A Atriz
Keith Dixon






A ATRIZ

ââââââââ

KEITH DIXON



TraduÃ§Ã£o de Elaine Cristine Franco



Editor: Tektime




Table of Contents


Title Page (#ua4f9d19e-6125-53f0-84e3-b336cccfacc4)

A Atriz (#u52e4296c-4298-5cfa-8caa-b46cd3749e2c)

CAPÃTULO UM (#u419b54ef-def4-5a54-a132-4baaa532be80)

CAPÃTULO DOIS (#u5f526fca-dd7e-540f-acb2-b3c5b0d9691d)

CAPÃTULO TRÃS (#u1ff70de3-a35b-5138-8a7c-dab4df868d08)

CAPÃTULO QUATRO (#u126e3d19-c455-5ad7-9b20-f734aa51586b)

CAPÃTULO CINCO (#u4d23a819-12c3-59cc-9263-affd7f2b604f)

CAPÃTULO SEIS (#u3166dc29-81eb-505f-962c-a87e962a7a50)

CAPÃTULO SETE (#u50d9f930-5956-5530-ba46-31e078281836)

CAPÃTULO OITO (#litres_trial_promo)

CAPÃTULO NOVE (#litres_trial_promo)

CAPÃTULO DEZ (#litres_trial_promo)

CAPÃTULO ONZE (#litres_trial_promo)

CAPÃTULO DOZE (#litres_trial_promo)

CAPÃTULO TREZE (#litres_trial_promo)

CAPÃTULO QUATORZE (#litres_trial_promo)

CAPÃTULO QUINZE (#litres_trial_promo)

CAPÃTULO DEZESSEIS (#litres_trial_promo)

CAPÃTULO DEZESSETE (#litres_trial_promo)

CAPÃTULO DEZOITO (#litres_trial_promo)

CAPÃTULO DEZENOVE (#litres_trial_promo)

CAPÃTULO VINTE (#litres_trial_promo)

CAPÃTULO VINTE E UM (#litres_trial_promo)

CAPÃTULO VINTE E DOIS (#litres_trial_promo)

CAPÃTULO VINTE E TRÃS (#litres_trial_promo)

CAPÃTULO VINTE E QUATRO (#litres_trial_promo)

CAPÃTULO VINTE E CINCO (#litres_trial_promo)

CAPÃTULO VINTE E SEIS (#litres_trial_promo)

CAPÃTULO VINTE E SETE (#litres_trial_promo)

EPÃLOGO (#litres_trial_promo)







Semiologic Ltd.

Copyright Keith Dixon 2013

Publicado por Semiologic Ltd

Keith Dixon garantiu seu direito sob a Lei de Direitos

Autorais, Projetos e Patentes de 1988, para ser identificado como

autor desta obra.

Todos os direitos reservados.

Este livro nÃ£o pode ser reproduzido no todo ou em parte, por

mimeÃ³grafo, fotocÃ³pia ou qualquer outro meio, eletrÃ´nico ou

fÃ­sico, sem a permissÃ£o expressa e por escrito do autor.

Qualquer semelhanÃ§a com alguÃ©m vivo ou morto Ã© pura

coincidÃªncia.

Para todos aqueles que interpretam, em qualquer esfera.

PART 1

Fantasia














CAPÃTULO UM







ELA NÃO TINHA NOTADO o tamanho considerÃ¡vel dos poros do nariz e do queixo dele atÃ© agora. Conforme ele se aproximava ela ficava fascinada por eles, tinha que desviar seu olhar para nÃ£o fixar seus olhos neles.

âQuerida,â ele disse, âEu acho que vocÃª ainda nÃ£o conseguiu. Lembre-se, Nina Ã© uma menina prestes a se tornar uma mulher. VocÃª pode me mostrar? VocÃª pode se tornar uma mulher sendo ainda uma menina?â

âEu entendo,â disse Mai.

âEntende, querida? Estamos aqui no inÃ­cio de uma grande missÃ£o. Eu preciso ver se vocÃª Ã© capaz de ser Nina. HÃ¡ muita responsabilidade nas suas costas e eu preciso ver se vocÃª nÃ£o vai me desapontar.â

`Eu estou aqui para atuar, Pedro. Eu conheÃ§o o roteiro. Eu sei minha parte. Podemos tentar novamente?â

Os olhos dele mostravam claramente que ele estava impressionado. Mas apertou brevemente sua boca em submissÃ£o e entÃ£o ele mexeu os ombros, externando deliberadamente o que sentia. Ela imaginou se isso era uma tÃ©cnica de ensino.

O resto do elenco se alinhou ao lado do corredor da extinta escola que eles estavam usando para os ensaios. Alguns estavam cansados, lendo notÃ­cias, passando mensagens de texto. Um casal estava conversando quando Pedro estava dando orientaÃ§Ã£o individual. Ã o primeiro dia e a letargia jÃ¡ havia se instalado. Mais um mÃªs assim, pensou Mai, e eu tambÃ©m posso desistir. Que nÃ£o seja nessa primeira noite. Manchete trÃ¡gica: Atriz em ascensÃ£o morre de tÃ©dio antes da estreia. Diretor entusiasmado procura por substituta.

Pedro tinha ido se sentar. Ele empurrou a cauda da sua jaqueta creme e se sentou com a extravagÃ¢ncia de um cisne aterrissando em Ã¡gua plÃ¡cida, com as pernas esticadas e os braÃ§os estendidos sobre o encosto das cadeiras de plÃ¡stico que estavam de cada lado dele. Ele moveu a cabeÃ§a em sinal de concordÃ¢ncia para ela. Ela foi para o set de filmagem e iniciou sua fala mais uma vez, sua voz ia subindo para o corredor. Sua fala era longa e cheia de abstraÃ§Ãµes. Falou da natureza, da vida e explicou que ela era a alma do mundo que compreendia todas as coisas.

Pedro virou a cabeÃ§a para olhar para fora da janela. Um cÃ©u de inverno, como uma partitura. No parque, Ã¡rvores sem folhas como esqueletos de dedos erguidos para cima. Vozes de crianÃ§as ainda ecoando cerca de dez anos depois de a escola ter sido fechada por falta de interesse.

Ela fez uma pausa mostrada no texto e esperou um sinal antesde prosseguir. EntÃ£o ela sentiu uma mudanÃ§a em sua voz â e sabia que a prÃ³xima seÃ§Ã£o seria melhor, sabia que sua tÃ©cnica tinha sido alcanÃ§ada de acordo com o significado do parÃ¡grafo.

Pedro se voltou para ela e levantou a mÃ£o de forma pÃ¡lida. Era sinal de âpararâ gesto que ela jÃ¡ estava comeÃ§ando a reconhecer.

Ele se levantou e veio em direÃ§Ã£o a ela outra vez, com suas solas de couro marcando o piso de madeira.

âSim,â ele disse. âSim. Eu percebo o que vocÃª estÃ¡ fazendo. Alterando a sua voz. VocÃª estÃ¡ adicionando alguma importÃ¢ncia, alguma ... bravura. Mas veja, isso nÃ£o vai funcionar. Eu conheÃ§o os truques. E se eu conheÃ§o os truques, os outros tambÃ©m conhecem. NÃ£o temos truques aqui. VocÃª me entende?â

Mai percebia que suas bochechas estavam vermelhas. Parecia nÃ£o haver nenhuma maneira de fazer com que este homemfi e feliz. Ela nÃ£o ousou olhar para os outros atores no caso de estarem assistindo. Em vez disso, ela olhou para baixo e esperou que ele falasse alguma coisa. Qualquer coisa.

O silÃªncio se estendeu atÃ© que ela finalmente olhou para ele, com raiva em seus olhos. Desta vez ele sorriu, mostrando os dentes quadrados como uma lÃ¡pide e amarelados pelo cigarro.

Ele pensou que ele tivesse ganhado a batalha.

âVocÃª Ã© uma garota inteligente mas nÃ£o vai conseguir o que quer comigo. Eu fiz isso muitas vezes. VocÃª ... vocÃª Ã© uma garota da televisÃ£o. VocÃª nÃ£o entende de ensaios. VocÃª tem algum talento mas acha que ensaiar Ã© estar no lugar certo e saber onde a cÃ¢mera estÃ¡ para poder ignorÃ¡-la.â

âVocÃª nÃ£o precisa me insultar, Pedro. Trate-me como um ser humano e eu farei o que vocÃª quiser.â

Seus pequenos olhos se tornaram como bolinhas de gude.

âNÃ£o Ã© uma questÃ£o do que eu quero, Mai. Ã uma questÃ£o do

que temos aqui juntos. Eu tenho algumas ideias e... provavelmente vocÃª tambÃ©m. EntÃ£o â o que podemos fazer juntos? Me diz.â

Alguns membros do elenco tinham ouvido o tom da conversa e seus rostos se voltaram em direÃ§Ã£o a eles. Ela sentiu a atenÃ§Ã£o deles com o calor do seu rosto.

Mai tinha tolerado muitos diretores quando trabalhava no TerraÃ§o Amberside, um programa de televisÃ£o de longa duraÃ§Ã£o. Ela aprendeu que ninguÃ©m podia discutir com um diretor. O melhor que poderia fazer era nÃ£o ofendÃª-los. Eles iriam partir e vocÃª ainda estaria lÃ¡, mais exaustos e um pouco mais cÃ­nicos, mas ainda recebendo o pagamento. E ela se lembrou de que estÃ¡ aqui para aprender.

Ela procurou se acalmar e disse: âEu preciso pensar sobre o que vocÃª estÃ¡ dizendo. Vamos voltar ao inÃ­cio da cena para que eu possa trabalhar isso e acertar.â

âEsta Ã© a decisÃ£o de uma garota sensata. Eu concordo. Vamos voltar.â

Ele se virou para um elenco agora atento. âNÃ³s comeÃ§amos a primeira cena. Jeremy, vocÃª pode vir aqui, por favor?â

Mai olhou para os outros atores, seu rosto era uma mÃ¡scara completamente branca.

Na pausa para o cafÃ©, Lucy sentou-se perto dela com uma sacola de sanduÃ­ches. Ela os pegou e os colocou em um guardanapo que ela tinha colocado cuidadosamente sobre suas pernas. Ela era alguns anos mais velha que Mai, uma linda loira com um bronzeado profundo que ela teria que perder antes da noite de estreia. Ela dava a impressÃ£o de alguÃ©m que estava sendo processada por um crime que ela nunca tinha cometido â forma sombria e serenamente em desacordo com o mundo.

Sem olhar para Mai, ela disse, âEle Ã© sempre assim no inÃ­cio. Fica polindo sua reputaÃ§Ã£o. NÃ£o dÃª importÃ¢ncia.â

Mai descascou sua laranja, colocou as cascas dentro da sacola, sempre meticulosa como sua mÃ£e.

âEu estou acostumada com homens que agem como estÃºpidos. Ele nÃ£o quis escutar.â

âEle vai. Ele viu vocÃª na televisÃ£o. Todos nÃ³s vimos.â

âNÃ£o Ã© a mesma coisa, nÃ£o Ã©? Dez segundos de emoÃ§Ã£o uma vez por mÃªs. O restante do tempo Ã© cumprindo metas e recitando as falas. Ele nÃ£o estava tÃ£o errado.â

Lucy fez uma pausa com metade do lanche em sua boca, franziu as sobrancelhas, e entÃ£o se virou para Mai.

âNÃ£o deixe que ele ouÃ§a vocÃª dizer isso. NÃ£o demonstre nenhuma fraqueza ou ele a usarÃ¡ contra todos nÃ³s.â

âO que vocÃª quer dizer?â

âEle vai usar vocÃª como exemplo, vai brigar com vocÃª por causa do seu desempenho para alimentar sua raiva e depois vai descontar em nÃ³s. Eu jÃ¡ vi isso.â

âE se eu precisar de ajuda?â

âPergunte a um de nÃ³s. Eu jÃ¡ trabalhei com ele antes. Assim como Jeremy e Linda, nÃ³s sabemos o que ele quer.â

âSe ele Ã© assim tÃ£o estÃºpido como vocÃª diz, por que vocÃª estÃ¡ trabalhando com ele de novo?â

Lucy mastigou e engoliu. âPor causa da crÃ­tica, sua tonta. Os atores dele sempre recebem boas avaliaÃ§Ãµes. NÃ³s lutamos com ele como gatos, mas todos conseguimos uma boa crÃ­tica.â

Mai pensou, olhando para frente.

âEu posso conviver com isso. Eu preciso.â

âPorque isso Ã© um risco para vocÃª.â

âVocÃª poderia dizer. Primeira vez num palco real desde a escola.â

âVocÃª foi corajosa ao desistir de um trabalho na televisÃ£o. Eu teria dado meu seio esquerdo por essa oportunidade.â

âVocÃª pode se poupar, diferentemente de mim.â

Lucy sorriu forÃ§adamente. âIsso acontece Ã s vezes. Por causa dos idiotas que a gente encontra nessa profissÃ£o.â

Dois atores mais velhos se levantaram no final do corredor e saÃ­ram para fumar. Um deles se virou e apontou o dedo para ela. Ela nÃ£o sabia se ele estava ironicamente dando um sinal de apoio ou sugerindo que ela seria despedida. Ator experiente encontrado estrangulado pela alÃ§a do sutiÃ£ de uma atriz em ascensÃ£o. Poderia acontecer ...

Lucy desrosqueou a tampa de uma garrafa de suco.

Ela disse, âPor que vocÃª estÃ¡ fazendo isso?â

âVai fazer um lanche?â

âNÃ£o, boba. Estou fazendo uma velha brincadeira para um teatro a ponto de quebrar. Com um diretor que parou nos anos sessenta.â

âVocÃª faz isso parecer tÃ£o agradÃ¡vel.â

âExatamente. Quero dizer que estou alegre e tenho certeza que teremos um grande pÃºblico porque vocÃª estÃ¡ aqui. Mas vocÃª tem que admitir que Ã© um retrocesso do horÃ¡rio nobre da TV.â

Mai tinha passado por isso vÃ¡rias vezes com Eric e sua mÃ£e, nenhum deles considerava correr riscos como uma atividade que valesse apena.

âEu queria melhorar. Eu estava entediada. VocÃª pode muitas vezes abrir seus olhos e dizer, âVocÃª nÃ£o pretende ... !â ou, âEu nÃ£o acredito em vocÃª!â

âEu estava querendo dizer que era um caminho difÃ­cil a percorrer. Eles estarÃ£o sempre prontos com suas facas apontadas para vocÃª. VocÃª sabe como Ã© a imprensa.â

âEu posso lidar com uma briga,â disse Mai. âDe qualquer modo, eles tÃªm estado do meu lado nos Ãºltimos dois anos. Ele nÃ£o vÃ£o mudar assim tÃ£o rÃ¡pido.â

Lucy rosqueou a tampa da garrafa de suco e, inesperadamente, lanÃ§ou-a com maldade em Jeremy, que levantou seus ombros para se proteger e sorriu.

Ela disse, âEspero que seu assessor seja bom em se desviar das crÃ­ticas.â

âEu continuo esperando que ele seja bom em alguma coisa.â

Como ela esperava, a tarde nÃ£o foi melhor. Pedro abriu a cena para que os outros atores tivessem a chance de fazer alguma coisa. Eles precisavam de uma oportunidade para mostrarem seu trabalho, depois de tudo. Mas no final do dia ele dispensou todo mundo menos Mai e Jeremy. Ele chamou os dois juntos, colocou-os sentados em cadeiras paralelas como um conselheiro matrimonial, e comeÃ§ou a falar, sua voz era tanto de bajulaÃ§Ã£o quanto condescendente. Ele expÃ´s lentamente sua visÃ£o sobre a relaÃ§Ã£o entre os dois personagens, dando a cada um uma histÃ³ria que nÃ£o tinha sido detalhada no roteiro e, Mai pensou, foi inventada por ele para servir aos seus propÃ³sitos.

Conforme ela escutava as ideias de Pedro, Mai comeÃ§ou a imaginar se ela nÃ£o estava se enganando. Ela tinha ido direto da escola para seu papel na televisÃ£o. Aprendendo uma nova profissÃ£o, porÃ©m sem nenhum treinamento real ou tÃ©cnica. Conselhos de diretores e membros mais experientes do elenco, muitas aulas em grupo. E, logicamente sua mÃ£e. Geraldine Rose. Uma vez famosa, com diversos papÃ©is principais em alguns filmes ingleses antes de seu marido, o pai de Mai, cair morto no nono buraco, um dogleg par cinco, numa partida de golfe. Teve que parar de levar Mai e seu irmÃ£o mais velho, Jake. NÃ£o tinha que ter desistido, na realidade ... mas ela quis assim. NÃ£o podia suportar a proximidade de outras pessoas, outros atores. Toda aquela compaixÃ£o e piedade.

Mai nÃ£o dava muita importÃ¢ncia para a atuaÃ§Ã£o atÃ© ganhar o papel principal na versÃ£o escolar de A Streetcar Named Desire (Um Bonde Chamado Desejo) â representando Blanche Dubois com desessete anos. Atuou no Festival de Drama Nacional na categoria estudante, em Scarborough, Inglaterra, marcado e disputado por assessores atÃ© que ela se decidiu por Eric, por quem sua mÃ£e tinha conhecido quando jovem. Depois esteve por dois anos no TerraÃ§o Amberside, estagnada.

Agora, a maioria das coisas que Pedro estava dizendo a ela parecia sem sentido, mas ela nÃ£o tinha certeza. Diziam que ela parecia sempre confiante, mas que apesar do seu ar de certeza era possÃ­vel que ela estivesse perdendo alguma coisa.

Ela voltou sua atenÃ§Ã£o para o local onde Pedro estava dizendo alguma coisa ao Jeremy sobre o processo criativo. O personagem de Jeremy era um jovem dramaturgo que tinha escrito o roteiro pelo qual o personagem de Mai, uma garota inexperiente do interior, estava tendo o papel principal. Pedro tinha falado com o fervor de um evangÃ©lico, como se ele tambÃ©m tivesse sido alguma vez um jovem dramaturgo atuando numa peÃ§a teatral. Talvez seja verdade.

âEntÃ£o, queridos, vamos tentar de novo. Por favor, tenham em mente tudo o que eu disse. O jovem, a inocÃªncia, o desejo de mostrar ao mundo que estÃ¡ nascendo esta noite uma nova forma artÃ­stica, neste palco.â

Mai e Jeremy moveram as cadeiras para que pudessem se olhar e entÃ£o deram inÃ­cio Ã  cena.

