Desejada 
Morgan Rice


Memórias de um Vampiro #5
Em Desejada (Livro 5 De Memórias De Um Vampiro), Caitlin Paine acorda e descobre que viajou no tempo mais uma vez. Agora, ela se encontrá na cidade de Paris do século dezoito, uma época de opulência, de reis e rainhas – mas também de revolução. Reunida ao seu grande amor, Caleb, os dois finalmente vivem o romance que nunca tinham tido a oportunidade de ter. Eles passam um tempo juntos em Paris, visitando os lugares mais românticos, e o amor entre eles cresce ainda mais. Caitlin decide desistir de sua busca pelo pai, para poder aproveitar a época e o lugar, e passar a vida com Caleb. Caleb a leva até seu castelo medieval próximo ao mar, e Caitlin se sente mais feliz do que nunca. Mas sua vida romântica não dura muito, e eventos fazem com que os dois se separem. Caitlin mais uma vez se vê reunida a Aiden e seu coven, com Polly e novos amigos, e ela se concentra mais uma vez em seu treinamento, e em sua busca. Ela é apresentada ao liberal mundo de Versalhes, e vê roupas e riqueza com as quais nunca havia sonhado. Com festas, bailes e concertos intermináveis, Versalhes é outro mundo. Ela se reúne mais uma vez ao seu irmão Sam, que também viajou no tempo, e volta a sonhar com seu pai. Mas nem tudo é perfeito. Kyle também viajou no tempo – desta vez com seu comparsa Sergei – e está mais determinado do que nunca a matar Caitlin. Sam e Polly começam relações tóxicas que ameaçam acabar com tudo. Ao se tornar uma verdadeira guerreira experiente Caitlin, ela se aproxima cada vez mais de encontrar seu pai, e o misterioso Escudo. O final dramático, repleto de ação, leva Caitlin a muitos dos pontos medievais importantes de Paris, em uma busca por pistas. Mas sua sobrevivência desta vez depende de habilidades que ela nunca pensou ter. E se reaproximar de Caleb será uma das decisões – e sacrifícios – mais difíceis de sua vida. DESEJADA é muito bem equilibrado. Tem a quantidade certa de palavras e é uma ótima sequência para os outros livros. É fácil identificar-se com os personagens, e eu realmente me importo com o que acontece com eles. A introdução de um personagem histórico foi bem interessante e me fez pensar muito sobre o livro. The Romance Reviews





Morgan Rice

desejada livro 5 de Memórias De Um Vampiro




Sobre Morgan Rice

Morgan Rice é a autora do best-seller #1 MEMÓRIAS DE UM VAMPIRO, uma série destinada a jovens adultos composta por onze livros (mais em progresso); da série de Best-seller #1 – TRILOGIA DE SOBREVIVÊNCIA, um thriller pós-apocalíptico que compreende dois livros (outro será adicionado); a série número um de vendas, O ANEL DO FEITICEIRO, composta por treze livros de fantasia épica (outros serão acrescentados).



Os livros de Morgan estão disponíveis em áudio e página impressa e suas traduções estão disponíveis em: alemão, francês, italiano, espanhol, português, japonês, chinês, sueco, holandês, turco, húngaro, checo e eslovaco (em breve estarão disponíveis em mais idiomas).



Morgan apreciará muitíssimo seus comentários, por favor, fique à vontade para visitar www.morganricebooks.com (http://www.morganricebooks.com/) faça parte de nosso newsletter, receba um livro gratuito, ganhe brindes, baixe nosso aplicativo gratuito, obtenha as novidades exclusivas em primeira mão, conecte-se ao Facebook e Twitter, permaneça em contato!



Crítica aclamada sobre Morgan Rice

"TRAÍDA é uma grande contribuição à série.  Morgan Rice realmente produziu um vencedor com esta série.  É rápido, cheio de ação, amor, suspense e intriga.  Caso você não tenha lido seus dois primeiros romances, leia-os e, em seguida, ponha suas mãos em um exemplar de TRAÍDA.  Eu li esses livros em ordem, mas cada um destes livros também são escritos para serem lidos individualmente, de modo que, mesmo se você não tiver lido os dois primeiros, leia TRAÍDA.  Eu tenho certeza que você vai acabar conseguindo os dois primeiros livros- todos eles são definitivamente uma boa leitura… ou duas! ".

–-VampireBookSite



“O ANEL DO FEITICEIRO reúne todos os ingredientes para um sucesso instantâneo: tramas, intrigas, mistério, bravos cavaleiros e florescentes relacionamentos repletos de corações partidos, decepções e traições. O livro manterá o leitor entretido por horas e agradará a pessoas de todas as idades. Recomendado para fazer parte da biblioteca permanente de todos os leitores do gênero de fantasia.”

–-Books and Movie Reviews, Roberto Mattos.



“Uma história ideal para jovens leitores. Morgan Rice fez um bom trabalho, dando uma interessante reviravolta na trama… Refrescante e original. As séries giram em torno de uma garota… Uma jovem extraordinária!… Fácil de ler, mas com um ritmo de leitura extremamente acelerado… Classificação10 pelo MJ/DEJUS.”

–-The Romance Reviews (referindo-se a Turned)



“Captou a minha atenção desde o início e eu não pude soltá-lo… Esta é uma história de aventura incrível que combina agilidade e ação desde o início. Você não encontrará nela nenhum momento maçante.”

–-Paranormal Romance Guild (referindo-se a Turned)



“Carregado de ação, romance, aventura e suspense. Ponha suas mãos nele e apaixone-se novamente.”

–-Vampirebooksite.com (referindo-se a Turned)



“Uma ótima trama, este é especialmente o tipo de livro que lhe dará trabalho soltar à noite. O final é tão intrigante e espetacular que fará com que você queira comprar imediatamente o livro seguinte, só para ver o que acontecerá.”

–-The Dallas Examiner (referindo-se a Loved)



“Um livro que é um rival digno de CREPÚSCULO (TWILIGHT) e AS CRÔNICAS VAMPIRESCAS (VAMPIRE DIARIES) e que fará com que você deseje continuar lendo sem parar até a última página! Se você curte aventura, amor e vampiros este é o livro ideal para você!”

–-Vampirebooksite.com (referindo-se a Turned)



Livros de Morgan Rice




O ANEL DO FEITICEIRO


EM BUSCA DE HERÓIS (Livro #1)


UMA MARCHA DE REIS (Livro #2)


UM DESTINO DE DRAGÕES (Livro #3)


UM GRITO DE HONRA (Livro #4)


UM VOTO DE GLÓRIA (Livro #5)


UMA CARGA DE VALOR (Livro #6)


UM RITO DE ESPADAS (Livro #7)


UM ESCUDO DE ARMAS (Livro #8)


UM CÉU DE FEITIÇOS (Livro #9)


UM MAR DE ESCUDOS (Livro #10)


UM REINADO DE AÇO (Livro #11)


UMA TERRA DE FOGO (Livro #12)


UM GOVERNO DE RAINHAS (Livro #13)




TRILOGIA DE SOBREVIVÊNCIA


ARENA UM: TRAFICANTES DE ESCRAVOS (Livro #1)


ARENA DOIS (Livro #2)




MEMÓRIAS DE UM VAMPIRO


TRANSFORMADA (Livro #1)


AMADA (Livro #2)


TRAÍDA (Livro #3)


DESTINADA (Livro #4)


DESEJADA (Livro #5)


PROMETIDA EM CASAMENTO (Livro #6)


JURADA (Livro #7)


ENCONTRADA (Livro #8)


RESSUSCITADA (Livro #9)


SUPLICADA (Livro #10)


DESTINADA (Livro #11)












Ouça (http://itunes.apple.com/WebObjects/MZStore.woa/wa/viewAudiobook?id=489725251&s=143441) a série MEMÓRIAS DE UM VAMPIRO em áudio!




Agora disponível em:




Amazon (http://www.amazon.com/Turned-Book-1-Vampire-Journals/dp/B006M6VYJM/ref=tmm_aud_title_0)


Audible (http://www.audible.com/pd/ref=sr_1_1?asin=B006LAKL34&qid=1323958119&sr=sr_1_1)


iTunes (http://itunes.apple.com/WebObjects/MZStore.woa/wa/viewAudiobook?id=489725251&s=143441)


Copyright © 2014 por Morgan Rice. Todos os direitos reservados. Exceto conforme permitido pela Lei de Direitos Autorais dos EUA de 1976, nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, distribuída ou transmitida de qualquer forma ou por qualquer meio, ou armazenada em um banco de dados ou sistema de recuperação, sem a autorização prévia do autor. Este e-book é licenciado para o seu uso pessoal.  Este e-book não pode ser revendido ou cedido a outras pessoas.  Se você gostaria de compartilhar este livro com outra pessoa, por favor, compre uma cópia adicional para cada destinatário.  Se você estiver lendo este livro sem tê-lo comprado, ou se ele não foi comprado apenas para seu uso pessoal, por favor, devolva-o e adquira sua própria cópia.  Obrigado por respeitar o trabalho do autor. Esta é uma obra de ficção.  Nomes, personagens, empresas, organizações, entidades, eventos e incidentes são produto da imaginação do autor ou foram usados de maneira fictícia.  Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou falecidas, é mera coincidência. Modelo da capa: Jennifer Onvie. Fotografia: Adam Luke Studios, New York. Maquiagem: Ruthie Weems. Se tiver interesse em contatar qualquer um destes artistas, favor entrar em contato com Morgan Rice.



FATO:

Montmartre, Paris, é famosa por sua enorme igreja, a Basílica do Sagrado Coração, construída no século XIX. Mas ao lado dela, no topo de uma colina, fica a pequena e desconhecida Capela de São Pedro. Essa pequena e obscura igreja é muito mais antiga que sua vizinha, datando do século III, e possui ainda mais importância: é nesse local que votos foram feitos que levaram à criação da Companhia de Jesus.


FATO:

A Santa Capela, localizada em uma pequena ilha no centro de Paris (não muito longe da famosa Notre Dame), foi construída no século XIII, e por centenas de anos guardou uma das relíquias mais sagradas dos Cristianismo, incluindo a Coroa de Espinhos, a Sagrada Lança e pedaços da cruz em que Cristo foi crucificado. As relíquias eram guardadas em um grande baú de prata ornamentada…


		“Por que és ainda tão formosa? Devo pensar
		que a morte insubstancial se apaixonasse de ti,
		E que esse monstro magro e horrível para amante
		na escuridão te conserve?
		Por temer isso, ficarei contigo;
		E nunca deste lugar sombrio
		ei de partir…”

    --William Shakespeare, Romeu e Julieta






CAPÍTULO UM


Paris, França

(Julho, 1789)



Caitlin Paine acorda na escuridão.

O ar está pesado, e ela luta para respirar enquanto tenta se mover. Ela está deitada de costas, em uma superfície rígida. O lugar é frio e úmido e, ao olhar para cima, uma faixa de luz cai sobre ela.

O ombro dela está comprimido, mas com esforço ela consegue esticar o braço. Ela toca a superfície acima dela com a palma da mão. Pedra. Ela corre os dedos ao longo da superfície, tentando descobrir as dimensões do lugar e se dá conta que está presa. Em um caixão.

O coração de Caitlin começa a bater acelerado. Ela odeia lugares apertados, e começa a ficar ofegante. Ela se pergunta se estaria sonhando, presa em alguma espécie de limbo, ou se teria realmente acordado em alguma outra época, em outro lugar.

Ela estiva os dois braços desta vez, e com toda sua força, empurra. A tampa se move apenas um centímetro, o suficiente para que ele enfie um dedo pela fresta. Ela empurra de novo, com força, e a enorme tampa de pedra se mexe mais um pouco, produzindo o som de pedra raspando sobre pedra.

Ela consegue colocar mais dedos no espaço ampliado e, mais uma vez, ela tentar empurrar a tampa. Desta vez, ela consegue.

Caitlin senta, com a respiração ofegante, e olha a sua volta. Seus pulmões lutam para respirar o ar puro, e ela se retrai devido à luz, levando as mãos aos olhos. Quanto tempo ela tinha ficado naquele lugar escuro? Ela se pergunta.

Sentada ali, protegendo seus olhos, ela procura ouvir, se preparando para reagir a qualquer barulho. Ela se lembra de como tinha sido difícil despertar no cemitério na Itália e, desta vez, ela não quer correr riscos. Ela está preparada para qualquer imprevisto, pronta para se defender contra aldeões ou vampiros – ou qualquer outra coisa – que esteja por perto.

Mas desta vez, há apenas silêncio. Ela lentamente abre os olhos, e vê que está, de fato, sozinha. Ao se acostumar com a claridade, ela vê que, na verdade, o lugar não está tão claro. Ela está em uma área cavernosa, de pedra, com tetos baixos e arqueados. O lugar parece ser parte de uma igreja, e está iluminado apenas por uma ou outra vela. Deve ser noite, ela pensa.

Com os olhos acostumados com a claridade, ela analisa o lugar cuidadosamente. Ela estava certa: ela tinha ficado dentro de um sarcófago de pedra, no que parecia ser a cripta de uma igreja. O lugar está vazio, exceto por algumas estátuas de pedra, e vários outros sarcófagos.

Caitlin sai do sarcófago e alonga seu corpo, testando todos os seus músculos. É bom ficar em pé novamente, e ela se sente grata por não ter acordado em meio a uma batalha desta vez. Ao menos ela teria alguns minutos para organizar seus pensamentos.

Mas ela ainda está muito confusa. Sua cabeça está pesada, como se tivesse despertado de um sono de mil anos. Imediatamente, ela também sente uma pontada de fome.

