Se Ela Visse 
Blake Pierce


Um Enigma Kate Wise #2
Uma obra prima de suspense e mistério! O Autor fez um trabalho magnífico desenvolvendo personagens com um lado psicológico que é tão bem descrito que nos sentimos dentro de suas mentes, seguimos seus medos e comemoramos seus sucessos. A trama é muito inteligente e vai mantê-lo entretido durante todo o livro. Repleto de reviravoltas, esse livro vai manter você acordado até virar a última página. –Avaliações de Livros e Filmes, Roberto Mattos (Once Gone) SE ELA VISSE (Enigma Kate Wise) é o livro nº 2 de uma nova série de thriller psicológico escrita pelo autor best-seller Blake Pierce, cujo best-seller nº 1 Once Gone (livro nº1) (download gratuito) recebeu mais de 1. 000 avaliações cinco estrelas. Quando um casal é encontrado morto e não há nenhum suspeito aparente, Kate Wise, de 55 anos, depois de 30 anos de carreira no FBI, é chamada para voltar da aposentadoria (e de sua tranquila vida em um bairro nobre) e trabalhar para o departamento. A mente brilhante de Kate e a capacidade inigualável de entrar na mente dos serial killers são fatores indispensáveis, e o FBI precisa dela para desvendar esse caso atordoante. Por que dois casais foram encontrados assassinados, a 80 quilômetros de distância, e da mesma maneira? O que eles podem ter em comum?A resposta, Kate percebe, deve ser encontrada com urgência – já que ela está certa de que o assassino está prestes a atacar novamente. Mas no jogo mortal de gato e rato que se segue, Kate, entrando nos canais obscuros da mente distorcida do assassino, pode chegar tarde demais. Um thriller cheio de ação, um suspense emocionante, SE ELA VISSE é o livro nº 2 de uma série nova e fascinante que fará você virar páginas até tarde da noite. O livro nº 3 da série de enigmas KATE WISE estará disponível em breve!





Blake Pierce

Se ela visse




Blake Pierce

Blake Pierce é o autor da série de enigmas RILEY PAGE, com doze livros (com outros a caminho). Blake Pierce também é o autor da série de enigmas MACKENZIE WHITE, composta por oito livros (com outros a caminho); da série AVERY BLACK, composta por seis livros (com outros a caminho), da série KERI LOCKE, composta por cinco livros (com outros a caminho); da série de enigmas PRIMÓRDIOS DE RILEY PAIGE, composta de dois livros (com outros a caminho); e da série de enigmas KATE WISE, composta por dois livros (com outros a caminho).



Como um ávido leitor e fã de longa data do gênero de suspense, Blake adora ouvir seus leitores, por favor, fique à vontade para visitar o site www.blakepierceauthor.com (http://www.blakepierceauthor.com/) para saber mais a seu respeito e também fazer contato.



Direitos Autorais © 2018 por Blake Pierce. Todos os direitos reservados. Exceto conforme o permitido sob as Leis Americanas de Direitos Autorais (EUA Copyright Act, de 1976), nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, distribuída ou transmitida de qualquer forma ou por qualquer meio, ou armazenada em um sistema de banco de dados ou de recuperação, sem a prévia autorização do autor. Este e-book é licenciado apenas para seu prazer pessoal. Este e-book não pode ser revendido ou distribuído para outras pessoas. Se você gostaria de compartilhar este livro com outra pessoa, adquira uma cópia adicional para cada destinatário. Se você está lendo este livro e não o comprou, ou ele não foi comprado apenas para o seu uso, então, por favor, devolva o livro e compre a sua própria cópia. Obrigado por respeitar o trabalho duro deste autor. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, empresas, organizações, locais, eventos e incidentes são um produto da imaginação do autor ou são usados ficticiamente. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, é mera coincidência. Imagem da capa Copyright andreiuc88, usada sob licença da Shutterstock.com.



LIVROS DE BLAKE PIERCE




SÉRIE UM THRILLER PSICOLÓGICO DE CHLOE FINE


A PRÓXIMA PORTA (Livro #1)


A MENTIRA MORA AO LADO (Livro #2)




SÉRIE UM MISTÉRIO DE KATE WISE


SE ELA SOUBESSE (Livro #1)


SE ELA VISSE (Livro #2)


SE ELA CORRESSE (Livro #3)




SÉRIE OS PRIMÓRDIOS DE RILEY PAIGE


ALVOS A ABATER (Livro #1)


À ESPERA (Livro #2)


A CORDA DO DIABO (Livro #3)


AMEAÇA NA ESTRADA (Livro #4)




SÉRIE UM MISTÉRIO DE RILEY PAIGE


SEM PISTAS (Livro #1)


ACORRENTADAS (Livro #2)


ARREBATADAS (Livro #3)


ATRAÍDAS (Livro #4)


PERSEGUIDA (Livro #5)


A CARÍCIA DA MORTE (Livro #6)


COBIÇADAS (Livro #7)


ESQUECIDAS (Livro #8)


ABATIDOS (Livro #9)


PERDIDAS (Livro #10)


ENTERRADOS (Livro #11)


DESPEDAÇADAS (Livro #12)


SEM SAÍDA (Livro #13)




SÉRIE UM ENIGMA DE MACKENZIE WHITE


ANTES QUE ELE MATE (Livro #1)


ANTES QUE ELE VEJA (Livro #2)


ANTES QUE ELE COBICE (Livro #3)


ANTES QUE ELE LEVE (Livro #4)


ANTES QUE ELE PRECISE (Livro #5)


ANTES QUE ELE SINTA (Livro #6)


ANTES QUE ELE PEQUE (Livro #7)


ANTES QUE ELE CACE (Livro #8)




SÉRIE UM MISTÉRIO DE AVERY BLACK


RAZÃO PARA MATAR (Livro #1)


RAZÃO PARA CORRER (Livro #2)


RAZÃO PARA SE ESCONDER (Livro #3)


RAZÃO PARA TEMER (Livro #4)




SÉRIE UM MISTÉRIO DE KERI LOCKE


RASTRO DE MORTE (Livro #1)


RASTRO DE UM ASSASSINO (Livro #2)




PRÓLOGO


Durante a adolescência, Olivia nunca pensou que iria ver o dia no qual ela estivesse realmente feliz por estar em casa. Como a maioria dos adolescentes, passou os anos do ensino médio sonhando em sair de casa, ir para a universidade e começar sua própria vida. Ela seguiu o plano, saindo de Whip Springs, Virginia, e entrando para a University of Virginia. Agora, estava no seu primeiro ano, entrando num verão que estaria repleto de oportunidades de emprego e, até o final do verão estaria à procura de um apartamento. Olivia gostava de morar no campus, como veterana ela percebeu que era hora de morar em outro lugar da cidade.

Contudo, seria um mês inteiro com seus pais em Whip Springs. E sabia que o seu lado adolescente nunca a perdoaria pelo alívio e pela onda de carinho que sentiu ao estacionar na garagem dos seus pais. Eles viviam logo ao lado de uma estrada em Whip Springs ─ uma pequena e pacata cidade na região central do estado da Virginia, com uma população de menos de cinco mil habitantes e que era cercada de florestas por todos os lados, com uma porção de floresta atravessando Whip Springs.

Estava começando a escurecer quando parou na entrada da garagem. Ela esperava que sua mãe acendesse a luz da varanda para ela, mas não havia luz brilhando na porta da frente. Sua mãe sabia que ela estaria chegando nesta tarde, ela havia conversado sobre isso pelo telefone há dois dias e Olivia até mesmo mandou uma mensagem três horas atrás para dizer a ela que estava a caminho.

Certamente, sua mãe não havia respondido a mensagem, o que não comum. Mas Olivia achou que provavelmente ela deveria estar ocupada para deixar o quarto de infância de Olivia apresentável e esqueceu-se de respondê-la.

Ao se aproximar da casa, ela notou que não apenas a luz da varanda não estava acesa, parecia que cada uma das luzes da casa tinha sido desligada. Sabia que eles estavam em casa, contudo. Os carros de ambos estavam estacionados na entrada da garagem, o carro de sua mãe logo atrás da caminhonete de seu pai, como sempre fizeram. Se esses bobos estiverem tentando me pegar em algum tipo de festa surpresa de boas-vindas, acho que vou até chorar, Olivia pensou enquanto estacionava atrás do carro da mãe.

Ela abriu o porta-malas e tirou suas bagagens, apenas duas malas, mas uma que parecia pesar uma tonelada. Ela as ergueu para cima da calçada e em direção à varanda. Fazia quase um ano desde quando ela esteve ali para fazer uma visita; ela quase se esqueceu completamente do quão isolado o lugar parecia. Os vizinhos mais próximos ficavam a menos de quinhentos metros de distância, mas as árvores rodeando a propriedade faziam parecer que a casa era completamente isolada… Especialmente quando comparada ao apertado espaço do dormitório na faculdade.

Ela arrastou as malas para cima dos degraus da varanda e então se esticou para tocar a campainha. Quando ela o fez, notou que a porta estava parcialmente aberta.

Repentinamente, a falta de luz do interior da casa pareceu sinistra ─ como algum tipo de alerta. Mãe? Pai? Ela chamou enquanto se alongava lentamente para abrir a porta com o pé.

A porta abriu, revelando o vestíbulo e um pequeno corredor que ela conhecia muito bem. A casa estava, de fato, escura, mas ao entrar indo contra os avisos do seu medo crescente, relaxou imediatamente. De algum lugar na casa, ela ouviu a televisão ─ as familiares campainhas e aplausos do programa Wheel of Fortune, uma mania que sua família sempre teve e da qual Olivia se lembrava.

Ao se aproximar do fim do corredor e se aproximar da sala de estar, viu a TV, a qual foi fixada acima da lareira, uma tela bem grande de fato, fazendo parecer que o apresentador Pat Sajak estava bem ali na sala.

–Oi, pessoal, disse Olivia, olhando ao redor da obscurecida sala de estar. Muito obrigada por me ajudar com minhas coisas. Deixar a porta aberta foi uma ─

Era para ser uma piada, mas quando as palavras se penduraram na sua garganta, não tinha nada de engraçado.

Sua mãe estava no sofá. Ela poderia muito bem-estar dormindo e não mais que isso se não fosse pelo sangue todo. Estava por todo seu peito e encharcando o sofá. Havia tanto sangue que a mente de Olivia não conseguiu entender a cena imediatamente. Vê-la ao som de Wheel of Fortune tornou, de alguma maneira, ainda mais difícil de compreender a cena.

–Mãe…

Olivia sentiu que seu coração havia parado. Ela se afastou vagarosamente quando a realidade começou a tocá-la. Ela sentiu como se uma pequena parte da sua cabeça houvesse se desgrudado e estivesse flutuando no espaço para algum outro lugar.

Outra palavra se formou em sua língua ─ Pai ─ ao se afastar lentamente.

