Um Voto De Glória 
Morgan Rice


Anel Do Feiticeiro #5
Em UM VOTO DE GLÓRIA (Livro #5 da Série: O Anel do Feiticeiro), Thor embarca com seus amigos da Legião em uma jornada épica para os vastos desertos do Império, para tentar encontrar a antiga Espada do Destino e salvar o Anel. As amizades de Thor se aprofundam enquanto viajam para novos lugares, enfrentam monstros inesperados e lutam lado a lado em uma batalha inimaginável. Eles encontram terras, criaturas e povos exóticos, muito além do que poderiam ter imaginado; cada passo de sua jornada está repleto de crescentes perigos. Eles terão de reunir todas as suas habilidades para poder sobreviver enquanto seguem a trilha dos ladrões, penetrando cada vez mais profundamente no Império. Sua busca vai levá-los até o final do caminho, até o coração do Mundo Subterrâneo, um dos sete reinos do inferno, onde os mortos vivos reinam e os campos estão rodeados de ossos. Enquanto Thor deve invocar seus poderes mais do que nunca, ele se esforça para entender sua natureza, para entender quem ele é. De volta ao Anel, Gwendolyn deve guiar metade da Corte do Rei para a fortaleza ocidental de Silésia, uma antiga cidade à beira do Canyon, a qual tem resistido durante mil anos. As fortificações de Silésia lhe permitiram sobreviver a cada ataque, ao longo dos séculos. No entanto, elas jamais enfrentaram o ataque de um líder como Andronicus, o ataque de seu exército de milhões de homens. Gwendolyn aprende o que significa ser rainha ao assumir um papel de liderança; Srog, Kolk, Brom, Steffen, Kendrick e Godfrey estão ao seu lado, preparando-se para defender a cidade da guerra em massa que está por vir. Enquanto isso, Gareth está mergulhando cada vez mais fundo na loucura, tentando se defender de um golpe que poderia ter culminado em seu assassinato, na Corte do Rei. Ao mesmo tempo, Erec luta por sua vida para salvar seu amor Alistair, e a cidade do Duque de Savária, já que o escudo está inativo e permite que as criaturas selvagens a invadam. Godfrey, mais uma vez se encontra afundando na bebida, ele terá de decidir se está pronto para livrar-se de seu passado e tornar-se o homem de sua família espera que ele seja. Enquanto todos eles lutam por suas vidas e as coisas parecem não poder ficar ainda pior, a história termina com duas reviravoltas chocantes. Será que Gwendolyn sobreviverá ao ataque? Thor sobreviverá ao Império? A Espada do Destino será encontrada? Com sua ambientação em um mundo sofisticado e sua caracterização de época, UM VOTO DE GLÓRIA é um conto épico sobre amigos e amantes, rivais e pretendentes, sobre cavaleiros e dragões, intrigas e maquinações políticas, sobre atingir a maioridade, corações partidos, decepção, ambição e traição. É uma história de honra e coragem, de destinos, de feitiçaria. É uma fantasia que nos leva a um mundo que nunca esqueceremos e que vai interessar a todas as idades e gêneros. O livro contém 75. 000 palavras.





Morgan Rice

UM VOTO DE GLÓRIA (LIVRO #5 DA SÉRIE: O ANEL DO FEITICEIRO)




Sobre Morgan Rice

Morgan Rice é a autora do best-seller #1 DIÁRIOS DE VAMPIROS, uma série destinada a jovens adultos composta por onze livros (mais em progresso); da série de Best-seller #1 – TRILOGIA DE SOBREVIVÊNCIA, um thriller pós-apocalíptico que compreende dois livros (outro será adicionado); a série número um de vendas, O ANEL DO FEITICEIRO, composta por treze livros de fantasia épica (outros serão acrescentados).

Os livros de Morgan estão disponíveis em áudio e página impressa e suas traduções estão disponíveis em: alemão, francês, italiano, espanhol, português, japonês, chinês, sueco, holandês, turco, húngaro, checo e eslovaco (em breve estarão disponíveis em mais idiomas).

Morgan apreciará muitíssimo seus comentários, por favor, fique à vontade para visitar www.morganricebooks.com (http://www.morganricebooks.com/) faça parte de nosso newsletter, receba um livro gratuito, ganhe brindes, baixe nosso aplicativo gratuito, obtenha as novidades exclusivas em primeira mão, conecte-se ao Facebook e Twitter, permaneça em contato!



Crítica aclamada sobre Morgan Rice

“O ANEL DO FEITICEIRO reúne todos os ingredientes para um sucesso instantâneo: tramas, intrigas, mistério, bravos cavaleiros e florescentes relacionamentos repletos de corações partidos, decepções e traições. O livro manterá o leitor entretido por horas e agradará a pessoas de todas as idades. Recomendado para fazer parte da biblioteca permanente de todos os leitores do gênero de fantasia.”



    --Books and Movie Reviews, Roberto Mattos.

“Rice faz um trabalho magnífico ao atrair você para a história desde o início, utilizando uma grande qualidade descritiva que transcende a mera imagem do cenário… Muito bem escrito e de uma leitura extremamente rápida.”



    --Black Lagoon Reviews (referindo-se a Turned)

“Uma história ideal para jovens leitores. Morgan Rice fez um bom trabalho, dando uma interessante reviravolta na trama… Refrescante e original. As séries giram em torno de uma garota… Uma jovem extraordinária!… Fácil de ler, mas com um ritmo de leitura extremamente acelerado… Classificação10 pelo MJ/DEJUS.”



    --The Romance Reviews (referindo-se a Turned)

“Captou a minha atenção desde o início e eu não pude soltá-lo… Esta é uma história de aventura incrível que combina agilidade e ação desde o início. Você não encontrará nela nenhum momento maçante.”



    --Paranormal Romance Guild (referindo-se a Turned)

“Carregado de ação, romance, aventura e suspense. Ponha suas mãos nele e apaixone-se novamente.”



    --Vampirebooksite.com (referindo-se a Turned)

“Uma ótima trama, este é especialmente o tipo de livro que lhe dará trabalho soltar à noite. O final é tão intrigante e espetacular que fará com que você queira comprar imediatamente o livro seguinte, só para ver o que acontecerá.”



    --The Dallas Examiner (referindo-se a Loved)

“Um livro que é um rival digno de CREPÚSCULO (TWILIGHT) e AS CRÔNICAS VAMPIRESCAS (VAMPIRE DIARIES) e que fará com que você deseje continuar lendo sem parar até a última página! Se você curte aventura, amor e vampiros este é o livro ideal para você!”



    --Vampirebooksite.com (referindo-se a Turned)

“Morgan Rice mais uma vez mostra ser uma narradora extremamente talentosa… Esta narrativa atrairá uma grande variedade de público, incluindo os fãs mais jovens do gênero vampiro/fantasia. Terminou com uma situação de suspense tão inesperada que o deixará chocado.”



    --The Romance Reviews (referindo-se a Loved)



Livros de Morgan Rice

O ANEL DO FEITICEIRO

EM BUSCA DE HERÓIS (Livro #1)

UMA MARCHA DE REIS (Livro #2)

UM DESTINO DE DRAGÕES (Livro #3)

UM GRITO DE HONRA (Livro #4)

UM VOTO DE GLÓRIA (Livro #5)

UMA CARGA DE VALOR (Livro #6)

UM RITO DE ESPADAS (Livro #7)

UM ESCUDO DE ARMAS (Livro #8)

UM CÉU DE FEITIÇOS (Livro #9)

UM MAR DE ESCUDOS (Livro #10)

UM REINADO DE AÇO (Livro #11)

UMA TERRA DE FOGO (Livro #12)

UM GOVERNO DE RAINHAS (Livro #13)



TRILOGIA DE SOBREVIVÊNCIA

ARENA UM: TRAFICANTES DE ESCRAVOS (Livro #1)

ARENA DOIS (Livro #2)



DIÁRIOS DE UM VAMPIRO

TRANSFORMADA (Livro #1)

AMADA (Livro #2)

TRAÍDA (Livro #3)

DESTINADA (Livro #4)

DESEJADA (Livro #5)

PROMETIDA EM CASAMENTO (Livro #6)

JURADA (Livro #7)

ENCONTRADA (Livro #8)

RESSUSCITADA (Livro #9)

SUPLICADA (Livro #10)

DESTINADA (Livro #11)












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iTunes (https://itunes.apple.com/us/audiobook/quest-heroes-book-1-in-sorcerers/id710447409)


Copyright © Morgan Rice 2013

Todos os direitos reservados. Exceto os permitidos, sujeitos à Lei de direitos autorais dos Estados Unidos de 1976, nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida; distribuída; ou transmitida, em qualquer forma ou por qualquer meio; ou armazenada em um banco de dados ou sistema de recuperação, sem a prévia autorização da autora.

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Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, empresas, organizações, lugares, eventos e incidentes ou são o produto da imaginação da autora ou são utilizados ficcionalmente. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, é mera coincidência.

A imagem de capa é de Unholy Vault Designs e usada sob licença da Shutterstock.com.


“A vida de cada homem lhe é valiosa; mas o homem de valor tem a honra como algo mais valioso que a própria vida.”

    —William Shakespeare
    Tróilo e Créssida






CAPÍTULO UM


Andronicus cavalgava orgulhosamente pelo centro da cidade real de McCloud. Ele estava flanqueado por centenas de seus generais e arrastava atrás de si o seu bem mais precioso: o Rei McCloud. McCloud havia sido despojado de sua armadura, seu corpo peludo e estufado de tão gordo, estava seminu. O rei McCloud estava atado e amarrado à parte de trás do selim de Andronicus, uma longa corda estava enrolada em seus pulsos.

Enquanto Andronicus cavalgava devagar, deleitando-se com o seu triunfo, ele arrastava McCloud pelas ruas, sobre as pedras poeirentas, levantando uma nuvem de poeira. O povo McCloud reunido ali presenciava a cena. Ele podia ouvir o Rei McCloud gritando, contorcendo-se de dor enquanto era conduzido em um desfile mórbido pelas ruas de sua própria cidade. Andronicus estava radiante. Os rostos dos súditos de McCloud estavam mortificados pelo medo. Ali estava o seu antigo rei, agora transformado no mais manso dos escravos. Aquele era um dos melhores dias que Andronicus conseguia recordar.

Andronicus estava surpreso ao perceber como tinha sido fácil tomar a cidade de McCloud. Era como se os homens de McCloud estivessem desmoralizados antes mesmo que o ataque tivesse começado. Os homens de Andronicus os haviam conquistado com a velocidade de um raio, seus milhares de soldados investiram subjugando os poucos soldados que se atreveram a defender-se e infestaram a cidade em um piscar de olhos. Eles deviam ter percebido que não fazia sentido resistir. Todos tinham deposto as armas supondo que se eles se rendessem, Andronicus iria levá-los cativos.

No entanto, eles não conheciam o grande Andronicus. Ele desprezava a rendição. Ele não mantinha ninguém cativo e baixar suas armas só tinha tornado tudo mais fácil para ele.

O sangue escorria pelas ruas da cidade de McCloud. Os homens de Andronicus percorreram cada viela, cada beco, massacrando todos os homens que podiam encontrar. Ele tinha tomado as mulheres e crianças como escravos, como sempre fazia. As casas foram todas saqueadas, uma de cada vez.

Enquanto Andronicus cavalgava lentamente pelas ruas, observando o seu triunfo, ele via os corpos por todos os lugares, os despojos empilhados e as casas destruídas. Ele virou-se e acenou para um de seus generais e imediatamente o general levantou uma tocha bem alto, acenou para seus homens e centenas deles se espalharam por toda a cidade, incendiando os telhados de palha. As chamas subiram ao redor deles, elevando-se para o céu e Andronicus já podia começar a sentir o calor, ali onde estava.

“NÃO!” McCloud gritou, enquanto se debatia no chão, atrás dele.

Andronicus sorriu de orelha a orelha e acelerou o passo, dirigindo-se para uma pedra particularmente grande; ouviu-se um baque surdo e ele sabia que o corpo de McCloud tinha ido de encontro a ela.

Andronicus sentiu enorme satisfação em assistir àquela cidade arder, tal como ele sempre fazia com cada cidade conquistada em seu império. Primeiro, ele reduzia a cidade a escombros, a cinzas, depois ele a construía novamente com seus homens, seus próprios generais, seu próprio império. Essa era a sua maneira. Ele não queria conservar nenhum vestígio da cidade anterior. Ele estava construindo um novo mundo. O mundo de Andronicus.

O Anel, o Anel sagrado que havia eludido todos os seus antepassados, agora era o seu território. Ele mal podia conceber isso. Ele respirou fundo, sentindo-se muito grande, muito importante. Muito em breve, ele iria atravessar as Highlands e conquistar a outra metade do Anel também. Então, não haveria nenhum lugar no planeta sobre o qual seu pé não tivesse pisado.

Andronicus cavalgou até a gigantesca estátua do Rei McCloud, na praça principal da cidade, e parou diante dela. Ela estava lá como um santuário, elevando-se por quinze metros, toda feita de mármore. Ela dava forma a uma versão de McCloud que Andronicus não reconhecia, a versão de um Rei McCloud jovem, em forma, musculoso, empunhando uma espada, com orgulho. Era algo ególatra. Andronicus admirava McCloud por isso. Uma parte dele queria levar a estátua de volta para casa e colocá-la em seu palácio para exibi-la como um troféu.

Mas outra parte dele estava muito repugnada com aquilo. Sem pensar, ele se abaixou e pegou sua funda, ela era três vezes maior do que a de qualquer ser humano e grande o suficiente para abrigar uma pequena rocha. Andronicus se inclinou e atirou com todas as suas forças.

A pequena rocha voou pelo ar e impactou contra a cabeça da estátua. A cabeça de mármore de McCloud quebrou-se em mil pedaços, desprendendo-se do corpo. Então Andronicus deu um grito, levantou o malho de duas mãos, preparou-se e o girou com toda sua força.

Andronicus golpeou o torso da estátua e o mármore tombou e logo caiu no chão quebrando-se com um grande estrondo. Andronicus fez o seu cavalo dar a volta para que enquanto ele cavalgasse, o corpo de McCloud fosse raspado pelos cacos da estátua despedaçada.

“Você vai pagar por isso!” Um McCloud agonizante gritou fracamente.

Andronicus riu. Ele tinha encontrado muitos seres humanos em sua vida, mas aquele parecia ser simplesmente, o mais patético de todos eles.

“Não me diga!” Andronicus gritou.

Esse McCloud era muito cabeça-dura; ele ainda não apreciava o poder do grande Andronicus. Ele teria de ser ensinado, de uma vez por todas.

Andronicus percorria a cidade, seus olhos logo pousaram sobre o que seria sem dúvida o castelo de McCloud. Ele esporou seu cavalo e partiu a galope, seus homens corriam atrás dele enquanto ele arrastava McCloud ao cruzar o pátio empoeirado.

Andronicus cavalgou sobre as dezenas de degraus de mármore, o corpo de McCloud atrás dele chocava-se contra cada degrau, fazendo-o gritar e gemer. Logo, Andronicus continuou a cavalgar diretamente sobre a entrada de mármore. Os homens de Andronicus já estavam montando guarda às portas, aos pés deles se encontravam os corpos sangrentos dos ex-guardas de McCloud. Andronicus sorriu com satisfação ao ver que cada canto da cidade já era seu.