Onde estou? Ela se pergunta. Que ano é esse?

E ainda mais importante, onde está Caleb?

Ela está decepcionada que ele não esteja ao seu lado.

Caitlin observa o quarto, procurando por um sinal dele em qualquer lugar, mas não há nada. Os outros sarcófagos estão abertos e vazios, e não há outro lugar onde ele poderia se esconder.

“Olá?” ela grita. “Caleb?”

Ela dá alguns passos até a outra sala, e vê uma pequena porta arqueada que parece ser a única saída. Ela vai até ela e tenta abrir a maçaneta. Destrancada, a porta abre com facilidade.

Antes de sair, ela se vira e analisa mais uma vez o local, certificando-se de não estar esquecendo nada. Ela leva a mão ao colo e toca seu colar, ainda ao redor de seu pescoço; colocando a mão no bolso, ela se sente confortada pela presença de seu diário e de uma chave grande. É tudo que ela possui, e tudo de que ela precisa.

Ao sair, Caitlin caminha por um longo corredor de pedra. Ela só consegue pensar em encontrar Caleb. Certamente, ele tinha voltado no tempo com ela desta vez, não tinha?

E se ele tinha mesmo voltado, se lembraria dela dessa vez? Ela nem consegue imaginar ter que passar por tudo aquilo novamente, ter que procurar por ele e então ver que ele não se lembra dela. Não. Ela torce para que desta vez as coisas sejam diferentes. Ele está vivo, ela pensa, e eles tinham voltado no tempo juntos. Eles têm que ter voltado juntos.

Mas enquanto caminha pelo corredor, e sobe um lance de escadas, ela começa se apressar o passo, sendo tomada pela avassaladora sensação de que ele não tinha voltado com ela. Afinal, ele não tinha despertado ao seu lado, segurando sua mão, ele não estava ali para oferecer-lhe consolo. Isso significa que ele não estava ali? Um nó se forma em seu estômago.

E o que teria acontecido com Sam? Ele estava lá, também. Por que não havia nenhum sinal dele ali?

Caitlin finalmente chega ao topo da escada, abre outra porta e fica parada no lugar, surpresa com o que vê. Ela se encontra na capela principal de uma igreja extraordinária. Ela nunca tinha visto nada parecido, tetos tão altos, tantos vitrais e um altar tão elaborado quanto aquele. As fileiras de bancos parecem intermináveis; o lugar parece ser capaz de acomodar milhares de pessoas.

Por sorte, ele está vazio. Há velas acesas por toda parte, mas, obviamente, está tarde. Ela se sente grata por isso: a última coisa que precisa é se deparar com uma multidão de pessoas a encarando.

Caitlin caminha devagar pela nave central, dirigindo-se para a saída. Ela está procurando Caleb, Sam, talvez até mesmo um padre. Alguém como aquele padre em Assis, que poderia ajudá-la. Alguém que pudesse contar-lhe onde ela está, quando e por quê.

Mas não há ninguém ali. Caitlin parece estar completamente, absolutamente sozinha.

Caitlin abre as enormes portas duplas, e se prepara para encarar o que estiver do lado de fora.

Ao abri-las, ela se sobressalta. A noite está iluminada por tochas externas em todos os lugares e diante dela, há um grande grupo de pessoas. Eles não estão esperando para entrar na igreja, apenas caminham sem direção por uma ampla praça aberta. A cena é animada e festiva e, ao sentir o calor no ar, Caitlin percebe que é verão. Ela se surpreende ao ver aquelas pessoas, por suas roupas antiquadas e formalidade incomum. Por sorte, eles não percebem sua presença, mas ela não consegue parar de observá-los.

Há centenas de pessoas, a maior parte vestida formalmente, obviamente de outro século. Entre elas há cavalos, mascates, artistas e cantores. A cena é festiva, animada e surpreendente. Ela se pergunta que ano seria aquele, e em que lugar ela teria ido parar. Acima de tudo, ela analisa todos os rostos estranhos, se perguntando se Caleb estaria entre eles.

Ela procura desesperadamente entre a multidão, esperando, tentando se convencer de que Caleb, ou talvez Sam, está entre eles. Ela procura por toda parte, mas após alguns minutos, ela se convence que eles simplesmente não estão ali.

Caitlin dá vários passos na direção da praça, e então se vira para olhar a igreja, na esperança de talvez reconhecer a fachada, que de alguma forma consiga ter uma ideia de onde se encontra.

E ela consegue. Caitlin não é exatamente uma especialista em arquitetura, ou história, mas algumas coisas ela sabe. Alguns lugares são tão óbvios, tão gravados na memória coletiva, que até ela consegue reconhecê-los. E o lugar onde ela está é assim.

Ela está parada diante de Notre Dame.

Ela está em Paris.

É um lugar que ela não confundiria com qualquer outro. As três portas enormes na frente, detalhadamente entalhadas; as dezenas de pequenas estátuas acima delas, a fachada trabalhada com dezenas de metros de altura. É um dos lugares mais reconhecíveis do mundo. Ela mal pode acreditar: ela realmente está em Paris.

Caitlin sempre havia sonhado em visitar Paris, havia implorado diversas vezes para que sua mãe a levasse para conhecer a cidade. Quando começou a namorar, durante o ensino médio, ela havia torcido para que ele a convidasse para visitar Paris. Ela sempre havia sonhado em conhecer a cidade, e Caitlin mal pode acreditar que está realmente ali. E em outro século.

Caitlin se sente sendo empurrada pela crescente multidão, e de repente olha para baixo e percebe as roupas que está vestindo. Ela fica envergonhada ao perceber que ainda está vestindo o uniforme simples de prisioneira que Kyle havia lhe dado quando ela ainda estava no Coliseu em Roma. Ela está usando uma túnica de tecido, áspero contra sua pele, de corte simples e grande demais para o seu corpo, amarrado ao redor da cintura e pernas. Seu cabelo está embaraçado, suado e grudado em seu rosto. Ela parece uma prisioneira em fuga, ou uma mendiga.

Caitlin, se sentindo ainda mais ansiosa, procura mais uma vez por Caleb, Sam, qualquer pessoa que ela conheça, – qualquer pessoa que possa ajudá-la. Ela nunca havia se sentido tão sozinha e não há nada que ela queira mais que encontrar todos eles, ter certeza de que não tinha voltado a este lugar sozinha, até ter certeza que tudo vai dar certo.

Mas ela não reconhece ninguém.

Talvez eu seja a única a chegar até aqui, ela pensa. Talvez eu esteja realmente sozinha de novo.

A simples ideia atravessa seu corpo como uma faca. Ela quer apenas se encolher, rastejar-se de volta até a igreja para se esconder, para ser enviada a alguma outra época, algum outro lugar – qualquer lugar onde pudesse acordar e encontrar alguém que ela conheça.

Mas ela resolve ser forte. Ela sabe que não como recuar, – nenhuma opção a não ser seguir em frente. Ela teria que ser corajosa, encontrar seu caminho nesta cidade e neste tempo. Ela simplesmente não tem outra escolha.


*

Caitlin tem que se afastar da multidão. Ela precisa ficar sozinha, para descansar, se alimentar, e pensar. Ela precisa descobrir onde deve ir, onde procurar por Caleb, descobrir se ele está ali. E não menos importante, ela precisa entender por que está nessa cidade, nesse tempo. Ela nem sabe em que ano está.

Um homem passa por ele, e Caitlin estica o braço, segurando ele; ela é tomada por um desejo incontrolável de encontrar suas respostas.

Ele se vira e olha para ela, surpreso por ter seu passeio interrompido tão abruptamente.

“Eu sinto muito,” ela diz, percebendo o quanto sua garganta está seca, e o quanto sua aparência está desleixada, ao proferir suas primeiras palavras, “mas em que ano estamos?”

Ela se envergonha de ter que perguntar, sabendo que deve parecer uma louca.

“Em que ano?” o homem confuso lhe pergunta.

“Hmm… Sinto muito, mas eu não consigo… me lembrar.”

O homem a observa por uns instantes, e então balança a cabeça lentamente, parecendo decidir se há algo de errado com ela.

“Estamos em 1789, é claro. E não estamos nem perto do Ano Novo ainda, então você realmente não tem desculpa,” ele diz, balançando mais uma vez a cabeça à medida que se afasta.

1789. A significância daqueles números passa pela cabeça de Caitlin. Ela se recorda que antes estava no ano de 1791. Dois anos atrás; nem tanto tempo assim.

Mesmo assim, ela agora está em Paris, um mundo completamente diferente de Veneza. Por que ali? Por que agora?

Ela força suas lembranças, tentando desesperadamente se recordar de suas aulas de história, tentando se lembrar do que havia acontecido na França em 1789. Ela se envergonha ao perceber que não consegue se lembrar. Ela se culpa mais uma vez por não ter prestado mais atenção às aulas. Se soubesse, enquanto ainda estava no ensino médio, que um dia viajaria no tempo, ela teria virado a noite estudando história, e teria se esforçado para memorizar o máximo possível.

Mas isso não faria diferença agora, ela sabe. Agora, ela faz parte da história. Agora, ela teria a chance de mudar o rumo das coisas, e de se transformar. O passado, ela percebe, poderia ser alterado. Só por que determinados eventos faziam parte dos livros de história, não queria dizer que ela, ao viajar no tempo, não poderia alterá-los. De certa forma, ela já tinha feito isso: sua presença ali, naquele momento, afetaria tudo. Isso, por sua vez, poderia, – de certa forma, alterar o rumo da história.

Isso a faz perceber ainda mais a importância de seus atos. O passado pertencia a ela para que fizesse o que quisesse.

Assimilando o ambiente ao redor dela, Caitlin começa a relaxar um pouco, e até sente-se até mesmo um pouco mais animada. Pelo menos ela tinha ido parar em um lugar bonito, em uma cidade linda e em uma época interessante. Aquilo era bem diferente da idade da pedra, e não é como se ela tivesse acordado no meio do nada. Tudo ao seu redor parece perfeito, todas as pessoas estão vestidas com elegância e as ruas de paralelepípedo brilham sob a luz das tochas. E a única coisa que ela de fato se recorda a respeito da Paris do século XVIII é que era uma época luxuosa para a França, um período de grande fortuna, quando reis e rainhas ainda reinavam.

Caitlin percebe que Notre Dame fica em uma pequena ilha, e sente a necessidade de sair dela. O lugar está muito cheio de gente, e ela quer um pouco de paz. Ela vê diversas pontes para pedestres e se dirige até uma delas. Caitlin se deixa acreditar que talvez a Caleb a estivesse guiando em determinada direção.

Ao caminhar sob o rio, ela se encanta com a vista da cidade de Paris, iluminada por tochas ao longo do rio, e também por uma lua cheia. Ela pensa em Caleb, e gostaria de tê-lo ao seu lado para apreciar a vista com ela.

Enquanto atravessa a ponte, olhando para a água embaixo dela, Caitlin é tomada por uma onde de lembranças. Ela pensa em Pollepel, no rio Hudson durante a noite, – a forma como a lua iluminava a superfície do rio. Ela sente uma vontade repentina de saltar daquela ponte, para testar suas asas e ver se ainda consegue voar.

Mas ela se sente fraca, – e faminta, e ao se encostar contra a proteção da ponte, ela nãoa consegue sentir a presença de suas asas de maneira alguma. Ela se pergunta se a viagem no tempo teria afetado suas habilidades novamente. Ela não se sente tão forte quanto um dia havia se sentido. Na realidade ela se sente quase como uma humana: Frágil. Vulnerável. Ela não gosta desta sensação.

Após cruzar o rio Caitlin caminha a esmo por ruas laterais, vagando por horas, desesperadamente perdida. Ela anda por ruas sinuosas, cheias de curvas, cada vez mais longe de rio, indo em direção ao norte. Ela está maravilhada com a cidade. Em alguns aspectos, a cidade se assemelha muito à Veneza e Florença de 1791. Assim como essas cidades, Paris ainda é a mesma, com a mesma aparência que ela conhecia do século XXI. Ela nunca havia estado ali, mas já tinha visto fotos, e fica surpresa ao perceber ser capaz de identificar tantos prédios e monumentos.

As ruas ali também são feitas, sobretudo, de paralelepípedo, repletas de cavalos e carruagens, e um ou outro cavaleiro solitário. As pessoas se vestem com roupas elaboradas e caminham casualmente, como se tivessem todo tempo do mundo. Assim como Veneza e Florença, não há encanamentos, e Caitlin não consegue deixar de perceber os dejetos espalhados pela rua, ou de se surpreender com o cheiro insuportável exacerbado pelo calor do verão. Ela queria ainda ter uma daquelas bolsinhas de pot-pourri que Polly tinha lhe dado em Veneza.  .

Mas, diferente daquelas cidades, Paris é um mundo único. As ruas ali são mais largas, os prédios mais baixos e com desenhos ainda mais belos. A cidade parece mais velha, mais importante e mais bonita. Ela também é menos lotada: quanto mais se afasta de Notre Dame, menos pessoas ela vê. Talvez seja o fato de ser noite, mas as ruas estão praticamente vazias.

Ela caminha sem parar, e suas pernas ficam cada vez mais pesadas, enquanto ela continua procurando por qualquer sinal de Caleb, qualquer pista que a leve na direção certa. Não há nada.