Mas foi então que ela o viu. Estava bem ali, no chão. Estava deitado logo em frente à mesa de centro e tinha tanto sangue por cima dele quanto em sua mãe. Estava deitado com a face virada para o chão, imóvel. Mas parecia que rastejou de alguma forma, como se houvesse tentado escapar. Quando absorveu aquilo tudo, Olivia viu o que parecia ser pelo menos seis ferimentos de faca nas suas costas.

De repente, ela entendeu porque a mãe não respondeu sua mensagem. Sua mãe estava morta. Seu pai também.

Ela sentiu um grito subir pela garganta enquanto fazia o possível para destravar suas pernas. Sabia que, quem quer que fosse que fizera isso, ainda poderia estar por ali ─ deixou o grito sair, deixou as lágrimas rolarem e relaxou suas pernas.

Olivia saiu em disparada pela casa e correu ─ e correu ─ e não parou de correr até que seus gritos finalmente se prenderam em sua garganta.




CAPÍTULO UM


Era engraçado o quão rápido a atitude de Kate Wise mudou. Quando passou um ano aposentada, fez tudo o que podia para evitar jardinagem. Jardinagem, tricô, clubes de bridge ─ e até mesmo clubes de leitura ─ ela evitou todos como o diabo foge da cruz. Todos pareciam coisas clichês que mulheres aposentadas faziam.

Mas alguns meses de volta à pressão do FBI mexeu com ela. Não era tão ingênua em pensar que se reinventou. Não, isso apenas a revigorou. Ela tinha um propósito novamente, um motivo para esperar pelo dia seguinte.

Então, talvez tenha sido por isso que ela achou que estava tudo bem ao recorrer à jardinagem como passatempo agora. Não a relaxava, como ela pensava que aconteceria. Apenas, a deixava ansiosa; por que dedicar tempo e energia ao plantio de algo quando se luta contra o clima para garantir que aquilo permaneça vivo? Ainda assim, havia uma alegria ao fazer aquilo ─ colocar algo no chão e ver os frutos do plantio ao longo do tempo.

Ela começou com flores ─ margaridas e buganvílias no início ─ e depois partiu para o plantio de um pequeno jardim de hortaliças no canto direito do quintal. Foi quando estava juntando terra sobre um tomateiro que percebeu que não tinha nenhum interesse em jardinagem até se tornar uma avó.

Ela se perguntou se isso tinha algo a ver com a evolução de sua natureza nutridora. Ela tinha amigos e livros a dizendo que havia algo diferente em ser avó ─ algo em que uma mulher nunca se conectava realmente enquanto mãe.

Sua filha, Melissa, assegurou a ela que havia sido uma boa mãe. Era uma garantia que Kate precisava de tempos em tempos, dada a maneira como ela lidou com sua carreira. Ela havia, admitidamente, colocado sua carreira à frente da família por tempo demais e se considerava sortuda por Melissa nunca ter se ressentido por isso ─ a não ser por um período logo depois de ter perdido o pai.

Ah, a única desvantagem da jardinagem, Kate pensou enquanto se levantava e limpava as mãos e os joelhos. Os pensamentos tendem a vagar. E quando isso acontece, o passado começa a rastejar para perto da gente, sem ser convidado.

Saiu do jardim, atravessando o quintal de sua casa em Richmond, Virgínia, até a varanda dos fundos. Teve o cuidado de bater seus calçados sujos de terra na porta dos fundos. Também largou as luvas ao lado deles, sem querer sujar a casa. Passou os últimos dois dias limpando a casa. Kate estava cuidando de Michelle, sua neta, esta noite e apesar de Melissa não ser uma maluca por limpeza, Kate queria ter o lugar brilhando de limpo. Fazia quase trinta anos desde que esteve na companhia de um bebê e não queria correr nenhum risco.

Olhou para o relógio e franziu a testa. Ela esperava ter companhia em quinze minutos. Esse era mais um aspecto negativo da jardinagem: o tempo se esvaia facilmente.

Ela se refrescou no banheiro e foi até a cozinha para passar um bule de café fresco. Estava na metade do caminho quando a campainha tocou. Ela atendeu imediatamente, feliz como sempre por ver as duas mulheres com as quais passava algumas horas, pelo menos, duas vezes na semana durante o último ano e meio.

Jane Patterson entrou primeiro pela porta, carregando um prato de doces. Eles eram dinamarqueses caseiros e venceram o concurso Carytown Cooks por dois anos consecutivos. Clarissa James entrou atrás dela com uma grande tigela de frutas recém-cortadas. Ambas estavam vestidas com looks fofos que serviam tanto para um brunch na casa de um amigo quanto para um passeio casual no shopping ─ algo que as duas faziam bastante.

–Você esteve fazendo jardinagem de novo, não é? Clarissa perguntou enquanto colocavam a comida na cozinha.

–Como você sabe? Kate perguntou.

Clarissa apontou para o cabelo de Kate, logo abaixo dos ombros. Kate se aproximou e descobriu que havia esquecido um pouco de terra que de alguma forma acabara em seu cabelo. Clarissa e Jane riram disso enquanto Jane tirou o plástico de seus doces dinamarqueses.

–Riam o quanto quiser, disse Kate. Vocês não estarão aqui quando os pés de tomate estiverem carregados.

Era uma manhã de sexta-feira, o que automaticamente tornava a manhã boa. As três mulheres se acomodaram em torno do centro da cozinha de Kate, sentadas em banquetas, comendo seu brunch e tomando café. E enquanto a companhia, a comida e o café eram todos bons, ainda era difícil ignorar o que faltava.

Debbie Meade não fazia mais parte do grupo. Depois que sua filha morreu, uma das três vítimas de um assassino que Kate matou no final, Debbie e seu marido, Jim, haviam se mudado. Eles moravam em algum lugar perto da praia na Carolina do Norte. Debbie mandava fotos da costa de vez em quando, só para fazer inveja de brincadeira. Eles estavam morando lá há dois meses e pareciam felizes ─ por estarem longe da tragédia.

A conversa foi majoritariamente leve e agradável. Jane falou sobre como o marido estava de olho na aposentadoria no ano que vem e já havia começado a planejar a redação de um livro. Clarissa compartilhou notícias sobre seus filhos, agora com vinte e poucos anos, e como os dois conseguiram promoções recentemente.

–Falando de crianças, disse Clarissa, como está Melissa? Está gostando da maternidade?

–Ah sim, disse Kate. É absolutamente louca pela sua filhinha. Uma menininha que me terá como babá hoje à noite, na verdade.

–Primeira vez? Jane perguntou.

–Sim. É a primeira vez que Melissa e Terry vão a algum lugar sem o bebê. Realmente para passar a noite fora.

–O modo vovó já entrou em ação? Perguntou Clarissa.

–Eu não sei, Kate disse com um sorriso. Eu acho que vamos descobrir hoje à noite.

–Sabe, disse Jane, você poderia voltar no tempo e ser babá como eu costumava fazer no ensino médio. Eu levaria meu namorado comigo e assim que as crianças fossem para a cama…

–Isso é muito perturbador, disse Kate.

–Mas você acha que Allen estaria animado para isso? Clarissa perguntou.

–Eu não sei, respondeu Kate, tentando imaginar Allen com um bebê. Eles estavam namorando a sério desde que Kate e sua nova parceira, DeMarco, tinham encerrado o caso do serial em Richmond ─ o mesmo caso da filha de Debbie Meade. Não houve uma conversa real sobre o futuro; eles não dormiram juntos ainda e raramente se aproximavam com mais intimidade física. Estava gostando de estar com ele, mas o pensamento de trazê-lo para a parte avó de sua vida a deixava desconfortável.

–As coisas ainda vão bem entre vocês dois? Clarissa perguntou.

–Acho que sim. A coisa toda de namoro ainda parece estranha para mim. Estou velha demais para namorar, sabe?

–Claro que não, disse Jane. Não me entenda mal… Eu amo meu marido, meus filhos e minha vida em geral. Mas eu daria tudo para estar de volta nessa cena de namoro por um tempo, sabe? Tenho saudade. Conhecer novas pessoas, compartilhar os primeiros…

–Sim, eu acho que é muito bom, admitiu Kate. Allen acha a ideia de namorar estranha também. Nós nos divertimos juntos, mas… Fica um pouco estranho quando as coisas começam a se inclinar para um desfecho romântico.

–Blá, blá, blá, disse Clarissa. Mas você o considera como seu namorado?

–Estamos realmente tendo essa conversa? Kate perguntou, começando a sentir-se levemente corada.

–Sim, disse Clarissa. Nós, senhoras casadas e velhas, precisamos viver através de você.

–E isso também vale para o seu trabalho, disse Jane. Como andam as coisas?

–Não há ligações há cerca de duas semanas, e a última foi apenas para ajudar em uma pesquisa. Desculpem-me, garotas… Não é tão cheio de aventuras quanto vocês esperavam.

–Então, você está de volta à aposentadoria? Perguntou Clarissa.

–Basicamente. É complicado.

Esse comentário terminou com o questionamento enquanto elas se aprofundavam em tópicos locais ─ filmes, um festival de música na cidade, obras na interestadual e assim por diante. Mas a mente de Kate se envolveu no assunto do trabalho. Era reconfortante saber que o departamento ainda a considerava um recurso, mas ela esperava ter um papel mais ativo depois de ter resolvido o último caso. Mas, até agora, ela só falou com o vice-diretor Duran uma única vez, e foi para fazer uma análise do desempenho de DeMarco.

Sabia como era estranho para suas amigas ela ainda ser, tecnicamente, uma Agente na ativa ao mesmo tempo em que também se inclinava para o papel de avó. Diabos, também era estranho para ela. Ainda por cima tinha um relacionamento que estava desabrochando lentamente com Allen, ela supunha que sua vida fosse bastante interessante para elas.

Honestamente, ela se achava sortuda. Ela completaria cinquenta e seis anos no final do mês e sabia que muitas mulheres da sua idade teriam inveja da vida que ela vive. Ela sempre dizia isso a si mesma quando sentia a necessidade urgente de ser mais ativa no trabalho. E, em alguns dias, funcionava.

E como a neta viria visitá-la pela primeira vez desde o seu nascimento, hoje era um dia daqueles.


***

Uma coisa que tornava difícil equilibrar seu novo papel de avó com o desejo de colocar as mãos em outro caso era tentar pensar como uma avó. Naquela tarde, saiu de casa e desceu até algumas das pequenas lojas no bairro de Carytown, em Richmond. Ela sentiu como se tivesse que conseguir um presente para Michelle para celebrar sua primeira noite na casa da vovó.

Era difícil ignorar armas na cintura e suspeitos para focar em bichos de pelúcia e macacões. Mas quando foi para algumas lojas, ficou um pouco mais fácil. Ela descobriu que realmente gostava de fazer compras para a neta, embora ainda não tivesse dois meses e, honestamente, não se importasse com nenhum presente que recebesse. Ela achou difícil não comprar todas as coisas fofas que encontrou. Afinal, não era responsabilidade de uma avó estragar seus netos?