Isso durou trinta segundos.

âParem!â

Eles se viraram para ver a mÃ£o de Pedro levantada acima de seu ombro como um agente do trÃ¢nsito.

âDesculpe. NÃ£o consigo mais. VÃ£o para casa agora e pensem cuidadosamente sobre o que fizeram hoje. Talvez amanhÃ£ teremos algumas ideias melhores.â

Ele inclinou seu peso pra frente da cintura como se fosse se jogar no chÃ£o. EntÃ£o com um suspiro ele colocou suas mÃ£os nos joelhos e empurrou seu corpo na posiÃ§Ã£o ereta, virando-se e indo embora sem dizer nenhuma palavra.

Quando ele deixou a sala, Jeremy disse, âNojento.â

Mai juntou suas coisas. âEle tem algum caminho a percorrer antes de ser nojento. Ele ainda estÃ¡ no estÃ¡gio de babaca.â

âAh, vocÃª tem mais experiÃªncia que eu.â

âEu sou uma garota. Eu percebo melhor as distinÃ§Ãµes sociais.â

Ele forÃ§ou um sorriso. âComo vocÃª estÃ¡ se sentindo atuando no palco? Com frio na barriga?â

âUm pouco. Eu seria uma tola se eu nÃ£o me preocupasse sobre ser capaz de fazer isso.â

âPelo que eu estou vendo vocÃª se darÃ¡ bem.â

Ela sorriu e nÃ£o disse nada. Uma expressÃ£o de coragem foi suficiente para esta situaÃ§Ã£o. Mas ela jÃ¡ estava imaginando se ela estava cometendo o maior erro da sua curta e prÃ³spera vida.














CAPÃTULO DOIS







ELA SE MUDOU PARA a estaÃ§Ã£o Docklands Light em Canary Wharf com uma vista bem movimentada, prÃ³ximo ao condutor. NÃ£o tanto um condutor, ela pensou, mas alguÃ©m que joga um vÃ­deogame. Olhe para a enorme janela frontal que parece uma tela de plasma de sessenta polegadas e gire o botÃ£o que coloca o trem em movimento. Gire de volta para reduzir, e entÃ£o pressione algo que abra e fecha as portas. Deveria ganhar pagamento extra para evitar que eles fugissem pela porta e ao descer na plataforma, esmagados pelo tÃ©dio. Atriz em ascensÃ£o num resgate herÃ³ico de trem. Salva a vida de 54 passageiros que estavam muito ocupados lendo The Girl with the Squirrel Tattoo (A Garota com a Tatuagem de Esquilo) para perceberem que o trem estava sem condutor...

Ela alugou um apartamento em uma casa Georgiana em Greenwich, cinco minutos da estaÃ§ao. A casa em si estava Ã  venda em um dos mais legais escritÃ³rios imobiliÃ¡rios locais, por quase um milhÃ£o de libras (aproximadamente quatro milhÃµes e duzentos mil reais), a proprietÃ¡ria tinha decidido que a vida no sul da FranÃ§a oferecia mais oportunidades que o sul de Londres para laÃ§ar um marido rico. Consequentemente a casa lentamente seguia a lei do caos e desmoronava pelo mau estado de conservaÃ§Ã£o â porta frontal arranhada, janelas sujas, calhas quebradas, aquecedores com chiados de gansos de infantaria. O Volvo de Billie jÃ¡ estava estacionado em uma das vagas da frente, tÃ£o grande que estava espremido dentro da vaga como um adulto amontoado numa cama infantil.

Quando ela destrancou a porta do apartamento e entrou, os cachorros correram atÃ© ela imediatamente, pulando e empurrando suas pernas, fazendo barulhos ofegantes. Billie veio da cozinha com uma caneca em suas mÃ£os.

Mai disse, âSinto-me como um marido chegando em casa vindo de uma mina de carvÃ£o. Deveria estar perguntando se o meu chÃ¡ estÃ¡ pronto.â

âPensei que deveria esperar atÃ© vocÃª chegar. Guardar as coisas e tudo mais.â

Billie era uma mulher de aproximadamente trinta anos com cabelos ruivos ondulados e um rosto amigÃ¡vel. Ela vestia jeans e um suÃ©ter azul escuro: roupa especial para uso externo. Ela caminhava com os cÃ£es da Mai desde que ela os pegou, quase um ano atrÃ¡s, mas era agora o mÃ¡ximo que Mai poderia ter de uma amiga, todos os outros tinham se espalhado como o vento quando sairam da escola. Ãs vezes ela pensava se nÃ£o era estranho nÃ£o precisar de outras pessoas, mas isso era uma caracterÃ­stica que ela jÃ¡ reconhecia em si mesma desde os quatorze anos. Ela tinha companhia suficiente no trabalho e nÃ£o sentia necessidade de companhia em casa.

Ela tirou seu casaco, afagou as costas dos seus dois cachorros, que se entrelaÃ§avam em forma de oito entre suas pernas, balanÃ§ando o rabo vigorosamente.

âDesculpe, estou atrasada. Tive um trabalho extra.â

âComo foi? As coisas no seu primeiro dia.â

Mai mexeu os ombros. Ela nunca gostava de falar sobre seu trabalho. Parecia pretensioso, atÃ© mesmo para seus prÃ³prios ouvidos.

âO diretor Ã© um idiota, mas as outras pessoas sÃ£o legais. EstÃ¡ frio lÃ¡ fora. NÃ£o vÃ¡ congelar atÃ© a morte.â

âRoupa especial para uma passeadora de cÃ£es moderna. Nenhuma chance de congelar.â

âQuanto tempo vai levar?â

âEstarei de volta em uma hora e meia, a menos que vocÃª queira mais tempo.â

âEu posso estar no banho.â

Billie achou as coleiras dos cachorros e as colocou neles. Era o Ãºnico momento em que eles ficavam parados, pelo menos atÃ© travar as coleiras. EntÃ£o ficavam frenÃ©ticos novamente, girando em volta das pernas da Billie como sabonetes atÃ© ela mandÃ¡-los parar e caminharem atÃ© a porta.

Quando Billie saiu, Mai foi atÃ© a geladeira e pegou a outra metade de uma lasanha que ela tinha preparado no dia anterior. Ela colocou no microondas por alguns minutos, se sentou no sofÃ¡ em frente Ã  televisÃ£o e colocou no canal de notÃ­cias das dezenove horas. PolÃ­ticos estavam sendo entrevistados em um cenÃ¡rio azul brilhante. EntÃ£o mostrou uma reportagem filmada no MÃ©xico. Uma reuniÃ£o esportiva. O mundo monÃ³tomo e comum.

Ela terminou a lasanha, tirou seu iPad da bolsa e foi verificar seus e-mails. Recorrentes e-mails de fÃ£s, marketing de feriado, piadas enviadas pela sua mÃ£e, que parecia pensar que ninguÃ©m mais acessava o Facebook, entÃ£o ela precisava reenviar tudo que encontrava lÃ¡.

Recebeu uma notificaÃ§Ã£o de mensagem no celular, entÃ£o ela o tirou do bolso de seu casaco. Seu amigo Stefan: VocÃª quer sair com a gente esta noite? Todo mundo vai pro Dereks.

Ela digitou de volta: Pode ser. NÃ£o vou beber. Que horas?

Um momento depois veio a resposta: Ã s 9. NÃ£o vÃ¡ furar.

Ela respondeu: NÃ£o se preocupe. Te vejo lÃ¡.

Assim que desligou o telephone voltou sua atenÃ§Ã£o Ã  televisÃ£o. Um repÃ³rter estava do lado de fora da fachada de vidro dos escritÃ³rios do Daily Paper, um jornal sensacionalista que tinha iniciado suas atividades poucos meses antes, financiado por um oligarca russo que procurava por alguma coisa interessante para investir sua fortuna. O que tinha atraÃ­do a atenÃ§Ã£o de Mai era o fato de que o reporter tinha mancionado o nome de âDeannahâ. Esse era o nome de uma heroÃ­na do ultimo livro que Mai havia lido, uma fantasia de uma Jovem Adulta pela qual uma garota de uma origem comum descobriu que ela tinha o poder de viajar dentro de um mundo alternativo, onde ela era conhecida como a filha problemÃ¡tica de um todo-poderoso, porÃ©m doente rei.

Ela aumentou o som.

âUma aÃ§Ã£o em que muitos estÃ£o dizendo que Ã© a Ãºltima tentativa deseperada do proprietÃ¡rio russo de aumentar o nÃºmero de seus leitores, o Daily Paper firmou colaboraÃ§Ã£o com um estÃºdio britÃ¢nico a fim de encontrar uma grande estrela para seu prÃ³ximo filme. O jornal irÃ¡ fazer uma pesquisa com seus leitores, pedindo a sugestÃ£o de uma atriz para fazer o papel de Deannah no filme Deannahâs Quest (A QuestÃ£o de Deannah), o best-seller da autora reclusa, Beatrice M. Kirwan. A ganhadora da pesquisa farÃ¡ o papel de Deannah e fecharÃ¡ um contrato de trÃªs filmes no valor acima de cinco milhÃµes de libras (mais de vinte milhÃµes e quinhentos mil reais). Os comentÃ¡ristas da indÃºstria tÃªm sido rÃ¡pidos em condenar tal decisÃ£o arriscada, como assim consideram, dizendo que um papel tÃ£o importante deveria ser escolhido por meio de uma audiÃ§Ã£o apropriada. O Daily Paper respondeu que eles estÃ£o procurando por uma nova brilhante estrela em seus primeiros passos para o sucesso. Ainda nÃ£o houve nenhum pronunciamento por parte do estÃºdio sobre esse assunto.â

As notÃ­cias retornaram ao estÃºdio e Mai desligou a televisÃ£o. Houve uma estranha sensaÃ§Ã£o de um buraco em seu estÃ´mago. Ela percebeu que nÃ£o era por causa da lasanha mas porque sentiu um desejo pelo papel de Deannah.

Ela se levantou e foi atÃ© o banheiro para tomar banho. Ela adicionou algumas gotas de ylang-ylang com propriedades calmantes, e entÃ£o ela tirou a roupa e deslizou para dentro da Ã¡gua perfumada, o aroma agridoce a envolvia.

Ela conhecia Deannah: a opiniÃ£o de que ela nÃ£o era quem todos pensavam que ela fosse; a sensaÃ§Ã£o de ser uma princesa incompreendida; a habilidade de se transpor facilmente entre o mundo real e o mundo da fantasia ... todas as caracterÃ­sticas que ela reconhecia e compartilhava. NÃ£o seria nenhum problema para ela fazer esse papel. Se seu papel como Steffi no TerraÃ§o Amberside era de um realismo melancÃ³lico, o de Deannah destroÃ§aria sua prÃ³pria identidade oculta â uma garota engraÃ§ada, inteligente e vivaz que bem poucas pessoas tiveram a oportunidade de conhecer.

Deus, ela quer esse papel.

Ela estava secando seu cabelo quando Billie retornou com os cÃ£es. Eles entraram alvoroÃ§ados em casa, correndo um atrÃ¡s do outro e correram para o quarto de hÃ³spedes, onde seus brinquedos ficam guardados. Billie foi para a cozinha e preparou seu jantar. Os cÃ£es correram assim que ouviram suas tijelas serem colocadas no piso de cerÃ¢mica e, momentos depois, Billie veio com um copo de cafÃ©, fazendo um sinal com a cabeÃ§a em direÃ§Ã£o Ã  cozinha.

âVocÃª nÃ£o precisa cozinhar quando chegar em casa. Eu poderia deixar alguma coisa pronta para vocÃª. Eu tenho minhas habilidades.â

âVocÃª estÃ¡ querendo dizer que minha perÃ­cia com o microondas nÃ£o Ã© boa o suficiente? Quero que saiba que eu preparei aquela lasanha com as minhas unhas quebradas.â

Billie sentou-se na ponta do sofa e ficou olhando Mai enxugar vigorosamente seus cabelos. Ela parecia sempre se interessar em observar Mai se arrumar, como se ela estivesse aprendendo segredos profissionais. Para ela, ela parecia ter feito o mÃ­nimo de cerimÃ´nia â jeans, um modelo desestruturado de blusa e botas pesadas que eram do tipo alfa e Ã´mega do seu guarda-roupas. Seu cabelo estava lavado, passou o secador de cabelos por dez segundos e entÃ£o, partiu para encontrar seu prÃ³prio caminho no mundo.

Mai tinha conseguido uma cÃ³pia da ediÃ§Ã£o de Deannahâs Quest. Estava no sofa ao lado de Billie, aberto no meio.

Billie pegou o livro, olhou a sinopse na parte de trÃ¡s e disse, âVocÃª ouviu falar sobre isso, entÃ£o? Eu imaginei que vocÃª pudesse ter se interessado.â

Mai nÃ£o quis demonstrar que estava tÃ£o interessada.

âPode ser que eu me interesse. Eu li o livro.â

âVocÃª seria louca se nÃ£o se interessasse. Isso foi feito para vocÃª.â

âPor que vocÃª diz isso?â

âVocÃª estÃ¡ na idade certa, vocÃª se encaixa com a descriÃ§Ã£o, vocÃª tem mais chances do que qualquer outra pessoa, nÃ£o concorda?â

âEu nÃ£o tinha pensado nisso.â

Billie levantou as sobrancelhas. âMinha mÃ£e costumava dizer que hÃ¡ apenas uma chance em uma boa carreira. Depois disso, vocÃª pode reorganizar as palavras sorte e chance em uma Ãºnica sentenÃ§a. Obviamente eu ainda estou trabalhando nisso, mas vocÃª jÃ¡ estÃ¡ voando alto. VocÃª nÃ£o quer que eu te conte a histÃ³ria do Dennis de novo, quer?â

O ex-namorado dela tinha se recusado a se promover como o novo James Morrison e no final Billie tinha o desencorajado. Escolher uma carreira era algo pela qual ela tinha comeÃ§ado recentemente a se considerar uma especialista.

Mai disse, âEu tenho que falar com o Eric.â

âQuerida, ele Ã© seu assessor. Ele farÃ¡ o que vocÃª pedir que ele faÃ§a. Ã assim que as coisas funcionam, nÃ£o Ã©?â

Mai nÃ£o disse nada e foi para o seu quarto. Ela vestiu um jeans e uma blusa larga, penteou seus cabelos e passou um pouco de maquiagem que ela costuma usar fora do horÃ¡rio de trabalho.

Billie ainda estava no sofa, acariciando a cabeÃ§a de um dos cÃ£es, Mai nÃ£o tinha certeza qual deles era. Ele apoiou sua cabeÃ§a na coxa de Billie, e ficava olhando fixamente para ela com uma adoraÃ§Ã£o doentia.

Mai disse, âDe qualquer modo, eu nÃ£o tenho certeza se quero entrar nessa disputa. SerÃ¡ como um reality show na TV, sem nenhuma classe.â

âO que preocupa vocÃª?â

âQuem disse que estou preocupada?â

âEu sei que vocÃª quer isso, mas nÃ£o estÃ¡ demonstrando nem um pouco de entusiasmo.â

Mai procurou um casaco leve em seu guarda-roupas e encontrou sua bolsa HermÃ¨s.

âPara realmente ser honesta eu nÃ£o sei se eu tenho tempo. Ficarei presa aos ensaios pelas prÃ³ximas quatro semanas e depois tem o Tornado â haverÃ¡ estrÃ©ias e assim por diante.â

Tornado era um filme que ela tinha terminado de gravar quase um ano atrÃ¡s, enquanto ainda estava fazendo o TerraÃ§o Amberside, e tinha levado muito tempo para o CGI (efeitos especiais) e a trilha sonora ficarem prontos. A abertura da peÃ§a tinha sido inteligentemente preparada para coincidir com a abertura do filme â os produtores esperavam ganhar dinheiro com qualquer burburinho que o filme pudesse gerar.

Billie mexeu os ombros mas Mai pÃ´de sentir que ela estava decepcionada: ela estava olhando para fora da janela observando os telhados escuros de Greenwich, como se de repente eles se tornassem interessados no assunto.

âDiga o que vocÃª acha, Billie. NÃ£o tenha medo de falar, como se eu fosse morder vocÃª.â

âEu acho que vocÃª vai se arrepender se o filme for um sucesso. Dizem que um diretor arrogante jÃ¡ se inscreveu.â

âIsso nÃ£o quer dizer nada. Os produtores poderiam atÃ© dizer que Spielberg e Lucas tinham demonstrado interesse, mas isso nÃ£o significa que eles estariam por trÃ¡s das cÃ¢meras quando comeÃ§asse a gravaÃ§Ã£o.â

Billie desviou de novo o olhar, numa incursÃ£o da crÃ­tica, no entanto oblÃ­qua, demonstrando uma certa ofensa. Ela nÃ£o tinha nenhum envolvimento real com o show-business e nÃ£o gostava quando Mai â ou qualquer pessoa â deixasse claro que os pensamentos e as ideias dela eram essencialmente de uma amadora.

Mai nÃ£o queria ferir seus sentimentos. âEu vou pensar sobre isso,â disse. âEu sÃ³ preciso descobrir como fazer.â

Billie sorriu. âEu sei que vocÃª seria Ã³tima.â

âEu tenho que lutar com essa maldita peÃ§a primeiro. O diretor jÃ¡ me odeia e continua falando sobre o âcontrato socialâ que Chekhov estÃ¡ tentando criar com o pÃºblico. Estou tentando achar sentido para a personagem.â

âQuerida, faÃ§a o que vocÃª sempre faz â utilize o sentimento humano. NÃ£o importa o contrato social, todos aqueles russos vitorianos eram humanos, nÃ£o eram?â

âQuando eu tiver alguma evidÃªncia, eu vou te contar.â

O taxi a levou diretamente para a porta do clube, de vez em quando o motorista olhava para ela, mas foi educado e agradeceu quando ela deixou a gorjeta.

O clube estava discretamente situado em um armazÃ©m reformado nÃ£o muito longe de Canary Wharf, tinha concessÃ£o exclusiva para o comÃ©rcio, com um pequeno pÃ³rtico marrom em forma de meia concha sobre a porta. Derek estava atrÃ¡s do bar com sua habitual jaqueta branca e camisa preta, dando instruÃ§Ãµes ao novo bartender sobre como misturar um de seus coquetÃ©is. HÃ¡ uma alta rotatividade no clube, em grande parte porque Derek Ã© um tirano quando as portas se fecham, no entanto, agradÃ¡vel quando estÃ¡ com seus clientes. Ele olhou para cima, sorriu abertamente para Mai e fez um sinal com a cabeÃ§a apontando para a parte de trÃ¡s do salÃ£o.

