Antes Que Ele Sinta 
Blake Pierce


Um Enigma Mackenzie White #6
De Blake Pierce, autor do best-seller SEM PISTAS (seu best-seller nº1 com mais de 900 avaliações cinco estrelas), vem o livro nº 6 da série que faz nossos corações baterem mais forte, a série de enigmas Mackenzie White. Em ANTES QUE ELE SINTA (Um Enigma da Série Mackenzie White – Livro 6), a Agente especial do FBI, Mackenzie White, está atordoada por ter sido encarregada de um caso com vítimas de um perfil com o qual ela nunca tinha trabalhado: de forma chocante, todas as vítimas eram cegas. Isso significa que o próprio assassino é cego?Mergulhada no dos deficientes visuais, Mackenzie se esforça para entender o contexto, ela está fora de sua zona de conforto enquanto atravessa o estado, visita desde instituições até casas particulares, entrevista cuidadores, bibliotecários, especialistas e psicólogos. E, no entanto, apesar de ser uma das mentes mais brilhantes do país, Mackenzie parece incapaz de evitar a série de assassinatos. Será que ela finalmente achará uma pista?Um suspense psicológico obscuro que fará o seu coração pulsar, ANTES QUE ELE SINTA é o livro nº 6 de uma nova série extremamente fascinante – com uma nova personagem apaixonante – que fará você virar páginas e páginas até tarde da noite. Também disponibilizado pelo autor Blake Pierce é SEM PISTAS (Um Enigma da Série Riley Paige – Livro nº 1), o best-seller nº 1 do escritor com mais de 900 avaliações cinco estrelas – e download gratuito!





BLAKE PIERCE

ANTES QUE ELE SINTA




Blake Pierce

Blake Pierce é o autor da série de enigmas RILEY PAGE, com doze livros (com outros a caminho). Blake Pierce também é o autor da série de enigmas MACKENZIE WHITE, composta por oito livros (com outros a caminho); da série AVERY BLACK, composta por seis livros (com outros a caminho), da série KERI LOCKE, composta por cinco livros (com outros a caminho); da série de enigmas PRIMÓRDIOS DE RILEY PAIGE, composta de dois livros (com outros a caminho); e da série de enigmas KATE WISE, composta por dois livros (com outros a caminho).



Como um ávido leitor e fã de longa data do gênero de suspense, Blake adora ouvir seus leitores, por favor, fique à vontade para visitar o site www.blakepierceauthor.com (http://www.blakepierceauthor.com/) para saber mais a seu respeito e também fazer contato.



Direitos Autorais © 2017 por Blake Pierce. Todos os direitos reservados. Exceto conforme o permitido sob as Leis Americanas de Direitos Autorais (EUA Copyright Act, de 1976), nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, distribuída ou transmitida de qualquer forma ou por qualquer meio, ou armazenada em um sistema de banco de dados ou de recuperação, sem a prévia autorização do autor. Este e-book é licenciado apenas para seu prazer pessoal. Este e-book não pode ser revendido ou distribuído para outras pessoas. Se você gostaria de compartilhar este livro com outra pessoa, adquira uma cópia adicional para cada destinatário. Se você está lendo este livro e não o comprou, ou ele não foi comprado apenas para o seu uso, então, por favor, devolva o livro e compre a sua própria cópia. Obrigado por respeitar o trabalho duro deste autor. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, empresas, organizações, locais, eventos e incidentes são um produto da imaginação do autor ou são usados ficticiamente. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, é mera coincidência. Imagem do casaco Copyright KN, usada sob licença da Shutterstock.com.



LIVROS DE BLAKE PIERCE




SÉRIE UM THRILLER PSICOLÓGICO DE CHLOE FINE


A PRÓXIMA PORTA (Livro #1)


A MENTIRA MORA AO LADO (Livro #2)




SÉRIE UM MISTÉRIO DE KATE WISE


SE ELA SOUBESSE (Livro #1)


SE ELA VISSE (Livro #2)




SÉRIE OS PRIMÓRDIOS DE RILEY PAIGE


ALVOS A ABATER (Livro #1)


À ESPERA (Livro #2)


A CORDA DO DIABO (Livro #3)


AMEAÇA NA ESTRADA (Livro #4)




SÉRIE UM MISTÉRIO DE RILEY PAIGE


SEM PISTAS (Livro #1)


ACORRENTADAS (Livro #2)


ARREBATADAS (Livro #3)


ATRAÍDAS (Livro #4)


PERSEGUIDA (Livro #5)


A CARÍCIA DA MORTE (Livro #6)


COBIÇADAS (Livro #7)


ESQUECIDAS (Livro #8)


ABATIDOS (Livro #9)


PERDIDAS (Livro #10)


ENTERRADOS (Livro #11)


DESPEDAÇADAS (Livro #12)


SEM SAÍDA (Livro #13)




SÉRIE UM ENIGMA DE MACKENZIE WHITE


ANTES QUE ELE MATE (Livro #1)


ANTES QUE ELE VEJA (Livro #2)


ANTES QUE ELE COBICE (Livro #3)


ANTES QUE ELE LEVE (Livro #4)


ANTES QUE ELE PRECISE (Livro #5)


ANTES QUE ELE SINTA (Livro #6)


ANTES QUE ELE PEQUE (Livro #7)


ANTES QUE ELE CACE (Livro #8)




SÉRIE UM MISTÉRIO DE AVERY BLACK


RAZÃO PARA MATAR (Livro #1)


RAZÃO PARA CORRER (Livro #2)


RAZÃO PARA SE ESCONDER (Livro #3)


RAZÃO PARA TEMER (Livro #4)




SÉRIE UM MISTÉRIO DE KERI LOCKE


RASTRO DE MORTE (Livro #1)


RASTRO DE UM ASSASSINO (Livro #2)




PREFÁCIO


Ele tinha lido o livro pelo menos uma dúzia de vezes, mas tudo bem. Era um bom livro e ele chegou até a dar a cada personagem uma voz própria. Também ajudava ser um dos seus livros favoritos— Something Wicked This Way Comes, de Ray Bradbury. Para a maioria, pode parecer um livro estranho para se ler, considerando-se os moradores de uma casa para deficientes visuais, mas todos que já tinham lido o livro pareciam gostar.



Ele estava perto do final, e sua última residente estava devorando o livro. Ellis, uma mulher de cinquenta e sete anos, lhe havia dito que nasceu cega e viveu os últimos onze anos naquela casa, depois que seu filho decidiu que não queria mais carregar o peso de se ter uma mãe cega e colocou-a na Wakeman Home.



Ellis pareceu gostar dele imediatamente. Mais tarde, ela disse que contou para alguns dos outros moradores sobre ele porque ela gostava de ter a atenção dele só para si. E tudo bem para ele. Na verdade, isso era perfeito na opinião dele.



Ainda melhor, há cerca de três semanas ela insistiu para que saíssem da parte térrea da casa; ela queria aproveitar a narrativa dele ao ar fresco, com a brisa em seu rosto.



Não havia muita brisa hoje – estava, na verdade, terrivelmente quente – tudo bem para ele. Estavam sentados em um pequeno jardim de rosas, a meio quilômetro de distância da casa. Era um lugar, ela disse, que visitava muito. Ela gostava do cheiro das rosas e do zumbido das abelhas.



E agora, da voz dele, contando a história de Ray Bradbury.



Ele estava feliz que ela gostava tanto dele. Ele também gostava dela. Ellis não interrompia sua leitura com centenas de perguntas, como alguns dos outros. Ela simplesmente sentava-se lá, olhando para o espaço que ela nunca tinha visto de verdade, e apegava-se a cada palavra.



Quando chegou ao fim de um capítulo, ele olhou para o relógio. Ele já havia ficado dez minutos depois da hora habitual. Ele não tinha outros residentes que planejava visitar hoje, mas tinha planos para mais tarde na noite.



Colocando seu marcador entre as páginas, ele colocou o livro para baixo. Sem a história para distraí-lo, ele percebeu o quão opressivamente o calor do Sul estava atingindo suas costas.



"É isso por hoje?" Ellis perguntou.



Ele sorriu por causa da observação. Nunca deixou de se surpreender com o quão bem os outros sentidos compensavam a falta de visão. Ela o ouviu mudar de posição no banco pequeno perto do centro do jardim, então, ouviu o ruído suave do livro que foi colocado em sua perna.



"Sim, eu acho que sim," disse ele. "Eu já ultrapassei dez minutos."

"Quanto resta?" Perguntou ela.

"Cerca de quarenta páginas. Então, vamos finalizar isso na próxima semana. Parece bom?"

"Parece perfeito," disse ela. Ela, então, franziu a testa ligeiramente e acrescentou: "Você se importa se eu lhe pedir… Bem, você sabe… É tão bobo, mas…"

"Não, está tudo bem, Ellis."



Ele se inclinou para perto dela e deixou-a tocar seu rosto. Ela passou as mãos ao longo dos contornos. Ele entendeu a necessidade disso (e Ellis não era a única mulher cega que tinha feito isso com ele), mas isso ainda causava um certo estranhamento para ele. Um breve sorriso veio até a boca dela quando ela contornou a cabeça dele e depois tirou as mãos.



"Obrigada," disse ela. "E obrigada pela leitura. Eu estava pensando se você já tinha alguma ideia para o próximo livro?"

"Depende do que você está com vontade."

"Um clássico, talvez?"

"Este é de Ray Bradbury," disse ele. "Isso é tão clássico quanto eu. Eu acho que tenho The Lord of the Flies em algum lugar."



"Esse é o dos meninos encalhados na ilha, certo?"

"Basicamente, sim."

"Parece bom. Mas este… este Something Wicked This Way Comes é brilhante. Ótima escolha!"



“Sim, é um dos meus favoritos.”

Ele ficou bastante feliz porque ela não podia ver o sorriso tortuoso no rosto dele. Algo perverso assim vem, mesmo, ele pensou. Fazendo alusão a tradução do título do livro.



Ele pegou seu livro, gasto e maltratado por anos de uso, aberto pela primeira vez há cerca de trinta anos. Ele esperou para que ela ficasse de pé com ele, como em um encontro impaciente. Ela tinha a sua bengala com ela, mas ela raramente usava aquilo.



A caminhada de volta para o Wakeman Home foi curta. Ele gostava de ver o olhar de concentração em seu rosto quando ela começava a andar. Ele se perguntou o que deve ser confiar em todos os outros sentidos para se deslocar. Deve ser cansativa a locomoção pelo mundo sem poder vê-lo.



Enquanto ele estudava o rosto dela, ele esperava, acima de tudo, que Ellis tivesse apreciado o que tinha ouvido do livro.

Ele segurou seu livro com força, quase decepcionado porque Ellis nunca descobriria como ele terminaria.


*

Ellis encontrou-se pensando nos jovens de Something Wicked This Way Comes. Era outubro no livro. Ela desejou que fosse outubro aqui. Mas não… Era o final de julho no Sul da Virgínia, e ela não achava que poderia ficar ainda mais quente. Mesmo depois de planejar sua caminhada antes do crepúsculo, a temperatura ainda estava nos cruéis trinta e dois graus, de acordo com o Siri no iPhone.



Tristemente, ela conhecia bem o Siri. Era uma ótima maneira de passar o tempo; falando com ela com sua voz robusta e meio robótica, informando Ellis com o trivia, atualizações climáticas e placares esportivos. Havia algumas pessoas da tecnologia na casa que sempre se certificavam de que todos os seus aparelhos computadorizados estavam atualizados. Ela tinha um MacBook equipado com iTunes e uma biblioteca musical bastante substancial. Ela também tinha o iPhone mais recente e até mesmo um aplicativo muito atual que respondia a um dispositivo anexado que lhe permitia interagir em Braille.