Andronicus continuou cavalgando, ele atravessou as vastas portas do castelo e passou pelo interior de um corredor com seu teto abobadado todo feito de mármore. Ele ficou maravilhado com o requinte desse rei McCloud. Ele claramente não havia medido nenhum gasto para fazer os seus gostos.

Agora seu dia tinha chegado. Andronicus continuou a cavalgar com seus homens pelos corredores largos, o som dos cascos dos cavalos ecoava nas paredes. Ele se dirigia para o que era claramente a sala do trono de McCloud. Ele entrou pelas portas de carvalho e cavalgou diretamente para o centro da sala, para seu trono opulento, esculpido em ouro, situado no centro da sala.

Andronicus desmontou, subiu os degraus de ouro bem devagar e sentou-se no trono.

Ele respirou fundo quando se virou e observou seus homens, suas dezenas de generais montados a cavalo, aguardando o seu comando. Ele olhou para o McCloud sangrento que ainda estava preso ao seu cavalo, gemendo. Ele inspecionou a sala, examinou as paredes, as bandeiras, as armaduras e o armamento. Ele olhou para a o trabalho bem executado de seu trono e admirou-se. Ele considerou a possibilidade de fundi-lo, ou talvez de levá-lo para si mesmo. Talvez ele o desse para um de seus generais menores.

Naturalmente, aquele trono não era nada ao lado do próprio trono de Andronicus. O trono mais gigantesco de todos os reinos, o qual levou quarenta anos para ser construído por vinte trabalhadores. A construção tinha começado em vida de seu próprio pai e tinha sido concluída no dia em que Andronicus o havia assassinado. A sincronização dos dois eventos foi perfeita.

Andronicus olhava para McCloud, aquele pequeno ser humano patético. Ele se perguntava qual seria a melhor forma de fazê-lo sofrer. Ele examinou a forma e o tamanho do crânio dele e decidiu que gostaria de reduzi-lo e usá-lo em seu colar, junto com as outras cabeças encolhidas, ao redor de seu pescoço. No entanto, Andronicus percebia que antes de matá-lo, ele precisaria de algum tempo para afinar o rosto dele, especialmente as maçãs do rosto, de modo que ele se visse melhor em seu pescoço. Ele não queria que uma cara gorda e rechonchuda arruinasse a estética de seu colar. Ele iria deixá-lo viver um tempo e enquanto isso ele o torturaria. Ele sorriu para si mesmo. Sim, aquele era um plano muito bom.

“Tragam-no a mim.” Andronicus ordenou a um de seus generais, com sua voz milenar e semelhante a um rosnado profundo.

O general apeou e sem um momento de hesitação, correu para McCloud, cortou a corda e arrastou o corpo ensanguentado pelo chão, manchando-o de vermelho enquanto ele prosseguia. Ele deixou o corpo cair na base do trono, aos pés de Andronicus.

“Você não vai chegar muito longe com isso!” McCloud murmurou fracamente.

Andronicus balançou a cabeça; aquele humano nunca aprenderia.

“Aqui estou eu, sentado em seu trono.” Andronicus disse. “E aí está você, deitado aos meus pés. Eu acho que posso dizer com toda confiança que eu posso me sair bem de qualquer coisa que eu quiser. E eu já me saí bem.”

McCloud ficou ali deitado, gemendo e se contorcendo.

“A primeira ordem de meus assuntos…” Andronicus disse. “… Será fazer com que você mostre o devido respeito para com o seu novo rei e senhor. Venha a mim agora e tenha a honra de ser o primeiro a se ajoelhar diante de mim e sujeitar-se a meu novo reino, a honra de ser o primeiro a beijar a minha mão e me chamar de Rei do que foi outrora o lado McCloud do Anel.”

McCloud olhou para cima, apoiou-se sobre suas mãos e joelhos e fez um gesto de desprezo para Andronicus.

“Nunca!” Disse ele, então se virou e cuspiu no chão.

Andronicus inclinou-se para trás e riu. Ele estava desfrutando imensamente tudo aquilo. Fazia muito tempo que ele não encontrava um ser humano tão voluntarioso.

Andronicus virou-se e acenou com a cabeça, um de seus homens agarrou McCloud por trás, enquanto outro se aproximou e segurou sua cabeça imobilizando-o. Um terceiro veio para a frente com uma longa navalha. Quando ele se aproximou, McCloud dobrou-se de medo.

“O que está fazendo?” McCloud perguntou em pânico, sua voz soou mais alto várias oitavas.

O homem estendeu a mão e rapidamente raspou metade da barba de McCloud. McCloud olhou com espanto, claramente perplexo ao ver que o homem não o havia machucado.

Andronicus balançou a cabeça e outro homem deu um passo à frente, ele trazia um longo atiçador de ferro, em cuja ponta estava talhado o emblema do reino de Andronicus: um leão com um pássaro em sua boca. Ele estava incandescente, laranja, exalava o vapor quente, e enquanto os outros sujeitavam McCloud, o homem baixou o atiçador em direção ao seu rosto.

“NÃO!” McCloud guinchou, percebendo.

Mas era tarde demais.

Um grito horrível cortou o ar, acompanhado por um chiado e pelo cheiro de carne queimada. Andronicus assistia com alegria enquanto o atiçador queimava cada vez mais a bochecha de McCloud. O chiado ficou mais alto e os gritos quase intoleráveis.

Finalmente, depois de uns bons dez segundos, eles soltaram McCloud.

McCloud caiu no chão inconsciente, ele babava enquanto a fumaça subia da metade de seu rosto. Agora ele levava o emblema de Andronicus marcado em sua carne.

Andronicus se inclinou para frente, olhou para o McCloud inconsciente e admirou a obra.

“Bem-vindo ao Império.”




CAPÍTULO DOIS


Erec se encontrava no topo da colina, à beira da floresta e observava enquanto o pequeno exército se aproximava. Seu coração se encheu de fogo. Ele havia nascido para viver dias como aquele. Em algumas batalhas, a linha entre o que era justo e o que era injusto, costumava ser difusa, mas não naquele dia. O Lorde de Baluster havia roubado descaradamente sua noiva e tinha sido arrogante e orgulhoso. Ele havia sido informado de seu crime, tinha tido a oportunidade de endireitar as coisas, mas recusou-se a corrigir seus erros. Ele tinha invocado o mal sobre si. Seus homens deveriam ter deixado o assunto para trás, especialmente agora que ele estava morto.

Mas ali estavam eles, cavalgando, centenas deles, mercenários pagos por aquele lorde de segunda categoria, todos com intenções de matar Erec apenas porque tinham sido pagos por aquele homem. Eles avançaram para ele em sua armadura verde brilhante e quando se aproximaram soltaram um grito de guerra. Como se isso pudesse assustá-lo.

Erec não tinha medo. Ele tinha visto muitas batalhas como aquela. Se algo ele tinha aprendido em todos os seus anos de treinamento, foi que ele nunca devia temer quando lutasse pela causa dos justos. A justiça, segundo ele foi ensinado, nem sempre prevaleceria, mas dava ao seu portador a força de dez homens.

Não era medo o que Erec sentia quando viu as centenas homens aproximando-se, sabendo que ele provavelmente morreria naquele dia. Era expectativa. Ele tinha recebido a oportunidade de encontrar sua morte da forma mais honrosa e isso era um privilégio. Ele havia feito um voto de glória e hoje, o seu voto estava cobrando o seu tributo.

Erec desembainhou a espada e avançou a pé pela ladeira, correndo para o exército enquanto era atacado. Naquele momento ele desejava mais do que nunca ter Warkfin, o seu precioso cavalo, para conduzi-lo para a batalha, mas ele sentia uma sensação de paz, sabendo que Warfkin estava levando Alistair de volta para Savária; de volta para a segurança da corte do Duque.

Ao se aproximar dos soldados e estar praticamente a cinquenta metros de distância, Erec ganhou velocidade, correndo para seu líder que cavalgava no centro. Eles não diminuíram a marcha e Erec tampouco, então ele se preparou para o confronto iminente.

Erec sabia que ele tinha uma vantagem: trezentos homens não podiam aproximar-se o suficiente para poder atacar simultaneamente um homem. Ele sabia por seu treinamento, que no máximo seis homens a cavalo poderiam chegar perto de um homem o suficiente para poder atacá-lo. Portanto, Erec concluiu que suas chances não eram de trezentos contra um, mas de apenas seis contra um. Enquanto ele pudesse matar todos os seis homens à sua frente durante todas as vezes que fosse atacado, ele teria a chance de ganhar. A questão importante era se ele teria a energia necessária para passar por todo esse processo.

Enquanto Erec descia o morro, ele tirou de sua cintura uma arma que ele sabia que seria a apropriada: um mangual com uma corrente de cerca de dez metros de comprimento, em cuja ponta havia uma bola de metal cravejada de puas. Era a arma ideal para colocar uma armadilha na estrada, ou para uma situação como aquela.

Erec esperou até o último momento, até que o exército não tivesse tempo para reagir, então girou o mangual bem alto sobre sua cabeça e arremessou-o no campo de batalha. Ele apontou para uma pequena árvore e a bola se enroscou em volta dela fazendo com que a corrente com puas se estendesse pelo campo de batalha. Erec lançou-se ao chão e enrolou seu corpo, evitando assim as lanças que estavam prestes a lançar-se contra ele, ele segurava o cabo da corrente com toda a força.

Ele tinha cronometrado tudo perfeitamente: não houve tempo para que o exército reagisse. Eles viram a corrente no último segundo e tentaram desviar os seus cavalos, mas eles estavam indo rápido demais e não havia tempo.

Toda a linha de frente correu para ela, a corrente com puas cortava as pernas dos cavalos, fazendo os cavaleiros caírem de cara no chão e os seus cavalos caírem sobre eles. Dezenas deles foram esmagados no meio do caos.

Erec não teve tempo para se orgulhar do dano que tinha feito: outro flanco do exército deu a volta e caiu sobre ele atacando-o com um grito de guerra, Erec rolou e ficou de pé para enfrentá-los.

O líder dos guerreiros levantou um dardo para lançar contra Erec, quem aproveitava o que estava ao seu alcance: ele não tinha um cavalo e não poderia dar cabo de todos aqueles homens desde sua posição inferior, mas já que ele estava abaixo, ele poderia usar o chão debaixo dele. De repente, Erec mergulhou no chão, dobrou-se, enrolou seu corpo, levantou a espada e cortou as pernas do cavalo do homem. O cavalo tombou e seu soldado foi jogado pelos ares e caiu de cabeça antes que tivesse a chance de lançar sua arma.

Erec continuou a rolar e conseguiu evadir a estampida dos pés dos cavalos ao seu redor, os quais tiveram de se separar para evitar tropeçar com cavalo abatido. Mas foi inútil, eles tropeçaram com o animal morto e dezenas de outros cavalos caíram no chão, levantando uma nuvem de poeira e causando um bloqueio entre o exército.

Era exatamente o que Erec esperava: poeira, confusão e dezenas de homens caindo no chão.

Erec ficou de pé, levantou sua espada e bloqueou outra espada que vinha descendo direto sobre sua cabeça. Ele girou e bloqueou um dardo, logo depois uma lança e em seguida um machado. Ele se defendia dos golpes que choviam sobre ele de todos os lados, mas sabia que não podia continuar assim para sempre. Ele tinha de estar ao ataque, se quisesse ter qualquer chance de sobreviver.

Erec enrolou seu corpo, logo se ajoelhou e arremessou sua espada como se ela fosse uma lança. Ela voou pelo ar e incrustou-se no peito de seu atacante mais próximo; os olhos dele se arregalaram e ele caiu de seu cavalo, de lado, morto.

Erec aproveitou a oportunidade para saltar para o cavalo do homem e arrancar o mangual das mãos dele antes que o homem morresse. Era um belo mangual e Erec o havia escolhido por essa razão; ele tinha um longo cabo de prata cravejado e uma corrente de cerca de um metro e meio, com três bolas com saliências pontudas na outra extremidade. Erec puxou-o para trás e o girou bem alto, arrancando as armas das mãos de vários oponentes ao mesmo tempo; em seguida, ele o girou novamente e os derrubou de seus cavalos.

Erec pesquisou o campo de batalha e viu que tinha feito um dano considerável, havia quase uma centena de cavaleiros abatidos. Mas os outros, pelo menos duzentos deles, estavam se reagrupando e investindo contra ele agora e todos estavam determinados.

Erec cavalgava ao encontro deles, um homem avançando contra duzentos. Ele deu seu próprio grito de guerra enquanto erguia o mangual cada vez mais alto e orava a Deus para que a sua força simplesmente não o abandonasse.


*

Alistair chorava enquanto se aferrava a Warkfin com todas suas forças. O cavalo ia a todo galope, levando-a pela estrada familiar que conduzia a Savária. Ela estava gritando e esporando o animal durante todo o caminho, tentando com toda sua alma fazê-lo virar-se e cavalgar de volta para Erec. Mas o animal não queria obedecer-lhe. Ela nunca havia encontrado nenhum cavalo como aquele antes, ele obedecia cegamente ao comando de seu dono e não vacilava. Era óbvio que o cavalo estava determinado a levá-la exatamente para onde Erec tinha lhe ordenado. Finalmente, ela resignou-se ao fato de que não havia nada que ela pudesse fazer a respeito.

Alistair tinha sentimentos encontrados enquanto cavalgava novamente através dos portões da cidade. Uma cidade onde ela tinha vivido tanto tempo como uma trabalhadora escrava. Por um lado, a cidade parecia familiar, mas por outro, ela trazia de volta memórias do estalajadeiro que tanto a havia oprimido; memórias de tudo o que havia de errado naquele lugar. Ela estava tão ansiosa para seguir em frente, para sair dali com Erec e começar uma nova vida com ele. Enquanto ela se sentia segura dentro de seus portões, ao mesmo tempo ela também sentia um crescente mau presságio sobre Erec, lá fora, sozinho, enfrentando o exército. Esse pensamento a deixou doente.

Ao perceber que Warkfin não daria a volta, ela concluiu que sua melhor aposta seria conseguir ajuda para Erec. Ele tinha pedido para ela ficar ali, dentro da segurança daqueles portões, mas aquela seria a última coisa que ela faria. Afinal, ela era filha de um rei e ela não era mulher de fugir com medo, ou de fugir de um confronto. Erec tinha encontrado nela o seu par perfeito: ela era tão nobre e tão determinada quanto ele. De modo que não haveria nenhuma maneira de que ela pudesse viver em paz consigo mesma, se alguma coisa acontecesse com ele lá atrás, naquele campo de batalha.

Como Alistair conhecia bem aquela cidade real, ela dirigiu Warkfin para o castelo do Duque sem dificuldade; agora que estavam dentro dos portões, o animal lhe obedecia. Ela cavalgou até a entrada do castelo, desmontou e passou correndo pelos atendentes, os quais tentaram impedi-la. Ela limpou suas mãos e correu pelos corredores de mármore que tinha conhecido tão bem durante o tempo em que havia trabalhado ali como serva.

Alistair enfiou-se pelas grandes portas reais da sala principal, abriu- as de par em par e invadiu os aposentos privados do Duque.

Vários membros do conselho se viraram para olhar para ela, todos vestiam trajes reais, o Duque estava sentado no centro com vários cavaleiros em torno dele. Todos os rostos tinham uma expressão atônita; era evidente que ela tinha interrompido algum negócio importante.