Embora houvesse uma caverna no andar de baixo que abrigava o espaÃ§o do DJ, Mai sabia que a maioria das pessoas que ela conhecia estava reunida no fundo do salÃ£o. Era um local mais tranquilo e mais fÃ¡cil para fofocar. O salÃ£o estava sutilmente iluminado como a cÃ¢mara escura de um fotÃ³grafo, facilitando evitar pessoas simplesmente por ficar de costas e ignorar a presenÃ§a deles. Assim que ela passou pela porta, dezenas de pares de olhos brilhantes se voltaram para ela, da mesma forma que uma alcateia de leÃµes que tinha acabado de avistar uma gazela.

Stefan a notou imediatamente, o rosto dele estava iluminado sob seus cabelos loiros e curtos. Ele veio atÃ© ela, pegou-a pelo braÃ§o e a conduziu para uma mesa vazia, uma forma solÃ­cita e comicamente exagerada. Ele vestia uma camisa justa cinza da Pineapple Studios e uma calÃ§a preta de sarja e estava com um leve brilho em sua pele, como se ele estivesse trabalhando. Eles se sentaram nas cadeiras de couro que Derek tinha garimpado de um falido clube de cavalheiros.

Stefan se inclinava intencionalmente.

âAgora, minha jovem, conte-me tudo. Como foi seu primeiro dia?â

âEu tenho que te contar?â

âVocÃª nÃ£o me negaria a possibilidade de fofocar, negaria? HÃ¡ alguma coisa que deva saber?â

âE eu que achava que vocÃª estava interessado em mim ... â

Os olhos de Stefan se arregalaram ainda mais. âOh, minha querida, eu estou. Eu realmente estou. Mas vocÃª precisa estabelecer algumas prioridades. NÃ£o vou negar a possibilidade de um romance. Agora me fale, como foi realmente? Assustador ou prazeroso?â

âEu nÃ£o conheÃ§o mais ninguÃ©m que usaria a palavra prazeroso numa conversa.â

Stefan abriu os braÃ§os como para dizer, Esse Ã© o milagre que eu faÃ§o.

Mai disse, âEles pararam de servir bebidas aqui?â

âHmm ... serÃ¡ que estou percebendo alguma relutÃ¢ncia em falar sobre hoje? Foi ruim?â

âVamos dizer que o Pedro nÃ£o escolheria ser muito diplomÃ¡tico. As perspectivas de carreira dele sÃ£o limitadas.â

âEle foi grosso?â

âEu acho que ele preferia dizer que foi honesto.â

âBem, minha opiniÃ£o Ã© ... dane-se.â

âEstou feliz que vocÃª demonstrou o que pensa.â

Stefan deu um sorriso forÃ§ado. âDeixe-me pegar um drink para te consolar. O de sempre?â

âPor favor. NÃ£o com muito vinho branco.â

Stefan foi atÃ© o bar para buscar o spritzer que ela tinha escolhido como sua bebida preferida. Agora que os olhos dela estavam aclimatados, ela olhou ao redor para as pessoas no salÃ£o â eles aparentavam na maioria vinte ou trinta anos, penteados deslumbrantes, sapatos brilhantes, incluindo seus dentes. Eram da mÃ­dia ou outro tipo â televisÃ£o, revista, moda. Ela conhecia muitos deles, ou pelo menos sabia o que faziam: Stefan era um experiente guia sobre quem era quem na mÃ­dia em Londres. Ele era um ano mais velho que ela e tinha ido direto da escola na Ã¡rea rural de Northampton para o centro de Londres, primeiro para estudar danÃ§a e depois para praticÃ¡-la. Ele tinha acabado de conseguir seu primeiro trabalho em uma companhia de danÃ§a contemporÃ¢nea. Ela estava orgulhosa dele.

Ele voltou e sentou-se prÃ³ximo Ã  ela, direcionando sua cadeira para dentro do salÃ£o e ficou como se estivesse assistindo Ã  televisÃ£o.

âEstÃ£o todos bem esta noite, bom para uma segunda-feira. Veja aquele garoto com bigode falhado â vocÃª o reconhece?â

âNÃ£o, nem o bigode.â

âGanhou a semifinal da Generation Ex na semana passada. Veio com aquela garota que estÃ¡ no bar, com os braÃ§os finos e com uma blusa azul do ExÃ©rcito da SalvaÃ§Ã£o. Logo ela serÃ¡ uma ex, eu acho.â

âComo vocÃª sabe essas coisas? Recebe algum e-mail que eu nÃ£o recebo?â

âUma hora de manhÃ£ fazendo ginÃ¡stica â sintonizo nas estaÃ§Ãµes certas e o mundo todo estÃ¡ lÃ¡. AlÃ©m de um fluxo de informaÃ§Ãµes do aplicativo MailOnline.â

âLinha direta com o Inferno.â

âEu sei, o que um viciado em fofoca poderia fazer? EntÃ£o me diga, como Ã© o Alfie?â

âVou dizer quando eu puder vÃª-lo.â

Stefan adquiriu uma feiÃ§Ã£o simpÃ¡tica e se virou para ela.

âOh querida.â

âEnsaios â piores que os meus. Parece que isso estÃ¡ acontecendo hÃ¡ meses. O primeiro show deles serÃ¡ esta semana.â

âAvise-me e eu irei com vocÃª. VocÃª pode precisar de uma desculpa se eles falharem. SÃ³ estou dizendo.â

âEu nÃ£o me importaria mas ele nÃ£o estÃ¡ mantendo contato. VocÃª sabe, meu primeiro dia de ensaio. Um pouco de interesse nÃ£o seria nada mal.â

âEle Ã© um garoto ocupado.â

âNÃ£o o defenda, Stefan. VocÃª se diverte muito com a situaÃ§Ã£o para ser um mediador.â

âVocÃª tem certeza que nÃ£o estudou em uma universidade? Grandes palavras.â

âA universidade da vida, meu filho. Um estÃºdio de televisÃ£o. Ou vocÃª aprende rÃ¡pido ou afunda. VocÃª cresce na velocidade da luz.â

âE se torna forte como velhas botas.â

Mai sorriu pela primeira vez. Stefan sabia que descrevÃª-la uma pessoa forte ativaria sua ironia. Ele tinha recebido muitas ligaÃ§Ãµes dela, tarde da noite nos Ãºltimos dois anos, para acreditar que ela tivesse qualquer traÃ§o de resistÃªncia.

Ele disse, âEntÃ£o vocÃª estÃ¡ bem, Ã© sÃ©rio?â

âEu vou ficar.â

âNÃ£o basta, querida. Estou exigindo demais de mim mesmo porque eu quero fazer o que estou fazendo. NÃ£o gostaria de pensar que vocÃª estÃ¡ apenas se divertindo com isso. NÃ£o Ã© o nosso caso. Ã questÃ£o de querer ou nÃ£o fazer isso. HÃ¡ muitas pessoas que estarÃ£o na mesma situaÃ§Ã£o.â

âMeu Deus, Stefan, eu estou bem, Ã© sÃ©rio. Foi apenas um primeiro dia difÃ­cil. Se eu nÃ£o pudesse reclamar com vocÃª, com que meu reclamaria? HÃ¡ alguÃ©m a quem eu posso contar?â

Stefan olhou-a de forma severa, e entÃ£o piscou. âSÃ³ para confirmar. VocÃª Ã© boa, nÃ£o se subestime.â

Mai deu um tapa em seu braÃ§o. âSendo assim, vou ao banheiro.â

Ela se levantou e se dirigiu atÃ© o fundo do lounge lotado. O prÃ³prio ar parecia brilhar com o resplendor de homens e mulheres jovens, que estavam sentados heroicamente em frente ao bar ou em uma intimidade forÃ§ada Ã s mesas enclausuradas. Ela sentiu o ruÃ­do do andar de baixo e o estrondo da mÃºsica, como uma brisa quente, quando ela passava pela porta de saÃ­da de incÃªndio.

Quando ela estava empurrando a porta do banheiro, alguÃ©m chamou-a pelo nome. Ela reconheceu a voz e suspirou sobriamente antes de se virar.

Helena Cross estava sentada com dois jovens Ã  uma mesa baixa e a estava olhando com um sorriso falso; ela demonstrava toda a sinceridade de um apresentador de TV, sem o charme da discriÃ§Ã£o. Esta noite ela vestia um vestido curto azul claro e um decote que deixava seus seios inchados voltados para frente e convidativos, como se tivessem sido empurrados por mÃ£os bobas.

Ela disse, âMai, que legal. Ouvi dizer que vocÃª iniciou os ensaios.â Ela manteve aquele sorriso plastificado o tempo suficiente para preparar Mai para um desafio. âE entÃ£o, como foi? Disseram que seu diretor Ã© um pequeno Hitler.â

âHelena â bom ver vocÃª.â Ela olhou para cada homem ao lado dela: jovens pÃ¡lidos com cabelos escuros cheios de produtos. âQuem sÃ£o esses garotos?â

Helena era alguns anos mais velha que Mai e entendeu a crÃ­tica. Ela preferiu ignorar.

âEles sÃ£o bons sujeitos.â Ela olhou um e depois o outro e entÃ£o se levantaram para apertar as mÃ£os de Mai, como se Helena tivesse enviado uma mensagem telepÃ¡tica.

âJasper.â

âTarquin.â

Mai disse, âUau, ainda colocam esse tipo de nome em alguÃ©m?â

Eles balanÃ§aram a cabeÃ§a de forma quase idÃªnctica. Eles iriam preferir serem chamados de Harry ou Max, ou atÃ© mesmo Jude.

Helena disse, âNÃ£o consigo fugir deles. Posso ir a qualquer lugar de forma incÃ³gnita e eles aparecem, como Paparazzi sem cÃ¢meras. Eu acho que eles devem estar pagando alguÃ©m para me seguir. Eles descobrem onde estou indo, entÃ£o eles lavam seus cabelos, escovam seus dentes e me encurralam como uma presa ... â â ela sendo caÃ§ada por uma foto â â... Bambi. Quem me dera poder dizer que nÃ£o gosto de atenÃ§Ã£o, mas nem sempre isso Ã© possÃ­vel, nÃ£o Ã©?â

âTenho certeza que eles sÃ£o muito bem comportados.â Ela olhou para eles. âNÃ£o sÃ£o?â

Ambos deram um sorriso sem graÃ§a, devotos como vigÃ¡rios que permanecem inofensivos. Um Ãºnico ataque de ofensa significaria banimento total da mesa de uma celebridade â a menos que fosse pelo dono da mesa.

Helena disse efusivamente, âEntÃ£o, vocÃª soube da histÃ³ria de Deannah. Ã claro que vocÃª vai participar.â

âVocÃª vai?â

âOs primeiros votos sÃ£o para que eu esteja lÃ¡. Eu nÃ£o queria, mas Finn me convenceu. VocÃª sabe que ele Ã© um pÃ¡ssaro difÃ­cil. Ele estÃ¡ mais para um pequeno papagaio cruel no meu ombro do que para um assessor. AlguÃ©m me disse que jÃ¡ sou a favorita. Muito chique!â

âQue bom. Isso deve ser muito bom.â

âOh, Ã© sim muito bom. NÃ£o posso imaginar como serÃ¡ essa competiÃ§Ã£o â vocÃª pode?â

Ela saiu mantendo seu sorriso brilhante por um segundo a mais. Ela estÃ¡ preocupada, Mai pensou. Ela nÃ£o quer que eu participe.

Mai tinha tirado de Helena o papel de Steffi no TerraÃ§o Amberside dois anos antes, e ela nunca mais esqueceu, nem mesmo quando se destacou diante dos olhos do pÃºblico como uma celebridade, por ter atuado de tempos em tempos em musicais no Teatro West End e danÃ§ado em programas de TV. Mai nÃ£o era de se vangloriar, mas no caso de Helena, ela estava perfeitamente disposta a abrir uma exceÃ§Ã£o.

Ela disse, âTenho que ir. A natureza me chama.â

âEntÃ£o vocÃª nÃ£o vai disputar por Deannah?â

Mai deu um sorriso falso. âIsso seria divulgado.â

âPorque dizem que no Daily Paper eles estÃ£o torcendo por mim. O russo, que Ã© o proprietÃ¡rio, aparentemente gosta de mim. A competiÃ§Ã£o Ã© apenas uma maneira de obter alguma publicidade, mas ele quer que eu ganhe.â

Assim que ela empurrou a porta e entrou no banheiro feminino da caverna, iluminado como a ponte da Nave Estelar Enterprise, Mai pensou: Ela realmente nÃ£o deveria ter me dito aquilo. Ela jÃ¡ tinha decidido que nÃ£o iria se envolver nessa competiÃ§Ã£o. Ela tinha muito que fazer nas prÃ³ximas quarto semanas para perder tempo em outro lugar. Mas alguma coisa tinha ascendido o seu espÃ­rito competidor: talvez por ter pensado que o papel estaria sendo dirigido para alguÃ©m que nÃ£o o entendia. Atriz em ascensÃ£o toma importante decisÃ£o no banheiro de uma casa noturna. Foi um daqueles momentos decisivos que deixam uma pequena marca em sua consciÃªncia e que ela sabia que nunca seria capaz de apagÃ¡-la ou esquecÃª-la, como um entalhe em um armÃ¡rio Chipperfield.

Quando ela saiu do banheiro, Helena ainda estava sentada Ã quela mesa, porÃ©m sozinha. O sorriso jÃ¡ nÃ£o mais existia e a atmosfera havia mudado. Mai percebeu que ela tinha dispensado os garotos para que eles nÃ£o testemunhassem o que iria acontecer. Helena levantou-se da sua cadeira e chegou tÃ£o perto de Mai que ela pÃ´de ver onde sua maquiagem tinha manchado causando-lhe novas sardas. TÃ£o perto, rosto largo, olhos amplamente espaÃ§ados e a boca grande â tÃ£o impressionante em fotos profissionais â agora parecia feia e nojenta. Um alerta selvagem vinha de dentro de suas pupilas escuras.

âEu sei o que vocÃª estÃ¡ fazendo,â disse ela a Mai. âEu jÃ¡ vi vocÃª fazer isso antes e eu nÃ£o vou deixar que isso se repita comigo novamente.â

Mai sentiu-se inferior, diminuÃ­da.

âEstou aqui para encontrar um amigo. Desculpe-me se vocÃª nÃ£o pode lidar com isso.â

âHa ha, sempre cruelmente inteligente e espirituosa. Nunca se perde com as palavras, nÃ£o Ã© mesmo, espertinha? Eu tive que lidar com pessoas assim como vocÃª a minha vida toda e eu nÃ£o vou perder novamente. Eu vou conseguir o papel de Deannah e vou te derrubar.â

âEu acho que vocÃª deveria parar de ir Ã  academia de ginÃ¡stica, isso estÃ¡ lhe causando alucinaÃ§Ãµes.â

âVocÃª estÃ¡ sendo legal agora porque Ã© isso o que vocÃª sempre faz. Sempre no controle, com aquele sorriso de garotinha, nÃ£o entra e nem sai do jogo. Eu conheÃ§o os seus mÃ©todos. VocÃª quer que as pessoas venham atÃ© vocÃª ao invÃ©s de ir vocÃª mesma, mas nÃ£o, vocÃª nÃ£o pode demonstrar que realmente estÃ¡ querendo alguma coisa, nÃ£o Ã©? Assim as coisas ficam fÃ¡ceis para vocÃª, nÃ£o Ã© mesmo? Fingindo tranquilidade.â

âÃ vocÃª quem estÃ¡ dizendo isso. EstÃ¡ sendo repetitiva. Posso passar?â

âLembre-se, Mai, vocÃª nÃ£o irÃ¡ ganhar desta vez. VocÃª conseguiu da Ãºltima vez, filha de Geraldine Rose, fracassada estrela de filme, mas desta vez eu tenho algumas pessoas do meu lado. Agora Ã© a minha vez, nÃ£o ouse esquecer-se disso.â

Mai estava evitando olhar para ela e estava sendo empurrada para trÃ¡s em direÃ§Ã£o Ã  porta do banheiro feminino. Ela agora ergueu-se ereta, olhou diretamente nos olhos de Helena e inclinou-se para a frente para que a outra mulher tivesse que passar por trÃ¡s dela.

âPara sua informaÃ§Ã£o,â disse Mai, saboreando o som vindo de sua boca atÃ© mesmo a ponto de repetir as palavras, e repetindo disse, âPara sua informaÃ§Ã£o, eu nÃ£o iria entrar no jogo. Eu iria dizer, Obrigada, mas nÃ£o, se eles tivessem me oferecido, mas agora, sou grata a vocÃª. Obrigada por ajudar-me a decidir. O jogo comeÃ§ou, sua vadia.â

Ela se voltou para trÃ¡s, sabendo que Helena a estava olhando fixamente pelas costas e imaginando que ela estivesse com aquela boca larga ainda mais aberta â ela nunca ficava bem assim.

Ela ascenou para Stefan enquanto passava por ele e seguia em direÃ§Ã£o a Patty Leading, editora de entretenimento do Daily Paper. Ela segurava o que parecia ser um coquetel Bloody Mary em uma de suas finas mÃ£os, e uma cÃ¢mera Canon de alta definiÃ§Ã£o na outra. O corpo dela era de uma magreza profunda de alguÃ©m que se punia com exercÃ­cios fÃ­sicos ao invÃ©s de fazer dieta. Ela estava conversando com um jovem rapaz com cabelos ruivos em cascata, que Mai pensou que era um membro ârebeldeâ de uma nova banda formada por garotos. Ele vestia um agasalho de treino vermelho brilhante, em pÃºblico.

Ela pegou Patty pelo braÃ§o e puxou-a para o lado.

âVocÃª pode me garantir que a votaÃ§Ã£o da enquete para o papel de Deannah serÃ¡ justa?â

Patty pareceu confusa, desconfortÃ¡vel, porque as rugas ao redor dos seus olhos de repente revelaram uma idade que o resto do seu espÃ­rito tentava fortemente esconder.

