Quem Dera, Para Sempre 
Sophie Love


A Pousada em Sunset Harbor #4
A capacidade de Sophie Love encantar seus leitores é delicadamente trabalhada em poderosas e inspiradoras frases e descrições.. Este é o romance perfeito para ler na praia, com uma diferença: seu entusiasmo e belas descrições nos chamam a atenção, inesperadamente, para a complexidade não apenas do desenvolvimento do amor, mas do desenvolvimento da psique dos personagens. É uma recomendação deliciosa para quem ama romances e está em busca de um toque a mais de complexidade em seus livros. Midwest Book Review (Diane Donovan, sobre Agora e para Sempre) QUEM DERA, PARA SEMPRE, é o livro 4 da série de romances A POUSADA EM SUNSET HARBOR, que começa com o livro 1, AGORA E PARA SEMPRE – com download gratuito! Emily mitchell, 35 anos, abandonou seu emprego, apartamento e ex-namorado em Nova York para se mudar para a casa abandonada do pai, no litoral do Estado do Maine, querendo uma mudança de vida e determinada a transformá-la numa pousada. Mas nunca havia esperado que seu relacionamento com o caseiro, Daniel, iria virar sua vida de cabeça para baixo. Emily ainda está sob o efeito do pedido de Daniel. Tudo parece estar finalmente se encaixando em sua vida, e ela espera ansiosa por um empolgante ano de noivado à sua frente, sonhando em encontrar um lugar e um vestido de noiva, criar sua lista de convidados, definir uma data. Mas nem tudo sai como planejado. Os intermináveis eventos do ano de noivado trazem mais estresse que alegria, aumentando a pressão sobre seu relacionamento, quando precisam tomar decisões difíceis. Ajustar-se à vida como pais também não facilita as coisas, enquanto Chantelle passa por problemas na escola e a luta pela sua custódia os ameaça. À medida que o Natal e o Ano Novo se aproximam, o estresse só aumenta. Enquanto isso, a pousada recebe novos hóspedes e funcionários, eles encontram mais antiguidades de valor inestimável, e Emily descobre um segredo chocante que pode lhe ajudar a encontrar seu pai. Ela e Daniel vão se casar? Ou o estresse do noivado vai separá-los para sempre? QUEM DERA, PARA SEMPRE, é o livro 4 de uma nova e eletrizante série de livros que fará você rir, chorar e continuar virando páginas até tarde da noite: você vai se apaixonar com o romance mais uma vez. O livro 5 será lançado em breve. Um livro muito bem escrito, que narra a luta de uma mulher (Emily) para encontrar sua verdadeira identidade. A autora fez um trabalho incrível ao criar os personagens e descrever o cenário. O romance está presente, mas sem excessos. Parabéns à autora por este incrível começo de uma série de promete ser muito interessante. Books and Movies Reviews, Roberto Mattos (sobre Agora e para Sempre)







Q U E M D E R A, P A R A S E M P R E



(A POUSADA EM SUNSET HARBOR – LIVRO 4)



S O P H I E L O V E


Sophie Love



Fã de longa data de romances, Sophie Love está muito feliz em publicar sua primeira série de livros,que começou com AGORA E PARA SEMPRE (A POUSADA EM SUNSET HARBOR – LIVRO 1).

Sophie adora ouvir os comentários de seus leitores. Visite www.sophieloveauthor.com (http://www.sophieloveauthor.com/) se quiser enviar-lhe um e-mail, receber eBooks de graça, saber das novidades e manter contato!



Copyright © 2017 por Sophie Love. Todos os direitos reservados. Exceto como permitido pelo Ato de Direitos Autorais dos EUA, publicado em 1976, nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida, distribuída ou transmitida em qualquer formato ou por qualquer meio, ou armazenada num banco de dados ou sistema de recuperação, sem permissão prévia da autora. Este eBook está licenciado apenas para uso pessoal. Este eBook não pode ser revendido ou doado a outras pessoas. Se você quiser compartilhar este eBook com outra pessoa, por favor, compre uma cópia adicional para cada indivíduo. Se você está lendo este livro sem tê-lo comprado, ou se não foi adquirido apenas para seu uso, por favor, devolva-o e compre seu próprio exemplar. Obrigado por respeitar o trabalho da autora. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, empresas, organizações, lugares, eventos e incidentes são produto da imaginação da autora ou usados de forma fictícia. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, é mera coincidência. Foto da capa: Ioana Catalina E, todos os direitos reservados. Usada sob licença da Shutterstock.com.


LIVROS DE SOPHIE LOVE



A POUSADA EM SUNSET HARBOR

AGORA E PARA SEMPRE (Livro 1)

PARA TODO O SEMPRE (Livro 2)

PARA SEMPRE, COM VOCÊ (Livro 3)

QUEM DERA, PARA SEMPRE (Livro 4)


ÍNDICE



CAPÍTULO UM (#uf96c5153-8706-5d4c-8efe-83cd1e278947)

CAPÍTULO DOIS (#u2a216b01-a53a-50c8-8837-7cbcb42f0741)

CAPÍTULO TRÊS (#u2d7d0e12-9250-5a2b-a2c7-d2234e5b6226)

CAPÍTULO QUATRO (#u05fd1557-326a-57f8-8edb-7458f8ff606a)

CAPÍTULO CINCO (#u09e408db-5d58-561c-845f-141b1fc9e63b)

CAPÍTULO SEIS (#uc7385b92-cd71-5965-b9a5-15a8cc83430e)

CAPÍTULO SETE (#u67a603d5-4425-5ba7-ad14-33a4c7e6e0e5)

CAPÍTULO OITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO NOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZ (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DOZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TREZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUATORZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUINZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZESSEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZESSETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZOITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZENOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E DOIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E TRÊS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E QUATRO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E CINCO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E SEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E SETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E OITO (#litres_trial_promo)




CAPÍTULO UM


O anel era mais lindo do que Emily se lembrava quando o viu pela primeira vez na loja. Uma faixa retorcida de prata estava entremeada com azul, que lhe lembrava do mar. Havia também pérolas aninhadas. Era lindo, único, perfeito.

Um floco de neve pousou na sua mão, trazendo-a de volta ao presente. Olhou para Daniel, ainda ajoelhado na praia, com ondas negras quebrando atrás de si, estrelas brilhando acima dele e areia grudando nas pernas da calça. Lágrimas brilhavam nos seus olhos e Emily sentiu os próprios olhos se encherem de lágrimas. Ela não podia se mover, nem ficar parada. A única coisa que queria fazer era abraçar Daniel e nunca mais deixá-lo ir.

Jogou-se nos braços dele e puxou seu corpo para si, beijando a parte de pele exposta do pescoço dele várias vezes e depois enterrando os dedos no seu cabelo.

“Eu te amo tanto”, ela sussurrou.

“Te amo mais do que posso dizer com palavras”, Daniel replicou, sem fôlego. Então, com um sorriso, ele acrescentou, “Você está tremendo”.

Emily também riu, sentindo-se como criança, espontânea. “Isso é por causa da neve”, ela disse.

Eles finalmente se separaram. Daniel pegou a mão de Emily e ficou de pé.

“Vamos voltar?” perguntou.

Ela pensou na festa de Ação de Graças que estava acontecendo na pousada naquele momento. Praticamente toda a cidade estava reunida lá; com certeza, a ausência dela e de Daniel já havia sido notada. Mas ela não queria voltar. Não ainda. Queria permanecer ali com ele naquele momento perfeito, o máximo possível.

Emily balançou a cabeça e passou as mãos nos braços, que estavam arrepiados. “Não podemos ficar aqui mais um pouquinho?”

Daniel sorriu com ternura. “É claro”. Ele a abraçou. Juntos, balançaram-se lentamente de um lado para o outro, como se dançassem ao som de uma música que só eles podiam ouvir.

“Mal posso esperar para contar a Chantelle”, Daniel murmurou, após um tempo.

Ao ouvir o nome da filha de Daniel, Emily sentiu uma súbita onda de animação. A menina ficaria muito feliz por eles. De repente, a ideia de voltar para a pousada pareceu muito mais atraente. Emily queria muito ver a expressão de Chantelle quando soubesse da novidade. Seria como um final feliz de conto de fadas para uma criança que teve um início tão terrível na vida.

“Vamos voltar então”, Emily disse, saindo do abraço e pegando as duas mãos de Daniel.

“Tem certeza?” ele perguntou.

Ela assentiu. Contar a Chantelle sobre o noivado era agora o maior desejo de Emily. Estava se sentindo subitamente confiante e orgulhosa, e queria que o mundo todo soubesse. Queria subir na plataforma do telhado de sua pousada e gritar a novidade para os quatro ventos, para que todo mundo pudesse ouvir, a quilômetros de distância.

Mas enquanto caminhavam ao longo da praia na direção da pousada, Emily sentiu o nervosismo começar a crescer dentro de si. Não gostava de ser o centro das atenções, e certamente não haveria como entrar de fininho na festa sem lidar com as pessoas perguntando sobre a ausência deles. Isso sem mencionar o anel. Não ia passar despercebido. Qualquer um capaz de enxergar veria seu brilho a metros de distância.

Emily imaginou todos aqueles olhos voltados para ela, alguns com expressão de apoio, mas outros com um ar de crítica. No momento, o noivado deles pertencia só a ela e a Daniel, e a ninguém mais. Era algo privado, uma felicidade do casal. Mas assim que contassem aos outros, estariam convidando suas opiniões para esse espaço sagrado.

Talvez não fosse assim, Emily pensou, enquanto caminhava. Talvez o pessoal da cidade tivesse exagerado um pouco na quantidade de mimosas durante a ausência deles e estariam tão inebriados com a bebida, a dança e a animação da festa que nem notariam sua volta.

Chegaram na pequena trilha que ia da praia até a rua onde moravam. Emily subiu o banco de areia íngreme na frente, e Daniel veio logo atrás. Quando ela emergiu das árvores até o caminho que levava à entrada da casa, pôde ver as luzes da pousada brilhando e ouvir a música e as risadas ecoando pelo ar. Começou a sentir o estômago revirar.

“Pronta?” Daniel perguntou enquanto vinha para seu lado.