“Quem é você, mulher?” Exclamou um deles.

“Quem ousa interromper os assuntos oficiais do Duque?” Gritou outro.

“Eu reconheço esta mulher.” Disse o Duque ao levantar-se.

“Eu também.” Disse Brandt, a quem ela reconheceu como o amigo de Erec. “A senhora é Alistair, não é?” Perguntou ele. “A futura esposa de Erec?”

Ela correu em direção a ele banhada em lágrimas e apertou suas mãos.

“Por favor, meu senhor, ajude-me. Trata-se de Erec!”

“O que aconteceu?” O Duque perguntou alarmado.

“Ele encontra-se em grande perigo. Neste exato momento, ele enfrenta um exército hostil, sozinho! Ele não me deixou ficar lá com ele. Por favor! Ele precisa de ajuda!”

Sem dizer uma palavra, todos os cavaleiros se levantaram e começaram a sair da sala correndo, nenhum deles hesitou; ela virou-se e correu com eles.

“Fique aqui!” Brandt exortou.

“Nunca!” Ela disse, correndo atrás dele. “Eu vou levá-los até ele!”

Todos correram como se fossem um só pelos corredores, em direção aos portões do castelo, onde um grande grupo de cavalos os esperava, cada um deles montou seu cavalo sem um momento de hesitação. Alistair saltou sobre Warkfin, o esporou e liderou o grupo, ela estava tão ansiosa para partir como o resto deles.

À medida que avançavam através da corte do Duque, os soldados ao redor deles começaram a montar seus cavalos e a juntar-se a eles. No momento em que deixaram os portões de Savária, eles estavam acompanhados por um grande e crescente contingente de pelo menos cem homens. Alistair cavalgava na frente, ao lado de Brandt e do Duque.

“Se Erec descobrir que você cavalga conosco, minha cabeça vai rolar.” Disse Brandt cavalgando ao seu lado. “Por favor, minha senhora, diga-nos onde ele está.”

Mas Alistair balançou a cabeça obstinadamente, secando as lágrimas com as costas da mão enquanto cavalgava mais rápido, com o grande estrondo de todos aqueles homens ao seu redor.

“Eu prefiro descer para minha sepultura, a abandonar Erec!”




CAPÍTULO TRÊS


Thor cavalgava cautelosamente pela trilha da floresta, Reece, O’Connor, Elden e os gêmeos cavalgavam ao lado dele, Krohn como sempre ia em seus calcanhares, todos estavam saindo pela floresta para o outro lado do Canyon. O coração de Thor batia mais rápido devido à ansiedade. Finalmente, eles chegaram ao perímetro da densa floresta. Thor levantou a mão e fez um sinal para os outros, para que eles ficassem em silêncio e todos eles ficaram parados ao lado dele.

Thor olhou ao redor e examinou a grande extensão da costa, do céu aberto e mais além de tudo isso, olhou para o vasto mar amarelo que iria levá-los para as terras distantes do Império. O Tartuvian. Thor não tinha visto suas águas desde a sua viagem para A Centena. Era estranho estar de volta e dessa vez, com uma missão que portava o destino do Anel.

Depois de atravessar a ponte do Canyon, sua curta viagem através da floresta e pelas terras dos selvagens foi tranquila, sem incidentes. Thor havia sido instruído por Kolk e Brom a procurar um pequeno barco atracado às margens do Tartuvian. O barco estava escondido cuidadosamente sob os galhos de uma árvore imensa, os quais pendiam sobre o mar. Thor seguiu suas instruções com exatidão e quando eles alcançaram o perímetro da floresta, logo ele avistou o barco bem escondido, pronto para levá-los aonde eles precisavam ir. Ele ficou aliviado.

Mas logo depois, ele viu seis soldados do Império, de pé na areia, ao lado do barco, inspecionando-o. Outro soldado havia subido a bordo do barco que estava parcialmente atracado na praia e balançava suavemente sobre as ondas. Não era de se esperar que houvesse alguém ali.

Era um golpe de má sorte. Ao olhar além do horizonte, Thor viu o contorno distante do que parecia ser toda a frota do Império, milhares de navios negros que ondulavam as bandeiras negras do Império. Felizmente, eles não navegavam na direção de Thor, mas em um sentido diferente, o curso longo e circular que rodeava o Anel e os levava para o lado dos McCloud, onde eles tinham invadido o Canyon. Felizmente, sua frota estava ocupada percorrendo uma rota diferente.

Exceto por aquela patrulha. Aqueles seis soldados do Império, provavelmente seriam exploradores em uma missão de rotina. De alguma forma, eles chegaram a tropeçar com aquele navio da Legião. Era um mau momento. Se Thor e os outros simplesmente tivessem chegado à costa alguns minutos mais cedo, provavelmente já teriam embarcado e zarpado. Agora, eles tinham um confronto em suas mãos. Não havia nenhuma outra opção.

Thor examinou a praia de cima a baixo e não viu outros contingentes de tropas do Império. Pelo menos ele tinha isso a seu favor. Provavelmente, aquele fosse o único grupo de patrulha existente.

“Eu pensei que o barco estaria bem escondido.” O’Connor disse.

“Aparentemente, não muito bem escondido.” Elden recalcou.

Os seis permaneceram montados em seus cavalos, olhando para o barco e para o grupo de soldados.

“Não vai demorar muito até que eles alertem outras tropas do Império.” Observou Conven.

“E então nós vamos ter uma guerra total em nossas mãos.” Acrescentou Conval.

Thor sabia que eles estavam certos e que aquele era um risco que eles não podiam correr.

“O’Connor.” Disse Thor. “… A sua pontaria é a melhor do grupo. Eu vi você acertar um alvo a quase cinquenta metros de distância. Você está vendo aquele homem ali na proa? Nós temos uma chance. Você pode fazer isso?”

O’Connor assentiu solenemente, seus olhos estavam fixos nos soldados do Império. Ele estendeu a mão calculadamente por cima do ombro, ergueu seu arco, colocou a flecha e apontou.

Todos eles estavam olhando para Thor e ele se sentiu pronto para liderar.

“O’Connor, ao meu sinal, dispare. Logo, nós vamos atacar os que estão lá embaixo. Todos os demais usem suas armas de arremesso quando chegarmos mais perto. Mas antes, tentem chegar o mais próximo possível.”

Thor fez um sinal com a mão e de repente, O’Connor soltou a corda e disparou a flecha.

A flecha atravessou o ar com um ruído sibilante. Foi um tiro perfeito, sua ponta de metal perfurou o coração do soldado do Império, que estava na proa. Por um momento, o soldado ficou ali, com os olhos arregalados como se ele não entendesse o que estava acontecendo, então de repente ele esticou bem os braços e caiu para a frente, de cara, em um mergulho. Seu corpo produziu o ruído de uma onda ao aterrissar na praia, aos pés de seus companheiros, manchando a areia de vermelho.

Thor e seu grupo atacaram, eles formavam uma máquina de guerra bem lubrificada, em perfeita sincronia uns com os outros. O som do galope de seus cavalos os delatou. Os seis outros soldados se viraram e os encararam. Thor e seus soldados, montados em seus cavalos, avançaram de volta, preparando-se para encontrar-se com eles no meio do caminho.

Thor e seus homens ainda tinham a vantagem da surpresa. Thor se inclinou para trás e atirou uma pedra com sua funda, atingindo um deles na têmpora desde uma distância aproximada de vinte metros. O jovem foi atingido enquanto estava tentando montar seu cavalo. Ele caiu para trás já morto, com as rédeas ainda em suas mãos.

Ao aproximar-se deles, Reece lançou seu machado, Elden arremessou sua lança e cada um dos gêmeos atirou seu punhal. A superfície das areias era desnivelada e os cavalos escorregavam, fazendo com que o arremesso das armas fosse mais difícil do que o habitual. O machado de Reece atingiu o seu alvo, matando um soldado inimigo, mas a pontaria dos outros falhou.

Agora restavam quatro deles. O líder do grupo irrompeu entre os soldados e avançou direto para Reece, quem estava desarmado. Reece tinha lançado o machado, mas ainda não tinha tido tempo de desembainhar a espada. Reece se preparou e no último segundo Krohn pulou para a frente e mordeu a perna do cavalo do soldado, o cavalo caiu, seu cavaleiro foi ao chão e a vida de Reece foi poupada no último momento.

Reece desembainhou a espada e apunhalou o soldado que estava aos seus pés, matando-o antes que ele pudesse se recuperar.

Isso reduzia o inimigo a apenas três homens. Um deles veio para Elden com um machado, balançando-o direto para a cabeça dele; Elden bloqueou-o com seu escudo e com o mesmo movimento balançou sua espada e cortou o cabo do machado ao meio. Então Elden virou-se e golpeou fortemente o atacante em um lado da cabeça com seu escudo, derrubando-o do cavalo.

Outro soldado puxou um mangual da cintura e balançou sua longa corrente, a ponta dele estava cheia de puas e veio descendo repentinamente sobre O’Connor. Tudo aconteceu muito rápido e O’Connor não tinha tempo para reagir.

Thor viu o que estava por suceder e avançou para o lado de seu amigo, levantando a espada e cortando a corrente do mangual, antes que ela atingisse O’Connor. Ouviu-se o som produzido pela espada ao cortar o ferro e Thor ficou maravilhado ao perceber o quanto sua espada era afiada. A bola cheia de saliências pontudas saiu voando baixo sem causar danos e se alojou na areia, salvando a vida de O’Connor. Conval então cavalgou até o soldado e o atravessou com uma lança, matando-o instantaneamente.

O último soldado do Império viu que estava em franca desvantagem; o medo era visível em seus olhos, de repente, ele se virou e foi embora, correndo pela praia. As marcas profundas dos cascos de seu cavalo ficaram impressas na areia.

Todos eles voltaram seus olhos para o soldado em retirada: Thor atirou uma pedra com sua funda, O’Connor levantou seu arco e disparou e Reece arremessou uma lança. Mas o soldado cavalgava de uma forma demasiado irregular, o cavalo afundava na areia e todos eles falharam o alvo.

Elden desembainhou a espada e Thor podia ver que ele estava prestes a perseguir o homem. Thor estendeu a mão e fez um gesto para ele ficar parado.

“Não vá!” Thor exclamou.

Elden se virou e olhou para ele.

“Se ele escapar, ele enviará outros atrás de nós!” Elden protestou.

Thor virou-se e olhou para o barco, ele sabia que levaria um tempo precioso caçar o soldado inimigo – era um tempo que eles não podiam desperdiçar.

“O Império virá atrás de nós de todas as maneiras.” Disse Thor. “Nós não temos tempo a perder. O mais importante agora é ficar bem longe daqui. Para o barco!”

Eles desmontaram dos cavalos quando chegaram ao barco e Thor começou a esvaziar a sela de seu cavalo, retirando dela todas as provisões. Os outros fizeram o mesmo, carregando suas armas, seus sacos de comida e água. Quem poderia saber quanto tempo a viagem duraria, quanto tempo lhes tomaria até que eles vissem terra firme de novo, se é que eles veriam terra novamente. Thor também carregou comida para Krohn.

Eles jogaram os sacos para o alto, por cima da varanda do barco; os sacos caíram no convés acima deles, com um baque surdo.

Thor pegou a grossa corda que estava pendurada sobre a lateral do barco, a corda áspera machucava suas mãos, ele testou-a. Ele colocou Krohn por cima do ombro, o peso de ambos punha a prova seus músculos, ele subiu pela corda, em direção ao convés. Krohn gemia em seu ouvido, abraçava-se ao seu peito com suas garras afiadas, agarrando-se a Thor com força.

Logo Thor estava sobre a varanda, Krohn pulou de cima dele direto para o convés e os outros o seguiram de perto. Thor inclinou-se e olhou para os cavalos na praia, eles olhavam para cima, como se estivessem à espera de um comando.

“E o que vai ser deles?” Reece perguntou ao vir para o lado de Thor.

Thor virou-se e examinou o barco: ele talvez tivesse uns seis metros de comprimento e metade disso de largura. Era grande o suficiente para os sete, mas não para os seus cavalos. Se eles tentassem levá-los, os cavalos podiam destroçar a madeira e danificar o barco. Eles tinham de deixá-los para trás.

“Nós não temos escolha.” Thor disse, olhando penosamente para eles. “Nós vamos ter de conseguir outros.”

O’Connor inclinou-se sobre a varanda.

“Eles são cavalos inteligentes.” O’Connor disse. “Eu os treinei bem. Eles vão voltar para casa a um comando meu.”

O’Connor deu um assobio agudo.

Como se fossem um, os cavalos se viraram e saíram galopando, correndo pela areia e desaparecendo na floresta, voltando para o Anel.

Thor se virou e olhou para seus irmãos, olhou para o barco e para o mar diante deles. Agora, eles estavam isolados, sem cavalos, não tinham escolha a não ser seguir em frente. A realidade os estava golpeando. Eles estavam realmente sozinhos, sem nada mais além daquele barco e a ponto de partir da costa do Anel de maneira definitiva. Agora não havia como voltar atrás.

“E como é que vamos conseguir levar esse barco para a água?” Perguntou Conval. Todos olharam para baixo, para o casco a três metros abaixo. Uma pequena parte dele estava sobre as ondas do Tartuvian, mas a maior parte estava assentada firmemente na areia.

“Por aqui!” Conven disse.

Eles correram para o outro lado, onde uma corrente de ferro grossa pendia sobre a borda e em cuja parte inferior havia uma imensa bola de ferro metida na areia.

Conven se abaixou e puxou a corrente. Ele gemia e se esforçava, mas não conseguia levantá-la.

“É pesada demais.” Ele resmungou.

Conval e Thor correram para perto e o ajudaram, então os três agarraram a corrente e puxaram-na, Thor ficou chocado com o seu peso: mesmo com os três puxando, eles só puderam levantá-la alguns metros. Finalmente, todos eles a soltaram e ela caiu de volta na areia.

“Deixe-me ajudar.” Elden disse dando um passo à frente.

Com sua enorme massa muscular Elden se elevava sobre eles, ele estendeu a mão e puxou a corrente, conseguindo levantar a bola de ferro no ar, sozinho. Thor estava espantado. Os outros se uniram a ele e todos eles puxavam juntos a âncora, trinta centímetros de cada vez até que finalmente conseguiram subi-la por cima da varanda, para o convés.

O barco começou a se mover, balançando um pouco nas ondas, mas permanecia atascado na areia.

“As varas!” Reece disse.

Thor se virou e viu duas varas de madeira, de cerca de seis metros de comprimento cada, colocadas ao longo dos lados do barco e então ele percebeu para que elas serviam. Ele e Reece correram até elas, ele pegou uma, enquanto Conval e Conven agarraram a outra.

“Quando nos soltarmos.” Thor exclamou. “… Vocês deverão levantar as velas!”

Eles se inclinaram, meteram as varas na areia e empurraram com todas as forças; Thor gemia com o esforço. Aos poucos, o barco começou a se mover, mas apenas um pouquinho. Enquanto isso, Elden e O’Connor correram para o meio do barco e puxaram as cordas para levantar as velas de lona, eles levantavam as velas com esforço, uns trinta centímetros a cada movimento. Felizmente havia uma brisa forte e enquanto Thor e os outros empurravam cada vez mais aquele barco surpreendentemente pesado para fora da areia, as velas se içavam cada vez mais alto e começaram a inflar-se com o vento.