Quando estava pagando suas compras na terceira loja que visitou, recebeu uma mensagem. Não perdeu tempo em verificar. Nas últimas semanas, ela tinha uma pequena esperança toda vez que recebia uma ligação ou um sms, pensando que talvez fosse Duran ou alguém do departamento. Ela se repreendeu mentalmente quando ficou desapontada ao descobrir que não era o departamento, mas Allen. Uma vez que superou a dor de não ter sido convocada pelo FBI novamente, ela percebeu que estava feliz em ouvir notícias dele ─ sempre ficava feliz em ouvi-lo, na verdade.

–Allen, você tem que me ajudar, ela brincou enquanto atendia o telefone. Estou fazendo compras para Michelle e quero comprar para ela tudo que vejo. Isso é normal?

–Eu não sei, disse Allen. Nenhum dos meus filhos sossegou e me tornou avô ainda.

–Não faça como eu. Comece a economizar.

Allen riu, um som que Kate estava começando a gostar. Então, esta noite é a grande noite, hein?

–De fato. E eu sei que já criei uma criança e sei o que esperar, mas estou um pouco apavorada.

–Ah, você é ótima. Você quer falar sobre ter medo… Então, eu vou sair para beber com meus meninos hoje à noite. E não bebo mais de dois drinques em uma saída há cinco anos.

–Divirta-se.

–Eu queria saber se você gostaria de um encontro amanhã. Podemos compartilhar nossas histórias de sobrevivência desta noite.

–Gostaria. Você quer vir para minha casa por volta das sete?

–Parece um bom plano. Divirta-se esta noite. A pequena Michelle está dormindo a noite toda ainda?

–Acho que não.

–Tá, disse Allen, e terminou a ligação.

Kate guardou o celular no bolso, fazendo malabarismos com as sacolas de compras. Ela sorriu apesar de si mesma. Estava em pé ao sol em sua parte favorita da cidade, tendo acabado de fazer compras para uma neta de dois meses de idade, da qual seria babá hoje à noite. Do jeito que o dia estava se desenrolando, ela realmente queria que a agência telefonasse?

Estava voltando para casa─ uma caminhada de três quarteirões de onde ela atendera Allen ─ quando viu uma garotinha com uma camiseta do My Little Pony. Estava andando com a mãe de mãos dadas, apenas alguns metros à frente dela. Ela tinha cinco ou seis anos de idade, seu cabelo loiro preso em um rabo de cavalo de um jeito que só o cuidado de uma mãe poderia fazer. Ela tinha olhos azuis e a ponta do nariz bem fino, parecia um pouco com uma fada. E isso enviou um pico de desespero através do coração de Kate.

Uma imagem brilhou em sua mente, uma menina que parecia quase idêntica a esta. Mas nesta imagem, a menina tinha o rosto sujo, e estava chorando. As luzes dos carros da polícia apareceram atrás dela.

A imagem era tão forte que fez com que Kate parasse de andar por um momento. Ela desviou os olhos para longe da garota, não querendo parecer assustadora ou estranha. Ela se agarrou a essa imagem em sua cabeça e fez o melhor para encontrar a memória associada a ela. Ela veio gradualmente e, quando chegou, desenrolou-se lentamente, como se estivesse lendo o relatório do caso.

Garota de cinco anos, encontrada cinco dias depois de ser dada como desaparecida. Jogada em uma cabana de pesca no Arkansas com os corpos dos seus pais mortos. Os pais foram a quinta e a sexta vítimas de um assassino em série que aterrorizava o Arkansas por boa parte dos últimos quatro meses… Um assassino que Kate eventualmente pegou, mas apenas depois de ele ter tirado a vida de um total de nove pessoas.

Kate percebeu que, de repente, estava parada como uma estátua na rua, sequer parecia se mexer. Aquele caso a assombrou por um tempo. Tantos becos sem saída, tantas pistas falsas. Estava andando em círculos, incapaz de encontrar o assassino enquanto ele continuava a aumentar sua contagem de vítimas. Só Deus sabia o que ele havia planejado para aquela garotinha.

Mas você a salvou, ela disse a si mesma. No final, você a salvou.

Lentamente, Kate começou a andar de novo. Não foi a primeira vez que uma imagem aleatória de seu trabalho anterior se chocava em sua mente e fazia com que ela se afastasse da realidade. Às vezes, elas vinham casualmente, embora do nada. Mas houve outras ocasiões em que elas vieram fortes e rápidas, como um flashback de estresse pós-traumático.

A imagem da garota do Arkansas estava em algum lugar entre os dois casos. E Kate se sentiu grata por isso. Aquele caso em particular quase a fez pedir demissão como Agente, em 2009. Foi alucinante o suficiente para Kate pedir duas semanas de folga do trabalho. E de repente, por apenas uma fração de segundo enquanto caminhava de volta para casa com presentes para a neta em sua mão, Kate sentiu como se tivesse sido empurrada para o passado.

Quase dez anos se passaram desde que ela resgatara aquela garota. Kate se perguntou onde ela estaria, imaginando se ela tinha sobrevivido ao trauma.

–Senhora?

Kate piscou, pulando um pouco ao som de uma voz desconhecida na frente dela. Havia um adolescente de pé na frente dela. Parecia preocupado, como se não tivesse certeza se deveria estar lá ou fugir.

–Você está bem? Ele perguntou. Você parece… Eu não sei. Estar passando mal. Como se você estivesse prestes a desmaiar ou algo assim.

–Não, disse Kate, sacudindo a cabeça. Eu estou bem. Obrigada.

O garoto concordou e seguiu seu caminho. Kate começou a andar novamente, arrancada de algum buraco no passado que ela assumiu que ainda não tinha se fechado. E quando ela se aproximava cada vez mais de casa, começou a se perguntar quantos desses buracos do passado haviam sido deixados descobertos.

E se os fantasmas de seu passado continuassem a assombrá-la até que ela também se tornasse um fantasma?




CAPÍTULO DOIS


Kate passou a hora seguinte arrumando a casa, embora já tivesse feito isso antes de sair para fazer compras. Ficou incomodada por estar ansiosa para receber Michelle em sua casa. Melissa havia morado nesta casa durante seus anos de ensino médio, então quando ela veio visitá-la (o que era bem raro na opinião de Kate), Kate não sentia a necessidade de estar com a casa impecável. Então, por que estava tão preocupada com a aparência do local para um bebê de dois meses?

Talvez seja algum tipo estranho de comportamento de avó, ela pensou enquanto esfregava a pia do lavabo… Um cômodo que ela estava bem ciente de que sua neta nem veria, muito menos o usaria.

Enquanto lavava a pia, a campainha tocou. Ela foi inundada com uma excitação para a qual ainda não estava pronta. Estava sorrindo de orelha a orelha quando atendeu a porta. Melissa estava do outro lado, carregando Michelle em sua cadeirinha de bebê. O bebê dormia profundamente, com um grosso cobertor ao redor das pernas.

–Ei, mãe, Melissa disse quando entrou na casa. Ela deu uma olhada rápida ao redor e revirou os olhos. Limpou muito hoje?

–Muito, Kate disse enquanto dava um abraço na filha.

Melissa colocou a cadeirinha cuidadosamente no chão e, lentamente, desafivelou Michelle. Ela pegou-a e entregou-a suavemente para Kate. Fazia quase uma semana desde que Kate visitara Melissa e Terry, mas quando ela pegou Michelle em seus braços, pareceu muito mais tempo.

–O que você e Terry planejaram para esta noite? Kate perguntou.

–Nada demais, na verdade, disse Melissa. E essa é a beleza da coisa. Nós vamos sair para jantar e beber. Talvez dançar. Além disso, mudamos de ideia sobre pedir que você fique com ela durante a noite, porque percebemos que não estamos preparados para isso. Dormir sem interrupções é muito necessário, mas eu não posso ficar longe dela por tanto tempo.

–Ah, acho que posso entender isso, disse Kate. Vocês saiam e se divirtam.

Melissa sacudiu a bolsa de fraldas do ombro e colocou-a na cadeirinha. Tudo que você precisa está aqui. Ela vai querer comer novamente em cerca de uma hora e ela irá lutar contra o sono. Terry acha bonito, mas acho que é um inferno. Se ela ficar com gases, há remédio para gases no bolso de trás e…

–Lissa… Vamos ficar bem. Eu criei uma filha, você sabe. Ela também ficou muito bem.

Melissa sorriu e surpreendeu Kate dando-lhe um beijo rápido na bochecha. Obrigada, mãe. Eu venho buscá-la por volta das onze horas. É tarde demais?

–Não, é perfeito.

Melissa deu uma última olhada para seu bebê, um olhar que fez o coração de Kate inflar. Ela pôde se lembrar de como era ser mãe e ter aquele sentimento interno de amor a preenchendo ─ um amor que se traduzia em pura vontade de fazer qualquer coisa e tudo para garantir que esse ser humano que você gerou estivesse em segurança.

–Se você precisar de alguma coisa, me ligue, Melissa disse, embora ela ainda estivesse olhando para Michelle e não para Kate.

–Ligarei. Agora vá. Divirta-se.

Melissa finalmente se virou e saiu pela porta. Quando ela a fechou, a pequena Michelle acordou nos braços de Kate. Ela deu a sua avó um sorrisinho sonolento e soltou um pequeno bocejo.

–Então, o que faremos agora? Kate perguntou.

A pergunta foi divertidamente dirigida a Michelle, mas ela sentiu um peso por trás disso que a fez se perguntar se estava simplesmente fazendo uma pergunta retórica para si mesma. Sua filha cresceu, agora ela tem sua própria filha. E aqui estava ela, chegando aos cinquenta e seis anos e com o primeiro neto nos braços. Então, o que fazemos agora?

Ela pensou sobre essa atração para voltar a trabalhar, e talvez pela primeira vez, isso pareceu irrelevante.

Algo bem menor que a menininha que agora ela segurava em seus braços.


***

Às oito da noite, Kate se perguntava se Melissa e Terry haviam simplesmente criado o bebê mais bem-comportado da história. Michelle não chorou nem uma vez, nem chegou a ficar nervosa. Estava simplesmente contente em ser carregada. Depois de duas horas nos braços de Kate, Michelle acenou para adormecer. Cuidadosamente, Kate colocou Michelle no centro de sua cama queen-size e depois ficou parada na porta por um momento para observar sua neta dormir.

Não tinha certeza de quanto tempo estava lá quando seu telefone tocou na mesa da cozinha atrás dela. Teve que tirar os olhos de Michelle, mas conseguiu chegar ao telefone em poucos segundos. Um único barulhinho significava que era um texto em vez de uma ligação e não ficou nem um pouco surpresa ao ver que era Melissa.

Como ela está? Melissa perguntou.

Incapaz de resistir, Kate sorriu e respondeu: Eu dei a ela apenas três cervejas. Saiu com um cara de moto há uma hora. Eu disse a ela para estar de volta às 11h.

A resposta veio rapidamente: Ah, não tem graça.