A cada vinte quarteirões aproximadamente, ela chega a um novo bairro e tudo muda. Ao se dirigir cada vez mais ao Norte, ela se vê subindo uma pequena colina, até um novo distrito; este com ruas estreitas e vários bares. Ao passar em frente a um bar de esquina, ela vê um homem largado, bêbado, encostado contra a parede. A rua está completamente vazia e, por um momento, Caitlin é tomada por uma incontrolável sensação de fome; é como se ela estivesse sendo corroída por dentro.

Ela vê o homem deitado ali, se concentra em seu pescoço e pode ver o sangue pulsando em sua veia. Naquele instante, tudo o que ela gostaria de fazer é se aproximar dele, e se alimentar. A vontade vai além do desejo – é quase uma ordem. Seu corpo implora para que ela se alimente.

Caitlin precisa de todas as suas forças para conseguir ignorar seus anseios mais primitivos. Ela prefere morrer que ter que machucar outro ser humano.

Ela olha à sua volta, procurando descobrir se há alguma floresta por perto, algum lugar em que possa caçar. Embora tivesse visto algumas ruas de terra e parques pela cidade, ela não tinha visto nada parecido com uma floresta.

Naquele mesmo instante, a porta do bar se abre com violência, e um homem caminha para fora – é jogado para fora, na verdade – por um dos garçons do bar. Ele xinga e grita, – obviamente bêbado.

Então ele se vira e seus olhos recaem sobre Caitlin.

Ele é forte, e olha para ela com más intenções.

Ela sente seu corpo se enrijecer de tensão. Mais uma vez, ela se pergunta se ainda tem algum de seus poderes.

Ela se vira e caminha na outra direção, cada vez mais rápido, mas sente a presença do homem que a segue.

Antes que possa correr, em questão de segundos, ela a agarra por trás, em um abraço forçado. Ele é mais rápido e mais forte do que ela tinha imaginado, e ela pode sentir seu hálito horrível em seu pescoço.

Mas o homem também está bêbado. Ele cambaleia, mesmo enquanto a segura, e Caitlin se concentra, lembrando-se de seu treinamento e, dando um passo para o lado, lhe passa uma rasteira, usando uma das técnicas de combate que Aiden tinha lhe ensinado em Pollepel. O homem é derrubado, e cai de costas no chão.

Caitlin de repente tem uma lembrança de Roma, do Coliseu, de sua luta no estádio enquanto era atacada por diversos guerreiros. A cena é tão real que, por um momento, Caitlin se esquece de onde está.

Ela sai do transe bem à tempo. O bêbado se levanta, cambaleando, e a ataca mais uma vez. Caitlin espera até o último segundo, e mais uma vez dá um passo ao lado, e ele passa reto, caindo de cara no chão.

Ele está atordoado, e antes que possa se levantar de novo, Caitlin se afasta. Ela está satisfeita por ter se saído melhor, mas o incidente a perturba. Ela se preocupa que ainda tenha lembranças vívidas de Roma. E também não sente sua força sobrenatural; ela ainda se sente frágil como uma humana. A simples ideia, mais que todas as outras coisas, lhe causa medo. Ela realmente está sozinha agora.

Caitlin olha ao seu redor, começando a se sentir desesperadamente preocupada sobre onde ir e o que fazer. Suas pernas estão cansadas pela caminhada, e ela começa a se sentir aflita.

É então que ela o vê. Ao olhar para cima, ela nota diante dela uma grande colina. No topo dela, há um grande mosteiro medieval. Por alguma razão que ela não consegue explicar, ela se sente atraída pelo lugar. A colina é assustadora, mas ela não consegue pensar em uma alternativa.

Caitlin escala a colina, mais cansada do que jamais havia estado, e desejando mais que nunca poder voar.

Ela finalmente chega até as portas da abadia, e olha para as grandes portas de madeira maciça. O lugar parece antigo. Ela nota que embora esteja em 1789, a igreja parece ter sido construída há milhares de anos.

Ela não sabe por que, mas se sente atraída pelo lugar. Sem ter onde ir, ela junta sua coragem e bate delicadamente na porta.

Não há resposta.

Caitlin tenta a maçaneta e fica surpresa ao ver que está aberta. Ela entra pela porta.

A porta range ligeiramente, e Caitlin precisa de alguns segundos para que seus olhos se acostumem à escuridão da igreja. Ela analisa o lugar, impressionada pela dimensão e sobriedade do lugar. Ainda é tarde da noite, e esta simples e austera igreja, feita completamente de pedra e decorada com vitrais, está iluminada pela chama fraca de velas em toda parte. Do lado oposto à entrada, há um altar simples, ao redor do qual há mais dezenas de velas.

Fora isso, o lugar parece vazio.

Caitlin se pergunta por um instante o que estaria fazendo ali. Havia algum motivo? Ou sua mente a tinha enganado?

Uma porta lateral de repente se abre, e Caitlin se vira.

Caminhando na direção dela, Caitlin fica surpresa ao ver uma freira – baixa, frágil, vestindo uma túnica branca com capuz. Ela caminha devagar até chegar onde Caitlin está.

Ela remove o capuz, olha para Caitlin, e sorri. Ela tem olhos azuis grandes e penetrantes, e parece jovem demais para ser uma freira. Quando ela abre um grande sorriso, Caitlin pode sentir o calor emanando dela. E também pressente que a freira é como ela: uma vampira.

“Irmã Paine,” a freira diz suavemente. “É um prazer tê-la aqui.”




CAPÍTULO DOIS


Seu mundo parece surreal enquanto a freira guia Caitlin pelo mosteiro, atravessando um corredor comprido. O lugar é muito bonito, e está claro que pessoas vivem ali; freiras em túnicas brancas caminham pra lá e pra cá, preparando-se, aparentemente, para a missa matutina. Uma delas balança um receptáculo, espalhando um incense delicado, enquanto as outras entoam suaves orações.

Após diversos minutos caminhando em silêncio, Caitlin começa a se perguntar onde a freia a estaria levando. Finalmente, elas param diante de uma única porta. A freira abre a porta, revelando um pequeno quarto simples, com uma vista para Paris. O quarto faz Caitlin se lembrar do quarto onde tinha ficado em Siena.

“Em cima da cama, você vai encontrar uma troca de roupa,” a freira diz. “Há um poço onde você pode tomar banho, em nosso pátio,” continua ela. A freira aponta, “e aquilo é pra você.”.

Caitlin acompanha a direção do dedo e vê um pequeno pedestal de pedra no canto do quarto, sobre o qual há um cálice de prata, cheio de um líquido branco. A freira sorri para ela.

“Você tem tudo o que precisa para uma noite de sono tranquilo. Depois disso, a escolha é sua.”

“Escolha?” Caitlin pergunta.

“Fui informada que você já tem uma chave. Você terá que encontrar as outras três. A escolha, no entanto, sobre cumprir sua missão e continuar a sua jornada, é sempre sua.”

“Isso é para você.”

Ela estica o braço e entrega uma caixa cilíndrica de prata, coberta por joias.

“É uma carta de seu pai, especialmente para você. Guardamos isso há séculos; ela nunca foi aberta.”

Caitlin a aceita com reverência, sentindo o peso em sua mão.

“Eu realmente espero que você continue em sua missão,” ela diz com voz suave. “Nós precisamos de você, Caitlin.”

A freira se vira para partir.

“Espere!” Caitlin grita para ela.

A freira para.

“Estou em Paris, certo? Em 1789?”

A mulher sorri para ela. “Está correto.”

“Mas por quê? Por que estou aqui? Por que agora? Por que este lugar?”

“Receio que isso seja algo que você tenha que descobrir sozinha. Eu sou apenas uma serva.”

“Mas por que fui atraída para essa igreja?”

“Você está na Igreja de São Pedro. Em Montmartre,” a mulher responde. “Ela está aqui há milhares de anos. É um lugar muito sagrado.”

“Por quê?” Caitlin insiste.

“Era aqui que todas as pessoas se reuniam para os votos para a fundação da Sociedade de Jesus; foi aqui que nasceu o Cristianismo.”

Caitlin a encara, sem reação, e a freira finalmente sorri, dizendo, “Seja bem vinda.”

E com isso, ela faz uma pequena reverência e parte, fechando a porta com cuidado.

Caitlin se vira e analisa o quarto. Ela se sente grata pela hospitalidade, pelas roupas, pela oportunidade de tomar um banho, e pela cama confortável que ela vê em um canto do quarto. Ela não acha que conseguiria dar mais um passo. Na verdade, ela está tão cansada, que sente que poderia dormir para sempre.

Segurando a caixa incrustada de joias, ela caminha até o canto do quarto e a coloca no pedestal. O pergaminho poderia esperar, mas sua fome não.

Ela ergue o cálice e o examina. Ela já pode sentir o que há dentro dele: sangue branco.

Ela leva o cálice até seus lábios e bebe. O líquido é mais doce que o sangue vermelho e ela engole com mais facilidade – fazendo com que o sangue corra por suas veias mais rapidamente. Dentro de instantes, ela se sente renovada, mais forte do que jamais havia sido. Ela poderia continuar bebendo para sempre..

Caitlin finalmente deixa o cálice e pega a caixa de prata, levando-a consigo para a cama. Ela se deita, percebendo o cansaço em suas pernas doloridas. A sensação de ficar apenas deitada lhe agrada.

Ela se encosta, apoiando a cabeça contra um pequeno e simples travesseiro e fecha os olhos, apenas por um segundo. Ela está decidida a abri-los em alguns instantes e ler a carta de seu pai.

Mas assim que seus olhos se fecham, o cansaço toma conta de seu corpo. Ela não conseguiria abri-los nem se tentasse. Dentro de segundos, Caitlin está profundamente adormecida.


*

Caitlin está no meio da arena do Coliseu de Roma, vestida em traje de batalha, com uma espada em punho. Ela está preparada para enfrentar qualquer pessoa que a desafie – na verdade, ela sente a necessidade de guerrear. Mas ao olhar para trás, e para todos os lados, ela vê que o estádio está vazio. Ela olha para as arquibancadas e vê que todos os lugares estão vagos.

Caitlin pisca, e ao abrir os olhos, ela não está mais no Coliseu, e sim no Vaticano, na Capela Sistina. Ela ainda está segurando a espada, mas agora está vestindo um manto.

Ela olha ao redor da sala e vê centenas de vampiros, alinhados de maneira organizada, vestindo mantos broncos e observando-a com olhos azuis brilhantes.

Caitlin deixa a espada cair no chão da câmara vazia, e ao tocar no chão o barulho metálico ressoa pelas paredes. Ela anda lentamente até o padre e, esticando o braço, pega das mãos dele um grande cálice de prata, repleto de sangue branco. Ela bebe com vontade, deixando que o líquido escorra por seu rosto.

De repente, Caitlin se encontrá sozinha no deserto. Ela está caminhando descalça pelo chão de terra batida, enquanto segura uma chave gigantesca nas mãos.  A chave é tão grande- tão absurdamente grande – que o peso dela atrapalha seu avanço.

Ela caminha sem parar, com a respiração ofegante pelo calor até que, finalmente, ela chega a uma enorme montanha. No topo daquela montanha, ela vê um homem parado, olhando para baixo com um sorriso nos lábios.

Ela sabe que aquele é seu pai.

Caitlin sai em disparada, correndo o máximo que consegue, tentando chegar até a montanha, – cada vez mais perto dele. Enquanto ela corre, o sol atravessa o céu, ficando ainda mais quente, brilhando sobre ela, parecendo surgir de trás de seu pai. É como se ele fosse o sol, e ela estivesse indo na direção dele.

A temperatura aumenta à medida que ela ascende, e ela está quase sem ar ao se aproximar dele. Ele está parado de braços abertos, esperando para abraçá-la.

Mas a montanha se torna mais íngreme a cada instante, e ela está cansada demais. But the hill became steeper and she was just too tired. She couldn’t go any further. Ela cai onde está.

Caitlin pisca e, ao abrir os olhos, vê seu pai parado acima dela, olhando-a com um sorriso nos lábios.

“Caitlin,” ele diz. “Minha filha. Estou muito orgulhoso de você.”

Ela tenta esticar o braço, abraçá-lo, mas a chave está em cima de seu corpo, e é muito pesada, impedindo-a de se mover.

Ela olha para ele, tentando falar, mas seus lábios estçao rachados e sua garganta está seca.

“Caitlin?”

“Caitlin?”

Caitlin abre os olhos de repente, assustada.

Ela olha para cima, e vê um homem sentado ao seu lado na cama, observando-a sorridente.

Ele estica o braço, e gentilmente tira os cabelos da frente dos olhos dela.

Isso ainda é um sonho? Ela sente o suor frio em sua testa, sente o toque dele em seu pulso, e torce para que não seja.

Pois diante dela, sorrindo com carinho, está o amor de sua vida.

Caleb.




CAPÍTULO TRÊS


Sam repentinamente abre os olhos. Ele está olhando para o céu, para o tronco de um enorme carvalho. Ele pisca diversas vezes, tentando descobrir onde está.

Ele sente algo macio e bastante confortável em suas costas e, ao olhar, percebe que está deitado sobre musgos no chão de uma floresta. Ele olha para cima de novo, e vê dezenas de árvores acima dele, balançando com o vento. Ele ouve um barulho de água, e ao procurar a fonte, enxerga um pequeno riacho que corre por ali, a apenas alguns metros da cabeça dele.

Sentado, Sam observa o lugar a sua volta, olhando em todas as direções para absorver tudo. Ele está no meio de uma floresta, e a única luz disponível é a que consegue atravessas as copas das árvores.  Ele olha para baixo e vê que está completamente vestido, com o mesmo traje de batalha que estava usando no Coliseu. O lugar onde ele está é calmo, o único som que ele ouve é o do riacho, dos pássaros e de alguns animais à distância.