Emily respirou fundo. Estava nervosa mas também se sentia mais confiante que nunca, como se pudesse dominar o mundo.

De mãos dadas, caminharam lentamente, passaram pela antiga garagem que já havia sido a casa de Daniel, e então subiram os degraus do terraço, entrando pela porta da frente da Pousada de Sunset Harbor. Imediatamente, calor e luminosidade envolveram os dois. Os aromas reconfortantes dos pratos de Ação de Graças – peru, frutas vermelhas, milho cozido, torta de abóbora – perfumavam o ar. Emily sentiu imediatamente o amor que fluía por toda a pousada.

Nesse momento, uma Serena muito animada surgiu no corredor, vinda da sala de jantar. Quando viu Daniel e Emily, sorriu com seus lábios cor de rubi. Estava um pouco corada, e Emily se perguntou se tinha algo a ver com uma noite de flerte correspondido com Owen, o pianista.

“Ah, ei”, Serena disse, notando o olhar de Emily. “Estava me perguntando aonde vocês tinham ido”.

Emily e Daniel se olharam timidamente. Pegos no flagra.

Emily percebeu que subitamente havia ficado muda, como uma criança levada que precisa assumir ter roubado cookies do pote. Olhou para Daniel pedindo ajuda, mas ele parecia pior do que ela, com uma expressão no rosto parecida com um animalzinho acuado sob as luzes dos faróis de um carro.

Serena franziu o cenho. Então, estreitou os olhos, desconfiada, e um pequeno sorriso apareceu em seus lábios. Claramente, percebeu que eles estavam escondendo algo.

“Humm”, ela disse, caminhando lentamente até eles, como uma detetive. “Neve em sua mão. Areia no seu jeans. Meu palpite é que estavam na praia”. Ela deu uma batidinha no queixo. “Mas, por quê?” Parou por um momento, e então um brilho de compreensão passou pelos seus olhos. Sem fôlego, ela agarrou a mão esquerda de Emily, procurando pela confirmação do pensamento que lhe ocorrera. Ao ver o anel, seus olhos se arregalaram e seu queixo caiu.

“Ai. Meu. Deus! Vocês estão noivos!”

Emily sentiu o rosto corar. Era a primeira vez que ouvia alguém dizer a palavra “noivos” em relação a ela e parecia tão estranho. Todos aqueles anos desejando e sonhando com isso, e ela finalmente estava ali, naquele estado abstrato de “noivado”.

Ela assentiu rapidamente. Serena deu um grito e abraçou os dois desajeitadamente, numa mistura de cotovelos e braços.

“Sou a primeira pessoa a saber?” perguntou ao soltá-los, com uma voz cada vez mais animada.

“Sim”, Daniel confirmou. “Mas poderia chamar Chantelle? Quero que ela saiba antes dos outros”.

“É claro!” Serena exclamou.

Com um olhar de adoração, ela admirou mais uma vez o anel antes de se afastar, quase saltitante. Emily deixou escapar um som que era algo entre uma risada de nervosismo e um gemido envergonhado.

Daniel apertou sua mão para tranquilizá-la. Parecia que ele estava ao mesmo tempo parabenizando-a por ter sobrevivido à reação de uma pessoa, como também animando-a para sua próxima revelação, muito mais importante.

Emily respirou fundo. Seu coração estava a mil por hora. Era agora. O grande momento.

O barulho da festa ficou muito mais alto quando a porta da sala de jantar se abriu um pouco. O rosto de Chantelle apareceu, espiando ao redor timidamente. Emily ouviu a voz de Serena do outro lado, encorajando a menina a entrar no corredor.

“Vá, não tenha medo!”

Chantelle saiu do cômodo e Serena fechou a porta atrás dela, abafando a alegria dos convidados mais uma vez. Emily achou a quietude subitamente sufocante.

A menina estava de pé no final do corredor, parecendo aterrorizada. Na outra ponta estavam Emily e Daniel, tão nervosos quanto. Emily fez sinal para a criança e ela foi rapidamente até eles.

“Fiz algo errado?” ela disse, com sua vozinha trêmula. “Serena disse que vocês queriam falar comigo”.

“Deus do céu, não!” Emily exclamou. Aproximou-se de Chantelle e a puxou num abraço apertado. “Você não fez nada de errado!” Ela acariciou o cabelo loiro da menina. “É só que seu pai e eu queremos contar uma coisa. Nada de ruim”.

Chantelle saiu do abraço e franziu o cenho para Emily, os olhos azuis traindo seu ceticismo. Tinha apenas sete anos, mas já aprendera a suspeitar e a não confiar nos adultos.

“Vão me mandar de volta para o Tennessee?” Chantelle disse abruptamente, levantando o queixo com uma falsa indiferença.

“Não!” Daniel exclamou, sacudindo a cabeça. Se não fosse tão triste, seria cômico. Procurando eliminar a angústia de Chantelle o mais rápido possível, Daniel se acocorou para ficar no mesmo nível do olhar da filha, pegou suas mãos e então, respirando fundo, exclamou: “Emily e eu vamos nos casar”.

Houve um momento de hesitação enquanto Chantelle absorvia a novidade. Então, o medo se dissolveu de seu rosto e seus olhos se arregalaram com a surpresa. Ela sorriu.

“Verdade?” quase gritou, olhando para os dois, maravilhada.

“Sim, verdade”, Emily disse.

Ela mostrou sua mão, para que a menina pudesse ver o anel. Os olhos de Chantelle se arregalaram ainda mais ao olhar, perplexa, para o lindo anel. A menina segurou firme a mão de Emily.

“Eu pensei...” ela balbuciou. “Pensei que estavam se livrando de mim. Mas, na verdade, se tornou realidade”.

“O que se tornou realidade?” Emily perguntou, curiosa.

“Meu desejo de Ação de Graças”, Chantelle disse. Ela ainda estava segurando a mão de Emily, e apertou-a ainda mais. “Desejei que vocês se casassem, para que fôssemos uma família para sempre”.

Ao som da revelação tão sincera de Chantelle, um nó se formou na garganta de Emily. Olhou para Daniel. Pela expressão no rosto dele, podia dizer que seu coração estava se derretendo, assim como o dela.

Naquele momento, Emily se sentiu mais abençoada do que nunca. De algum modo, os planetas tinham se alinhado e lhe enviaram Daniel para amá-la e Chantelle para lhe ensinar sobre humildade. Tudo estava no lugar.

“Posso contar a todo mundo?” Chantelle perguntou de repente.

“Quer dizer todo mundo lá dentro?” Emily perguntou, apontando para a porta da sala de jantar, de onde vinha o som de risos e de conversa.

“Sim. Se não se importarem, ou vocês mesmos querem contar a novidade?”

“Você pode contar!” Emily exclamou, aliviada por não ter que fazer isso.

“Posso contar agora mesmo?” Chantelle perguntou, saltitando.

Emily sorriu. A reação da menina a deixou mais do que pronta para este momento. Ver a animação e alegria dela havia acalmado Emily completamente. Desde que Chantelle estivesse feliz, as reações de outras pessoas não importavam tanto!

“Agora mesmo, neste instante”, Emily repetiu.

Ao ouvir isso, Chantelle deu um grito de alegria e saiu correndo. Foi tão rápida que Daniel e Emily tiveram que se apressar para acompanhá-la. A menina entrou na sala de jantar de forma tão abrupta que todo mundo se virou com a surpresa. Chantelle gritou com todo o ar de seus pulmões:

“Eles vão se casar! Eles vão se casar!”

Na porta, Emily e Daniel se prepararam para lidar com os segundos de choque enquanto as pessoas compreendiam o que a menina estava gritando.

Então, observaram as expressões de surpresa nos rostos de seus amigos e vizinhos: da expressão exagerada de assombro de Cynthia, até o gesto nervoso de Vanessa, que levou a mão à boca.

Os convidados começaram a sorrir. Yvonne e Kieran, Suzanna e Wesley, todas as pessoas que eles passaram a amar e a chamar de amigos começaram a bater palmas.

“Parabéns!” Yvonne gritou, a primeira a correr até Emily e abraçá-la.

Kieran veio logo atrás. Ele apertou a mão de Daniel, e então abraçou Emily assim que Yvonne a soltou. Todo mundo se revezou, vindo até Daniel e Emily com abraços e beijos, votos de felicidade e exclamações de alegria. Emily sentiu o amor de sua comunidade envolvê-la. Nunca havia sentido tanto apoio. Com o que estava preocupada?

“Vamos fazer um brinde para o casal”, o prefeito Derek Hansen anunciou com sua voz forte.

As pessoas começaram a encher as taças de champanhe. Uma taça foi parar nas mãos de Emily. Ao seu lado, Serena encheu uma taça com refrigerante para Chantelle poder participar. Emily se viu tonta de tanta emoção, estava tomada por um senso de euforia. Parecia um sonho.

Então, todo mundo levantou suas taças, e a luz do lustre fez milhares de pontos de luz dançarem pelas paredes, chão e teto.

“À felicidade de Emily e Daniel”, o prefeito exclamou. Então, acrescentou para o noivo, “Um brinde à alegria de encontrar sua alma gêmea”, e, para Emily, “e à coragem de seguir os próprios sonhos”.

Todos comemoraram e brindaram, enquanto Emily enxugava as lágrimas.

Foi o melhor dia de Ação de Graças que ela já teve.



*

A festa se estendeu noite adentro. O senso de amizade e a alegria transbordavam, e Emily estava mais feliz do que achava ser possível, sem mencionar seu sentimento de gratidão. Mas, finalmente, a festa diminuiu o ritmo, os convidados foram deixando a pousada para sair na noite fria, e a casa ficou silenciosa.

Mesmo quando ela e Daniel se preparavam para se deitar, Emily ainda sentia o corpo vibrar. Sua cabeça girava, e ela se revirava na cama, incapaz de se acalmar.

“Não consegue dormir?” Daniel disse, com metade do rosto escondida pelo travesseiro fofo em que descansava. Então, sorriu. “Eu também não”.

Emily se virou para vê-lo. Passou os dedos pelo seu peito nu e musculoso. “Não consigo parar de pensar no futuro”, ela disse. “Estou muito animada”.

Daniel acariciou seu rosto. “Conheço uma coisa que pode acalmar sua mente” ele disse. E então a beijou.