Siri havia acabado de dizer-lhe que a temperatura era de trinta graus lá fora. Isso parecia impossível, já que eram quase 7:30 da noite. Ah, tudo bem, ela pensou. Um pouco de suor nunca prejudicou ninguém. Ela pensou em esquecer sua caminhada. Era uma caminhada que ela fazia pelo menos cinco vezes por semana. E ela já havia feito uma vez hoje para se encontrar com o homem que lia para ela. Ela não precisava do exercício, mas… Bem, ela tinha certos rituais e rotinas. Isso a fazia se sentir normal. Isso fazia com que ela se sentisse sã.



Além disso, havia algo ao som da tarde enquanto o sol estava se pondo. Ela podia sentir e ouvir algo como um zumbido elétrico suave no ar quando o mundo caiu em silêncio, puxando o anoitecer com a noite em seus calcanhares.



Então, ela decidiu dar uma volta. Duas pessoas dentro da casa disseram tchau para ela, vozes familiares—uma cheia de tédio, a outra com um entusiasmo apagado. Ela apreciou a sensação de ar fresco em seu rosto quando saiu no gramado principal.



"Mas que diabos você está indo fazer, Ellis?"



Era outra voz familiar—o gerente da Wakeman, um homem alegre chamado Randall Jones.



"Minha caminhada habitual," ela respondeu.

"Mas está tão quente! Seja breve. Eu não quero que você desmaie! "

"Ou perca o ridículo toque de recolher," disse ela.

"Sim, ou isso," Randall disse com um pouco de desprezo.



Ela continuou com sua caminhada, sentindo a presença iminente da casa segui-la. Ela sentiu um espaço aberto à frente dela, o gramado a aguardava. Além dele, estava a calçada e, meio quilômetro depois, o jardim de rosas.



Ellis odiava a ideia de que ela estava quase com sessenta anos e ainda assim tinha que obedecer a um toque de recolher. Ela entendia, mas isso a fazia se sentir como uma criança. Ainda assim, apesar da falta de visão, ela gostava da Wakeman Home. Até havia aquele homem legal que lia para ela uma vez por semana – e às vezes, duas. Ela sabia que ele lia para alguns outros, também. Mas essas eram pessoas em outras casas. Aqui, na Wakeman, ela era a única para quem ele lia. Isso a fez se sentir especial. Isso fez com que ela sentisse que ele a preferia.



Ele reclamou para ela que a maioria dos outros gostavam de novelas de romance ou de best-sellers. Mas com Ellis, ele podia ler as coisas que ele gostava. Duas semanas atrás, eles tinham terminado Cujo de Stephen King. E agora havia esse livro de Bradbury e…



Ela parou em sua caminhada, levantando a cabeça ligeiramente.

Ela pensou ter ouvido algo perto dela. Mas depois de pausar, ela não ouviu nada novamente. Provavelmente apenas um animal que atravessava a floresta à minha direita, pensou. Era o Sul da Virgínia, afinal… E havia muitas florestas e muitos bichos vivendo nelas.



Ela bateu a bengala à frente, encontrando um tipo estranho de conforto em seu barulho familiar: “clique, clique”, quando batia na calçada. Embora ela obviamente nunca tivesse visto a calçada ou a estrada ao lado dela, elas haviam sido descritas várias vezes para ela.



Ela também tinha uma imagem mental, conectando cheiros com as descrições de flores e árvores que alguns dos ajudantes e cuidadores da casa lhe haviam dado. Dentro de cinco minutos, ela podia cheirar as rosas vários metros à frente. Ela podia ouvir as abelhas zumbindo ao redor delas. Às vezes, pensava que podia até mesmo sentir o cheiro das abelhas, cobertas de pólen e qualquer mel que elas produzissem em algum outro lugar.



Ela conhecia o caminho para o jardim de rosas tão bem que poderia ter ido sem o uso de sua bengala. Ela tinha feito aquilo pelo menos mil vezes ao longo de seus onze anos na casa. Ela gostava de ir para lá para refletir sobre sua vida, sobre como as coisas ficaram tão difíceis que seu marido a deixou há quinze anos atrás e depois seu filho há 11 anos.



Ela não sentia falta do bastardo do seu ex-marido, mas sentia falta da sensação das mãos de um homem sobre ela. Se ela estivesse sendo sincera consigo mesma, era uma das razões pelas quais ela gostava de sentir o rosto do homem que lia para ela. Ele tinha um queixo quadrado que parecia pertencer a um homem forte, maçãs do rosto altas e um daqueles sotaques do Sul, era viciante ouvir sua voz. Ele poderia ler a lista telefônica e ela iria gostar do mesmo jeito.



Ela estava pensando nele enquanto se sentia entrar nos contornos familiares do jardim. O concreto era áspero e duro sob seus pés, mas tudo mais à frente dela parecia macio e convidativo. Ela parou por um momento e descobriu que, como costumava acontecer naquelas tardes, ela tinha o lugar todo só para si. Ninguém mais estava lá.



Novamente, ela parou. Ouviu algo por trás dela.

Sinta, também, pensou.

"Quem é?" Perguntou ela.



Ela não recebeu nenhuma resposta. Ela tinha saído tarde porque sabia que o jardim ficaria deserto. Muito poucos saíam depois das seis da tarde, porque a cidade de Stateton, na qual a Wakeman Home estava localizada, era um pequenino lugar.



Quando ela se afastou há quinze minutos atrás, ela ouviu o movimento de qualquer outra pessoa que estivesse no gramado da frente e não ouviu a voz de ninguém. Ela também não ouviu ninguém mais na calçada quando chegou ao jardim.



Havia a possibilidade de que alguém pudesse ter saído com a intenção de assustá-la, mas isso poderia ser arriscado. Havia repercussões desse comportamento nessa cidade, leis que foram aplicadas por uma força policial do Sul que não tolerava “merdas” quando se tratava de adolescentes locais e baderneiros tentando perturbar as pessoas com deficiência.



Mas lá estava de novo.

Ela ouviu o barulho, e a sensação de que alguém estava lá era muito mais forte agora. Ela sentiu o cheiro de alguém. Não era um mau cheiro. Na verdade, era familiar.

O medo percorreu o corpo dela, então, e ela abriu a boca para gritar.

Mas antes que pudesse, de repente, sentiu uma pressão imensa em sua garganta. Ela sentiu outra coisa, também, irradiando da pessoa, como um calor.

Ódio.

Ela foi amordaçada, era incapaz de gritar, falar, respirar e sentiu-se caindo de joelhos.



A pressão apertou sua garganta e aquele sentimento de ódio parecia penetrá-la, enquanto a dor se espalhava por todo o corpo e, pela primeira vez, Ellis ficou aliviada por ser cega. Ao sentir sua vida escapar dela, ela ficou aliviada de não ter que colocar os olhos no rosto do mal. Em vez disso, ela tinha apenas aquela escuridão tão familiar atrás de seus olhos para recebê-la no que seja lá o que for que a esperava depois desta vida.




CAPÍTULO UM


Mackenzie White, sempre em movimento, era perfeitamente feliz em ser confinada ao seu pequeno espaço de cubículo. Ela ficou ainda mais feliz quando, três semanas atrás, McGrath a chamou e disse a ela que havia um escritório vago graças a uma rodada de demissões do governo e que era dela se ela o quisesse. Ela esperou alguns dias e, quando ninguém mais o pegou, ela foi em frente e se mudou.

Era minimamente decorado, apenas com sua mesa, uma lâmpada de assoalho, uma pequena estante e duas cadeiras em frente à mesa. Um grande quadro branco com marcações de calendário estava pendurado na parede. Ela estava encarando o calendário enquanto dava um intervalo entre responder e-mails e fazer ligações em sua tentativa de encontrar detalhes sobre um caso em particular.

Era um caso antigo… um caso ligado ao único cartão de visitas que ela tinha no calendário do quadro branco, pendurado ali por um imã.


Antiguidades Barker

Era o nome de uma empresa que, aparentemente, nunca existiu.

Quaisquer linhas de investigação que surgiram, geralmente, foram frustradas logo em seguida.  O mais próximo que eles haviam chegado de algum lugar foi quando o Agente Harrison descobriu um lugar em Nova Iorque que era uma possível ligação. Mas aquilo acabou não resultando em nada além de um homem que havia vendido velhas falsificações de antiguidades em sua garagem no fim dos anos 1980.

Ainda assim, havia uma sensação de que ela estava bem perto de encontrar algum fio que a levaria às respostas que ela estava procurando—respostas a respeito da morte de seu pai e do assassinato aparentemente correlato que havia ocorrido mais cedo neste ano, apenas seis meses atrás.

Ela tentou se sustentar nessa sensação de algo estando lá fora, balançando sem ser visto, mas não obstante, de alguma forma, também bem na sua frente. Ela precisava disso em dias como hoje, nos quais ela possuía três pistas em potencial se extinguindo de súbito através de ligações telefônicas e e-mails.

O cartão de visitas havia se tornado uma peça de quebra-cabeças para ela. Ela o encarava todos os dias, tentando descobrir alguma abordagem que ela ainda não havia tentado.

Estava tão enamorada com ele que quando alguém bateu na porta de seu escritório, ela deu um pequeno sobressalto. Ela olhou para a porta e viu Ellington ali. Ele enfiou a cabeça para dentro e olhou ao redor.

“É, um ambiente de escritório continua não lhe caindo bem.”

"Eu sei," disse Mackenzie. “Eu me sinto como uma fraude. Entre.”

“Ah, eu não tenho muito tempo,” ele disse. "Estava apenas pensando se você gostaria de ir almoçar."

“Posso fazer isso," ela disse. “Encontre-me lá em baixo daqui a mais ou menos uma hora e—”

O telefone em sua mesa tocou, interrompendo-a. Ela leu o visor e viu que vinha da extensão do McGrath. "Um segundo." ela disse. “É do McGrath.”

Ellington assentiu e fez uma divertida cara sisuda.

“Aqui é a Agente White," ela disse.

“White, é o McGrath. Eu preciso vê-la no meu escritório o quanto antes a respeito de um novo caso. Reúna-se com Ellington e traga-o com você.”

Ela abriu a boca para dizer Sim senhor, mas McGrath terminou a chamada antes mesmo que ela pudesse reunir o fôlego.

“Parece que o almoço vai ter que esperar,” ela disse. “McGrath precisa nos ver.”

Eles compartilharam um olhar desconfortável enquanto o mesmo pensamento ocorria entre eles. Muitas vezes eles se perguntaram por quanto tempo seriam capazes de manter o relacionamento romântico em segredo para os colegas de trabalho, particularmente para McGrath.

"Você acha que ele sabe?" perguntou Ellington.

Mackenzie deu de ombros. "Eu não sei. Mas ele disse que ele precisa nos ver a respeito de um caso. Então, se ele realmente sabe, aparentemente, não foi o motivo por trás da ligação."

“Vamos descobrir então,” disse Ellington.

Mackenzie desconectou do seu usuário no computador e juntou-se a Ellington enquanto se dirigiam através do prédio em direção ao escritório do McGrath. Ela tentava dizer a si própria que ela realmente não se importava se McGrath tinha conhecimento sobre eles. Não era motivo para suspensão ou qualquer coisa do tipo, mas ele provavelmente nunca lhes permitiria trabalharem juntos novamente, caso ele realmente descobrisse.