âHelena falou com vocÃª, nÃ£o Ã©, querida? AlguÃ©m do trabalho deve ter contado a ela alguma coisa em que acreditou. Valentin nÃ£o seria capaz de discernir Helena Cross de Helena Bonham Carter. Exceto se houvesse a probabilidade de ele ter assistido ao Planeta dos Macacos.â

âComo funciona isso? Eu preciso fazer formalmente a minha inscriÃ§Ã£o para o papel em algum lugar, ou algo assim?â

âNÃ£o, nÃ£o Ã© necessÃ¡rio nada disso. NÃ³s queremos que as pessoas votem por quem elas querem, embora estejamos dando algumas sugestÃµes, Ã© claro. Isso foi anunciado ontem na nossa ediÃ§Ã£o de Domingo e o primeiro dia de votaÃ§Ã£o foi hoje, e vocÃª jÃ¡ perdeu um dia, sua tonta.â

âPor que tonta?â

âVocÃª jÃ¡ poderia ter iniciado a sua campanha com fotos e assim por diante.â

âEu estava trabalhando. VocÃª sabe como Ã© o dia de trabalho.â

Patty sorriu e tomou um gole do seu drink. âEstamos em busca de uma pequena lista com cinco nomes, por isso pedimos para que as pessoas votem dentro de poucas semanas.â Ela olhou Mai mais de perto. âVocÃª tem certeza que quer participar?â

âPor que? NÃ£o Ã© genuÃ­no e confiÃ¡vel?â

âClaro que sim. Os produtores disseram que utilizarÃ£o o resultado da enquete para lanÃ§ar Deannah, por aclamaÃ§Ã£o popular ou algo desse tipo. Eu apenas acho que vocÃª Ã© muito inteligente para isso. HÃ¡ quanto tempo nÃ³s nos conhecemos?â

âDesde que vocÃª estava na Hello! Umas duas semanas depois que eu comecei na TV.â

âExatamente, e em todo esse tempo, quantas vezes vocÃª veio a mim dessa forma para tentar se promover? NÃ£o responda, eu lhe direi. Nenhuma vez, precisamente. VocÃª nunca foi atrÃ¡s de holofotes. Por que iria agora?â

Mai nÃ£o disse nada, sua mente ainda estava se recuperando do veneno lanÃ§ado por Helena. Ela percebeu que estava apertando cada vez mais o braÃ§o de Patty. EntÃ£o ela o soltou fazendo-a baixar sua mÃ£o.

Ela disse, âTalvez seja a hora de ir atrÃ¡s de holofotes. Desde que eu comecei na TV, as pessoas diziam que isso um dia iria acontecer.â

Patty mostrou-se incrÃ©dula.

âVocÃª nÃ£o acredita nisso.â Ela levantou sua camera e a direcionou para o rosto de Mai. âPosso tirar uma foto sua, momentos depois de ter tomado uma decisÃ£o assim tÃ£o importante?â

âNÃ£o!â

Ambas deram risada.

Patty disse, âEntÃ£o me diga por que vocÃª estÃ¡ fazendo isso? Por que quer ser Deannah?â

Mai pensou por um instante.

âEu me sinto como se eu jÃ¡ estivesse atuando nesse papel. E eu nÃ£o posso imaginar ninguÃ©m mais alÃ©m de mim para fazer isso.â

âIsso tudo parece uma grande bobagem. Nem parece vocÃª.â

âEu sei. Mas hÃ¡ uma conexÃ£o entre mim e Deannah que nem eu compreendo. Senti isso quando estava lendo o livro e nunca mais esqueci. Tenho apenas vinte anos e parece que nasci para interpretar esse papel. Isso Ã© muito estranho, nÃ£o Ã©?â

âAlÃ©m de estranho Ã© tambÃ©m assustador. NÃ£o leve isso tÃ£o a sÃ©rio, Mai. Isso Ã© apenas a indÃºstria do entretenimento, nÃ£o Ã© a vida.â

âAÃ­ Ã© que vocÃª se engana.â














CAPÃTULO TRÃS







A MANHÃ DE TERÃA-FEIRA deu os primeiros sinais do fim do outono. Uma pequena onda de frio que exigia luvas e cachecÃ³is. Quando ela chegou nos portÃµes da velha escola, Mai ficou atrÃ¡s de um grande pilar feito de pedra, protegida do vento persistente e telefonou para Alfie. Era apenas oito horas e quarenta e cinco minutos da manhÃ£ mas ela estava cheia de esperanÃ§a. Folhas rodeavam seus tornozelos e o cÃ©u cinza ficava pontilhado de pÃ¡ssaros estridentes e impacientes para voar em direÃ§Ã£o ao sul.

Ele atendeu no segundo toque.

âAlÃ´.â

âPassou a noite acordado ou acabou de acordar?â

âAcordado desde Ã s sete, fazendo ginÃ¡stica. Uma grande turnÃª estÃ¡ por vir, nÃ£o posso adoecer.â

âImpressionante. Eu estou do lado de fora de uma escola no sul de Londres.â

âTeve sorte com os garotos da escola?â

âSou muito velha para eles. Eles nÃ£o se interessam nem se eu lhes oferecer doces.â

âPassei por isso nos meus vinte anos. NÃ£o hÃ¡ nenhuma esperanÃ§a para nÃ³s, entÃ£o.â

Ambos fizeram uma pausa e ouviram a respiraÃ§Ã£o do outro. Mai sentiu o frio subindo pelo seu rosto, uma sensaÃ§Ã£o de aperto nos lÃ¡bios e nas orelhas. Ela pensou por que estava tendo aquela conversa naquela hora. O que ela queria?

Alfie disse, âEntÃ£o vocÃª virÃ¡ amanhÃ£? Consiga um lugar na primeira fila. Venha nos bastidores para ver a banda e depois atire tulipas em nÃ³s, ou calcinhas, vocÃª escolhe.â

âAinda tem o mesmo nome?â

Ela tinha tentado persuadÃ­-lo a nÃ£o usar The Gastric Band como nome da Banda, mas os amigos sarcÃ¡sticos e adolescentes crescidos de Alfie se recusaram a mudÃ¡-lo. Com o tour agendado, isso agora era provavelmente tarde demais. A pequena gravadora tinha desistido de gravar apÃ³s duas reuniÃµes de trÃªs horas terem resultado em um silÃªncio taciturno por parte dos membros da banda. Apesar das ameaÃ§as vindas da crÃ­tica, pode-se incluir frases como âThe Gastric Bandâ nÃ£o sÃ£o suficientemente unidos e âThe Gastric Bandâ nÃ£o consegue nem resolver seus prÃ³prios problemas. â

Alfie disse, âNÃ£o comece, Mai. EstÃ¡ feito. EntÃ£o vocÃª estarÃ¡ lÃ¡?â

âEu vou tentar. O diretor dessa peÃ§a Ã© um nazista, entÃ£o nÃ£o posso confiar que terminaremos em tempo.â

âOs nazistas sÃ£o conhecidos por nÃ£o serem pontuais.â

âVocÃª sabe o que eu quero dizer.â Ela nÃ£o podia evitar dizer, com a voz na defensiva operando dentro dela, âNÃ£o seja exigente.â

Ao invÃ©s de lhe dar uma resposta, ele nÃ£o disse nada, como de costume. Ela sabia que ele nÃ£o era capaz de lidar com qualquer tipo de conflito, entÃ£o ele fingia nÃ£o existir nenhum. Ironicamente, isso foi o inÃ­cio de um conflito entre eles.

ApÃ³s um momento ele disse, âVocÃª nÃ£o ligou ontem.â

âVocÃª tambÃ©m nÃ£o, garoto esperto.â

âÃ verdade, desculpe. Foi por falta de tempo. Eu terminei somente Ã  meia-noite. NÃ£o quis ligar por causa dos seus ensaios e tudo mais.â

âTudo bem, aconteceu o mesmo comigo. Por isso nÃ£o liguei.â

Ela ficou pensando por que nÃ£o mencionou que tinha saÃ­do com Stefan. Ela nÃ£o se sentia totalmente culpada.

Alfie disse, âEntÃ£o foi bom ou o quÃª?â

âNÃ£o, na verdade foi um lixo.â Ela de repente sentiu vontade de chorar, seus olhos ficaram marejados. âO diretor Ã© um dÃ©spota. Um pretensioso. Ele quer me quebrar, como um cavalo ou algo assim, para que eu faÃ§a exatamente o que ele quer.â

âVocÃª precisa de um homem forte para bater nele?â

âSeria bom.â

âEu vou ver se eu acho um ... â

Mai sorriu suavemente â isso Ã© exatamente o que ele diria. O interessante Ã© que Alfie poderia ser tÃ£o dinÃ¢mico e substancial por trÃ¡s de sua figura, entretanto, tÃ£o reservado na vida real. Talvez seja isso que o tenha feito extravasar toda sua raiva e frustraÃ§Ã£o.

Ela disse, âE tem outra coisa. VocÃª pode ouvir falar muito de mim nos jornais em breve.â

âDeannah ha-ha.â

âAcertou.â

âFÃ¡cil. Joe me contou sobre isso. Ele viu vocÃª lendo o livro quando chegou para o ensaio. Perguntou se vocÃª poderia se interessar. Eu procurei por isso na internet ontem Ã  noite.â

âEntÃ¢o, o que vocÃª acha? Devo participar?â

âEla definitivamente Ã© vocÃª, nÃ£o Ã©? Uma garota comum que se torna uma princesa de meio-perÃ­odo.â

Mai deu risada. âSeu bobo. De qualquer forma, eu nÃ£o preciso da sua permissÃ£o. Eu jÃ¡ disse a eles que estou na disputa.â

âUm pouco de concurso de beleza. Ã isso o que quer?â

âParece que sim, uma vez que eu aceitei participar. O que vocÃª acha?â

âHey, Ã© a sua carreira. VocÃª decidiu fazer a peÃ§a. VocÃª decidiu fazer o lixo do filme.â

âAinda nÃ£o sabemos se serÃ¡ um lixo. Isso dependerÃ¡ dos efeitos especiais. Um garota tem que comeÃ§ar em algum lugar.â

Mai nÃ£o estava gostando da direÃ§Ã£o que a conversa estava tomando. Alfie parecia agressivo sem motivo esta manhÃ£, como se ele estivesse liberando alguma tensÃ£o interna por testar sua resiliÃªncia.

Ela disse, âEstÃ¡ tudo bem com vocÃª?â

âSim, por que?â

âNÃ£o sei. VocÃª parece ... conciso.â

âVocÃª tambÃ©m estaria concisa se estivesse ensaiando dez mÃºsicas para daqui a trÃªs semanas sem nenhum descanso. Meus braÃ§os estÃ£o doendo continuamente e eu nÃ£o posso sentir os meus dedos. EstÃ£o como bananas nas extremidades dos meus pulsos para servir como experimento de um cruel mÃ©dico cirurgiÃ£o.â

Da mesma forma como aconteceu muitas vezes quando ela estava nos ensaios, Mai comeÃ§ou a examinar o que ela estava sentindo. NÃ£o sabia se queria expressar a leve sensaÃ§Ã£o de raiva e frustraÃ§Ã£o que ela estava sentindo naquele momento, o que ela faria agora? Poderia olhar nos olhos de Alfie? Queria tocÃ¡-lo? EsbofeteÃ¡-lo? BeijÃ¡-lo?

âVocÃª ainda estÃ¡ aÃ­?â Sua voz estava afiada.

Ela voltou para o presente, para o frio no seu rosto e a sensaÃ§Ã£o da tela de vidro do seu celular na sua orelha.

âEstava apenas pensando,â ela disse. âEu tentarei ir amanhÃ£. Pode ser que eu traga Stefan. Ele pode fingir ser meu namorado, deixando o caminho livre para vocÃª com seu fÃ£-clube de garotas de dezesseis anos.â

âElas tÃªm vinte anos e eu posso ter mais problemas com elas. Elas discutem mais.â

Mai sorriu ao telefone novamente.

Alfie disse, sua voz estÃ¡ mais suave, âNÃ£o se preocupe com a peÃ§a. VocÃª Ã© boa e sabe disso. O Pedro Ã© um estÃºpido. O que ele irÃ¡ fazer â demitir vocÃª? Provavelmente nÃ£o.â

âEle jÃ¡ fez isso antes, evidentemente. NÃ£o tem consideraÃ§Ã£o.â

âMas ele terÃ¡ que enfrentar a ira do meu baterista depois.â

âUm espetÃ¡culo.â

âÃ o barulho que eu faÃ§o que realmente os assustam.â

Pedro deu inÃ­cio ao segundo ato, onde o grande sÃ­mbolo da peÃ§a faz uma apariÃ§Ã£o â um pÃ¡ssaro morto a tiros por um dos personagens que o oferece ao personagem interpretado por Mai. Ao invÃ©s de utilizar um objeto cenogrÃ¡fico real, Pedro tinha trazido um macaco de pelÃºcia, fazendo com que todos caÃ­ssem na risada enquanto revisavam o seu potencial simbolismo na peÃ§a. Ele riu com os outros por um tempo mas logo ficou entediado e comeÃ§ou a gritar com eles.

JÃ¡ era hora do almoÃ§o e eles estavam ensaiando o segundo ato em uma sÃ©rie de cenas chatas. Muitos personagens tinham cenas com falas longas, fazendo com que Pedro tivesse que dar a eles a sua cÃ³pia pessoal do texto, e os atores, desinteressados, suspiravam em alÃ­vio e voltavam para os bancos alinhados Ã  parede. Mai ficava pensando quando isso comeÃ§aria melhorar.

Quando pararam para almoÃ§ar, ela viu uma familiar jaqueta esportiva bege no fundo do auditÃ³rio. Eric estava lÃ¡, ela percebeu que ele estava lÃ¡ por mais ou menos meia hora, provavelmente para observar como as coisas estavam indo.

Ela indicou com os olhos que iria vÃª-lo do outro lado, pegou seu sanduÃ­che e caminhou para a porta de saÃ­da de incÃªndio, prÃ³xima Ã  uma pilha de mesas sobre cavaletes.

Ela se sentou perto dele na parede do parquinho infantil da escola e de repente sentiu-se novamente como uma colegial em Northampton, tipicamente de lado ouvindo as outras garotas de sua idade falarem sobre garotos e mÃºsica. Elas provavelmente morreriam ao saber onde ela estÃ¡ agora â se encontrando com um namorado que Ã© atualmente Â­Â­integrante de uma banda.

âMinha mÃ£e ligou para vocÃª, entÃ£o.â

Construtores, decoradores e eletricistas estavam cantarolando enquanto passavam pela rua em furgÃµes brancos. Eric esperou atÃ© que houvesse silÃªncio.

âVocÃª nÃ£o acha que eu devo verificar periodicamente? Ver se estÃ¡ tudo bem com vocÃª? VocÃª nÃ£o confia em mim, garota.â

Ela ofereceu a ele um sanduÃ­che, mas ele recusou. Como de costume, ele precisava cortar o cabelo e nÃ£o seria pedir muito se fizesse tambÃ©m a barba. Quando ela estava mais generosa, ela preferia pensar que ele estava muito ocupado cuidando dos seus negÃ³cios, que nÃ£o tinha tempo para se preocupar com sua aparÃªncia pessoal. Quando ela estava chateada, ela achava que ele era apenas um desleixado.

âVocÃª alguma vez jÃ¡ lustrou os seus sapatos? Eles parecem exatamente os mesmos de quando fomos naquele lugar da fazenda em Amberside. Lembra?â

Eric mexeu os ombros. Ele nunca se sentiria envergonhado a ponto de mudar a sua aparÃªncia.

Ele disse, âParece que vocÃª tomou uma outra decisÃ£o sem me consultar. Eu nÃ£o acho que as condiÃ§Ãµes dos meus sapatos tÃªm tanta importÃ¢ncia em comparaÃ§Ã£o com a natureza precÃ¡ria do nosso relacionamento profissional.â

Mai suspirou irritada e se voltou para seu sanduÃ­che. Sempre que Eric tinha que dar inÃ­cio a uma difÃ­cil discussÃ£o, sua linguagem tornava-se complexa, como se ele pudesse evitar que a mensagem real fosse transmitida pelo uso criterioso das sÃ­labas.

Ela disse, âOntem um amigo fez-me lembrar que vocÃª Ã© meu assessor e nÃ£o o meu chefe.â

âVerdade, verdade, e eu poderia infligir algum dano fÃ­sico a alguÃ©m que dissesse o contrÃ¡rio. Mas hÃ¡ algumas coisas que precisamos considerar de forma estratÃ©gica. Afinal, sua carreira nÃ£o Ã© a mesma coisa que agendar um horÃ¡rio com o cabeleireiro. Ã um compromisso de longa duraÃ§Ã£o, e toda decisÃ£o, cada momento decisivo em um compromisso assumido precisa ser considerado por uma infinidade de Ã¢ngulos diferentes.â

âComo um diamante.â

âSe quiser, sim. Como um diamante.â

âOu quartzo.â

âVocÃª nÃ£o pode me hostilizar, Mai.â Ele parou e olhou para uma mulher negra que passou pelo portÃ£o da escola, resmungando para ela mesma. âEstou aqui para cuidar dos seus interesses. VocÃª se lembra quando sua mÃ£e a colocou em contato comigo, hÃ¡ dois anos? NÃ³s assinamos o contrato e naquele contrato eu dizia que eu sempre trabalharia para maximizar tanto a sua renda como seu sucesso profissional. Trata-se disso. VocÃª pode fazer a piada que quiser, e ocasionalmente atÃ© participarei, mas quando se referir a uma importante decisÃ£o como esta, eu gostaria apenas de um pouco de consideraÃ§Ã£o. VocÃª nÃ£o pode tomar o controle e decidir participar de algo sem me consultar.â

âEric, olhe para mim. Eu cresci. Eu nem tinha dezoito anos quando assinei aquele contrato e eu precisava de toda ajuda que vocÃª pudesse me dar. E eu lhe agradeÃ§o por isso. E agradeÃ§o por conseguir trabalho para mim nessa peÃ§a e no Tornado, que tenho certeza que quebrarÃ¡ todos os recordes de bilheteria e que ganharÃ¡ dez Oscars. Mas quanto ao papel de Deannah, se afaste, tudo bem? Isso Ã© algo que eu quero fazer. Eu quero o papel porque eu acho que serÃ¡ bom para mim, porque eu acho que o livro Ã© popular e eu sei que eu posso fazÃª-lo. Eu li o livro e eu conheÃ§o aquela garota. Se eu conseguir o papel, eu o farei bem e com o vento soprando a meu favor, o filme serÃ¡ bom para a minha carreira.â

Houve uma longa pausa. Eric ergueu-se na sua estatura total.