Emily se deixou afundar no beijo, sentindo todos os pensamentos derreterem enquanto seu corpo se entregava a todas aquelas sensações. Ela puxou Daniel para mais perto de si, sentindo seu coração bater contra o dela. Daniel sempre acendia a uma paixão ardente dentro dela, mas o que sentia agora ia além de qualquer coisa que havia experimentado antes.

Nesse momento, a porta do quarto deles se abriu. Um facho de luz do corredor iluminou o cômodo, como um holofote. Emily e Daniel se separaram de um salto.

De pé, na porta, estava Chantelle.

“Não consigo dormir!” ela declarou, entrando correndo no quarto.

Emily riu. “Bem, então, somos todos”, ela disse.

Chantelle pulou na cama com Emily e Daniel, se aconchegando entre os dois. Emily teve que rir. A menina era a única coisa que podia interromper o momento romântico deles, sem fazê-la se sentir frustrada.

“Quando você e o papai se casarem, isso significa que você vai ser minha mãe para sempre?” Chantelle perguntou.

Emily assentiu. Mas então pensou mais a fundo. Ela e Daniel vinham falando com seu amigo, Richard, um advogado de família, sobre a possibilidade de adotarem Chantelle oficialmente. O casamento aumentaria as chances deles contra a mãe biológica da menina? Sheila usava drogas e não tinha renda fixa, duas coisas que já contavam a favor deles. O casamento a ajudaria a adotar Chantelle?

Olhou para Daniel e Chantelle, já adormecidos. A visão a deixava mais do que feliz. Naquele momento, fortaleceu ainda mais sua decisão de seguir os procedimentos legais. Quanto antes, melhor. Queria que fossem uma família de verdade mais que qualquer coisa que já tinha desejado no mundo. Com o anel cintilando em seu dedo, sentiu que esse sonho nunca esteve tão perto de se tornar realidade.




CAPÍTULO DOIS


Emily acordou na manhã seguinte sentindo-se mais que abençoada. Nunca esteve tão feliz. Os raios do lindo sol de inverno passavam pelas cortinas de renda, realçando seu estado de espírito maravilhado e alegre. Após um breve instante de dúvida, concluiu que não estava sonhando; que Daniel havia mesmo feito o pedido, e que eles realmente iam se casar.

Subitamente consciente de todas as coisas que precisava fazer, deu um pulo da cama. Tinha que ligar para as pessoas! Como havia esquecido de ligar para Jayne e Amy e contar as novidades? E para a sua mãe! Estava tão envolvida no momento, em sua própria alegria e na celebração de seus amigos, que nem passou pela sua cabeça.

Tomou um banho rápido, vestiu-se e foi correndo até o terraço com o celular. A água de seu cabelo ainda molhado pingava na camiseta enquanto ela rolava a barra de seus contatos. Seu polegar ficou sobre o número de sua mãe e começou a tremer. Não conseguia encontrar a coragem de ligar. Sabia que a mãe não lhe daria o tipo de resposta que ela queria; tinha dúvidas quanto a Chantelle e ia imaginar que Daniel estava se casando com Emily apenas para ter uma mãe para sua filha. Então, decidiu testar o terreno com Jayne. Sua melhor amiga sempre lhe disse a verdade, mas nunca com o mesmo tom de decepção da mãe.

Ligou para o celular de Jayne e ouviu-o chamar. Então, ela atendeu.

“Em!” Jayne exclamou. “Você está no viva-voz”.

Emily parou. “Por que estou no viva-voz?”

“Estamos numa sala de conferência. Eu e Ames”.

“Oi, Emily!” Amy falou, alegre. “É sobre a oferta de emprego?”

Levou um momento para Emily entender do que elas estavam falando. A empresa de velas que Amy havia começado no seu quarto durante a faculdade estava, mais de uma década depois, florescendo de repente. Ela havia empregado Jayne e tentou muito fazer Emily entrar na empresa também. Nenhuma das duas podia entender completamente por que Emily ia querer viver numa cidade pequena ao invés de em Nova York, por que queria ter uma pousada ao invés de trabalhar num escritório descolado com suas duas melhores amigas, e certamente não conseguiam entender por que ela queria assumir a filha de outro cara, sem nenhuma garantia de que ele daria a ela seus próprios filhos um dia.

“Na verdade, não”, Emily disse. “É sobre...” ela vacilou, subitamente perdendo a confiança. Então, se tranquilizou. Não tinha nada do que se envergonhar. Ainda que sua vida estivesse indo numa trajetória diferente da de suas melhores amigas, ainda era válida; as escolhas dela eram suas e deviam ser respeitadas. “Eu e Daniel vamos nos casar”.

Houve um momento de silêncio, seguido por gritos agudos. Emily estremeceu. Podia imaginar suas amigas, com suas unhas perfeitas, sua pele hidratada que tinha o perfume de rosa e camélia, seus cabelos impecáveis balançando enquanto pulavam em suas cadeiras.

Pelo barulho, Emily distinguiu os gritos de Jayne, “Ai meu Deus!” e Amy gritando, “Parabéns!”

Ela deu um suspiro de alívio. Suas amigas estavam do seu lado. Outro obstáculo havia sido superado.

A gritaria incompreensível finalmente diminuiu.

“Ele ainda não te engravidou, não foi?” Jayne perguntou, inconveniente como sempre.

“Não!” Emily exclamou, rindo.

“Jayne, cala a boca”, Amy a repreendeu. “Conte tudo. Como ele fez o pedido? Como é o anel?”

Emily contou novamente a história da praia, das declarações de amor na neve, do maravilhoso anel de pérolas. Suas amigas se emocionaram em todos os momentos certos. Emily notou que estavam em êxtase por ela.

“Você vai assumir o nome dele?” Jayne perguntou. “Ou manter os dois? Mitchell Morey é um pouco demais. Ou vai ficar Morey Mitchell? Emily Jane Morey Mitchell. Humm. Não sei se gosto. Talvez você devesse manter seu nome, sabe? É a coisa mais forte, empoderada, feminista a fazer, afinal”.

A mente de Emily girava enquanto Jayne falava de sua maneira característica, super cafeinada, quase sem pausar para dar a ela tempo de responder a alguma das perguntas.

“Vamos ser as suas damas de honra, certo?” Jayne terminou, com sua maneira tipicamente aberta, franca.

“Ainda não pensei nisso”, Emily admitiu. Jayne e Amy poderiam ser suas amigas mais antigas, mas ela tinha feito tantas outras desde que se mudou para Sunset Harbor: Serena, Yvonne, Suzanna, Karen, Cynthia. E quanto a Chantelle? Para Emily, era importante que ela tivesse um papel central na coisa toda.

“Bem, onde será o local?” Jayne perguntou, parecendo um pouco chateada por Emily estar considerando outras amigas como suas damas de honra.

“Também não sei ainda”, Emily disse.

Subitamente, percebeu a enormidade da tarefa que tinha à frente. Havia tanto a organizar. Tanto a pagar. Subitamente, se sentiu assoberbada pela coisa toda.

“Acha que terá um casamento grande ou pequeno?” Amy perguntou. Suas perguntas eram mais simples que as de Jayne, mas ela ainda tinha um certo ar de julgamento. Emily se perguntou se Amy ainda estava chateada por seu noivado frustrado com Fraser. Talvez estivesse magoada por Emily ter um anel e um noivo quando ela tinha perdido ambos.

“Ainda não pensamos em nenhum dos detalhes”, Emily disse. “É tudo muito novo”.

“Mas você sonha com isso há anos”, Amy acrescentou.

Emily franziu o cenho. Com o casamento, sim. Era algo que ela queria há muito tempo. Mas nunca teria imaginado o rumo que sua vida seguiu. O amor que sentia por Daniel era único e inesperado. O casamento deles deveria ser assim também. Precisava repensar tudo para torná-lo perfeito para eles, para esse relacionamento específico, para esta vida.

“Pode pelo menos nos dizer uma data?” Jayne perguntou. “Nossa agenda está lotada”.

Emily gaguejou. “Não sei”.

“Só o mês já está bom, pelo menos”, Jayne pressionou.

“Também não sei”.

Jayne suspirou, exasperada. “E quanto ao ano?”

Emily foi ficando frustrada. “Eu não sei!” ela gritou. “Ainda não pensei em nada disso!”

Silêncio. Emily só podia imaginar a cena: suas amigas trocando um olhar, sentadas em cadeiras de escritório de couro numa mesa imensa de vidro, com seu grito emanando do celular entre elas e ecoando pela vasta sala de conferência. Ela se encolheu de vergonha.

Jayne quebrou o gelo. “Bem, só nos garanta que não vai virar um daqueles noivados que duram para sempre”, falou, de uma maneira realista. “Você sabe como são alguns homens; é como se não percebessem que depois do pedido você espera um casamento de verdade. Eles fazem toda aquela cena no noivado e então, assim que lhe convencem a usar um anel chique, pensam que podem descansar sobre os louros da vitória e nunca realmente assinar a linha pontilhada”.

“Não tem nada a ver com isso”, Emily disse, um pouco ríspida.

“Claro”, Jayne falou lentamente. “Mas, para ter certeza, você devia amarrá-lo a uma data de verdade. Se parecer que ele está arrastando o noivado, fuja”.

Emily apertou a mão, formando um punho. Sabia que não devia deixar Jayne – que tinha fobia de compromisso e que nunca tinha tido um relacionamento longo de verdade – ditar a maneira como devia se sentir sobre a situação, mas a amiga tinha o talento de colocar uma pulga atrás da sua orelha. Apesar de ser ridículo, Emily já podia notar que iria ruminar sobre as palavras de Jayne por dias.

“Tenho uma ideia”, Amy interrompeu, dando uma de diplomata. “Por que não vamos aí comemorar com você? Fazer uma visita? Ajudá-la a planejar algumas coisas?”

Apesar de estar irritada com Jayne, Emily gostou da ideia de suas amigas virem por um tempo e se envolverem nos preparativos do casamento. Quando chegassem, no seu domínio, elas poderiam ver o amor que ela e Daniel sentiam com os próprios olhos. Veriam o quanto ela estava feliz e começariam a demonstrar mais apoio.