Então, embora ela tentasse dar o seu melhor para não se importar, sempre havia alguma preocupação. Ela deu o seu melhor para engolir isso ao se aproximarem do escritório do McGrath, tentando andar propositalmente o mais distante de Ellington quanto possível.


***

McGrath os mirou desconfiadamente ao se sentarem nos dois assentos em frente à sua mesa. Era um assento com o qual Mackenzie estava começando a se acostumar, sentar ali e ser repreendida ou elogiada por McGrath. Ela se perguntou qual seria hoje antes que ele os entregasse a tarefa.

"Então vamos lidar com algumas questões domésticas primeiramente," disse McGrath. “Se tornou claro para mim que há algo rolando entre vocês dois. Eu não sei se é amor ou apenas uma aventura ou o quê… e, honestamente, eu não ligo. Mas esse é o único e último aviso de vocês. Se isso interferir com o trabalho de vocês, vocês nunca serão colocados como parceiros novamente. E isso seria uma maldita pena, porque vocês trabalham muito bem juntos. Estou entendido?"

Mackenzie não via sentido em negar. "Sim, senhor."

Ellington ecoou a resposta dela e ela sorriu desajeitadamente quando percebeu que ele parecia constrangido. Ela notou que ele não era do tipo que estava acostumado a ser repreendido pelos superiores.

“Agora que temos aquilo fora do caminho, vamos para o caso," disse McGrath. "Nós recebemos uma ligação do xerife de uma pequena cidade do sul chamada Stateton. Há um lar para cegos localizado lá—e isso é tudo o que há por lá, pelo que percebi. Na noite passada, uma mulher cega foi morta extremamente perto das dependências. E, apesar de isso ser certamente trágico o suficiente, é o segundo assassinato de uma pessoa cega no estado da Virgínia no prazo de dez dias. Em ambos os casos, parece haver trauma no pescoço, indicando estrangulamento, assim como irritação ao redor dos olhos."

“A primeira vítima também era membro de um lar?" perguntou Mackenzie.

“Sim, embora de um muito menor pelo que pude perceber. Foi especulado originalmente que o assassino era um membro da família, mas levou menos de uma semana para que todos fossem inocentados. Com um segundo corpo e o que parece ser um conjunto de alvos bem específico, provavelmente, não é apenas coincidência. Então vocês podem entender a urgência dessa situação, eu espero. Honestamente, eu tenho a sensação de uma cidadezinha pacata nesse caso. Não há muita gente por lá, então deve ser mais fácil encontrar um suspeito rapidamente. Eu estou atribuindo a vocês dois, porque eu espero plenamente que vocês tenham o caso fechado em quarenta e oito horas. Menos seria ainda melhor."

"O Agente Harrison não estará envolvido nesse caso?" perguntou Mackenzie. Não tendo falado com o mesmo desde o falecimento da mãe dele, ela se sentia quase culpada. Embora ele nunca tenha realmente parecido um parceiro, ela ainda o respeitava.

"O Agente Harrison foi solicitado em outro lugar," disse McGrath. "Para este caso, ele será um recurso para as suas… pesquisas, informações ágeis e coisas dessa natureza. Você está desconfortável em trabalhar com o Agente Ellington?"

"De forma alguma, senhor," ela disse, arrependendo-se de ter dito qualquer coisa.

"Ótimo. Pedirei ao recursos humanos para reservar um quarto para vocês em Stateton. Eu não sou idiota… então vou requisitar apenas um quarto. Se nada mais sair dessa pequena aventura entre vocês dois, pelo menos eu vou poupar o departamento de gastos com hospedagem."

Mackenzie não tinha certeza se era uma tentativa de McGrath com humor. Era difícil dizer, porque o homem parecia nunca sorrir.

Ao se levantarem para seguir para a tarefa, ocorreu a Mackenzie quão vaga havia sido a resposta de McGrath sobre Harrison. Ele foi solicitado em outro lugar, pensou Mackenzie. O que isso significa?

Contudo, isso não dizia respeito a ela. Ao invés de se preocupar, ela foi atribuída a um caso que McGrath estava esperando uma reviravolta rápida.  Ela já podia sentir o desafio fermentando dentro dela, impelindo-a para começar imediatamente.




CAPÍTULO DOIS


Mackenzie sentiu um calafrio passar por ela enquanto Ellington os guiava pela Rota Estadual 47, se aprofundando no coração da Virgínia rural. Virgínia rural. Alguns milharais apareceram aqui e ali, quebrando a monotonia dos extensos campos e florestas. A quantidade de milharais não era páreo para o que ela estava acostumada no Nebraska, mas a vista deles ainda a deixava um pouco apreensiva.

Felizmente, quanto mais perto eles chegavam da cidade de Stateton, menos milharais ela via. Eles foram substituídos por acres de terra recém-nivelada que foram devastados por madeireiras locais. Fazendo pesquisas sobre a área durante a viagem de quatro horas e meia, ela viu o local onde havia um distribuidor de madeira bem grande na cidade vizinha. Quanto à cidade de Stateton, entretanto, havia o Lar para Cegos Wakeman, umas poucas lojas de antiguidade e quase mais nada.

"Esses arquivos do caso lhe dizem alguma coisa da qual eu ainda não esteja a par? É difícil ler o fluxo constante de e-mails daqui do banco do motorista."

"Nada na verdade," ela disse. "Parece que vamos ter que passar pelos mesmos procedimentos de sempre. Visitar as famílias, o lar para cegos, coisas do tipo."

"Visitar as famílias… deve ser fácil em uma cidadezinha consanguínea como essa, hein?!"

Ela ficou chocada a princípio, mas então deixou passar. Ela havia aprendido, após algumas semanas juntos como o que ela supôs que poderia ser considerado "um casal", que Ellington tinha um senso de humor relativamente ativo; contudo, poderia ser seco algumas vezes.

"Você já passou muito tempo em um lugar como esse?" perguntou Mackenzie.

“Acampamento de Verão,” disse Ellington. "É um pedaço dos meus anos de adolescente que eu realmente gostaria de esquecer? Era ruim desse jeito no Nebraska?"

"Não desse jeito, mas ficava desolado algumas vezes. Há momentos nos quais eu acho que eu prefiro a calma lá fora, em lugares como esse, mais do que eu gosto do tráfego abarrotado e das pessoas em lugares como DC."

"É, eu acho que posso entender isso."

Era divertido para Mackenzie conseguir conhecer Ellington melhor sem as armadilhas de um relacionamento tradicional de encontros. Mais do que aprender um sobre o outro em jantares chiques ou em longas caminhadas em um parque, eles iriam se conhecer durante viagens de carro e no tempo passado em escritórios do FBI ou em salas de conferência. E ela apreciava cada minuto disso. Algumas vezes ela se perguntava se algum dia ela ficaria cansada de conhecê-lo.

Até agora, ela não tinha certeza de que isso fosse possível.

Em frente, uma pequena placa ao lado da estrada lhes dava as boas vindas a Stateton, Virgínia. Uma estrada de duas pistas simples os levou através de mais árvores. Umas poucas casas e seus gramados quebraram a monotonia da floresta por cerca dois quilômetros, antes que algum sinal real de uma cidade predominasse. Eles passaram por um restaurante de copo sujo, uma barbearia, duas lojas de antiguidades, uma loja de suprimentos para fazenda, dois pequenos mercados, um posto dos correios e, então, depois de cerca de três quilômetros de tudo isso, uma construção de tijolos perfeitamente quadrada logo ao lado da rua principal. Uma placa de estilo bem militar logo na entrada dizia Departamento de Polícia e Instalações Carcerárias do Condado de Staunton.

"Já viu isso antes?" perguntou Ellington. “Uma delegacia e a cadeia do condado em um só prédio?"

"Algumas vezes no Nebraska," ela disse. "Acho que é muito comum em lugares como este. A prisão de verdade mais próxima de Stateton fica em Petersburg, que fica a aproximadamente cento e trinta quilômetros de distância, eu acho."

“Jesus, esse lugar é pequeno. Vamos conseguir terminar isso bem rápido."

Mackenzie assentiu enquanto Ellington virava na entrada e para o estacionamento da grande construção de tijolos que parecia estar literalmente no meio do nada,

O que ela estava pensando mais não disse era: eu só espero que você não tenha nos dado azar.


***

Mackenzie sentiu o cheiro de café preto e de alguma coisa parecida com Febreze quando entraram no pequeno saguão na frente do edifício. Parecia bastante agradável no interior, mas era um prédio antigo. Sua idade podia ser vista nas rachaduras do teto e na óbvia necessidade de um novo carpete no saguão. Uma mesa enorme ficava junto à parede dos fundos e, embora também parecesse ser tão velha como o restante do edifício, estava bem conservada.

Uma mulher mais velha se sentava atrás da mesa, folheando um grande fichário. Quando ela ouviu Mackenzie e Ellington entrarem, olhou para cima com um enorme sorriso. Era um belo sorriso, mas também mostrava a idade dela. Mackenzie supôs que ela estivesse atingindo os setenta.

"Vocês são os agentes do FBI?" perguntou a velha senhora.

"Sim, senhora," disse Mackenzie. "Eu sou a Agente White e esse é meu parceiro, o Agente Ellington. O xerife está por aí?"

"Ele está," ela disse. "De fato, ele me pediu para encaminhá-los diretamente para o escritório dele. Ele está bem ocupado fazendo ligações sobre a última horrível morte. Basta descer pelo corredor à esquerda de vocês. A sala dele é a última à direita."

Eles seguiram as direções dela e ao descerem o longo corredor que levava aos fundos do edifício, Mackenzie foi surpreendida pelo silêncio do lugar. No meio de um caso de assassinato, ela esperaria que o lugar estivesse repleto de atividade, mesmo estando no meio do nada.

Enquanto iam para o fundo do corredor, Mackenzie reparou alguns poucos avisos que foram postados nas paredes. Um dizia: Acesso a Prisão Requer Cartão. Em outro se lia: Todas as Visitas à Prisão Devem Ser Liberadas por Policiais do Condado! Aprovação Deve Ser Apresentada No Momento da Visita!

Sua mente começou a correr com pensamentos sobre a manutenção e regulamentos que deveriam ser instaurados para que uma prisão e um departamento de polícia compartilhassem o mesmo espaço. Era bem fascinante para ela. Mas antes que sua mente pudesse ir além, eles chegaram ao escritório nos fundos do corredor.

Letras douradas haviam sido pintadas na parte superior de vidro da porta, onde se lia Xerife Clarke. A porta estava parcialmente aberta, então Mackenzie a abriu devagar para o som de uma forte voz masculina. Quando ela espreitou dentro, viu um homem corpulento atrás de uma mesa, falando alto no telefone da mesa. Outro homem estava sentado em uma cadeira no canto, digitando furiosamente em seu celular.

O homem atrás da mesa—Xerife Clarke, Mackenzie presumiu—interrompeu-se ao telefone quando ela abriu a porta.

"Um minuto, Randall," ele disse. Ele cobriu o captador e olhou intermitentemente entre Mackenzie e Ellington.

"Vocês são do FBI?" ele perguntou.

"Nós somos," disse Ellington.

"Graças a Deus," ele suspirou. "Dê-me um segundo." Ele então descobriu o captador do telefone e continuou com sua outra conversa. "Olhe, Randall, a cavalaria acabou de chegar. Você estará disponível em quinze minutos? Sim? Ok, ótimo. Vejo você então."