Finalmente, o barco balançou abaixo deles e deslizou para a água, flutuando, leve. Os ombros de Thor tremiam com o esforço. Elden e O’Connor levantaram as velas a todo mastro e logo estavam singrando o mar.

Todos eles soltaram um grito de triunfo enquanto colocavam as varas de volta no lugar e correram para ajudar Elden e O’Connor a sujeitar as cordas. Krohn uivou ao lado deles, animado com tudo.

O barco estava à deriva e Thor correu para o leme, O’Connor ia ao lado dele.

“Quer ficar ao leme?” Thor perguntou a O’Connor.

O’Connor sorriu de orelha a orelha.

“Eu adoraria.”

Eles começaram a ganhar velocidade real, cruzando as águas amarelas do Tartuvian com o vento em suas costas. Finalmente, eles estavam se movendo e Thor respirou fundo. Eles estavam partindo.

Thor se encaminhou para a proa, Reece ia ao lado dele, enquanto isso Krohn surgiu entre eles e encostou-se na perna de Thor, Thor estendeu a mão e acariciou sua pele branca e macia. Krohn se inclinou e o lambeu; Thor pegou um pequeno saco e tirou dele um pedaço de carne para Krohn, quem o abocanhou rapidamente.

Thor olhou para o vasto mar diante deles. O horizonte distante estava salpicado de navios negros do Império, seguramente eles seguiam seu caminho para o lado do Anel dos McCloud. Felizmente, eles estavam distraídos e não era possível que estivessem à procura de um barco solitário que se dirigia para o seu território. O céu estava claro, o vento soprava forte por trás deles e eles continuaram a ganhar velocidade.

Thor olhou em volta e se perguntava sobre o que os aguardava. Ele se perguntava quanto tempo levaria até que chegassem até as terras do Império e o que poderia estar esperando para recepcioná-los. Ele se perguntava como eles iriam encontrar a espada, como tudo isso acabaria. Ele sabia que tudo estava contra eles, mas ainda se sentia animado por finalmente estar de viagem. Ele estava emocionado por terem chegado tão longe e realmente ansioso para recuperar a Espada.

“O que acontecerá se ela não estiver lá?” Perguntou Reece.

Thor se virou e olhou para ele.

“A espada.” Reece acrescentou. “O que acontecerá se ela não estiver lá? Ou se ela estiver perdida? Ou se foi destruída? Ou até mesmo se nós nunca chegarmos a encontrá-la? Afinal de contas, o Império é muito vasto.”

“E se o Império já descobriu como lidar com ela?” Perguntou Elden com sua voz profunda, chegando perto deles.

“E se a gente encontrá-la, mas não puder trazê-la de volta?” Perguntou Conven.

O grupo ficou ali, oprimido por tudo o que estava diante deles, pelo mar de perguntas sem resposta. Aquela viagem era uma loucura, Thor sabia.

Uma loucura.




CAPÍTULO QUATRO


Gareth passeava sobre os pisos de pedra da biblioteca de seu pai, era uma pequena câmara no último andar do castelo, a qual seu pai havia mantido com muito carinho. Gareth pouco a pouco estava se encarregando de reduzi-la a pedaços.

Gareth ia de estante em estante puxando para baixo os volumes preciosos, livros antigos encadernados em couro que estavam na família há séculos. Ele destroçava as encadernações e rasgava as páginas em pedacinhos. Enquanto ele os jogava pelos ares, eles caíam sobre sua cabeça como se fossem flocos de neve, se aderiam ao seu corpo e a baba que escorria pelo seu rosto. Ele estava determinado a destroçar até a última coisa daquele lugar que seu pai tanto havia amado, um livro de cada vez.

Gareth correu para uma mesa de canto, pegou seu cachimbo de ópio e com as mãos trêmulas inalou fortemente o que restava nele, precisando de uma tragada mais do que nunca, naquele momento. Ele estava viciado e fumava cada minuto que podia, determinado a bloquear as imagens de seu pai. Elas o perseguiam em seus sonhos e agora faziam isso até mesmo quando ele estava acordado.

Quando Gareth baixou o cachimbo, ele viu seu pai de pé diante dele, seu aspecto era o de um cadáver em decomposição. Cada vez que o cadáver aparecia estava mais deteriorado, era mais osso do que carne; Gareth desviou o olhar da terrível visão.

Gareth costumava tentar atacar a imagem, mas ele aprendeu que isso não adiantava nada. Então, agora ele apenas virava a cabeça e olhava constantemente para longe. Era sempre a mesma coisa: o seu pai usava uma coroa enferrujada, sua boca estava aberta, seus olhos o fitavam com desprezo e seu dedo sempre esticado apontava acusadoramente para ele. Sob aquele olhar terrível, Gareth sentia que seus próprios dias estavam contados, sentia que era apenas uma questão de tempo até que ele se juntasse ao pai. Gareth odiava vê-lo mais do que qualquer coisa. O benefício extra que Gareth obteve ao assassinar seu pai tinha sido o fato de que ele não precisaria ver o rosto dele novamente. Mas agora, ironicamente, ele o via mais do que nunca.

Gareth virou-se e atirou o cachimbo de ópio na aparição, na esperança de que se ele o jogasse com rapidez suficiente, o cachimbo poderia realmente atingi-la.

Mas o cachimbo simplesmente voou pelos ares e bateu contra a parede, despedaçando-se. Seu pai ainda estava ali e olhava para ele.

“Essas drogas não irá ajudá-lo agora.” Seu pai ralhou.

Gareth não aguentou mais. Ele avançou para a aparição com as mãos estendidas pronto para arranhar o rosto de seu pai; mas como sempre, ele não encontrou nada além de ar. Dessa vez ele saiu tropeçando pelo quarto, colidiu com força na mesa de madeira de seu pai e desabou no chão junto com ela.

Gareth rolou no chão, sem fôlego, ele olhou para cima e viu que tinha cortado seu braço. O sangue escorria pela sua camisa, ele olhou para baixo e percebeu que ainda usava o camisolão com a qual tinha dormido durante dias; na verdade, ele não tinha trocado de roupa há semanas. Ele olhou de relance para o seu reflexo e viu que seu cabelo estava totalmente desgrenhado; ele parecia um bandido qualquer. Uma parte dele mal podia acreditar que tinha caído tão baixo. Mas outra parte dele já não se importava mais. A única coisa que restava dentro dele era um desejo ardente de destruir – destruir qualquer resquício de seu pai, ou do que ele alguma uma vez havia sido. Ele gostaria de ver aquele castelo arrasado e com ele toda a Corte do Rei. Seria a vingança pelo tratamento que ele havia suportado quando criança. As lembranças estavam presas dentro dele como um espinho que não podia sair. A porta do escritório de seu pai se abriu de par em par e por ela passou correndo um dos assistentes de Gareth, ele olhava para baixo com medo.

“Majestade.” O atendente disse. “Eu ouvi um estrondo. Vossa Majestade se encontra bem? Vossa majestade está sangrando!”

Gareth olhou para o jovem, com ódio. Gareth tentou ficar de pé e lançar-se sobre ele, mas escorregou em algo e caiu de costas para o chão, desorientado desde sua última tragada de ópio.

“Majestade, eu o ajudarei!”

O jovem correu e agarrou o braço de Gareth, o qual estava muito fino, ele estava pura pele e ossos.

Mas Gareth ainda tinha uma reserva de forças e quando o rapaz tocou em seu braço, ele deu-lhe um empurrão que o mandou para o outro lado da sala.

“Toque-me outra vez e eu deceparei suas mãos.” Gareth vociferou.

O jovem recuou com medo e quando ele o fez, outro atendente entrou na sala, acompanhado por um homem mais velho a quem Gareth vagamente reconhecia. Em algum lugar, no recôndito de sua mente, ele o conhecia, mas não podia identificá-lo.

“Majestade.” Ouviu-se a voz velha e rouca. “Nós estivemos esperando-o na sala do conselho durante a metade do dia. Os membros do conselho não podem esperar muito mais. Eles têm notícias urgentes e devem compartilhá-las com Vossa Majestade antes do fim do dia. Vossa Majestade virá?”

Gareth estreitou os olhos para o homem, tentando distingui-lo. Ele se lembrava vagamente de que o homem tinha servido ao seu pai. A Sala do conselho… A sessão… Tudo dava voltas em sua mente como um turbilhão.

“Quem é você?” Perguntou Gareth.

“Majestade, eu sou Aberthol. O conselheiro de confiança de seu pai.” Disse ele, ao aproximar-se. Ele foi lentamente recobrando a memória. Aberthol. O conselho. A sessão. A mente de Gareth dava voltas, sua cabeça o estava matando. Ele só queria que o deixassem em paz.

“Vá embora.” Ele retrucou. “Eu irei.”

Aberthol balançou a cabeça e saiu apressado da sala junto com o atendente, fechando a porta atrás de si.

Gareth se ajoelhou ali e colocou a cabeça entre as mãos, tentando pensar, lembrar. Era demais para ele. Ele começou recordar aos poucos. O escudo estava inativo; o Império estava atacando; metade de sua corte havia desertado; sua irmã os havia levado para longe; para Silésia… Gwendolyn… Era isso. Isso era o que ele estava tentando lembrar.

Gwendolyn. Ele a odiava com uma paixão que não podia descrever. Agora, mais do que nunca, ele queria matá-la. Ele precisava matá-la. Todos os seus problemas nesse mundo, todos eles resultavam dela. Ele iria encontrar uma maneira de ocupar-se dela, mesmo que ele tivesse de morrer tentando. E ele iria matar seus outros irmãos, proximamente.

Gareth se sentiu melhor ao pensar nisso.

Com um esforço supremo, ele lutou para ficar de pé e cambaleou pela sala virando uma mesa de pernas para cima enquanto se retirava. Ao aproximar-se da porta, ele avistou um busto de seu pai esculpido em alabastro, era uma escultura que seu pai havia amado muito, ele estendeu a mão, agarrou o busto pela cabeça e jogou-a contra a parede.

O busto quebrou-se em mil pedaços, pela primeira vez naquele dia, Gareth sorriu. Talvez aquele dia não fosse tão ruim, afinal de contas.


*

Gareth desfilou pela sala do conselho ladeado por vários atendentes, abrindo as enormes portas de carvalho com a palma da mão, fazendo com que todos na Sala lotada se sobressaltassem com sua presença. Todos eles rapidamente se levantaram em reverência.

Embora normalmente isso desse Gareth alguma satisfação, naquele dia, isso estava longe de importar-lhe. Ele estava atormentado pelo fantasma de seu pai e mergulhado numa crescente raiva devido à partida de sua irmã. Suas emoções se agitavam dentro dele e ele tinha de desforrar-se com o mundo.

Gareth tropeçava enquanto caminhava pelo centro do corredor em direção ao seu trono. Ele seguia através da vasta câmara sob o entorpecimento produzido pelo ópio. Dezenas de conselheiros permaneciam de pé, de cada lado do corredor, enquanto ele prosseguia. Sua corte tinha crescido e hoje a energia era frenética, já que mais e mais pessoas pareciam ter tomado conhecimento da notícia da partida da metade da Corte do Rei e de que o escudo estava inativo. Era como se qualquer um que tivesse permanecido na corte estivesse ali em busca de respostas.

E Gareth, é claro, não tinha nenhuma.

Gareth subiu pomposamente os degraus da escadaria de marfim que levava ao trono de seu pai. Logo ele viu Lorde Kultin parado pacientemente, de pé atrás do trono. Ele era o líder mercenário de sua força de combate privada, o único homem de confiança que restava na corte. Ao lado dele, havia dezenas de seus combatentes, de pé em silêncio, com as mãos sobre as suas espadas, prontos para lutar por Gareth até a morte. Isso era a única coisa que restava que dava a Gareth algum conforto.

Gareth estava sentado em seu trono e examinava a sala. Havia tantos rostos, alguns que ele conhecia e muitos outros desconhecidos. Ele não confiava em nenhum deles. Todos os dias ele expurgava mais sua corte; ele já havia enviado tantos para as masmorras e muitos mais para o carrasco. Não passava um dia sem que ele mandasse matar pelo menos um punhado de homens. Ele pensava que era uma boa política: ele mantinha seus homens na linha e evitava que um golpe tomasse forma.

A sala ficou em silêncio, todos olhavam para ele assombrados. Todos pareciam ter medo de falar. E era exatamente isso o que ele queria. Nada o emocionava mais que infundir medo em seus súditos.

Finalmente, Aberthol avançou, seu bastão ecoava ao golpear o chão de pedra, ele limpou a garganta.

“Majestade.” Ele começou a falar com sua voz antiga. “Estamos diante de um momento de grande confusão na corte. Eu não sei se as notícias já chegaram até Vossa Majestade: o escudo foi desativado; Gwendolyn deixou a corte e levou consigo Kolk, Brom, Kendrick, Atme, o Exército Prata, a Legião e metade de seu exército, juntamente com metade da Corte do Rei. Os que ficaram aqui recorrem a Vossa Majestade em busca de orientação e desejam saber qual será o próximo passo. As pessoas querem respostas, Majestade.”

“Além disso…” Disse  outro membro do conselho, a quem  Gareth reconheceu vagamente. “… Se espalhou a notícia de que o Canyon já foi invadido. Há rumores de que Andronicus invadiu o lado McCloud do Anel, com o seu exército de um milhão de homens.”

Um suspiro indignado espalhou-se por toda a sala; dezenas de bravos guerreiros sussurraram uns para os outros, invadidos pelo medo e um estado de pânico se espalhou como o fogo.

“Isso não pode ser verdade!” Exclamou um dos soldados.

“É verdade!” Insistiu o membro do conselho.

“Então toda a esperança está perdida!” Gritou outro soldado. “Se os McClouds foram invadidos, então o Império virá para Corte do Rei logo depois. Não há nenhuma maneira de que nós possamos repelir o seu ataque.”

“Nós devemos discutir os termos de nossa rendição, Majestade.” Aberthol disse para Gareth.

“Rendição?” Gritou outro homem. “Nós nunca nos renderemos!”

“Se nós não nos rendermos.” Gritou outro soldado. “Nós seremos aniquilados. Como poderemos enfrentar um milhão de homens?”

A sala irrompeu em um murmúrio indignado, os soldados e os conselheiros discutiam uns com os outros, todos em completa desordem.

O líder do conselho bateu com seu bastão de ferro no chão de pedra e gritou:

“ORDEM!”

Aos poucos, todos na sala se acalmaram. Todos os homens se viraram e olharam para ele.

“Estas são todas decisões para serem tomadas por um rei, não por nós.” Disse um dos homens do conselho. “Gareth é o rei legítimo e não é de nossa incumbência discutir os termos da rendição, ou até mesmo se nós realmente nos renderemos.”

Todos eles se voltaram para Gareth.

“Majestade.” Aberthol disse demonstrando cansaço em sua voz. “Como propõe que lidemos com o exército do Império?”

A sala caiu em um silêncio mortal.

Gareth permaneceu sentado ali, olhando para os homens, querendo responder. Mas estava ficando cada vez mais difícil para ele pensar com clareza. Ele continuava a ouvir a voz do pai em sua cabeça, gritando com ele, como quando ele era criança. A voz o estava deixando louco, ela simplesmente não ia embora.

Gareth estendeu a mão e arranhou o braço de madeira do trono, uma e outra vez. O som de suas unhas arranhando era o único que se ouvia na sala.