“Isso seria ótimo”, Emily disse.

Elas encontraram uma boa data para todas e Emily terminou a ligação. Mas, graças a Jayne, sua cabeça estava girando e a chama de animação dentro dela diminuiu um pouquinho. Além disso, ainda precisava fazer a temida ligação para sua mãe, que certamente seria pior. Havia tentado convidar a mãe para o Dia de Ação de Graças, mas a mulher agiu como se fosse um insulto. Nada que Emily fazia era bom o bastante para Patricia Mitchell. Se havia se sentido acuada por Amy e Jayne, sua mãe a deixaria completamente para baixo.

E aquela era simplesmente a família dela! Quando acrescentou Daniel à mistura, seus medos se intensificaram. Por que o resto do mundo tinham que existir? Tudo em Sunset Harbor era tão perfeito para Emily. Mas lá fora estavam amigas que a desaprovavam e mães problemáticas. Havia pais ausentes.

Pela primeira vez desde o pedido, Emily pensou no pai, desaparecido há vinte anos. Recentemente, havia descoberto uma pilha de cartas na casa que provava que ele ainda estava vivo. Então, Trevor Mann, seu vizinho, havia confirmado que vira Roy na casa, alguns anos antes. Seu pai estava vivo, ainda que, até mesmo com essa informação, nada houvesse mudado. Emily ainda não tinha como entrar em contato com ele. As chances dele estar lá para entrar com ela na igreja eram praticamente nulas.

Emily sentiu as emoções se intensificando, ameaçando extinguir a alegria com que começara o dia. Olhou para a tela do celular, onde tinha selecionado o número da mãe, mas ainda sem a coragem de ligar.

Antes que tivesse a chance de mergulhar de cabeça e ligar para a mãe, ouviu o som de passos atrás dela. Virou-se e viu Daniel e Chantelle descendo as escadas trotando até ela. Daniel havia vestido a menina com uma de suas lindas roupas vintage – uma jardineira de veludo caramelo com um cardigã de estampa floral preto-e-branco, com meias combinando. Ela estava adorável. Ele usava seu jeans e camiseta usuais, cabelo preto despenteado, com a barba por fazer emoldurando o queixo forte.

“Queríamos tomar café da manhã fora de casa”, Daniel disse. “Fazer algo especial. Um café da manhã para celebrar”.

Emily colocou o celular novamente no bolso. “Ótima ideia”.

Salva pelo gongo. O telefonema para sua mãe teria que esperar. Mas Emily sabia que não poderia adiar isso para sempre. Cedo ou tarde, teria que enfrentar a língua afiada de Patricia Mitchell.



*



O aroma de xarope de bordo permeava o ar na lanchonete de Joe. A família sentou-se em uma das mesas de plástico vermelho, notando os olhares e sussurros ao redor.

“Todo mundo já sabe”, Emily sussurrou para Daniel.

Ele revirou os olhos. “É claro que sabem”. Então, acrescentou, sarcástico, “na verdade, estou surpreso por levar tanto tempo. Afinal, já faz metade de um dia que contamos a novidade, e Cynthia Jones só precisa de uma ou duas horas para rodar a cidade toda de bicicleta contando sua mais recente fofoca”.

Chantelle riu.

Pelo menos os sussurros e olhares eram animadores, Emily pensou. Todo mundo parecia feliz por eles. Mas Emily se sentiu um pouco envergonhada por ser o centro das atenções. Não era todo dia que se entrava numa lanchonete e todos se viravam para ver. Sua mente ainda estava girando, cheia de dúvidas, depois da ligação para Amy e Jayne, e ela se perguntava se agora seria uma hora apropriada para compartilhar algumas delas com Daniel.

Com seus cabelos grisalhos, Joe veio até a mesa, segurando sua caderneta nas mãos enrugadas.

“Ouvi dizer que hoje é dia de dar os parabéns”, ele disse sorrindo, dando batidinhas nas costas de Daniel. “Quando é o grande dia?”

Emily viu Daniel vacilar. Parecia tão perplexo quanto ela. Todos queriam respostas a perguntas que eles ainda não tinham feito nem a si mesmos.

“Ainda não temos certeza”, Daniel balbuciou. “Ainda não definimos os detalhes”.

Pediram seus waffles e panquecas e assim que Joe saiu para preparar os pratos, Emily tomou coragem para fazer algumas perguntas para Daniel.

“Quando você acha que podemos definir uma data?”, Emily perguntou.

Daniel arregalou os olhos. “Ah. Eu não sei. Você já quer fazer isso?”

O alerta de Jayne ecoou na mente de Emily. “Não precisamos fixar a data específica, mas estamos falando de meses ou do ano que vem? Quer casar no verão? Ou no outono, já que estamos no Maine?”

Ela sorriu, mas parecia forçado. Pela expressão no rosto de Daniel, podia notar que ele não tinha pensado tão para a frente.

“Preciso pensar sobre isso”, falou, de maneira despreocupada.

“Quero um casamento no verão”, Chantelle disse. “No porto. Com o barco do papai”.

“Pensar no quê?” Emily disse, ignorando Chantelle e focando em Daniel. “Só há quatro opções. Sol brilhando, vento forte, neve ou árvores em flor. Qual delas você prefere?”

Daniel pareceu um pouco surpreso pelo tom um tanto ríspido de Emily. Chantelle também parecia confusa.

“Eu não sei”, Daniel balbuciou. “Há prós e contras para cada um”.

Emily se sentia cada vez mais nervosa. Jayne estava certa? Daniel havia feito o pedido sem nem pensar no fato de que deveria haver um casamento no final?

“Você já contou a alguém?” Emily continuou a testar.

Vincos de frustração apareceram na testa de Daniel. “Faz menos de vinte e quatro horas”, ele disse simplesmente, escondendo a irritação que Emily sabia que havia provocado nele. Entredentes, ele acrescentou, “Não podemos simplesmente desfrutar deste momento?”

Chantelle olhava de Emily para Daniel com um ar de preocupação. Não os via se bicando frequentemente, e aquilo a alarmou.

Ver a menininha preocupada mexeu com Emily. Apesar de suas preocupações, não era justo envolver Chantelle. Aquilo era só entre ela e Daniel.

“Tem razão”, Emily disse, com um suspiro.

Pegou na mão de Chantelle para tranquilizá-la. Nesse momento, Joe chegou com pilhas de panquecas. Começaram a comer em silêncio.

Emily se sentia frustrada consigo mesma por deixar as palavras de Amy e de Jayne arruinarem sua alegria. Não era justo. Ontem mesmo ela estava nas nuvens.

“Bailey pode levar as flores?” Chantelle perguntou. “E eu posso ser a daminha?”

“Ainda não sabemos”, Emily explicou, absorta com as próprias emoções.

“Mas eu quero entrar na igreja com você”, Chantelle acrescentou. “Posso, não é? Vocês vão se casar numa igreja?” A menina procurou algo na sua mochila e puxou um caderno rosa e uma caneta brilhante. “Vamos fazer uma lista”, ela disse.

Apesar de sua angústia latente, Emily sentiu-se animada ao ver Chantelle tão organizada. Sempre parecia tão séria, tão crescida, além de sua idade.

“A primeira coisa que precisam encontrar é o local”, Chantelle disse, num tom de eficiência que fez Emily imaginá-la um dia dirigindo a pousada.

“Tem razão”, Emily disse, olhando para Daniel. “Vamos pensar no local primeiro e então continuar a partir daí”. Ela se sentia determinada a não se deixar desanimar. “Não vamos apressar nenhuma decisão”.

Pela primeira vez desde que o havia infernizado com perguntas, Daniel pareceu relaxar. O cenho franzido desapareceu. Emily se sentiu aliviada.

Pela janela da lanchonete, podia ver que uma árvore estava sendo levantada no centro da cidade. Com toda a animação, havia esquecido completamente sobre a árvore de Natal da cidade; era levantada um dia após o almoço de Ação de Graças, todo ano. Quando criança, tinha assistido ao evento sempre que a família passava as férias de inverno em Sunset Harbor. Lembrava que também acontecia a iluminação anual da árvore, à noite.

“Devíamos vir assistir a árvore sendo iluminada hoje à noite”, Emily disse.

Chantelle levantou os olhos do seu caderno, que agora estava cheio de uma longa lista de tarefas escritas com sua letra de criança. “Podemos?” Ela parecia animada.

“É claro”, Emily disse. “Mas primeiro devíamos comprar nossa própria árvore. Se a cidade tem uma, a pousada também tem que ter. O que acha, Chantelle?”

Emily se sentia cada vez mais animada ao perceber que a pousada poderia abrigar uma árvore de Natal gigante. Quando ela era menina, seu pai só comprava uma pequena para a sala de estar, já que eles estavam apenas passando as férias na casa. Mas agora que era o lar deles, poderia colocar uma árvore enorme, de três metros, no salão. Talvez até uma com mais de quatro metros! Ela e Chantelle podiam decorá-la juntas, usando uma escada para alcançar os galhos mais altos. Ficou animada novamente, como uma criança.

“Podemos, papai?” Chantelle perguntou a Daniel, que comia suas panquecas em silêncio. “Podemos ter uma árvore de Natal?”

Daniel assentiu. “Claro”.

“E também ver a iluminação da árvore na cidade?”

“Ah-han”.

Emily franziu o cenho, se perguntando no que Daniel estava pensando, por que o pensamento de um passeio em família tão maravilhoso não o estava deixando alegre, como aconteceu com ela e com Chantelle. Daniel ainda era um mistério para ela, mesmo que agora tivesse um anel em seu dedo e estivesse mais do que pronta a se comprometer com ele para sempre. Ela se perguntou se algum dia saberia realmente o que se passava na cabeça dele, ou se ainda, mesmo depois de se tornar a Sra. Daniel Morey, ele ainda a deixaria às escuras.




CAPÍTULO TRÊS


A fazenda de árvores de Natal da Dory ficava a pouco tempo de carro, nas imediações de Sunset Harbor. Daniel levou toda a família em sua caminhonete vermelha enferrujada. Ainda havia neve do Dia de Ação de Graças pelo caminho, e enquanto dirigiam, Emily tocou no anel em seu dedo, lembrando da neve que havia caído ao seu redor enquanto Daniel fazia o pedido.