O homem corpulento desligou o telefone e veio ao redor da mesa. Ele ofereceu a mão carnuda a eles, aproximando-se primeiro de Ellington. "Prazer em conhecê-los," ele disse. "Sou o Xerife Robert Clarke. Esse," ele disse indicando com a cabeça o homem sentado no canto, "é o Policial Keith Lambert. Neste momento, meu delegado está fora patrulhando as ruas, fazendo o melhor para encontrar algum tipo de pista nesse crescente desastre."

Ele quase se esqueceu de Mackenzie quando terminou de apertar a mão de Ellington, oferecendo outro aperto de mão para ela quase como uma consideração posterior. Quando apertou a mão dele, ela fez as introduções, esperando que o atentaria para o fato de que ela era tão capaz de liderar essa investigação quanto os homens na sala. Instantaneamente, velhos fantasmas do Nebraska começaram a agitar as correntes na cabeça dela.

"Xerife Clarke, eu sou a Agente White e esse é o Agente Ellington. Você será nosso contato aqui em Stateton?"

“Querida, eu vou ser quase tudo de vocês enquanto estiverem aqui," ele disse. "A força policial de todo o condado reúne colossais doze pessoas. Treze se você contar a Frances lá na recepção e no despacho. Com essa matança acontecendo, estamos bem esparsos."

"Bom, vamos ver o que podemos fazer para aliviar o seu fardo," disse Mackenzie.

"Quem me dera que fosse fácil assim," ele disse. "Mesmo se resolvermos esta maldita coisa hoje, eu vou ter metade do conselho de supervisores do condado no meu rabo."

"Por que isso?" perguntou Ellington.

"Bem, os jornais locais acabaram de tomar conhecimento da identidade da vítima. Ellis Ridgeway. A mãe de um emergente político nojento e babaca. Alguns dizem que ele pode conseguir chegar ao senado dentro de mais cinco anos."

"E quem é esse?" perguntou Mackenzie.

“Langston Ridgeway. Vinte e oito anos de idade e acha que é a merda do John Kennedy."

“Sério?” Disse Mackenzie, um pouco surpresa que isso não tenha sido incluído nos relatórios.

“Sim. Como o jornal local conseguiu essa informação está além de mim. Os idiotas não conseguem soletrar direito metade do tempo, mas isso eles conseguem."

"Eu vi as placas do Lar para Cegos Wakeman no caminho para cá," disse Mackenzie. "Fica apenas a nove quilômetros daqui, correto?"

"Cem por cento," disse Clarke. "Eu acabei de falar com Randall Jones, o gerente de lá. Era com quem eu estava no telefone quando vocês entraram. Ele está por lá agora para responder quaisquer perguntas que vocês tenham. E quanto antes melhor. A mídia e alguns mandachuvas do condado estão ligando para ele e o importunando.”

"Bem, vamos até lá," disse Mackenzie. "Você vai com a gente?"

“De jeito nenhum, querida. Estou atolado por aqui. Mas, por favor, volte quando terminarem com Randall. Eu vou ajudá-los da forma que eu puder, mas, realmente… eu adoraria passar essa bola para vocês.”

"Sem problema," disse Mackenzie. Ela não sabia ao certo como lidar com Clarke. Ele era honesto e sem rodeios, o que era bom. Ele também parecia adorar soltar palavrões. Ela também pensou que quando ele a chamou de querida, ele não estava sendo ofensivo. Era aquele estranho tipo de charme sulista.

Além disso, o homem estava estressado além da conta.

"Nós voltaremos direto para cá quando terminamos no lar," disse Mackenzie. "Por favor, nos ligue se você souber de algo novo até lá."

"É claro," afirmou Clarke.

No canto, ainda digitando no telefone, o Policial Lambert grunhiu em acordo.

Tendo gasto menos de três minutos no escritório do Xerife Clarke, Mackenzie e Ellington andaram de volta pelo corredor e saíram pelo saguão. A mulher mais velha, que Mackenzie assumiu ser a Frances que Clarke mencionara, acenou-lhes vivamente enquanto eles saíam.

"Bem, isso foi… interessante," disse Ellington.

"O cara está sobrecarregado até a cabeça," ela disse. "Dê uma folga a ele."

"Você só gosta dele, porque ele te chama de querida," disse Ellington.

"E?" ela disse com um sorriso.

"Ei, eu posso começar a chamar você de querida."

"Por favor, não," ela disse ao entrarem no carro.

Ellington os conduziu por meio quilômetro até a Rodovia 47 e então pegou a esquerda na estrada de volta. Logo de cara, viram uma placa indicando o Lar para Cegos Wakeman. Ao se aproximarem da propriedade, Mackenzie começou a imaginar porque alguém teria escolhido um lugar tão aleatório e isolado como local de um lar para cegos. Certamente, havia algum tipo de significado psicológico por trás disso. Talvez estar localizado no meio do nada os ajudasse a relaxar, removidos dos zumbidos de uma grande cidade.

Tudo o que ela sabia com certeza era que, enquanto as árvores ficavam mais espessas ao redor deles, ela começava a se sentir mais sufocada do resto do mundo. E pela primeira vez em um logo período, quase ansiou pela familiar vista daqueles milharais da sua juventude.




CAPÍTULO TRÊS


O Lar para Cegos Wakeman não parecia nada com o que Mackenzie estava esperando. Em contraste com o Departamento de Polícia e Instalações Carcerárias do Condado de Staunton, o Lar para Cegos Wakeman parecia com uma maravilha moderna do design e da construção—e essa era a vista que Mackenzie tinha antes mesmo de entrar.

A frente do lugar era composta de grandes janelas de vidro que pareciam formar a maior parte das paredes. Na metade da calçada até a entrada, Mackenzie já conseguia ver o interior. Ela viu um amplo saguão que se assemelhava com algo saído direto de algum tipo de spa. Era amigável e convidativo.

Era uma sensação que apenas se intensificou uma vez que entraram. Tudo era muito limpo e parecia novo. Na pesquisa que ela havia feito a caminho de Stateton, ela descobriu que o Lar para Cegos Wakeman fora construído apenas em 2007. Quando foi construído, houve uma ligeira comemoração no Condado de Staunton, já que trouxe novos postos de trabalho e comércio. Agora, no entanto, enquanto ainda era um dos edifícios mais proeminentes do condado, a excitação havia morrido e o lar parecia ter sido engolido pelo seu entorno rural.

Uma jovem mulher sentava-se atrás de um balcão curvo ao longo da parede do fundo. Ela os cumprimentou com um sorriso, mas evidente que estava perturbada. Mackenzie e Ellington se aproximaram, se apresentaram e foi-lhes solicitado que se tomassem um assento na área de espera enquanto Randall Jones saía para encontrá-los.

Como se viu, Randall Jones estava muito ansioso para conhecê-los. Mackenzie ficou sentada por não mais que dez segundos antes que um conjunto de portas duplas que levavam aos fundos do edifício se abrissem no outro lado da sala de espera. Um homem alto, vestindo uma camisa social e calças cáqui as atravessou. Ele tentou um sorriso enquanto se apresentava, mas, assim como a recepcionista, não conseguia esconder o fato de que ele estava cansado e muito conturbado.

"Eu estou feliz que vocês estejam aqui tão cedo," disse Jones. "Quanto mais cedo conseguirmos finalizar isso, melhor. As fofocas dessa pequena cidade estão em fogo com isso."

"Nós também gostaríamos de derrubar isso o quanto antes," disse Mackenzie. "Você sabe exatamente onde o corpo foi encontrado?"

"Sim. é um jardim de rosas a cerca de oitocentos metros daqui. Originalmente, seria o local para o Wakeman, mas alguma estranha regulação de zoneamento do condado atrapalhou tudo."

"Você poderia nos levar até lá?" perguntou Mackenzie.

“Claro. Tudo o que vocês precisarem. Venham comigo."

Jones os levou através das portas duplas que ele havia atravessado. No outro lado, havia uma pequena alcova que levava diretamente para o lar. As primeiras portas pelas quais passaram eram escritórios e espaços de depósito. Estas eram separadas dos quartos do residentes por uma área aberta de escritório onde um homem e uma mulher estavam sentados atrás de um espaço de balcão bem parecido com uma ala hospitalar.

Ao passarem pelos quartos, Mackenzie espreitou dentro de um que estava aberto. Os quartos eram bastante espaçosos e eram enfeitados com uma bela mobília. Ela também viu notebooks e tablets em alguns dos quartos.

Apesar de estar localizado no meio do nada, aparentemente não havia uma escassez de fundos para manter o lugar funcionando, ela pensou.

"Quantos residentes vivem aqui?" perguntou Mackenzie.

"Vinte e seis," ele disse. "E eles vêm de todos os lugares. Nós temos um senhor mais velho que veio da Califórnia, por causa do serviço excepcional e da qualidade de vida que nós podemos proporcionar."

"Perdoe-me caso seja uma pergunta ignorante," disse Mackenzie, "mas que tipo de coisas eles fazem?"

"Bem, nós temos aulas que cobrem uma grande variedade de interesses. A maioria tem que ser especializada para atender as necessidades deles, é claro. Nós temos aulas de culinária, programas de exercício, clube de jogos de tabuleiro, clubes de trívia, aulas de jardinagem, artesanato, coisas do tipo. Também, algumas vezes por ano, organizamos passeios para permitir-lhes fazer trilhas ou nadar. Ainda temos duas almas corajosas que são levadas para canoagem sempre que saímos."

Ouvir tudo isso fez Mackenzie se sentir insensível, mas também feliz. Ela não tinha ideia de que pessoas que eram completamente cegas poderiam se tornar adeptas a coisas como canoagem e natação.

Próximo ao fim do corredor, Jones os levou a um elevador. Quando entraram e desceram, Jones se escorou na parede, claramente exausto.

"Sr. Jones," disse Mackenzie, "você tem alguma ideia de como os jornais da região já tenham descoberto sobre o assassinato?"

"Não faço ideia," ele disse. "Essa é uma das razões para eu estar tão cansado. Eu estive interrogando minha equipe extensivamente. Mas todos estão limpo. Certamente, há um vazamento, mas eu não tenho noção de onde ele esteja vindo."

Mackenzie assentiu. Não é muito de se preocupar, ela pensou. Um vazamento em uma cidade pequena como essa é quase certo. No entanto, isso deve ficar no caminho da investigação.

O elevador parou e os deixou em um pequeno tipo de porão com acabamento. Algumas cadeiras estavam espalhadas aqui e ali, mas Jones os levou para uma porta logo a frente deles. Eles saíram e Mackenzie se viu atrás do edifício, de frente para um estacionamento para funcionários.

Randall os levou até o carro dele e quando entraram, ele não perdeu tempo para ligar o ar condicionado. O interior do carro era como uma fornalha, mas o ar condicionado logo começou seu trabalho.

"Como a Sra. Ridgeway chegou ao jardim?" perguntou Ellington.

"Bem, considerando que estamos no meio do nada, nós permitimos aos nossos residentes certa liberdade. Nós temos um toque de recolher às nove horas durante o verão—o qual cai para as seis horas no outono e no inverno, quando escurece mais cedo. O jardim de rosas para o qual nos dirigimos é um local que alguns dos residentes vão apenas para dar uma volta. Como vocês irão perceber, é uma caminhada rápida sem qualquer perigo."

Randall os levou para fora do estacionamento e virou na estrada. Ele se deslocou para na direção oposta do departamento de polícia, revelando um novo seguimento da estrada para Mackenzie e Ellington.

