou para Suki.

â ChÃ¡ gelado Long Island? Mas somos...

Suki acenou, como que para calar Kyoko.

â Qual Ã©, Kyoko? Viva um pouco! As provas acabaram e, alÃ©m disso, jÃ¡ bebemos antes â Suki tentou animar Kyoko, sorrindo e revirando os olhos. Querendo mudar de assunto, acrescentou:

â Tenho que admitir, Kyoko, que com esta roupa e corpÃ£o, vocÃª nÃ£o parece menor de idade. - Ela riu alto do olhar assustado no rosto de Kyoko.

CÃ©tica, Kyoko olhou para Suki.

â Duas vezes, Suki. Bebi duas vezes e quase nÃ£o lembro delas, e nÃ£o preciso me vestir assim para provar que sou de maior. - Kyoko corou com o que conseguiu lembrar do seu Ãºltimo aniversÃ¡rio. Por causa de Suki, ela nÃ£o lembrava da sua prÃ³pria festa de aniversÃ¡rio.

Lembrou-se da tigela gigantesca de frutas que Suki tinha entregue com um sorriso tÃ£o inocente. Ela conhecia a queda de Kyoko por frutas e se aproveitou disso. Kyoko tinha comido quase a tigela inteira sem perceber que tinha sido mergulhada em Ã¡lcool.

â Ela vai me encrencar novamente... tenho certeza! â choramingou Kyoko silenciosamente consigo mesma e mentalmente admitiu sua derrota. Os outros sempre brincavam sobre aquela noite, algo sobre Kyoko se esquecendo de como andar ou falar!

Suki riu, dando de ombros.

â EntÃ£o, esta Ã© a terceira vez - sorriu feliz para Tasuki enquanto ele trazia as bebidas, agarrando uma ansiosamente para si.

Kyoko mordeu os lÃ¡bios e depois murmurou algo sobre "trÃªs erros e vocÃª estÃ¡ fora", mas se virou e sorriu para Tasuki de qualquer maneira. Afinal, havia uma coisa chamada pressÃ£o dos colegas, e sendo a otÃ¡ria que era, ela cedeu.

â TrÃªs chÃ¡s gelados Long Island como pedido â Tasuki sentou-se entre as meninas e tomou um gole de sua bebida. Ele sentiu que o calor de repente aumentava no ambiente porque a bebida era muito forte. Olhando por cima de Kyoko, ele avistou o primo atrÃ¡s do bar. O sorriso malicioso no rosto de seu primo o deixou saber que as bebidas eram mais fortes do que o normal.

Tasuki sacudiu a cabeÃ§a e olhou para as garotas.

â Ãs provas finais, que possamos passar em todas com louvor â brindou. Depois, olhando nos olhos de Kyoko acrescentou: â E que nunca percamos contato uns com os outros, nÃ£o importa o que aconteÃ§a.

Kyoko corou e sorriu timidamente enquanto pegava a bebida da mÃ£o estendida dele. Apressadamente tomando um gole, os olhos dela se arregalaram quando decidiu que realmente gostava do sabor.

â Se vocÃª nÃ£o pode vencÃª-los, junte-se a eles â piscou ela para Suki com bom humor.

Ela colocou um canudo na bebida e, nos prÃ³ximos dez minutos entre risos e gargalhadas, o chÃ¡ gelado sumiu. A cor floresceu nas bochechas de Kyoko, pois os efeitos do Ã¡lcool comeÃ§aram lentamente a fluir em seu corpo.

Tasuki, tendo bebido o seu tÃ£o rÃ¡pido como Kyoko, agora se sentia mais Ã  vontade e um pouco mais ousado quando perguntou Ã s garotas se queriam danÃ§ar. Seus olhos escureceram atrativamente quando ele pegou a mÃ£o de Kyoko e a levou para a pista de danÃ§a com Suki segurando a outra mÃ£o de Kyoko.

Ele sabia que esta noite seria a melhor noite de sua vida na faculdade e nunca esqueceria um Ãºnico momento.

A poucos metros de distÃ¢ncia, Kyou observava o jovem chamado Tasuki se aproximar e pegar a mÃ£o da menina de olhos verdes e sentiu a necessidade de arrancar os dedos ofensivos do jovem que ousava tocÃ¡-la. Os sentimentos inocentes do homem pela menina podiam ser lidos claramente em seus olhos e pensamentos, mas ele ainda nÃ£o confiava nele.

Kyou jÃ¡ viu esta histÃ³ria muitas vezes observando a vida noturna. Um jovem que dÃ¡ uma bebida Ã  garota e depois se aproveita da sua ingenuidade. Seus olhos ficaram carmim enquanto observava o menino levar as garotas para a pista de danÃ§a. Kyou sentiu a necessidade de levar a menina de cabelo castanho-avermelhado e escondÃª-la de qualquer pessoa que a prejudicasse ou desejasse possuÃ­-la.

Ele ficou se perguntando sobre sua prÃ³pria possessividade em relaÃ§Ã£o Ã  menina. Se ela fosse a que guardava o Cristal do CoraÃ§Ã£o GuardiÃ£o, o que ele deveria fazer? Uma coisa Kyou sabia com certeza: antes que ele deixasse Hyakuhei tÃª-la, ele a mataria primeiro com suas prÃ³prias mÃ£os.

Se a lenda fosse verdadeira e Hyakuhei pusesse as mÃ£os no poder do Cristal do CoraÃ§Ã£o GuardiÃ£o, nÃ£o haveria como detÃª-lo.



*****



Kamui sentou-se invisÃ­vel, em cima de um dos grandes alto-falantes em frente ao DJ enquanto observava a pista de danÃ§a onde Kyoko e Suki estavam danÃ§ando com um jovem. Ele ergueu uma sobrancelha quando percebeu quem o homem era. Um sorriso muito secreto inclinou seus lÃ¡bios vendo o tom de ametista que se apegava ao menino.

Sua atenÃ§Ã£o se voltou para o outro homem que estava perseguindo a sacerdotisa. Ele jÃ¡ tentou impedir a atraÃ§Ã£o uma vez antes, quando Kyoko ainda estava na fila, mas o guardiÃ£o mais antigo era sempre muito teimoso. As vibraÃ§Ãµes que Kyou estava provocando eram pesadas e ligeiramente tingidas.

â Kyou, no que estÃ¡ pensando? â perguntou Kamui a sim mesmo em voz alta sabendo que nÃ£o podia ser ouvido ou visto. Observando Kyou olhando para Kyoko, ele reconheceu o destino quando o viu. O destino sempre atraiu os guardiÃµes para a sua sacerdotisa, independentemente de qual mundo ou qual vida.

Ele secretamente desejava que pudesse ter arranjado uma situaÃ§Ã£o em que Toya e Kyou se veriam, mas sabia bem que nÃ£o poderia usar um de seus poderes em Kyou. Ele sentiu arrepios frios subindo em seu braÃ§o ao pensar em irritar o perigoso guardiÃ£o dourado.

Seu olhar examinou a multidÃ£o novamente sabendo que Kyou nÃ£o era o Ãºnico com quem deveria estar preocupado. Havia outros na boate que nÃ£o eram humanos, mas ele pÃ´de sentir a verdadeira treva se aproximando a cada minuto. Ele se perguntou se Kyou tambÃ©m conseguia sentir.

Kamui assentiu para si mesmo. A melhor coisa que ele poderia fazer por enquanto era ajudar a esconder os poderes de Kyoko de olhos curiosos. Com esse pensamento, ele pulou dos alto-falantes, mas seus pÃ©s nunca atingiram o chÃ£o do clube de danÃ§a.




CapÃ­tulo 4


Quando o trio entrou na pista de danÃ§a lotada, Suki e Kyoko imediatamente comeÃ§aram a se mexer ao ritmo da mÃºsica, deixando Tasuki observando com fascÃ­nio. Os corpos aquecidos ao redor deles trouxeram rubor aos seus rostos Ã  medida que o Ã¡lcool fluÃ­a por suas veias.

O corpo de Suki aproximou-se do corpo de Kyoko enquanto elas envolviam os braÃ§os no pescoÃ§o uma da outra e comeÃ§aram a danÃ§ar juntinho. Rindo das travessuras delas mesmas, elas danÃ§aram como namoradas se perdendo no ritmo da mÃºsica. Elas aprenderam a danÃ§ar assim na escola primÃ¡ria hÃ¡ muito tempo.

Mergulhadas no momento de pura e inocente diversÃ£o, as meninas logo se esqueceram de seu terceiro companheiro.

Tasuki olhou para as duas amigas danÃ§ando apaixonadamente e sentiu o calor aquecer seu rosto.

â Caramba! â Seu corpo estava reagindo Ã  cena diante de si. Sentiu como se a respiraÃ§Ã£o tivesse sido arrancada de seus pulmÃµes. Observar o corpo de Kyoko se esfregar contra o corpo de Suki enquanto as mÃ£os delas alisavam seus corpos era quase mais do que ele podia suportar.

Decidindo que queria entrar na diversÃ£o, Tasuki obrigou seus pÃ©s a se moverem antes que ele perdesse a coragem.

Parando logo na frente de Kyoko, ele pÃ´de ver seus olhos fechados enquanto ela se movia contra Suki. Seu olhar se fixou em Suki, ela sorriu e foi para trÃ¡s de Kyoko, lentamente fazendo o caminho de volta, acariciando as coxas de sua amiga. Ela esperava que Tasuki arranjasse coragem suficiente para danÃ§ar com Kyoko assim.

â Por que nÃ£o danÃ§a com a gente? Ã divertido para caramba! â Ela ria enquanto agarrava Tasuki pelo cÃ³s do cinto, puxando-o de encontro ao corpo de Kyoko.

Os olhos de Kyoko se arregalaram com o choque de sentir que um corpo firme, definitivamente masculino, encostou no dela de uma maneira muito Ã­ntima. Um rubor queimou suas bochechas quando percebeu que Tasuki estava segurando-a bem apertado.

â Ei â sorriu ela timidamente, vendo que gostava da sensaÃ§Ã£o do corpo de Tasuki contra o dela. Ela sabia que poderia confiar, pois ele nÃ£o passaria dos limites. Ele sempre foi um cavalheiro.

Sentindo-se um pouco ousada, Kyoko continuou a danÃ§ar com Suki movendo-se atrÃ¡s dela enquanto colocava uma mÃ£o no ombro de Tasuki, silenciosamente encorajando-o.

Tasuki nÃ£o precisava de mais incentivo. Segurou os quadris de Kyoko e comeÃ§ou a se mover com o corpo dela. Ele sentiu como se estivesse no cÃ©u, tendo a garota de seus sonhos danÃ§ando sedutoramente com ele. Sentir cada curva do corpo dela se esfregar contra o dele era uma doce tortura que ele nunca experimentara.

Seus olhos castanhos suavizaram sensualmente enquanto seu corpo inteiro parecia estar em chamas e ele queria sentir a Kyoko o mÃ¡ximo possÃ­vel. Pressionando seu corpo ainda mais ao de Kyoko, ele comeÃ§ou a se esfregar nela, movendo seu corpo quente com o dela como um amante perdido hÃ¡ muito tempo.

Kyoko olhou nos olhos de Tasuki e percebeu pela primeira vez que havia lindos flocos de ametista polvilhados em seus orbes de chocolate.

â Lindo... â foi a Ãºnica palavra que veio Ã  mente. Quanto mais ela olhava, mais ele a fazia se lembrar de Shinbe.



*****



O humor de Toya nÃ£o havia melhorado nem um pouco depois de ir ao dojo da faculdade na esperanÃ§a de liberar o estresse. Ele decidiu que seria melhor sair rapidamente assim que viu que havia destruÃ­do o saco de pancada de quinhentos dÃ³lares. NÃ£o Ã© culpa dele ter imaginado o rosto de Kotaro enquanto batia nele.

â Garota idiota! â rosnou ele. â Por que ela tinha que ser sempre tÃ£o difÃ­cil de lidar? â Ele lanÃ§ou um olhar feroz para nada em particular enquanto pensou no irritante guarda de seguranÃ§a com o qual Kyoko tinha saÃ­do.

Ele ainda se sentia lÃ­vido quando ouvira a voz de Kotaro no apartamento de Kyoko mais cedo. Nada seria melhor do que arrancar a cabeÃ§a do homem e jogÃ¡-la onde o sol nunca alcanÃ§aria. Toya sempre teve um sexto sentido sobre as coisas e seus sentimentos lhe diziam que Kotaro nÃ£o era o que parecia ser.

â Um lobo vestido em pele de cordeiro, isso que ele Ã© â sorriu, depois sentiu um pouco de culpa porque ele tambÃ©m escondeu coisas de Kyoko. Coisas que ele mesmo nÃ£o conseguia explicar.

Quando crianÃ§a, ele tinha aprendido a ocultar suas habilidades incomuns dos outros, habilidades como a forÃ§a e velocidade inumanas, bem como seus sentidos de olfato e visÃ£o. O Ãºnico problema era que os poderes iam e vinham como queriam. Ele nÃ£o conseguia invocÃ¡-los de repente e talvez isso fosse uma coisa boa.

Perdido em pensamentos, Toya sentiu a pele formigar quando viu o guarda encostado na porta do prÃ©dio de seguranÃ§a.