A brincadeira a fez quase tão feliz quanto o bebê dormindo em seu quarto. Depois que seu pai morreu, Melissa ficou retraída ─ especialmente com Kate. Ela culpou o trabalho de Kate pela morte de seu pai e, embora mais tarde tenha percebido que esse não era o caso, havia momentos nos quais Kate sentia que Melissa ainda se ressentia do tempo que passara na agência após a morte dele. Por mais estranho que pareça, porém, Melissa demonstrou algum interesse em seguir carreira no FBI… Apesar de ter uma atitude menos positiva em relação aos acontecimentos do ano anterior, em relação à aposentadoria interrompida de sua mãe.

Ainda sorrindo, Kate levou o telefone para o quarto e tirou uma foto rápida de Michelle. Ela mandou para Melissa e depois, após pensar um pouco, ela também enviou para Allen, só que a dele tinha a mensagem: Esgotada da festa!

Ela desejou que ele estivesse lá com ela. Ela havia sentido isso muitas vezes ultimamente. Não era ingênua o suficiente para pensar que o amava, mas podia se ver apaixonada por ele se as coisas continuassem do jeito que estavam. Ela sentia falta dele quando não estava por perto e sempre que ele a beijava a fazia se sentir cerca de vinte anos mais jovem.

Ela se viu sorrindo novamente quando Allen respondeu com uma foto. Era uma selfie dele com dois homens mais jovens que pareciam exatamente com ele ─ seus filhos, supostamente.

Enquanto estudava a foto, seu telefone tocou em suas mãos. O nome que apareceu na tela enviou uma onda de excitação através dela que ela foi incapaz de conter.

O vice-diretor Vince Duran estava ligando para ela. Isso teria causado uma agitação de excitação, mas o fato de que era depois das oito horas da noite de sexta-feira disparou um alarme na cabeça dela ─ sinos de alerta que ela gostava de ouvir.

Deu um tempo, ainda olhando para a pequena Michelle, e então respondeu.

–Kate Wise, disse ela, mantendo sua excitação sob controle.

–Wise, é Duran. É uma má hora pra conversarmos?

–Não é absolutamente a melhor, mas tudo bem, ela respondeu. Está tudo bem?

–Depende. Estou ligando para ver se você estaria interessada em aceitar um caso.

–Estamos falando de um caso frio como o que estivemos discutindo?

–Não. Este aqui… Bem, parece um que você resolveu bastante depressa lá atrás em noventa e seis. Atualmente, temos quatro corpos em dois locais diferentes em Whip Springs, na Virgínia. Parece que os assassinatos ocorreram em não mais do que dois dias de intervalo. No momento, a Polícia Estadual da Virgínia está comandando a cena, mas falei com eles. Se você quiser o caso, é seu. Mas você teria que começar agora.

–Eu não acho que conseguiria, disse ela. Eu tenho um compromisso que preciso manter. Olhando para Michelle, isso era fácil de dizer. Mas quase todos os nervos de seu corpo lutavam contra seus recém-adquiridos instintos de avó.

–Bem, escute as especificações de qualquer maneira, pode ser? Os assassinados são casados, um com cinquenta e poucos anos e outro com sessenta e poucos anos. Os mais recentes foram os de cinquenta e poucos anos. Sua filha descobriu seus corpos quando ela chegou em casa da faculdade hoje cedo. Os assassinatos ocorreram a trinta quilômetros um do outro, um em Whip Springs e o outro fora de Roanoke.

–Casais? Algum elo entre eles que não seja o casamento?

–Ainda não. Mas todos os quatro corpos tinham cortes bem feios. O assassino está usando uma faca. Lento e metódico. Pelo que entendo, tem a ver com o outro casal de dois dias ou mais.

–Sim, parece que temos um serial em ação, disse Kate.

Ela pensou no caso em 1996 que Duran mencionou. No final, uma mulher enlouquecida que trabalhava como babá havia tirado a vida de três casais em apenas dois dias. Acontece que trabalhou para todos os três casais em um período de dez anos. Kate prendera a mulher quando estava a caminho de matar um quarto casal e depois, segundo seu testemunho, a si mesma.

Ela realmente iria dizer não? Depois do intenso flashback que ela teve hoje, poderia realmente deixar passar outra oportunidade de parar um assassino?

–Quanto tempo eu tenho para pensar sobre isso? Ela perguntou.

–Eu vou te dar uma hora. Não mais que isso. Eu preciso de alguém nisso agora. E eu pensei que você e DeMarco poderiam trabalhar bem no caso. Uma hora, Wise… Mais cedo, se puder.

Antes que ela pudesse dar um OK ou um obrigada, Duran terminou a ligação. Ele era tipicamente caloroso e amigável, mas quando não conseguia o que queria, podia ficar muito irritado.

O mais silenciosamente que pôde, foi até a cama e sentou-se na beirada. Ela observou Michelle dormindo, o suave subir e descer de seu peito, tão lento e metódico. Podia claramente se lembrar de Melissa quando era muito pequena, e não tinha ideia de como o tempo podia ter passado assim. E foi daí que seu problema surgiu: ela sentia que perdera a maior parte de sua vida como mãe e esposa por causa de seu trabalho, mas sentia um forte sentimento de dever, no entanto. Especialmente quando sabia que poderia estar lá agora, fazendo sua parte para levar um assassino à justiça.

Que tipo de pessoa ela seria se recusasse a oferta, deixando Duran escolher outro Agente que poderia não ter as mesmas habilidades que ela?

Mas que tipo de avó e mãe ela seria se tivesse que ligar para Melissa, dizendo-lhe para vir buscar sua filha cedo e terminar a noite, porque o FBI tinha vindo chamá-la de novo?

Kate olhou para Michelle por cerca de cinco minutos, deitada ao lado dela e colocando a mão no peito do bebê apenas para senti-la respirar. E ver aquele pequeno lampejo de vida, de uma vida que ainda não havia aprendido sobre os tipos de maldades que existiam no mundo, tornava a decisão muito mais fácil para Kate.

Franzindo a testa pela primeira vez naquele dia, Kate pegou o telefone e ligou para Melissa.


***

Certa vez, quando Melissa tinha dezesseis anos, ela levou um garoto para o quarto tarde da noite, quando Kate e Michael já estavam dormindo. Kate tinha acordado com algum barulho (que ela descobriu mais tarde que foi provavelmente o joelho de alguém batendo na parede do quarto de Melissa) e subiu para investigar. Quando ela abriu a porta da filha e a encontrou de topless com um menino em sua cama, ela o jogou da cama e gritou para ele sair.

A fúria nos olhos de Melissa naquela noite foi ofuscada pelo que Kate viu no olhar de sua filha quando afivelou Michelle no assento do carro às 9:30 ─ pouco mais de uma hora depois que Duran ligou para ela falando sobre o caso em Roanoke.

–Isso é uma loucura, mãe, disse ela.

–Lissa, sinto muito. Mas que diabos eu deveria fazer?

–Bem, pelo que entendi, as pessoas realmente ficam aposentadas quando se aposentam. Talvez devesse tentar isso!

–Não é assim tão fácil, argumentou Kate.

–Ah, eu sei, mãe, disse Melissa. Nunca foi para você.

–Isso não é justo…

–E não estou chateada, porque você atrapalhou minha noite para relaxar. Eu não me importo com isso. Eu não sou tão egoísta. Ao contrário de algumas pessoas. Estou chateada porque o seu trabalho ─ com o qual você deveria ter terminado há mais de um ano, lembre-se ─ continua a ganhar da sua família. Mesmo depois de tudo… Depois do papai…

–Lissa, não vamos fazer isso.

Melissa pegou a cadeirinha com uma suavidade que não estava presente em sua voz ou na postura tensa de seu corpo.

–Eu concordo, Melissa soltou rispidamente. Não vamos.

E com isso, saiu pela porta da frente, batendo-a atrás dela.

Kate estendeu a mão até a maçaneta, mas parou. O que ela faria? Ela iria continuar essa discussão do lado de fora, no quintal? Além disso, ela conhecia Melissa muito bem. Depois de alguns dias, ela se acalmaria e realmente escutaria Kate. Ela poderia até aceitar o pedido de desculpas de sua mãe.

Kate se sentiu uma traidora quando pegou o celular. Depois que ela ligou para Duran, ele informou que planejara que ela pegaria o caso de qualquer maneira. No momento, ele tinha alguém da Polícia Estadual da Virgínia em espera para se encontrar com ela e DeMarco às 4h30 da manhã em Whip Springs. Quanto a DeMarco, ela havia saído de Washington há meia hora com um carro da agência. Estaria na casa de Kate por volta da meia-noite. Kate percebeu que poderia ter mantido Michelle facilmente até o planejado, às onze horas, e ter evitado o confronto com Melissa. Mas não conseguia pensar nisso agora.

A rapidez de tudo pegou Kate levemente desprevenida. Mesmo que o último caso que ela havia pegado parecesse ter surgido do nada, pelo menos tinha algum tipo de estrutura estável. Mas fazia um bom tempo desde que recebera um caso. Foi assustador, mas ela também estava muito animada, animada o suficiente para ser capaz de colocar momentaneamente de lado a raiva que Melissa tinha sentido por ela.

Ainda assim, enquanto arrumava a mala esperando DeMarco chegar, um pensamento pungente a perfurou. E aí está ─ sua capacidade de empurrar tudo para o lado em prol do trabalho ─  e que já causou tantos problemas entre vocês duas.

Mas esse pensamento também foi facilmente empurrado para o lado.




CAPÍTULO TRÊS


Uma das muitas coisas que Kate aprendeu sobre DeMarco durante o último caso foi que ela era pontual. Era uma característica da qual ela se lembrou quando ouviu uma batida na porta às 12:10.

Não me lembro da última vez que recebi uma visita tão tarde, pensou ela. Faculdade, talvez?

Ela caminhou até a porta carregando sua única mala consigo. No entanto, quando atendeu a porta, viu que DeMarco não tinha a intenção de sair correndo para a cena do crime.

–Correndo o risco de parecer rude, eu realmente preciso usar seu banheiro, disse Demarco. Beber duas Cocas para ficar acordada para a viagem foi uma má ideia.

Kate sorriu e deu um passo para o lado para deixar DeMarco entrar. Dada a velocidade e a urgência que Duran incutiu nela durante seus telefonemas, a brusquidão de DeMarco era o tipo de alívio cômico não intencional que ela precisava. Também fez com que se sentisse à vontade para saber que, mesmo depois de quase dois meses de intervalo, ela e DeMarco estavam retomando o mesmo nível de intimidade que haviam compartilhado antes de se separarem depois do último caso.

DeMarco saiu do banheiro alguns minutos depois com um sorriso envergonhado no rosto.

–E bom dia para você, disse Kate. Talvez fosse por causa da ingestão de cafeína, mas DeMarco não parecia abatida, aparentemente, nem perturbada pela hora.

DeMarco olhou para o relógio e concordou.

–Sim, suponho que seja de manhã.

–Quando você recebeu a ligação? Kate perguntou.

–Por volta das oito ou nove, eu acho. Eu teria saído mais cedo, mas Duran queria ter cem por cento de certeza de que você estaria a bordo.