âEntÃ£o vocÃª estÃ¡ dispensando os meus serviÃ§os.â

âNÃ£o, por Deus!â

âMas Ã© o que parece deste lado da mesa.â

âAgora vocÃª estÃ¡ sendo melodramÃ¡tico. Ã o meu trabalho, dentro daquele congelante auditÃ³rio. O que estou dizendo Ã© que nosso trabalho agora Ã© de nos certificarmos de que conseguirei o papel de Deannah. NÃ³s podemos tramar e planejar para que eu ganhe daquela bruxa loira da Helena Cross novamente.â

Eric levantou bruscamente a cabeÃ§a.

âO que ela tem a ver com tudo isso? Quem a indicou?â

Mai terminou seu sanduÃ­che e amassou o papel alumÃ­nio como uma bola e o colocou dentro da sacola.

âEla mesma se indicou. Ela quer o papel, somente para tirÃ¡-lo de mim. Eu realmente nÃ£o posso culpÃ¡-la. Eu fiquei dois anos em Amberside e ela esteve por dois anos escolhendo nÃºmeros de Loteria na TV e fazendo coreografias com membros do parlamento. Que poderia ter sido eu.â

âDificilmente. Pelo menos vocÃª tem talento.â

âObrigada por notar. Podemos comeÃ§ar outra vez?â

Ela sabia que no final Eric era sempre pragmÃ¡tico. Ele tinha explosÃµes de orgulho intolerante mas no final, ela era sua estrela ativa e ele nÃ£o queria perdÃª-la se pudesse evitar. Ao longo dos dois Ãºltimos anos ele tinha concentrado cada vez mais sua atenÃ§Ã£o nela enquanto sua popularidade crescia, sendo que ele tinha deixado de lado alguns de seus fÃ£s. A mÃ£e de Mai tinha dito a ela que isso era um erro, porque ele deveria querer aumentar seu pÃºblico, e nÃ£o reduzi-lo por causa dela, mas ele provavelmente a enxergava como um ticket refeiÃ§Ã£o â o primeiro que ele tinha tido em quase trinta anos de trabalho de representaÃ§Ã£o.

Ele inflou suas bochechas e colocou suas mÃ£os nos bolsos da sua calÃ§a de veludo cotelÃª. âVocÃª Ã© uma fulana pequena e cruel quando quer, nÃ£o Ã©? Gostaria de saber de onde vocÃª tirou isso â nÃ£o foi da sua mÃ£e, que era tÃ£o doce quanto uma torta de maÃ§Ã£ da Bramley.â

âOlhe, eu tenho que voltar agora. Ligue para mim amanhÃ£ e faremos uma reuniÃ£o. VocÃª pode chamar isso de uma reuniÃ£o estratÃ©gica se vocÃª se sentir melhor assim. Agora dÃª-me um beijo e vÃ¡ para casa.â

Ele deu um passo Ã  frente e eles trocaram beijos dignos de Hollywood.

Ele disse, âNÃ£o vÃ¡ fazer nada Ã s pressas sem antes falar comigo. Tem certeza que quer fazer isso? VocÃª sabe que isso Ã© um vÃ­cio, nÃ£o sabe?â

âHelena Cross nÃ£o pode fazer nada para me prejudicar.â

Eric recuou. âVocÃª nunca deveria dizer esse tipo de coisa. Ela Ã© como uma bola de praia â vocÃª atÃ© pode tentar colocÃ¡-la em uma caixa, mas ela sempre salta para fora novamente.â














CAPÃTULO QUATRO







BILLIE PUXOU OS cÃ£es do local onde estavam farejando e depois os seguiu, segurando-os de volta enquanto eles a puxavam em direÃ§Ã£o ao bolo de casamento do Museu Nacional MarÃ­timo, no centro do Parque Greenwich. Eles puxavam implacavelmente suas guias, tossindo de forma rouca, alegres por estarem indo a algum lugar, em qualquer lugar.

Ela achou que estavam animados para ver a Mai. Se ela conseguisse o papel de Deannah, isso seria um nÃ­vel total de fama para ela. Seria comparado Ã  Kristen Stewart ou Ã quela garota de Harry Potter, cujo nome ela nÃ£o se lembrava. Seria um grande passo para sua carreira â estaria Ã s portas de Hollywood. Ela provavelmente teria que contratar William Morris no lugar de Eric, mas isso seria uma grande perda. Ela seria capaz de comprar sua casa prÃ³pria em Londres ao invÃ©s de ter que alugar.

Ela de repente percebeu que tinha muito que investir para que Mai ganhasse a enquete. Isso era imprescindÃ­vel, uma obrigaÃ§Ã£o. Ela jÃ¡ tinha escutado rumores de que a estÃºpida da Helena Cross estava liderando as pesquisas depois de apenas um dia. Mas isso era compreensÃ­vel porque ela tinha recentemente participado como celebridade em uma maratona televisiva, danÃ§ando com cinco membros do parlamento em um evento beneficente. Quando souberem que Mai estÃ¡ pensando seriamente em concorrer para o papel, as pesquisas certamente mudarÃ£o, ela estava certa disso.

Billie via que a responsabilidade para o sucesso de Mai poderia estar sobre ela. Ela se sentia sempre responsÃ¡vel quando as pessoas nÃ£o conseguiam viver de acordo com seu potencial. Era como se tranferisse um peso dos ombros para os dela â mas que ela poderia suportar. De fato, ela aceitou essa condiÃ§Ã£o porque isso a permitia encontrar algum valor real em sua vida. Geralmente nÃ£o havia nenhum reconhecimento ou recompensa pelo stress que ela impunha a si mesma, mas ela sabia que com o tempo as pessoas iriam reconhecer o sacrifÃ­cio que ela fazia e iriam reconhecer seus dons. Era apenas uma questÃ£o de tempo.

Ela pensou em Mai por um momento, puxando os cÃ£es da estÃ¡tua do CapitÃ£o Cook descendo a ladeira em direÃ§Ã£o ao centro do Greenwich. Ela estava trabalhando para Mai hÃ¡ um ano, desde que ela pegou os cÃ£es, e ela sabia que Mai levava a sÃ©rio tudo o que ela tinha realizado como atriz. Ela desejava melhorar e ser a melhor atriz que ela poderia ser. Billie concordava com isso â era uma boa forma Ã©tica de trabalho para alguÃ©m tÃ£o jovem e inexperiente.

Por outro lado, desde que terminou com Dennis, Billie comeÃ§ou a ver que havia outras coisas mais importantes na vida do que o trabalho. Se vocÃªs pensam que o trabalho Ã© suficiente para satisfazÃª-los, vocÃªs estÃ£o enganados. A vida nÃ£o Ã© um ensaio. VocÃª faz o que pode para se satisfazer com isso e conseguir o que quer quando isso estÃ¡ ao seu alcance.

Mesmo que isso signifique ter que quebrar o galho para alcanÃ§ar isso em primeiro lugar.

âAssista ao filme comigo,â Mai disse quando Billie entrou.

âOk. VocÃª Ã© quem manda.â

Billie estava secretamente emocionada pelo convite de Mai. No Ãºltimo ano, elas tinham assistido juntas Ã  vÃ¡rios filmes e ela sempre gostava das explicaÃ§Ãµes dadas por Mai sobre o que os atores estavam fazendo. Elas iriam praticamente assistir a um velho filme que jÃ¡ haviam assistido antes, para que elas pudessem se concentrar nas tÃ©cnicas dos atores e na filmagem e nÃ£o no enredo.

Ela acalmou os cÃ£es e se juntou a Mai na sala de estar. Ela tinha baixado um filme de Hitchcock e utilizou um cabo para conectar o laptop dela Ã  TV, que estava sobre um suporte na parede. Billie a ajudou a mover o sofÃ¡ para a frente da TV, e entÃ£o elas desligaram as luzes da mesa, com exceÃ§Ã£o de uma.

Doris Day e James Stewart estrelaram O Homem Que Sabia Demais. A histÃ³ria comeÃ§ou em Marrakech, onde Stewart, um mÃ©dico, estÃ¡ passando o feriado com sua esposa e seu jovem filho. Eles se envolvem com um homem francÃªs que, deixa claro ser membro do serviÃ§o secreto francÃªs, e Ã© assassinado na frente deles em um Mercado em Marrakesh. Antes de morrer, ele conta um segredo para Stewart â um homem serÃ¡ assassinado em Londres. Stewart nÃ£o conta a ninguÃ©m essa informaÃ§Ã£o porque ele recebe um telefonema com uma ameaÃ§a de que seu filho estaria em perigo se ele contasse a alguÃ©m.

Toda essa trama levou-as a cerca de metade do filme. Mai estava tranquila, sentada sobre seus pÃ©s no sofÃ¡ e enrolada em um roupÃ£o. Billie abriu uma garrafa de vinho branco sul-africano e estava pronta para servir. Ela inclinou-se para frente e pausou o filme no laptop.

âPosso encher?â

Mai disse, âDoris Day estÃ¡ lÃ¡, nÃ£o Ã© a personagem, ela estÃ¡ realmente presente.â

âO que quer dizer?â

âVocÃª pode vÃª-la ouvindo os outros atores, mesmo quando nÃ£o aparece na tela. Quando eles aproximam a imagem o outro ator estÃ¡ lÃ¡ com o texto, lendo-o. Doris nÃ£o permite que isso mude o modo dela reagir. Os olhos dela estÃ£o se movimentando para cima e para baixo enquanto ela estÃ¡ observando a fala do personagem, olhando dos olhos Ã  boca. EntÃ£o quando ela sorri, ela realmente sorri. NÃ£o Ã© um sorriso forÃ§ado â isso sobe para seus olhos tambÃ©m. E fica perfeitamente natural. Emma Thompson faz isso â dando a sensaÃ§Ã£o de que hÃ¡ um ser humano lÃ¡, e nÃ£o alguÃ©m atuando como um ser humano.â

âEu gosto do Jimmy Stewart â pela maneira como ele mudou de um Americano mediano de fÃ©rias em uma terra estrangeira, para um homem com forÃ§a de carÃ¡ter e determinaÃ§Ã£o.â

âEle tambÃ©m Ã© inteligente. Ele sabe que isto estÃ¡ nos olhos. Essa parte agora quando ele abraÃ§a Doris para confortÃ¡-la e seu rosto estÃ¡ sobre o ombro dela ... viu o que ele fez com os olhos e com a boca? Os olhos para um lado procurando fugir, a boca levemente aberta, e entÃ£o, um rÃ¡pido olhar para Doris e desvia novamente â tudo aconteceu de uma forma rÃ¡pida, porÃ©m perfeitamente controlada. Demonstrou medo, pÃ¢nico e determinaÃ§Ã£o.â

âE ele tambÃ©m Ã© engraÃ§ado.â

âAquela parte no restaurante marroquino, comendo o frango com as mÃ£os. Ele Ã© capaz de fazer graÃ§a e cinco minutos depois estÃ¡ totalmente sÃ©rio, dando ordens aos policiais ao redor. Ele muda a sua linguagem corporal, movimentos mais angulares, mais diretos, mais verticais. Coloca hesitaÃ§Ã£o na sua voz, fala mais lentamente.â

Billie se levantou e foi atÃ© a cozinha para encher seu copo de vinho. Ela gritou, âQuer uma xÃ­cara de chÃ¡ ou alguma outra coisa?â

Mai disse que nÃ£o queria nada e Billie entrou na sala de estar â a grande tela da TV tinha imagem de Doris Day e Jimmy Stewart congelada em um abraÃ§o apaixonado, e o rosto pÃ¡lido de Mai virou-se para a tela de maneira suplicante, absorvendo todo o talento deles. Billie ficou parada por um instante na soleira da porta. Ela teve um repentino pensamento de que momentos como aqueles eram perfeitos ... e ao mesmo tempo sentiu medo. Sua vida era de uma dependÃªncia, como uma daquelas aves que viviam atrÃ¡s dos elefantes e rinocerontes ... seria um pÃ¡ssaro secretÃ¡rio? Quando ela foi embora Ã  noite, ele dirigiu de volta atÃ© um pequeno apartamento em Twickenham, que ficava em cima de uma agÃªncia de seguros. Ela subiu as escadas, tomando o cuidado com a saliÃªncia dos degraus que poderia rachar sua testa se nÃ£o se desviasse ao subir, virou-se Ã  esquerda no hall e abriu a terceira porta Ã  direita. Uma cama, uma pia, uma janela guilhotina. Uma cadeira, uma cÃ´moda, um guarda-roupas estreito. Era um quarto escuro nos fundos disfarÃ§ado de apartamento, com um acesso compartilhado a um banheiro. Era um inferno, mas o Ãºnico inferno que ela podia pagar depois que se separou de Dennis. Ela estaria miserÃ¡vel e infeliz se tivesse que voltar Ã  cidade de Bude, apesar do atrativo e revigorante ar do mar.

EntÃ£o ela temia que tudo isso pudesse terminar â sua vida atual, a amizade e a proximidade. Tudo o que ela tinha era o inferno de Twickenham. Desde que terminou com Dennis ela se preocupava com o fato de nunca mais ter amigos novamente. Ela dizia para si mesma que era uma pessoa muito exigente e muito velha para mudar isso. Ela tinha medo que em algum momento, a domesticidade ao redor dela â entre seus clientes, sua famÃ­lia, seus amigos â pudessem frustrÃ¡-la para sempre. Ela dizia a todos que ela tinha um espÃ­rito livre, que nÃ£o queria ser amarrada, que estava muito ocupada se divertindo ... mas as palavras tornavam-se cinzas na sua boca ao mesmo tempo em que as dizia.

Ela tinha percebido hÃ¡ algum tempo que ela tinha medo do compromisso com alguma linha de raciocÃ­nio ou algum modo de vida ... mas tinha igualmente medo da solidÃ£o que isso pudesse lhe causar.

Portanto, sua soluÃ§Ã£o era a de ser amada. Certificar-se de que as pessoas gostassem dela e quisessem a sua companhia, sua amizade. Ela trabalharia para eles, por dinheiro, mas ela tambÃ©m poderia bajulÃ¡-los. Ela queria tornar-se insubstituÃ­vel. Ela seria honesta, contanto que a honestidade nÃ£o fosse dolorosa e convencional, enquanto nÃ£o houvesse nenhuma crÃ­tica subentendida. Ela caminhava em uma linha tÃªnue, para parecer prestativa e carinhosa mas ao mesmo tempo, era capaz de falar francamente quando necessÃ¡rio.

Mai disse, âVocÃª estÃ¡ vindo? Eu quero ver se eles irÃ£o conseguir resgatar a crianÃ§a.â

âÃ Hollywood, Ã© claro que irÃ£o resgatar a crianÃ§a. E os bandidos serÃ£o punidos.â

âBem diferente da vida real,â disse Mai de forma sarcÃ¡stica.

Por muitas vezes Billie ficava pensando o que motivava Mai. Ãs vezes ela se comportava como uma crianÃ§a que tinha sido mantida de castigo por um tempo, ansiosa para sair dos limites de ser Mai Rose. Outras vezes parecia passiva e observadora, como se fosse mais divertido olhar os outros lutarem com a vida e talvez falharem, do que ela prÃ³pria se arriscar.

Talvez essa disputa pudesse esclarecer qual versÃ£o dela mesma fosse a real.














CAPÃTULO CINCO







O PERCURSO DE TÃXI atÃ© o clube onde a The Gastric Band iria se apresentar parecia interminÃ¡vel, como uma longa jornada em um sonho onde vocÃª nunca chega ao destino, embora esteja sempre Ã  vista.

O taxista Addison Lee tinha passado para pegÃ¡-los primeiro, em seguida foi encontrar Stefan antes de comeÃ§ar a longa jornada pelo norte de Londres atÃ© Kentish Town e Hampstead, dirigindo agressivamente para alÃ©m de Golders Green. Aqui hÃ¡ dragÃµes, pensou Mai, enquanto o taxista seguia adiante. Atriz em ascensÃ£o foi encontrada abandonada em local ermo de Londres. Afirma que nÃ£o havia nenhuma viva alma no local ...

Stefan disse, âVocÃª precisa admirar a ousadia deles. Fazer todo este trajeto apenas para tocar algumas mÃºsicas.â

âEu nÃ£o acho que a banda de Alfie sabe o que Ã© uma melodia. VocÃª sabia que o punk nunca morre? Apenas entra em coma e revive de vez em quando.â

Stefan deu uma olhada para ela. âO homem dos seus sonhos sabe o quanto vocÃª admira a carreira que ele escolheu?â

Mai nÃ£o disse nada e continuou olhando para fora da janela. Ela tinha falado rapidamente com Alfie naquela manhÃ£ para perguntar o nome do local. Ela tinha sentido novamente uma certa tensÃ£o em sua voz. Ela estava disposta a acalmÃ¡-lo â afinal, era seu primeiro show com sua recÃ©m-lanÃ§ada banda â mas ele parecia estar amargo sem motivo. Ela sabia que isso tinha a afetado em seu ensaio naquela tarde, embora Pedro parecia ter percebido seu mau humor e nÃ£o a tinha pressionado. Ela imaginou se seus outros amigos tomavam cuidado para falar com ela quando ela estava de mau humor. Era ela temperamental? Ela assustava as pessoas? Ela lia biografias de showbiz para estar ciente dos perigos da auto-estima e da vaidade, e a Ãºltima coisa que ela queria era afastar as pessoas. Ou assustÃ¡-las.

âO que vocÃª estÃ¡ pensando?â perguntou Stefan.

âEu deveria estar em casa decorando textos e descansando, e nÃ£o indo para um local suado para destruir os meus tÃ­mpanos.â

âSÃ£o as coisas que fazemos por amor.â

Ela nÃ£o virou sua cabeÃ§a mas levantou as sobrancelhas. âÃ claro que sim.â

Ela chegou aos bastidores. Foi conduzida para baixo em alguns corredores escuros, passando por assistentes de palco que carregavam guitarras e rolos de fitas adesivas, movendo-se orgulhosamente como se fossem integrantes da banda. O ar exalava eletricidade de alta voltagem em meio a cabos isolados.