â Falando do diabo e ele aparece â Toya fuzilou o olhar para Kotaro, quase passando por ele, e depois parou de repente. â O que diabos estÃ¡ fazendo aqui? â rosnou ele.

Kotaro ergueu-se a toda a altura e caminhou atÃ© onde o suposto acompanhante de Kyoko estava, grunhindo para ele. Olhando ao redor e nÃ£o a vendo em lugar nenhum, seu comportamento descontraÃ­do tornou-se tenso e Kotaro perfurou Toya com um olhar irritado.

â Onde estÃ¡ Kyoko? Pensei que ela estivesse com vocÃª esta noite.

Se tinha uma coisa que Toya odiava era ser confundido e agora ele nÃ£o estava com a mÃ­nima vontade de o ser.

â Seu babaca! Pensei que ela tivesse saÃ­do com vocÃª â falou ele sem pensar.

A paciÃªncia de Kotaro agora estava seriamente esgotada. Kyoko disse que iria sair com Toya e ela havia mentido.

â Droga!

Sem nem dar uma olhada para Toya, ele saiu na direÃ§Ã£o em que Kyoko mora, esforÃ§ando-se contra a necessidade de usar sua velocidade sobrenatural. Por que ela mentiu para ele? Se ele soubesse que ela nÃ£o estava com o idiota, ele a teria seguido.

Toya sentiu um momento de pÃ¢nico quando viu que a preocupaÃ§Ã£o se infiltrava nos olhos de seu rival e a maneira como ele partira a uma velocidade vertiginosa nÃ£o o fez se sentir melhor. Algo dentro dele confiava em Kotaro completamente, mas ele nunca lhe diria isso.

Sem sequer pensar no que estava fazendo, ele partiu depois de Kotaro para ver aonde ele estava indo. Facilmente alcanÃ§ando-o, mas notando a velocidade em que ambos estavam andando, algumas das suspeitas de Toya foram confirmadas. Kotaro era mais do que parecia ser. Eles tinham o mesmo DNA ou algo assim? â rangeu os dentes, detestando esse pensamento.

Dentro de um minuto, Kotaro estava batendo na porta do apartamento de Kyoko esperando com todas as forÃ§as que ela estivesse lÃ¡. Espancando as duas palmas contra a porta inocente, ele gritou:

â Droga, Kyoko! Onde vocÃª estÃ¡? â O temor e a preocupaÃ§Ã£o se infiltraram em cada poro de seu ser. â Isso nÃ£o Ã© bom â resmungou.

â O que nÃ£o Ã© bom? â Toya quis ficar logo atrÃ¡s de Kotaro.

A intensidade das vibraÃ§Ãµes que Kotaro estava liberando estava fazendo o peito de Toya doer. Se ele soubesse que Kyoko nÃ£o estava com Kotaro, ele teria vindo apenas para estar perto dela. Ele deveria ter seguido seus instintos e ido mesmo assim. Ele teria que colocar uma maldita coleira naquela garota mais cedo ou mais tarde.

Kotaro se virou, tendo esquecido completamente de Toya devido Ã  pressa para chegar atÃ© Kyoko. Agora, tendo alguÃ©m em quem descontar sua raiva, ele atacou:

â Pensei que ela estava com vocÃª! â Kotaro apertou o punho e guardou a raiva dentro de si antes de ir longe demais. â E como diabos vocÃª conseguiu manter meu ritmo? NÃ£o importa, nÃ£o responda.

Toya olhou para ele, surpreso pelo guarda de seguranÃ§a ter percebido, mas deu de ombros.

â Sou sÃ³ um idiota rÃ¡pido.

Acalmando sua metade dominante, Kotaro abriu os olhos azuis e penetrantes, fixando-os na pessoa que o ajudaria a encontrar "sua Kyoko". JÃ¡ era ruim o suficiente Toya nÃ£o ter renascido um vampiro para que pudessem descontar a raiva brigando, mas agora Toya estava recuperando suas habilidades do passado e nÃ£o tinha ideia do porquÃª. Para piorar as coisas, o melhor amigo de Toya era Shinbe e Shinbe tambÃ©m nÃ£o tinha ideia de seu passado.

Kotaro esmagou a palma da mÃ£o contra sua testa, perguntando-se por que diabos ele confiou em Toya para cuidar dela, pela segunda vez, quando ele havia falhado na primeira. O fato de Toya nÃ£o se lembrar de nada impedia que Kotaro desabafasse. Ele inalou profundamente, absorvendo a verdade. Ambos falharam com ela. Seus lÃ¡bios se estreitaram enquanto ele olhava em silÃªncio.

Toya deu um sorriso meio sincero.

â EntÃ£o, ela mentiu para vocÃª e te dispensou dizendo que estava saindo COMIGO. Ha! â Mesmo sabendo que ela tinha feito o mesmo com ele, ele nÃ£o deixaria Kotaro saber disso.

Kotaro respirou fundo novamente, tentando manter seu temperamento sob controle. Era como falar com uma maldita crianÃ§a.

â Isto nÃ£o Ã© uma droga de jogo, pirralho. Garotas estÃ£o desaparecendo a torto e a direito no campus e na cidade hÃ¡ mais de um mÃªs. Agora, nenhum de nÃ³s sabe onde Kyoko estÃ¡. â Kotaro podia ouvir o pÃ¢nico em sua prÃ³pria voz, mas ignorou. â VocÃª tem alguma ideia para onde ela poderia ter escapado?

Toya podia sentir seu peito se esmagando com preocupaÃ§Ã£o pensando que Kyoko estava em perigo.

â Droga! â virou-se para a porta de Suki e comeÃ§ou a bater atÃ© que ele ouviu a porta fazer um ligeiro som de quebra, fazendo-o aliviar as batidas. NinguÃ©m atendeu.

â Merda! â Quase em estado de pÃ¢nico, Toya procurou seu telefone celular esperando que Shinbe soubesse onde as meninas estavam. â Atende, seu tarado! â gritou ele para o telefone que ainda estava tocando. Depois do quarto toque, Shinbe finalmente atendeu.

â Shinbe! VocÃª sabe onde Suki e Kyoko estÃ£o? â Ele deu uma olhada para Kotaro quando ele se aproximou como se estivesse esperando para ouvir a resposta.

Na outra extremidade do telefone, Shinbe deu um sorriso esclarecedor.

âTalvez...



*****



Kyou ficou escondido na escuridÃ£o enquanto observava a menina com seus amigos. Ele ficou sabendo que seu nome era Kyoko ao ouvir sua conversa. AtÃ© o momento, o menino chamado Tasuki tinha mantido as mÃ£os quietas, o que era bom, considerando que Kyou decidiu deixÃ¡-lo viver, desde que ele nÃ£o se aproximasse demais dela. Ele parecia inofensivo o suficiente, mas um pouco apaixonado demais por ela.

Chegaram Ã  pista de danÃ§a e a menina e a amiga tinham comeÃ§ado a danÃ§ar juntas. A forma como elas estavam danÃ§ando era indecente.

â Deve ser o Ã¡lcool que ela consumiu tÃ£o rapidamente â ele teve dificuldade em acreditar o contrÃ¡rio.

Um grunhido baixo vibrou em seu peito quando sua visÃ£o foi obstruÃ­da por um grupo de malandros humanos. Ouvindo seu aviso e depois vendo o congelante olhar dourado que ele enviou, eles rapidamente foram para o outro lado da boate. Os cantos dos lÃ¡bios de Kyou indicavam um sorriso divertido quando ele viu o jeito como os malandros saÃ­ram em disparada.

Ele voltou sua atenÃ§Ã£o para a pista de danÃ§a, se concentrando na jovem que o deixava perplexo. A visÃ£o que teve fez seu sangue ferver com ira. Um grunhido cruel surgiu de algum lugar desconhecido enquanto olhos dourados zangados piscavam vermelho de sangue.

O inofensivo Tasuki estava danÃ§ando com Kyoko como se estivesse seduzindo-a.



*******



Kyoko foi se perdendo na sensaÃ§Ã£o das mÃ£os de Tasuki sobre seus quadris, acariciando a pele nua na cintura dela quando ele assumiu o controle da danÃ§a. Ele realmente estava sexy com o cabelo desarrumado e com a danÃ§a sensual que estavam fazendo. Uma risadinha escapou de seus lÃ¡bios quando pensou nisso.

Ao senti-lo acariciar sua pele na base de sua coluna, ela notou que os olhos do rapaz estavam quase completamente pura ametista.

Suki, decidindo que precisava de algo frio e molhado, bateu na bunda de Kyoko.

â Ei, vocÃªs dois! Preciso de algo refrescante - riu de sua frase tola enquanto arrastava o casal para a mesa que haviam ocupado anteriormente na esperanÃ§a de outra bebida.



*****



Kyou estava tentando desesperadamente acalmar seu sangue furioso. Seu nervo de ferro e conduta calma desapareceram completamente ao testemunhar o garoto Tasuki danÃ§ando com Kyoko como se ele fosse seu amante.

Nos recessos de sua mente, ele sabia que precisava acalmar-se rapidamente, caso contrÃ¡rio, Hyakuhei sentiria sua presenÃ§a, se ele ainda nÃ£o o tivesse feito. Respirando fundo para se acalmar, ele mentalmente repreendeu-se por sua tolice.

Durante sÃ©culos, ele havia sido um demÃ´nio da noite, frio e indiferente. Sua determinaÃ§Ã£o era como uma montanha que nunca oscilava e jamais poderia ser forÃ§ada Ã  submissÃ£o. Suas emoÃ§Ãµes eram mantidas pelo seu exterior frio e inquebrÃ¡vel por uma razÃ£o, para que ele pudesse esconder sua aura do verdadeiro inimigo.

Em uma noite, a presenÃ§a de uma jovem, alÃ©m de inocente e pura, tinha feito ele vacilar pela primeira vez em sua vida de morto-vivo.

Indiferentes ao enfurecido vampiro de cabelos prateados, o trio voltou para suas cadeiras. O riso inocente de Kyoko flutuou para ele, mal acalmando sua raiva. Sua tensÃ£o aliviou um pouco e ele se questionou por que havia reagido de forma tÃ£o possessiva em relaÃ§Ã£o Ã  garota.

Seu olhar estreitou-se, atirando punhais ao menino com ela, prometendo uma morte lenta e agonizante se ele sequer demonstrasse sair da linha de novo. Ela precisava de um guardiÃ£o.

Kyou nÃ£o conseguia entender a imensa forÃ§a que ela exercia sobre ele, mas observÃ¡-la tornou-se um vÃ­cio. Sua beleza e inocÃªncia o hipnotizaram e ele comeÃ§ou a se perguntar se sua pele era tÃ£o suave quanto parecia. Se zangou ao ver outro copo de bebida colorida parar diante dela.

Com cada gole que ela tomava, o resplendor da luz pura que a rodeava parecia vacilar e enfraquecer. JÃ¡ estava bem mais difÃ­cil detectÃ¡-la. Se ela continuasse a beber a Ã¡gua do diabo diante de si, logo ela iria cair na escuridÃ£o.

Como se estivesse desafiando-o, ele viu quando a menina tirou o canudo do copo e drenou o resto do lÃ­quido poluÃ­do.

Kyou fez algo que nÃ£o fazia hÃ¡ sÃ©culos: sorriu, sabendo agora que o segredo dela estaria a salvo do mal que tinha acabado de entrar na boate. Talvez esconder a aura pura de uma menina tÃ£o impossivelmente inocente e linda nÃ£o era tÃ£o ruim, afinal.

Kyou recuou para as sombras assim que seu inimigo emergiu delas.



*****



Hyakuhei atravessou a porta sem dar atenÃ§Ã£o aos mÃ­nios que seguiam em sua sombra. Eles poderiam procurar sua prÃ³pria diversÃ£o hoje. Eles sÃ³ prejudicariam seus planos se ele permitisse que os mÃ­nios se juntassem a ele. Seus olhos carmim avistaram a demonstraÃ§Ã£o de corpos quentes diante de si com interesse.

Ele havia sentido vida aqui, escondida em algum lugar entre os humanos. A vida tinha chamado por ele como um amante que anseia por seu toque, mas agora a sensaÃ§Ã£o de carÃ­cia quase acabara, como se fosse extinta.

Ele havia se alimentado bem na noite anterior e nÃ£o estava sentindo nenhuma necessidade de se alimentar. NÃ£o, hoje ele tinha outra coisa em mente. Esta cidade guardava o poder do lendÃ¡rio Cristal do CoraÃ§Ã£o GuardiÃ£o, ele tinha certeza.

Todas as estradas que ele pegou, buscando a luz escondida, o levaram atÃ© aqui. Mesmo agora, ele podia sentir uma luz esquiva escondida sob a escuridÃ£o enquanto ele se encostava na parede, observando os humanos.

VÃ¡rios dos mortais inocentes jÃ¡ o haviam notado e ele sabia que eles iriam atÃ© ele, oferecendo suas almas por engano.

A simples atraÃ§Ã£o pelo alto, sombrio e bonito sempre facilitava capturar sua presa. Seus longos cabelos escuros fluÃ­am ao redor dele em ondas, como pano de fundo para sua aparÃªncia incomparÃ¡vel. Ele podia sentir a luxÃºria emanando dos humanos, mas hoje Ã  noite ele nÃ£o lhe deu atenÃ§Ã£o.