Sam percebe, com alívio, que a viagem no tempo havia funcionado. Ele está obviamente em outro lugar e tempo- embora não faça a mínima ideia de quando e onde.

Sam verifica seu corpo atentamente, e percebe que não havia se ferido gravemente, e que se encontra ainda inteiro.  Ele sente que a fome começa a incomodá-lo, mas sabe que ainda terá que esperar. Primeiro, ele precisa descobrir que lugar é aquele.

Ele apalpa o próprio corpo, procurando para ver se tinha alguma arma consigo.

Infelizmente, nenhuma delas havia sobrevivido à viagem no tempo. Ele está sozinho de novo, forçado a se defender apenas com as próprias mãos.

Ele se pergunta se ainda tem os poderes de um vampiro. Ele pode sentir uma força sobrenatural cursando suas veias, e pressente que sim. Mas por outro lado, ele não pode ter certeza até que experimente.

E a oportunidade se apresenta antes do que ele imaginava.

Sam ouve um galho se partindo, e ao virar vê um grande urso se aproximando dele lentamente e de forma agressiva. Ele fica paralisado.  O urso ruge para ele, mostrando as presas.

Um segundo depois, ele começa a correr, exatamente na direção de Sam.

Sam não tem tempo para correr, e lugar nenhum onde se esconder. Ele logo percebe que não tem escolha, a não ser enfrentar o animal.

Estranhamente, ao invés de ser tomado pelo medo, Sam sente o ódio tomar conta de seu corpo. Ele está furioso com o animal. Ele não gosta do fato de ter sido atacado, especialmente antes que tivesse a chance de se recuperar. Então, sem pensar muito, Sam ataca também, se preparando para lutar contra o urso da mesma forma que faria contra um humano.

Sam e o urso se encontram na metade do caminho. O urso parte para cima dele, e Sam revida.  Ele pode sentir o poder cursando suas veias, ele sente a força lhe dizendo que ele é invencível.

Ao encontrar o urso em pleno ar, ele percebe que estava certo. Agarrando o urso pelo ombro, ele segura firme, gira o corpo e o arremessa. O uso é lançado no ar por vários metros, atravessando a floresta e batendo de encontro a uma árvore.

Sam fica parado no lugar e ruge para o urso, um rugido feroz, ainda mais alto que o do animal. Enquanto grita, ele sente seus músculos e veias se contraindo.

O urso se levanta devagar, cambaleando, e olha para Sam com o que parece ser um olhar de surpresa. Enquanto anda, o urso manca e, depois de alguns passos incertos, abaixa a cabeça, dá as costas para Sam, e foge.

Mas Sam não vai deixar com que ele escape tão facilmente. Ele está nervoso, e sente que nada no mundo conseguiria abater sua raiva. E ele está com fome. O urso terá que pagar.

Sam sai em disparada, e fica contente ao constatar que é mais rápido que o animal. Dentro de poucos instantes ele alcança o urso e, com um único salto, vai parar nas costas dele. Ele afasta um pouco o rosto e então perfura o pescoço do animal.

O urso grita de dor, contorcendo seu corpo descontroladamente, mas Sam se mantém firme. Ele enfia suas presas ainda mais fundo e, em poucos minutos, sente o urso cair de joelhos a seus pés. Finalmente, ele para de se mexer.

Sam deita sobre o corpo do animal, bebendo, e sente a força vital do urso cursar todo o seu corpo.

Finalmente, Sam se afasta e passa a lingual nos lábios, coberto de sangue. Ele nunca havia se sentido tão revigorado. Essa é a refeição de que ele precisava.

Sam está prestes a se levantar quando ouve outro galho se partindo.

Ele olha para a direção do barulho e vê, – parada em uma clareira da floresta, uma jovem garota, com aproximadamente 17 anos, completamente vestida com um tecido branco e fino. Ela permanece imóvel, segurando uma cesta, e o observa com espanto. Sua pele é quase transparente, e seus longos cabelos castanhos combinam bem com seus grandes olhos azuis. Ela é linda.

Ela encara Sam, igualmente petrificada.

Ele se dá conta de que ela deve estar com medo dele, com receio de que ele a ataque; ele percebe que sua aparência provavelmente lhe parece repulsiva, em cima de um urso e com sangue na boca. Ele não quer assustá-la.

Então ele salta para longe do animal, dando vários passos na direção dela.

Para sua surpresa, ela não se mostra assustada, ou tenta escapar. Pelo contrário, ela apenas continua a encará-lo, sem medo.

“Não tenha medo,” ele fala. “Eu não vou machucar você.”

Ela sorri, o que o deixa surpreso. Ela não é apenas linda, é também muito corajosa. Como isso seria possível?

“Mas é claro que não vai,” ela responde. “Você é como eu.”

É a vez de Sam ficar espantado. No momento que ela diz isso, ele sabe que é verdade. Ele havia pressentido algo ao vê-la pela primeira vez, e agora ele tem certeza. Ela é como ele. Um vampiro. É por isso que ela não demonstra medo.

“Bom ataque,” ela diz, apontando para o urso. “Um pouco desajeitado, você não concorda? Por que não tentar um veado?”

Sam sorri. Ela não é apenas bonita – mas também tem senso de humor.

“Quem sabe da próxima vez,” ele responde.

Ela sorri.

“Você se incomoda em me dizer em que ano estamos?” ele pergunta. “Ou pelo menos em que século?”

Ela apenas sorri, balançando a cabeça.

“Eu acho que vou deixar você descobrir isso sozinho. Se eu lhe contar, estragarei toda a surpresa, não é mesmo?”

Sam gosta dela. Ela é corajosa. E ele se sente à vontade perto dela, como se a conhecesse há anos.

Ela dá um passo à frente, e estica o braço. Sam segura na mão dele, apreciando o toque suave de sua pele translúcida.

“Meu nome é Sam,” ele diz, apertando sua mão e segurando por mais tempo que o necessário.

Ela abre ainda mais seu sorriso.

“Eu sei,” ela diz.

Sam fica surpreso. Como ela poderia saber disso? Eles já haviam se conhecido? Ele não consegue se lembrar.

“Fui enviada para buscar você,” ela completa.

A garota de repente se vira e começa a caminhar por uma trilha na floresta.

Sam se apressa para alcançá-la, presumindo que ela queira que ele a siga. Sem prestar muita atenção para onde está indo, ele tropeça em um galho e pode ouvi-la rindo baixinho.

“Mas e aí?” ele insiste. “Você não vai me dizer qual o seu nome?”

Ela dá mais uma risadinha.

“Bem, eu tenho um nome formal, mas raramente sou chamada por ele,” ela informa.

E então, ela se vira e olha na direção dele, enquanto espera que ele a alcance.

“Se você insiste em saber, todos me chamam de Polly.”




CAPÍTULO QUATRO


Caleb abre a imensa porta medieval e, ao fazer isso, Caitlin sai do mosteiro e dá os primeiros passos sob o sol da manhã. Lado a lado, ela e Caleb assistem o amanhecer do sol. Dali, de cima da colina de Montmartre, ela pode ver toda a cidade de Paris diante de seus olhos. A cidade é muito bonita, uma mistura entre a arquitetura clássica e casas mais simples, entre ruas de paralelepípedo e de terra, e árvores e urbanidade. O céu cobre a cidade com um milhão de cores e nuances, dando-lhe vida. É uma cena mágica.

Ainda mais mágica é a mão que ela segura entre as dela. Ela olha para o lado e vê Caleb em pé ao seu lado, apreciando a vista com ela, e Caitlin mal consegue acreditar que aquilo tudo é real. Ela mal acredita que aquela pessoa ao seu lado é realmente Caleb, e que eles de fato estão ali. Juntos. Que ele sabe quem ela é, e que se lembra dela. Que a tinha encontrado.

Mais uma vez, ela se pergunta se teria mesmo acordado, se aquilo tudo não seria outro sonho.

Mas enquanto fica parada ali, ela aperta a mão dele com mais força, e tem certeza que não está sonhando. Ela nunca havia se sentido tão feliz antes. Ela estava correndo há tanto tempo, e tinha voltado no tempo, todos esses séculos, apenas para estar com ele. Apenas para certificar-se que ele ainda estava vivo. Quando ele não a tinha reconhecido, na Itália, foi como seu mundo tivesse desmoronado.

Mas agora que ele está ali, vivo, e sabendo quem ela é – agora que ele é só dela, solteiro, sem Sera por perto – seu coração se enche de emoção, com as esperanças renovadas. Ela nunca teria imaginado que as coisas acabariam acontecendo tão perfeitamente, que tudo que ela havia feito fosse realmente dar certo. Ela está tão confusa, que nem sabe por onde começar, ou o que dizer primeiro.

Antes que ela diga qualquer coisa, ele começa a falar.

“Paris,” ele diz, virando-se para ela com um sorriso. “Certamente há lugares piores onde poderíamos estar.”

Ela também sorri.

“Durante toda minha vida, sempre quis conhecer Paris,” ela responde.

Com alguém que eu amo, ela gostaria de dizer, mas não consegue. Ela tem a sensação de que há muito tempo não ficava ao lado de Caleb, e de repente se sente aflita de novo. Por um lado, é como se ela estivesse ao lado dele desde sempre – desde antes disso – mas por outro lado, é como se estivesse conhecendo Caleb pela primeira vez.

Ele estiva a mão, com a palma virada para cima.

“Gostaria de conhecê-la comigo?” ele convida.

Ela estiva o braço e coloca sua mão na dele.

“É uma longa caminhada até lá embaixo,” ela diz, olhando para a colina íngreme que se estende por milhas até chegar a Paris.

“Eu estava pensando em algo um pouco mais pitoresco,” ele responde. “Voando.”

Ela mexe os ombros, testando para ver se suas asas ainda funcionam. Ela se sente rejuvenescida, recuperada após ter bebido o sangue branco do cálice – mas ainda não tem certeza de que consegue voar. E ela não se sente pronto para pular de cima da montanha na esperança de que suas asas funcionem.

“Acho que ainda não estou preparada,” ela diz.

Ele olha para ela, e compreende tudo.

“Voe comigo,” ele diz, completando com um sorriso, “como nos velhos tempos.”

Ela sorri e se aproxima dele por trás, segurando firme em seu ombro. A proximidade com o corpo musculoso de Caleb lhe faz bem.

Ele salta de repente no ar, tão rápido que ela quase não consegue se segurar a tempo.

Antes que ela perceba, eles estão Voando; Caitlin segura nas costas dele com força, descansando a cabeça em seus ombros. Ela sente uma sensação familiar no estômago, ao mergulharem até bem perto da cidade, rumo ao alvorecer. É de tirar o fôlego.

Mas nada daquilo é tão impressionante como estar nos braços dele novamente, de abraçá-lo e simplesmente ficar junto a ele. Eles estão reunidos há pouco mais de uma hora, e ela já reza para que nunca tenham que se separar novamente.


*

A Paris que sobrevoam, a paris de 1789, é – de muitas maneiras, semelhante à paris que ela tinha visto no século XXI. Ela reconhece muitos dos prédios, igrejas, campanários e monumentos. Apesar de ter centenas de anos, a cidade se parece quase exatamente igual ao século XXI. Assim como Veneza e Florença, muito pouco havia mudado em algumas centenas de anos.

Mas por outro lado, a cidade é bastante diferente. Ela não é tão desenvolvida. Embora algumas ruas sejam pavimentadas com paralelepípedos, muitas outras ainda são de terra. Ela não é tão apertada, e entre os prédios ainda há grupos de árvores, quase como se a cidade tivesse sido construída em meio a uma floresta. Ao invés de carros, há cavalos, carruagens, pessoas caminhando pela terra ou empurrando carroças. Tudo parece acontecer mais lentamente e de maneira mais relaxada.

Caleb mergulha mais baixo, e eles voam apenas alguns metros acima dos telhados dos prédios. Ao sobrevoarem o ultimo deles, de repente, o céu se abre e diante deles surge o rio Sena, atravessando o meio da cidade. Ele tem um brilho amarelo sob a luz da manhã, e a cena encanta Caitlin.

Caleb mergulha ainda mais, sobrevoando o rio, e ela se maravilha com a beleza e romantismo da cidade. Eles voam sobre uma pequena ilha, a Ilha da Cidade, e ela reconhece Notre Dame logo abaixo, e seu enorme campanário erguendo-se acima de todo os outros prédios.

Caleb mergulha ainda mais, ficando bem próximo da água, e o ar úmido do rio ajuda a refrescá-los naquela manhã quente de Julho. Caitlin vira o rosto e vê Paris em ambos os lados do rio, à medida que voam por baixo e por cima das numerosas pontes ligando um lado ao outro do rio. Então Caleb sobe, e parte na direção do outro lado, pousando suavemente atrás de uma grande árvore, longe dos olhares dos pedestres.

Caitlin olha a sua volta e vê que ele os tinha levado ao jardim de um enorme parque, que parece se estender por milhas ao longo do rio.

“O Jardim das Tulherias,” Caleb diz. “Exatamente o mesmo jardim do século XXI. Nada mudou; ele ainda é o lugar mais romântico em Paris.”

Com um sorriso, ele estica o braço e pega sua mão. Eles começam a caminhar juntos por uma trilha que atravessa o jardim. Ela nunca havia se sentido tão feliz.

Há tantas perguntas que ela gostaria de lhe fazer, tantas coisas que gostaria de lhe dizer, mas ela não sabe exatamente por onde começar. Mas ela tem que começar de alguma forma, então decide que começaria com as coisas que haviam acontecido mais recentemente.