Eles pararam no estacionamento improvisado e todos saíram da caminhonete. Havia muitas famílias lá, era óbvio que todo mundo teve a mesma ideia. Os pais olhavam ao redor enquanto seus filhos corriam animadamente entre as árvores.

Ao invés de Dory, foi uma pré-adolescente que os recebeu. Era Grace, filha de Dory, e tinha o mesmo cabelo loiro e volumoso de Chantelle. Estava usando uma pochete cheia de notas de dólar e uma caderneta para escrever recibos.

“Estas são as árvores prontas para serem colhidas”, falou, confiante, fazendo um gesto para o campo de pinheiros. “Todas têm cerca de sete a nove anos”. Então, sorriu para Chantelle. “Mais ou menos sua idade, estou certa?”

Chantelle assentiu timidamente.

“Depois que acharem a árvore que gostarem”, Grace continuou, “corte-a e leve para a área de carregamento. Meu pai levará vocês e a árvore na traseira da carroça até a enfardadeira, embalará tudo e então vocês podem me pagar. Também vendemos chocolate quente e pinhão tostado, se quiserem algo para mantê-los aquecidos enquanto caminham”.

Emily comprou para cada um um chocolate quente num copo de isopor e um saco de pinhão para dividir, e depois se dirigiram aos campos. Chantelle foi correndo na frente, mais animada do que nunca.

O maravilhoso cheiro dos pinheiros despertou o sentimento natalino em Emily. Estava animada com a perspectiva de seu primeiro Natal com Daniel e Chantelle, com sua família ao lado da lareira. Seria o primeiro de muitos.

Ela e Daniel caminhavam de mãos dadas, em silêncio, atrás de Chantelle. Então, Emily se inclinou para ele.

“Quantos anos você acha que Grace tem?” ela perguntou.

“Onze, doze”, Daniel estimou. “Por quê?”

“Por nada”, Emily replicou. “É que ela me lembra Chantelle. Me fez pensar em como ela será quando ficar mais velha”.

Mais à frente, Chantelle corria pelos caminhos entre as árvores, parando para avaliar a altura, a densidade de seus galhos, e a intensidade da cor das folhas antes de passar para a próxima. Emily podia imaginá-la facilmente como uma criança mais velha, prancheta na mão, trabalhando em seu primeiro emprego para ganhar alguns trocados.

Mas enquanto pensava no futuro, Emily sentiu sua mente ser levada ao passado. Chantelle, que parecia tanto com Charlotte, também a lembrava da irmã, que nunca pôde crescer, que nunca pôde ter um emprego durante as férias de inverno. Ela havia passado por esta mesma fazenda há todos aqueles anos, cheia de promessas e potencial, e então, sem aviso, havia perdido a vida num piscar de olhos.

Emily olhou para Chantelle mais à frente e, ao fazer isso, a menina se metamorfoseou em Charlotte. Emily se sentiu encolher, até voltar a seu corpo de criança. Suas mãos estavam enluvadas. A neve começou a cair ao redor, grudando nos galhos dos pinheiros. Emily se aproximou com sua pequena mão enluvada e balançou um dos galhos. Uma nuvem de neve preencheu o ar, e o pó branco e fino se dispersou. Mais à frente, Charlotte estava rindo, tranquila e feliz, sua respiração quente fazendo espirais no ar condensado. Ela também estava usando luvas, e suas botas vermelhas favoritas se destacavam fortemente contra o fundo branco.

Emily observou Charlotte parar ao lado da árvore mais alta de toda a fazenda e olhar para cima, maravilhada.

“Quero esta!” a menininha gritou.

Emily correu em sua direção, chutando a neve na pressa. Quando chegou ao lado de Chantelle, também ficou admirando a árvore enorme. Era impressionante, tão alta que quase não dava para ver o topo.

O barulho de passos na neve fez Emily tirar os olhos da árvore e virar para olhar sobre o ombro. Era seu pai, que se aproximava marchando em passos largos.

“Meninas, precisam ir mais devagar”, ele arfou enquanto se aproximava delas. “Quase as perdi de vista”.

“Achamos a árvore!” Emily gritou, animada.

Charlotte também pulava e apontava para cima.

“Esta é um pouco grande”, Roy disse.

Ele parecia cansado hoje. Deprimido. Havia olheiras sob seus olhos.

“Não é muito grande”, Emily disse. “O teto é muito alto”.

Charlotte, como sempre, acompanhou a irmã. “Não é grande demais! Por favor, podemos levar esta, papai?”

Roy Mitchell passou a mão pelo rosto, exasperado. “Não teste minha paciência, Charlotte”, ele disparou. “Escolha uma menor”.

Emily viu Charlotte se encolher. Nenhuma das duas gostava de irritar seu pai, e nem podiam entender como tinham feito isso. Parecia que coisas mínimas o irritavam naqueles dias. Ele estava sempre distraído por algo ou sempre olhando sobre o ombro, para sombras que só ele podia ver.

Mas a principal preocupação de Emily era com Charlotte. Sempre Charlotte. A menina estava quase chorando. Emily pegou sua mãozinha enluvada.

“Por aqui”, gritou animadamente. “Tem árvores menores ali!”

Charlotte se animou, confortada por sua irmã mais velha. Elas correram juntas pela neve, deixando seu pai de cenho franzido e olhar distante, para correr atrás delas.

Nesse momento, Emily voltou ao presente. A neve do passado não estava mais caindo, as árvores de Natal de décadas atrás caíram e foram substituídas por estas árvores novas, jovens. Estava de volta ao momento presente, mas levou um momento para se reorientar e saber onde estava, para ver Chantelle de pé diante dela, ao invés de Charlotte.

Enquanto Emily estava absorta em suas lembranças, eles haviam caminhado vários metros campo adentro. Ali, as árvores eram tão altas que lançavam sombras sobre tudo, bloqueando a luz do sol. Emily estremeceu, sentindo-se com mais frio agora que o sol invernal se escondera.

Mais à frente, Chantelle admirava a árvore mais alta da fazenda inteira. Tinha pelo menos 4,5 metros de altura.

“É esta!” ela gritou, rindo de orelha a orelha.

Emily sorriu. Ela não agiria como seu pai, estragando a alegria de uma criança. Se Chantelle queria a árvore mais alta da fazenda, ela a teria.

Caminhou até a menina e inclinou a cabeça para ver o topo. Assim como quando era criança, a árvore parecia majestosa para ela.

“É esta”, Emily concordou.

Chantelle bateu palmas de alegria. Daniel parecia desaprovar um pouco a escolha trabalhosa, Emily pensou, mas não se opôs. Ele se inclinou e ajudou Chantelle a fazer o primeiro corte com o machado. Emily os observou, pai e filha sorrindo e rindo juntos, e sentiu uma onda quente de alegria se espalhar pelo seu corpo.

Daniel passou o machado para Emily, para que também pudesse cortar a árvore, e então eles se revezaram, cooperando. Quando a árvore caiu, todos comemoraram.

O pai de Grace chegou com a carroça.

“Uau, você escolheu uma gigante”, ele brincou com Chantelle enquanto ajudava a levantar a árvore enorme.

“Foi a maior que pude encontrar!” a menina disse, sorrindo.

A família subiu na parte de trás do veículo e se apertou. As rodas giraram e eles começaram a lenta viagem de volta à entrada da fazenda.

“Eu a perdi por um momento lá atrás”, Daniel disse a Emily. “Teve outra lembrança?”

Ela assentiu. As memórias lhe deixavam perturbada. Ver a expressão abatida de Charlotte, ouvindo a rispidez da voz do seu pai. Era um homem com problemas. Ela se perguntava se tinha algo a ver com Antonia, a mulher com quem tinha um caso, ou com sua mãe, que estava em casa em Nova York, ou com outra coisa completamente diferente. Apesar de Emily estar convencida agora que seu pai estava vivo em algum lugar, Roy ainda era um mistério para ela, como sempre.

“Fico me lembrando o tempo todo de coisas sobre meu pai”, Emily confessou. “Desde que achei aquelas cartas. Queria saber o que o fez fugir. Sempre pensei que algo súbito deve ter acontecido quando eu era adolescente, mas acho que ele estava perturbado muito antes disso. Desde que me lembro, para ser sincera. Toda vez que volto no tempo e o vejo, existe um traço de preocupação nos olhos dele”.

Daniel a abraçou. Era bom ser confortada por ele, estar tão perto novamente. Ele parecia tão distante na lanchonete de Joe.

“Desculpe por estar tão calado lá”, Daniel disse, como se lesse a mente dela. “As festas de final do ano também me trazem lembranças”.

“Verdade?” Emily perguntou, gentil. “Que tipo de lembranças?”

Era tão raro Daniel se abrir para ela que aproveitava qualquer oportunidade para encorajá-lo.

“Pode ser uma surpresa para você, mas na verdade, eu sou judeu”, Daniel disse. “Mas meu pai não era. Era cristão. Comemorávamos o Natal e o Hanucá enquanto ele ainda estava em casa, mas quando ele foi embora, levou o Natal consigo. Minha mãe só celebrava o Hanucá. Quando eu e meu pai voltamos a ter contato, ele só celebrava o Natal na casa dele. Era estranho. Uma maneira muito estranha de crescer, como você pode imaginar”.

“Isso parece difícil”, Emily tentou acalmá-lo, tentando esconder a surpresa de saber que Daniel era, na verdade, judeu. Ela se perguntou o que mais não sabia sobre ele e foi tomada por uma súbita angústia sobre como criariam seus filhos, se tivessem filhos. É claro que ela adoraria celebrar ambos, mas Daniel parecia ter lembranças traumáticas sobre as festas de fim de ano que podiam ser um pouco mais difíceis de abordar.

Chegaram novamente à entrada da fazenda, onde pagaram à Grace enquanto esperavam sua árvore ser colocada na enfardadeira.

Emily estava contente por estar criando novas lembranças, felizes, com sua família. Mas, no fundo, não podia parar de se perguntar sobre seu pai, sobre o que estava acontecendo com ele, que segredos ainda guardava. Acima de tudo, se perguntava onde estava agora e se haveria algum modo de encontrá-lo novamente.