–Desculpe-me por isso, disse Kate. Eu estava cuidando da minha neta pela primeira vez.

–Ah não. Wise… Que merda. Desculpe-me por estragar tudo.

Kate deu de ombros e acenou para longe. Vai ficar tudo bem. Você está pronta para ir?

–Sim. Eu fiz algumas chamadas no caminho enquanto o caso estava sendo gerenciado pelos caras em DC. Estamos programadas para nos encontrar com um dos caras da polícia do estado da Virgínia às quatro e meia na residência dos Nash.

–A residência dos Nash? Kate perguntou.

–O casal mais recente a ser assassinado.

Elas desceram juntas em direção à porta da frente. Quando saíram, Kate desligou a luz da sala e pegou sua bolsa. Estava animada com o que poderia estar à frente, mas também se sentiu como se estivesse irracionalmente deixando sua casa. Afinal, apenas algumas horas atrás, sua neta de dois meses estava cochilando na cama. E agora, aqui estava ela, prestes a dirigir diretamente para uma cena de assassinato.

Ela viu o sedan do FBI estacionado em frente à sua casa, bem ao lado do meio-fio. Parecia surreal, mas também convidativo.

–Você quer dirigir? DeMarco perguntou.

–Claro, disse Kate, imaginando se a Agente mais jovem estava oferecendo o papel como uma demonstração de respeito ou porque ela simplesmente queria uma pausa na direção.

Kate ficou ao volante enquanto DeMarco puxava as direções do local do assassinato mais recente. Foi na cidade de Whip Springs, na Virgínia, uma pequena cidade encrustada na base das Montanhas Blue Ridge, nos arredores de Roanoke. Elas gastaram apenas um pouco de tempo com conversa fiada ─ Kate atualizou DeMarco sobre como se sentia como avó, enquanto DeMarco permaneceu em silêncio, mencionando apenas outro relacionamento fracassado depois que sua namorada a deixou. Isso foi uma surpresa, já que Kate não achava que DeMarco fosse gay. Isso mostrou que ela realmente precisava de mais tempo para conhecer a mulher que era mais ou menos a sua parceira. Pontualidade, ela tinha percebido. Homossexualidade, ela havia deixado passar. Que diabos isso dizia sobre ela como parceira?

À medida que a cena do crime se aproximava, DeMarco leu os relatórios referentes ao caso que Duran lhes enviara. Enquanto os lia, Kate continuava procurando quaisquer vestígios do sol rompendo o horizonte, mas não viu qualquer sinal.

–Dois casais mais velhos, disse Demarco. Desculpe… Um em seus 50 anos… Então, sem ofensas.

–Tranquilo, Kate disse, sem ter certeza se havia sido uma estranha tentativa de piada por parte de DeMarco.

–À primeira vista, eles parecem não ter nada em comum, além da localização. A primeira cena foi no coração de Roanoke e a mais recente não foi a mais de cinquenta quilômetros de distância, em Whip Springs. Parece não haver sinais de que o marido ou a esposa fossem os alvos anteriormente. Cada um dos assassinatos foi horrível e exagerado, indicando que o assassino gosta disso.

–E isso normalmente aponta que essa pessoa sente que foi prejudicada pelas vítimas em alguns casos, destacou Kate. É isso ou algum distorcido desejo psicológico por violência e derramamento de sangue.

–As vítimas mais recentes, os Nash, estavam casados há vinte e quatro anos. Eles têm dois filhos, um que mora em San Diego e outra que atualmente frequenta a UVA. Foi ela quem descobriu os corpos quando chegou na casa ontem.

–E o outro casal? Kate perguntou. Eles têm filhos?

–Não, de acordo com os relatórios.

Kate refletiu sobre tudo isso e, por razões que não conseguia entender, se viu pensando na garotinha que passara na rua no começo do dia.

O flashback que a menininha havia despertado em sua mente. Quando chegaram à casa dos Nash, o horizonte finalmente havia começado a captar um pouco da luz do sol nascente, mas ainda ausente. Espiou pela linha das árvores que cercava a maior parte do quintal dos Nash. Sob essa luz, podiam ver um único carro estacionado em frente à casa. Um homem estava encostado no capô, fumando um cigarro e segurando uma xícara de café.

–Vocês são Wise e DeMarco? Perguntou o homem.

–Somos nós, Kate disse, dando um passo à frente e mostrando sua identidade. Quem é você?

–Palmetto, com a DP do estado da Virgínia. Forense. Recebi a ligação há algumas horas dizendo que vocês aceitariam o caso. Imaginei que eu poderia vir para entregar o que tenho. O que, a propósito, não é muito.

Palmetto deu uma última tragada no cigarro e o jogou no chão, apagando-o com o pé. Os corpos foram obviamente movidos e havia poucas evidências no lugar. Mas entrem, de qualquer maneira. É… revelador.

Palmetto falou com o tom sem emoção de um homem que vinha fazendo isso há algum tempo. Ele as conduziu pela calçada dos Nash e até a varanda. Quando abriu a porta e as levou para dentro, Kate podia sentir o cheiro: o cheiro de uma cena de crime onde muito sangue havia sido derramado. Havia algo químico nisso, não apenas o cheiro acobreado de sangue, mas de movimentos recentes e pessoas com luvas de borracha examinando a cena recentemente.

Palmetto acendeu cada luz quando entraram na casa ─ pelo vestíbulo, passando por um corredor e até a sala de estar. No brilho das luzes do teto, Kate viu a primeira mancha de sangue no chão de madeira. E depois outra, e outra.

Palmetto levou-as para frente do sofá, apontando para as manchas de sangue como um homem simplesmente confirmando o fato de que a água está de fato molhada.

–Os corpos estavam aqui, um no sofá e outro no chão. Parece que a mãe foi morta primeiro, provavelmente devido ao corte no pescoço, embora um pareça ter acertado bem perto do coração, mas pelas costas. A teoria é de que houve uma luta com o pai. Havia hematomas em seus antebraços, um pouco de sangue saindo de sua boca e a mesa de centro estava torta.

–Alguma ideia inicial do tempo que passou entre os assassinatos e a filha descobrindo-os? Perguntou Kate.

–Não mais do que um dia, respondeu Palmetto. E foi provavelmente mais de doze ou dezesseis horas. Tenho certeza de que o legista terá algo um pouco mais concreto ainda hoje.

–Mais alguma coisa digna de anotação? Perguntou DeMarco.

–Sim, na verdade. É uma prova… Apenas uma única peça. Ele enfiou a mão no bolso interno de sua jaqueta e tirou um pequeno saquinho. Consegui permissão, então não fiquem assustadas. Eu imaginei que vocês gostariam de levá-lo e analisar. É a única evidência que encontramos, mas é bem desalentador.

Ele ofereceu o saquinho de plástico transparente para Kate. Ela pegou e olhou o conteúdo dentro. Pelo que poderia dizer, era um simples pedaço de pano, cerca de um centímetro e meio. Era grosso, de cor azul, e tinha uma textura fofa. Todo o lado direito estava manchado de sangue.

–Onde foi encontrado isso? Kate perguntou.

–Enfiado na boca da mãe. Foi empurrado lá no fundo, quase abaixo de sua garganta.

Kate ergueu-o para a luz. Alguma ideia de onde veio? Ela perguntou.

–Nenhuma. Parece ser apenas um recado aleatório.

Mas Kate não tinha tanta certeza disso. De fato, a intuição de avó começou a avançar. Este não era um pedaço aleatório de tecido. Não… Era macio, era azul claro e parecia bastante fofo.

Isso fazia parte de um cobertor. Talvez o cobertor de uma criança.

–Você tem alguma outra evidência surpresa para nós? DeMarco perguntou.

–Não, isso é tudo, disse Palmetto, já voltando para a porta. Se vocês, senhoras, precisarem de alguma ajuda a partir de agora, sintam-se à vontade para nos telefonar na DP.

Kate e DeMarco compartilharam um olhar irritado pelas costas dele. Sem ter que dizer nada, cada uma sabia que o termo vocês senhoras tinha irritado ambas.

–Bem, isso foi breve, disse DeMarco quando Palmetto lhes deu um aceno evasivo da porta da frente.

–E bom também, disse Kate. Dessa forma, podemos começar a examinar o caso com nossos próprios olhos, sem a influência do que os outros descobriram.

–Você acha que precisamos falar com a filha em seguida?

–Provavelmente. Aí então nós vamos olhar a primeira cena do crime e ver se podemos encontrar alguma coisa lá. Espero que encontremos alguém que seja um pouco mais sociável do que nosso amigo Palmetto.

Elas saíram da casa, desligando as luzes enquanto iam. Enquanto se dirigiam para fora, com o sol finalmente aparecendo na borda do mundo, Kate cuidadosamente colocou o que ela pensava ser um pedaço de cobertor de criança em seu bolso e não pôde deixar de pensar em sua neta dormindo sob um cobertor similar.

Andar em direção ao sol não reprimiu o frio que se apoderou dela.




CAPÍTULO QUATRO


O café da manhã foi no Panera Bread drive-thru em Roanoke. Foi lá, enquanto esperava na pequena fila matinal, que DeMarco fez várias ligações para marcar uma reunião com Olivia Nash, filha do casal recentemente assassinado. Estava atualmente com sua tia em Roanoke e estava, pelas próprias palavras de sua tia, em um estado de desastre absoluto.

Depois de receber o endereço e a aprovação da tia, foram para a casa dela logo depois das sete horas. Ser cedo não era um problema, porque, de acordo com a tia, Olivia se recusou a dormir desde que encontrara seus pais.

Quando Kate e DeMarco chegaram à casa, a tia estava sentada na varanda. Cami Nash se levantou quando Kate saiu do carro, mas não fez nenhum movimento para encontrá-las. Estava com uma xícara de café na mão e o olhar cansado em seu rosto fez Kate pensar que certamente não era a primeira que ela tomava nesta manhã.

–Cami Nash? Kate perguntou.

–Sim, sou eu, ela disse.

–Em primeiro lugar, por favor, aceite meus sentimentos por sua perda, disse Kate. Você e seu irmão eram próximos?

–Muito próximos, sim. Mas agora, tenho que olhar para, além disso. Eu não posso… chorar agora, porque Olivia precisa de alguém. Não é a mesma pessoa com quem falei no telefone na semana passada. Algo nela está quebrado. Eu não posso nem imaginar… Como deve ter sido encontrá-los assim e…

Parou e bebeu muito rapidamente um pouco de seu café, tentando se distrair do ataque de lágrimas que pareciam estar se aproximando em passo acelerado.

–Ela vai ficar bem em se falar com a gente? DeMarco perguntou.

–Talvez por um tempo. Eu disse a ela que vocês estavam vindo e parecia entender o que eu queria dizer. É por isso que eu estou encontrando vocês aqui antes de entrarem. Eu sinto que preciso dizer a você que ela é uma jovem normal e completa. No estado em que está agora, no entanto, eu não queria que vocês pensassem que ela tem algum tipo de problema mental ou algo assim.