Alfie, Joe e outros dois integrantes da banda estavam sentados em poltronas rasgadas em um camarim que nunca tinha visto dias melhores. Joe estava magro e Mai pensou que ele pudesse estar se esforÃ§ando para parecer com um integrante da banda Franz Ferdinand â de todos os Ã¢ngulos e de cabelo curto. Os outros dois eram de estilo techno-geek e passavam a maior parte do tempo conversando sobre os equipamentos. Um usava Ã³culos e o outro nÃ£o â essa era a Ãºnica maneira que Mai conseguia diferenciÃ¡-los.

Alfie se levantou e abraÃ§ou Mai, depois cumprimentou Stefan. Ele tinha se barbeado pela primeira vez em meses e deixou seu cabelo crescer desde a Ãºltima vez que ela o viu. Ele parecia magro mas forte, como um prisioneiro que tinha se exercitado bastante mas que nÃ£o tinha se alimentado bem. O que estaria bem perto da realidade, ela pensou. Ela sentiu um pouco de emoÃ§Ã£o quando ele a abraÃ§ou.

Ele perguntou, âComo estÃ¡ lÃ¡ fora? AlguÃ©m se preocupou em vir?â

âFervendo,â disse Mai. âEstÃ£o ansiosos e na expectativa.â

Joe disse, âObrigado por vir. AlguÃ©m veio com vocÃª?â

âDesculpe. NÃ£o tenho falado com ninguÃ©m hÃ¡ alguns meses.â

Joe moveu a cabeÃ§a em sinal de compreensÃ£o e Mai pensou se ele era mais um que a via como a famosa da televisÃ£o e queria se aproveitar de alguma forma do reflexo de sua glÃ³ria. Ela encontrou algumas pessoas que nÃ£o fizeram nada, mas perguntaram sobre o TerraÃ§o Amberside e sobre os outros participantes, como se isso tivesse sido um acontecimento real em uma rua real.

Alfie disse, âO som estÃ¡ uma droga. O cara da gravadora nÃ£o fez nada a nÃ£o ser pedir desculpas desde Ã s quatro horas. Algo tambÃ©m deu errado com os ingressos. VocÃª teve sorte que nÃ£o desistimos e abandonamos vocÃª no meio da cidade.â

âTalvez na prÃ³xima vez. Onde estÃ¡ Pete?â

âEstÃ¡ com o The O2 â o grande show, ele teria mais a perder. NÃ£o precisamos dele aqui.â

Pete Graham gerenciava trÃªs bandas, duas das quais foram as atraÃ§Ãµes principais. Mai ficou pensando se a The Gastric Band estava na sua lista de prioridades.

Ela disse, âVocÃªs estÃ£o bem? Prontos para destruir a bateria, ou qualquer outra coisa que os bateristas dizem?â

âEstamos bem, nÃ£o estamos?â Ele olhou em volta esperando alguma resposta e conseguiu apenas uhus e sinais de ok. âViu a empolgaÃ§Ã£o desses garotos? Eles estÃ£o ligados.â

âÃ melhor eu ir. Ficarei no meu camarote real, acene para mim.â

Fora do camarim ela disse a Stefan, âEles irÃ£o decepcionar. EstÃ£o muito nervosos.â

âNÃ£o seja pessimista. Eles ficarÃ£o bem. Nervosismo Ã© bom, mantÃ©m o sistema funcionando, nÃ£o preciso dizer isso a vocÃª.â

âHÃ¡ algum lugar onde podemos pegar uma bebida? Eu acho que estou mais nervosa do que eles, e isso quer dizer alguma coisa.â

Stefan pegou-a pela mÃ£o e passando pela plateia que estava lotada, conduziu-a para um pequeno bar no fundo da casa de show. Mai observou que a plateia era de maioria adolescentes e tinha um grande nÃºmero de garotas. Por alguma razÃ£o muitas delas tinham em seu rostos uma pintura que simulava cortes diagonais que atravessava de um lado ao outro.

Stefan reparou a mesma coisa. âÃ aquela mÃºsica do YouTube â Garota Navalha. Elas nÃ£o perceberam que se trata de cortar os pulsos e fazem apenas a maquiagem.â

Mai se lembrou da mÃºsica agora, algo que Joe tinha escrito aparentemente sobre sua ex-namorada que constantemente se cortava. NÃ£o havia nenhuma imagem da banda no vÃ­deo do YouTube, mas alguÃ©m tinha incluÃ­do algumas imagens para a mÃºsica â fotos de uma garota com uma pintura colorida de um corte diagonal que atravessava seu rosto de um lado ao outro, copiando David Bowie no Ã¡lbum Aladdin Sane. Suspeitavam que a foto era do prÃ³prio Joe, embora ele nÃ£o admitisse isso.

ApÃ³s quarenta minutos de show, Mai olhou nos olhos de Stefan e acenou em direÃ§Ã£o ao fundo da casa de show, pela lateral da multidÃ£o que pulava. Ele a alcanÃ§ou e eles entraram no bar.

âO que houve?â

âDor de cabeÃ§a,â ela disse. âEles sÃ£o mais barulhentos do que eu me lembrava. VocÃª jÃ¡ conseguiu detectar alguma melodia?â

âNÃ£o seja cruel. Eles estÃ£o bem, embora eu esteja farto das divagaÃ§Ãµes de Joe no meio das mÃºsicas. Ele deveria apenas contar um, dois, trÃªs, quatro e entÃ£o cantar.â

Mai encontrou uma frÃ¡gil cadeira no bar, sentou-se e inclinou sua cabeÃ§a para baixo apoiando-a com suas mÃ£os. O som da mÃºsica ultrapassava a parede que separava o bar, era uma batida pesada sobreposta com um tipo de lamÃºria que Joe fazia quando esticava ao mÃ¡ximo a variaÃ§Ã£o da sua voz em toda mÃºsica. Esse era o âsomâ deles, um truque com a intenÃ§Ã£o de diferenciÃ¡-los da concorrÃªncia. Eles poderiam ir tÃ£o longe enquanto os acordes vocais de Joe permanecessem intactos. Mel e Ã¡gua era o que ele precisavam, pensou Mai, lembrando-se da receita infalÃ­vel de sua mÃ£e.

Ela levantou a cabeÃ§a e olhou ao redor. Que lugar era aquele? Ela tinha dado o endereÃ§o ao taxista mas nÃ£o sabia onde realmente era, algum lugar desabitado do Ãrtico ao norte de Londres. Tinha a sensaÃ§Ã£o de ser algum tipo de boate precÃ¡ria em uma falida e depressiva cidade ao norte. Poderia ser lugar de comediantes que contavam suas piadas sexistas, talvez com shows de striptease aos domingos. Bingo na segunda-feira Ã  noite para aposentados locais. Por que serÃ¡ que Alfie estava tocando em um lugar desses? SerÃ¡ que a gravadora estava tentando dar algum um golpe com impostos, dizendo Ã  receita que eles estavam gastando milhÃµes com novos lanÃ§amentos, quando de fato estavam fazendo shows na SibÃ©ria?

Stefan colocou a bedida no balcÃ£o em frente Ã  ela. Tinha uma efervescÃªncia com um tipo de agitaÃ§Ã£o que ela nÃ£o podia discernir.

âÃgua tÃ´nica,â ele disse. âBeba devagar. Vou voltar para lÃ¡. Ore por mim.â

Conforme ele abria a porta corta-fogo para voltar ao show, o som da banda ecoava estrondosamente.

NÃ£o havia mais ninguÃ©m no bar, exceto dois atendentes chatos e um homem que ela achava que conhecia, que estava sentado Ã  uma mesa a quem ela observava. Assim que ele percebeu que ela o observava, ele olhou para ela e esboÃ§ou um sorriso inseguro. EntÃ£o ela o reconheceu â ele estava no mesmo ensaio que ela estava algumas semanas atrÃ¡s. Ele provavelmente era de uma gravadora, para acompanhar o desempenho da banda em seu primeiro show.

Ela apoiou sua cabeÃ§a novamente sobre sua mÃ£os e respirou profundamente, tentando acalmar a pulsaÃ§Ã£o da sua tÃªmpora direita. Ela podia sentir o cheiro de Ã¡lcool amanhecido nas poÃ§as no chÃ£o e do cigarro velho que sem dÃºvida estava impregnado como DNA no papel de parede.

Quando ele se aproximou e falou com ela, ela teve certeza de que era ele. Ela deveria ter advinhado que ele iria falar com ela.

âVocÃª estÃ¡ bem? Precisa de alguma coisa?â

Ela nÃ£o se moveu, nÃ£o queria dar-lhe nenhuma oportunidade.

âSenhorita Rose?â

âEstou bem, obrigada. Um pouco de dor de cabeÃ§a. VocÃª deveria ir assistir ao show. The Gastric Band. Parece que eles estÃ£o mais descontraÃ­dos.â

Ela ouviu dele uma risada e ela sorriu para dentro das palmas de suas mÃ£os.

Ele disse, âEu soube que eles nÃ£o estÃ£o escrevendo nada por enquanto. EstÃ£o com problemas.â

Ela sorriu novamente. âEles estÃ£o cientes disso.â

âPelo menos eles nÃ£o forÃ§am a mÃºsica deles goela abaixo.â

Nesse momento ela olhou para ele. âNÃ£o funcionou. VocÃª estragou a piada.â

Ele estava pÃ¡lido mas nÃ£o tinha uma mÃ¡ aparÃªncia, algo em torno dos vinte e quatro a vinte e seis anos, ela pensou. Talvez mais velho. CÃ­lios longos e bom de conversa. Um ar de confianÃ§a provocante que beirava um certo carisma. Hmm.

âEles nÃ£o esperam ver vocÃª lÃ¡ dentro, com sorriso encorajador, batendo palmas junto com o magnata Richard Branson ou outra pessoa?â

âEu verifiquei o teste do som. NÃ£o Ã© a mesma coisa nÃ£o conhecer as mÃºsicas. Tem certeza que vocÃª estÃ¡ bem? Eu poderia ficar com vocÃª lÃ¡ fora, se quiser, enquanto vocÃª vomita.â

âÃ o que estÃ¡ parecendo? Pronta para vomitar.â

âHey, como vocÃª sabe o nome da prÃ³xima mÃºsica?â

Agora ela riu alto. âEu estava pensando em usÃ¡-la como tÃ­tulo da minha autobiografia de celebridade, uma vez que encontrei um escritor fantasma que iria fazÃª-la por um preÃ§o mais em conta.â

âA gravadora pode colocar alguns em seu caminho. Posso me sentar?â

âSÃ³ se vocÃª me divertir.â

âVou continuar entÃ£o ou eu estarei sentado lÃ¡ com a minha reputaÃ§Ã£o em frangalhos.â

Ela se aproximou do balcÃ£o e puxou uma outra cadeira alta para perto dela. Ele se sentou e apontou para o copo meio vazio.

âOutro?â

âNÃ£o, obrigada. E isso Ã© tÃ´nica antes que vocÃª pense alguma outra coisa.â

âAh, certo, vocÃª estÃ¡ nos ensaios, nÃ£o estÃ¡.â

âAlfie lhe disse o quÃª?â

âNÃ£o, eu li no jornal em algum lugar. Eu tento nÃ£o falar com Alfie, se Ã© que vocÃª deva saber.â

Ela ficou intensamente interessada. âPor que?â

âEle odeia conversa banal, vocÃª nÃ£o percebeu? E como um representante da gravadora eu nÃ£o posso fazer nada a nÃ£o ser ter uma conversa banal para nÃ£o interferir no ego deles. Nunca irrite, essas sÃ£o as instruÃ§Ãµes dos grandes chefes.â

âOs grandes chefes sÃ£o estereÃ³tipo chinÃªs? Quem diria.â

âTentamos manter isso em segredo. De qualquer modo, os integrantes de bandas sÃ£o notoriamente sensÃ­veis e o seu Alfie Ã© o prÃ­ncipe entre os mais sensÃ­veis. Eu nÃ£o deveria estar lhe contando isso. Com esse seu amor bem evidente.â

âE vocÃª nÃ£o deveria. A primeira coisa que vou fazer Ã© contar a ele e vocÃª serÃ¡ demitido.â

âAi. EntÃ£o me diga sobre vocÃª e o papel de Deannah? VocÃª realmente quer o papel? Ou Ã© apenas parte da cortina da fumaÃ§a do showbiz? E vocÃª e Helena Cross sÃ£o realmente melhores amigas e assim por diante.â

âNÃ£o, realmente, que se dane ela. Esse Ã© um recado dado, de qualquer modo. VocÃª a conhece?â

âApenas adorada de longe. TÃ£o longe quanto Ã© possÃ­vel ficar daquela boca grande e daqueles olhos amedrontadores.â

âEntÃ£o vocÃª a conhece. Confie em mim, ainda mais assustadores de perto.â

âDiferente de vocÃª, entÃ£o.â

âIsso Ã© um teste, entÃ£o.â

âAh droga. Sinto muito.â

Um teste era exatamente o que ela sentiu sobre o que tinha acabado de acontecer, ela o olhou fixamente mas nÃ£o sorriu. Ele olhou para baixo, desceu da cadeira e levantou a mÃ£o.

âÃ melhor eu entrar, como vocÃª disse. Verifique se eles estÃ£o tocando as mÃºsicas certas. NÃ£o quero que de repente eles estourem como Andy Williams.â

âOu Tom Jones.â

âNÃ£o, o cÃ©u Ã© proibido. Olhe em volta.â

âHey, qual Ã© o seu nome?â

âSe pensa que eu lhe direi, vocÃª estÃ¡ enganada.â

Ela sabia que poderia ter achado graÃ§a e o chamado de volta, mas ela gostou do poder que ela sentiu naquele momento. Foi um bom teste e tambÃ©m foi agradÃ¡vel porque ela realmente gostou dele. Se ela nÃ£o tivesse gostado dele teria sido mais fÃ¡cil, pois de qualquer modo ela nÃ£o teria sentido nada quando o dispensou.

Finalmente os Ãºltimos se foram e entÃ£o ela se direcionou para os bastidores, escolhendo onde pisava no meio do lixo pegajoso da pista. Stefan se jogou em uma das cadeiras do bar e disse a ela que iria esperar atÃ© que ela tivesse elogiado Alfie o suficiente. O representante da gravadora nÃ£o estava mais lÃ¡, tinha desaparecido.

Ela se espremeu passando por mais assistentes que carregavam os mesmos rolos de fitas adesivas e guitarras, passou por uma porta aberta que deixava o ar tÃ£o frio quanto nitrogÃªnio lÃ­quido com cheiro de batata frita com sal e vinagre, passou por uma garota que estava vomitando ruidosamente no corridor e, finalmente chegou ao mesmo camarim onde tinha se encontrado com a banda antes do show.

Quando ela passou pela porta, era como se tivesse soado um alarme silencioso. Os integrantes da banda se viraram para ela, com expressÃ£o de surpresa e apreensÃ£o em seus olhos, os braÃ§os levantados pela metade, um grande silÃªncio repentino mais alto que um trovÃ£o amortecendo o ar. Ela percebeu tudo isso imediatamente e se virou para a direita, onde ela tinha percebido um movimento.

Duas garotas, nuas da cintura para cima, em pÃ© como se esperassem o Ã´nibus e no meio de uma conversa casual. Elas estavam com a pintura do corte diagonal que atravessava seus rostos e um de seus seios. Azul em uma garota e vermelho na outra. Elas mal pareciam ter dezessete anos.

Mai soube que os integrantes da banda tinham discutido para saber quem iria primeiro conversar com elas.

Ela queria ir para cima delas e brigar. Ela queria rir diante de algo tÃ£o previsÃ­vel. Ela queria se virar e perguntar a elas o que achavam que estavam fazendo. Ela queria repentinamente bater em alguma coisa.

Ela se virou e saiu da sala. Ela sabia que Alfie iria atrÃ¡s dela ... e ele foi, batendo seus passos no piso de concreto. Colocou a mÃ£o em seu braÃ§o quente.

âMai, nÃ£o pense ...â

Ela parou mas nÃ£o conseguia olhar para ele. Lembre-se o que Ã© esse sentimento, ela disse a si mesma. A pressÃ£o por trÃ¡s dos seus olhos, o aperto na garganta e a tradicional aceleraÃ§Ã£o em seu peito. A raiva consciente e gelada na parte de trÃ¡s da sua cabeÃ§a. O que parece? Prossiga, considere, lembre-se.

âNÃ£o hÃ¡ uma boa explicaÃ§Ã£o possÃ­vel, hÃ¡?â ela disse, olhando fixamente para uma sinalizaÃ§Ã£o de saÃ­da de emergÃªncia, um homem correndo em uma estÃºpida placa verde. Por que nÃ£o Ã© vermelha? O verde aparece melhor durante um incÃªndio ... ?

âPor favor, Mai ... NÃ£o sou estÃºpido. Eu sabia que vocÃª poderia aparecer nos bastidores no final do show. AlÃ©m do mais, eu sou o Ãºnico que tenho uma namorada, entÃ£o eu estava apenasÂ­Â­ â â

âPegando uma carona? Muito bom.â

A mÃ£o dele soltou o braÃ§o dela como se ele tivesse sido atingido repentinamente por uma descarga elÃ©trica. âVocÃª pode acreditar em mim ou nÃ£o, se quiser. Eu nÃ£o tenho que me explicar para vocÃª.â

âVerdade. NÃ£o hÃ¡ a necessidade de explicaÃ§Ãµes.â

âVocÃª nÃ£o tem sido muito amigÃ¡vel ultimamente.â

Agora ela nÃ£o poderia deixar de olhÃ¡-lo â seu rosto longo, cabelos suados para trÃ¡s, olhos com o contorno vermelho pelas luzes do palco. A vez dele de olhar, talvez constrangido.

âAmigÃ¡vel como uma pessoa amigÃ¡vel deve ser. NÃ£o necessariamente rindo o tempo todo.â

Ele apertou a mandÃ­bula. âEu ando um pouco estressado, se Ã© que nÃ£o percebeu e se vocÃª conseguir olhar para alÃ©m do seu prÃ³prio umbigo.â

A raiva subiu-lhe de suas entranhas.