“Muito obrigada,” ela diz, “Por Roma. No Coliseu. Por ter me salvado,” ela diz. “Se você não tivesse chegado naquele momento, não sei o que teria acontecido.”

Ela se vira e olha para Caleb, de repente incerta. “Você se lembra?” ela pergunta preocupada.

Ele olha para ela e assente, e ela vê que ele diz a verdade. Ela se sente aliviada; ao menos, afinal, eles estavam na mesma página. Suas lembranças havia retornado, e isso já significa muito para ela.

“Mas eu não salvei você,” ele diz. “Você se virou bem sem mim. Pelo contrário, foi você quem me salvou. Estar com você – não sei o que faria sem você,” ele completa.

Quando ele aperta sua mão, ela sente todo seu coração lentamente voltando ao normal.

Ao caminharem pelo jardim, ela observa com curiosidade todas os diferentes tipos de flores, fontes e estátuas… O jardim é um dos lugares mais românticos que ela já havia visitado.

“E eu sinto muito,” ela completa.

Ele olha para ela, e Caitlin quase desiste de continuar.

“Pelo seu filho.”

Seu rosto se transforma, e antes que ele consiga virar o rosto, Caitlin vislumbra a profunda tristeza em seu semblante.

Que idiota, ela pensa. Por que você sempre tem que abrir a boca e estragar o momento? Por que não esperou para falar sobre isso depois?

Caleb engole seco e concorda com a cabeça, emocionado demais para dizer qualquer coisa.

“E sinto muito por Sera,” Caitlin completa. “Eu nunca quis me intrometer entre vocês dois.”

“Não se lamente,” ele pede. “Aquilo não teve nada a ver com você. Era algo entre mim e ela, nunca deveríamos ter ficado juntos. Estava tudo errado desde o começo.”

“Bem, por ultimo, eu gostaria de lhe dizer que sinto muito pelo que aconteceu em Nova Iorque,” ela emenda, sentindo-se aliviada por finalmente ter lhe dito isso. “Eu nunca teria lhe esfaqueado se soubesse que era mesmo você. Eu juro. Eu pensei que você fosse outra pessoa, transmutada. Eu nunca, nem por um segundo, pensei que pudesse ser mesmo você.”

Os olhos dela começam a ficar marejados com a simples lembrança.

Ele para de andar e olha para ela, com a mão em seu ombro.

“Nada disso tem importância agora,” ele diz com sinceridade. “Você voltou para me salvar. E eu sei que você fez isso a um grande custo. Poderia ter dado tudo errado, e você arriscou sua própria vida por mim. E abriu mão de nosso filho para isso,” ele diz, olhando para ela com um olhar triste. “Eu amo você mais do que posso dizer,” ele diz, ainda olhando para baixo.

Ele olha para ela com olhos cheios de lágrimas.

Nesse momento, eles se beijam. Ela se sente derreter nos braços dele, à medida que todo o seu corpo se relaca, e eles continuam se beijando pelo que parece uma eternidade. É o momento mais importante que ela já tinha vivido com ele e, de certa forma, ela sente como se o estivesse conhecendo pela primeira vez.

Finalmente, eles lentamente param de se beijar, e continuam olhando dentro dos olhos um do outro.

Então, ambos olham para o lado, recatados, e de mãos dadas continuam a caminhada pelo jardim, ao longo do rio. Caitlin continua apreciando a beleza e romantismo de Paris, e percebe que naquele exato instante, seus sonhos estavam se realizando. É com isso que ela sempre havia sonhado na vida; estar com alguém que realmente a amasse. Estar em um lugar bonito e romântico e sentir que ainda tem uma vida inteira pela frente.

Caitlin sente a presença da caixa incrustada de joias em seu bolso, e fica ressentida. Ela não quer ter que abri-la. Ela ama seu pai, mas não quer ler a carta que ele havia deixado para ela. Naquele momento, ela percebe que não quer mais continuar sua missão. Ela não quer se arriscar a ter que viajar no tempo de novo, ou ter que encontrar as outras chaves. Ela deseja apenas ficar aqui, neste lugar, neste tempo, com Caleb. Em paz. Ela não quer que nada mude. Caitlin está determinada a fazer o que for preciso para proteger o tempo que eles têm juntos, e realmente continuar junto a Caleb. Uma parte dela acredita que isso só seja possível se ela desistir de sua missão.

Ela se vira e olha para ele. Ela está nervosa, mas sabe que é algo que precisa ser feito.

“Caleb,” ela diz, “Eu não quero continuar minha busca. Sei que tenho uma missão muito especial, que preciso ajudar os demais e que devo encontrar o Escudo. Posso parecer egoísta em dizer isso, sinto muito se é assim que você pensa. Mas eu só quero estar ao seu lado. Isso é a coisa mais importante para mim no momento. Ficar aqui neste lugar com você, agora. Sinto que se continuarmos nossa busca, acabaremos em outro lugar, em outra época. E podemos não estar juntos da próxima vez…” Caitlin para de falar, e percebe que está chorando.

Ela respire profundamente em silêncio, se perguntando o que ele pensaria dela, torcendo para que ele não discorde dela.

“Você me entende?” ela pergunta receosa.

Ela observa o horizonte, parecendo preocupado, e então finalmente se vira para ela. Caitlin fica ainda mais aflita.

“Eu não quer ler a carta que meu pai escreveu, ou procurar mais pistas. Quero apenas que fiquemos juntos. Eu gostaria que tudo permanecesse exatamente como está agora. Não quero mais mudanças. Espero que você não me odeie por isso.”

“Eu nunca odiaria você,” ele diz com voz suave.

“Mas você não concorda?” ela insiste. “Você acha que eu deveria continuar a missão?”

Ele desvia o olhar sem dizer nada.

“O que foi?” ela pergunta. “Você está preocupado com os outros?”

“Acho que deveria estar.” ele responde. “E de certa forma, estou. Mas eu também tenho motivos egoístas. Acho que…. no fundo esperava que se encontrássemos o Escudo, eu poderia de alguma forma trazer meu filho de volta. Jade.”

Caitlin se sente extremamente culpada ao perceber que ele pensa que ao desistir da missão, está também abrindo mão de rever seu filho para sempre.

“Mas não é assim que as coisas funcionam,” ela diz. “Não sabemos com certeza que ao encontrar o Escudo, se ele de fato existir, seremos capazes de trazê-lo de volta. Mas sabemos que senão continuarmos a busca podemos ficar juntos. Isso diz respeito a nós dois. É o mais importante para mim.” Ela pausa. “É isso o mais importante para você?”

Ele olha para o horizonte e concorda com cabeça; mas não olha para ela.

“Ou você só diz que me ama, pois eu posso ajudá-lo a encontrar o Escudo?” ela pergunta.

Ela se surpreende consigo mesma, por ter tido coragem de fazer a pergunta. É algo que ela já vinha considerando a algum tempo, desde que havia conhecido Caleb pela primeira vez. Ele havia se envolvido com ela por causa de tudo que ela poderia fazer por ele? Ou ele realmente a amava? Agora, ela finalmente saberia a verdade.

O coração dela bate acelerado enquanto ela espera pela resposta.

Finalmente, ele se vira e olha dentro dos olhos dela. Ele ergue o braço, e lentamente acaricia seu rosto com a mão.

“Eu amo você pelo que você é” ele diz. “Eu sempre amei você. Se para ficar ao seu lado, devo desistir da busca pelo Escudo, então é isso que eu farei. Eu quero ficar ao seu lado, e também quero encontrar o Escudo. Mas no momento, você é muito mais importante para mim.”

Caitlin sorri, sentindo algo em seu coração que ela não sentia há muito tempo. Uma sensação de paz e estabilidade. Nada poderia detê-los agora.

Ele remove o cabelo da frente do rosto dela, abrindo um sorriso.

“É engraçado,” ele diz, “Eu já vivi aqui antes. Há séculos, não em Paris, mas no interior do país. Eu morava em um pequeno castelo; não sei se ele ainda existe, mas podemos procurá-lo.”

Ela sorri, e ele de repente a coloca nas costas e salta no ar. Dentro de instantes, eles estão voando alto sobre Paris, em direção ao interior, à procura do castelo de Caleb.

A casa deles.

Caitlin não consegue conter sua própria felicidade.




CAPÍTULO CINCO


Sam tem dificuldade em acompanhar a conversa de Polly enquanto caminham. Ela fala rápido demais, e parece não parar nunca, partindo de um assunto ao outro sem pausa. Ele ainda está desconcertado devido à viagem no tempo, e a chegada a um novo lugar – e precisa de tempo para processar tudo aquilo.

Mas eles estavam caminhando há quase meia hora; ele constantemente tropeçando em galhos enquanto a segue em ritmo frenético pela cidade, e ela sem parar de falar. Ele mal havia conseguido dizer uma palavra. Ela continua falando sobre o “palácio” e a “corte” e sobre os membros de seu coven e um concerto que aconteceria, e um homem chamado Aiden. Ele não faz a mínima ideia sobre o que ela está falando – ou onde o está levando. Ele está determinado a encontrar algumas respostas.

“… claro, não é bem um baile,” Polly está dizendo, “mas mesmo assim, será um evento maravilhoso – mas não sei ainda o que vou vestir. Há tantas opções, mas não o suficiente para um evento como esse—”

“Por favor!” Sam diz finalmente, enquanto ela continua saltitando pela floresta, “Sinto interrompê-la, mas tenho algumas perguntas para lhe fazer. Por favor. Eu preciso de respostas.”

Ela finalmente para de falar, e ele respira aliviado. Ela olha para ele com um olhar curiosa, como se não percebesse que havia falado durante todo o tempo.

“Tudo o que você precisa fazer é perguntar!” ela diz alegremente. E então, antes que ele possa responder ela completa impaciente, “E aí? O que você quer saber?”

“Você disse que foi enviada para me buscar,” Sam diz. “Por quem?”

“Essa é fácil,” ela responde. “Aiden.”

“E quem é ele?” Sam quer saber.

Ela dá uma risadinha, “Gente, mas você tem muito que aprender, não é mesmo? Ele só é o mentor de nosso coven há milhares de anos. Não sei por que ele está interessado em você, ou por que ele me pediu que caminhasse tão longe para buscá-lo em um dia tão lindo como esse. Até onde eu sei você mesmo teria encontrado seu caminho até nós eventualmente. Sem falar, que eu tinha milhares de coisas para fazer hoje, inclusive achar um vestido novo e—”

“Por favor,” Sam diz, tentando se concentrar no que estava dizendo antes que perca o foco. “Eu realmente agradeço por você ter vindo me buscar e tudo mais, e não quero parecer mal agradecido,” ele diz, “mas onde quer que estejamos indo, eu realmente não tenho tempo para isso. Veja bem, eu vim até aqui, até este lugar e tempo, por uma razão. Eu preciso ajudar minha irmã; preciso encontrá-la – e não tenho tempo para visitas.”

“Bem, eu dificilmente chamaria isso de uma visita,” Polly diz. “Aiden é só o homem mais procurado na corte. Se ele se interessou por você, não é uma oportunidade para se jogar fora,” ela explica. “E seja lá quem você procura, se alguém pode ajudá-lo, essa pessoa é Aiden.”

“E onde é que estamos indo, exatamente? E quanto tempo falta para chegarmos lá?”

Ela dá mais alguns passos pela floresta e ele se apressa para alcança-la, se perguntando se ela responderia sua pergunta, ou daria alguma resposta objetiva – quando, naquele momento, a floresta de repente se abre.

Ela para e ele para ao lado dela, espantado.

Diante deles há um campo imenso e, à distância, um lindo jardim, com a grama perfeitamente cortada em diferentes formas e variados tamanhos. O lugar é lindo, como uma obra de arte viva.

Ainda mais bonito é o que existe além do jardim. Há um palácio, maior que qualquer estrutura que Sam já tinha visto. O prédio todo é feito de mármore, e se estende em todas as direções até onde Sam pode enxergar. A arquitetura é clássica e formal, com dezenas de janelas imensas e uma ampla escadaria de mármore levando até a entrada. Ele sabe que já tinha fotos daquela construção em algum lugar, mas não consegue se lembrar de onde.

“Versalhes,” Polly diz, oferecendo uma resposta como se tivesse lido os pensamentos dele.

Ele olha para ela e sorri.

“É onde nós moramos. Você está na França, em 1789. Tenho certeza que Aiden deixará que se junte a nós, desde que Maria nos dê permissão.”

Sam olha para ela confuso.

“Maria?” ele pergunta.

Ela abre ainda mais o sorriso, balançando a cabeça. Ela lhe dá as costas e começa a saltitar pelo campo, na direção do palácio. Enquanto faz isso, ela responde a pergunta dele.

“A Maria Antonieta, é claro!”


*

Sam caminha ao lado de Polly, subindo os infindáveis degraus da escada de mármore, em direção às portas do palácio. Enquanto caminham, ele tenta absorver tudo o que vê pela frente. A magnitude e proporção daquele palácio é assustadora. À sua volta, pessoas que ele presume fazerem parte da realeza caminham pela propriedade, vestidas com roupas como ele nunca tinha visto antes. Ele não consegue parar de analisar o lugar. Se alguém tivesse lhe falado que ele estava sonhando, ele teria acreditado. Ele nunca havia estado na presença de pessoas da realeza.