Os membros do conselho trocaram um olhar preocupado.

“Meu soberano.” Outro conselheiro interpelou. “Se Vossa Majestade optar por não se render, então devemos fortalecer a corte imediatamente. Devemos proteger todas as entradas, todos os caminhos, todos os portões. Temos de convocar todos os soldados, preparar as defesas. Devemos nos preparar para um cerco, armazenar comida e ração, proteger os nossos cidadãos. Há muito a ser feito. Por favor, meu senhor. Dê-nos instruções. Diga-nos o que fazer.”

Mais uma vez, a sala ficou em silêncio enquanto todos os olhos permaneceram fixos em Gareth.

Finalmente, Gareth levantou o queixo e olhou para eles.

“Nós não lutaremos contra o Império.” Declarou ele. “Tampouco vamos nos entregar.”

Todos na sala se entreolharam, confusos.

“Então o que devemos fazer, Majestade?” Perguntou Aberthol.

Gareth pigarreou.

“Nós vamos matar Gwendolyn!” Declarou ele. “Isso é tudo o que me importa agora.”

O que seguiu foi um silêncio chocante.

“Gwendolyn?” Um conselheiro exclamou perplexo, enquanto todos na sala irromperam em outro murmúrio de surpresa.

“Nós enviaremos todas as nossas forças atrás dela, para matá-la junto com todos aqueles que a acompanharam, antes que eles cheguem a Silésia.” Gareth anunciou.

“Mas, Majestade, como isso nos ajudaria? “Um conselheiro indagou. “Se nos aventurarmos a sair para atacá-la, estaremos unicamente expondo as nossas forças. Todos os nossos homens seriam cercados e massacrados pelo Império.”

“Isso também deixaria Corte do Rei vulnerável diante de um ataque!” Gritou outro. “Se nós não vamos nos render, devemos fortalecer Corte do Rei imediatamente!”

Um grupo de homens gritou em concordância.

Gareth virou-se e olhou para o conselheiro, seu olhar era frio.

“Nós usaremos todos os homens que tivermos para matar a minha irmã!” Disse ele sombriamente. “Não pouparemos nem sequer um!”

A sala ficou em silêncio. Um conselheiro empurrou sua cadeira para trás, raspando-a contra o chão de pedra e ficou de pé.

“Eu não verei a Corte do Rei arruinada por sua obsessão pessoal. Eu, da minha parte, não estou com Vossa Majestade!”

“Nem eu!” exclamou a metade dos homens ali na sala.

Gareth ficou furioso, sua raiva era crescente, ele estava prestes a levantar-se quando de repente, as portas da sala se abriram e por elas entrou apressadamente o último comandante que restava do seu antigo exército. Todos os olhos pousaram sobre ele. Ele arrastava um homem em seus braços, um rufião barbudo, com cabelos oleosos e desgrenhados, seus pulsos estavam atados. O comandante arrastou o homem por todo o caminho até o centro da sala e parou diante do rei.

“Majestade.” Disse o comandante friamente. “Este homem seria o sétimo, dos seis ladrões executados pelo roubo da Espada do Destino, ele foi o único que escapou. Ele conta a história mais incrível sobre o que aconteceu.

“Fale!” O comandante incitou, sacudindo o rufião.

O bandido olhou nervosamente em todas as direções, ele parecia inseguro, o cabelo sebento grudava em seu rosto. Por fim, ele gritou:

“Recebemos a ordem de roubar a espada!”

Todos na sala irromperam em um murmúrio indignado.

“Nós éramos dezenove!” O rufião continuou. “Uma dúzia de homens deveria levá-la daqui, protegidos pela escuridão, para o outro lado da ponte do Canyon e depois para a floresta. Eles a esconderam em uma carreta e a escoltaram através da ponte, para que os soldados que estavam de guarda não tivessem nenhuma ideia do que estava dentro. Os outros, nós sete, fomos obrigados a ficar para trás após o roubo. Nós fomos informados de que seríamos presos, como uma demonstração de justiça e depois nos deixariam em liberdade. Mas em vez disso, todos meus amigos foram executados. Eu também teria sido, se eu não tivesse escapado.”

A sala foi inundada por um murmúrio longo, agitado.

“E para onde eles estavam levando a espada?” O comandante pressionou.

“Eu não sei. Talvez, para algum lugar bem profundo do Império.”

“E quem ordenou tal coisa?”

“Ele!” O bandido disse de repente, virando-se e apontando um dedo ossudo para Gareth. “O nosso rei! Ele nos ordenou a fazer isso!”

A sala irrompeu em um murmúrio horrorizado, os gritos continuaram elevando-se, até que finalmente, um conselheiro bateu com o bastão de ferro várias vezes e gritou por silêncio.

A sala se acalmou a duras penas.

Gareth, já tremendo de medo e raiva, levantou-se lentamente de seu trono, a sala foi se acalmando enquanto todos os olhos caíam sobre ele.

Gareth desceu os degraus de marfim, um de cada vez, seus passos ecoavam na sala, o silêncio era tão espesso que podia ser cortado com uma faca.

Gareth atravessou a sala, até que finalmente chegou até o rufião. Ele olhou friamente para o bandido desde uma distância de trinta centímetros, o homem se contorcia nos braços do comandante, ele olhava para todos os lados, mas não olhava para Gareth.

“Só existe uma maneira de tratar os ladrões e os mentirosos no meu reino.” Gareth disse baixinho.

Gareth, repentinamente, puxou um punhal da cintura e mergulhou-o no coração do rufião.

O homem gritou de dor, seus olhos se arregalaram e de repente ele caiu no chão, morto.

O comandante olhou para Gareth, franzindo o cenho para ele.

“O senhor acabou de assassinar uma testemunha contrária.” Disse o comandante. “Por acaso não percebe que isso só serviu para insinuar ainda mais a sua culpa?”

“Qual testemunha?” Gareth perguntou com um sorriso irônico. “Homens mortos não falam.”

O comandante ficou vermelho.

“Para que não se esqueça, eu sou o comandante da metade do exército real. Eu não vou ser feito de bobo. Pelas suas ações, eu só posso supor que você é culpado do crime do qual foi acusado. Sendo assim, eu e meu exército já não o serviremos mais. Na verdade, eu vou levá-lo sob custódia, em razão da sua traição ao Anel!”

O comandante acenou para seus homens e como se fossem um só, várias dezenas de soldados sacaram suas espadas e se adiantaram para prender Gareth.

Lorde Kultin avançou com o dobro de seus próprios homens, todos desembainharam suas espadas e colocaram-se atrás de Gareth.

Eles ficaram ali, frente a frente com os soldados do comandante, Gareth estava no meio deles.

Gareth sorriu para o comandante, triunfante. Os homens do comandante estavam superados em número pela força de combate de Gareth e ele sabia disso.

“Eu não vou ficar sob a custódia de ninguém.” Gareth zombou. “E, certamente, não pela sua mão. Tome seus homens e deixe a minha corte, ou você sofrerá as consequências da ira da minha força de combate pessoal.”

Depois de alguns segundos de tensão, o comandante finalmente virou-se e fez um gesto para seus homens; todos eles se retiraram da sala simultaneamente, caminhando para trás com cautela e empunhando suas espadas.

“De hoje em diante…” O comandante explodiu. “… Quero seja do conhecimento de todos, que nós não lhe servimos mais! Você terá de enfrentar o exército do Império por sua conta. Espero que eles o tratem bem. Melhor do que você tratou seu pai!”

Os soldados saíram da sala pisando firme, produzindo um ruído enorme com suas armaduras.

Dezenas de conselheiros, atendentes e nobres que permaneceram na sala ficaram em silêncio, sussurrando.

“Retirem-se!” Gareth gritou. “TODOS VOCÊS!”

Todas as pessoas que ficaram na sala se dispersaram rapidamente, incluindo a própria força de combate restante, de Gareth.

Apenas uma pessoa permaneceu ali, mantendo-se atrás dos outros.

Lorde Kultin.

Ele e Gareth eram os únicos na sala. Ele caminhou até Gareth, parou a poucos metros de distância dele e examinava-o como se estivesse perscrutando-o. Como de costume, o seu rosto era inexpressivo. Era a face de um verdadeiro mercenário.

“Eu não me importo com o que você fez ou por quê.” Ele começou a dizer com sua voz rouca e sinistra. “Eu não me importo com a política. Eu sou um lutador. Eu me preocupo apenas com o dinheiro, com o meu pagamento e o dos meus homens.”

Ele fez uma pausa.

“No entanto, eu gostaria de saber, para satisfazer uma curiosidade pessoal: você realmente ordenou aos homens que levassem a espada para longe?”

Gareth olhou para o homem. Havia algo em seus olhos que ele reconheceu em si mesmo: eles eram frios, sem remorso, oportunistas.

“E daí se eu fiz isso?” Gareth perguntou de volta.

Lord Kultin olhou para ele por um bom tempo.

“Mas, por quê?” Ele perguntou.

Gareth olhou para ele em silêncio.

Os olhos de Kultin se arregalaram ao compreender o motivo.

“Você não pôde erguê-la, de modo que se você não pôde… ninguém mais poderia, não é?” Perguntou Kultin. “É isso?” Ele considerou as implicações. “Mesmo assim…” Kultin acrescentou. “… Você certamente sabia que enviá-la para longe desativaria o escudo, nos deixaria vulneráveis aos ataques.”

Os olhos de Kultin se arregalaram.

“Você desejava que nós fôssemos atacados, não é? Alguma coisa dentro de você deseja ver a corte destruída.” Disse ele, percebendo tudo de repente.

Gareth sorriu.

“Nem todos os lugares…” Disse Gareth devagar. “… Estão destinados a durar para sempre.”




CAPÍTULO CINCO


Gwendolyn marchava com o enorme séquito de soldados, assessores, assistentes, conselheiros, soldados do Exército Prata e da Legião e metade da corte real. Todos se assemelhavam a uma cidade ambulante, eles percorriam o seu caminho, afastando-se cada vez mais da Corte do Rei. Gwen estava dominada pela emoção. Por um lado, ela estava emocionada por finalmente estar livre de seu irmão, Gareth, por estar longe de seu alcance e cercada por guerreiros de confiança que poderiam protegê-la. Ela já não temia a traição ou ser casada contra sua vontade. Finalmente, ela não teria de andar cuidando-se a cada momento, de nenhum dos assassinos de Gareth.

Gwen também se sentia inspirada e lisonjeada por ter sido escolhida para governar e para liderar aquele enorme contingente de pessoas. A enorme comitiva a seguia como se ela fosse uma espécie de profeta, todos iam marchando pela estrada sem fim, com destino a Silésia. Eles a viam como seu governante, ela podia apreciar isso em cada olhar; todos olhavam para ela com muitas expectativas. Ela se sentia culpada, querendo que um de seus irmãos tivesse tal honra, qualquer um, exceto ela. No entanto, ela via quanta esperança o povo tinha ao encontrar nela um líder justo e equitativo e isso a fazia feliz. Se estivesse ao alcance dela cumprir aquele papel para eles, especialmente em tempos de escuridão, com certeza ela faria isso.

Gwen pensou em Thor, em seu triste adeus ali no Canyon e isso partiu seu coração. Ela viu-o desaparecer enquanto ele atravessava a ponte do Canyon, em meio à névoa, em uma viagem que muito provavelmente o conduziria até sua morte. Era uma valente e nobre missão, da qual ela não poderia privá-lo. Ela sabia que era uma missão para a qual ele tinha de partir, pelo bem do Reino, pelo bem do Anel. No entanto, ela também continuava perguntando-se por que tinha de ser justo ele. Ela desejou que pudesse ser qualquer outra pessoa. Agora, mais do que nunca, ela queria que ele estivesse ao seu lado. Naquele momento de turbulência, de grande transição, ela tinha sido deixada sozinha para governar, para levar seu filho, ela o queria ali. Mais do que tudo, ela se preocupava com ele. Ela não podia imaginar a vida sem ele; esse pensamento lhe deu vontade de chorar.

Mas Gwen respirou fundo e juntou forças, sabendo que todos os olhos estavam sobre ela enquanto todos marchavam em uma caravana interminável naquela estrada empoeirada, indo cada vez mais para o Norte, em direção à distante Silésia.

Gwen também estava ainda em estado de choque, dilacerada por causa de sua terra natal. Ela mal podia imaginar que o antigo escudo estava desativado, que o Canyon tinha sido invadido. Os rumores que circulavam, trazidos por espiões distantes, afirmavam que Andronicus já havia desembarcado na costa dos McClouds. Ela não podia ter a certeza sobre em que acreditar. Ela tinha muita dificuldade para entender como tudo tinha acontecido tão rapidamente, afinal, Andronicus ainda teria de enviar toda a sua frota através do oceano. A menos que McCloud, de alguma forma, estivesse por trás do roubo da espada e tivesse orquestrado a queda do escudo. Mas como? Como ele conseguiu roubá-la? Para onde ele a estaria levando?

Gwen podia sentir como todos ao seu redor estavam abatidos e ela não podia culpá-los. Havia um ar de desânimo no meio desta multidão e era por uma boa razão: sem o escudo, todos eles estavam indefesos. Era só uma questão de tempo, se Andronicus não invadisse naquele dia, então ele invadiria no dia seguinte, ou em breve. E quando ele fizesse isso, não haveria nenhuma maneira de que eles pudessem deter seus homens. Logo, aquele lugar e tudo o que ela tinha aprendido a amar e respeitar seriam conquistados e todos os que ela amava seriam mortos.

Todos marchavam, era como se estivessem marchando para a morte. Andronicus não estava ali ainda, mas eles já se sentiam como se tivessem sido capturados. Ela lembrou algo que seu pai tinha lhe dito uma vez: conquiste o coração de um exército e a batalha já está ganha.

Gwen sabia que dependia dela inspirar todos, fazê-los sentirem-se protegidos e ter uma sensação de segurança, ou mesmo, de otimismo. Ela estava determinada a fazê-lo. Ela não podia deixar que seus medos ou que um sentimento de pessimismo a dominassem em um momento como aquele. E ela se recusava a permitir-se mergulhar na autocompaixão. Não se tratava apenas dela. Tratava-se também daquelas pessoas, de suas vidas, de suas famílias. Eles precisavam dela. Todos eles contavam com a ajuda dela.

Gwen pensou em seu pai e perguntou-se o que ele faria. Isso a fez sorrir ao pensar nele. Ele teria exibido uma expressão corajosa, sem importar as circunstâncias. Ele sempre dizia a ela para esconder o medo na arrogância e enquanto ela recordava como havia sido a vida dele, ela percebeu que ele nunca aparentava ter medo. Nem sequer uma vez. Talvez fossem apenas aparências; mas eram boas aparências. Como líder, ele sabia que estava exposto em todos os momentos, sabia que as pessoas precisavam das aparências, talvez até mais do que da liderança. Ele era altruísta demais para deixar-se vencer por seus medos. Ela iria aprender com o seu exemplo. Ela tampouco se deixaria vencer pelo temor.