âVocÃª Ã© um egoÃ­sta, covarde, vocÃª nÃ£o vale nada. VocÃª teve mais incentivo de mim do que eu tive de vocÃª. Quem comprou aquele equipamento que vocÃª espancou essa noite? Quem deu entrada para pagar aquela lata velha que vocÃª chama de carro?â

âAh sim, vocÃª Ã© tÃ£o respeitÃ¡vel. Porque sua carreira vale mais do que a minha, nÃ£o Ã©? EntÃ£o vocÃª pode me dar esmolas.â

âEram esmolas? Eu estava ajudando vocÃª a se estabilizar para que vocÃª nÃ£o tivesse que se preocupar. Acontece que eu era uma instituiÃ§Ã£o de caridade.â

âChame do que vocÃª quiser. VocÃª dizia que sua ajuda era livre de condiÃ§Ãµes, mas elas estavam lÃ¡, nÃ£o Ã©?â

Ela olhou para ele, sem entender. Era isso o que ele tinha pensado? Que havia um preÃ§o a pagar pela generosidade dela? Ela tinha percebido que nÃ£o tinha entendido nada. Ela se sentia como uma missionÃ¡ria que tinha acabado de descobrir que a tribo tinha uma visÃ£o de valores diferentes da dela e que eles eram provavelmente perigosos.

Ela disse, âInacreditÃ¡vel,â e em seguida saiu. Dois homens que estavam carregando guitarras olharam para ela e depois olharam para o lado. Ela carregava uma raiva como um odor que fazia com que as pessoas se afastassem. Ela pensou, dane-se ele, ele precisa de mim mais do que eu preciso dele. Ele pode ficar com aquelas garotas se quiser. Ela tambÃ©m pensou, surpreendendo a si mesma, segure-se, nÃ£o deixe que percebam, as pessoas estÃ£o observando.

Ela diminuiu o passo, levantou os ombros e ergueu a cabeÃ§a. Respirou profundamente e segurou as lÃ¡grimas dos seus olhos. Empurrou as portas para dentro do bar, onde Stefan estava encostado de lado, com a boca levemente aberta. Ela se sentou do lado oposto e depois de um momento ele abriu seus olhos pÃ¡lidos olhando para ela. Ele engoliu a saliva e franziu a testa.

âPronta para voltar ao planeta Terra?â

âNÃ£o mesmo.â

Stefan sentou-se em estado de alerta. âO que aconteceu? Sua aparÃªncia estÃ¡ pÃ©ssima, desculpe-me por dizer. PÃ©ssima Ã© um eufemismo.â

âVocÃª precisa me animar, seria bom. VocÃª chamou o tÃ¡xi?â

Ele apontou para fora da janela. âMotor em funcionamento. VocÃª estÃ¡ bem?â

Ela esboÃ§ou um sorriso tÃ­mido. âA vida Ã© um grande aprendizado, nÃ£o Ã© mesmo? NÃ£o estou gostando das liÃ§Ãµes atuais.â

Stefan se levantou e estendeu sua mÃ£o para ela. Eles se dirigiram para a porta de saÃ­da. O ar frio era como um tapa na cara, clareando suas ideias.

Ela disse, âNÃ£o repare se eu chorar no tÃ¡xi. Eu apenas percebi que nÃ£o posso vive em paz e eu estou triste por isso, ok?â

âPaz nÃ£o existe. Procure por algo mais simples da prÃ³xima vez. O fim do Europop, por exemplo.â

Ela sorriu apesar de sua condiÃ§Ã£o. âCanÃ§Ãµes de amor suecas nunca mais.â

Stefan olhou-a indignado. âDeixe o Abba em paz. Eles governam meu mundo.â














CAPÃTULO SEIS







MAI VEIO CAMBALEANDO para for a do quarto, viu Billie comendo cereal e assistindo ao programa matinal na TV. Sete horas da manhÃ£ e o mundo jÃ¡ estava conspirando contra ela para que se sentisse desinformada. Mal tinha amanhecido mas a rispidez e o barulho da cidade jÃ¡ tinham comeÃ§ado.

âNÃ£o ouvi vocÃª entrar. VocÃª jÃ¡ saiu ou isso Ã© apenas um aquecimento?â

âAssim que eu terminar isso. Trouxe o meu cereal, espero que nÃ£o se importe. SÃ³ um pouco de leite.â

âLeite Ã© caro. Eu talvez tenha que descontar do seu pagamento. Novidades?â

âVeja.â

Como se tivesse sido preparado, a imagem mudou para mostrar em Ã¢ngulo estendido dois apresentadores, um homem de cabelos grisalhos e uma mulher loira, ambos com dentes de sobra na boca, um sofÃ¡ em destaque Ã  direita deles.

Helena Cross.

Loira e com sorriso forÃ§ado, pernas longas esticadas para frente, com um dos braÃ§os apoiado no sofÃ¡.

âOh meu Deus, a noiva do Frankenstein.â

As perguntas comeÃ§aram â como ela estava? Como foi trabalhar com cinco membros de esquerda do Parlamento naquela rotina de danÃ§a? O que ela farÃ¡ no futuro prÃ³ximo?

E entÃ£o, o objetivo real: NÃ³s soubemos que vocÃª estÃ¡ liderando a pesquisa do Daily Paper para encontrar uma estrela para o papel de Deannah. E como vocÃª se sente com isso?

... Ã© uma honra, seria uma grande oportunidade, pois trata-se de um grande papel em um grande filme, poderia ser o inÃ­cio de uma carreira profissional para qualquer um que conseguisse o papel ...

Billie: âInÃ­cio de carreira profissional?â

âInglÃªs Ã© seu segundo idioma, depois da enganaÃ§Ã£o.â

Como vocÃª encara a concorrÃªncia? Afinal, existem muitas jovens atrizes talentosas lÃ¡ for a neste momento.

Eu me sinto apenas honrada por estar participando.

Mas vocÃª deve ter alguma ideia ...

Bem, Ginny Blake e Deborah Cash estÃ£o indo muito bem nas pesquisas. Ambas seriam Ã³timas para o pael, elas duas sÃ£o jovens e muito talentosas.

E Mai Rose? HÃ¡ muito apoio para ela.

Claro, ela tambÃ©m Ã© muito talentosa, mas eu acho que ela estÃ¡ muito ocupada com sua nova peÃ§a no momento, e Ã© Ã³bvio que o filme de aÃ§Ã£o em que participa serÃ¡ lanÃ§ado em breve. Eu a encontrei numa noite dessas, na verdade. Ouvi dizer que ela estÃ¡ muito musculosa por causa das cenas de aÃ§Ã£o.

Oh, entÃ£o vocÃªs se conhecem?

Sim, somos amigas hÃ¡ muito tempo. Na verdade, ela pegou o meu lugar no TerraÃ§o Amberside quando eu tive que sair. Ela fez muito bem.

EntÃ£o ela estarÃ¡ com vocÃª na competiÃ§Ã£o?

Uma risada, tocando com a mÃ£o no braÃ§o do apresentador.

Tenho certeza que ela nÃ£o irÃ¡ se envolver. Ela estÃ¡ com toda a sua carreira muito bem planejada.

O que virÃ¡ depois para Helena Cross? Quero dizer, se vocÃª nÃ£o ganhar o papel?

Oh, eu nÃ£o fico pensando em um future distante. NÃ£o fico planejando, calculando minha carreira como uma garota. Deixo que meu assessor faÃ§a o trabalho sujo!

Os entrevistadores a agradeceram e mudaram para a parte das notÃ­cias de fofocas do entretenimento ...

Por falar em Mai Rose, soubemos de uma fofoca ontem tarde da noite de que ela terminou seu longo relacionamento com Alfie Cox, o baterista da nova banda The Gastric Band. Fontes disseram que houve uma briga acalorada entre os dois nos bastidores e depois, a senhorita Rose saiu secretamente com um homem muito gato loiro e sarado ...

âDesligue.â

Billie encontrou o controle remote e desligou a TV. Ela moveu sua cabeÃ§a logo acima da parte de trÃ¡s do sofa e olhou para Mai, passando os olhos sobre o rosto de Mai como se tivesse procurando por algum dano fÃ­sico.

Mai sentiu frio. O aquecedor nÃ£o estava ligado por muito tempo e o inverno estava comeÃ§ando a se intensificar, mas o frio era mais profundo do que qualquer sensaÃ§Ã£o fÃ­sica. Parecia que o gelo estava comeÃ§ando a penetrar suas veias, diminuindo sua habilidade de sentir, provar e tocar. Ela estava se fechando em resposta ao que o mundo parecia atentar contra ela. Ela se perguntava se ela tinha escolhido esta resposta ao invÃ©s da raiva, medo ou frustraÃ§Ã£o. Por que frio? Por que a frieza do coraÃ§Ã£o?

Billie disse, âVocÃª quer que eu faÃ§a algo para vocÃª? Eu posso ficar por apenas meia hora â George estÃ¡ precisando de mim esta manhÃ£.â

âNÃ£o,â disse Mai. âCuide dos cÃ£es e pode ir.â

âNÃ£o se preocupe com aquela imbecil. Toda essa autopromoÃ§Ã£o sairÃ¡ pela culatra.â

âVÃ¡.â

Billie levantou-se, ouvindo o sentimento por trÃ¡s das palavras de Mai. Ela levou a tigela de cereal para a cozinha e depois voltou e ficou em pÃ© na porta.

âVou cozinhas esta noite. Deixarei alguma coisa pronta para vocÃª. Saboroso e nutritivo. Sem fruta.â

Mai acenou com a cabeÃ§a em sinal de concordÃ¢ncia e seguiu para o banheiro. Talvez um banho pudesse aquecÃª-la. Depois ela poderia passar um tempo planejando seu dia. Pensando e preparando alguma coisa.

Primeiro Ã­tem de sua agenda, banho.

Segundo Ã­tem, telefonar para Eric.

Fim do segundo ato â Mai teve que escutar uma fala longa e intense ao mesmo tempo que demonstrava uma paixÃ£o idealista. O ator era experiente e tinha uma boa voz, entÃ£o nÃ£o era difÃ­cil. O nome dele era David â homem de classe media, bom e estÃ¡vel, cabelo penteado para trÃ¡s, quase quarenta anos. Piscava para ela de tempo em tempo como se para dizer, estou do seu lado em toda esta palhaÃ§ada.

Nesta manhÃ£ Pedro decidiu caminhar para trÃ¡s e ficar no fundo da sala. Ele parecia mais interessado em ouvir do que em assistir. Ele tambÃ©m apertava seus lÃ¡bios. Mai estava ouvindo David enquanto observava Pedro.

Eles repassaram lentamente as Ãºltimas cinco pÃ¡ginas do Ato atÃ© satisfazer as funÃ§Ãµes crÃ­ticas de Pedro o suficiente para que eles pudessem fazer uma pausa para o almoÃ§o. David pegou-a pelo braÃ§o de forma amigÃ¡vel.

âFale um pouco. Segunda-feira sua voz estava Ã³tima, muito forte. Hoje soou um pouco como piano. Ele pegarÃ¡ no seu pÃ© atÃ© que vocÃª equilibre isso.â

âObrigada. Estou com outras coisas em minha mente.â

âColoque sua mente no ensaio, querida, pelo menos enquanto estiver aqui.â

âDesculpe.â

âSem problema. Oh, e esteja certa de que vocÃª irÃ¡ destruir aquela imbecil.â

Mai deu um sorriso forÃ§ado â o primeiro sentimento honesto que ela sentiu naquela manhÃ£.

Antes que comeÃ§assem o trabalho da parte da tarde, Pedro veio atÃ© ela e a levou para fora. Ele caminhou com ela pelos portÃµes da escola e parou perto dela enquando observavam o movimento do trÃ¡fego e de pedestres. Ele colocou sua mÃ£o no ombro dela e falou calmamente.

âEsta tarde vamos dar inÃ­cio ao Terceiro Ato. Trata-se do eixo central da peÃ§a. Podemos ver o desespero da mulher mais velha em busca de um amor perdido, e a traiÃ§Ã£o do seu amante quando ele se dirige a vocÃª. Mai, vocÃª nÃ£o tem muito o que fazer neste Ato, mas vocÃª deve estar lÃ¡ constantemente, como uma sombra que sustenta todos os outros personagens. A felicidade de muitos deles estÃ¡ nas suas mÃ£os â o escritor condenado que ama vocÃª, mas que por sua vez Ã© amado por outra; o escritor mais velho que estÃ¡ comeÃ§ando a amar vocÃª, a mulher que deveria amÃ¡-lo. E vocÃª Ã© uma garota do interior, ingÃªnua e inquieta para aprender, que caiu na armadilha do sonho da fama e do sucesso.â

âPedro, o que vocÃª quer que eu faÃ§a?â

âYou are the centre of this play. Esta tarde eu quero que vocÃª mostre suas falas, Ã© claro, mas eu quero que vocÃª deixe os outros perceberem que vocÃª estÃ¡ assistindo. Hoje eles estarÃ£o atuando para ganhar o seu amor, e vocÃª deve estar lÃ¡, quando olharem para vocÃª.â

âIsso Ã© tudo?â

âNÃ£o, nÃ£o Ã© tudo. De amanhÃ£ em diante eu quero que vocÃª se vista de acordo com sua personagem. Chega de jeans e moletons largos. Uma saia, talvez botas e uma blusa simples. Esteja dentro dessa garota, e se torne desejÃ¡vel para aqueles que a desejam. Eu sei que vocÃª estÃ¡ envolvida nessa competiÃ§Ã£o estÃºpida dos jornais. VocÃª tem que ganhar o amor de milhares de pessoas que nÃ£o te conhecem. Mas Ã  partir de amanhÃ£, vocÃª deve ganhar o amor de todos nÃ³s aqui que conhecemos vocÃª.â

Ela sentiu uma estranha sensaÃ§Ã£o em suas entranhas, uma necessidade de fazer esse trabalho. Ela tinha entendido o que ele quis dizer embora houvesse parte do seu intelecto que se rebelava contra isso. Ela tinha ganhado os coraÃ§Ãµes de milhÃµes de pessoas na TV â mas eram as histÃ³rias que a colocavam em problemas e dificuldades que a mantinha viva. Ela apenas tinha que aparecer. Pedro estava querendo que ela ganhasse o mesmo amor, que se colocasse dentro da personagem â algo que nunca ninguÃ©m tinha pedido que ela fizesse. ComeÃ§aram a surgir ideias na sua cabeÃ§a. Ela sorriu porque sabia que tinha sido acionada por um desafio.

A tarde pertencia principalmente a Linda, uma mulher que Mai tinha visto na televisÃ£o por muitos anos mas que tambÃ©m tinha tido um longo estÃ¡gio na sua carreira. Mai observava como ela ouvia os outros personagens â o seu filho, o jovem homem a quem ela queria como amante, aqueles que dependiam dela para viver. Ela viu como ela se manteve imÃ³vel e deixou que sua voz fizesse o trabalho. Ela sabia que mais a frente no Ato, a personagem se tornaria emotiva e perturbada e queria ver como Linda iria conduzir a mudanÃ§a de um estÃ¡gio muito fÃ­sico â para outro de se jogar aos pÃ©s do seu amante em desespero. E depois revelar Ã  plateia que isso tudo era apenas um modo de conseguir tÃª-lo de volta.

Ela tambÃ©m percebeu que os outros atores estavam assistindo atentamente. Ela tinha o carisma e a forÃ§a adequados para o seu papel. Mai disse a si mesma, assista e aprenda. E pratique sua voz. Os olhos, a voz e depois os gestos mÃ­nimos para o mÃ¡ximo impacto.

Eric tinha escolhido um bar no distrito comercial de South Bank que tinha uma bela vista para a Tower Bridge, que estava iluminada como um cartÃ£o postal gigante Ã  noite.

Ele tinha trocado sua jaqueta esporte bege por um elegante terno e estava comendo amendoim.

âVocÃª jÃ¡ reparou como eles deixam seu hÃ¡lito ruim?â disse ela, deslizando pelo assento indo para perto dele.

âVocÃª jÃ¡ reparou hÃ¡ quanto tempo eu estou te esperando? VocÃª disse, seis horas.â

âSurgiu um imprevisto que se chama trabalho.â

âPeguei um coquetel de vinho branco.â Ele fez um gesto apontando para uma taÃ§a com um lÃ­quido amarelo.

âVinho branco? Parece suco de banana.â

Ele ignorou o comentÃ¡rio dela. âEntÃ£o isso Ã© por causa da Enquete para Deannah, parece que Ã© assim que eles estÃ£o comeÃ§ando a chamar isso. TerÃ¡ uma marca e um logotipo na prÃ³xima semana. O que estÃ¡ acontecendo?â

âNinguÃ©m do jornal me disse nada ainda. VocÃª estÃ¡ me preservando ou algo parecido? Eu preciso sair daqui e conversar com as pessoas, nÃ£o Ã©? Helena Cross estava na TV esta manhÃ£. O que eu preciso fazer para conseguir alguma visibilidade aqui?â

Eric olhou para seus olhos caÃ­dos, como se o absurdo daquela conversa tivesse mergulhado em Ã¡guas mais profundas. Ele se abaixou e pegou uma cÃ³pia do jornal Daily Paper e jogou-o sobre a mesa.

âVocÃª nem viu isso? Ã de hoje.â

Mai folheou atÃ© encontrar a seÃ§Ã£o de entretenimento. Duas pÃ¡ginas mostravam Mai de perfil Ã  esquerda olhando para Helena Cross que estava Ã  direita olhando-a de volta. As fotos tinham sido fortemente editadas pelo Photoshop para retirar os planos de fundo e colocar sobrancelhas franzidas em cada uma delas.