–Obrigada, disse Kate. Ela tinha visto pessoas absolutamente devastadas pela dor antes e nunca foi uma visão bonita. Não podia deixar de pensar em quanta experiência DeMarco tinha com aquele tipo de situação.

Cami as levou para a casa. Era tão silenciosa quanto um túmulo, o único som vindo era do zumbido do ar-condicionado. Kate notou que Cami andava devagar, certificando-se de não fazer muito barulho. Kate seguiu o exemplo, imaginando se Cami estava esperando que o silêncio ajudasse Olivia a finalmente cair no sono ou se ela estivesse simplesmente tentando não alarmar a frágil jovem de alguma forma.

Elas entraram na sala de estar, onde uma jovem estava meio sentada, meio deitada no sofá. Seu rosto estava vermelho, os olhos ligeiramente inchados por causa do choro recente. Parecia não ter dormido por uma semana, em vez de apenas um dia. Quando ela viu Kate e DeMarco entrarem, sentou-se um pouco.

–Oi, senhorita Nash, disse Kate. Obrigada por concordar em se encontrar conosco. Sentimos muito pela sua perda.

–É Olivia, por favor. Sua voz estava rouca e cansada, quase tão desgastada quanto seus olhos pareciam estar.

–Vamos fazer isso o mais rápido possível, disse Katie sei que você tinha acabado de chegar da faculdade. Você sabe se seus pais planejaram receber mais alguém naquele dia?

–Se sim, eu não sabia sobre isso.

–Por favor, me perdoe por perguntar, mas você sabe se algum dos seus pais tinha algum ressentimento de longa data com alguém? Pessoas que eles poderiam ter considerado inimigos?

Olivia sacudiu a cabeça com firmeza. O pai foi casado uma vez antes… Antes de conhecer a mamãe. Mas mesmo com sua ex-esposa, estava tudo bem.

Olivia começou a chorar sem fazer barulho. Uma série de lágrimas escorreu de seus olhos e não se incomodou em tentar limpá-la.

–Eu quero lhe mostrar uma coisa, disse Katie não sei se tem algum significado para você ou não. Caso tenha, pode ser bastante emocional. Você estaria disposta a dar uma olhada e nos avisar se parecer familiar para você?

Olivia pareceu alarmada, talvez até um pouco assustada. Kate realmente não a culpava e quase não queria mostrar a ela o pedaço de tecido que Palmetto havia lhes dado ─ o pedaço que Kate tinha certeza de que fazia parte de um cobertor ou colcha. Um pouco relutante, ela tirou do bolso.

Ela soube imediatamente que Olivia não o reconheceu. Havia uma sensação imediata de alívio e confusão no rosto da jovem enquanto olhava para a sacola de plástico e o que ela continha dentro.

Olivia balançou a cabeça, mas manteve os olhos fixos no saco plástico transparente. Não. Eu não reconheço. Por quê?

–Não podemos revelar isso agora, disse Kate. Sinceramente, não havia qualquer coisa de ilegal em revelar isso para o parente mais próximo…, mas Kate não via motivo para traumatizar Olivia Nash ainda mais.

–Você tem alguma ideia de quem fez isso? Olivia perguntou. Parecia perdida, como se não reconhecesse onde estava… talvez nem ela mesma. Kate não conseguia se lembrar da última vez em que viu alguém tão claramente desligado de tudo ao seu redor.

–Não agora, disse ela. Mas vamos mantê-la informada. E, por favor ─ disse ela, olhando para Olivia e depois para Cami ─ entre em contato se puder lembrar de algo que possa ajudar.

Com essa observação, DeMarco retirou um cartão de visita do bolso interno de sua jaqueta e entregou-o a Cami.

Talvez tenha sido os anos que Passou na aposentadoria ou por se sentir culpada por ter abandonado seu posto de avó na noite anterior, mas Kate se sentiu mal quando saiu do quarto, deixando Olivia Nash em muito sofrimento. Quando ela e DeMarco saíram para a varanda, ela pôde ouvir a jovem soltar um gemido baixo de angústia.

Kate e DeMarco compartilharam um olhar inquieto enquanto se dirigiam para o carro. De dentro do bolso interno, Kate podia sentir a presença daquele pedaço de tecido e de repente pareceu muito pesado.




CAPÍTULO CINCO


Quando Kate saiu da pequena cidade de Whip Springs e se dirigiu para Roanoke, DeMarco usou seu iPad para puxar os arquivos do primeiro assassinato. Era quase uma cópia exata da cena do crime de Nash; um casal havia sido assassinado em casa de uma forma particularmente horrível. Os resultados preliminares não revelaram suspeitos prováveis e não havia testemunhas.

–Os arquivos dizem algo sobre qualquer coisa deixada nas gargantas ou bocas de uma das vítimas? Kate perguntou.

DeMarco examinou os relatórios e sacudiu a cabeça. Pelo que vejo, não. Eu acho que talvez ─ não, espere, aqui está. No relatório do legista. O tecido não tinha sido descoberto até ontem ─ um dia e meio depois que os corpos foram achados. Mas sim… O relatório diz que havia um pequeno pedaço de tecido alojado na garganta da mãe.

–Há uma descrição?

–Não. Vou ligar para o médico legista e ver se consigo uma foto.

DeMarco não perdeu tempo, fazendo a ligação imediatamente. Enquanto estava ao telefone, Kate tentou pensar em qualquer coisa que pudesse ligar dois casais aparentemente aleatórios, dado o que havia sido encontrado nas gargantas das mulheres. Embora Kate ainda não tivesse visto o pedaço de tecido que havia sido retirado da garganta da primeira vítima do sexo feminino, estava esperando que combinasse com o que havia sido encontrado na garganta da Sra. Nash.

A ligação de DeMarco terminou três minutos depois. Segundos depois de terminar a ligação, ela recebeu um sms. Olhou para o telefone e disse: —Nós temos um ponto em comum.

Aproximando-se de um semáforo à medida que avançavam pela cidade de Roanoke, Kate olhou para o telefone enquanto DeMarco mostrava-o para ela. Como Kate esperava, o tecido era macio e azul─ uma correspondência exata para com aquele encontrado na garganta da mãe de Nash.

–Temos registros bastante extensos para ambos os casais, certo? Kate perguntou.

–Sim, suponho, disse ela. Com base nos registros e arquivos de casos que temos, pode ter alguma coisa faltando, mas acho que temos o suficiente para continuar. Fez uma pausa quando o aplicativo de GPS no iPad apitou. Vire à esquerda neste semáforo, disse Demarco. A casa fica a oitocentos metros abaixo na próxima rua.

As engrenagens mentais de Kate estavam trabalhando rapidamente quando se aproximaram da primeira cena do crime.

Dois casais casados, massacrados de maneira brutal. Partes ou restos de algum tipo de cobertor velho encontrado nas gargantas das esposas…

Havia muitas maneiras de seguir as pistas que lhes haviam sido dadas. Mas antes que Kate pudesse se concentrar em uma única, DeMarco falou algo.

–Bem ali, disse ela, apontando para uma pequena casa de tijolos à direita.

Kate parou ao lado do meio-fio. A casa estava localizada em uma rua lateral estreita, do tipo que ligava duas estradas principais. Era uma rua tranquila, com algumas outras pequenas casas ocupando o espaço. A rua tinha um ar quase histórico, as calçadas desgastadas e rachadas, as casas em estado semelhante.

Letras brancas desbotadas na caixa de correio diziam LANGLEY. Kate também viu um L decorativo pendurado na porta da frente, feito de madeira envelhecida. Ele se destacava contra o amarelo brilhante da fita de isolamento da cena do crime que pendia das grades da varanda.

Enquanto Kate e DeMarco se dirigiam para a varanda da frente, DeMarco meio leu meio recitou a informação que tinha nos relatórios sobre a família Langley.

–Scott e Bethany Langley─ Scott, cinquenta e nove anos de idade, Bethany sessenta e um. Scott foi encontrado morto na cozinha e Bethany estava na lavanderia. Eles foram encontrados por um garoto de quinze anos que estava fazendo aulas particulares de violão com Scott. Estima-se que eles tenham sido mortos apenas algumas horas antes de os corpos serem descobertos.

Quando elas entraram na residência de Langley, Kate ficou na porta por um momento, observando a disposição do lugar. Era uma casa pequena, mas bem conservada. A porta da frente abria para um vestíbulo muito pequeno, que depois se tornava sala de estar. De lá, um pequeno balcão de bar separava a cozinha da sala de estar. Um corredor ficava à direita, levando ao resto da casa.

A planta da casa por si só dizia a Kate que o marido provavelmente havia sido assassinado primeiro. Mas da porta da frente, havia praticamente uma visão clara da cozinha. Scott Langley teria que estar bastante ocupado para não notar alguém entrando pela porta da frente.

Talvez o assassino tenha chegado de outra maneira, pensou Kate.

Entraram na cozinha, onde manchas de sangue ainda se destacavam proeminentemente no piso laminado. Uma frigideira e uma lata de spray estavam à beira do fogão.

Estava prestes a cozinhar alguma coisa, Kate pensou. Então, talvez eles tenham sido mortos na hora do jantar.

DeMarco partiu para o corredor e Kate a seguiu. Havia uma pequena sala imediatamente à esquerda, a porta se abrindo para revelar uma lavanderia lotada de coisas. Aqui, o derramamento de sangue tinha sido muito pior. Havia manchas de sangue na máquina de lavar, na secadora, nas paredes, no chão e em uma pilha de roupas limpas dobradas em um cesto.

Com os corpos já removidos, parecia haver muito pouco que a residência de Langley pudesse lhes oferecer. Mas Kate tinha mais uma coisa que queria checar. Ela voltou para a sala de estar e olhou para as fotos nas paredes e para a parte superior daquele lugar. Viu os Langley sorrindo e felizes. Em uma foto, ela viu um casal mais velho com os Langley posando ao final de um píer na praia.

–Nós temos uma descrição da vida familiar dos Langley? Kate perguntou.

DeMarco, ainda segurando o iPad na mão direita, rolou as informações e começou a ler os detalhes que tinham. Em cada detalhe Kate descobria aos poucos que o palpite que ela guardou por alguns minutos era provavelmente verdadeiro.

–Eles foram casados por vinte e cinco anos. Bethany Langley tinha uma irmã que morreu em um acidente de carro há doze anos e nenhum deles tem pais vivos. O pai de Scott Langley faleceu recentemente, há apenas seis meses, de uma forma agressiva de câncer de próstata.

–Alguma menção de crianças?

–Não. Sem filhos. DeMarco fez uma pausa e pareceu entender o que Kate estava especulando. Você está pensando sobre o tecido, certo? Que parece uma espécie de cobertor de criança.

–Sim, é isso que eu estava pensando. Mas se os Langley não tinham filhos, eu não acho que haveria uma conexão óbvia.

–Eu não sei se já vi uma conexão óbvia com alguma coisa, disse DeMarco com uma risadinha trêmula.