A estrada era uma reta que se afastava para mais distante, de volta para a floresta. Mas dentro de trinta segundos, Mackenzie foi capaz de ver os pequenos portões de ferro fundido que limitavam o jardim de rosas. Randall estacionou em uma pequena faixa de estacionamento, no qual havia apenas três outros carros parados, um dos quais era uma viatura policial abandonada.

“O Xerife Clarke e seus homens estiveram por aqui a maior parte da noite passada e cedo nessa manhã," Randall disse. "Quando ele ouviu que vocês estavam vindo, ele a abandonou. Ele realmente não quer atrapalhar, sabem?"

"Nós certamente apreciamos isso," disse Mackenzie, saindo do veículo de volta para o calor sufocante.

"Nós sabemos de fato que esse foi o último lugar que Ellis Ridgeway visitou," disse Randall. "Ela passou por outros dois residentes a caminho da saída, assim como por mim. Provas adicionais disso podem ser vistas nas câmeras de segurança no lar. Ela estava muito distraída indo nessa direção—e todos no lar sabem que ela gosta de dar passeios tarde da noite por aqui. Ela o fazia pelo menos quatro ou cinco vezes na maioria das semanas."

"E ninguém mais estava aqui com ela?" perguntou Mackenzie.

"Ninguém do lar. Honestamente, não são muitas pessoas que vêm aqui na metade mórbida do verão. Eu não sei se vocês repararam que nós estamos no meio de um período quente bem árduo."

Ao se aproximarem do lado leste do jardim, Mackenzie foi quase arrebatada com os aromas. Ela pegou uma lufada de rosas, hortênsias e do que acreditou ser lavandas. Ela supôs que deveria ser uma boa escapada para os cegos─ uma forma de realmente desfrutar dos outros sentidos.

Quando chegaram a uma dobra na trilha que curvava ao longe, de volta para o leste, Jones se virou e apontou para trás deles. "Se vocês olharem através daquele espaço nas árvore no outro lado da estrada, vocês podem ver a lateral do Wakeman," ele disse tristemente. “Ela estava bem perto de nós quando morreu."

Então ele saiu da calçada e se esgueirou por dois grandes vasos de plantas contendo rosas vermelhas. Mackenzie e Ellington o seguiram. Eles chegaram a um portão dos fundos que esteve quase escondido por todas as flores, árvores e vegetação. Havia um espaço de cerca de um metro e trinta centímetros que estava vazio, a não ser por alguma grama dispersa.

Ao atravessarem, ela pode perceber instantaneamente como parecia um lugar perfeito para um assassino obstinado atacar. Randall Jones o disse ele mesmo─ninguém vem muito até aqui quando está tão quente. O assassino certamente sabia disso e usou ao seu favor.

"Aqui é onde eu a encontrei," disse Jones, apontando para o espaço vazio entre os dois grandes vasos e os portões de ferro fundido. "Ela estava deitada de bruços e curvada como em forma de 'U'."

“Você a encontrou?” perguntou Ellington.

"Sim. Aproximadamente às nove e quarenta e cinco da noite. No momento em que ela não retornou para o recolhimento obrigatório, eu comecei a me preocupar. Depois de meia hora, achei que eu deveria vir verificar se ela havia caído ou entrado em pânico ou algo assim."

“Todas as roupas dela estavam no lugar?" perguntou Mackenzie.

"Tanto quanto eu poderia dizer," disse Randall, claramente surpreso pela pergunta. "No momento, eu não estava realmente pensando dessa maneira."

"E não há absolutamente qualquer coisa naquelas imagens de vídeo no lar?" perguntou Ellington. “Ninguém a seguindo?”

“Ninguém. Vocês estão convidados para olhar as imagens por si quando voltarmos."

Enquanto eles retornavam pelo jardim, Ellington levantou uma questão que estava fermentando na cabeça de Mackenzie. "O lar parece bem quieto hoje. Por quê?”

"Eu acho que você chamaria isso de luto. Nós temos uma comunidade muito unida no Wakeman e Ellis era muito querida. Por todo o dia, pouquíssimos dos nossos residentes saíram dos quartos. Nós também fizemos um anúncio pelo sistema de som de que teríamos agentes de DC vindo investigar o assassinato de Ellis. Desde então, quase ninguém saiu dos quartos. Eu acho que eles estão assustados… com medo."

Isso, mais o fato de ninguém tê-la seguido para fora do lar, eliminam que algum residente seja o assassino, pensou Mackenzie. O parco arquivo sobre a primeira vítima declarava que o assassinato ocorreu entre onze horas e meia noite… e a uma boa distância de Stateton.

"De alguma forma seria possível que nós falássemos com alguns de seus residentes?" perguntou Mackenzie.

"Está absolutamente tranquilo por mim," disse Jones. "É claro, se eles estiverem desconfortáveis com isso, eu terei que pedi-los para parar."

"É claro. Acho que eu poderia—"

Ela foi interrompida pelo toque do celular dela. Ela verificou e viu no visor que não era um número familiar.

"Um segundo," ela disse atendendo a chamada. Ela se afastou de Jones e respondeu: "Aqui é a Agente White."

“Agente White, é o Xerife Clarke. Olha, eu sei que vocês acabaram de sair daqui, mas eu realmente apreciaria se vocês se apressarem de volta para cá o quanto antes."

“Certamente. Está tudo ok?"

“Já esteve melhor," ele disse. "Eu acabo de receber essa irritante perda de espaço que é o Langston Ridgeway por aqui. Ele exigiu falar com vocês sobre o caso da mãe dele e ele está começando a fazer uma cena."

Mesmo no meio do mato você não pode escapar da política, pensou Mackenzie.

Irritada, ela fez o melhor para responder de maneira profissional. “Dê-nos cerca de dez minutos," ela disse e desligou.

"Sr. Jones, nós teremos que voltar para o xerife por agora," ela disse. "Você poderia preparar aquelas filmagens de segurança para nós, quando voltarmos?"

"É claro," disse Randall, os guiando de volta para o carro dele.

"E enquanto isso," acrescentou Mackenzie, "eu gostaria de uma lista de qualquer um sobre o qual você tenha a menor suspeita. Eu falando de funcionários e de outros residentes. Pessoas que saberiam o alcance a câmera de segurança no jardim."

Jones assentiu sombriamente. O olhar em seu rosto dizia a Mackenzie que era algo que ele próprio havia considerado, mas não se atreveu a colocar muita fé. Com aquela mesma expressão no rosto, ele deu partida no carro e os levou de volta para o Wakeman. Ao longo do caminho, Mackenzie notou novamente o silêncio da pequena cidade─não tranquila, mas mais como a calmaria antes de uma tempestade.




CAPÍTULO QUATRO


O primeiro pensamento que brotou na cabeça de Mackenzie quando ela viu Langston Ridgeway foi que ele parecia um louva-deus. Ele era alto e magro e movia os braços como estranhas pequenas pinças quando falava. O fato dos seus olhos estarem enormes de fúria enquanto gritava com todos que tentavam conversar com ele não ajudava.

O Xerife Clarke os guiou à pequena sala de conferências no fim do corredor─uma sala que não era muito maior que seu escritório. Lá, com as portas fechadas, Langston Ridgeway ficou tão alto quanto podia enquanto Mackenzie e Ellington aturavam sua ira.

"Minha mãe está morta, se foi," ele lamentou, "e eu estou inclinado a culpar a incompetência dos funcionários do maldito lar. E já que esse deplorável xerife se recusa a me deixar falar com Randall Jones pessoalmente, eu gostaria de saber o que vocês dois capangas do FBI tem intenção de fazer sobre isso.”

Mackenzie hesitou um segundo antes de responder. Ela estava tentando medir o nível de luto dele. Da forma que ele estava se comportando, era difícil dizer se sua ira era uma expressão de sua perda ou se ele realmente era apenas um homem atroz que gostava de gritar ordens para os outros. Até então, ela não conseguia dizer.

"Muito francamente," disse Mackenzie, "eu concordo com o xerife. Agora você está com raiva e machucado e parece que você está procurando passar a culpa. Sinto muito pela sua perda. Mas a pior coisa que você poderia fazer agora é confrontar o gerente do lar."

“Culpa?” Ridgeway perguntou, claramente não acostumado com as pessoas não se curvarem e concordarem com ele imediatamente. “Se aquele lugar é responsável pelo que aconteceu com minha mãe, então eu—”

“Nós já visitamos o lar e conversamos com Sr. Jones," disse Mackenzie o cortando. “Eu posso garanti-lo que o que aconteceu com sua mãe foi influência de fontes externas. E se forem internas, então certamente o Sr. Jones sabe nada sobre elas. Eu posso dizer tudo isso com absoluta confiança."

Mackenzie não tinha certeza se o olhar de choque que veio sobre o rosto de Ridgeway foi o resultado de seu desacordo com ele ou porque ela havia o interrompido.

“E você entendeu tudo isso com aquela única conversa?" ele perguntou, claramente cético.

"Sim," ela disse. “Obviamente, essa investigação ainda está muito nova, então eu não posso estar certa de coisa alguma. O que eu posso dizer a você é que é muito difícil conduzir uma investigação quando eu recebo chamadas que acabam me fazendo ter que deixar a cena de um crime apenas para escutar pessoas gritarem e reclamarem."

Ela quase podia sentir a fúria saindo dele agora. “Eu perdi minha mãe," ele disse, cada palavra como um suspiro. “Eu quero respostas. Eu quero justiça."

“Ótimo," disse Ellington. "Nós queremos a mesma coisa."

"Mas para conseguirmos," disse Mackenzie, "você precisa nos deixar trabalhar. Eu entendo que você possui influência por aqui, mas francamente, eu não ligo. Nós temos um trabalho a fazer e não podemos deixar sua raiva, luto ou arrogância ficarem no caminho."

Durante a conversa inteira, Xerife Clarke sentava-se à pequena mesa de conferências. Ele estava fazendo o seu melhor para conter um sorriso.

Ridgeway ficou quieto por um momento. Ele ia e voltava com o olhar entre os agentes e o Xerife Clarke. Ele assentiu e quando uma lágrima escorreu pela lateral de seu rosto, Mackenzie pensou que ela pudesse ser real. Mas também ainda conseguia ver a raiva nos olhos dele, logo ali na superfície.

"Tenho certeza que você está acostumado a distribuir ordens para policiais de cidadezinhas, para suspeitos e para sei lá mais quem," Langston Ridgeway disse. “Mas deixe-me dizer isso a você… se você deixar a bola cair nesse caso ou, por qualquer motivo, me desrespeitar de novo, eu farei uma ligação para DC. Eu vou falar com seu supervisor e vou enterrar você."

A parte triste é que ele acha que é completamente capaz de tal coisa, Mackenzie pensou. E talvez ele seja. Mas com certeza eu adoraria ser uma mosca na parede quando alguém como Langston Ridgeway começa a latir para McGrath.

Ao invés de agravar a situação, Mackenzie decidiu permanecer calada. Ela deu uma olhada para o lado e viu que Ellington estava abrindo e fechando o punho… um pequeno artifício ao qual ele recorria sempre que estava à beira de ficar irracionalmente nervoso.

No fim, Mackenzie disse, "Se você nos deixar fazer nosso trabalho sem obstáculos, não chegará a isso."

Estava claro que Ridgeway estava procurando por algo mais para dizer. Tudo o que ele pode elaborar foi um abafado hunf. Ele seguiu isso se afastando rapidamente e deixando a sala. O que muito lembrou Mackenzie de uma criança no meio de uma birra.