Ãs vezes, ele transformava uma alma inocente sÃ³ para matÃ¡-la na noite seguinte. Ele sÃ³ dava o dom da vida eterna quando lhe era Ãºtil e isso acontecia apenas uma vez em cada sÃ©culo. Mas esta noite, ele iria procurar alguÃ©m que o ajudaria em sua busca para determinar quem guardava o Cristal do CoraÃ§Ã£o GuardiÃ£o.

Os olhos do Hyakuhei escureciam com seus pensamentos. A Ãºltima vez que chegou tÃ£o perto do misterioso cristal da lenda, a menina que carregava o cristal poderoso detectou sua intenÃ§Ã£o. Antes que ele pudesse detÃª-la, ela se matou, levando o cristal consigo, alÃ©m do alcance dele mais uma vez.

A mente dele voltou para o presente, com um sentimento de anseio. Tinha sido um grande desperdÃ­cio, pois a jovem tinha uma beleza e pureza incomparÃ¡veis e imaculadas. Seu corpo esguio nÃ£o fazia nenhum movimento enquanto ele vislumbrava vagarosamente a multidÃ£o, com seus olhos da meia-noite.

O cristal sÃ³ reaparecia a cada mil anos, de acordo com os pergaminhos que ele havia tirado do mago Shinbe, antes de tomar sua vida. Seus lÃ¡bios insinuavam um sorriso cruel, lembrando-se daquele crime em particular, muito delicioso.

Contando os anos a partir daquele momento, a donzela escolhida que agora guardava o cristal perto de seu coraÃ§Ã£o teria vinte e um anos, possivelmente um pouco mais nova. Hyakuhei sentira isso na vizinhanÃ§a da universidade e agora aqui na multidÃ£o de universitÃ¡rios na boate.

O fato de que esta cidade foi construÃ­da no mesmo terreno onde o cristal tinha desaparecido apenas comprovava que seria o mesmo lugar para o seu renascimento.

Se ele nÃ£o achasse quem guarda o Cristal do CoraÃ§Ã£o GuardiÃ£o, recrutaria alguÃ©m que fosse aceito entre os jovens e o ajudaria em sua procura. Uma pessoa nÃ£o humana, uma criatura da noite, acima de tudo, poderia detectar o poder que ele queria e desejava para si mesmo.

Um sorriso malicioso agraciou seus lÃ¡bios perfeitos em antecipaÃ§Ã£o da excitaÃ§Ã£o da caÃ§ada. Tendo chamado seus filhos mais favorecidos para se juntarem a ele, desta vez ele teria o que desejava. Ele estava na escuridÃ£o tempo demais e atÃ© mesmo as coisas mais prazerosas comeÃ§aram a aborrecÃª-lo.

Hyakuhei queria algo novo e um desafio era exatamente o que precisava para despertÃ¡-lo de sua vida de sono. Ele pÃ´de sentir vagamente uma perturbaÃ§Ã£o no ar e sorriu com entendimento. NÃ£o haveria nenhuma pressa, pois o que Ã© o tempo para um vampiro?



*****



Tasuki viu com surpresa Kyoko acabar com o Ãºltimo gole de seu chÃ¡ gelado. Seus olhos agora castanhos e suaves olharam para sua prÃ³pria bebida que ainda estava cheia, um olhar preocupado em seu rosto.

â Ah, Kyoko, se vocÃª estÃ¡ com sede, posso buscar chÃ¡ de verdade no bar, se quiser â sorriu ele sorriu ao ver Kyoko corar por ter percebido o que ela acabara de fazer.

Suki ergueu uma sobrancelha quando notou o copo vazio de Kyoko e se encolheu interiormente sabendo que Kyoko a mataria com felicidade por causa da ressaca. Ela deu um encolher de ombros mental, convencendo-se de que esta noite eles estavam comemorando e Kyoko a perdoaria, algum dia.

Olhando para Tasuki com a melhor expressÃ£o de "Por favor me ajude, estou com problemas", Suki concordou.

â Acho que pode ser uma boa ideia. â Ela piscou para ele com um ar de travessura, encorajando-o.

Ela sempre gostou de Tasuki e muitas vezes desejava que Kyoko saÃ­sse com ele mais vezes, em vez de Toya, de quem ela gostava, mas ele nem sempre tratava Kyoko tÃ£o bem como deveria. Ela estava contente por Kyoko receber o que dÃ¡ e por nÃ£o deixar Toya oprimi-la.

E tambÃ©m havia Kotaro, que poderia ir embora com a Kyoko e se casar com ela, se tivesse uma chance. Ele era legal e a tratava como uma deusa, mas Suki nÃ£o estava confortÃ¡vel com a ideia de perder sua melhor amiga tambÃ©m.

Os olhos de Suki iluminaram-se ao pensar em armar para Tasuki e Kyoko ficarem juntos, especialmente depois do jeito como eles haviam danÃ§ado agorinha. Ela nÃ£o se deixaria enganar, pois Kyoko podia ser bem assustadora quando fica muito zangada. A garota teria que ter coragem para namorar dois cabeÃ§as quentes como aqueles com que ela convivia. O sorriso de Suki suavizou ao pensar em seu prÃ³prio namorado, embora ela nunca admitiria tal tÃ­tulo.

Shinbe era tÃ£o louco quanto os dois amigos de Kyoko, se nÃ£o fosse mais louco ainda.

Trazendo seus pensamentos de volta ao presente, Suki levantou-se com um sorriso dissimulado.

â Vou falar com o DJ para tocar minha mÃºsica favorita, jÃ¡ volto! â Com isto, ela deixou os dois a sÃ³s. Secretamente, ela esperava que o tempo a sÃ³s acendesse uma pequena chama ardente entre os dois.

Kyoko olhou para Tasuki, se sentindo com a cabeÃ§a vazia, e sorriu com culpa.

â Eu adoraria um chÃ¡, ou talvez um cafÃ© seria ainda melhor. Mas, Ã s vezes, a cafeÃ­na Ã© quase tÃ£o ruim quanto o Ã¡lcool. â Ela riu de sua prÃ³pria piada. â Se vocÃª nÃ£o se importa em comprar enquanto vou ao banheiro. â Ela pegou a mÃ£o estendida de Tasuki e o deixou ajudÃ¡-la a se levantar.

Kyoko piscou rapidamente quando as coisas comeÃ§aram a parecer um pouco distorcidas e depois deu uma risadinha.

â JÃ¡ volto. â Ela olhou para as paredes, procurando a direÃ§Ã£o do banheiro. Ao vÃª-lo mais perto da porta da frente, ela saiu, esperando nÃ£o parecer tÃ£o bamba quanto sentia. Talvez se ela jogasse um pouco de Ã¡gua fria no rosto e nÃ£o bebesse mais Ã¡lcool esta noite, tudo ficaria bem.

O corpo de Kyou ficou tenso quando viu a cabeÃ§a da menina ir direto para o Ãºltimo lugar que queria que ela fosse: a entrada e o inimigo. Com seus assombrados olhos dourados matizados de rosa e com um rosnado agravado, sua forma desapareceu, como se ele nunca tivesse estado lÃ¡.

A mente enevoada de Kyoko se perguntou por que eles colocaram os banheiros lÃ¡ na frente, perto da porta, enquanto ela via uma horda de gente que ainda entrava na boate. Alguns dos recÃ©m-chegados pareciam jÃ¡ estar em ritmo de festa, e o ruÃ­do dentro do salÃ£o de danÃ§a estava amplificado.

Yohji, um dos caras do campus, veio tropeÃ§ando, nÃ£o vendo para onde estava indo. Seu irmÃ£o jÃ¡ o havia convencido a ir a alguns bares no fim da rua mais cedo e eles acabaram de sair do Ãºltimo para tentar este. Quando ele se virou para chamar seu irmÃ£o mais novo, Hitomi, ele esbarrou num corpo macio e quente.

Ouvindo um gritinho feminino, Yohji instantaneamente estendeu a mÃ£o e a pegou com os dois braÃ§os. Quando seus olhos se acenderam no rosto daquela que ele segurava, um sorriso selvagem se espalhou por seus lÃ¡bios.

â Kyoko?

Quando a boate resolveu parar de girar e ficou nÃ­tida de novo, Kyoko olhou para o cara que esbarrou nela e depois deu um de herÃ³i tudo ao mesmo tempo.

â Yohji? Oi... â Kyoko corou quando ele a abraÃ§ou mais forte e ela imediatamente tentou se esquivar.

Nada bom! Nada bom â repetiu ela em algum lugar dentro de sua cabeÃ§a. Ela podia ouvir o alarme interno alto e claro.

Ela jÃ¡ havia encontrado vÃ¡rias vezes com Yohji na escola e, apesar dele ser bastante popular com as garotas, sendo extremamente bonitÃ£o e tudo o mais, ela sempre tentou evitÃ¡-lo. Ele era muito agressivo para o seu gosto e ela escolheu ficar bem longe dele e do grupo com o qual ele andava.

â Estou bem agora, Yohji, entÃ£o vocÃª pode me soltar â sorriu ela, escondendo sua ansiedade, tentando ficar calma e nÃ£o fazer cena.

Yohji nÃ£o cedeu e deu um sorriso corrompido ao ver o desconforto da menina.

â Por que eu te soltaria agora que finalmente te tenho nos meus braÃ§os, Kyoko?

Seus olhos jÃ¡ estavam cheios de desejo, enquanto seu rosto tomava ares de um predador. Ele jÃ¡ estava atrÃ¡s dela hÃ¡ muito tempo e ela nunca lhe dava uma chance. Bem, agora que seus dois guarda-costas nÃ£o estavam por perto para detÃª-lo, ela nÃ£o iria embora tÃ£o facilmente.

Hyakuhei viu a cena acontecendo a poucos metros dele com interesse. Ele podia ver o homem perfeitamente, mas sÃ³ conseguia ver as costas da garota.

â Aquela garota... â Seus olhos ganharam um brilho misterioso enquanto ele a observava. Ele podia sentir tÃ£o bem o cheiro do nervosismo e da pureza de Kyoko que isso estava superando seus sentidos.

Quanto ao cara que a segurava, seu desejo era tÃ£o espesso no ar que dava atÃ© para sentir o gosto. Os olhos de Hyakuhei se estreitaram quando a necessidade de matar o punk comeÃ§ou a queimar dentro de suas veias. Ele comeÃ§ou a avanÃ§ar apenas para dar de encontro com um escudo de poeira de arco-Ã­ris bloqueando seu caminho. O brilho calmante se instalou quando ele se recostou contra a parede mais uma vez estreitando os olhos com desconfianÃ§a. Ela foi protegida pelo imortal?

Ele estendeu a mÃ£o e tocou o que restava da barreira e deixou que o sentimento calmante o banhasse. Um efeito tÃ£o calmo nÃ£o suprimiria as suas mÃ¡s intenÃ§Ãµes por muito tempo.

â Garotinhos e seus jogos â sorriu ele quando seus olhos da meia-noite se voltaram para a garota.

A aura dela o pegou completamente desprevenido. Seu olhar percorreu o corpo adorÃ¡vel dela e a pele que brilhava como o orvalho em flor antes da primeira luz do amanhecer. A necessidade de tocÃ¡-la sobrecarregou seus sentidos e ele tomou outro passo desconhecido em direÃ§Ã£o a ela. Desta vez, ignorando o escudo de brilho protetor do imortal.

Quando ele estava prestes a pegar a menina em seus prÃ³prios braÃ§os, outra onda de possessividade o atingiu como um golpe fÃ­sico. A aura familiar acariciava seus sentidos, uma que ele nÃ£o sentira em dÃ©cadas. Dando uma Ãºltima olhada na garota que ele havia mentalmente tomado para si, seus olhos escuros se suavizaram brevemente ao tomar uma decisÃ£o. Ele a teria, em breve.

Um sorriso inclinou seus lÃ¡bios astutos enquanto ele recuava na escuridÃ£o, fora de vista.

â EntÃ£o, meu errÃ¡tico Kyou decidiu se juntar ao jogo. Deixe-me ver quais sÃ£o realmente suas intenÃ§Ãµes.



******



Toya entrou rasgando no apartamento que ele compartilhava com Shinbe, mas quando ele nÃ£o viu seu amigo, comeÃ§ou imediatamente a gritar.

â Shinbe, onde diabos vocÃª estÃ¡? â Sua raiva era imensa e, por razÃµes Ã³bvias, ele tinha um mal pressentimento sobre a seguranÃ§a de Kyoko, especialmente depois que Kotaro o informou sobre as outras garotas desaparecidas, tantas garotas.

Seus nervos jÃ¡ estavam a toda e, se ele nÃ£o colocasse os olhos em Kyoko em breve, ele iria quebrar alguma coisa. Mas, quando ele colocasse os olhos nela, ela teria muita sorte se ele a deixasse sair de sua vista novamente. Se fosse para ele escolher, ele a amarraria permanentemente para tÃª-la sob sua custÃ³dia.

Shinbe saiu do banheiro abotoando sua camisa azul gelo e estava com ares de que iria para algum lugar.