*



Quando chegaram na pousada, Emily e Daniel manobraram a árvore até a posição onde ficaria, no salão de entrada. Havia alguns poucos hóspedes relaxando na área de estar e todos vieram assistir, animados, enquanto a enorme árvore era levantada.

Emily foi buscar a pilha de caixas com os antigos enfeites de seu pai, guardados no sótão. Então, ela e Chantelle se sentaram juntas na mesa da cozinha para separar os enfeites.

“Isto é tão bonito”, Chantelle disse, levantando uma rena de vidro.

Emily sorriu ao vê-la, lembrando como ela e Charlotte haviam reunido todas as moedas que tinham para comprá-lo, e como economizaram todo ano para comprar mais, aumentando sua coleção até terem o bastante para representar cada uma das renas do Papai Noel. Então, Charlotte havia marcado cada uma, para não se confundirem.

Emily pegou a rena de vidro das mãos de Chantelle e conferiu um de seus cascos. Havia uma pequena marca arranhada que parecia ser um D de Donner, apesar de também poder ser um B, para Blitzen. Ela sorriu.

“Há um conjunto inteiro aqui”, Emily disse, olhando para o emaranhado de luzinhas. “Em algum lugar”.

Elas procuraram até encontrar todas as renas do Papai Noel, incluindo Rudolph, com seu nariz vermelho pintado por Charlotte com esmalte de unhas. Emily sentiu uma pontada no coração ao lembrar que elas nunca conseguiram comprar os enfeites de Papai Noel e o trenó – o último da lista e mais caros – porque Charlotte havia morrido antes que poupassem dinheiro suficiente.

“Veja isto!” Chantelle gritou, tirando Emily de seus devaneios ao sacudir um urso polar de feltro encardido na frente dela.

“Percy!” Emily gritou, pegando-o das mãos da menina. “Percy, o urso polar!” Ela riu, feliz por poder desenterrar uma lembrança tão antiga. Havia perdido tantas, e ainda assim conseguia recuperá-las. Dava-lhe a esperança de desvendar mistérios de seu passado.

Ela e Chantelle separaram todas as decorações, escolhendo as que queriam usar e cuidadosamente guardando as outras. Quando terminaram e estavam prontas para colocar as decorações na árvore, já tinha escurecido.

Daniel acendeu a lareira e o suave brilho alaranjado das chamas se espalhou pelo foyer enquanto a família decorava a árvore. Um a um, Chantelle colocou cuidadosamente os enfeites que escolheu na árvore, com o tipo de precisão e cuidado que Emily aprendeu a reconhecer na menina. Era como se saboreasse cada momento, cuidadosamente guardando um novo conjunto de lembranças para substituir as terríveis de seus primeiros anos.

Finalmente, chegou a hora de colocar o anjo no topo. Chantelle passou um longo tempo escolhendo qual enfeite ficaria na posição principal e terminou escolhendo um anjo de tecido costurado à mão; as outras opções eram um pássaro de peito vermelho, uma estrela e um boneco de neve fofinho.

“Pronta?” Daniel perguntou a Chantelle, enquanto esperava de pé ao lado da escada. “Vou levantar você para que possa chegar ao topo”.

“Posso colocar o anjo no topo?” Chantelle perguntou, de olhos arregalados.

Emily riu. “É claro! A mais nova sempre pode fazer isso”.

Ela observou Chantelle subir nas costas de Daniel, segurando firme o anjo nas mãos, para não deixá-lo cair. Então, lentamente, um passo de cada vez, Daniel subiu a escada e a levou até o topo. Juntos, se esticaram e Chantelle colocou o enfeite no alto da árvore.

No momento em que o anjo apareceu sobre a árvore, Emily teve um súbito flashback. Veio tão rapidamente que ela começou a respirar rápido, em pânico com a abrupta mudança em sua pousada luminosa e aconchegante, que voltou a ser a pousada fria e escura de trinta anos atrás.

Emily estava olhando para cima, para Charlotte, enquanto ela colocava na árvore o anjo que passaram o dia fazendo. Seu pai estava segurando Charlotte no ar, que, nesse ponto, era apenas uma criança muito pequena e gorducha, e ele vacilava um pouco por causa das várias doses de xerez que havia bebido naquele dia. Emily se lembrou de um súbito e imenso medo. Medo de seu pai bêbado deixar Charlotte cair na lareira dura. Emily tinha cinco anos e era a primeira vez que realmente compreendeu o conceito de morte.

Voltou para o momento presente, surpresa ao ver a própria mão pressionando a parede, enquanto se segurava para não cair. Estava hiperventilando e Daniel já estava ao seu lado, com uma mão nas suas costas.

“Emily?” perguntou, preocupado. “O que houve? Outra lembrança?”

Ela assentiu, sem conseguir falar. A lembrança tinha sido tão vívida e aterrorizante, apesar dela saber que nada de ruim tinha acontecido à irmã naquela noite de inverno. Gostava da maioria de suas lembranças, mas aquela parecia sinistra, monstruosa, como um sinal das coisas sombrias que estavam por vir.

Daniel continuou a passar a mão nas costas de Emily enquanto ela fazia um grande esforço para diminuir o ritmo da sua respiração, que voltava ao normal. Chantelle levantou os olhos para ela, preocupada, e foi o rosto da menina que finalmente tirou Emily das garras de suas lembranças.

“Desculpe, está tudo bem”, ela disse, sentindo-se um pouco envergonhada por ter preocupado todo mundo.

Levantou os olhos para o anjo, para o vestido coberto de lantejoulas que usava. Ela e Charlotte haviam passado horas colando todas aquelas lantejoulas, uma a uma, no tecido. Agora, com a luz que vinha da sala de estar, elas brilhavam como um arco-íris. Emily teve a impressão de que estavam cintilando para ela. Não pela primeira vez, sentiu a presença de Charlotte, comunicando-lhe amor, paz e perdão. Emily tentou se agarrar a este sentimento, em busca de conforto.

“Deveríamos ir para a praça principal”, Emily disse, por fim. “Não queremos perder o momento em que a árvore será acesa”.

“Tem certeza que você está bem?” Daniel perguntou, parecendo preocupado.

Emily sorriu. “Estou. Juro”.

Mas Daniel não ficou convencido. Podia ver que ele a observava pelo canto do olho o tempo todo enquanto colocavam seus casacos de frio. Mas ele não fez mais perguntas, e então a família entrou no carro e se dirigiu à cidade.




CAPÍTULO QUATRO


Apesar do clima frio, Sunset Harbor em peso se reuniu na praça da cidade para assistir ao acendimento das luzes de Natal. Até Colin Magnum, o homem que alugou o chalé durante o mês, estava lá, aproveitando a festa. Karen, do mercadinho, distribuiu rolinhos de canela fresquinhos, e Cynthia Jones andava entre a multidão com garrafas de chocolate quente. Emily pegou o rolinho e o chocolate agradecida, sentindo o calor aquecer seu estômago enquanto os comia, e observava Chantelle brincar feliz com seus amigos.

No meio do povo, Emily distinguiu Trevor Mann. Antes, apenas vê-lo a deixaria morrendo de medo; tornaram-se inimigos no momento em que Trevor adotou como missão de vida expulsar Emily da pousada. Mas tudo começou a mudar nas últimas semanas, depois que ele descobriu que tinha um tumor cerebral impossível de operar. Longe de ser o inimigo de Emily, Trevor agora era seu aliado mais próximo. Havia pago todos os impostos atrasados dela – centenas de milhares de dólares – e agora a recebia na casa dele regularmente para tomar um café e comer um pedaço de bolo. Emily sofria ao vê-lo sofrer. Cada vez que o via, parecia mais frágil, mais oprimido pelas garras da doença.

Aproximou-se dele. Quando Trevor a viu, seu rosto se iluminou.

“Como você está?” Emily perguntou, abraçando-o. Ele parecia mais magro, e ela pôde sentir os ossos dele durante o abraço.

“Bem, dentro das circunstâncias”, Trevor replicou, baixando o olhar.

Emily ficava chocada ao vê-lo daquela forma, frágil e derrotado.

“Precisa de ajuda com alguma coisa?” ela perguntou, suavemente e num tom de voz baixo, para não constranger aquele homem orgulhoso.

Trevor balançou a cabeça, como Emily esperava. Não era sua natureza aceitar ajuda. Mas não estava na natureza dela aceitar um não como resposta.

“Chantelle tem feito decorações com flocos de neve de papel”, ela disse. “São pedacinhos de papel com glitter, mas ela está muito orgulhosa e quer que todos os vizinhos tenham uma. Tudo bem se eu passar para deixar uma amanhã?”

Era uma desculpa esfarrapada, mas Trevor mordeu a isca.

“Bem, acho que poderíamos também tomar um chá com bolo”, ele disse. “Já que você vai passar lá em casa mesmo”.

Emily sorriu. Havia algumas brechas na armadura de Trevor, e ela decidiu visitar o vizinho assim que surgisse uma oportunidade.

“Esperava vê-la qui”, Trevor disse, pegando a mão dela. Ele estava muito frio, Emily notou, e sua pele estava um tanto pegajosa. Havia um pouco de suor sobre a sobrancelha dele. “Tenho algo para você”, continuou.

“O que é?” Emily perguntou, enquanto ele tirava um pedaço de papel do bolso.

“Plantas”, Trevor disse. “De sua casa. Eu estava no meu sótão, tentando organizar tudo para... bem, você sabe”. Sua voz ficou mais baixa. “Não sei como foram parar nas minhas coisas, mas pode ser que você as queira. Foram desenhadas por seu pai e um advogado, e sei o quanto você deseja coisas que foram do seu pai”.

“Sim”, Emily balbuciou, pegando o papel das mãos dele.

Ela baixou os olhos para as linhas desbotadas no papel. Eram plantas arquitetônicas. Ficou surpresa ao perceber que eram da propriedade inteira, incluindo a piscina no anexo, aquela em Que Charlotte se afogou. Emily sentiu um nó na garganta. Dobrou o papel rapidamente e o colocou na bolsa.

“Obrigada, Trevor”, ela disse. “Vou olhar com mais calma depois”.

Eles se separaram e Emily voltou para junto de Daniel e Chantelle.

“O que Trevor queria?” Daniel perguntou.