–Isso é verdade, Kate disse, mas ela sentiu como se tivesse que existir uma aqui. Mesmo com as vítimas aparentemente aleatórias, havia algumas coisas que elas tinham em comum.

Ambos os casais estavam em meados para o final dos cinquenta e poucos e no início dos sessenta anos. Ambos eram casados. A esposa de cada casal tinha um pedaço do que parece ser um cobertor enfiado na garganta.

Então sim… Havia semelhanças, mas elas não levavam a nenhum vínculo real. Ainda não, de qualquer maneira.

–Agente DeMarco, você acha que poderia fazer uma ligação ou duas para ter certeza de que conseguiríamos um espaço no escritório do departamento de polícia local?

–Feito, disse ela. Tenho certeza que Duran lidou com tudo isso antes mesmo de chegarmos aqui.

Ele acha que me conhece tão bem, pensou Kate, um pouco irritada. Mas então, por outro lado, parecia que realmente a conhecia muito bem.

Kate olhou ao redor da casa novamente, para as fotos, para as manchas de sangue. Ela teria que se aprofundar nos detalhes de cada casal se quisesse chegar a algum lugar com isso. E ela precisaria obter algum tipo de resultado forense sobre os pedaços de tecido. Dadas as semelhanças entre as duas cenas, ela supôs que uma boa e velha pesquisa básica, mais do que qualquer coisa, revelaria algumas pistas e indícios.

Elas voltaram para o carro, Kate novamente lembrou-se de que elas tinham começado ridiculamente cedo. Quando ela viu que era pouco depois das dez da manhã, ficou um pouco revigorada. Elas ainda tinham a maior parte do dia pela frente. Talvez, se ela tivesse sorte e o caso se revelasse do jeito que ela pressentia, ela estaria de volta a Richmond no final de semana para ver Michelle mais uma vez─ isto é, se Melissa permitisse.

Veja, alguma parte mais sábia dela falou quando ela voltou ao volante do carro. Mesmo no meio de múltiplos assassinatos sangrentos, você está pensando em sua neta– na sua família. Isso não te diz algo?

Ela supôs que sim. Mas mesmo quando estava colocando o pé no último aposento de sua vida, ainda era muito difícil admitir que houvesse algo além do seu trabalho. Era especialmente difícil quando estava em busca de um assassino e sabia que a qualquer momento, ele poderia matar novamente.




CAPÍTULO SEIS


Uma pequena sala de conferências nos fundos da polícia de Roanoke havia sido reservada para Kate e DeMarco. Assim que chegaram à delegacia, uma pequena mulher corpulenta na recepção conduziu-as pelo edifício até a sala. Assim que se sentaram e começaram a montar uma estação de trabalho improvisada, ouviu-se uma batida na porta.

–Entre, disse Kate.

Quando a porta se abriu, elas viram um rosto familiar, Palmetto, do DP estadual, o homem um tanto rabugento que as encontrou na frente da residência de Nash, bem mais cedo naquele mesmo dia.

–Eu vi vocês voltando enquanto eu estava assinando toda a minha documentação, disse Palmetto. Estou saindo, dirigindo de volta para Chesterfield em algumas horas. Eu pensei em verificar se havia algo mais em que eu pudesse ajudar.

–Não, não há, disse Kate. Por acaso você sabia que também havia um fragmento desse mesmo tecido na garganta de Bethany Langley?

–Não até cerca de meia hora atrás. Aparentemente, uma de vocês ligou para o laboratório para pedir que mandassem uma foto.

–Sim, disse DeMarco. E parece ser equivalente ao que você nos deu.

Ao falar do pedaço de tecido, Kate colocou o saco de plástico que Palmetto lhe dera na mesa. Até agora, é a única evidência sólida que temos que liga os assassinatos de uma maneira concreta.

–E a medicina forense não encontrou praticamente nada sobre isso, disse Palmetto. Além do DNA da Sra. Nash.

–O relatório forense que estou vendo do tecido dos Langley também não forneceu nada de novo, disse DeMarco.

–Ainda vale a pena uma visita ao laboratório forense, disse Kate.

–Boa sorte com isso, disse Palmetto. Quando falei com eles sobre o pedaço dos Nash, eles não tinham a menor ideia.

–Você estava envolvido na cena na casa de Langley? Perguntou Kate.

–Não. Eu vim logo depois que aconteceu. Eu vi os corpos e chequei o lugar, mas não havia coisa alguma. Quando você conversar com a perícia, pergunte a eles sobre o cabelo perdido encontrado na roupa limpa. Não parecia pertencer a Sra. Langley, então eles vão fazer algumas análises.

–Antes de ir, disse Kate, você quer apresentar alguma teoria?

–Eu não tenho uma, disse Palmetto secamente. Na pesquisa que fiz, não parece haver absolutamente nenhuma ligação entre os Nash e os Langley. O tecido nas gargantas, no entanto… Algo tão pessoal e explícito assim para o assassino tem que ligá-los de alguma forma, certo?

–É o que penso, disse Kate.

Palmetto deu um tapa brincalhão na porta e Kate o viu sorrir pela primeira vez. Eu tenho certeza que você vai descobrir. Eu já ouvi falar de você, sabe? Muitos de nós no DP do estado ouviram.

–Tenho certeza, disse ela com um sorriso.

–Principalmente boas coisas. Então, você saiu da aposentadoria para pegar alguém há alguns meses, certo?

–Pode-se dizer que sim.

Palmetto, vendo que Kate não iria apenas sentar lá e aproveitar os elogios, deu-lhe um encolher de ombros. Ligue para os garotos do estado se você precisar de algo, Agente Wise.

–Farei isso, disse Kate quando Palmetto partiu.

Quando Palmetto fechou a porta atrás dele, DeMarco balançou a cabeça de brincadeira. Você já se cansou de ouvir as pessoas falando das suas façanhas?

–Sim, na verdade, disse Kate, mas não de uma maneira rude. Embora fosse animador lembrar-se de tudo o que ela fizera ao longo de toda a sua carreira, sabia que sempre esteve fazendo seu trabalho. Talvez ela tenha feito seu trabalho com um pouco mais de paixão do que os outros, mas era exatamente isso ─ um trabalho bem feito… Um trabalho que não conseguia deixar para trás.

Em alguns minutos e com a ajuda do administrador de sistemas da estação, Kate e DeMarco tiveram acesso ao banco de dados da estação. Elas trabalharam juntas, analisando o passado dos Nash e dos Langley. Nenhuma das famílias tinha registros de qualquer tipo. De fato, ambas as famílias tinham registros que dificultavam a ideia de que alguém tivesse ressentimentos contra elas. Quanto aos Langley, eles serviram como pais adotivos por alguns anos, então tiveram que passar por verificações rigorosas várias vezes ao longo de suas vidas. Os Nash estavam fortemente envolvidos em sua igreja e tinham participado de várias viagens missionárias nos últimos vinte anos, principalmente para o Nepal e Honduras.

Kate desistiu depois de um tempo e começou a andar de um lado para o outro. Ela usou o quadro branco da sala de conferência para fazer anotações, na esperança de que ver tudo escrito em um lugar a ajudasse a se concentrar. Mas não havia coisa alguma. Nenhum link, nenhuma pista, nenhum curso claro de onde ir.

–Você também, hein? DeMarco disse. Nada?

–Nada até agora. Acho que talvez a gente só deva seguir com o que temos ao invés de tentar encontrar algo novo. Acho que precisamos reavaliar os tecidos. Já que os testes forenses não deram em nada, talvez o próprio tecido possa nos levar para algum lugar.

–Estou acompanhando o raciocínio, disse DeMarco.

–Certo, disse Kate. Eu não tenho certeza disso. Mas eu espero que nós saibamos quando virmos alguma pista.


***

Kate sentiu as primeiras dores de fadiga quando ela e DeMarco dirigiram da delegacia para o laboratório forense. Era um lembrete gritante de que não dormira em cerca de vinte e sete horas e que seu dia de trabalho havia começado insanamente cedo. Vinte anos atrás, isso não a incomodaria. Mas com os cinquenta e seis encarando-a bem de perto, as coisas eram diferentes agora.

O deslocamento até o laboratório demorou apenas cinco minutos, localizado bem perto de uma pequena rede que consistia no DP, no tribunal e em uma prisão. Depois de mostrar suas identidades, elas foram escoltadas pela recepção do laboratório de ciências forenses e entraram na área central do laboratório. Foram convidadas a se sentarem em um pequeno saguão por um momento, enquanto o técnico responsável pelas amostras de tecido era convocado.

–Você acha que há alguma chance de que o tecido seja apenas algum tipo de cartão de visita do assassino? DeMarco perguntou.

–Pode ser. Pode não ter nada a ver com o porquê do caso. Poderia significar algo para o assassino. De qualquer forma, agora parece que o tecido ─ de algum tipo de cobertor, tenho certeza ─ é a nossa única conexão real com ele.

Isso fez com que Kate se lembrasse de um caso horripilante do qual fez parte no início dos anos noventa. Um homem matou cinco pessoas ─ todas ex-namoradas. Antes de matá-las, sufocando-as, ele forçou cada uma a engolir um preservativo. No final, ele não tinha nenhuma razão real para fazê-lo além de seu ódio pelo uso de preservativos durante o sexo. Kate não pôde deixar de se perguntar se esses fragmentos de tecido acabariam sendo tão insignificantes para o caso.

Sua espera foi curta; um homem alto e mais velho saiu correndo de uma porta em frente a elas. Vocês são do FBI? Ele perguntou.

–Somos, disse Kate, mostrando sua identidade. DeMarco fez o mesmo e o homem estudou cada uma cuidadosamente.

–Prazer em conhecê-las, Agentes, disse ele. Eu sou Will Reed, e eu fiz os testes nos tecidos dos assassinatos recentes. Suponho que seja por isso que vocês estejam aqui? Agente DeMarco, acredito que você é aquela para quem enviei a foto mais cedo?

–Isso mesmo, disse DeMarco. Nós estávamos esperando que você pudesse lançar mais alguma luz sobre o caso.

–Bem, eu ficaria mais do que feliz em ajudar com o que vocês precisam, mas se é sobre esses dois pedaços de tecido, eu temo que não haja coisa alguma que eu possa oferecer. Parece que o assassino não só fez grandes esforços para enfiar o tecido na boca das vítimas, como também foi bastante cuidadoso em não deixar vestígios de si mesmo nos locais.

–Sim, nós entendemos isso, disse Kate. Mas sem nenhum resultado concreto para continuarmos, eu queria saber se há algo que você poderia dizer sobre o tecido em si.

–Ah, disse Reed. Com isso eu posso ajudar.

–Eu sou da opinião de que ambos os pedaços vieram do mesmo material, disse Kate. Muito provavelmente um cobertor.

–Eu acho que é uma aposta segura, disse Reed. Não tinha muita certeza até ver o segundo. Eles se encaixam muito bem─ cor, textura e assim por diante.

–Existe alguma maneira de saber a idade do cobertor? Perguntou Kate.