â Estou aqui, qual Ã© a emergÃªncia? â Ele se sentou no sofÃ¡ e comeÃ§ou a colocar os sapatos como se nada o incomodasse.

Kotaro ficou em pÃ© atrÃ¡s de Toya esperando para ver se Shinbe tinha alguma informaÃ§Ã£o sobre o paradeiro de Kyoko. Inclinando-se contra o balcÃ£o da cozinha, ele observou enquanto Toya se elevava sobre Shinbe.

Se Toya lembrasse o que Shinbe fizera por ele no passado, ele provavelmente demonstraria mais respeito ao homem. Kotaro inclinou a cabeÃ§a em um Ã¢ngulo divertido, repensando nisso. NÃ£o, ele nÃ£o faria â se corrigiu ele. Observar o temperamento do menino explodir teria sido divertido se Kyoko nÃ£o estivesse desaparecida.

â Perdi Kyoko e agora tambÃ©m nÃ£o consigo encontrar a Suki! â Toya se contraiu quando Shinbe nem olhou para ele.

O sorriso presunÃ§oso de Shinbe estava definitivamente dando nos nervos de Toya. Se Shinbe jÃ¡ nÃ£o estivesse com apenas meio cÃ©rebro de tanto apanhar de Suki, Toya teria aumentado o dano cerebral. Mas agora ele queria que seu amigo ficasse consciente e respondesse suas perguntas.

Shinbe terminou de amarrar seus sapatos sabendo que Suki o odiaria por isso, mas ele nÃ£o se importava. Ele a compensaria depois. Eles sempre se divertiram depois de uma briga. Seu olhar se perdeu neste pensamento agradÃ¡vel. Fazer as pazes seria legal...

Ouvindo um grunhido perigoso, Shinbe rapidamente voltou sua atenÃ§Ã£o para o amigo, levantando uma sobrancelha calmamente.

â QuÃª?

â Shinbe, que droga! NÃ£o estou brincando! Onde diabos estÃ£o Suki e Kyoko? â Toya surtou, seus olhos dourados perfurando seu amigo como uma faca. Se Shinbe nÃ£o o respondesse logo, ele sabia que iria explodir.

Shinbe franziu a testa confuso quando notou Kotaro encostado na bancada. Toya e o chefe da seguranÃ§a nem se toleravam, muito menos saÃ­am juntos. Seu peito apertou.

â NÃ£o sei com certeza, mas Suki me dispensou esta noite dizendo que estava saindo com uma amiga, mas nÃ£o me disse com quem.

Quando Toya comeÃ§ou a xingar novamente, Shinbe levantou-se.

â Espera, nÃ£o terminei, entÃ£o nÃ£o surte. Enquanto eu estava no apartamento dela antes, vi um folheto em seu balcÃ£o sobre a Midnight Club e a data de hoje estava circulada. Ele sorriu lascivamente.

â Eu estava me arrumando para ir lÃ¡ e ver se eu a encontrava.

Kotaro suspirou enquanto Toya comeÃ§ava a vociferar algo sobre garotas idiotas. NÃ£o querendo perder tempo, ele se virou para a porta.

â Obrigado, Shinbe â disse ele sobre o ombro enquanto saÃ­a agora mais preocupado do que nunca. Ele sÃ³ esperava que Kamui estivesse com ela, protegendo-a de alguma forma.

Shinbe inclinou a cabeÃ§a para o lado olhando sobre o ombro de Toya quando Kotaro partiu, e entÃ£o ele se endireitou para franzir a testa para Toya.

â O que estÃ¡ acontecendo e por que Kotaro estava aqui? â A preocupaÃ§Ã£o brilhou em seus olhos de ametista. Ele sempre gostou de Kotaro, mas nÃ£o podia confessar isso a Toya sem ser rotulado como um traidor.

Toya tirou as chaves do bar enquanto respondeu:

â Vou te contar no caminho.

Ele virou-se e partiu para a porta, sequer se preocupando se Shinbe estava indo atrÃ¡s. Ele odiava estar sem Kyoko. Isso sempre fazia com que ele se sentisse confuso. Era hora de encontrÃ¡-la e colocÃ¡-la de volta no seu lugar: ao lado dele.




CapÃ­tulo 5


Kyoko nÃ£o gostou da forma como Yohji estava reagindo ao rubor dela e sentiu seu ressentimento comeÃ§ar a surgir. Empurrando o mÃ¡ximo que pÃ´de com as palmas das mÃ£os pressionadas contra o peito dele, seus olhos dispararam faÃ­scas irritadas enquanto tentava novamente fazÃª-lo soltÃ¡-la.

â Olha, quero que me solte agora, Yohji! Estou aqui com alguÃ©m. â Seus olhos se arregalaram quando ele simplesmente deu uma olhada presunÃ§osa e a prendeu de novo.

â Merda! - Kyoko enfureceu-se e pisou forte com o pÃ©, tentando atingir o dedo do pÃ© de Yohji.

Do outro lado do salÃ£o, Tasuki levava um chÃ¡ normal de volta Ã  mesa. Olhando para a porta para ver se ele podia detectar Kyoko, seus olhos escureceram ao notar que Yohji a assediava. A maioria das pessoas que o conhecia acreditava que Tasuki era um tÃ­pico americano, meigo, companheiro e o mais popular na escola, mas ele tinha um temperamento oculto.

Yohji estava Ã  beira de testemunhar isso se ele nÃ£o tirasse as mÃ£os de Kyoko.

A ira de Tasuki estava estampada em seu rosto enquanto ele atravessava o salÃ£o para resgatar sua doce Kyoko. Ele sabia, depois de ouvir outros conversarem na faculdade, que Yohji e seu irmÃ£o eram agressivos com as meninas e atÃ© foram acusados de estupro mais de uma vez.

Quando ele se aproximou deles, viu o irmÃ£o de Yohji, Hitomi, ao lado dele, mas Tasuki nÃ£o deixou que isso o impedisse. Aqueles dois caras eram venenosos e ele sabia disso. Os olhos de Tasuki ganharam uma sombra iluminada de ametista enquanto avanÃ§ava. Sua adrenalina estava alta e ele travou os dentes ao ver Kyoko lutar para se libertar.

A sobrancelha de Kyoko comeÃ§ou a se contrair quando a mÃ£o de Yohji percorreu suas costas e segurou sua bunda firmemente, forÃ§ando-a a encaixar-se nele. Ela podia sentir sua lascÃ­via enquanto ele sorriu maliciosamente para ela.

â Chega! â Ela ergueu a mÃ£o com tanta rapidez que Yohji nem viu, atÃ© que ele ouviu o estalar em sua orelha.

O irmÃ£o de Yohji, Hitomi, ouviu o som e se virou para olhar o rosto vermelho de seu irmÃ£o. Ele sorriu, entendendo, mas depois olhou por cima de Yohji e viu o menino chamado Tasuki vindo em direÃ§Ã£o a seu irmÃ£o com um olhar lÃ­vido no rosto.

Sabendo que seu irmÃ£o poderia cuidar da menina relutante sozinho, Hitomi deu um passo para frente e ficou diretamente no caminho de Tasuki.

â Onde pensa que estÃ¡ indo, garotinho?

Tasuki olhou alÃ©m de Hitomi, seus olhos se chocando com os de Yohji. Ele podia ver a mÃ£o de Yohji acariciando Kyoko. Sem pensar, ele jogou todo o seu peso no soco dado no estÃ´mago de Hitomi. Para seu espanto, o outro menino mal se moveu.

Sendo muito maior do que o calouro da faculdade, Hitomi deu um soco em Tasuki, fazendo-o voar em direÃ§Ã£o Ã  parede do corredor. Ele encolheu os ombros, imaginando que o garoto nÃ£o voltaria e se voltou para ver o seu irmÃ£o curtir seu novo brinquedo.

Ver a luta da menina para se soltar trouxe um sorriso aos lÃ¡bios de Hyakuhei.

â EntÃ£o, essa garota nÃ£o Ã© fÃ¡cil de ser domada. Terei prazer em amansÃ¡-la. â Olhando para o jovem que tinha vindo defender a honra de Kyoko, Hyakuhei decidiu quem ele queria como seu mais novo recruta.

Ele rapidamente pegou o garoto chamado Tasuki antes que ele se chocasse com a parede.

Seus sentidos lhe disseram que o menino ainda era puro, virgem. Que estranho. Rapidamente escondendo-os na escuridÃ£o para evitar que os outros vissem, Hyakuhei olhou para ele. Ele havia observado como Tasuki interagia com esta menina e vÃ¡rias outras. Ele seria uma boa escolha.

â Bem-vindo Ã  escuridÃ£o, meu filho â sussurrou enquanto afundava suas presas na veia de Tasuki. Os olhos de Hyakuhei se arregalaram com o sabor do sangue do menino. Um poder escondido? Tinha gosto de ametista. Ele agarrou o menino mais apertado, querendo mais.

Tasuki tomara o golpe no rosto com seguranÃ§a, jÃ¡ que tinha tanta adrenalina pulsando dentro de si. Ele planejou revidar, mas, como havia braÃ§os o envolvendo por trÃ¡s, tudo ficou escuro e ele se sentiu paralisado por um medo imediato. Uma voz suave e quase sedutora deu-lhe as boas-vindas Ã  escuridÃ£o.

Ele ofegou quando sentiu dentes afiados em seu pescoÃ§o. Ã medida que sua vida se esvaÃ­a, seus Ãºltimos pensamentos foram em Kyoko e o quanto ele precisava chegar atÃ© ela. Ele estava estendendo a mÃ£o em uma Ãºltima tentativa de ir atÃ© ela quando o esquecimento veio, tomando seu Ãºltimo suspiro.



*****



A mÃ£o de Kyoko ainda queimava do impacto que tinha feito com o rosto de Yohji. Ela queria se encolher agora que podia sentir muitos olhos curiosos sobre ela. NÃ£o ajudou nada o fato da bofetada ter soado como um tiro.

Dane-se tudo! Isso foi o que ela tentou evitar, mas nÃ£o, Yohji tinha que ser um idiota. Falando em idiotas, ele ainda nÃ£o havia tirado as mÃ£os de cima dela. Ela lentamente olhou de volta para ele. Pelo olhar irritado nos olhos dele, ela viu que ele nÃ£o planejava soltÃ¡-la.

Ela devolveu o olhar enfurecido, esperando para ver se ele revidaria ou a soltaria. Se ela fosse apostar, escolheria a primeira opÃ§Ã£o.

Kyou sabia que o pequeno tapa de uma garota nÃ£o era compatÃ­vel com a lascÃ­via que vinha do cara que a segurava com tanta forÃ§a. Ele mentalmente destruiu o pervertido por ousar tocar o que ele pretendia reivindicar como sua posse. De repente, tomou uma decisÃ£o, nÃ£o se importando mais se Hyakuhei o detectou ou nÃ£o. Assim que Kyou se moveu para sair das sombras, com a intenÃ§Ã£o de afastÃ¡-la do assediante, ele ouviu um grunhido profundo.

Momentaneamente atordoado, Kyou sabia que esse tipo de rosnado sÃ³ pertencia a um licantropo. Seus olhos dourados seguiram o som para sua origem. O som continuava a vibrar da entrada, a apenas alguns metros da menina. A raiva do lobo inundou o corredor cheio de gente.

Os olhos de Kyou se estreitaram na cena, imaginando se ele podia confiar em uma forÃ§a atemporal estando tÃ£o perto da garota. Ele nÃ£o via um licantropo desde que havia sido transformado pela primeira vez e, depois, ele apenas se distanciou. Se lembrou de ter dito uma vez para Toya que vampiros e lobisomens nÃ£o se misturavam. Toya perguntou-lhe por que, mas ele nÃ£o havia respondido porque sÃ³ estava repetindo as palavras de Hyakuhei e nÃ£o sabia o motivo.

Kotaro deu uma olhada em Yohji tateando "sua mulher" e enlouqueceu. Num piscar de olhos, Yohji foi arremessado contra a parede com a mÃ£o de Kotaro em sua garganta, levantando-o vÃ¡rios centÃ­metros no ar. Ele havia lidado com os irmÃ£os pervertidos antes e onde um estava, o outro sempre seguia.

Seus sentidos estavam em alerta quando sentiu o cheiro de Hitomi e sabia que ele estava vindo por trÃ¡s. Com um chute bem colocado, Kotaro fez Hitomi voar, para depois cair como um amontoado no chÃ£o do corredor. As pessoas se espalharam e o corredor rapidamente ficou vazio.

Kyoko sentou-se no chÃ£o com os olhos arregalados, mal acompanhando o que acabava de acontecer, jÃ¡ que foi tudo muito rÃ¡pido. Seu olhar foi do corpo amassado de Hitomi para a forma furiosa de Kotaro, que segurava o pescoÃ§o de um Yohji que estava ficando azul.

Sabendo que ela tinha que parar Kotaro antes que ele realmente machucasse alguÃ©m, Kyoko ofegou e comeÃ§ou a se levantar. Ao pressionar as mÃ£os no chÃ£o, ela tropeÃ§ou atrÃ¡s de Kotaro, pousando uma mÃ£o no ombro dele enquanto tentava acalmÃ¡-lo.