Após alguns segundos, Xerife Clarke inclinou-se para frente com um suspiro. “E agora vocês veem com o que eu venho lidando. Aquele garoto acha que o sol nasce e se põe ao redor do seu rabo mimado. E ele pode continuar falando sobre ter perdido a mãe o quanto ele quiser. Tudo com o que ele se preocupa é a mídia em grandes cidades descobrindo que ele a despejou em um lar… mesmo que seja um bem agradável. Ele se preocupa com a própria imagem mais do que qualquer outra coisa."

“Sim, eu tive essa mesma sensação," disse Ellington.

"Você acha que podemos esperar alguma outra interferência dele?" perguntou Mackenzie.

"Eu não sei. Ele é imprevisível. Ele fará tudo o que ele achar que possa melhorar suas chances de conseguir atenção pública, a qual depois se tornará votos para qualquer horizonte maldito que ele almeja."

"Então certo, Xerife," disse Mackenzie, "se você tem alguns minutos, porque não nos sentamos e repassamos o que sabemos?"

"Não vai demorar muito," ele disse. “Porque não há muito mesmo.”

"É melhor que nada," disse Ellington.

Clarke assentiu e ficou de pé. “Vamos de volta para meu escritório, então," ele disse.

Enquanto caminhavam pelo pequeno corredor, ambos Mackenzie e Ellington deram um sobressalto quando Clarke berrou, "Ei, Frances! Passe uma garrafa de café, você poderia, querida?"

Mackenzie e Ellington trocaram um olhar perplexo. Ela estava começando a ter uma sensação muito boa sobre o Xerife Clarke e a maneira que ele conduzia as coisas. E, embora eles possam ser um pouco rústicos, ela estava descobrindo que gostava um pouco dele—linguagem suja e sexismo não intencional à parte.

Com a noite avançando, Mackenzie e Ellington se aconchegaram ao redor da mesa de Clarke e repassaram o material existente no caso.




CAPÍTULO CINCO


Logo antes de Frances trazer o café, o Policial Lambert retornou. Agora que ele não estava digitando no telefone, Mackenzie viu que ele era um homem jovem, no início dos seus trinta. Ela achou estranho que um policial estivesse servindo como mão direita de Clarke, ao invés de um delegado, mas não deu muita atenção a isso.

Cidade pequena, ela pensou.

Os quatro se sentaram ao redor da mesa de Clarke repassando o material. Clarke parecia estar mais do que feliz em deixar Mackenzie conduzir. Ela estava feliz em ver que ele parecia estar se recuperando rapidamente… aceitando-a mais como um igual.

"Então vamos começar com o mais recente," ela disse. “Ellis Ridgeway. Cinquenta e sete anos de idade. Como eu estou começando a aprender, ela tem um filho muito arrogante e cheio de si. Fora o fato de ela ser obviamente cega, o que mais vocês podem me dizer sobre ela?"

"Isso é tudo, realmente," disse Clarke. "Ela era uma senhora doce. Pelo que posso concluir, todos no lar a adoravam. O que me assusta em toda essa situação é que o assassino tem que ser familiar para ela, certo? Ele tinha que saber que ela havia deixado a casa para atingi-la dessa forma".

"Meu cérebro também queria ir nessa direção," disse Mackenzie. "Mas se essas mortes estiverem conectadas─e certamente parece que estão─isso significa que para alguém local que a conheça o tenha feito, haveria muita viagem envolvida. A outra morte foi o que… duas horas e meia de distância?"

"Quase três," disse Clarke.

"Exatamente", disse Mackenzie. "Sabe, eu até imaginei por um momento que pudesse ter sido outro residente, mas eu fui informado com boa autoridade por Randall Jones que ninguém a seguiu ontem. Aparentemente, há provas em vídeo sobre isso, as quais nós ainda não vimos graças à interferência de Langston Ridgeway. E a respeito dos residentes ou funcionários deixarem o lar quando Sra. Ridgeway estava ausente, não há evidência para embasar outra pessoa saindo durante esse tempo─nem residentes, nem empregados, ninguém."

"E então, voltando para aquele primeiro assassinato," disse Ellington, "nós precisaremos ir conversar com os membros da família em breve. O que você pode nos dizer sobre a primeira vítima, Xerife?"

"Bem, foi em outro lar para cegos," ele disse. "E tudo o que eu sei sobre isso está naquele arquivo que você tem, tenho certeza. Como eu disse, fica há quase três horas daqui, quase em West Virgínia. Um lugar precário pelo que pude reunir. Não é realmente um lar, mais similar a uma escola, eu acho."

Ele deslizou uma folha de papel para ela e ela viu o breve relatório policial da primeira cena. Foi em uma cidade chamada Treston, a cerca de vinte e cinco milhas de Bluefield, West Virgínia. Kenneth Able de trinta e oito anos foi estrangulado até a morte. Havia sinais de abrasão ao redor dos olhos. O corpo foi descoberto escondido no armário do quarto no qual ele ficava a maior parte do tempo dentro do lar.

Os fatos eram muito robóticos, sem detalhes. Mesmo havendo observações sobre a investigação estar em andamento, Mackenzie duvidou que fosse algo sério.

Aposto que agora está, no entanto, ela pensou.

Essa nova morte foi muito explícita para negar. As vítimas eram muito semelhantes, bem como eram os sinais de agressão nos corpos.

"Eu pedi a Randall Jones para compilar uma lista de empregados ou de outros associados com o lar que pudessem ser, mesmo levemente, possíveis suspeitos," disse Mackenzie. "Eu acho que nossa próxima melhor aposta é falar com esse lugar em Treston para ver se há alguma ligação."

"A desvantagem aqui é que Treston fica longe para caramba," apontou Ellington. "Mesmo se isto acabar por ser moleza, vai haver algumas viagens envolvidas. Parece que nós não conseguiremos ter tudo ajeitado tão rapidamente quanto o ilustre Sr. Ridgeway gostaria."

"Quando o trabalho de perícia completa será feito na Sra. Ridgeway?" perguntou Mackenzie.

"Estou esperando ouvir algo em poucas horas," disse Clarke. "Porém, uma investigação preliminar mostrou nada óbvio. Sem digitais, sem cabelos visíveis ou outros materiais deixados para trás.”

Mackenzie assentiu e olhou de volta para os arquivos do caso. Quando ela havia acabado de começar a explorá-los propriamente, seu telefone tocou. Ela o abriu e respondeu: "Agente White."

“Randall Jones falando. Eu tenho uma lista de nomes para vocês, como você pediu. É curta e eu estou bem certo de que todos eles estão limpos."

"Quem são eles?"

"Há um cara da equipe de manutenção que não é muito confiável. Ele trabalhou o dia todo ontem, saindo logo depois das cinco. Eu perguntei por aí e ninguém o viu retornar. Há outro cara que trabalha para uma loja especial de serviços sociais. Ele vem e joga jogos de tabuleiro às vezes. Meio que vem e brinca com eles. Ele faz algumas coisas voluntariamente como serviços de limpeza ou mudar os móveis de lugar de tempos em tempos."

"Você pode me enviar por mensagem os nomes e qualquer informação de contato que você tenha?"

"Certo," disse Jones, claramente infeliz por considerar algum dos homens como suspeitos.

Mackenzie terminou a chamada e olhou de volta para os três homens na sala. "Era Jones com dois possíveis candidatos. Um trabalhador de manutenção e alguém que vai como voluntário e passa um tempo com os residentes. Xerife, ele vai me enviar os nomes por mensagem a qualquer momento. Você poderia dar uma olhada neles e─"

O telefone dela tocou ao receber a mensagem em questão. Ela mostrou os nomes ao Xerife Clarke e ele deu de ombros, derrotado.

"O primeiro nome, Mike Crews, é o cara da manutenção," ele disse. “Eu sei como fato que ele não estava matando ninguém depois do serviço na noite passada, porque eu tomei uma cerveja com ele no Rock's Bar. Isso foi depois que ele foi até a casa da Mildred Cann para consertar o ar condicionado dela de graça; Eu já posso dizer a vocês que Mike Crews não é o seu cara."

"E sobre o segundo nome?" perguntou Ellington.

"Robbie Huston," ele disse. "Eu só o vi de passagem. Estou bem certo que ele é enviado por algum tipo de loja de serviços sociais fora de Lynchburg. Mas pelo que eu entendo, ele é como um santo no lar. Lê para os residentes, é bem amigável. Como eu disse, ele está fora de Lynchburg. Fica a cerca de uma hora e meia de distância daqui─bem no caminho para Treston, de fato."

Mackenzie olhou de volta para a mensagem de Jones e salvou o número que ele havia fornecido para Robbie Huston. No melhor dos casos era uma pista frágil, mas pelo menos era alguma coisa.

Ela olhou para seu relógio e viu que era perto das seis horas. "Quando seu delegado e outros policiais vão reportar?" ela perguntou.

“Muito em breve. Mas ainda ninguém ligou com qualquer coisa. Eu os manterei atualizados se vocês quiserem sair e recolher seus pertences."

"Parece bom para mim," disse Mackenzie.

Ela pegou os arquivos do caso enquanto ficou de pé. "Obrigado por sua ajuda esta tarde," disse Mackenzie.

"É claro. Eu só queria oferecer mais assistência. Se vocês quiserem, posso chamar a Polícia Estadual até aqui para ajudar. Eles estiveram aqui nessa manhã, mas se espalharam bem rápido. Eu acho que pode haver alguns deles ficando aqui na cidade por um dia ou dois."

"Se chegar a esse ponto, eu te aviso" disse Mackenzie. "Boa noite, senhores."

Com isso, ela e Ellington saíram. O saguão da frente estava vazio agora, Frances tendo terminado o dia.

No estacionamento, Ellington hesitou por um momento ao tirar as chaves. "Hotel ou uma viagem a Lynchburg?" ele perguntou.

Ela pensou sobre isso e, apesar da forte tentação em continuar a investigação mesmo tarde da noite, sentiu que tentar entrar em contato com Robbie Huston pelo telefone produziria os mesmos resultados que uma viagem até Lynchburg. Mais do que isso, ela já estava começando a acreditar que o Xerife Clarke sabia o que ele estava fazendo─e se ele não possuía ressalvas sobre Huston, então ela confiaria nisso por enquanto. Era uma das melhores coisas em trabalhar em um caso em uma cidade pequena─quando todos se conheciam quase intimamente, as opiniões e instintos da polícia local podiam frequentemente ser bem confiáveis.

Ainda continuará válido ligar para ele quando acomodarmos, ela pensou.

“Hotel," ela disse. "Se eu não puder conseguir o que quero ligando para ele essa noite, nós paramos em Lynchburg amanhã."

"No caminho para Treston? Parece ser uma longa viagem."

Ela assentiu. Iria ser um monte de idas e vindas. Eles poderiam ter mais sucesso se eles se separassem amanhã. Mas eles poderiam discutir estratégia depois de dar entrada em um quarto com os arquivos dos casos em frente a eles e um ar condicionado explodindo ao lado deles.

Nem uma vez, pela atração da luxúria, a ideia de um condicionado nesse calor opressivo era muito boa para resistir. Eles entraram no carro ardendo em chamas, Ellington desceu as janelas e eles foram para oeste, para o que servia como o coração de Stateton.


***

O único motel de Stateton era um surpreendentemente bem cuidado quadradinho de construção chamado Pousada do Condado de Staunton. Continha doze quartos, nove dos quais estavam vagos quando Mackenzie entrou no saguão e solicitou um quarto para a noite. Agora que McGrath sabia sobre a relação dos dois, ela e Ellington não precisavam mais se preocupar sobre alugar dois quartos apenas para manterem as aparências. Eles reservaram um único quarto com uma só cama, após um dia estressante de dirigir no calor, fizeram bom uso dele assim que a porta fechou atrás deles.