Polly não tinha parado de falar, e ele se esforça para se concentrar no que ela diz. Ele gosta de estar perto dela, aprecia sua companhia, mesmo tendo dificuldades em prestar atenção ao que ela diz. Ele também a acha muito bonita, mas há algo sobre ele que o deixa em dúvida se ele realmente se sente atraído por ele, ou se gosta dela apenas como amiga. Com suas namoradas anteriores, ele tinha sentido atração desde a primeira vista; com Polly, ele sente uma grande camaradagem.

“Sabe, a família real mora aqui,” Polly diz, “mas nós também vivemos aqui. Eles nos querem aqui, afinal somos a melhor proteção que eles podem ter. Vivemos juntos no que poderia ser chamado de harmonia amigável. Isso funciona para ambas as partes. Com essa floresta imensa, temos como caçar, um lugar agradável para viver e ótimas companhias. Em troca, ajudamos a proteger a família real – sem falar que alguns deles são como nós, também.”

Sam olha para ela ainda mais surpreso.

“A Maria Antonieta?” ele pergunta.

Polly assente discretamente com a cabeça, como se estivesse tentando guardar o segredo, sem sucesso.

“Mas não conte para ninguém,” ela pede. “Há alguns outros também, mas a maior parte da realeza é humana. Eles querem ser como nós, mas há regras bastante rígidas quanto a isso. Não é permitido; somos nós e eles, e não temos permissão para cruzar essa linha. Não queremos que certos membros da realeza tenham muito poder – e Maria também insiste nisso.

“De qualquer forma, esse lugar é simplesmente fabuloso. Não consigo imaginar que um dia isso chegue ao fim. Temos festas seguidas por mais festas, e bailes intermináveis, e concertos… Esta semana teremos um concerto maravilhoso; na verdade é uma ópera – já até escolhi meu vestido.”

Ao chegarem até as portas, vários serviçais se apressam para abri-las. As portas douradas são enormes e Sam as observa espantado ao entrar no palácio.

Polly atravessa um corredor comprido de mármore como se fosse a dona do lugar, e Sam precisa se apressar para acompanhá-la. Enquanto caminham, Sam olha tudo à sua volta, impressionado pelo luxo do lugar. Eles passam por diversos corredores, também feitos de mármore e repletos de espelhos dourados que refletem a luz de diversos lustres de cristal. O sol invade o lugar, iluminando ainda mais o local.

Eles passam por diversas portas e finalmente chegam a um salão de mármore rodeado de colunas. Vários guardas estão a postos quando Polly entra na sala.

Polly dá uma risadinha, aparentemente imune a eles. “Nós também podemos treinar aqui,” ela informa. “As instalações do palácio são as melhores que existem, e Aiden nos mantém sempre ocupados. Fico surpresa que ele tenha permitido que eu pausasse para ir buscar você. Você deve ser alguém mito importante.”

“Então onde está ele?” Sam pergunta. “Quando poderei conhecê-lo?”

“Nossa, você é bem impaciente, não é mesmo? Ele é um homem muito ocupado, e pode escolher não conhecer você por algum tempo, ou pode mandar alguém buscá-lo imediatamente. Não se preocupe, você saberá quando ele quiser vê-lo. Espere um pouco. Enquanto isso, pediram que eu lhe mostrasse seu quarto.”

“Meu quarto?” Sam pergunta, surpreso. “Espere só um minuto, eu nunca disse que ficaria aqui. Como eu disse, eu realmente preciso encontrar minha irmã,” Sam começa a protestar —mas naquele instante, grandes portas duplas se abrem diante deles.

Uma comitiva real de repente entra no salão, ao redor de uma mulher que fica no centro, sendo carregada em um trono real.

Eles a colocam no chão e, ao fazerem isso, Polly faz uma saudação, inclinando-se para frente e gesticulando para que Sam faça o mesmo. Ele obedece.

A mulher, Maria Antonieta, lentamente se levanta do trono e dá vários passos na direção deles, parando diante de Sam e gesticulando para que ele se levante. Sam mais uma vez obedece.

Ela olha Sam da cabeça aos pés, como se ele fosse um objeto de seu interesse.

“Então, você é o novo garoto,” ela diz, com o rosto sem expressão. Seus olhos verdes ardem com uma intensidade que Sam nunca tinha visto antes e ele sente, realmente, que ela é como eles.

Finalmente, após segundos intermináveis, ela balança a cabeça afirmativamente. “Interessante.”

Com isso, ela passa por eles e sua comitiva rapidamente a segue para fora do salão..

Apenas uma pessoa fica para trás, obviamente alguém da família real. Ela parece ter 17 anos, e está usando um vestido de veludo azul real, dos pés a cabeça. Ela tem a pele mais clara que Sam já havia visto, cabelos loiro encaracolados e olhos azuis bem claros. Ela fixa o olhar em Sam, encarando-o abertamente.

Ele fica hipnotizado pelo olhar dela, incapaz de olhar para qualquer outra coisa.

Ela é a garota mais bonita que ele já havia conhecido.

Após alguns segundos, ela dá um passo à frente e olha dentro dos olhos dele ainda mais de perto. Ela estica o braço, com a palma da mão virada para baixo, obviamente esperando que ele a beije. Ela se move devagar, com orgulho.

Sam pega na mão dela, e sente a eletricidade ao tocar em sua pele. Ele leva os dedos dela até os lábios e os beija.

“Polly?” a garota diz. “Você não vai nos apresentar?”

Não é uma pergunta. É uma ordem.

Polly limpa a garganta, relutantemente.

“Kendra, Sam,” ela fala. “Sam, Kendra.”

Kendra, Sam pensa, olhando dentro dos olhos dela, surpreso pela maneira como ela o encara com agressividade, como se ele já fosse uma propriedade sua.

“Sam,” ela repete, sorrindo. “Um pouco simples, mas eu gosto.”




CAPÍTULO SEIS


Kyle arrebenta o sarcófago de pedra com apenas um golpe. Ele se parte em um milhão de pedaços, e ele caminha para fora do caixão vertical, inteiro e pronto para a ação.

Ele dá uma volta e avalia o lugar, pronto para atacar qualquer pessoa que se aproxime. Na verdade, ele espera que alguém se aproxime para uma luta. Esta viagem no tempo tinha sido particularmente irritante, e ele está pronto para descontar sua raiva em alguém.

Mas ao olhar a sua volta, para sua decepção, ele percebe que o local está vazio. Ele está sozinho.

Lentamente, sua raiva começa a se abater. Ao menos ele tinha ido parar no lugar certo e, já pode sentir, no tempo certo. Ele sabe que tem mais experiência em viagens no tempo do que Caitlin, e que consegue definir mais especificamente o seu destino ao viajar. Ele olha ao redor e, para sua satisfação, percebe que está exatamente onde queria estar: Les Invalides.

Ele sempre havia gostado da Les Invalides, o lugar tinha sido importante para os piores tipos de sua raça. Um mausoléu subterrâneo, o lugar é feito de mármore, decorando com bom gosto e repleto de sarcófagos alinhados junto às paredes. O prédio tem o formato cilíndrico, com teto altíssimo terminando em um domo.  É um local sóbrio, ideal para o último local de descanso para os soldados de elite da França. Kyle também sabe que é ali que Napoleão um dia seria enterrado.

Mas ainda não. Eles ainda estavam no ano de 1789, e Napoleão – aquele bastardo – ainda está vivo; é um dos vampiros prediletos de Kyle. Ele deve ter em torno de 20 anos agora, pensa Kyle, ainda em começo de carreira. Ele não seria enterrado ali por muitos anos. Obviamente, sendo da mesma raça que ele, o enterro de Napoleão seria apenas um engodo, apenas uma forma de fazer com que os humanos acreditassem que ele era um deles.

Kyle sorri ao considerar sua situação. Aqui está ele, no túmulo de Napoleão, antes mesmo que ele tenha “morrido.” Ele está ansioso para revê-lo, para relembrar os velhos tempos. Napoleão é, afinal, um dos poucos vampiros por quem Kyle sente algo parecido com respeito. Mas é também um arrogante de merda, e Kyle terá que lhe ensinar uma lição.

Kyle caminha devagar e enquanto ouve seus próprios passos, considerado seu estado físico. Ele certamente já tinha vivido dias melhores; havia perdido um olho contra aquela criança horrível, – filho de Caleb – seu rosto desfigurado pela luta contra Rexius ainda em Nova Iorque. Se isso não bastasse, ele agora também tem uma ferida no rosto, do golpe que Sam havia usado contra ele no Coliseu. Ele está um bagaço, e sabe disso.

Mas estranhamente, ele também gosta disso. Ele é um sobrevivente. Está vivo, – ninguém tinha sido capaz de detê-lo, e ele sente mais ódio do que nunca. Ele está determinado a impedir que Caitlin e Caleb encontrem o Escudo, e também quer fazer com que paguem. Ele vai fazê-los sofrer como ele tinha sofrido. Sam também está em sua lista agora- os três estão – e ele não vai desistir até que possa torturar cada um deles, bem devagar.

Com alguns saltos, ele sobre a escada de mármore, chegando ao nível superior do túmulo. Kyle circula a área, caminhando até o fim da capela sob o grande domo, e coloca o braço atrás do altar.

Ele passa a mão na superfície da parede do altar, tateando, até que finalmente encontra o que está procurando. Ele empurra a manivela, e o compartimento secreto se abre. Colocando a mão dentro dele, Kyle remove uma longa espada de prata, com o punho incrustado de jóias. Ele segura a espada contra a luz, examinando-a com satisfação. Ela está exatamente como ele se lembrava.

Ele a pendura nas costas, se vira e caminha pelo corredor, chegando até a porta de entrada. Ele se inclina para trás e, com um chute forte, arranca a porta de madeira do batente, arremessando-a para longe. O barulho ecoa pelo prédio vazio, e Kyle fica feliz ao notar que sua força está completamente restabelecida.

Kyle vê que ainda é noite, e relaxa. Se quisesse, poderia voar a noite inteira, rumo ao seu objetivo – mas ele prefere saborear cada minute. A Paris de 1789 é um lugar muito especial; ele se lembra da imensidão de prostitutas, bêbados, apostadores e criminosos que ainda povoam a cidade.   Apesar da boa aparência e da arquitetura, há um submundo, grande e influente, que ele aprecia. A cidade lhe pertence.

Kyle fecha os olhos, concentrando-se em seus sentidos. Ele pressente a forte presença de Caitlin naquela cidade, e a de Caleb também. Quanto a Sam, ele não tem tanta certeza, mas sabe que ao menos dois deles estão ali. Isso é bom, tudo que ele tem a fazer agora, é encontrá-los. Ele os pegará de surpresa e, se tudo correr bem, os matará facilmente. Paris é um lugar bem mais simples; não há um Conselho Vampiro, como em Roma, à quem ele deva responder. Pelo contrário, há um grande coven do mal em Paris, liderado por Napoleão – e Napoleão lhe deve um favor.

Kyle decide que sua primeira atitude será rastrear o malandro e convencê-lo.  Ele convocará todos os homens de Napoleão para que façam o possível para localizar Caitlin e Caleb. Ele sabe que os homens de Napoleão serão úteis se, por acaso, eles tentarem resistir. Ele não deixará nada ao acaso desta vez.

Mas eles ainda têm tempo, pode se alimentar primeiro, se aclimatar à cidade. Além disso, seu plano já está em andamento. Antes de deixar Roma, ele havia localizado seu antigo parceiro, Sergei, e o enviado para Paris na sua frente. Se tudo tinha funcionado de acordo com seu plano, Sergei já está aqui, dedicado a completar sua missão; infiltrando-se no coven de Aiden. Kyle sorri ao lembrar; não há nada que ele aprecie mais do que um traidor, – do que um cafajeste como Sergei. Ele tinha se tornado um brinquedinho de muita utilidade.

Kyle desce as escadas como um garotinho em idade escolar, absolutamente satisfeito, pronto para invader a cidade e fazer o que bem quiser.

Enquanto Kyle caminha, um artista de rua se aproxima dele segurando uma tela e um pincel, gesticulando para que Kyle deixe que ele pinte um retrato seu. Não há nada que Kyle odeie mais do que alguém querendo fazer o seu retrato, mas está de tão bom humor que decide deixar que o homem viva.

Mas quando o homem decide insistir, seguindo Kyle de maneira agressiva, – enfiando a tela na direção dele, Kyle pensa que ele foi longe demais. Ele estica o braço, pegando o pincel, e o enfia entre os olhos do homem. Um segundo depois o homem cai no chão, morto.

Kyle pega a tela e a parte em pedaços sobre o corpo do artista.

Kyle continua seu caminho, satisfeito, a noite tinha começado bem.

Ao virar em um beco, dirigindo-se até o distrito de que ele se lembra, as lembranças começam a ressurgir. Várias prostitutas caminham pelas ruas, chamando por ele. Ao mesmo tempo, dois homens cambaleiam para fora de um bar, claramente bêbados, e esbarram em Kyle, sem prestar atenção por onde andam.

“Ei, seu babaca!” um dos homens grita para ele.

O outro homem se dirige à Kyle. “Ei, seu cego!” ele grita. “Preste atenção por onde anda!”

O homem estende o braço para dar um empurrão no peito de Kyle, mas seus olhos se abrem surpresos, quando o empurrão não surte o menor efeito. Kyle não se mexe um milímetro; é como se o homem tivesse empurrado uma parede.

Kyle balança a cabeça lentamente, espantado pela estupidez dos dois homens. Antes que eles possam reagir, ele leva a mão às costas, pega sua espada e, com um movimento rápido, corta a cabeça dos dois em uma fração de segundo.