â Obrigada, Kotaro, mas estou bem agora, entÃ£o vocÃª pode soltar o Yohji, tÃ¡? âSua voz era suave, mas seu pÃ¢nico aumentou quando os dedos de Kotaro apertaram a garganta de Yohji. Kotaro virou o rosto para Kyoko e ela deu um passo assustado para trÃ¡s, vendo o tom vermelho em torno dos olhos azuis dele.

â Vi onde as mÃ£os dele estavam, Kyoko, e acho que Ã© hora de levar o lixo para fora. â Kotaro resmungou quando ele se voltou para Yohji e ouviu com um fascÃ­nio mÃ³rbido quando o menino fazia sons guturais e assumia uma tonalidade azul assustadora.

O temperamento de Kotaro estava satisfeito com a cor mais escura, dando-lhe o controle suficiente para perceber que Kyoko o estava olhando chocada. Precisando aliviar o medo dela, ele agarrou Yohji pela gola da camisa e se dirigiu para a porta para ensinar ao bastardo alguns bons modos. Ela nÃ£o precisava ver o resto.

Kyoko piscou quando a porta se fechou atrÃ¡s de Kotaro. Perplexa, ela ainda estava em um torpor devido ao choque. Nossa! Kotaro podia ser realmente assustador quando estava bravo. Ela atÃ© sentiu pena de Yohji naquele momento.

Olhando por cima do ombro, viu o irmÃ£o de Yohji, Hitomi, ainda deitado onde Kotaro o tinha deixado no chÃ£o. Pela primeira vez, ela nÃ£o se importou que Kotaro fosse seu protetor. Ela estremeceu e tentou nÃ£o pensar no que poderia ter acontecido se Kotaro nÃ£o tivesse aparecido na hora.

Kyou observou ela roer o lÃ¡bio inferior como se estivesse incerta sobre o que fazer. Quando o olhar dela viajou de volta Ã  porta, ele pensou. EntÃ£o, ela tem a proteÃ§Ã£o do licantropo. Ele se perguntou que outros mistÃ©rios cercavam a menina. Este nÃ£o era um lobo normal, aquele que ela chamara de Kotaro, ele podia sentir que era tÃ£o velho quanto ele.

Kyoko aproximou-se das portas de vidro olhando para o estacionamento escuro, imaginando onde Kotaro tinha ido. Colocando a mÃ£o na maÃ§aneta, ela comeÃ§ou a abrir a porta, mas um jovem entrou na frente dela, bloqueando seu caminho. Ela permaneceu imÃ³vel por um momento quando o garoto fixou seus olhos nos dela. Foi o sentimento mais esquisito que jÃ¡ experimentara.

O menino tinha cabelos brancos sÃ³lidos e um tom de pele que era quase igual aos cabelos. Mas essa nÃ£o era a pior parte. Seus olhos eram tÃ£o negros que pareciam continuar para sempre, dando a Kyoko a sensaÃ§Ã£o de que ela estava mergulhando neles. O garoto sorriu suavemente, mal descobrindo suas presas desumanas e por um momento, Kyoko realmente acreditava que as viu.

Uma mÃ£o saiu do nada e agarrou o ombro de Kyoko fazendo com que um grito aterrorizado ficasse preso em sua garganta quando ela se virou para ver de quem era a mÃ£o.



*****



Kyou saiu da escuridÃ£o quando viu o servo de Hyakuhei do outro lado da vidraÃ§a. Ele sabia do menino enganador. O mais jovem que parecia tÃ£o inocente era muitas vezes o mais mortal.

AvanÃ§ando atrÃ¡s de Kyoko, seus olhos sangraram e suas presas se alongaram, deixando o fantasma do menino saber que ele nÃ£o morderia essa garota sem perder sua prÃ³pria vida imortal.

A mÃ£o de Kyoko se acalmou na porta sem ter certeza se queria abri-la. Algo sobre o jovem estava realmente lhe dando medo. Assim que ela comeÃ§ou a dar um passo para trÃ¡s, uma mÃ£o pesada saiu do nada e agarrou seu ombro. Um grito aterrorizado subiu sua garganta enquanto se virava para ver quem era.

Kyoko esqueceu de respirar quando olhou para os olhos dourados. Os longos cabelos brancos moldavam o rosto e os ombros. Ele era poucos anos mais velho e seu cabelo estava perdendo a cor escura em meio Ã s mechas prateadas, mas ele quase se parecia...

â Toya? â sussurrou Kyoko hesitantemente, sabendo que estava errada, mas o mais importante, por que o salÃ£o estava girando?

Assim que seus olhos se chocaram, Kyou sentiu-se atraÃ­do por eles. Ela estava olhando para ele como se ela o conhecesse. Mas isso nÃ£o era tÃ£o perturbador quanto ela sussurrar o nome de seu irmÃ£o morto. Os braÃ§os dele a envolveram, vendo-a ficar tonta sob a influÃªncia do lÃ­quido contaminado que ela havia consumido anteriormente.

Quando suas mÃ£os deslizaram por sua pele nua, onde sua blusa era muito curta para cobrir, ele sentiu uma agitaÃ§Ã£o dentro de seu sangue de vampiro, sussurrando para que ele a protegesse.

A visÃ£o de Kyoko nÃ£o estava boa o suficiente agora. Parecia desafiar sua vontade quando o homem comeÃ§ou a ficar desfocado enquanto ela olhava para ele com curiosidade. Mesmo nÃ£o conseguindo ver bem, ela ainda podia sentir o corpo dele apoiando-a.

Elevando os dedos para tocar no rosto dele, ela falou:

â VocÃª nÃ£o Ã© o Toya. Quem Ã© vocÃª? â Antes que ela pudesse obter uma resposta, Buda ou qualquer outro deus que continuasse fazendo piada com ela apagou as luzes e ela mergulhou no inconsciente.

Kyou a apertou fortemente quando o corpo dela ficou imÃ³vel em seus braÃ§os. Ela desmaiou, mas pelo menos nÃ£o foi nos braÃ§os de um inimigo. Sua cabeÃ§a caiu para trÃ¡s, expondo a suave curva alva de sua garganta e Kyou lutou contra seus instintos. Ele silenciosamente se perguntou se ela nÃ£o estava mesmo nos braÃ§os do inimigo. Suas presas comeÃ§aram a alongar-se e ele dominou a tentaÃ§Ã£o. Este era um ser muito puro para aquela escuridÃ£o.

Ele entÃ£o sentiu sua cÃ³lera se acender contra a garota ingÃªnua. Se ele nÃ£o estivesse aqui para protegÃª-la, o que teria acontecido com ela? Ele, convenientemente, esqueceu seus prÃ³prios impulsos apenas alguns momentos antes. Se o lobo tivesse sido um protetor adequado, ele nÃ£o a teria deixado. Ele olhou em volta percebendo que os amigos com quem tinha estado antes tambÃ©m a abandonaram.

Expandindo seus sentidos, Kyou ainda podia sentir seu prÃ³prio inimigo, Hyakuhei, dentro do prÃ©dio. Sentindo o mal vindo de algum lugar acima, ele sabia que Hyakuhei estava no segundo andar.



*****



Shinbe saltou do carro ainda em movimento. Uma coisa o empurrou para frente e levou-o direto para a entrada principal da boate em disparada. Ele nÃ£o conseguiu tirar da cabeÃ§a a ideia de Suki e Kyoko se tornando uma dessas garotas desaparecidas e isso estava aterrorizando-o.

Toya havia contado sobre o que Kotaro lhe havia dito e, quando ele pusesse as mÃ£os em Suki, ele nÃ£o a soltaria nunca mais. Onde no corpo dela ele iria pÃ´r a mÃ£o ele nÃ£o conseguia dizer, mas ele tinha que encontrÃ¡-la primeiro.

Shinbe parou de repente quando ele avanÃ§ou pelas portas da frente da Midnight Club.

No meio do corredor havia um homem segurando Kyoko e ela nÃ£o parecia bem. Ela estava imÃ³vel e muito pÃ¡lida. E mais, o homem tambÃ©m nÃ£o parecia tÃ£o normal. Pele pÃ¡lida era um eufemismo para ele, o que fez Shinbe parar nervosamente quando ele percebeu que o homem o fez se lembrar de seu melhor amigo.

O cabelo prateado e os olhos dourados... os cabelos de Toya eram escuros como a meia-noite, mas dentro deles havia as mesmas marcas de prata, iguais aos do homem Ã  sua frente. Essas eram caracterÃ­sticas muito incomuns e ele sabia que sÃ³ Toya tinha esse tipo de combinaÃ§Ã£o incomum.

Percebendo o homem se movendo para sair com Kyoko, Shinbe afastou a sensaÃ§Ã£o de desconforto. Toya o mataria se ele nÃ£o impedisse o sequestro de Kyoko.

â O que diabos vocÃª estÃ¡ fazendo com Kyoko? â Olhos de ametista brilhavam quando Shinbe gritou, sentindo que seus pÃ©s se moviam de novo sem pensar. Ela pode nÃ£o ser sua namorada, mas ela era muito querida, mais do que ele admitiria e, alÃ©m disto, ela era a melhor amiga de Suki. NÃ£o havia chance desse cara levar Kyoko em suas garras.

Kyou deslizou o braÃ§o sob os joelhos de Kyoko e ergueu-a sem esforÃ§o. Ele a embalou como um bebÃª, debruÃ§ando a cabeÃ§a dela sobre seu ombro, com cuidado para nÃ£o a incomodar. No momento em que a cabeÃ§a dela tocou seu ombro, ela se aconchegou em seu abraÃ§o, suspirando suavemente.

Ele podia sentir a confianÃ§a e o contentamento sendo emitidos da aura dela enquanto se acomodava em seus braÃ§os. Esta mulher-filha o perturbava muito, e quanto mais ele a observava dormindo, mais ele queria escondÃª-la de todos. Ele sabia que conseguiria, se ele realmente quisesse, e a tentaÃ§Ã£o era imensa. Ele nunca transformou ninguÃ©m no que ele era, mas se ele quisesse, ele conseguiria.

Seu instinto protetor para com a menina, bem como a necessidade possessiva de ficar com ela o surpreenderam e Kyou rosnou suavemente para suas aÃ§Ãµes. Como essa garota poderia afetÃ¡-lo assim? Tirando o olhar de seu rosto angÃ©lico, ele olhou para o jovem que gritava com ele. Parece que os homens que a queriam continuavam a entrar em seu caminho.

Olhos de ouro se fixaram com os olhos de ametista e Kyou sentiu uma familiaridade estranha.

â NÃ£o Ã© decisÃ£o sua, mago â advertiu Kyou em um tom mortal e baixo.

Naquele momento ele sabia que o prÃ³prio Hyakuhei nÃ£o poderia tirÃ¡-la dele. Ela pertencia a ele. Seus braÃ§os se apertaram ao redor dela, nÃ£o gostando do amor que ele podia sentir crescendo em relaÃ§Ã£o Ã  menina, irradiando da poderosa aura do outro.

Desviando-se de seus pensamentos rebeldes, Kyou rosnou baixo. Ele nÃ£o deixaria a menina afetÃ¡-lo, mas ele ainda nÃ£o estava pronto para desistir dela. Ele tinha muitas perguntas e ela as responderia, quer ela gostasse ou nÃ£o.

Confiante de que estava sob controle, Kyou decidiu que era hora de partir.

Shinbe estava a caminho de Kyoko quando o homem se mexeu. Mexeu? Essa talvez nÃ£o tenha sido a palavra certa. Tremulou e desapareceu, depois reapareceu do nada, bem na frente dele.

â Mas... â Shinbe parou enquanto olhava para um rosto que tinha a morte escrita por toda parte.

Seus olhos se arregalaram em choque, parecia que seu coraÃ§Ã£o simplesmente tinha parado. TÃ£o perto assim, ele podia ver claramente que o homem tinha praticamente uma pele branca de porcelana e se parecia muito com Toya, como se isso fosse uma piada. Piscando, ele poderia ter jurado que havia presas saindo da boca do homem e um grunhido de advertÃªncia ao redor delas.

Shinbe ficou plantado quando o homem estendeu um dedo e empurrou contra o peito dele. A prÃ³xima coisa que Shinbe notou foi que estava sentado de bunda no meio do corredor. Piscando novamente, ele ficou confuso quando o homem de cabelos prateados, vestido de preto, simplesmente passou por cima dele e de repente desapareceu.

Suki chegou ao corredor apenas a tempo de ver Shinbe cair no chÃ£o, nÃ£o tÃ£o gentilmente, e um homem alto de cabelos prateados desaparecendo com Kyoko. Ela piscou uma vez e eles desapareceram. Um segundo estavam lÃ¡, no outro haviam sumido.

Shinbe, que parecia estar na zona do crepÃºsculo, ficou sentado lÃ¡ mais um pouco, piscando confuso.

â Que diabos?

Correndo atÃ© Shinbe, Suki tremia quando tentou ajudÃ¡-lo a se levantar.

â Quem era aquele homem que desapareceu com Kyoko? â Ela olhou para Shinbe preocupada, quando ambos se viraram e correram pela porta para encontrÃ¡-los.

â Ele simplesmente desapareceu?