Afinal, ao tomar banho, Mackenzie não podia deixar de apreciar o sentimento caloroso de ser desejada. Era mais que isso, porém; o fato de que eles haviam começado a tirar as roupas no momento em que ficaram sozinhos e de que eles tinham acesso a uma cama a fizeram sentir dez anos mais jovem. Era uma boa sensação, mas uma que ela tentava manter sob controle duramente. Sim, ela estava curtindo as coisas com Ellington e seja lá o que estivesse acontecendo entre eles era uma das coisas mais animadoras e promissoras que aconteceram a ela nós últimos anos, mas ela também sabia que se não fosse cuidadosa, poderia deixar isso interferir com seu trabalho.

Ela sentia que ele também sabia disso. Ele estava arriscando as mesmas coisas que ela: reputação, zombaria e desgosto. Embora ultimamente ela não estivesse certa que ele também estava preocupado com ter o coração partido. Ao conhecê-lo melhor, ela estava bem segura de que Ellington não era o tipo de cara que dormia por aí ou tratava mal as mulheres, mas ela também sabia que ela acabara de sair de um casamento frustrado e estava sendo muito cauteloso sobre o relacionamento deles─se este fosse o nome que estavam escolhendo chamar.

Ela estava ficando com a sensação de que Ellington não ficaria muito abalado se as coisas entre eles terminassem. Conquanto para ela… bem, ela não tinha certeza de como encararia isso.

Enquanto ela saia do banho e se secava, Ellington estava ali, no banheiro. Parecia que ele havia planejado se juntar a ela no banho, mas havia acabado de perder a chance. Ele estava dando um olhar para ela que mantinha um pouco da sua malícia usual, mas também algo concreto e estóico─algo que ela veio a pensar como a sua "expressão de trabalho."

"Sim?" ela perguntou divertidamente.

"Amanhã… eu não quero fazer isso, mas talvez nós devêssemos nos separar. Um de nós vai até Treston enquanto o outro fica aqui e trabalha com a Polícia local e o médico legista."

Ela sorriu, percebendo quão sincronizados eles poderiam ficar de tempos em tempos. "Eu estava pensando a mesma coisa."

"Você tem alguma preferência?" ele perguntou.

"Na verdade não. Eu vou pegar Lynchburg e Treston. Eu não me importo em dirigir."

Ela achou que ele iria discutir, querendo pegar o tempo na estrada. Ela achava que ele particularmente não gostava de dirigir, mas ele também não gostava da ideia de ficar na estrada sozinho.

"Parece bom," ele disse. "Se nós pudermos fechar o dia com novas informações sobre o lar em Treston com qualquer informação que conseguirmos do legista por aqui, talvez consigamos amarrar esse negócio rapidamente, como todos estão esperando.”

"Parece ótimo," ela disse. Ela plantou um beijo na boca dele ao passar.

Um pensamento cruzou a cabeça dela ao voltar para o quarto, um que a fez sentir quase doente de amor, mas que não poderia ser negado.

E se ele não se sentir por mim da mesma maneira como eu me sinto por ele?

Ele parecia ligeiramente distante na última semana ou duas, e enquanto ele tenha feito o seu melhor para esconder dela, ela observou isso aqui e ali.

Talvez ele perceba como isso pode afetar nosso trabalho.

Era uma boa razão─uma razão na qual ela também pensava frequentemente. Mas ela não poderia se preocupar com isso agora. Com o relatório do legista sendo entregue a qualquer momento, este caso tinha potencial para se desenrolar bem rapidamente. E ela sabia que se a mente dela estivesse em assuntos de Ellington e no que eles significavam um para o outro, ela poderia se enrolar completamente.




CAPÍTULO SEIS


Quando ambos se separaram na manhã seguinte, Mackenzie ficou surpresa em notar que Ellington parecia particularmente sombrio sobre isso. Ele a abraçou no quarto do motel um pouco mais demoradamente que o normal e parecia meio triste quando ela o deixou no DP de Stateton. Com um aceno pelo para-brisa enquanto ele entrava, Mackenzie voltou para a estrada principal com uma viagem de duas horas e quarenta e cinco minutos a frente dela.

Estando na floresta, o sinal do seu telefone era irregular. Ela não foi capaz de fazer uma ligação para o segundo potencial suspeito de Jones, Robbie Huston, até que ela estivesse a cerca de quinze quilômetros fora dos limites da cidade de Stateton. Quando ela finalmente conseguiu fazer a ligação, ele respondeu ao segundo toque.

“Alô?”

“É Robbie Huston?" ela perguntou.

“É. Quem pergunta?"

“Aqui é a Agente Mackenzie White do FBI. Eu estava pensando se você teria tempo para conversar essa manhã."

“Hum… posso perguntar sobre o que se trata?”

Sua confusão e surpresa eram genuínas. Ela poderia perceber mesmo pelo telefone.

"Sobre uma residente do Lar para Cegos Wakeman que eu acredito que você conheça. Eu não posso revelar mais que isso pelo telefone. Se você puder me dar apenas cinco ou dez minutos do seu tempo essa manhã, eu agradeceria. Eu estarei passando por Lynchburg em cerca de uma hora."

“Claro," ele disse. "Eu trabalho em casa, então você é bem-vinda a passar pelo meu apartamento se você quiser."

Ela terminou a ligação após pegar o endereço dele. Ela o inseriu no GPS e ficou aliviada em ver que chegar ao apartamento dele adicionaria apenas outros vinte minutos na viagem.

No caminho para Lynchburg, ela se viu muito distraída pelos fatos deste caso atual, atolada com centenas de perguntas não respondidas sobre o antigo caso de seu pai e da nova morte que trouxe isso de volta a tona. Por alguma razão, as mesmas pessoas que mataram seu pai mataram mais alguém de forma muito similar.

E uma vez mais, eles haviam deixado um enigmático cartão de visitas para trás. Mas por quê?

Ela gastara semanas tentando descobrir. Talvez o assassino fosse apenas convencido. Ou talvez os cartões fossem destinados a levar os investigadores para algo mais… como um destorcido jogo de gato e rato. Ela sabia que Kirk Peterson ainda estava no caso─um humilde e dedicado detetive particular do Nebraska, o qual ela não conhecia muito bem para confiar completamente. Ainda, o fato de que alguém estava mantendo os rastros os mais frescos possíveis ativamente era reconfortante. Isso a fez sentir como se o quebra-cabeça pudesse estar quase completo para ela, mas que alguém furtara uma peça da mesa e a estava guardando, determinado a colocá-la no último instante.

Ela nunca se sentira tão derrotada por algo mais na vida. Não era mais uma questão de se ela poderia trazer o assassino de seu pai para a justiça ou não, mas principalmente sobre se ver livre de um mistério de décadas de idade. Enquanto sua mente envolvia tudo isso, seu telefone começou a tocar. Ela viu o número do xerife no display, atendeu esperando por algum tipo de pista para o caso atual.

"Bom dia, Agente White," disse o Xerife Clarke do outro lado. "Olha, você sabe que a recepção de celular aqui em Stateton é um lixo. Eu estou com o Agente Ellington aqui querendo falar com você rapidamente. O telefone dele não conseguiu fazer a ligação."

Ela escutou o telefone ser batido do outro lado da linha enquanto era passado para Ellington. "Então," ele disse. "Já perdida sem mim?"

"Dificilmente," ela disse. "Eu estarei me encontrando com Robbie Huston em pouco mais de uma hora."

"Ah, progresso. Falando no qual, eu estou olhando para o relatório do médico legista agora. Ainda quente da impressora. Informo a você se eu encontrar alguma coisa. Randall Jones também está vindo em breve. Eu posso ver se ele me deixaria falar com alguns dos outros residentes lá do lar."

“Soa bom. Eu estarei dirigindo por pastagens de vaca e campos vazios pelas próximas três horas."

"Ah, a vida glamorosa," ele disse. "Ligue para mim se você precisar de alguma coisa."

E com isso ele encerrou a chamada.

Era assim que eles trocavam farpas pra lá e para cá todo o tempo. Isso a fez sentir um pouco boba com as preocupações passadas acerca de como estava se sentido sobre o que quer que esteja evoluindo entre eles.

Com a chamada telefônica dando um fim nos pensamentos a respeito do antigo caso de seu pai, ela foi capaz de se focar melhor no caso em mãos. O termômetro digital no painel do carro dizia que já fazia trinta e um graus lá fora… e não eram nem nove da manhã ainda.

As árvores ao longo da lateral da estrada eram impossivelmente densas, penduradas sobre a estrada como um toldo. E enquanto havia alguma coisa misteriosamente bela sobre elas na luz fraca, cedo em uma manhã sulista, ela mal podia esperar pelas as vastas extensões das rodovias principais de quatro pistas que a levariam em direção a Lynchburg e Treston.


***

Robbie Huston morava em um moderno e pequeno complexo de apartamentos próximo ao coração central de Lynchburg. Era rodeado por livrarias da universidade e cafeterias que provavelmente só prosperavam devido a grande universidade particular cristã que se avultava sobre a maior parte da cidade.  Quando ela bateu à sua porta às 9:52, ele respondeu quase imediatamente.

Ele parecia estar no início dos seus vinte anos─cabelos crespos sem pentear e o tipo de aspecto mole que fazia Mackenzie pensar que qualquer trabalho que ele já tenha feito fora atrás de uma mesa.  Ele era bonitinho na maneira de um garoto de fraternidade e estava à beira de sua animação ou nervosismo em ter um agente do FBI realmente batendo em sua porta.

Ele a convidou para entrar e ela viu que o interior do apartamento era tão agradável e moderno quanto o exterior. A área de estar, cozinha e área de estudos eram todas um único cômodo amplo, separadas por pequenas divisões ornamentais e banhadas com luz solar natural que era derramada por duas amplas janelas em paredes opostas.

"Hum… posso trazer um café ou alguma outra coisa para você?" ele perguntou. "Eu ainda tenho um pouco sobrando na minha garrafa da manhã."

"Café realmente seria ótimo," ela disse.

Ela o seguiu até a cozinha, onde ele serviu uma xícara de café e a entregou. “Creme? Açúcar?”

"Não, obrigado," ela disse. Ela tomou um gole, achou muito bom e foi ao ponto. "Sr. Huston, você muitas vezes é voluntário no Lar para Cegos Wakeman, estou correta?"

"Sim."

"Com qual frequência?"

"Depende da minha carga de trabalho, na verdade. Algumas vezes eu só posso ir até lá uma ou duas vezes no mês. Porém, houve meses nos quais eu consegui ir uma vez por semana.”

“E recentemente?” perguntou Mackenzie.

"Bem, estive lá na segunda-feira dessa semana. Semana passada eu fui na quarta-feira e na semana anterior eu fui lá na segunda-feira e na sexta-feira, eu acho. Eu posso mostrar meu horário a você."

"Talvez depois," ela disse. "Conversando com Randall Jones, eu descobri que você vai para jogar jogos de tabuleiro e talvez ajudar a mover os móveis e a limpar. Isso está correto?"

"Sim, é isso mesmo. De vez em quando eu leio para eles também.”

"Eles? Para quais residentes em particular você leu ou jogou jogos de tabuleiro nas últimas duas semanas?"