Gwen olhou em volta e viu Godfrey marchando ao seu lado, ao lado dele ia Illepra, a curandeira; os dois estavam envolvidos em uma conversa. Gwen tinha notado que os dois pareciam ter se apegado bastante um ao outro desde que Illepra tinha salvado a vida de Godfrey. Gwen desejava que seus outros irmãos estivessem ali também. Mas Reece tinha ido embora com Thor; quanto a Gareth, era óbvio que ele tinha desaparecido de sua vida para sempre e Kendrick ainda estava em seu posto, em algum lugar do Leste, ajudando a reconstruir aquela cidade remota. Ela tinha enviado um mensageiro até ele. Essa havia sido a primeira coisa que ela tinha feito. Ela rezou para que o mensageiro o alcançasse a tempo, para trazê-lo para Silésia, dessa forma, ele estaria com ela e ajudaria a defendê-la. Então, pelo menos, dois de seus irmãos: Kendrick e Godfrey poderiam refugiar-se em Silésia com ela; isso abrangia todos eles. Exceto, é claro, sua irmã mais velha, Luanda.

Pela primeira vez em muito tempo, os pensamentos de Gwen se voltaram para Luanda. Ela sempre teve uma rivalidade com sua irmã mais velha. Gwen não tinha tido a mais mínima surpresa quando Luanda aproveitou a primeira chance que teve de ir embora da Corte do Rei e casar-se com aquele McCloud. Luanda sempre foi ambiciosa e sempre quis ser a primeira em tudo. Gwendolyn a amava e a admirava quando ela era mais jovem; mas Luanda, tornou-se cada vez mais competitiva e não havia retribuído o seu amor. Depois de um tempo, Gwen parou de tentar.

No entanto, agora Gwen se sentia mal por Luanda; ela se perguntava o que teria acontecido com sua irmã depois que os McClouds foram invadidos por Andronicus. Será que ela havia sido assassinada? Gwen estremeceu com esse pensamento. Elas eram rivais, mas afinal de contas, elas ainda eram irmãs e ela não queria vê-la morta tão jovem.

Gwen pensou em sua mãe, o outro único membro de sua família deixado para trás, encalhado na Corte do Rei, com Gareth naquele estado. O pensamento lhe provocou um calafrio. Apesar de toda a raiva que ela ainda tinha de sua mãe, Gwen não queria que ela acabasse assim. O que aconteceria se a Corte do Rei fosse invadida? Será que sua mãe seria morta?

Gwen não podia deixar de sentir que sua vida, a qual tinha sido tão cuidadosamente construída, estava desabando ao seu redor. Parecia que tinha sido apenas ontem, em pleno auge do verão, que tinha sucedido o casamento de Luanda, uma festa gloriosa, toda a Corte do Rei transbordava com abundância, ela e sua família, estavam todos juntos, celebrando; o Anel era inexpugnável. Parecia que tudo duraria para sempre.

Agora tudo tinha se despedaçado totalmente. Nada era o que uma vez tinha sido.

Uma brisa fria de outono a golpeou e Gwen cobriu os seus ombros com um suéter de lã azul. O outono havia sido muito curto esse ano; o inverno já estava chegando. Ela podia sentir a brisa gelada ficar cada vez mais pesada com a umidade, enquanto todos se dirigiam mais para o Norte, ao longo do Canyon. O céu estava escurecendo mais cedo e o ar estava cheio com um novo som, o som dos gritos dos pássaros do inverno, os abutres vermelhos e pretos que voavam baixo quando a temperatura caía. Eles gralhavam incessantemente e o som, por vezes, irritava Gwen. Era como o som da morte que se aproximava.

Desde que haviam se despedido de Thor, todos tinham seguido ao longo do Canyon, rumo ao Norte, sabendo que esse caminho os conduziria até a cidade mais ocidental da parte oeste do Anel: Silésia. Enquanto eles avançavam, a névoa sinistra do Canyon emanava em ondas, envolvendo os tornozelos de Gwen.

“Nós já não estamos tão longe agora, Majestade.” Disse uma voz.

Gwen olhou para ver Srog de pé do outro lado dela, vestido com a armadura vermelha distintiva de Silésia e flanqueado por vários de seus guerreiros, todos vestidos com sua cota de malha vermelha e botas. Gwen tinha sido tocada pela bondade de Srog para com ela, tocada por sua lealdade para com a memória de seu pai e pela sua oferta de proporcionar-lhes Silésia como um refúgio. Ela não sabia o que ela e todas aquelas pessoas teriam feito sem ele. Eles ainda estariam naquele mesmo momento presos na Corte do Rei, à mercê da traição de Gareth.

Srog era um dos lordes mais honrados que ela havia conhecido. Com milhares de soldados à sua disposição, com seu controle da famosa fortaleza do Oeste, ele não precisava prestar homenagem a ninguém. Mas ele rendia um grande tributo ao seu pai. Tinha havido sempre um equilíbrio delicado de poder. Nos tempos em que o avô de Gwen era rei, Silésia precisou da Corte do Rei; no tempo de seu pai, nem tanto e atualmente Silésia não precisava da corte em absoluto. De fato, com a queda do escudo protetor e o caos na Corte do Rei, eram eles os que precisavam de Silésia.

É claro que o Exército Prata e a Legião eram os melhores guerreiros que existiam, como eram também os milhares de soldados que acompanhavam Gwen. Isso abrangia a metade do exército real. Mesmo assim, Srog, como a maioria dos outros lordes, poderia ter simplesmente fechado seus portões e cuidado de seus próprios assuntos.

Em vez disso, ele havia procurado Gwen, tinha jurado lealdade a ela e insistido em hospedar todos eles. Tinha sido uma bondade que Gwen estava determinada a retribuir de alguma forma, algum dia. Isso se por acaso, eles sobrevivessem.

“Você não precisa se preocupar.” Respondeu ela baixinho e colocando a mão suavemente em seu pulso. “Nós marcharíamos até os confins da terra para entrar em sua cidade. Nós somos muito afortunados de contar com sua bondade neste momento difícil.”

Srog sorriu. Ele era um guerreiro de meia-idade com o rosto marcado por muitas linhas e por muitas batalhas, seu cabelo era castanho-avermelhado, a linha da sua mandíbula era forte e ele não tinha barba. Srog era um homem de verdade, ele não era apenas um lorde, mas sim um verdadeiro guerreiro.

“Por seu pai, eu caminharia através do fogo.” Ele respondeu. “Os agradecimentos são desnecessários. É uma grande honra poder pagar minha dívida para com ele, ficando a serviço de sua filha. Afinal, era a vontade dele que Vossa Majestade governasse. Então, quando eu respondo a Vossa Majestade, eu respondo a ele.”

Perto de Gwen também marchavam Kolk e Brom. Atrás deles se ouvia o constante barulho de milhares de esporas, de espadas tilintando em suas bainhas e de escudos esbarrando nas armaduras. Era uma grande cacofonia de barulhos, avançando cada vez mais longe, para o Norte, ao longo da borda do Canyon.

“Majestade.” Kolk disse: “… Eu estou sobrecarregado pela culpa. Eu não deveria ter deixado Thor, Reece e os outros saírem sozinhos para o Império. Mais de nós deveríamos ter nos oferecido para ir com eles. Se alguma coisa acontecer com eles, isso vai pesar para sempre sobre minha cabeça.”

“Essa foi a missão que eles escolheram.” Gwen respondeu. “… Era uma questão de honra. Quem tinha de ir, já foi. A culpa não faz bem a ninguém.”

“E o que acontecerá se eles não retornarem a tempo com a espada?” Perguntou Srog. “Não vai demorar muito até que o exército de Andronicus apareça em nossos portões.”

“Então vamos tomar uma posição.” Disse Gwen confiante, demonstrando em sua voz o máximo de coragem que podia, esperando deixar os outros à vontade. Ela notou que os outros generais se viraram e olharam para ela.

“Nós nos defenderemos até o último golpe.” Acrescentou ela. “Não haverá nenhuma retirada, nenhuma rendição.”

Ela sentiu que os generais estavam impressionados. Ela ficou impressionada com sua própria voz, com a força crescente dentro dela, surpreendendo até a si mesma. Era a força de seu pai, a força de sete gerações de reis MacGil.

Eles continuaram a marchar, a estrada fazia uma curva acentuada para a esquerda e quando Gwen virou a curva ela se deteve, a vista era de tirar o fôlego.

Silésia.

Gwen lembrou que seu pai a tinha levado ali de viagem várias vezes quando ela era uma garotinha. Era um lugar que permanecia em seus sonhos desde então, um lugar que parecia mágico para ela. Agora que ela o via com os olhos de uma mulher adulta, ele ainda lhe tirava o fôlego.

Silésia era a cidade mais incomum que Gwen já tinha visto. Todos os edifícios, todas as fortificações, todas aquelas pedras, tudo havia sido construído com uma antiga pedra vermelha e brilhante. A metade superior de Silésia, alta, vertical, repleta de parapeitos e torres, estava construída sobre o continente, enquanto a metade inferior estava construída dentro do lado do Canyon. As brumas esvoaçantes do Canyon sopravam para dentro e para fora, envolvendo a cidade, fazendo com que o vermelho brilhasse e faiscasse na luz, dando a impressão de que a cidade estava construída nas nuvens.

As suas fortificações se elevavam por uns trinta metros, estavam coroadas por parapeitos e sustentadas por uma fileira interminável de muralhas. O lugar era uma fortaleza. Mesmo que um exército de alguma forma derrubasse suas muralhas, ele ainda teria de descer até a metade inferior da cidade, direto para os penhascos e lutar na borda do Canyon. Era claramente uma guerra que nenhum exército invasor iria querer travar. Era por isso que aquela cidade tinha se conservado por mil anos.

Seus homens pararam e ficaram boquiabertos e Gwen podia sentir que todos estavam maravilhados, também.

Pela primeira vez em muito tempo, Gwen sentiu otimismo. Aquele era um lugar onde eles poderiam ficar longe do alcance de Gareth, um lugar que eles poderiam defender. Um lugar onde ela poderia governar. E talvez, apenas talvez, o lugar onde o reino MacGil pudesse ressurgir novamente.

Srog ficou ali, com as mãos na cintura, absorvendo tudo como se estivesse vendo sua cidade pela primeira vez, com os olhos brilhando de orgulho.

“Bem-vindos a Silésia.”




CAPÍTULO SEIS


Thor abriu os olhos ao romper da madrugada para ver as ondas suaves do mar, subindo e descendo em grandes cristas, cobertas pela luz suave do primeiro sol. As águas claras e amarelas do Tartuvian cintilavam na névoa da manhã. A embarcação balançava silenciosamente na água, o único som que havia era o das ondas batendo contra o casco.

Thor se sentou e olhou em volta. Seus olhos estavam pesados de tão exausto que ele estava, na verdade, ele nunca havia se sentido tão cansado em sua vida. Eles haviam estado velejando por dias e, ali, naquele lado do mundo, tudo era diferente, se sentia diferente. O ar era tão denso, tão excessivamente úmido, a temperatura era muito mais quente, era como respirar sob uma correnteza constante de água. Isso fazia com que Thor se sentisse fraco, fazia com que ele sentisse suas pernas intumescidas, pesadas. Parecia que ele havia chegado ali no verão.

Thor olhou em volta e viu que todos os seus amigos, os quais normalmente já estavam de pé antes do amanhecer, ainda estavam todos deitados no convés, dormindo. Mesmo Krohn, que sempre estava desperto, ainda dormia ao lado dele. O clima tropical e pesado havia afetado todos eles. Nenhum deles sequer se preocupava com ser o timoneiro, todos haviam desistido dias atrás. Não tinha sentido: as velas estavam sempre infladas a todo mastro e eram propulsadas pelo vento do Oeste, as correntes mágicas daquele oceano constantemente arrastavam o barco em uma direção. Era como se estivessem sendo arrastados para um único local. Eles haviam tentado várias vezes orientar ou mudar o curso, mas tinha sido inútil. Todos se haviam resignado a deixar que o Tartuvian os levasse para onde quisesse.

Não era que eles soubessem o caminho do Império, Thor ponderou. Enquanto as correntes os levassem para terra firme, isso já seria bom o suficiente. Assim pensava Thor.

Krohn despertou, ele ganiu e em seguida, se inclinou para a frente e lambeu o rosto de Thor. Thor enfiou a mão no saco quase vazio e deu a Krohn o último naco de carne seca. Para a surpresa de Thor, Krohn não o arrebatou de sua mão, como sempre fazia; em vez disso, Krohn olhou para ele, olhou para o saco vazio e em seguida, olhou significativamente para Thor. Ele hesitava em pegar a comida e Thor percebeu que Krohn não queria tirar-lhe o último pedaço.

Thor estava comovido pelo gesto, mas ele insistiu, empurrando a carne na boca do amigo. Thor sabia que estariam sem comida em breve e rezou para que chegassem a terra. Ele não tinha ideia de quanto tempo a viagem podia demorar; o que aconteceria se ela levasse meses? Como eles se alimentariam?

O sol se levantou rapidamente, ficando brilhante e forte muito cedo e quando Thor se levantou a névoa já havia começado a se dissipar sobre a água, então ele foi para a proa.

Thor ficou ali olhando ao redor, o barco balançava suavemente sob seus pés, ele via como a névoa se dissipava. Ele piscou os olhos várias vezes, imaginando que estava vendo coisas, quando o contorno de uma terra distante apareceu no horizonte. Seu pulso acelerou. Era terra firme. Terra de verdade!

A terra que surgiu tinha uma forma bastante incomum: duas longas e estreitas penínsulas que emergiam do mar, como duas pontas de um tridente. Quando a névoa subiu, Thor olhou para a esquerda e para a direita e ficou surpreso ao ver duas faixas de terra de cada lado deles, cada uma a cerca de cinquenta metros de distância. Eles estavam sendo sugados diretamente para o meio de uma longa baía.

Thor assobiou e seus irmãos da Legião se levantaram. Eles se puseram de pé de um salto, correram para o lado dele e ficaram ali, de pé na proa, olhando para o horizonte.

Todos eles permaneciam ali, sem fôlego com a vista diante de si: a costa era a mais exótica que eles já tinham visto, ela estava toda coberta pela vegetação selvagem, suas árvores altíssimas se arraigavam na linha da costa, a selva era tão densa que era impossível ver além dela. Thor viu as samambaias enormes com seus nove metros de altura inclinando-se sobre a água; viu a as árvores amarelas e roxas que pareciam chegar ao céu e em todos os lugares se ouviam os ruídos estranhos e persistentes de animais, pássaros e insetos. Thor não sabia que classe de bicho estaria rosnando, gritando ou cantando.

Thor engoliu em seco. Parecia que eles estavam entrando em um reino animal impenetrável. Tudo parecia diferente ali; o ar tinha um cheiro diferente, estranho. Nada ali se assemelhava remotamente ao Anel. Todos os outros membros da Legião se viraram e se entreolharam, Thor podia ver a hesitação em seus olhos. Todos eles se perguntariam que criaturas estariam à espreita deles dentro daquela selva.

Não se podia dizer que eles tinham tido outra escolha. As correntes os haviam levado por aquela rota e era evidente que aquele era o lugar onde eles precisavam desembarcar para poder entrar nas terras do Império.

“Por aqui!” O’Connor gritou.

Eles correram para o lado de O’Connor junto à varanda. Ele inclinou-se e apontou para a água. Lá, embaixo, nadando ao lado do barco, havia um enorme inseto roxo e luminescente, seu tamanho era de aproximadamente três metros de comprimento e ele possuía centenas de pernas. O inseto brilhava sob as ondas. Logo depois, ele moveu-se rapidamente ao longo da superfície da água; ao fazer isso seus milhares de pequenas asas começaram a mover-se, elevando-o um pouco acima da água. Em seguida, ele voltou a deslizar ao longo da superfície para logo submergir-se. Em seguida, o inseto repetiu o processo mais uma vez.