Eles saÃ­ram do prÃ©dio e olharam freneticamente e nÃ£o viram nenhum vestÃ­gio do homem ou Kyoko em qualquer lugar.

Virando-se para Shinbe, os olhos de Suki marearam. Sentia que estava Ã  beira das lÃ¡grimas.

â CadÃª eles? Aquele homem sequestrou Kyoko! â Ela estava tremendo de medo. O que tinha comeÃ§ado como uma noite divertida tinha se transformado em um pesadelo.

â Calma, Suki. Vamos encontrÃ¡-la. Toya tambÃ©m estÃ¡ aqui. â Shinbe procurou ansiosamente pelo amigo. â Pensei que ele estava logo atrÃ¡s de mim!

A preocupaÃ§Ã£o rapidamente se transformou em raiva agora que a ficha caiu e ele viu que Suki estava segura e ao seu lado. Uma sombra de piedade cruzou seus olhos assombrados enquanto pensava no passado.

â No que diabos vocÃª estava pensando? Algo poderia ter acontecido com vocÃª e nÃ£o dava para eu saber onde vocÃª estava! â Ele a agarrou bruscamente pelos braÃ§os quando seus olhos de ametista escureceram possessivamente.

Os lÃ¡bios de Suki se estreitaram com a raiva de Shinbe. Qual Ã© a dele? NÃ£o era como se ela nunca saÃ­sse com as amigas. Seu olhar se fixou no dele quando sua prÃ³pria raiva comeÃ§ou a subir.

â O que vocÃª quer diz... â suas palavras foram interrompidas quando seus lÃ¡bios se chocaram contra os dela em um beijo abrasador e de parar o coraÃ§Ã£o.

Shinbe estava tÃ£o preocupado com ela que nÃ£o conseguia impedir os sentimentos que se precipitaram. Ele queria ter certeza de que podia sentir cada emoÃ§Ã£o que estava percorrendo suas veias naquela hora. Ele a abraÃ§ou fortemente, jurando para si mesmo que nunca mais perderia Suki de vista.

Suki gemeu suavemente pela intensidade do beijo de Shinbe. Era como se estivesse descobrindo cada emoÃ§Ã£o nua e crua dentro de sua alma. Ela poderia praticamente senti-la com a ponta dos dedos quando agarrou os ombros dele, sabendo que se ela soltasse, nÃ£o conseguiria ficar de pÃ©, pois suas pernas acabavam de se transformar em geleia, entÃ£o ela se segurou como se fosse para salvar sua vida.

Sua mente ficou em branco por um momento e ela esqueceu que estava brava com ele ou que Kyoko acabara de desaparecer. Tudo o que ela podia sentir era Shinbe e um amor que sem dÃºvida duraria mais que os dois.

Suavemente, ele relaxou o abraÃ§o, terminando o beijo esfregando o nariz contra o dela. Seus olhos se encheram de alÃ­vio, mas ainda estavam escuros de desejo. BalanÃ§ando a cabeÃ§a ligeiramente, ele tentou se concentrar na situaÃ§Ã£o em questÃ£o e pela primeira vez, sua mente pervertida nÃ£o vagou pela sensaÃ§Ã£o do corpo macio de Suki em seus braÃ§os. Afinal de contas, essa sensaÃ§Ã£o existia durante muitas vidas.

â Algumas coisas estÃ£o acontecendo e vocÃª precisa saber disto. NÃ£o era seguro para vocÃª e Kyoko saÃ­rem sozinhas esta noite. Vou explicar enquanto procuramos Toya. Acho que Kotaro estÃ¡ aqui tambÃ©m em algum lugar. â Shinbe envolveu um braÃ§o protetor ao redor dela enquanto se dirigiam ao estacionamento para encontrar Toya.

Por um momento, Suki ficou atordoada para fazer qualquer coisa, mas acenou com a cabeÃ§a.



*****



Toya correu pelo estacionamento, amaldiÃ§oando Shinbe sair correndo na frente. Ele teve que sair do carro no lado do passageiro, uma vez que percebeu que nÃ£o podia sair do seu lado. Na pressa de chegar a Kyoko, ele havia estacionado muito perto de um muro. Infelizmente, ele tambÃ©m descobriu isso quando tentou abrir a porta e bateu no muro, dando uma amassada no carro.

Isso nÃ£o foi realmente o que o atrasou. Quando ele saÃ­ra correndo do estacionamento a uma velocidade vertiginosa, um garotinho apareceu do nada e colidiu com ele. O impacto foi tÃ£o sÃºbito que o derrubou. Quando ele se endireitou o suficiente para ficar de pÃ©, rapidamente ofereceu ao menino uma mÃ£o para ajudÃ¡-lo a se levantar.

â Ei, garoto, vocÃª estÃ¡ bem? â Toya recolheu a mÃ£o quando o menino sibilou e correu na direÃ§Ã£o oposta como se o prÃ³prio SatanÃ¡s o perseguisse.

Toya deixou de lado a sensaÃ§Ã£o assustadora que o menino tinha deixado e olhou para a boate de dois andares. O sentimento estranho voltou dez vezes mais forte quando notou a sombra de um homem que carregava alguÃ©m em uma das janelas no Ãºltimo andar. Havia tantas coisas erradas com aquela pequena cena.

Seus olhos brilhavam, prateados, seus sentidos reconhecendo coisas que ele ainda nÃ£o entendia. Tudo isso o deixou com a sensaÃ§Ã£o de que alguÃ©m acabara de pisar sobre seu tÃºmulo.

Quando se aproximou da boate, Toya grunhiu aborrecido ao perceber que havia duas entradas. Uma parecia ser a entrada principal e a outra estava muito lotada. Decidindo ir pela principal, ele abriu caminho entre a multidÃ£o.

â Ã melhor que ela esteja bem... quando eu a encontrar, vou algemÃ¡-la permanentemente, ela gostando ou nÃ£o. Marcas de prata comeÃ§aram a se fortalecer dentro do ouro de seus olhos enquanto ele procurava Kyoko.



*****



Kyou abriu caminho pelo beco atrÃ¡s da boate com Kyoko segura firmemente em seus braÃ§os. Sua mente estava preparada e ele levaria a garota para sua casa temporÃ¡ria para se recuperar. Ele olhou para a cobertura na rua bem em frente Ã  boate. Ela estaria segura com ele, mas ele teria que ter cuidado. Ele podia sentir o servo de Hyakuhei dentro da escuridÃ£o que cercava a boate.

Seu maxilar apertou-se quando ouviu um grito fraco na distÃ¢ncia e sabia que outra vÃ­tima havia sido encontrada. Olhando para a menina adormecida, seus olhos dourados se suavizaram. Por enquanto, ela seria seu segredo. Ela era leve como uma pluma e parecia tÃ£o frÃ¡gil.

Ele nÃ£o conseguiu compreender como essa menininha tinha um espÃ­rito tÃ£o ardente, mas uma alma tÃ£o pura. E "Toya", ela falou o nome de seu irmÃ£o morto como se ela o conhecesse. Como poderia ser possÃ­vel?

Seus pensamentos pararam quando ele sentiu uma poderosa criatura noturna Ã  frente, ao mesmo tempo que um cheiro de sangue chegou ao seu nariz. Ficando tenso, ele reconheceu a aura do licantropo que protegera Kyoko mais cedo, mas que depois a abandonara, deixando-a em perigo.

NÃ£o querendo que a menina se machucasse se ele precisasse lutar, Kyou a pousou suavemente no beco e seguiu o cheiro de sangue que vinha da esquina. Se o lobo tivesse abatido um humano, a garota pode nÃ£o estar segura ao redor dele. Sabia-se que alguns lobisomens se perdem quando a ira entra em seu sangue, e ele nÃ£o permitiria que a garota fosse protegida por uma criatura tÃ£o perigosa.

Ao virar a esquina com os pÃ©s silenciosos, os olhos de Kyou contemplavam uma cena que ele nÃ£o tinha testemunhado hÃ¡ sÃ©culos. O lobo, ainda em forma humana, estava grunhindo, com as presas descobertas. Os olhos azulÃ­ssimos ardiam enquanto ele grunhia violentamente contra o que parecia ser um corpo que ele segurava.



*****



Toya fez uma pausa quando ele se aproximou da porta. Olhando, ele se virou rapidamente e se dirigiu em direÃ§Ã£o oposta da entrada. Ele conseguia sentir o cheiro dela, embora na parte de trÃ¡s de sua mente ele nÃ£o conseguisse descobrir como ou por que ele podia. Saindo em disparada em direÃ§Ã£o ao beco Ã  esquerda do prÃ©dio, seu coraÃ§Ã£o martelou violentamente em seu peito enquanto pensamentos mÃ³rbidos voavam em sua mente.

Meninas desaparecidas e lugares escuros... Ã© melhor que Kyoko nÃ£o tenha um Ãºnico fio de cabelo fora do lugar ou entÃ£o...

Entrando nas sombras, Toya parou de repente quando o medo sufocou sua respiraÃ§Ã£o. LÃ¡, deitada contra a parede de tijolos sujos, estava Kyoko. O mesmo medo que o havia congelado agora o fez entrar em aÃ§Ã£o. Em um segundo, ele estava ao lado dela.

Ajoelhando-se, ele a tocou, procurando a vida que permitiria que seu coraÃ§Ã£o recomeÃ§asse a bater.

Assim que seu dedo tocou o pescoÃ§o dela, seu prÃ³prio coraÃ§Ã£o bateu ao mesmo tempo que o dela e ele exalou. GraÃ§as a Deus ela estava viva. Um momento de dÃ©jÃ  vu trouxe uma lembranÃ§a indesejÃ¡vel e ele rapidamente a afastou de repente, com medo. Sentindo os outros por perto, ele nÃ£o perdeu tempo em levÃ¡-la em seguranÃ§a. Ao segurÃ¡-la perto dele, Toya usou sua velocidade sobre-humana para tirÃ¡-los da escuridÃ£o.



*****



Kotaro segurou Yohji contra a parede de tijolos enquanto controlava sua sede de sangue. Continuar o seu castigo jÃ¡ nÃ£o valia mais a pena, considerando que o menino jÃ¡ havia desmaiado novamente. Deixando ele cair no chÃ£o sem nenhuma gentileza, ele sentiu uma perturbaÃ§Ã£o na energia que o rodeava.

Sua cabeÃ§a virou para o lado, seus olhos azuis gelo se estreitando.

Kyou observava enquanto o lobo largou o menino de volta ao chÃ£o sem matÃ¡-lo. Ele imediatamente reconheceu o humano como sendo o assediador de Kyoko. Mudando a opiniÃ£o de alguns momentos antes, seus lÃ¡bios se curvaram em um ligeiro rosnado. Se fosse ele segurando o menino pelo pescoÃ§o, o garoto nÃ£o estaria inteiro atÃ© agora.

Como se o tivesse percebido, o licantropo virou a cabeÃ§a e fixou seu olhar mortal sobre ele. Kyou podia sentir o imenso poder que emanava do lobo. Ele estava mostrando isso em advertÃªncia.

No passado, lobos e vampiros sempre se haviam evitado. Sem se preocupar um com o outro, eles escolheram se ignorar. Ambos tinham forÃ§as muito parecidas e nem se preocuparam com o domÃ­nio de um sobre o outro. Eles apenas existiam juntos no mesmo mundo, mantendo-se reclusos e vivendo suas prÃ³prias vidas interminÃ¡veis.

Todos os instintos de Kotaro ganharam vida, vendo o vampiro de pÃ© ali nas sombras, observando-o. Ele nÃ£o podia vÃª-lo com clareza suficiente para distinguir os traÃ§os caracterÃ­sticos, mas seu instinto lhe disse que o sanguessuga era uma ameaÃ§a. Ele ainda precisava libertar sua prÃ³pria sede de sangue e estalou os dedos pensando que talvez fosse um dos subjugados de Hyakuhei.

Assim que decidiu se virar e atacar, a imagem ficou mais forte, depois vacilou e desapareceu.

â Olhos dourados? â Kotaro ergueu-se em toda sua altura, percebendo que ele quase atacara Kyou. â O que ele estÃ¡ fazendo aqui? Droga! â Kotaro sibilou e saiu, temendo que Kyoko nÃ£o estivesse onde ele a havia deixado. Ele tinha que chegar atÃ© ela rÃ¡pido. Havia sanguessugas esta noite e ela nÃ£o seria uma das vÃ­timas deles. E com Kyou ao redor, nÃ£o havia como dizer o quÃ£o perigosas as coisas poderiam ficar.

Kyou reapareceu de frente para a mesma parede de tijolos onde ele tinha recostado a menina. Vendo que ela nÃ£o estava mais lÃ¡, seus olhos sangraram carmim e um grunhido enraivecido atravessou o beco vazio, ecoando nas ruas circundantes.



*****



Suki e Shinbe encontraram Kotaro na porta da boate. Agarrando Shinbe pelo ombro, Kotaro perguntou urgentemente.

â Kyoko ainda estÃ¡ lÃ¡ dentro? â Seus sentidos sobrenaturais haviam entrado em pico e seus instintos lhe diziam que ela nÃ£o estava perto.

Suki avanÃ§ou para agarrar a camisa de Kotaro e confirmar suas suspeitas.