Ele observa com satisfação enquanto as cabeças dos homens rolam, e os dois corpos começam a cair ao chão. Ele coloca a espada de volta nas costas, e puxa um dos corpos para perto dele. Ele enfia suas longas presas no pescoço aberto, e bebe com avidez à medida que o sangue escorre.

Kyle pode ouvir as prostitutas ao seu redor começando a gritar ao perceberem o que havia acontecido. Seus gritos são seguidos pelo som de portas e janelas sendo fechadas.

Ele percebe que a cidade inteira já está com medo dele.

Bom, ele pensa. É exatamente o tipo de boas vindas de que ele gosta.




CAPÍTULO SETE


Caitlin e Caleb voam para fora de Paris sobrevoando o interior da França pela manhã; ela segura firme nas costas dele enquanto ele atravessa o ar. Ela se sente mais forte agora e sabe que se quisesse voar, poderia. Mas ela não quer se afastar de Caleb ainda, – ela gosta da sensação do corpo dele junto ao seu. Ela quer apenas abraçá-lo, experimentar a sensação de estarem juntos novamente. Ela sabe que é loucura, mas depois de terem passado tanto tempo separados, ela teme que, se soltá-lo, ele irá voar para longe dela.

Embaixo deles, a paisagem não para de mudar. Rapidamente, a cidade dá espaço para florestas densas e lindas colinas. Mais perto da cidade, há algumas casas e fazendas, mas quando mais se afastam, mais a paisagem parece intocada. Eles sobrevoam campos, prados verdejantes, algumas fazendas e ovelhas no pasto. Há fumaça saindo de chaminés, e ela deduz que as pessoas estejam cozinhando. Há varais estendidos sobre os quintais, onde lençóis estão secando. A cena é idílica, e a temperatura de Julho estava agradável o suficiente para que o vento fresco, especialmente a essa altura, é refrescante.

Depois de horas voando, eles fazem uma curva, e a paisagem deixa Caitlin sem fôlego: no horizonte, as águas azuis do mar refletem a luz do sol, enquanto ondas arrebentam continuamente na costa. Ao se aproximarem, a elevação aumenta, e ela vê que as colinas terminam na praia.

Aninhado junto às Colinas, em meio à grama alta, ela vê um único prédio delineado contra o horizonte. Trata-se de um castelo medieval glorioso, feito de calcário antigo e coberto por esculturas e gárgulas. Ele fica em um local alto da colina, com vista para o mar e rodeado por campos intermináveis de flores selvagens. A paisagem é de tirar o fôlego, e Caitlin sente como se estivesse em um cartão postal.

O coração de Caitlin começa a bater de excitação, ao considerar que este seja o castelo de Caleb. De alguma forma, ela sabe que é.

“Sim,” ele grita por causa do vento, lendo os pensamentos dela como sempre. “É aqui.”

O coração dela bate ainda mais rápido. Caitlin está tão feliz, e se sente tão forte; ela está pronta para voar sozinha.

De repente, ela solta as costas de Caleb e começa a voar pelo ar. Por um instante ela sente medo, sem saber se suas asas funcionariam, mas um segundo depois elas surgem, sustentando-a no ar.

Caitlin gosta da sensação do vento atravessando suas asas. É bom tê-las de volta e recuperar sua independência. Ela voa mais alto e mergulha na direção de Caleb, que sorri. Eles mergulham juntos, e depois sobem de novo, cruzando o caminho um do outro, deixando que as pontas de suas asas se toquem algumas vezes.

Juntos, eles mergulham, – se aproximando do castelo. Ele parece antigo; está bastante gasto, mas não é feio. Caitlin já o considera como seu lar.

Ao absorver tudo, observando a paisagem, as colinas e o oceano à distância, Caitlin se sente em paz pela primeira vez em muito tempo, como se finalmente estivesse em casa. Caitlin pode imaginar sua vida junto a Caleb e a família que teriam, se isso fosse possível. Ela ficaria feliz em passar seus últimos dias aqui com ele – e finalmente, ela não consegue pensar em nada que pudesse impedi-los.


*

Caitlin e Caleb aterrissam juntos em frente ao castelo, e ele segura sua mão, levando-a até a entrada. A porta de carvalho está coberta por uma camada grossa de poeira e sal e obviamente não tinha sido aberta por muitos anos.

“Já faz centenas de anos,” ele fala. “É uma surpresa agradável descobrir que ele ainda está aqui, que não foi vandalizado – e que ainda está trancado. Eu costumava deixar uma chave…”

Ele estica o braço, bem acima da janela, e tateia uma fenda atrás do arco de pedra em cima dela. Ele corre os dedos por ela, até que finalmente para, tendo localizado uma chave mestra longa e prateada.

Ao colocá-la na porta, ela se encaixa perfeitamente, e Caleb abre a fechadura com um suave clique.

Ele se vira e sorri para ela, abrindo-lhe caminho. “Por favor, me dê a honra,” ele diz, sinalizando para que ela entre.

Caitlin empurra a pesada porta medieval, abrindo-a lentamente; a porta range e placas de sal caem em pedaços quando a ela a empurra.

Eles entram juntos. O hall de entrada está escuro e coberto de teias de aranha. O ambiente é abafado e úmido, e parece não ter sido habitado há muitos séculos. Ela olha para as altas paredes de pedra, e para o chão. Há camadas de poeira cobrindo tudo, incluindo as janelas de vidro, o que impede a entrada da luz, fazendo o lugar parecer mais escuro do que o normal.

“Por aqui,” Caleb diz.

Ele a pega pela mão e a leva por um corredor estreito até um grande salão com janelas arqueadas em ambos os lados; o local está mais iluminado, apesar de empoeirado. Há alguns móveis ali: uma mesa medieval comprida, feita de carvalho, rodeada de cadeiras entalhadas. No meio do salão há uma enorme lareira – uma das maiores que Caitlin já tinha visto. É incrível – Caitlin se sente como se estivesse de volta aos Claustros.

“Ele foi construído no século XII,” ele diz, avaliando o lugar. “Naquela época, esse era o estilo.”

“Você morou aqui?” Caitlin pergunta.

Ele assente.

“Por quanto tempo?”

Ele pensa. “Não mais que um século,” ele responde. “Talvez dois.”

Caitlin se espanta, mais uma vez, com a imensidão do tempo no mundo vampiro.

Mas de repente, ela fica preocupada, ao pensar em uma possibilidade: ela tinha vivido aqui com outra mulher?

Ela teme perguntar, mas ele subitamente se vira e olha para ela.

“Não, não morei,” ele diz. “Eu vivia aqui sozinho, posso lhe garantir. Você é a primeira mulher que trago aqui.”

Caitlin fica aliviada, embora esteja envergonhada por ele ter lido seus pensamentos.

“Venha,” ele diz. “Por aqui.”

Ele a guia por uma escada de pedra em espiral e, depois de algumas voltas, eles chegam ao segundo andar. Ali, a luz do sol entra pelas grandes janelas em todos os lados, deixando o lugar mais claro que o primeiro andar. Os quartos são menores e mais íntimos. Há mais algumas lareiras de mármore no Segundo andar e, à medida que Caitlin caminha de quarto em quarto, ela localiza uma enorme cama com dossel em um dos quartos. Poltronas e sofás de veludo estão espalhados pelos outros quartos. Não há tapetes, apenas o chão de pedra. O castelo é simples, mas muito bonito.

Ele a dirige até o outro lado do quarto, até duas portas grandes de vidro. Elas estão tão cobertas de poeira que a princípio Caitlin não as tinha notado. Ele se aproxima delas e puxa as maçanetas com força até que, finalmente, elas se abrem com um barulho, levantando uma nuvem de poeira.

Ele caminha até o lado de fora, e Caitlin o segue.

Caitlin e Caleb se encontram em uma ampla sacada de pedra, cercada por colunas de calcário esculpido. Eles se aproximam da borda e observam a paisagem.

De onde eles estão, podem ver do interior à costa. Caitlin pode ouvir o som das ondas arrebentando na praia, e sentir o cheiro do mar na brisa que sopra em sua direção. É como se Caitlin estivesse sonhando.

Se Caitlin tivesse um dia imaginado a casa de seus sonhos, esta certamente seria ela. Ela está empoeirada, e carente de um toque feminino, mas Caitlin sabe que poderiam dar um jeito nisso, e restaurá-la ao estado original. Ela sente que este é um lugar que eles realmente poderiam chamar de lar.

“Eu estava pensando sobre o que você disse,” ele fala, “durante toda a viagem até aqui. Sobre construirmos uma vida juntos. Eu gostaria muito de fazer isso.”

Ele coloca um braço em volta dela.

“Eu gostaria que você vivesse aqui comigo, e que recomeçássemos nossa vida juntos bem aqui; o lugar é calmo, seguro e protegido. Ninguém sabe sobre este castelo, e ninguém poderá nos encontrar aqui. Não vejo por que não podemos viver nossas vidas em segurança, como pessoas normais,” ele fala. “Claro, é preciso muito trabalho para consertar o lugar; mas eu estou disposto, se você estiver.”

Ele olha para ela e sorri.

Ela devolve o sorriso, completamente apaixonada.

Mais que isso, ela está emocionada pelo convite para morar com ele, – nada é mais importante para ela do que isso. A verdade é que ela teria morado com ele em qualquer lugar, mesmo que fosse apenas uma cabana na floresta.

“Eu adoraria,” ela responde. “Eu quero apenas ficar ao seu lado.”

O coração dela bate acelerando ao se aproximarem para um beijo ao som das ondas que arrebentam ao longe, – e cercados pela brisa marinha.

Finalmente, tudo em sua vida está perfeito de novo.


*

Caitlin nunca esteve tão feliz, ao caminhar pela casa, indo de quarto em quarto com um pano úmido nas mãos. Caleb havia saído, tinha ido caçar, – animado com a ideia de trazer o jantar para os dois. Ela gosta da ideia, pois lhe daria tempo para ficar sozinha e explorar a casa, analisar tudo com o olhar de uma mulher, para decidir o que poderia fazer para transformar o castelo em um lar para os dois.

Ela anda pelos quartos abrindo janelas para permitir a entrada de ar fresco. Ela havia encontrado um balde e um pedaço de tecido velho e tinha ido até um riacho que atravessa o jardim nos fundos do castelo, voltando com o balde cheio de água. Ela também tinha tentado limpar o trapo na água do riacho o melhor que pôde. Ela encontra uma caixa de madeira e, usando-a como estepe ao abrir as enormes janelas, aproveita para limpar todos os vidros. Há algumas janelas altas demais para ela, então Caitlin ativa suas asas e voa até as janelas, pairando diante delas enquanto as limpa.

Ela fica surpresa pela grande diferença que uma pequena limpeza faz. O quarto havia se transformado de um lugar completamente escuro para um ambiente absolutamente iluminado. Deveria haver centenas de anos de sujeira e sal acumulados nos dois lados do vidro. Na verdade, abrir as janelas tinha sido uma grande façanha, e ela teve que fazer bastante força para conseguir abri-las.

Caitlin observa atentamente e fica impressionada pela perfeição do trabalho em cada vitral. Os vidros de todas as janelas são bem espessos, e exibem desenhos muito bonitos; algumas partes são coloridas com cores intensas, outras são transparentes e há ainda pedaços em cores mais claras. Ao limpar cada uma delas, Caitlin imagina sentir a gratidão da casa que, centímetro por centímetro, vai voltando à vida.

Caitlin finalmente termina e avalia o resultado. Ela fica surpresa, – o que antes tinha sido um quarto escuro e frio, agora é um ambiente incrivelmente convidativo, repleto de luz e com uma vista maravilhosa do mar.

Caitlin então se concentra no chão, ajoelhando-se para esfregar cada centímetro dele. Ela observa satisfeita enquanto remove a grossa camada de sujeira, revelando o chão de pedras que parece brilhar.

Depois disso, ela parte para a enorme lareira de mármore, removendo anos de poeira de sua superfície. E depois ela se dedica ao grande espelho exposto acima da lareira, polindo-o até que comece a brilhar. Ela ainda se sente um pouco decepcionada por não poder ver seu reflexo – mas sabe que não há nada que possa fazer quanto a isso.

Agora é a vez do lustre, e ela começa a limpar cada um de seus inúmeros candelabros de cristal. E então, ela olha para a cama com dossel, que ainda precisa ser limpa. Ela limpa a armação e a cabeceira com cuidado, lentamente trazendo de volta à vida a madeira envelhecida. Ela pega os cobertores velhos nos braços e os leva até o terraço; uma nuvem de poeira se levanta quando ela os chacoalha com força.

Caitlin returned to the room, her would-be bedroom, and surveyed it: it was now magnificent. It shone as brightly as any room in any castle. It was still medieval, but at least now it was fresh and inviting. Her heart soared at the idea of living here.

Ao olhar para baixo, ela percebe que a água do balde havia ficado completamente preta e, descendo a escada correndo, ela sai pela porta decidida a enchê-lo no riacho novamente.

Caitlin sorri ao pensar na reação que Caleb teria ao retornar para casa mais tarde. Ela imagina que ele vá ficar bastante surpreso. O próximo passo será limpar a sala de jantar. Ela quer criar um clima romântico para que fizessem a primeira refeição juntos como um casal em seu novo lar – a primeira de muitas, ela espera.

Ao se aproximar da beira do riacho e ajoelhar-se na grama macia para esvaziar e encher o balde novamente, Caitlin de repente pressente algo com seu sentido vampiro que a deixa em alerta. Ela ouve um barulho no mato, por perto, e sente que um animal se aproxima dela.