“Nada”, Emily disse, balançando a cabeça. Ainda não estava pronta para falar sobre aquilo; estava emocionada demais com a experiência. O papel parecia atraí-la de dentro da bolsa. Poderia ser mais uma peça do quebra-cabeça que explicava o desaparecimento do seu pai?

Nesse momento, a contagem regressiva para o acendimento das luzes começou. A mente de Emily foi tomada por lembranças de estar ali quando criança, depois, como pré-adolescente, e depois como uma adolescente. Parecia passar por todos esses momentos esquecidos, ano após ano. Alguns incluíam Charlotte, viva e sorridente, mas muitos outros não; muitos eram apenas ela e seu pai, afundando cada vez mais na depressão e no alheamento.

Então, luzes brancas explodiram da árvore e todo mundo começou a vibrar e a aplaudir. Emily foi puxada de volta ao momento presente, com o coração acelerado.

“Você está bem?” Daniel perguntou, preocupado. “Você tem tidos muitos flashbacks”.

Emily assentiu para tranquilizá-lo, mas estava tremendo. Sua mente estava frenética. Todas aquelas lembranças ressurgindo de repente e ela se perguntava se tinham sido acionadas pela descoberta de que seu pai estava realmente vivo. Era como se agora pudesse voltar ao passado e lembrar do pai, porque não seria tomada pela dor ao fazer isso. Talvez, se Emily fosse paciente o bastante, descobriria uma lembrança que a ajudaria em sua busca, algo que lhe diria exatamente onde ele estava se escondendo.

*



Exaustos depois da divertida noite em família, Emily e Daniel puseram Chantelle na cama assim que chegaram em casa. A menina pediu que eles contassem uma história e Emily aceitou. Mas assim que a história acabou, Chantelle parecia pensativa.

“O que foi?” Emily perguntou.

“Estava pensando na minha mãe”, a menina explicou.

“Ah”. Emily sentiu um nó no estômago ao pensar em Sheila, lá no Tennessee. “O que tem ela, querida?”

Chantelle a olhou com seus olhos azuis arregalados. “Você vai me proteger dela?”

O coração de Emily apertou. “É claro”.

“Prometa”, Chantelle disse com uma voz desesperada, suplicante. “Prometa que ela não vai voltar”.

Emily a abraçou forte. Não podia prometer, porque não sabia como o processo da guarda legal iria transcorrer.

“Farei tudo o que puder”, Emily disse, esperando que suas palavras bastassem para acalmar a criança aterrorizada.

Chantelle se reclinou, com a cabeça sobre o travesseiro, os cabelos loiros espalhados, e pareceu relaxar. Alguns momentos depois, ela adormeceu.

O fato de Chantelle perguntar pela mãe despertou algo em Emily. Ela e Patricia haviam conversado há pouco tempo, quando Emily tentou, sem sucesso, fazer a mãe vir para o Dia de Ação de Graças na pousada. Sua mãe se recusou a visitar a casa em Sunset Harbor; via a casa como uma propriedade de Roy e como um lugar do qual fora banida. Ainda assim, Emily pensou, Patricia ainda fazia parte da sua vida. Era hora de pegar o touro pelos chifres e contar a ela sobre seu casamento.

Emily se levantou da cama de Chantelle, enrolou-se num xale e foi até o terraço. Sentou na cadeira de balanço, cruzou as pernas e olhou para o céu, para as estrelas cintilantes e para a lua. Algo no brilho delas lhe deu coragem. Pesquisou entre os contatos em seu celular e ligou para a mãe.

Como sempre, Patricia atendeu a ligação com um brusco “Sim?”

“Mãe”, Emily disse, respirando fundo, tentando manter sua coragem. “Tenho algo para te dizer”.

Não havia por que fingir uma conversa educada. Nenhuma das duas queria isso. Era melhor ir direto ao assunto.

“Ah, é?” Patricia disse, indiferente.

Emily havia dado algumas notícias inesperadas para a mãe ao longo do último ano, após deixar tudo em Nova York, terminar o relacionamento de sete anos com Ben, fugir para Sunset Harbor, abrir uma pousada, e se apaixonar por Daniel tão loucamente que havia concordado em criar a filha dele. Sua mãe havia, surpreendentemente, desaprovado cada uma das escolhas da filha. As chances dela aceitar o noivado eram quase nulas.

“Daniel me pediu em casamento”, Emily finalmente conseguiu dizer. “E eu concordei”.

Houve uma pausa, uma que Emily havia previsto. Sua mãe usava o silêncio como uma arma, sempre dando a Emily tempo suficiente para se preocupar com os pensamentos que passavam pela sua mente.

“E há quanto tempo você namora esse homem?” Patricia perguntou por fim.

“Há quase um ano”, Emily replicou.

“Um ano. E vocês têm mais ou menos uns cinquenta para passarem juntos”.

Emily suspirou fundo. “Pensei que ficaria feliz por eu finalmente me casar. Você sempre adorou passar na minha cara que, na minha idade, já tinha se casado há muito tempo”. Ao ouvir o tom da própria voz, Emily estremeceu. Por que sua mãe sempre provocava a criança briguenta nela? Por que se importava tanto com sua aprovação, se Patricia mesmo parecia se importar tão pouco com a filha?

“Imagino que ele precisa de uma mãe para essa filha dele”, Patricia disse.

Emily falou entredentes. “O nome dela é Chantelle. E não foi por isso que ele fez o pedido. Fez o pedido porque me ama. E eu aceitei porque o amo. Queremos ficar juntos pra sempre, então, é melhor se acostumar com isso”.

“Veremos”, Patricia replicou, entediada.

“Eu só queria que ficasse feliz por mim”, Emily disse, com a voz começando a oscilar. “Você será a mãe da noiva, afinal. As pessoas esperam vê-la orgulhosa de mim e ser gentil com todos”.

“Quem disse que eu vou?” Patricia disparou de volta.

As palavras atingiram Emily como um tapa. “Como assim? É claro que você virá, mãe, é meu casamento!”

“Não sou obrigada”, Patricia replicou. “Vou confirmar presença ou não depois que receber meu convite do casamento... quando o receber”.

“Mãe...” Emily balbuciou.

Não podia acreditar no que estava ouvindo. Sua mãe realmente não viria? O que as pessoas iriam pensar? Provavelmente, que Emily era uma órfã, sem pai, sem mãe. E sem irmã. De várias formas, ela era uma órfã. Estava sozinha no mundo.

“Tudo bem”, Emily disse, subitamente alterada. “Faça o que quiser. Como sempre”. Então, terminou a ligação sem se despedir.

Emily não queria chorar. Na verdade, se recusou a chorar. Não por causa da mãe, não valia a pena. Mas pelo pai, que era um assunto completamente diferente. Sentia falta dele desesperadamente, e agora que estava convencida de que ainda era vivo, queria vê-lo acima de tudo. Mas não sabia como entrar em contato. A mulher com quem ele estava traindo sua mãe morrera há vários anos, e, de todo modo, ela estava tão perplexa quanto todo mundo sobre o desaparecimento de Roy. Emily só sabia que, apesar de sofrer se sua mãe não vier ao casamento, não ter seu pai presente seria devastador. Naquele momento, Emily fortaleceu ainda mais sua decisão de encontrá-lo. Alguém, em algum lugar, deve saber de alguma coisa.

Voltou para a pousada. O dia havia sido longo, e ela subiu as escadas até o quarto. Mas quando chegou, viu que Daniel não estava lá. Seu pânico momentâneo foi aplacado quando ele entrou no quarto, com o celular na mão.

“Onde estava?” Emily perguntou.

“Acabei de ligar pra minha mãe”, Daniel replicou. “Para contar a ela sobre o casamento”.

Emily quase riu com a surpresa. Que os dois tivessem ligado para suas mães simultaneamente daquele jeito era mais do que uma coincidência; era claramente um sinal de sua conexão um com o outro.

“E como foi?” Emily perguntou, apesar de notar pela expressão de Daniel que a resposta não seria boa.

“O que você acha?” Daniel disse, levantando uma sobrancelha. “Ela usou Chantelle novamente, dizendo que só viria para o casamento se prometêssemos deixá-la passar um tempo regularmente com a neta. Queria que percebesse que força destrutiva ela pode ser e compreendesse por que não quero que tenha contato com minha filha. Não enquanto ainda estiver bebendo tanto. Chantelle precisa estar junto de adultos sóbrios depois do que viveu com sua própria mãe”. Ele desabou na borda da cama. “Mas ela não consegue entender. Não entende. 'Todo mundo bebe', é o que ela sempre diz. 'Não sou pior do que ninguém'. Talvez não, mas não é do que Chantelle precisa. Se se importasse com a neta o tanto que diz se importar, deixaria de beber para o bem dela”.

Emily subiu na cama atrás dele e massageou seus ombros tensos. Daniel relaxou sob o toque suave. Ela o beijou no pescoço.

“Também acabei de ligar para minha mãe”, falou.

Daniel virou-se para ela, surpresa. “Ligou? E como foi?”

“Terrível”, Emily disse, e de repente, desatou a rir. Havia algo sombriamente cômico naquilo tudo.

Vê-la se dissolver em riso fez Daniel começar a rir também. Logo, ambos estavam rindo histericamente, compartilhando suas misérias um com o outro, conectados naquele momento e emergindo dele juntos.

“Estava pensando”, Daniel disse, assim que parou de rir. “Lembra-se de quando Gus veio se hospedar aqui?”

“Sim, é claro”, Emily replicou. O cavalheiro idoso havia sido o primeiro hóspede de verdade da pousada. Graças a ele e seus amigos, ela havia salvo a propriedade da falência iminente. Ele também foi uma das pessoas mais encantadoras que Emily já teve o privilégio de conhecer. “Como poderia me esquecer de Gus? Mas o que tem ele?”

Daniel brincava relaxadamente com a manga da camisa dela. “Lembra daquela festa que ele foi, em Aubrey? Na prefeitura?”

Emily assentiu, franzindo o cenho e se perguntando por que Daniel estava falando daquilo.

“Já esteve lá?” Daniel perguntou.

Emily ficou cada vez mais curiosa. “Em Aubrey? Ou na prefeitura?” Então, ela riu. “Na verdade, nunca estive em nenhum dos dois”.