Enquanto eles observavam, o inseto elevou-se mais no ar, de forma repentina, ele ficou pairando no ar, ao nível dos olhos dos rapazes, fitando-os com seus quatro grandes olhos verdes. A criatura deu um zumbido e todos os homens pularam para trás involuntariamente e estenderam a mão para pegar suas espadas.

Elden adiantou-se e virou-se para ele. Mas no momento em que sua espada atingiu o ar, o inseto já estava de volta na água.

Thor e os outros saíram voando, caindo com força no convés, quando o barco deu uma parada abrupta, alojando-se na costa com uma sacudida.

O coração de Thor batia mais rápido enquanto ele olhava por cima da borda: abaixo deles havia uma praia estreita formada por milhares de pequenas pedras irregulares, brilhantes e de cor roxa.

Eles haviam conseguido chegar à terra firme.

Elden liderou o caminho para a âncora e todos eles a levantaram e deixaram-na pendendo sobre borda. Cada um deles desceu agarrando-se à corrente, logo saltaram dela e desembarcaram na costa, Thor entregou Krohn para Elden quando ele desembarcou.

Thor suspirou quando seus pés tocaram o chão. Era tão bom ter terra seca, terra firme debaixo de seus pés. Ele seria muito feliz se nunca mais tivesse de navegar em um barco de novo.

Todos eles agarraram as cordas e arrastaram o barco para a costa tanto quanto puderam.

“Você acha que a maré vai levá-lo embora?” Reece perguntou, olhando para o barco.

Thor olhou para o barco, ele parecia seguro na areia.

“Não com uma âncora como aquela.” Elden disse.

“A maré não vai levá-lo.” O’Connor disse. “A questão é se alguém mais vai fazer isso.”

Thor deu uma última olhada para o barco, ele percebeu que seu amigo estava certo. Mesmo que eles encontrassem a espada, era bem provável que eles regressassem a uma costa vazia.

“E então como iremos voltar?” Perguntou Conval.

Thor não podia evitar pensar que eles estavam queimando suas pontes com cada passo que davam pelo caminho.

“Nós encontraremos a maneira.” Disse Thor. “Afinal, deve haver outros barcos no Império, não é mesmo?”

Thor tentou soar confiante e tranquilizar seus amigos. Mas, no fundo, ele próprio não estava tão confiante. Toda aquela jornada parecia cada vez mais ameaçadora para ele.

Eles se viraram simultaneamente e encararam a selva, olhando para ela fixamente. Era uma parede de vegetação, a escuridão estava por trás dela. Os ruídos dos animais produziam uma cacofonia em torno deles e eram tão altos que Thor mal podia ouvir seus pensamentos. Era como se todos os animais do Império estivessem gritando para cumprimentá-los.

Ou para adverti-los.


*

Thor e os outros caminhavam cautelosamente, lado a lado, através da espessa selva tropical. Cada um deles estava alerta. Era difícil para Thor ouvir seus pensamentos, já que os gritos e zumbidos da orquestra de insetos e animais ao seu redor eram muito persistentes. No entanto, quando ele olhou para a escuridão da folhagem, ele não pôde ver nenhum deles.

Krohn caminhava em seus calcanhares, rosnando, o pêlo de suas costas estava todo arrepiado. Thor nunca o tinha visto tão alerta. Thor olhava para seus irmãos de armas e via cada um deles com uma mão apoiada sobre o punho da espada, todos eles nervosos, exatamente como ele.

Eles já haviam estado caminhando por horas e agora penetravam cada vez mais fundo na selva, o ar tornava-se cada vez mais quente, espesso, úmido e mais pesado para respirar. Eles seguiam os rastros do que parecia ter sido uma trilha, alguns galhos quebrados pareciam indicar o caminho que o grupo de homens que tinham chegado ali poderia ter tomado. Thor só esperava que fosse a trilha do grupo que havia roubado a espada.

Thor olhou para cima, totalmente admirado com a natureza: tudo ali crescia em proporções gigantescas, cada folha era tão grande como ele próprio. Ele sentia-se como um inseto em uma terra de gigantes. Ele viu algo farfalhar atrás de algumas folhas, mas não podia realmente distinguir nada. Ele tinha a sensação sinistra de que estavam sendo observados.

A trilha diante deles terminou repentinamente em uma sólida parede de folhagem. Todos pararam e se olharam entre si, totalmente confusos.

“Mas a trilha não pode simplesmente desaparecer!” O’Connor disse desapontado.

“Ela não desapareceu.” Reece disse ao examinar as folhas. “A selva simplesmente cresceu de volta sobre ela.”

“Então qual é o caminho agora?” Perguntou Conval.

Thor se virou e olhou ao redor, perguntando-se a mesma coisa. Ao redor deles não havia mais nada além de uma densa folhagem, parecia não haver nenhuma saída. Thor estava começando a ter um sentimento de desânimo, ele sentia-se cada vez mais perdido.

Então Thor teve uma ideia.

“Krohn.” Disse Thor ao ajoelhar-se e sussurrar no ouvido dele. “Suba naquela árvore. Olhe por nós. Diga-nos que caminho seguir.”

Krohn olhou para ele com seu olhar expressivo e Thor sentia que ele havia compreendido.

Krohn correu para uma árvore enorme, o tronco dela era tão largo quanto dez homens, sem hesitar, ele saltou sobre ela e foi subindo sustentando-se com suas garras. Krohn subiu rapidamente e em seguida, pulou em um dos galhos mais altos. Ele ficou na ponta do galho e deu uma boa olhada, então, suas orelhas ficaram em pé. Thor sempre sentia que Krohn o entendia, mas agora ele sabia com toda certeza que era assim.

Krohn se inclinou para trás e fez um barulho estranho, gutural, em seguida, ele correu de volta para baixo do tronco e saiu em disparada em uma direção. Os rapazes trocaram um olhar curioso, então todos se viraram e seguiram Krohn, dirigindo-se para aquela parte da selva, empurrando para trás as folhas grossas, para que pudessem caminhar.

Depois de alguns minutos, Thor ficou aliviado ao ver a trilha surgir novamente, os sinais reveladores de galhos quebrados e a folhagem mostravam o caminho por onde o grupo tinha passado. Thor se inclinou, deu um tapinha carinhoso em Krohn e beijou-lhe a cabeça.

“Eu não sei o que teríamos feito sem ele.” Disse Reece.

“Nem eu.” Respondeu Thor.

Krohn ronronou satisfeito, orgulhoso.

Eles avançavam cada vez mais nas profundezas da selva, dando voltas e mais voltas até chegar a um trecho coberto por um novo tipo de vegetação com flores por todo o redor, elas eram enormes, do tamanho de Thor e desabrochavam em todas as cores. Outras árvores tinham frutos do tamanho de rochas, pendurados em seus galhos.

Todos pararam maravilhados quando Conval caminhou até um dos frutos de cor vermelho brilhante e estendeu a mão para tocá-lo.

De repente, ouviu-se o ruído profundo de um rosnado.

Conval se afastou e pegou sua espada e todos os demais se olharam ansiosamente.

“O que foi isso?” Perguntou Conval.

“O barulho veio dali.” Disse Reece enquanto apontava para outra parte da selva.

Todos eles se viraram e olharam. Mas Thor não podia ver nada além de folhas. Krohn rosnou de volta.

O barulho ficou mais alto, mais persistente e, finalmente, os ramos começaram a farfalhar. Thor e os demais deram um passo para trás, puxando suas espadas e aguardaram, eles esperavam o pior.

O que saiu de dentro da selva excedia até mesmo as piores expectativas de Thor. Parado ali, diante deles estava um enorme inseto, cinco vezes maior que Thor. Ele se assemelhava a um louva-deus, com as duas patas traseiras e suas duas patas dianteiras menores, as quais balançavam no ar e tinham longas pinças em suas extremidades. Seu corpo era de um verde fluorescente, estava coberto de escamas e possuía pequenas asas que zumbiam e vibravam. Ele tinha dois olhos no topo da cabeça e um terceiro olho na ponta do seu nariz. Ele se aproximou e revelou mais pinças escondidas debaixo de sua garganta, elas vibravam e estalavam.

O inseto ficou ali, elevando-se sobre eles, outra garra saiu de seu estômago, era como um longo braço magro e saliente. De repente, antes que qualquer um deles pudesse reagir, ele estendeu uma garra e pegou O’Connor, suas três garras se estenderam e se enroscaram em torno da cintura dele. A criatura levantou O’Connor no ar, como se ele fosse uma folha.

O’Connor balançou sua espada, mas estava longe de ser rápido o suficiente. A besta sacudiu-o várias vezes e de repente abriu a boca, revelando fileiras de dentes afiados, ela virou O’Connor para o lado e começou a baixá-lo em direção à boca.

O’Connor gritou ao pressagiar uma morte dolorosa e instantânea.

Thor reagiu. Sem pensar, ele colocou uma pedra em sua funda, mirou e atirou-a no terceiro olho do animal, bem na ponta do seu nariz.

Foi um golpe direto. A criatura deu um grito estridente, um barulho horrível, alto o suficiente para rachar uma árvore. Então ela soltou O’Connor, ele deu uma cambalhota no ar e caiu no chão macio da floresta, com um baque.

O animal, enfurecido, logo voltou sua atenção para Thor.

Thor sabia que seria inútil tomar uma posição e lutar contra aquela criatura. Pelo menos um de seus irmãos acabaria morto e provavelmente, Krohn, também. A criatura iria esgotar qualquer preciosa energia que eles tivessem. Thor chegou à conclusão de que talvez eles tivessem invadido o território dela e que se eles pudessem sair dali rápido o suficiente, ela poderia simplesmente deixá-los em paz.

“CORRAM!” Gritou Thor.

Eles se viraram e correram e a criatura começou a persegui-los.

Thor podia ouvir o som das garras do animal, logo atrás deles, cortando o ar e destroçando tudo através da folhagem densa; ele escapou de ter sua cabeça atingida por elas, por uns poucos metros. As folhas despedaçadas voavam pelo ar e caíam como a chuva em torno deles. Todos corriam em uníssono e Thor pensava que se eles pudessem ganhar distância suficiente, encontrariam uma maneira de se refugiar. Se não pudessem fazer isso, então eles teriam de tomar uma medida.

Mas de repente, Reece escorregou ao lado dele, tropeçou em um ramo e caiu de cara na folhagem, Thor sabia que ele não iria se levantar a tempo. Thor parou ao lado deles, puxou a espada e ficou entre Reece e o animal.

“CONTINUEM CORRENDO!” Thor gritou por cima do ombro para os outros, enquanto permanecia ali, pronto para defender Reece.

O animal se lançou para ele, gritando, ele baixou sua garra direto para o rosto de Thor. Thor se abaixou e girou a sua espada ao mesmo tempo, a criatura soltou um grito terrível quando Thor cortou uma de suas garras. Um líquido verde salpicou totalmente Thor, ele olhou para cima e viu com horror que a garra do animal voltou a crescer tão rapidamente como tinha sido perdida. Era como se Thor nunca a tivesse ferido.

Thor engoliu saliva. Aquela seria uma criatura impossível de matar. E agora ele a havia enfurecido.

O animal golpeou com mais um braço que saiu de algum outro lugar de seu corpo e bateu com força nas costelas de Thor, fazendo-o voar e aterrissar em um grupo de árvores. Então, a criatura baixou outra garra para Thor e ele sabia que dessa vez estava em apuros.

Elden, O’Connor e os gêmeos se aproximaram rapidamente e quando a criatura veio pronta para atacar Thor com a outra garra, O’Connor lançou uma flecha em sua boca; a flecha se alojou na parte de trás da garganta dela, fazendo-a gritar. Elden tomou seu machado de duas mãos e desceu-o sobre as costas do animal, enquanto Conven e Conval atiraram suas lanças em cada um dos lados da garganta dela. Reece ficou de pé novamente e enfiou a espada na barriga da criatura. Thor pulou e desferiu sua espada em um dos outros braços do animal, cortando-o. Krohn se juntou a eles, saltando no ar e afundando suas presas na garganta da criatura.

A criatura soltou um grito após outro, todos eles fizeram mais danos do que Thor pensou ser possível. Era incrível para Thor que ela ainda estivesse de pé, com as asas ainda vibrando. Aquele bicho simplesmente não morreria.

Todos eles assistiram com horror, quando a criatura se esticou e começou a tirar as armas que estavam alojadas em seu corpo, uma de cada vez: as lanças, espadas e o machado. Assim que ela terminou de fazer isso, seus ferimentos se curaram diante dos olhos de todos eles.

Aquele monstro era imbatível.

A criatura se inclinou para trás e berrou, todos os irmãos da Legião de Thor olharam para cima, espantados. Todos tinham atacado com tudo o que tinham e nem sequer haviam podido arranhá-la.

A criatura preparou-se para avançar sobre eles novamente, com suas mandíbulas cortantes e suas garras afiadas, Thor percebeu que não havia mais nada que pudessem fazer. Todos iriam morrer.

“FORA DO CAMINHO!” Ouviu-se um grito repentino.

A voz vinha de detrás de Thor e soava como a voz de alguém jovem. Thor se virou e viu um jovem de talvez onze anos, correr atrás deles, carregando o que parecia ser uma jarra com água. Thor se abaixou e o garoto jogou a água, espirrando-a por todo o rosto da criatura.

A criatura se inclinou para trás e gritou, o vapor saía da sua face, chegando até suas garras e dilacerando seu rosto, seus olhos, sua cabeça. Ela gritava uma e outra vez, o barulho era tão alto que Thor teve de tapar os ouvidos.

Por fim, o animal virou-se e saiu correndo de volta para a selva, perdendo-se na vegetação.

Todos eles se viraram e olharam para o garoto com um novo senso de admiração e apreço. Sua roupa estava em farrapos, ele tinha cabelos castanhos e compridos e seus olhos inteligentes eram de um verde brilhante. O garoto estava coberto de sujeira e parecia, a julgar pelos seus pés descalços e suas mãos sujas, que ele vivia por ali.

Thor nunca havia estado tão agradecido a alguém.

“As armas não causam nenhum dano ao Gathorbeast.” O garoto disse com um olhar de descaso. “Vocês tiveram a sorte de que eu estava por perto e ouvi os gritos. Do contrário, todos vocês estariam mortos agora. Vocês não sabem que jamais devem enfrentar um Gathorbeast?”

Thor olhou para seus amigos, todos sem palavras.

“Nós não o confrontamos.” Disse Elden. “Ele nos confrontou.”

“Eles não confrontam você…” Disse o garoto. “… A menos que você invada o território dele.”

“E o que esperava que nós fizéssemos?” Perguntou Reece.

“Bem, nunca olhe nos olhos de nenhum deles. Disse o garoto. “E se ele atacar, deite-se de bruços até que ele o deixe em paz. “E acima de tudo, nunca tente fugir.”

Thor se aproximou e pôs a mão no ombro do garoto.

“Você salvou nossas vidas.” Disse ele. “Nós temos uma dívida muito grande para com você.”

O garoto deu de ombros.

“Vocês não parecem membros das tropas do Império.” Disse ele. “Parece que vocês vieram de algum outro lugar do mundo. Então, por que eu não haveria de ajudá-los? Vocês parecem ter as características desse grupo que veio no navio alguns dias atrás.”