â Um homem a levou cerca de dez minutos atrÃ¡s, vocÃª tem que encontrÃ¡-la! â Seus olhos se encheram de lÃ¡grimas quando ela falou com ele. â NÃ£o conseguimos encontrÃ¡-la em lugar nenhum!

Sem estar pronto para soltar a Suki ainda, Shinbe pegou sua mÃ£o, colocando-a no peito. Ele a envolveu em seus braÃ§os como uma tira de aÃ§o. Olhando para Kotaro, ele acrescentou:

â Alguma "coisa" acabou de levÃ¡-la daqui.

Shinbe olhou para a forma agora trÃªmula de Suki e tentou acalmÃ¡-la. Ela nunca permitiu que ele fizesse o que ele queria sem discutir.

â Vamos encontrÃ¡-la. Prometo. â Com a promessa feita, ele se virou para falar com Kotaro mais uma vez, mas o seguranÃ§a jÃ¡ havia desaparecido.

â Aaa... aonde Ã© que ele foi? â gaguejou Shinbe olhando ao redor, mas nÃ£o encontrando nenhum vestÃ­gio do guarda de seguranÃ§a. BalanÃ§ando a cabeÃ§a, ele suspirou. JÃ¡ tinha visto muita coisa estranha por uma noite.

Saindo de seu estado perdido e sem esperanÃ§a, Suki resmungou aborrecida.

â Acho bom ele encontrar a Kyoko, senÃ£o vou fazer macarrÃ£o de Kotaro pro jantar. â Arrastando Shinbe atrÃ¡s dela como se tivessem mudado de papel de repente, ela acrescentou:

â Meu carro, agora, vamos!

Shinbe olhou ao redor do estacionamento como se de repente lembrasse de algo importante.

â Falando em carros... o do Toya sumiu.




CapÃ­tulo 6


Hyakuhei colocou o jovem que ele escolheu para se tornar um de seus filhos em um quarto escuro acima dos sons da boate. Tirando o cabelo castanho e macio de seus olhos fechados, ele ainda podia sentir cheiro da garota que emanava da pele do menino.

- Tasuki - ele tinha ouvido os outros chamÃ¡-lo.

- Bem, Tasuki, quando vocÃª acordar, terÃ¡ um presente muito precioso de mim: o dom da vida eterna. Ele deu um sorriso solidÃ¡rio, como se estivesse falando com uma crianÃ§a. - Mas terÃ¡ que entender que sua vida Ã© minha.

Os olhos de Hyakuhei se tornaram vermelhos quando sentiu que um de seus filhos o chamava. Ele nÃ£o gostava de ser perturbado enquanto aguardava um despertar, mas um dos seus favoritos havia chamado por ele. Sabendo que o subordinado nunca o chamaria, a menos que fosse importante, ele respondeu seu pedido.

Olhando mais uma vez para o garoto que ele havia transformado, Hyakuhei tremeluziu e desapareceu, deixando Tasuki sozinho dentro dos limites do quarto trancado.



*****



Yohji podia sentir as pontadas de dor forÃ§ando-o Ã  consciÃªncia. Nossa, tudo nele doÃ­a! Ele lembrou lentamente o que aconteceu e por que se sentia tÃ£o mal agora. Ele tinha encontrado Kyoko e decidiu brincar com ela, quando este estÃºpido guarda de seguranÃ§a havia aparecido.

Como alguÃ©m poderia ser tÃ£o forte? Quando tentou lutar, nÃ£o teve a mÃ­nima chance. Era como se ele tivesse tentado ir contra uma matilha de lobos famintos e agora estava sofrendo duramente pelo esforÃ§o.

Finalmente, ousando abrir os olhos, Yohji ficou surpreso ao encontrar um jovem garoto parado lÃ¡, observando-o. Ele parecia ter cerca de 12 anos e poderia ser considerado albino, se seus olhos nÃ£o fossem tÃ£o pretos e vazios.

AtraÃ­do pelo cheiro de sangue fresco, Yuuhi apareceu ao lado do menino ferido. Observando-o de perto, ele ficou imÃ³vel como uma estÃ¡tua, tocando-o brevemente com sua aura, antes de assentir uma vez. O menino tinha a mÃ¡cula do mal jÃ¡ dentro dele, mas havia um perfume de pureza que se apegava Ã  sua energia negativa.

Aqueles restos de energia pura pareciam estar vivos com um poder que nÃ£o morreria.

- Inesperado...

Quando os olhos do menino machucado se abriram, Yuuhi sussurrou suavemente:

-Pai, ele tocou a menina pura, a energia dela ainda persiste, atacando a dele. - As presas da crianÃ§a brilharam na escuridÃ£o com um sorriso fingido. - Devemos ficar com ele?

Os olhos de Yohji se estreitaram com as estranhas palavras do menino e, em seguida, olharam em volta para quem a crianÃ§a estava se dirigindo, apenas para ver um homem vestido de preto sair das sombras para a fraca luz do beco. Ele era alto e o poder emitido de sua forma era como se ele fosse uma divindade vingadora.

Os olhos aterrorizados de Yohji se arregalaram, fixando-se nos olhos vermelhos cor de sangue e, desta vez, ele definitivamente viu presas. Ele pressionou seu corpo dolorido contra a parede. Ele nunca teria chance se ele tentasse correr no estado em que ele jÃ¡ estava.

Hyakuhei olhou para o jovem que havia assediado a garota que ele agora considerava sua. Este menino tinha ousado tocÃ¡-la e agora pagaria por sua insolÃªncia. Ele inalou e sentiu os restos do lobo que jÃ¡ tinha batido no menino gravemente e seus olhos de meia-noite entrecerraram-se em fendas.

- Kotaro esteve aqui! Como ele se atreve a interferir nisto? Seria ele a razÃ£o pela qual a menina tinha desaparecido de repente sem deixar vestÃ­gios? â resmungou Hyakuhei ao pensar que o licantropo esteve tÃ£o perto do Cristal do CoraÃ§Ã£o GuardiÃ£o e da garota mais uma vez. SÃ³ porque a menina o escolheu nÃ£o a fazia realmente pertencer a ele. Nunca havia sido a decisÃ£o dela. SerÃ¡ que ele nÃ£o aprendeu a liÃ§Ã£o no passado?

Ele pensou que havia matado a vil criatura junto com Toya hÃ¡ anos por ousar ficar contra ele e tentar proteger a garota de sua posse.

- NÃ£o importa -, os pensamentos de Hyakuhei ficaram melancÃ³licos por um momento - vocÃª jÃ¡ lanÃ§ou Toya e a sacerdotisa contra mim, Kotaro, e veja o que vocÃª me fez fazer.

Uma sombra de piedade cruzou seus olhos assombrados enquanto pensava no passado. Se Toya nÃ£o tivesse tentado se tornar um guardiÃ£o da sacerdotisa e afastar Kyou dele, Toya nÃ£o estaria no mundo inferior agora, mas aqui, ao seu lado, junto com o belo Kyou. O Ãºnico culpado por encher Toya de mentiras equivocadas foi Kotaro.

Kotaro tambÃ©m foi o Ãºnico que havia avisado a sacerdotisa de sua verdadeira intenÃ§Ã£o. Era estranho como o tempo poderia deformar atÃ© mesmo as mentiras que foram ditas.

- EntÃ£o, Kotaro - sussurrou ele - vocÃª a encontrou novamente.

Ele foi trazido de volta ao presente pelo gemido que veio do menino agachado contra a parede. Ele precisaria de mais de um novo recruta para encontrar sua sacerdotisa desaparecida se Kotaro tambÃ©m estivesse com ela. Hyakuhei a queria e a teria.

Ele pretendia reivindicÃ¡-la com a ajuda deste imbecil que pensou em contaminÃ¡-la. A corrupÃ§Ã£o de tal criatura servia para ele apenas. Ele tinha muitos planos para sua sacerdotisa, afinal, mil anos era muito tempo para formular novas formas de torturar alguÃ©m.

Voltando para as sombras, seus olhos brilharam enquanto ele assentiu ligeiramente com Yuuhi.

- FaÃ§a com que doa bastante. Torture a carne dele, mas nÃ£o o mate. - Ele queria que esse menino sofresse um pouco mais por suas aÃ§Ãµes para que ele entendesse nunca desafiar seu novo mestre e nunca mais tocar na garota.

A cabeÃ§a de Yohji se voltou para a crianÃ§a e seus olhos se arregalaram de medo. O jovem estava sorrindo para ele, mas nÃ£o era um bom sorriso, era mortal. Nos cantos de seus lÃ¡bios pÃ¡lidos, o menino tinha longas presas afiadas e seus olhos nÃ£o eram mais pretos, mas um vermelho escuro.

Aqueles olhos vazios eram um contraste estranho com a pele e os cabelos de alabastro. Ele parecia uma crianÃ§a, mas era um demÃ´nio disfarÃ§ado e Yohji estava aterrorizado.

Ele observou com horror quando seus pÃ©s deixaram o chÃ£o e o menino se atirou nele, arrastando um grito aterrorizado de sua garganta jÃ¡ seca. Ele nunca soube o que o atingiu quando os dentes e as garras rasgavam sua carne, causando dor como nunca tinha imaginado.



*****



Toya olhou para a menina deitada no assento do passageiro ao lado dele.

- Droga, Kyoko, nunca mais me assuste desse jeito! - Ele sabia que ela nÃ£o conseguia ouvi-lo, mas isso nÃ£o impediu que ele desabafasse. - Sua bobinha, vocÃª poderia morrido ou coisa pior! - Ele se virou para o prÃ©dio onde ela morava.

Mesmo que ainda tivesse com uma cara amarrada, ele a carregou como se ela fosse a gema mais preciosa da terra e a levou atÃ© as escadas. Encontrando a porta trancada, ele xingou, virando a maÃ§aneta, esperando nÃ£o causar muito dano ao ouvir o barulho da porta se quebrando e depois a abrindo.

- Bem, ela precisava de uma tranca melhor mesmo, com um assassino Ã  solta. - Toya usou essa desculpa, arquivando-a para quando ela acordasse e gritasse com ele por quebrar sua porta. - Pelo menos ainda estÃ¡ presa pelas dobradiÃ§as - resmungou ele ao entrar no apartamento mal iluminado.

Permanecendo imÃ³vel no meio da sala de estar, ele olhou para Kyoko e ergueu uma sobrancelha, enquanto ele inalava o Ã¡lcool misturado com seu aroma natural.

- Ah, vejo como vocÃª Ã©, Kyoko - sussurrou ele. - NÃ£o Ã© justo, nem me levou para beber com vocÃª. O que vocÃª estava pensando?



*****



Kyou lutou para manter sua compostura, o que parecia estar acontecendo muito esta noite. Incapaz de guardar tudo dentro de si, sua mÃ£o em punho avanÃ§ou e atingiu a parede com tanta forÃ§a que pedaÃ§os da alvenaria saÃ­ram voando em todas as direÃ§Ãµes. Ele deu um grunhido irritado e seus olhos coloriram de rosa enquanto ele cheirava o ar.

NinguÃ©m ficaria com o que lhe pertencia sem pagar por esta interferÃªncia.

Ele imediatamente identificou o aroma de Kyoko misturado com outro que parecia estranhamente familiar e masculino. Kyou soltou um grunhido, afastando a sensaÃ§Ã£o enquanto levitava do beco e seguia o aroma que se tornara imerso em seu prÃ³prio ser.

Sua figura solitÃ¡ria desapareceu nas sombras enquanto caÃ§ava por sua presa. Ele a encontraria e a tiraria das mÃ£os do ladrÃ£o que a roubara. Os mÃºsculos do maxilar de Kyou se tensionaram com raiva. Como ela se atreveu a falar o nome de seu irmÃ£o para confundi-lo. Como se ela o conhecesse?

De alguma forma, a mulher-filha tinha lanÃ§ado um feitiÃ§o sobre ele, ele tinha certeza disso. Ele podia sentir na ponta de seus dedos a presenÃ§a dela e sentiu o desejo de tocar a pele dela mais uma vez. Ele precisava saber como que ela era tÃ£o pura e qual era a luz que emanava de seu corpo.

- Foi isso o que Toya estava procurando? Se foi, entÃ£o esta garota Ã© culpada pela morte de Toya? O que isso significa? - Ele desejava respostas. Essa luz o atraiu como uma mariposa para a luz e agora, ele descobriu, nÃ£o podia apenas deixÃ¡-la ir. Era como se ela o tivesse chamado inconscientemente e ele nÃ£o tivesse escolha senÃ£o responder.

Kyou rosnou baixo enquanto seus olhos brilhavam com sangue. Esta menina era perigosa. Ele nÃ£o era do tipo que precisa ou quer alguma coisa, nÃ£o durante sÃ©culos. Ele existia apenas para vingar-se. Ele teria que lidar com ela com cuidado. Ele nÃ£o confiava em si mesmo em torno dela. De alguma forma, ela o capturou e o que o irritava imensamente era que esta menina tinha, de alguma forma, o tornado fraco.