“Alguns. Há um senhor mais velho que atende pelo nome de Percy, com o qual eu joguei Apples to Apples. Pelo menos um cuidador tem que jogar também… para sussurrar as cartas para ele. E na semana passada, eu conversei um pouco com Ellis Ridgeway sobre música. Eu também li para ela por um tempo."

"Você sabe quando você passou esse tempo com Ellis?"

"Nas duas últimas viagens até lá. Segunda-feira, eu a coloquei para escutar Brian Eno. Nós conversamos sobre música clássica e eu li um artigo on-line para ela sobre algumas maneiras que música clássica é usada para estimular o cérebro."

Mackenzie assentiu, sabendo que era tempo de jogar sua maior carta na mesa. "Bem, eu odeio ter que contar isso a você, mas Ellis foi encontrada morta na noite de terça-feira. Nós estamos tentando descobrir quem fez isso e, como estou certa de que você entende, nós temos que investigar qualquer pessoa que tenha passado tempo com ela recentemente. Especialmente voluntários que não estão sempre no lar."

"Meu Deus," disse Robbie, seu rosto se tornando mais pálido com o tempo.

"Antes da Sra. Ridgeway, houve outro assassinato em um lar em Treston, Virgínia. Você já esteve lá?"

Robbie assentiu. "Sim, mas apenas duas vezes. Uma vez foi para um tipo de serviço comunitário que nós fazemos pela Liberty, minha alma mater. Eu ajudei a remodelar a cozinha e fiz um pouco paisagismo. Eu voltei um mês ou dois depois para ajudar onde pudesse. Foi mais para construir relações.”

"Há quanto tempo foi isso?"

Ele pensou sobre isso, ainda abalado pela notícia dois dos assassinatos. "Quatro anos, eu diria. Talvez mais perto de quatro e meio."

“Você se lembra de encontrar um homem chamado Kenneth Abel quando esteve lá? Ele também foi morto recentemente."

Novamente, ele parecia perdido em pensamento. Seus olhos pareciam quase congelados. "O nome não me parece familiar. Mas não significa que eu nunca tenha falado com ele enquanto eu estava por lá."

Mackenzie assentiu, ficando cada vez mais certa de que Robbie Huston estava longe de ser um assassino. Ela não poderia ter certeza, mas ela pensou ter visto os olhos dele reluzindo com lágrimas enquanto ela tomava um gole do café que ele havia lhe dado.

Não se pode ser cuidadosa demais, entretanto ela pensou.

“Sr. Huston, nós sabendo com certeza que a Sra. Ridgeway foi morta a oitocentos metros de distância do terreno do Wakeman, em algum momento entre sete e cinco e nove e quarenta e cinco da noite de terça-feira. Você tem algum tipo de álibi para esse período de tempo?"

Ela viu aquele olhar de busca pela terceira vez, mas então ele começou a acenar com a cabeça vagarosamente. "Eu estava aqui, no apartamento. Em uma chamada de conferência com três outros rapazes. Nós estamos iniciando essa pequena organizaçãozinha para ajudar os sem teto do centro da cidade e em outras cidades ao redor."

"Alguma prova?"

"Eu poderia mostrar a você onde eu fiz o login. Eu acho que um dos outros caras mantém anotações muito boas sobre as chamadas também. Terá todo tipo de tópicos de mensagens com horário, edições de anotações e coisas como essas." Ele já estava buscando seu notebook, sentando-se em uma mesa em frente a uma das largas janelas. “Aqui, eu posso mostrá-la se você quiser."

Agora ela estava certa de que Robbie Huston era inocente, mas ela queria levar a cabo. Dada a forma que as notícias o afetaram, ela também queria que Robbie sentisse que contribuiu com alguma coisa para o caso. Então ela assistiu por cima do ombro dele enquanto ele entrava no site da plataforma de conferência, fazia o login e abria o histórico dele, não apenas dos últimos dias, mas também das últimas várias semanas. Ela viu que ele esteve falando a verdade: ele participou de uma chamada de conferência e sessão de planejamento das 6:45 às 10:04 na noite de terça-feira.

O processo todo levou menos de cinco minutos para ele repassar, mostrar a ela as notas e edições e, também, quando fizera o login e saíra da chamada.

"Muito obrigado pela sua ajuda, Sr. Huston," ela disse.

Ele assentiu enquanto a acompanhava até a porta. "Duas pessoas cegas…" ele disse, tentando fazer sentido disso. "Por que alguém faria isso?"

"Eu mesma estou tentando descobrir isso," ela disse. "Por favor, me ligue se pensar em alguma coisa que possa ajudar," ela acrescentou, oferecendo um cartão a ele.

Ele o pegou, acenou um lento adeus e então fechou a porta quando ela saiu. Mackenzie quase sentia que ela acabara de dar a noticia dos assassinatos a membros da família, ao invés de um jovem rapaz de bom coração que parecia se importar genuinamente com ambos os falecidos.

Ela quase invejou isso… sentir remorso genuíno por estranhos. Ultimamente, ela estava vendo os mortos como nada mais que cadáveres─montes sem nome, repletos com vestígios em potencial.

Não era a melhor forma de viver a vida, ela sabia. Ela não podia deixar o trabalho liquidar seu senso de compaixão. Ou sua humanidade.




CAPÍTULO SETE


Mackenzie estacionou às 11:46 na frente do Lar para Cegos Treston, fazendo em melhor tempo do que o GPS havia estimado.  Contudo, quando Mackenzie estacionou em frente do prédio, ela conferiu novamente o endereço que Clarke havia lhe dado. O lar parecia pequeno, não maior que a frente de uma loja comum. Era localizado distante no lado oeste da cidade de Treston, a qual, embora muito maior que Stateton, ainda não era muito do que se gabar. Enquanto a cidade estava muitos passos a frente da morbidez rural de Stateton, se vangloriava apenas com dois semáforos. A única coisa que a tornava pelo menos um pouco urbana era o McDonald's à margem da Main Street.

Confiante de que estava com o endereço certo—o que foi reforçado pela placa em ruínas que ficava na frente da propriedade—Mackenzie saiu do seu carro e caminhou pela calçada rachada. A porta da frente era separada da calçada por apenas três degraus de concreto que pareciam não ser varridos em anos.

Ela entrou, pisando no que servia como saguão e área de espera. Uma mulher estava sentada atrás de um balcão ao longo da parede frontal, falando ao telefone. A parede atrás dela era pintada por um surpreendente tom de branco. Um quadro branco à esquerda dela continha um punhado de anotações. Fora isso, a parede era nua e inexpressiva.

Mackenzie teve que caminhar até o balcão e ficar ali, pressionada contra ele e fazendo seu melhor para sugerir que ela precisava de assistência. A mulher atrás do balcão parecia terrivelmente irritada com isso e terminou a chamada relutantemente. Ela finalmente olhou acima para Mackenzie e perguntou: "Posso ajudá-la?"

"Estou aqui para falar com o gerente," ela disse.

"E você é?"

“Agente Mackenzie White, do FBI.”

A mulher parou por um momento, como se não acreditasse em Mackenzie. Dessa vez foi a vez de Mackenzie de dar um olhar irritado. Ela mostrou seu distintivo e assistiu enquanto a mulher entrou em ação repentinamente. Ela pegou o telefone, pressionou uma extensão e falou brevemente com alguém. Ela evitou contato visual com Mackenzie o tempo inteiro.

Quando a mulher terminou, ela finalmente olhou acima de volta para Mackenzie. Estava claro que ela estava envergonhada, mas Mackenzie fez o seu melhor para não gozar muito disso.

"A Sra. Talbot a verá em um instante," a moça disse. “Se dirija para trás. O escritório dela é o primeiro que aparecerá."

Mackenzie andou pela única outra porta no lobby e entrou em um corredor. O corredor era bem curto, contendo apenas três portas. No final dele, um conjunto de portas duplas estava fechado. Ela assumiu que as acomodações ficavam atrás dessas portas e esperou que os quartos estivessem em melhor condição que o restante da construção.

Ela se aproximou do primeiro cômodo ao longo do corredor. A placa com nome ficava juntamente ao lado do portal e se lia Gloria Talbot. A porta estava parcialmente aberta, mas mesmo assim Mackenzie bateu. A porta foi atendida imediatamente por uma mulher com sobrepeso que vestia um grosso par de óculos bifocais.

“Agente White, por favor, entre,” disse Talbot.

Mackenzie fez como lhe foi solicitado, tomando o único assento que ficava do lado oposto da pequena e bagunçada mesa.

"Eu vou assumir que isso se trata do assassinato de Kenneth Able?" perguntou Talbot.

"Sim senhora," disse Mackenzie. "Nós temos outro assassinato em uma cidade a cerca de duas horas e meia ao sul daqui. Outra pessoa cega—um membro de um lar para cegos."

“Duas horas e meia de distância?" perguntou Talbot. “Deve ser o Lar para Cegos Wakeman, certo?”

“É. E a maneiro pela qual a vítima foi morta parece ser idêntica a Kenneth Able. Eu estava esperando que você pudesse me mostrar o lar, incluindo o closet onde o corpo dele foi encontrado."

"Absolutamente," disse Talbot. "Venha comigo."

Talbot a levou de volta para fora no corredor e então através das portas duplas que Mackenzie havia visto no seu caminho até o escritório de Talbot. Elas adentraram um amplo espaço aberto que se esgotava no que parecia ser um tipo de sala comum. Dentro desse espaço aberto, Mackenzie contou oito quartos.

"Estes," disse Talbot, "são os quartos nos quais os residentes ficam. Diferentemente do Wakeman, nós não temos acomodações modernas estilosas."

Ela não dizia isso se desculpando. De fato, Mackenzie pensou ter ouvido certo veneno na voz de Talbot.

"Este aqui," disse Talbot, levando Mackenzie até a segunda porta na direita, "era o quarto de Kenneth."

Talbot destrancou a porta e elas entraram. O quarto cheirava a poeira e algum tipo de limpador químico que parecia forte demais. Mackenzie fez seu melhor para não parecer surpresa pelo estado do quarto em comparação com o que ela havia visto no Wakeman. Ela observou a cama, a pequena escrivaninha, a cômoda e a porta do closet. Tudo parecia envelhecido, embotado e de outra época.

Ela caminhou até o closet e o abriu. Ao olhar para o espaço vazio dentro, Mackenzie perguntou: "Você pode me contar como o corpo foi descoberto?"

"Havia outra residente aqui, Margaret Dunwoody," disse Talbot. "Ela e Kenneth brincavam que estavam namorando─o que é hilário, porque Kenneth tinha trinta e oito e Margaret tem, forçando, sessenta. Eles sempre estavam juntos, conversando na área comum, comendo as refeições juntos e coisas do tipo. De qualquer forma, ela veio até esse quarto a tarde para ver se ele queria sair para comer um lanche no McDonald's. Quando ele não respondeu a porta, ela entrou. Ela disse que sabia que havia algo errado logo de cara. Ela disse que o quarto parecia muito quieto. Ela estava apavorada, então foi até o guarda que estava aqui aquela noite─um jovem rapaz chamado Tyrell Price. Tyrell encontrou Kenneth no closet, morto."

"Enforcado, com contusões ao redor do olhos, correto?" perguntou Mackenzie.

"Isso mesmo," disse Talbot.

Mackenzie olhou dentro do closet, pegando a pequena Maglite do seu cinto e iluminando o interior. Ela tateou ao redor do carpete e do portal, mas não encontrou qualquer sinal de que o assassino tenha deixado vestígios não intencionais. A única coisa que foi encontrada no closet foi um cabide de casaco perdido, pendendo da barra de tensão próxima ao topo da estrutura.




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