Thor e os outros trocaram um olhar de entendimento e se viraram para o garoto.

“Você sabe para onde esse grupo se dirigiu?” Thor perguntou.

O rapaz deu de ombros.

“Era um grupo grande e eles estavam carregando uma arma. Ela parecia ser bem pesada; era preciso que todos eles a carregassem. Eu os segui por vários dias. Eles eram fáceis de rastrear. Eles eram lentos; também eram desleixados e descuidados. Eu sei para onde eles foram, apesar de que eu não os segui muito além da aldeia. Eu posso levá-los até lá e apontar-lhes na direção certa, se você quiserem. Mas não vai ser hoje.”

Os outros trocaram um olhar perplexo.

“Por que não?” Thor perguntou.

“A noite cai em poucas horas. Vocês não podem ficar aqui fora depois do anoitecer.”

“Mas por quê?” Perguntou Reece.

O garoto olhou para ele como se ele fosse louco.

“Os Ethabugs.” Disse ele.

Thor adiantou-se e olhou para o garoto. Ele gostou daquele garoto imediatamente. Ele era inteligente, sério, sem medo e tinha um coração valente.

“Você sabe de um lugar onde possamos nos abrigar durante a noite?”

O garoto olhou para Thor, depois deu de ombros, parecendo duvidoso. Ele ficou ali, hesitante.

“Eu não sei.” Disse ele. “Meu avô vai ficar bravo comigo.”

Krohn repentinamente saiu de detrás de Thor e caminhou na direção do garoto, os olhos do garoto se iluminaram deleitados.

“Uau!” Exclamou o garoto.

Krohn lambeu o rosto do garoto, uma e outra vez e ele ria de prazer, então ele estendeu a mão e acariciou a cabeça de Krohn. Em seguida, o garoto ajoelhou-se, baixou sua lança e abraçou Krohn. Krohn parecia abraçá-lo de volta e o garoto ria freneticamente.

“Qual é seu nome?” Perguntou o garoto. “O que ele é?”

“Seu nome é Krohn.” Thor disse sorrindo. “Ele é um leopardo branco, raro. Ele vem do outro lado do oceano. Do Anel. Do lugar de onde nós somos. Ele gosta de você.”

O garoto beijou Krohn várias vezes e, finalmente, levantou-se e olhou para Thor.

“Bem…” Disse o garoto, hesitante. “Eu acho que posso levá-los para nossa aldeia. Esperemos que o vovô não fique muito zangado. Se ele ficar, o azar é de vocês. Sigam-me. Temos de nos apressar. Será noite em breve.”

O garoto virou-se rapidamente e abriu o seu caminho através da selva, Thor e os outros o seguiram. Thor estava surpreso com a destreza do garoto e por ver como ele conhecia a selva tão bem. Era difícil acompanhá-lo.

“As pessoas aparecem por aqui de vez em quando.” Disse o garoto. “O oceano e as correntes trazem-nas direto para a baía. Algumas pessoas vêm do mar e estão por aqui de passagem em seu caminho para outro lugar. A maioria delas não consegue sobreviver. Elas são comidas por uma coisa ou outra na selva. Vocês tiveram sorte. Existem coisas muito piores aqui do que o Gathorbeast.”

Thor engoliu em seco.

“Pior do que o quê? Como o quê?”

O garoto abanou a cabeça, continuando a caminhar.

“Você não vai querer saber. Eu tenho visto coisas horríveis aqui.”

“Há quanto tempo está aqui?” Thor perguntou curioso.

“Toda a minha vida.” Disse o garoto. “Meu avô se mudou para cá quando eu era pequeno.”

“Mas por que se mudou para cá, para este lugar? Certamente deve haver lugares mais acolhedores.”

“Você não conhece o Império, não é?” O garoto perguntou. “As tropas estão em toda parte. Não é tão fácil ficar fora da vista delas. Se elas conseguirem nos pegar, elas nos farão escravos. No entanto, elas raramente vêm aqui, nunca se metem no meio desta selva.”

Eles cortaram um pedaço grosso da folhagem, Thor estirou o braço para afastar uma folha de seu caminho, mas o rapaz se virou e empurrou a mão de Thor, gritando:

“NÃO TOQUE NISSO!”

Todos pararam e Thor olhou para a folha que ele quase tinha tocado. Ela era grande, amarela e parecia bastante inofensiva.

O garoto estendeu a mão e com a sua vara e gentilmente tocou a ponta da folha; ao fazer isso, a folha de repente enroscou-se em torno da vara de uma maneira incrivelmente rápida, o que seguiu foi um chiado enquanto a ponta da vara se desintegrava.

Thor estava chocado.

“Uma folha Sensitiva.” Disse o garoto. “Venenosa. Se você a tivesse tocado, você estaria sem uma mão agora.”

Thor olhou para toda a vegetação com um novo respeito. Ele estava maravilhado com a sorte que tinha tido ao encontrar aquele garoto.

Eles continuaram a sua caminhada, Thor mantinha as mãos perto de seu corpo, assim como os outros. Eles tentavam ser mais cuidadosos com todos os lugares onde pisavam.

“Fiquem perto uns dos outros e sigam exatamente meus passos.” Disse o garoto. “Não toquem em nada. Não tentem comer esses frutos. E não cheirem aquelas flores a menos que vocês queiram desmaiar.”

“Ei o que é isso?” O’Connor perguntou virando-se e olhando para uma fruta enorme pendurada em um galho, ela era longa, estreita e de uma cor amarela, reluzente. O’Connor deu um passo em direção a ela e estendeu a mão.

“NÃO!” O garoto exclamou.

Mas já era tarde demais. Quando ele tocou a fruta, o chão cedeu sob todos eles e Thor se encontrou deslizando precipitando-se por uma colina e sendo arrastado pela lama e pela água. Eles estavam presos em um deslizamento de terra e não podiam parar.

Todos eles gritavam enquanto deslizavam na lama, por centenas de metros, direto para as profundezas escuras da selva.




CAPÍTULO SETE


Erec montava seu cavalo, respirando com dificuldade, preparando-se para atacar os duzentos soldados à sua frente. Ele lutou bravamente e tinha conseguido derrubar a primeira centena, mas agora seus ombros estavam enfraquecidos, suas mãos tremiam. Sua mente estava pronta para lutar para sempre, mas ele não sabia por quanto tempo seu corpo a acompanharia. Ainda assim, ele iria lutar com todas as forças, tal como tinha feito toda a sua vida e deixaria que o destino tomasse a decisão por ele.

Erec gritou e esporou o cavalo desconhecido, o qual ele tinha roubado de um de seus oponentes e avançou para os soldados.

Eles o atacaram de volta, igualando ferozmente o seu solitário grito de guerra com o deles. Muito sangue já tinha sido derramado sobre aquele campo e era óbvio que ninguém iria abandoná-lo antes de ver inimigo do outro lado, morto.

Erec atacou, ele retirou um punhal de arremesso de seu cinto, mirou e atirou-o no líder dos soldados que estava diante dele. Foi um arremesso perfeito, o punhal se alojou na garganta do soldado, ele levou as mãos ao seu pescoço, soltou as rédeas e caiu do cavalo. Como Erec esperava, ele caiu aos pés dos outros cavalos, fazendo com que vários deles tropeçassem e derrubassem uns aos outros no chão.

Erec levantou um dardo com uma mão, na outra mão ele carregava seu escudo, ele baixou sua viseira e investiu com destemor. Ele iria atacar aquele exército tão rápido e duramente como fosse possível, aparar tantos golpes quanto pudesse e romperia suas filas durante o processo.

Erec gritou quando avançou para o grupo. Todos os seus anos de torneio medieval lhe haviam sido muito úteis, ele usou o longo dardo habilmente, abatendo um soldado após o outro, derrubando-os em sucessão. Ele se agachou e com a outra mão cobriu-se com o escudo; ele sentiu uma chuva de golpes descendo sobre ele, sobre seu escudo, sobre sua armadura, os golpes provinham de todas as direções. Ele foi golpeado por espadas, machados e maças, era uma tempestade de golpes metálicos. Erec rezou para que sua armadura os suportasse. Ele aferrou-se ao seu dardo, abatendo tantos soldados quanto podia enquanto atacava, cortando caminho através do enorme grupo.

Erec não diminuiu seu ritmo e depois de cerca de um minuto de cavalgada, finalmente ele conseguiu passar para o outro lado, para o espaço aberto, tendo antes traçado um caminho de devastação bem no meio do grupo de soldados. Ele tinha abatido pelo menos uma dúzia de soldados, mas ele havia sofrido durante o processo. Ele respirou fundo, seu corpo estava dolorido, o barulho de metais ainda ressoava em seus ouvidos. Ele sentia como se tivesse sido colocado dentro de um moedor de carne. Ele olhou para baixo e viu que estava coberto de sangue. Felizmente, ele não havia sofrido nenhum ferimento grave. Seus ferimentos pareciam ser apenas pequenos arranhões e cortes.

Erec cavalgava em um grande círculo, dando várias voltas, preparando-se para enfrentar o exército de novo. Eles também tinham se virado e se preparado para atacá-lo mais uma vez. Erec estava orgulhoso de suas vitórias até agora, mas estava ficando difícil para ele recuperar o fôlego. Ele sabia que mais uma passagem por aquele grupo poderia acabar com sua vida. Apesar disso, ele se preparou para atacar de novo, ele jamais estaria disposto a recuar diante de uma luta.

De repente, ouviu-se um grito incomum provir de detrás do exército, Erec estava inicialmente confuso ao ver um contingente de soldados que atacava pela retaguarda. Mas então, ele reconheceu a armadura e seu coração disparou: era Brandt, seu amigo íntimo do Exército Prata, juntamente com o Duque e dezenas de seus homens. O coração de Erec desceu para o estômago quando ele avistou Alistair entre eles. Ele pediu-lhe para ficar na segurança do castelo e ela não tinha escutado. Por isso, ele a amava mais do que ele poderia expressar.

Os homens do Duque atacaram o exército por trás, com um grito de batalha feroz, provocando o caos. Metade do exército virou-se para enfrentá-los e eles se encontraram em meio a um grande clangor de metal. Brandt liderava o caminho com seu machado de duas mãos. Ele o balançou para o soldado líder, cortando-lhe a cabeça, depois ele girou seu machado ao redor e com o mesmo movimento, o incrustou-o no peito de outro homem.

Erec, inspirado, recobrou suas forças: ele se aproveitou do caos e atacou a outra metade do exército. Ele seguiu a galope, inclinou-se e pegou uma lança que estava fincada na terra, então se inclinou para trás e arremessou-a com a força de dez homens. A lança atravessou a garganta de um soldado e continuou sua trajetória, alojando-se no peito de outro.

Então, Erec levantou bem alto sua espada e desceu-a sobre o primeiro soldado que alcançou, cortando o cabo de sua maça ao meio, em seguida, ele girou ao redor e decepou a cabeça do homem.

Erec continuou lutando, avançando para o grupo de homens com toda sua energia restante, empurrando, bloqueando, aparando, atacando todos os soldados que pululavam por todos os lados. Ele levantava seu escudo e bloqueava golpe após golpe, enquanto atacava alternadamente. Em poucos instantes, os soldados estavam todos convergindo ao seu redor, dezenas deles, atacando-o em todas as direções.

Ele matou mais homens do que ele poderia contar, mas simplesmente havia muitos deles, mesmo com os homens do Duque ocupando-se da retaguarda. Um deles desferiu um golpe com sua clava atingindo as costas de Erec entre as omoplatas. Erec gritou de dor quando a bola de metal coberta de puas atingiu sua espinha. Ele caiu do cavalo e foi parar no chão, o impacto o deixou sem ar.

Mas ele não desistiu. Seus instintos vieram à tona e ele teve a percepção para rolar pelo chão imediatamente, levantar seu escudo e bloquear um golpe que vinha em descenso direto para a sua cabeça. Em seguida, ele defendeu-se com sua espada, decepando o braço do homem.

Um soldado vinha diretamente destinado a pisar a cabeça de Erec, mas ele rolou para fora do caminho, virou-se e cortou as pernas do seu cavalo, enviando o cavaleiro para o chão; Erec rolou sobre si mesmo e apunhalou o homem no peito.

Mais e mais homens convergiam para Erec, ele rolou pelo chão, ajoelhou-se e bloqueou golpe após golpe, contra-atacando quando ele podia, já que estava cercado. Seus ombros estavam enfraquecendo. Um cavaleiro particularmente grande, com uma longa barba reta, adiantou-se e levantou bem alto um machado. Erec levantou seu escudo para bloqueá-lo, mas outro soldado o arrancou de sua mão com um chute e antes que ele pudesse reagir, um terceiro soldado pisou em seu peito, prendendo-o ao chão. Havia simplesmente muitos deles e Erec estava esgotado. Não havia mais nada que ele pudesse fazer, além de ver quando o grande cavaleiro começou a descer o machado sobre ele.

De repente, ocorreu um grande tumulto, Erec olhou para cima e viu Brandt chegar, levantar bem alto sua espada e com um grito feroz, balançá-la com todas as forças cortando o cabo do machado ao meio e decepando a cabeça enorme do cavaleiro, tudo isso em um único golpe.

Logo o Duque e vários outros se aproximaram, atacando todos os soldados em torno de Erec e abrindo o caminho para ele. Erec girou, agarrou a perna do soldado que estava pisando em seu peito e puxou-o para o chão. Em seguida, ele virou-se e quebrou o pescoço do homem com suas mãos.

Erec pegou um punhal da cintura do homem morto, virou-se e esfaqueou a lateral da garganta de outro atacante que estava brandindo uma arma contra ele. Ele ficou em pé, pegou sua espada do campo de batalha sangrento e conseguiu recobrar forças por segunda vez.

Erec girava em todas as direções, revigorado por lutar ao lado de seu amigo Brandt novamente. Eles receberam reforços de mais homens do Duque. Eles logo abriram caminho juntos, matando dezenas de homens que convergiam para eles.

Erec encontrou um cavalo e montou novamente, logo ele estava lá em cima junto com os outros. Ele fez um balanço da situação do campo de batalha: dezenas de homens do Duque tinham se unido a ele e juntos eles enfrentavam o que restava do exército do lorde, cerca de cem homens. Erec procurou imediatamente Alistair e encontrou-a montada em Warkfin, na beira do campo de batalha, observando tudo. Ela estava a salvo da batalha e ele ficou aliviado.

Erec respirava com dificuldade, Brandt ao lado dele respirava da mesma maneira, ele também estava coberto de sangue.

“Eu sabia que iria lutar ao seu lado de novo.” Disse Brandt. “Eu só não achava que seria tão cedo.”

Erec sorriu.

“Parece que eu lhe devo minha vida mais uma vez.” Disse ele.

“Não, você não me deve nada.” Disse Brandt. “Lembra-se de Artânia, dez anos atrás? Agora nós estamos quites.”

Quando todos se preparavam para investir contra os cem homens restantes, de repente, outro grito se ouviu, ele provinha da parte de trás do grupo. Erec foi invadido pela confusão, ele tentava processar o que estava acontecendo. Ele estreitou os olhos e pensou ter visto ao longe, uma batalha que ocorria na parte de trás das linhas. Ele não conseguia entender o que estava acontecendo. Estavam os homens do lorde lutando entre si?




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