*****



Murmurando algo sobre reuniÃµes de alcoÃ³latras anÃ´nimos, Toya levou Kyoko para o quarto dela e gentilmente colocou-a na cama. Voltando rapidamente para a porta da frente, ele a trancou usando o trinco, jÃ¡ que ele quebrou a fechadura normal.

- Ainda bem que ela sÃ³ tinha trancado a maÃ§aneta - ele encolheu os ombros e olhou em volta para a solidÃ£o do apartamento. Era muito diferente do rugido ensurdecedor que estava na boate. Estava quase calmo. Tirando os sapatos, ele suspirou:

- Que noite. - Ele deixou seus ombros relaxar pela primeira vez o dia todo enquanto caminhava silenciosamente para onde sua Kyoko estava deitada.

O luar fluÃ­a na janela, lanÃ§ando um brilho etÃ©reo sobre seu corpo. O rosto de Toya se suavizou ao olhar o rosto dela. Seu corpo magro pousava na cama com as mÃ£os meio relaxadas em cada lado da cabeÃ§a. Parecia um anjo, tÃ£o em paz e tÃ£o inconsciente do perigo que passou. A mÃ£o de Toya se apertou ao pensar nisto. Ele teve vontade de sacudi-la e acordÃ¡-la para lhe dar alguns bons conselhos, mas ele nÃ£o faria isso.

Um franzir marcou o rosto de Toya, enquanto pensava em como ela foi parar naquele beco, sozinha, desmaiada, mas ilesa. Sem querer olhar um cavalo dado nos dentes, ele decidiu agradecer aos guardiÃµes que cuidavam dela, quem quer que fossem.

Pelo resto da noite, Kyoko estaria segura com ele. Isso era tudo o que importava.

Um brilho travesso cintilou em seus olhos quando ele tirou os sapatos dela e puxou as cobertas sobre a sua forma adormecida. Ela provavelmente o matarÃ¡ amanhÃ£, mas ... Toya engatinhou na cama e puxou o corpo dela contra o dele.

Normalmente, pensamentos ligeiramente sujos preenchiam sua mente como muitas vezes acontecia quando ele estava em casa sozinho. No entanto, por algum motivo, esses pensamentos pareciam errados no momento. Havia algo sobre ficar aqui com ela, que parecia ... inocente? Ele balanÃ§ou ligeiramente a cabeÃ§a e se aconchegou perto dela.

Segurando-a firmemente, ele agradeceu a qualquer deus que estivesse no cÃ©u por ela estar sÃ£ e salva, e no lugar a que ela pertencia. TÃª-la em seus braÃ§os parecia tÃ£o certo que ele decidiu saborear o momento. De manhÃ£, isso poderia ser fatal, mas se ele morresse, pelo menos morreria feliz.

Kyoko suspirou em contentamento, aconchegando-se mais perto do calor protetor que cercava seu corpo.

Um sorriso suave enfeitou os lÃ¡bios de Toya enquanto ele gentilmente beijou a testa dela e acabou caindo no sono tambÃ©m.



*****



O corpo de Kyou levitou atÃ© a janela, onde ele sentia o aroma dela ficar mais forte. Os orbes de ouro fundido se abriram com o choque da cena que se desenrolava bem diante de seus olhos. LÃ¡, no quarto onde Kyoko estava deitada, entrou um jovem com olhos dourados e longos cabelos da meia-noite repletos de mexas prateadas que combinavam com os de Kyou.

Ele sentiu como se o ar tivesse sido roubado de seus pulmÃµes enquanto a imagem espelhada de seu irmÃ£o assassinado estava ao lado da cama, olhando para a garota adormecida que ele vira para sequestrar.

Sua mÃ¡scara gelada desapareceu completamente Ã  vista desse menino que se parecia com seu amado irmÃ£o.

- Como isso Ã© possÃ­vel? - Lembrar a primeira palavra que ela falara com ele fez seu peito doer. Ela o chamou de Toya por engano e agora, aqui em seu quarto, estava a imagem de Toya?

Kyou tentou captar um perfume, tentando provar o que seus olhos lhe diziam, mas sua mente nÃ£o conseguia compreender. O cheiro de seu irmÃ£o estava ligeiramente misturado com o cheiro desse menino, mas antes que ele pudesse contemplar mais sobre isso, o menino engatinhou para a cama e passou seus braÃ§os possessivamente em torno dela.

Um tiro de ciÃºme disparou pelo corpo inteiro de Kyou enquanto a garota se aconchegava no abraÃ§o do jovem. Um grunhido de advertÃªncia vibrou dentro de seu peito quando seus olhos brilharam vermelho brevemente. IrmÃ£o ou nÃ£o, ele nÃ£o permitiria isso.

Ele tentou alcanÃ§ar a janela ao mesmo tempo em que uma cascata de brilho a cobriu, fazendo com que ele recolhesse a mÃ£o. Ao ver o pÃ³ de arco-Ã­ris se instalar no peitoril da janela como se fosse para protegÃª-la, ele rosnou novamente. A menina parecia estar cercada por tudo o que era sobrenatural e o imortal estava com os nervos Ã  flor da pele.

Seus olhos se estreitaram ao se perguntar se era apenas um feitiÃ§o de um mago que lhe permitia ver seu irmÃ£o. SerÃ¡ que ela tinha lanÃ§ado o feitiÃ§o sobre ele quando ela sussurrou o nome de seu irmÃ£o morto?

Sua atenÃ§Ã£o se afastou da janela para olhar para o chÃ£o abaixo dele. O lobo estava chegando. Ele enviou mais um olhar assassino ao quarto antes de levitar rapidamente para o telhado.

Toya tinha acabado de adormecer quando ouviu um grunhido animalesco que parecia estar vindo da janela de Kyoko.

- Isto nÃ£o estÃ¡ certo. Ela estÃ¡ no segundo andar. - Os olhos de Toya se abriram ao ouvir o som novamente.

Levantando a cabeÃ§a levemente para nÃ£o perturbar Kyoko, ele olhou para a janela de onde o som estava vindo. Todo instinto em seu corpo lhe dizia que alguÃ©m ou alguma coisa estava lÃ¡, observando-os.

Seu olhar se fechou na sombra do que parecia ser um homem. Parecia que ele estava de pÃ© na janela, mas no segundo andar? Um contorno de prata ondulava em torno de sua forma e o fazia parecer quase fantasmagÃ³rico. Toya tinha visto essa apariÃ§Ã£o antes, em pesadelos.

Olhos dourados de sol estavam concentrados no chÃ£o, mas Toya podia vÃª-los reluzir vermelhos por apenas um momento e ele poderia jurar que ele tambÃ©m viu o brilho das presas. A imagem tremeluzia Ã  medida que flocos metÃ¡licos de pÃ³ multicolor choveram na janela como se estivessem bloqueando a vista.

Toya sacudiu a cabeÃ§a e piscou rapidamente antes de olhar para a janela mais uma vez, apenas para encontrÃ¡-la agora vazia.

â Que merda foi essa?

Sentindo-se mais do que um pouco enervado, ele saiu da cama e foi atÃ© a janela. Olhando para fora, ele foi saudado com apenas sombras e escuridÃ£o. Inalando profundamente, ele franziu a testa percebendo um perfume incomum persistente que ele nÃ£o reconhecia.

Um grunhido irritado escapou de seus lÃ¡bios enquanto tentava identificÃ¡-lo. Decidindo que talvez fosse apenas a sua imaginaÃ§Ã£o exagerando devido aos eventos daquela noite, ele verificou uma vez mais para ter certeza de que nÃ£o era nada.

Temporariamente satisfeito de que era mesmo desvanecimento, ele se arrastou de volta para a cama com Kyoko, mantendo um olho aberto por um tempo, sÃ³ para garantir.



*****



Kotaro ficou embaixo da janela de Kyoko sentindo a presenÃ§a do vampiro que ele encontrou no beco ao lado da boate. Embora ele nÃ£o tenha dado uma boa olhada no andarilho noturno, ele tinha certeza de que era Kyou. Ele podia sentir o poder frio e silencioso de Kyou e era algo que ele nÃ£o queria que estivesse em nenhum lugar perto de Kyoko. Kyou era um enigma e nÃ£o podia ser confiÃ¡vel.

Com um grunhido, sua velocidade inigualÃ¡vel levou-o ao segundo andar, do lado de fora da porta de Kyoko, em um piscar de olhos.

Olhando, ele se acalmou um pouco quando sentiu o perfume de Kyoko, forte e recente. Ele confirmou "sem sanguessugas dentro de casa", mas um grunhido irritado escapou de seus lÃ¡bios quando captou o aroma de Toya, tÃ£o fresco quanto o de Kyoko. Toya tambÃ©m entrou no apartamento, mas nÃ£o voltou. Colocando a mÃ£o na maÃ§aneta da porta, Kotaro virou-a e descobriu que estava quebrada.

Quebrada, mas aparafusada. - Mas que... rosnou ele com raiva da evidÃªncia de que a porta fora forÃ§ada.

Kotaro segurou sua mÃ£o em sua frente, observando enquanto as garras se estendiam e diminuÃ­am nas pontas. NÃ£o existia fechadura que ele nÃ£o pudesse abrir e a fechadura de Kyoko nÃ£o era nada adequada. Kotaro sorriu arrogantemente enquanto colocava sua garra na fechadura. Mexendo ligeiramente, ele ouviu um clique satisfatÃ³rio.

Com o sigilo de uma sombra, ele entrou no apartamento, fechando a porta suavemente.

Ouvindo nada alÃ©m de silÃªncio, seguiu o caminho que o aroma de Kyoko tinha deixado para ele. Um momento depois, ele encontrou-se de pÃ© na porta do quarto. Seus olhos azuis e abrasadores, afiados como uma lÃ¢mina, concentraram-se na sensaÃ§Ã£o desconfortÃ¡vel que atravessou seu corpo.

NÃ£o sabendo o que acharia do outro lado, ele lentamente abriu a porta.



*****



Kamui decidiu ficar invisÃ­vel enquanto via Kotaro entrar no apartamento de Kyoko. NÃ£o era como se estivesse se escondendo de seu amigo, nÃ£o, nÃ£o era isso de jeito nenhum. Mas sabendo quem estava na cama de Kyoko no momento, bem ... ele achou melhor ficar invisÃ­vel em vez de se tornar um alvo se a casa caÃ­sse.

Ele tinha feito o que podia para manter Kyoko segura durante toda a noite, mas no que tangia Toya, o guardiÃ£o de prata estava sozinho nessa. Kamui silenciosamente se contorceu quando Kotaro abriu a porta do quarto.

A visÃ£o que cumprimentou Kotaro era quase mais do que ele podia compreender. Deitado na cama estava aquele cÃ£o imundo, Toya! Segurando-a como se ela pertencesse a ele e a ninguÃ©m mais. Seus braÃ§os estavam bem envoltos no corpo inconsciente dela e um sorrisinho satisfeito enfeitava seus lÃ¡bios.

Um grunhido escapou de Kotaro enquanto avanÃ§ava sobre o casal perdido em seus prÃ³prios sonhos.

- Seu ladrÃ£o sem vergonha! - Os pensamentos de Kotaro rugiram em sua mente e seus olhos comeÃ§aram a sangrar com raiva. Quase perdendo controle, ele agarrou e jogou seu rival para fora do quarto sem acordar Kyoko.

Toya nÃ£o sabia o que pensar quando foi arrancado da cama pela gola de sua camisa e literalmente jogado para fora do quarto para aterrissar bem na sala de estar. Antes mesmo de ter tempo de recuperar seus sentidos adormecidos, Toya foi mais uma vez apanhado pelo pescoÃ§o.

Desta vez, ele sabia quem ele estava enfrentando. Olhos dourados furiosos se fixaram nos azuis gelados enquanto seu corpo era rebocado quase sem esforÃ§o no ar.

Ainda invisÃ­vel, Kamui correu do sofÃ¡ enquanto observava Toya pairar sobre ele. Ele agora se instalou na bancada da cozinha para assistir a diversÃ£o. Olhando para a porta de Kyoko, ele acenou com uma mÃ£o naquela direÃ§Ã£o, colocando um escudo lÃ¡ para evitar que o ruÃ­do a acordasse.

Ele voltou sua atenÃ§Ã£o para seus dois amigos que estavam prontos para arrancar a cabeÃ§a um do outro.

- Assim como nos velhos tempos - Kamui sorriu secretamente desejando que houvesse uma pipoca para o show. - Tudo o que preciso agora Ã© uma tabela de apostas e dinheiro. - silenciosamente arqueou uma sobrancelha, perguntando-se sobre em qual deles apostaria.

Kotaro resmungou, tentando evitar que a sede de sangue entrasse em seus penetrantes olhos azuis de cobalto.

- O que diabos vocÃª achou que estava fazendo na cama de Kyoko? - Sua voz tinha uma pitada de morte como se a resposta de Toya decidisse se ele mais tarde seria encontrado vivo ou nÃ£o. Os modos de Kotaro prometiam retribuiÃ§Ã£o se a resposta provasse ser uma que ele nÃ£o achasse aceitÃ¡vel.

- Droga, seu imbecil. Me larga! - Toya agarrou os dedos apertados em torno de seu pescoÃ§o com uma mÃ£o, e com a outra ele atacou com um golpe que deveria ter abalado o crÃ¢nio de Kotaro.




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