Eric disse, âPelo jeito vocÃª jÃ¡ estÃ¡ lÃ¡, mostrando todo o seu poder. AliÃ¡s, o que significa isso sobre vocÃª e Alfie? EstÃ¡ certo?â

âQuer dizer alguma coisa,â ela disse. âEu estou exatamente tentando descobrir o quÃª. Onde eles conseguiram essas fotos? Eu pareÃ§o uma mulher das cavernas com essas sobrancelhas falsas. O que eu digo na entrevista?â

âQue vocÃª estÃ¡ extremamente entusiasmada, que deseja boa sorte a todas e que venÃ§a a melhor. Eles procuraram alguma coisa sobre vocÃª e Helena disputarem o mesmo papel no TerraÃ§o Amberside. Diz que ela ainda estÃ¡ ferida sobre o injusto processo para a formaÃ§Ã£o do elenco naquele projeto. E que este serÃ¡ diferente, serÃ¡ por meio de votaÃ§Ã£o por parte do grande pÃºblico inglÃªs e assim por diante.â

âPareÃ§o bem aqui?â

âHÃ¡ tanta coisa que eu posso fazer com o material que vocÃª me dÃ¡,â ele disse. âTalvez vocÃª devesse voltar com o jovem Ringo Starr e fazer tudo de forma apaixonada. AÃ­ vocÃª vai assistir ao prÃ³ximo filme de Helena, uma matÃ©ria especial na Hello! onde ela mostra sua linda casa e o novo homem da sua vida, alguma coisa nas revistas de adolescentes tambÃ©m. Jackie ainda estÃ¡ em cartaz?â

Mai fechou os olhos. âPosso pensar grande pelo menos uma vez?â

âO que â entrevista no Financial Times?â

âNÃ£o sei ... algo um pouco maior, para poder obter votos dos adultos. Eu ainda tenho muitos fÃ£s adolescentes por causa do TerraÃ§o Amberside.â

âSe Ã© que eles ainda se lembram de vocÃª.â

âObrigada. Mas eu quero ampliar minha lista de interessados. Isso tambÃ©m ajudaria o jornal se a competiÃ§Ã£o tivesse um pouco mais de ... qual Ã© a palavra?â

âGravidade.â

âSeriedade. Ã isso. Eles tÃªm essas coisas nas revistas de fins de semana â Dez coisas que eu sei, Quinze coisas que eu aprendi.â

âPensei em uma meia dÃºzia de coisas que poderiam ser uma boa ideia para fazer. Eu sei o que quer dizer. Eu tenho um informante no Indy. Vou ver se eu posso fazer alguma coisa.â

âEntÃ£o vamos lÃ¡. VocÃª pode atÃ© dizer que a ideia foi sua.â

âEnquanto isso, tcharan, tenho algo em vista para amanhÃ£. Um dos programas semanais da TV.â

Mai suspirou. âOdeio essas coisas. Posso estar ocupada? Indisposta?â

âNÃ£o se vocÃª quiser ganhar. Grande audiÃªncia, fascinada por fofocas. VocÃª terÃ¡ sua foto na capa.â

âOh Ã³timo. AmanhÃ£ que horas?â

âMe ligue quande estiver livre. Eles sÃ£o flexÃ­veis.â

âClaro que sÃ£o. VocÃª nÃ£o sabia que sou uma grande estrela?â

O bar estava comeÃ§ando a lotar e Eric terminou seu drink mas parecia inquieto.

âAlgo mais? Eu tenho uma vida privada, vocÃª sabe.â

Mai colocou sua mÃ£o na gola do terno dele.

âAlcoÃ³licos anÃ´nimos? Happy Hour no Ritz?â

âA primeira noite de Stephen no Teatro Donmar. Vou encontrar a mÃ£e dele lÃ¡. Primeira vez que iremos conversar em quase dois anos. Tive que ver o sangrento Samuel Beckett para poder falar com ela novamente. QuÃ£o irÃ´nico Ã© isso?â

âNÃ£o estou dizendo nada.â

âExatamente.â

Ela podia sentir o cheiro antes de chegar Ã  porta. Alguma carne com um toque oriental. Ela tinha tido uma rÃ¡pida lembranÃ§a â quando crianÃ§a, antes de seu pai falecer, algumas coisas espalhadas na mesa da cozinha, potes cobertos com papel alumÃ­nio, molho de laranja denso. Ela tinha mais ou menos cinco anos de idade e seu pai tinha convidado alguÃ©m para jantar sem avisar Geraldine. EntÃ£o, comida chinesa para viagem, a primeira que Mai tinha visto â ou sentido. O homem se sentou na sala em frente ao calor da lareira, lenhas estalando, Geraldine colocando o molho nos pratos, olhos fixos, boca apertada, uma atmosfera ruim na casa.

Foi embora. Ela nunca soube quem era esse homem e nunca mais o viu nem teve notÃ­cia.

Dentro, o aroma tomava conta. Ela entrou dentro da cozinha e tirou seu cachecol, empurrando os cÃ£es com seu joelho.

âSuponho que seja bife com anis estrelado.â

Billie disse, âNÃ£o brigue com Jamie e com Heston. Eles vieram correndo para dentro de casa e derrubaram azeite de oliva e espalharam por todo lado. VocÃª estÃ¡ com fome?â

âE agora na expectativa. DÃª-me cinco minutos.â

Ela se trocou e lavou o rosto. Depois voltou com seu roupÃ£o e pensou no que iria vestir para satisfazer Pedro no dia seguinte. Ela tinha uma saia que, com alguma imaginaÃ§Ã£o, poderia ser descrita vagamente como algo adequado. Mas o mais prÃ³ximo que ela poderia conseguir de uma blusa simples era algo que uma das seguidoras da Stella McCartney tinha lhe dado. Era uma blusa de mangas curtas com um padrÃ£o florido em amarelo com fundo branco e colarinho branco. Se os camponeses gostam de flores, entÃ£o isso era antiquado bem ao estilo camponÃªs.

Billie tinha colocado Ã  mesa, que dificilmente era utilizada, no final da sala de jantar. A TV estava ligada com o volume baixo mas estava mostrando grupos de pessoas vestidas com sobretudo em confronto. Provavelmente um documentÃ¡rio sobre as relaÃ§Ãµes trabalhistas â a frase que sua mÃ£e usava para descrever qualquer tipo de programa de nÃ£o-ficÃ§Ã£o que nÃ£o estivesse diretamente relacionado com as artes.

Billie trouxe dois pratos fumegantes de cozido de carne Ã  mesa. Mai acrescentou vegetais e molho.

âEu fiz compras,â disse Billie. âDeixei o recibo na cozinha. Tinha uma fila absurda no Sainsburys esta manhÃ£.â

Mai achou que ela estava nervosa. Essa era a primeira vez que Billie tinha realmente cozinhado para elas duas e isso era como se ela tivesse passado dos limites. Ela tinha a estranha sensaÃ§Ã£o de ter sido laÃ§ada e trazida para perto de alguma coisa que ela nÃ£o sabia o que era. Domesticidade? Amizade?

A carne estava derretendo e divertidamente temperada, o anis estrelado estava dando o toque oriental. Ela pegou o ultimo pedaÃ§o de pÃ£o do cesto e limpou o prato.

âFale para o Jamie que eu gostei.â

âEstava bom? NÃ£o estava muito salgado?â

âEstava Ã³timo.â

Um barulho vindo do quarto.

âSeu telefone.â

Mai acenou demonstrando desinteresse. âEles deixarÃ£o mensagem.â

Ela cochilou no sofa enquanto Billie lavou a louÃ§a â ela tinha insistido. O aroma da carne ainda continuava. Mai lembrou-se do rosto da sua mÃ£e, linda, cabelos escuros, sobrancelhas arqueadas e uma pequena covinha do meio do seu queixo. Sempre com uma pitada de rosa nas bochechas que nunca foi artificial, apenas seu tom natural de pele. Qual era a real semelhanÃ§a entre seus pais? Sua mÃ£e estava sempre fora, trabalhando, e tinha a babÃ¡ â uma garota das Filipinas que preparava estranhas comidas orientais, ela e Jake. Peixe e batatas fritas eram coisas do outro mundo, assim como a lula era para seus colegas de escola. Havia sempre molhos fervendo nos pratos.

O pai dela estava frequentemente em casa com eles. Ela nÃ£o tinha nenhuma outra memÃ³ria visual dele, exceto o Ã¡lbum de fotografias da famÃ­lia, mas ela sentia que ele era fisicamente forte, um homem dinÃ¢mico, alguÃ©m que poderia enganar uma linda e jovem atriz. Ele era inquieto â levava-os ao cinema para uma estravagÃ¢ncia, ou a algum parque temÃ¡tico em algum lugar. Jake correria para os brinquedos de girar e os de perigosos de velocidade, ela seguraria a mÃ£o de seu papai e assistiria Jake se comportar como um personagem indestrutÃ­vel de desenho animado. NÃ£o era de se admirar que ele acabaria entrando para o exÃ©rcito.

E entÃ£o, seu pai se foi.

Geraldine vestida de luto. Muitas pessoas na casa. Diziam para que ela e Jake ficassem quietos mas eram tratados gentilmente pelos adultos. Ela nÃ£o se lembrava de ter ido Ã  igreja mas havia fotografias dela, de Jake e de Geraldine no meio dos enlutados, prÃ³ximo Ã  uma porta gÃ³tica. A imprensa â estava sempre lÃ¡, sempre em cima, atrÃ¡s de uma sÃ³rdida oportunidade. Ela nÃ£o sabia por que Geraldine mantinha os recortes, mas estavam cuidadosamente arquivados em scrapbooks como se a morte do seu marido fosse apenas um outro estÃ¡gio de sua carreira ...

Muito tempo como centro das atenÃ§Ãµes definitivamente mexeu com suas prioridades, ela pensou.

O telefone dela tocou novamente no quarto. Depois parou, ela se levantou e foi verificar as mensagens.

Alfie: âSou eu de novo. Por favor me ligue. Estou recebendo um monte de porcaria dos caras, toda essa publicidade.â

Sim, era tudo sobre ele.

Agora ela e Billie eram um velho casal, deitado no sofa assistindo ao jornal da noite. Paxman destruindo um politico e defendendo cortes na Ã¡rea da saÃºde. Ela sÃ³ estava assistindo porque sua mÃ£e se recusava a assistir qualquer assunto polÃ­tico em sua casa. Assistir aos jornais de qualquer tipo era um ato de rebeldia.

Vamos Ã s manchetes, muitos jornais espalhados em sua mesa. DiscussÃµes na CÃ¢mara por causa dos cortes. Uma vitÃ³ria esportiva na Ãndia. E, para descontrair, Helena Cross estÃ¡ liderando a competiÃ§Ã£o do Daily Paper. Depois vem Ginny Blake. Mai Rose finalmente apareceu mas estÃ¡ muito atrÃ¡s da Senhorita Cross... Boa noite.

âGanhei o dia. Obrigada, Paxo.â

Billie bocejou. âVocÃª tem falado com o Eric? Como estÃ£o as coisas?â

Mai se levantou e se espreguiÃ§ou. Ela realmente nÃ£o queria falar sobre o assunto. Uma infantilidade. âEle estÃ¡ cuidando do assunto. Um Rottweiler em pele de cordeiro.â

âEntÃ£o agora vai comeÃ§ar, vocÃª vai ver.â

âPor que vocÃª Ã© sempre positive, mesmo diante das evidÃªncias?â

âGeralmente porque as alternativas sÃ£o muito duras de suportar.â Ela se levantou e deu um abraÃ§o desajeitado em Mai. âEstarei aqui amanhÃ£ Ã s sete.â

âVocÃª vai acabar se mudando se continuar nesse ritmo.â

Billie deu-lhe uma olhada torta e foi buscar seu casaco.

No quarto havia uma mensagem do Eric em seu telefone: Entrevista amanhÃ£. Ligue para agendarmos um horÃ¡rio. Vamos torcer. No clube Estragon.

Ela desenterrou sua roupa antiquada e deixou pronta para vesti-la na manhÃ£ seguinte. E preparou uma explicaÃ§Ã£o para a jornalista sem dÃºvida com quadris sarados do Daily Paper que esperava encontrar uma atriz vestindo a mais recente criaÃ§Ã£o das passarelas.

Mai provavelmente teria que convencÃª-la de que a blusa era da marca Jonathan Anderson, embora nÃ£o fosse larga o suficiente.

Enquanto ela nÃ£o soubesse disso, as coisas nÃ£o ficariam bem.














CAPÃTULO SETE







APÃS A DIFICULDADE para subir o morro, eles conseguiram tomar cafÃ©. Geraldine sentou-se enquanto Joan foi para o balcÃ£o, voltou com dois cafÃ©s com leite fumegantes em copos protegidos com papelÃ£o. Ela se movia levemente na diagonal enquanto caminhava, como um carrinho de supermercado com problema em uma das rodas, tentando poupar seu frÃ¡gil joelho.

Geraldine estava animada pelo protesto que ecoava da estaÃ§Ã£o Brighton, como de costume. Ela gostava de movimento, de mudanÃ§as, da ideia de estar aqui agora, e depois em um lugar diferente em um perÃ­odo de quase uma hora.

Craig nunca entendeu isso. Ele era uma contradiÃ§Ã£o â um homem caseiro que se tornou impaciente â mas que nÃ£o ficava tranquilo em lugar nenhum. A locomoÃ§Ã£o era simplesmente o preÃ§o que se paga para ser infeliz em lugares diferentes. Embora, Ã© claro, ser infeliz era sua emoÃ§Ã£o por escolha, a melodia constante, a chave de casa, as duas linhas no nÃ­vel de espÃ­rito que sua pequena bolha de equilÃ­brio constantemente procurava. Se eu nÃ£o estivesse infeliz, eu deveria estar, parecia ser a melodia. Ele morreu de ataque cardÃ­aco durante uma partida de golfe, mas o ataque foi o resultado de um coraÃ§Ã£o que estava muito pesado para a alma que o continha.

Ela nÃ£o pensava em Craig hÃ¡ quase uma semana â praticamente um recorde. Provavelmente conversar com Mai foi o que tinha trazido-o a sua mente. A doÃ§ura que resulta na dor de dente.

Joan, sua vizinha de quadris largos com uma patolÃ³gica urgÃªncia em gastar, estava tentando atrair sua atenÃ§Ã£o. Ela era respeitosa com Geraldine Ã s vezes, de um modo irritante, mas pelo menos sua presenÃ§a tornava a viagem menos solitÃ¡ria.

âEstÃ¡ tÃ£o calada, mas me diga â o que Mai estÃ¡ achando da competiÃ§Ã£o? Seria um grande papel, nÃ£o seria? O de Deannah, eu quero dizer.â

Geraldine reconheceu o brilho nos olhos de Joan, a pequena luz da luxÃºria que veio dos seus olhos por estar prÃ³ximo a uma celebridade. Ela tinha sentido isso na pele, anos atrÃ¡s, quando seu rosto estava constantemente estampado nas capas de revistas e nas revistas de cinema â o modo em que homens e mulheres perfeitamente normais se sentiam diminuidos, inferiores, menores, mais apagados quando ela chegava nos lugares. Como mÃ£e de Mai, ela sabia exatamente como isso seria no final de tal abnegaÃ§Ã£o e tinha tentado o seu melhor nos Ãºltimos dois anos para manter Mai envolvida em uma noÃ§Ã£o de lugar mundano e comum.

âÃ a publicidade,â disse ela. âÃ algo que gira em torno de vocÃª sem vocÃª ter que fazer nada. Ã como quando vocÃª visita o circo â hÃ¡ muita manipulaÃ§Ã£o por trÃ¡s das cameras para manter os animais em ordem e para impedir os palhaÃ§os de cairem de suas bicicletas. Mas vocÃª nunca vÃª tudo o que que estÃ¡ por trÃ¡s, vÃª? Publicidade Ã© isso â uma mÃ¡quina invisÃ­vel que controla o mundo. E vocÃª nunca vÃª isso atÃ© ser atingida por isso, ou quando joga vocÃª fora.â

Joan recusou-se desviar do assunto. âÃ sempre muito bom incluir belas metÃ¡foras, minha jovem senhora, mas vocÃª nÃ£o respondeu a minha pergunta, respondeu? A Mai quer o papel, ou nÃ£o?â

Geraldine preferia gostar mais disso, ser mais persistente na busca por fofocas, porque ela nÃ£o era muito bajuladora.

âEu gosto do papel da jovem,â ela disse. âVocÃª pode me falar mais a respeito. Agora, qual Ã© a pergunta?â

Joan deu gentilmente um tapa no braÃ§o dela. âVocÃª tem quarenta e cinco anos e ainda continua deslumbrante. Pode me provocar se quiser, mas vocÃª nÃ£o pode escapar do fato de vocÃª e Mai serem a realeza para algumas pessoas.â

Geraldine apertou as extremidades da boca. âO que, eu e meus dois filmes? Meia dÃºzia de shows na TV e dois longas em cartaz no centro de Londres? VocÃª precisa sair mais, Joany.â

âÃ exatamente por isso que estamos aqui hoje, nÃ£o Ã©? Agora pare de me insultar e tome o seu cafÃ©. Temos cinco minutos.â

A linha de Brighton atÃ© Londres passava pela janela dela como um filme que ela tinha visto uma dÃºzia de vezes. Ela tentava detector alteraÃ§Ãµes na sua ediÃ§Ã£o â um novo conjunto habitacional perto de Haywards Heath, uma rotatÃ³ria adicional ao sul de East Croydon â mas a paisagem permanecia melancÃ³loca como sempre. Ela precisava fugir, ver o sol, tirar um tempo para ela e sem o peso de Mai forÃ§ando-a para baixo. Mai nunca tinha pedido sua ajuda, desde seus dezesseis anos de idade. Mas Geraldine sabia que ela precisava da sua ajuda. Ela era uma garota com uma profissÃ£o que costuma usar vocÃª e depois o joga fora. Novidade era tudo, a menos que vocÃª pudesse provar que tinha algo mais a oferecer. Um talento para diverter, como muitos tinham ditto. Mai tinha talento. Ela tinha encontrado algo em seus pais e o levou para seu interior, digeriu isso e depois usou para criar ... o quÃª? O que exatamente Mai fez, e como ela e sua mÃ£e poderiam ver isso? Ela deveria estar tÃ£o acostumada com a exposiÃ§Ã£o do sentimento da filha que nada seria tÃ£o impactante. Ela deveria ter visto isso antes, cada mania, cada inflexÃ£o, cada aparÃªncia de entusiasmo ou tristeza.

Mas Mai continuava surpreendendo-a. Ela parecia encontrar um lugar dentro dela onde ela via, ouvia ou sentia alguma coisa ... e entÃ£o descobria uma maneira de tornar isso visÃ­vel de uma outra forma. Isso Ã© arte. Algo que Geraldine nunca tinha tido verdadeiramente â com ela era apenas uma combinaÃ§Ã£o de aparÃªncias e uma certa ousadia frÃ¡gil que persuadiam pessoas a acreditar que ela estava atuando. Com Mai, era realmente como se ela tivesse sido abduzida por uma forÃ§a alienÃ­gena tornando-se uma outra pessoa. AlguÃ©m que nem mesmo sua mÃ£e poderia reconhecer.




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