–Receio que não. O que eu posso dizer, no entanto, é do que o cobertor é feito. E ficou na minha cabeça porque, até onde eu sei, é uma combinação estranha de tecido para um cobertor tradicional, quando pensamos em um. A maior parte do cobertor é feita de lã, o que, é claro, não é de se estranhar. Mas o material secundário usado no tecido é algodão de bambu.

–É tão diferente assim do algodão comum? Kate perguntou.

–Não tenho certeza, disse ele. Mas nós vemos muitas roupas e materiais relacionados a tecidos que passam por aqui. E eu posso contar em uma mão o número de vezes que entrei em contato com algo com vestígios perceptíveis de algodão de bambu. Não é um material muito raro, mas não é tão difundido quanto o algodão básico.

–Em outras palavras, DeMarco disse, não seria muito difícil localizar empresas que o usam como material primário?

–Isso eu não sei, disse Reed. Mas você pode estar interessada em saber que algodão de bambu está presente em muitos cobertores mais fofos. É um tecido respirável, pelo que vi. Você provavelmente está procurando por algo mais sofisticado. De fato, há um armazém fora da cidade que fabrica o tipo de coisa que estou falando. Cobertores caros, lençóis caros, colchas caras, esse tipo de coisa.

–Você sabe o nome do lugar? DeMarco perguntou.

–Fios Biltmore. Eles são uma empresa pequena que quase faliu quando todos começaram a comprar tudo on-line.

–Mais alguma coisa que você pode nos dizer? Kate perguntou.

–Sim, mas é meio horrível. Com a mulher de Nash, acredito que o tecido tenha sido empurrado tão abaixo que ela quase vomitou, mesmo que perto da morte. Havia ácido estomacal no tecido.

Kate pensou na quantidade de força e esforço que levaria para alguém fazer isso… Sobre o quanto da sua mão precisaria entrar na boca da vítima.

–Obrigada pelo seu tempo, Sr. Reed, disse Kate.

–De nada. Só espero que eu não veja um terceiro pedaço desse cobertor tão cedo.




CAPÍTULO SETE


Estranhamente, o caminho até o Armazém Biltmore Threads levou Kate e DeMarco pelo mesmo trecho de estrada que haviam percorrido em Whip Springs às quatro horas da manhã. A fábrica e o armazém ficavam em uma estrada de duas pistas que serpenteava da rodovia principal. Estavam escondidos junto com o trecho de grama amarelada que servia como decoração, nos mesmos bosques que haviam escondido a casa de Nash da estrada principal.

Pela aparência do estacionamento, Biltmore Threads não estava indo tão mal quanto Will Reed havia sugerido. O lugar parecia empregar pelo menos cinquenta pessoas, e isso baseado apenas nessa hora do dia. Com uma fábrica como essa, Kate supôs que houvesse trabalho por turnos ocorrendo, o que significaria que outras cinquenta ou mais pessoas provavelmente viriam mais tarde para o turno da noite.

Elas entraram, chegando em um saguão sujo. Uma mulher sentada atrás de um balcão olhou para elas com uma expressão peculiar. Era evidente que eles não recebiam muitos visitantes.

–Posso ajudá-las? Ela perguntou.

DeMarco passou pela rodada de apresentações e depois que mostraram seus documentos de identificação, a mulher do balcão as liberou por uma porta na outra extremidade do saguão. Aquela mesma mulher as encontrou lá e depois as conduziu por um pequeno corredor. No final do corredor, ela abriu um conjunto de portas duplas que levavam ao piso de produção da Biltmore Threads. Vários conjuntos de teares e outros equipamentos que Kate nunca tinha visto estavam vibrando com vida. Do outro lado do grande piso de trabalho, uma empilhadeira compacta carregava uma pilha de roupas empilhadas para o armazém.

Depois de guiá-las cuidadosamente ao redor no canto do chão de fábrica, a mulher parou em outra porta e as levou para dentro. Aqui, havia um corredor fino adornado com cinco salas. A mulher as trouxe até a primeira e bateu na porta.

–Sim? A voz de um homem explodiu de dentro.

–Temos visitantes, a mulher avisou antes de abrir a porta. Duas senhoras do FBI.

Houve alguns segundos de pausa e depois a porta foi aberta do outro lado. Um homem de cabelos escuros usando óculos pesados as cumprimentou. Ele as olhou de cima a baixo, não por nervosismo, mas pura curiosidade.

–FBI? Ele perguntou. O que posso fazer por vocês?

–Podemos ter um minuto do seu tempo? Kate perguntou.

–Claro, ele disse, ficando de lado e permitindo que elas entrassem em seu escritório.

Havia apenas um lugar para se sentar no escritório, além do que estava atrás da mesa. Nem Kate nem DeMarco aceitaram. O homem de cabelos escuros também não se sentou, preferindo ficar de pé com elas.

–Eu suponho que você seja o supervisor? Kate perguntou.

–Sou o gerente regional e o supervisor do turno do dia, sim, disse ele. Ele estendeu a mão rapidamente, como se estivesse envergonhado por ter esquecido de cumprimentá-las.

Kate apertou a mão oferecida e depois mostrou sua identidade. Então enfiou a mão no bolso e retirou o pedaço de tecido da cena de Nash.

–Este é um pedaço de tecido de uma cena de crime recente, disse ela. E acreditamos que poderia ser fundamental para pegar um assassino. O laboratório forense encontrou algodão de bambu, e eu entendo que a Biltmore Threads usa algodão de bambu com bastante regularidade.

–Usamos, disse Garraty. Ele pegou o saco e então hesitou antes de perguntar: Você se importa?

Kate sacudiu a cabeça e entregou a ele. Garraty olhou de perto e assentiu. Não posso dar garantias, mas sim, parece que há algodão de bambu nele. Você sabe de onde veio o tecido?

–Estou assumindo que seja de um cobertor, disse Kate.

–Parece que sim, disse Garraty. E embora eu não tenha cem por cento de certeza, acho que pode ter sido projetado e fabricado aqui.

–Aqui mesmo na Biltmore Threads? Kate perguntou.

–Possivelmente.

Garraty devolveu a sacola plástica a Kate e depois se dirigiu a um velho armário de arquivo surrado no canto de trás do pequeno escritório. Ele abriu a gaveta de baixo e depois de mexer no seu conteúdo por um tempo, pegou dois livros diferentes. Ambos eram bastante grandes e, quando ele começou a folhear um, Kate viu que ambos eram catálogos de estoque.

–A cor e o design que você pode observar parecem familiares, explicou Garraty enquanto folheava as páginas. Se foi feito aqui, estará em um desses livros.

Era um pensamento emocionante, mas Kate não tinha certeza do que isso significaria. Se o cobertor em questão foi feito em Biltmore Threads, realmente abriria muitas possibilidades? Havia muitas perguntas a fazer antes de chegar a tal conclusão.

–Bem aqui, disse Garraty. Ele virou o livro na direção delas e apontou para um dos vários cobertores listados em uma página já quase no final do livro. Parece que isso tem algo a ver para vocês?

Kate e DeMarco estudaram a página. Kate olhou para frente e para trás, para ter certeza de que não estava vendo uma similaridade falsa. Mas depois de alguns segundos, DeMarco respondeu por ela.

–O tecido que temos está desbotado, mas é o mesmo. Com aquela pequena estampa xadreza branca desbotada.

–Bem, está desbotado porque é um produto mais antigo, disse Garraty. Ele apontou para uma linha da descrição do item. Aqui, diz que começou a ser produzido em 1991 e foi eliminado do nosso ciclo de produção em 2004.

–Então você fez esse mesmo cobertor por treze anos? DeMarco perguntou.

–Sim. Foi um item muito popular, e foi por isso que consegui reconhecê-lo tão rapidamente.

–Em outras palavras, a última vez que você teria tirado um desses do seu depósito foi em 2004, disse Kate. Significa que esta amostra deve ter entre quinze e trinta anos de idade.

–Correto.

Bem, mesmo que pudesse haver uma pista devido ao cobertor, pensou Kate, aquele espaço de trinta anos torna tudo muito difícil.

–Sr. Garraty, há quanto tempo você está neste cargo aqui?

–Vinte e seis anos, disse Garraty. Minha aposentadoria está chegando no próximo ano.

–Enquanto você esteve aqui, a Biltmore Threads contratou Scott ou Bethany Langley, ou Toni ou Derrick Nash?

Garraty pensou por um momento e depois deu de ombros. Os nomes não me parecem familiares, mas olhando para um período de mais de dez anos, eu analisaria os registros do RH. Há muitos funcionários que entram e saem daqui.

–Em quanto tempo você pode descobrir isso para gente com certeza? DeMarco perguntou.

–Dentro de uma hora.

–Isso seria ótimo, disse Kate. E, se você não se importa, apenas mais uma pergunta. Você já teve algum funcionário causando problemas para você ou para a fábrica no mês passado? Algum encrenqueiro ou apenas alguém que você e outros administradores precisavam ficar de olho?

–Engraçado você perguntar, disse Garraty. Eu tive que despedir um cara há apenas duas semanas. Estava aparecendo para trabalhar chapado e nós tínhamos certeza que estava roubando material. Quando o confrontei, ele ficou violento e eu tive que ligar para a segurança. E como só temos um guarda de segurança, a polícia se envolveu e ele acabou sendo preso. Mas ele saiu no dia seguinte.

–Roubar material? DeMarco disse, uma ponta de excitação em sua voz.

–Sim…, mas não aquele, disse ele, apontando para a sacola plástica. Não temos esse tecido no armazém há anos. Não, ele saiu e nos disse mais tarde, quando ele se acalmou, que estava roubando coisas para alguns projetos que sua namorada estava criando. Ela tem uma loja Betsy ou algo assim.

–Podemos pegar o nome dele? Kate perguntou.

–Travis Rogers. Ele tem cerca de trinta anos. Tem ficha criminal, eu acho. Alguns crimes violentos leves. Mas nós tendemos a dar às pessoas uma segunda chance na Biltmore Threads, sabe?

–Ele é um local? DeMarco perguntou.

–Sim, em Whip Springs. Eu posso te dar o endereço dele.

–Novamente, isso seria ótimo, disse Kate.

Garraty as conduziu para fora de seu escritório e voltou pelo mesmo caminho que a recepcionista as havia guiado, só que do lado contrário. Quando voltaram ao saguão, Garraty falou com a recepcionista enquanto Kate e DeMarco se juntaram nas portas do saguão.

–O cobertor foi fabricado aqui, disse Demarco. Você acha que é apenas uma coincidência assustadora?

–Poderia ser. Eu estou inclinada a pensar assim, dado que o cobertor não é produzido em muito tempo. Isso me faz pensar, no entanto…

–Pensar o quê?

–Não importa de onde veio o cobertor, sabemos que tem que ser velho… ter pelo menos de quinze a trinta anos. E se esse é o caso, isso me faz pensar que alguém se apegou a isso. Por que usar algo tão velho a menos que tenha algum tipo de simbolismo ou significado para você?




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