Ela vira na direção do barulho e se surpreende com o que vê.

Um filhote de urso se aproxima lentamente dela. Seu pelo é completamente branco, exceto por uma faixa cinza que passa entre os olhos dele, percorrendo todo o seu corpo. O que mais impressiona Caitlin são os olhos do filhote: eles a encaram como se já a conhecessem. E não é só isso: os olhos dele são exatamente iguais aos de Rose.

Caitlin sente as batidas de seu coração. Ela tem a impressão de que Rose havia retornado à vida, como se tivesse reencarnado em outro animal. Aquela expressão, aquele rosto. A cor do pelo é diferente, mas fora isso, o filhote poderia perfeitamente ser a reencarnação de Rose.

O filhote também parece surpreso em ver Caitlin. Ele para, encarando-a, e então lenta e cuidadosamente se aproxima, dando passos cautelosos na direção dela. Caitlin olha para a floresta, procurando para ver se encontrá outros filhotes por perto, ou a mãe dele. Ela não quer se envolver em uma briga.

Mas não há nenhum outro animal à vista.

Ao examinar o animal mais de perto, Caitlin entende por que. O filhote está mancando bastante, e sua pata está sangrando. Ele parece ferido, e provavelmente tinha sido abandonado pela própria mãe, deduz Caitlin – abandonado para morrer.

O filhote de lobo abaixa a cabeça e caminha bem devagar na direção de Caitlin. E então, para sua surpresa, ele encosta sua cabeça no colo dela, fechando os olhos e gemendo baixinho.

Caitlin quase não se contém de felicidade. Ela sente tanta falta de Rose, e agora é como se a tivesse de volta.

Caitlin coloca o balde no chão e, esticando os braços, pega o filhote no colo. Ela segura o animal junto ao peito, chorando, e se lembra de todas as vezes em que tinha feito o mesmo com Rose. Ela não consegue conter as lágrimas que escorrem pelo seu rosto, e o filhote, como se pressentisse a tristeza dela, olha para cima e começa a lamber as lágrimas de seu rosto.

Caitlin se abaixa e beija a testa do lobo, abraçando-o com força. A possibilidade de deixá-lo ali não existe; ela fará o que for preciso para ajudá-lo a ficar bom e saudável. E se o lobo quiser, ela gostaria de ficar com ele para sempre.

“Como devo chamá-la?” Caitlin pergunta. “Não posso usar o nome Rose de novo… Que tal… Ruth?”

O filhote de repente lambe a bochecha de Caitlin, como se estivesse respondendo ao nome; é a resposta que Caitlin esperava.

O nome dela seria Ruth.


*

Ao terminar de limpar a sala de jantar, Caitlin, com Ruth ao seu lado, encontra algo interessante junto à parede. Ao lado da lareira, há duas grandes espadas de prata. Ela pega uma delas na mão, removendo a poeira, e admira o punho incrustado de joias – é uma arma impressionante. Ela deixa o balde de lado, sem conseguir resistir à oportunidade de testá-la. Ela golpeia a espada com destreza, desferindo golpes à esquerda e à direita com uma e depois com a outra mão, enquanto anda pelo quarto. A sensação é ótima.

Ela se pergunta quantas outras armas Caleb guarda no castelo. Ela poderia se divertir muito treinando com elas.

“Vejo que encontrou as armas,” Caleb diz, entrando de repente pela porta. Caitlin imediatamente larga a espada, um pouco envergonhada.

“Desculpe, não foi minha intenção mexer em suas coisas.”

Caleb ri. “Minha casa é a sua casa,” ele diz, enquanto entra no quarto com dois veados nas costas. “O que é meu, também é seu e, além disso, você é exatamente como eu. Eu também não teria resistido às espadas,” emenda ele, piscando para ela.

Ele atravessa o quarto, carregando os veados, e então para de repente e olha para ela, parecendo surpreso.

“Nossa!” ele diz, espantado. “Parece outro lugar!”

Ele fica parado, encarando o quarto de olhos arregalados. Caitlin pode ver que ele está realmente impressionado, e fica satisfeita. Ela analisa o resultado, e percebe que o lugar realmente está transformado. Eles agora têm uma linda sala de jantar, completa com mesa e cadeiras, para a primeira refeição deles juntos.

Naquele instante, Ruth geme e Caleb olha para o chão, vendo o filhote pela primeira vez. Ele se mostra ainda mais surpreso.

Caitlin a princípio se sente aflita, sem saber se ele se importa em ficar com o filhote, mas fica feliz ao perceber que o olhar de felicidade no rosto dele.

“Eu não consigo acreditar,” Caleb diz, olhando para Ruth, “esses olhos… ela é igualzinha a Rose.”

“Podemos ficar com ela?” Caitlin pede timidamente.

“Eu adoraria,” ele responde. “Eu gostaria de abraçá-la, mas como vê, estou com as mãos ocupadas.”

Caleb continua com os veados, atravessando o quarto e o corredor. Caitlin e Ruth o seguem, e assistem enquanto ele coloca os veados em um quarto pequeno, em cima de uma enorme plataforma de pedra.

“Já que não cozinhamos de verdade,” ele diz, “pensei em drenar o sangue para que bebêssemos juntos em estilo, sentados diante da lareira.”

“Ótima ideia,” Caitlin responde.

Ruth senta aos pés de Caleb, olhando para cima e gemendo enquanto ele trabalha a carne. Ele ri, cortando um pequeno pedaço para ela. Ela pega a carne no ar e chora, pedindo mais.

Caitlin volta para a sala de jantar e começa a limpar os cálices que havia encontrado. Há uma pilha de peles de animais diante da lareira, e Caitlin as leva até o terraço, chacoalhando-as para serem usadas mais tarde.

Enquanto espera por Caleb, ela assiste o sol se por no horizonte. Ela respira fundo, ao som das ondas no mar, e se sente completamente relaxada. Ela fecha os olhos, e não percebe o tempo passando. Quando Caitlin abre os olhos novamente, já está quase escuro.

“Caitlin?” diz uma voz, chamando seu nome.

Ela volta para a sala de jantar e encontra Caleb com dois cálices de prata cheios de sangue, esperando por ela. Ele está acendendo velas por toda a sala, e ela se junta à ele, colocando as peles de volta no lugar.

Dentro de instantes, a sala está completamente iluminada, brilhando com velas em todas as direções. Eles se sentam junto às peles, diante da lareira, e Ruth se junta a eles. As janelas estão abertas e uma brisa invade a sala, deixando o ambiente mais frio.

Eles se sentam lado a lado, olhando dentro dos olhos um do outro enquanto brindam.

O líquido é como um néctar, ela bebe sem parar – assim como ele -, e sabe que nunca esteve tão viva. É uma sensação indescritível.

Caleb parece rejuvenescido, seus olhos brilham intensamente; eles ficam frente a frente.

Ele ergue a mão, e toca o rosto dela com a ponta dos dedos suavemente. O coração dela dispara, e ela se dá conta do quanto está nervosa. Eles não ficavam juntos há muito tempo; ela já tinha imaginado esse momento tantas vezes, mas agora que ele havia chegado, é como se fosse a primeira vez. Ela vê que a mão dele está tremendo, e percebe que ele também está nervoso.

Há tantas coisas que ela quer dizer, tantas perguntas que gostaria de fazer, – ela sabe que ele também tem perguntas. Mas naquele instante, ela sabe que não conseguirá dizer nada – e aparentemente, ele também não.

Os dois se beijam apaixonadamente. Assim que seus lábios encostam-se aos dele, ela é tomada pela emoção.

Ela fecha os olhos quando ele se aproxima, e eles se encontram em um abraço, deitando-se sobre as peles, seu coração explode de emoção. Finalmente, ele é seu.




CAPÍTULO OITO


Polly atravessa os corredores de Versalhes apressada, quase correndo por um corredor comprido repleto de espelhos, lareiras, molduras e lustres de cristal, enquanto seus passos ecoam no chão de mármore. Tudo brilha – mas ela mal percebe; já está acostumada. Tendo vivido ali por muitos anos, ela dificilmente consegue imaginar qualquer outra forma de existência.

O que ela percebe – o que ela percebe até demais – é Sam. Um visitante como ele não faz parte da vida normal no castelo e, na verdade, é bastante incomum. Eles quase nunca recebiam visitas de vampiros de outras épocas e, quando isso acontecia, Aiden nunca parecia se importar. Sam deve ser alguém importante, ela pensa. Ele a intriga; ele aparenta ser um pouco jovem, e às vezes um pouco sem noção.

Mas há algo nele, algo que ela não consegue identificar. Ele sente como se, de alguma forma, tivesse uma ligação com ele – que o tivesse conhecido antes, ou que ele estivesse ligado a alguém que é importante para ela.

O que é muito estranho, já que na noite anterior, ela havia tido um sonho muito vívido – sobre uma menina vampira chamada Caitlin. Polly podia ver seu rosto, seus olhos e seu cabelo até mesmo agora. No sonho, ela tinha sido informada que essa garota havia sido sua amiga durante toda vida e, durante todo o sonho, ela teve a impressão de que continuavam sendo amigas. Ela havia acordado com a sensação de que aquilo era verdade, como se tivesse sido um encontro e não um sonho.

Não fazia o menos sentido, pois Polly sabia que nunca tinha ido a qualquer um dos lugares de seu sonho. Ela se pergunta se, talvez, de alguma forma ela tivesse vislumbrado o futuro. Ela sabe que muitos vampiros visitavam-se em sonhos, e que ocasionalmente tinham o poder de prever o futuro e rever o passado. Mas esses poderes também eram imprevisíveis, tudo poderia ser apenas uma ilusão. Era difícil diferenciar: estavam vendo o future, olhando o passado ou apenas sonhando?

Depois do sonho, Polly tinha acordado à procura de Caitlin, com se realmente a conhecesse. Ela se viu sentindo falta da amiga ao atravessar o corredor. Era loucura sentir falta de uma garota que ela nunca havia conhecido.

E então o garoto tinha surgido, Sam. E por alguma estranha razão, Polly sente que sua energia está ligada à dele. Como, ela não faz a menor idéia. Ela estaria imaginando coisas?

Além de tudo isso, ela percebe que está começando a sentir algo por Sam. Ela não diria que está apaixonada por ele – mas também não é completamente imune à presença dele. Há algo nele; o que ela sente não lhe parece ser amor. É um sentimento mais parecido com… curiosidade – interesse em conhecê-lo mais a fundo.

E o fato de que Kendra já tinha colocado seus olhos nele a deixa ainda mais agitada. Não que ela o quisesse para si, ainda é muito cedo para saber com certeza. Mas por que ele lhe parece tão inocente e puro – fácil de impressionar. E Kendra é um abutre; um membro da família real que nunca tinha ouvido um NÃO em toda sua vida, e que tinha o costume de conseguir o que quisesse, – de quem quer que fosse.

Polly sempre tinha tido a impressão que Kendra tinha algum interesse obscuro. Há anos, ela tentava fazer com que algum vampiro do coven de Polly a transformasse. Obviamente, isso era proibido, e ninguém havia atendido seu pedido. Mas agora, ela sente que Kendra está de olho em Sam. Há sangue novo no castelo, e ela deve estar decidida a tentar mais uma vez. Polly estremece, sabendo o que poderia acontecer a Sam se Kendra estivesse realmente determinada.

Sim, este é certamente um dia incomum para ela. Sua cabeça está cheia de emoções à medida que ela atravessa o corredor, e ela se dá conta de que já está atrasada. O novo cantor que todos haviam mencionado está dando um concerto particular para Maria e seu séquito. O cantor estava no castelo há semanas, e todas as outras garotas não paravam de falar da voz dele – e também de sua aparência. Ela está ansiosa para vê-lo com seus próprios olhos. Polly havia esperado bastante tempo por este dia, e agora está duplamente irritada por chegar quase no fim do concerto.

Esse é o problema com esse lugar, ela pensa, enquanto atravessa ainda outro corredor. Ele é grande demais, é impossível chegar a qualquer lugar a tempo.

Polly apressa o passo, e finalmente chega ao final de outro corredor, e dois guardas abrem as imensas portas duplas para ela. Ela entra sem parar e eles as fecham atrás dela; ela imediatamente enrubesce.

Todos no salão se viram e olham para ela; enquanto o cantor continua sua apresentação, e ela percebe que havia interrompido o concerto. Com o rosto corado, ela senta no fundo do salão, pegando um lugar em meio aos seus amigos.

Todos se viram para frente devagar e, quando fazem isso, ela relaxa e se dá conta de que o concerto está quase no fim.

Ela olha para cima e, ao ver o rosto do cantor pela primeira vez, se surpreende. Ele é ainda mais lindo do que haviam falado; Moreno, como olhos pretos e cabelo encaracolado. O rosto dele parece esculpido, e ele se veste com bom gosto: de preto da cabeça aos pés, um casaco preto de veludo, meias brancas e sapatos pretos brilhantes. Ele está no centro de um pequeno palco, e parece confiante e em controle da situação. Ele parece ser… Russo.




Конец ознакомительного фрагмента.


Текст предоставлен ООО «ЛитРес».

Прочитайте эту книгу целиком, купив полную легальную версию (https://www.litres.ru/morgan-rice/desejada/) на ЛитРес.

Безопасно оплатить книгу можно банковской картой Visa, MasterCard, Maestro, со счета мобильного телефона, с платежного терминала, в салоне МТС или Связной, через PayPal, WebMoney, Яндекс.Деньги, QIWI Кошелек, бонусными картами или другим удобным Вам способом.