Daniel parou, subitamente em silêncio. Emily esperou pacientemente.

“A prefeitura realiza casamentos”, ele disse, finalmente tocando no assunto. “Estava pensando... a gente podia agendar um horário, ou não sei como eles chamam... com o pessoal que planeja a recepção? Quer dizer, se você preferir casar no Maine, ao invés de em Nova York”.

Dizer que ela estava chocada era pouco! Ouvir Daniel sugerir algo a ver com a organização do casamento sem ela ter que pressioná-lo era um alívio imenso.

“Sim, quero me casar no Maine”, Emily balbuciou. “Sinto-me mais em casa aqui do que jamais me senti em Nova York. E tenho mais amigos aqui. Não quero fazer todo mundo viajar até lá só por causa da tradição”.

“Legal”, Daniel replicou, desviando o olhar, tímido.

“Quando está pensando em ir?” Emily perguntou.

“Poderíamos ir no final de semana que vem”, Daniel sugeriu, ainda tímido. “E levar Chantelle. Ela iria adorar”.

Próximo final de semana? Emily teve vontade de gritar. Já?

Sentiu-se cada vez mais animada. O que havia acontecido com seu noivo relutante? O que havia subitamente mudado o coração dele? Talvez, os alertas de Jayne fossem completamente infundados, afinal. Daniel queria se casar tanto quanto ela. Tinha sido uma idiota por duvidar dele.

Mas, no instante seguinte, seus pensamentos mudaram de direção. Ela se perguntou se as ligações terríveis para suas mães tiveram algo a ver com o súbito interesse de Daniel. Ele havia sido motivado pelo ceticismo de Patricia, querendo provar a si mesmo como honrado, e que suas intenções eram sérias? Ou pior, estava apenas sugerindo aquilo para animar Emily, como uma maneira de acalmá-la um pouco?

Depois de concordar em marcar uma reunião para o próximo sábado, foram dormir. Daniel adormeceu rapidamente. Mas, com as preocupações perturbando sua mente, Emily lutou por muito tempo até conseguir repousar naquela noite.




CAPÍTULO CINCO


Serena chegou na pousada bem cedo na manhã de sábado, com os braços cheios de revistas.

“A árvore está linda”, ela disse, olhando para a enorme árvore de Natal.

“Para que estas revistas?” Emily perguntou, de trás da mesa da recepção.

Serena foi até ela e deixou as revistas caírem sobre o balcão, na frente de Emily. Eram edições especiais de casamento.

“Ah”, Emily falou, um pouco surpresa. Estava noiva há uma semana inteira e ainda não tinha folheado nenhuma revista.

“Achei que precisasse de um pouco de inspiração”, Serena disse.

Emily folheou uma delas, indiferente. “Na verdade, Chantelle fez uma lista das coisas que temos que fazer. O item número um é escolher o lugar”.

Serena riu. “Sim, ela me mostrou. Adoro ver como está envolvida em tudo isso. Já tem algum lugar em mente?”

Emily sorriu. “Na verdade, temos uma reunião marcada daqui a uma hora”.

“Verdade?” Serena disse, os olhos arregalados de animação.

Pela primeira vez desde o pedido, Emily sentiu-se alegre ao pensar na organização do casamento, e em entrar na igreja.

“É em Aubrey”, ela continuou. “Foi sugestão de Daniel, aquela prefeitura sobre a qual Gus e seus amigos não paravam de falar a respeito”.

Nesse momento, ouviu o som dos passos de Daniel descendo a escada, e virou-se para vê-lo. Estava usando sua melhor camisa xadrez e até penteou o cabelo para trás. Emily sorriu, satisfeita ao ver que ele pelo menos tinha se esforçado um pouco. Serena levantou a sobrancelha, rindo em aprovação.

“Chantelle está só escolhendo a roupa”, Daniel disse, ao chegar no último degrau.

Emily notou o olhar dele cair na revista de capa brilhosa nas mãos dela. Estava aberta numa matéria sobre lindos vestidos de casamento. Emily não podia ter certeza, mas achou ver um traço de surpresa nos olhos de Daniel, e se perguntou o que significava. Ele não havia pensado num casamento de branco, em que ela usasse um típico vestido com véu, e ele a aguardasse vestido num terno preto? Será que pensou apenas que se casariam com o jeans e camisetas de todo dia? Ela fechou a revista, com uma súbita irritação.

Um momento depois, Chantelle apareceu no topo das escadas. Estava usando um de seus vestidos mais chiques, meias brancas e sapatos tipo bonequinha, de verniz. Parecia feita de porcelana. Emily estava feliz ao ver o quanto o casamento era importante para Chantelle. Pelo menos alguém estava entrando no espírito das coisas.

Emily pegou sua bolsa e jaqueta e, deixando a pousada nas mãos capazes de Serena, levou sua família até a caminhonete.

“Está animada para ver o local?” Emily perguntou a Chantelle, olhando pelo retrovisor para a menina, no banco traseiro.

“Sim!” Chantelle exclamou. “E para experimentar o bufê!”

Emily havia esquecido completamente da degustação. Talvez nem conseguisse experimentar alguma coisa; estava tão nervosa com sua primeira reunião com um organizador de casamentos de verdade que chegava a sentir enjoo.

Após a viagem de vinte minutos até Aubrey, chegaram no local. Chantelle parecia a mais tranquila de todos no carro. A menina subiu os degraus de pedra saltitando, alegremente admirada com as cestas de flores pendentes e com os vitrais nas janelas. Emily achou o lugar lindo do lado de fora; era um prédio antigo e de aparência clássica. Havia grandes faixas de grama circundando o prédio, com macieiras que ficariam adoráveis nas fotos do casamento.

Eles foram saudados na porta por uma jovem bem vestida chamada Laura. Ela os levou para dentro.

Emily ficou impressionada ao ver a grandiosidade do lugar. Podia imaginar a cerimônia, os hóspedes, a dança. Pela primeira vez, fez uma imagem mental de como podia ser se casar com Daniel, usar o lindo vestido e entrar na igreja com seus amigos e familiares assistindo. Ela percebeu que havia parado de respirar por um momento.

“Gostariam de se sentar?” Laura disse, fazendo um gesto para onde o bufê da degustação estava.

Todos se sentaram, menos Chantelle, que caminhou pelo prédio avaliando seu tamanho e decoração; tudo, dos carpetes até as obras de arte.

“Não se preocupe com ela”, Emily disse para Laura com um sorriso. “Ela é nossa supervisora”.

Emily e Daniel provaram o primeiro conjunto de entradas, que foram apresentadas em pequenos pedaços, do tamanho de uma mordida. Emily se sentia estranha naquela situação. Não sabia se era o nervosismo de Daniel ou o dela, mas parecia estranho estar sentada ao lado dele, naquele ambiente formal, provando pratos de diferentes sabores. Era como se não pertencessem àquele lugar, como se fossem impostores. Emily quase não podia olhar nos olhos dele enquanto provavam todas as opções de pratos.

Felizmente, Chantelle diminuiu um pouco da pressão com sua espontaneidade. Ela estava perfeitamente à vontade, caminhando como se fosse a dona do lugar, fazendo declarações decididas sobre de que comidas gostou e quais não lhe agradaram.

“Acho que vocês deveriam escolher isto como entrada”, ela disse, decidida, apontando para os aperitivos de tomate e muçarela, “então, o peixe para o prato principal, e, para sobremesa...” Ela deu batidinhas no queixo. Isso claramente precisava de mais reflexão. “Escolham o cheesecake”.

Todo mundo riu.

“Mas você escolheu as três coisas mais caras do menu!” Emily destacou, rindo.

Laura aproveitou a dica para tocar na questão do dinheiro. “Já decidiram um orçamento para o bufê?” ela perguntou.

“Ainda nem temos um orçamento para o casamento”, Daniel brincou, mas Emily não via a graça. O assunto era sério demais para piadas. Por que ainda não tinham definido isso? Ocorreu-lhe que, depois de decidirem marcar esta reunião, não se sentaram novamente para discutir mais nada.

“Bem, ainda há tempo”, Laura disse, com um sorriso insípido e profissional. “Leva um tempo para decidir essas coisas. Imagino que também não têm ideia de quantos convidados? O local tem capacidade para duzentas pessoas”.

“Ah, humm...” Emily coçou o pescoço. Se nem sabiam se suas próprias mães viriam, como poderiam saber sobre os outros convidados! “Ainda estamos finalizando os números”.

“Não há problema nenhum”, Laura disse, voltando os olhos para seu fichário, que continha fotos luminosas de comida, flores e decoração, juntamente com uma lista e preços e opções de personalização.

Apesar dela ainda ter aquele sorriso roboticamente profissional em seu rosto, Emily podia ler em seus olhos um crescente nervosismo. Ela deveria estar se perguntando como iria ajudá-los a organizar alguma coisa se eles não sabiam nem mesmo o básico.

“Nosso layout sugerido seria com a mesa principal aqui”, Laura explicou, fazendo um gesto para o palco, na parte de trás do salão. “Aqui geralmente é a festa de casamento, com a presença das damas de honra, padrinhos e familiares. Vocês podem ter uma pequena mesa apenas para seis, ou uma mesa grande para até 16 pessoas. Têm uma ideia aproximada dos números?”

Emily sentiu o peito apertar. Isto era um desastre. E Daniel parecia mais nervoso que ela. Na verdade, ele parecia completamente desconfortável.

“É um pouquinho complicado”, Emily explicou. “Com nossas famílias. Talvez devêssemos falar sobre isso um pouco mais tarde”.

Não podia mais segurar a tensão. Laura também parecia atônita, percebendo claramente que não estava lidando com o de sempre ali.

“Sim, é claro”. Ela folheou rapidamente várias páginas de seu catálogo. “Então, temos as grandes portas duplas logo ali. Elas podem ser deixadas abertas se o tempo estiver bom. Estão esperando um casamento na primavera ou no verão, ou são um casal mais tipo outono/inverno? Estamos sem vagas para a primavera e o verão, então, vocês teriam que esperar, mas temos vagas para o outono e o inverno”.

Emily observou a reação de Daniel ao saber que o casamento deles poderia se realizar mais cedo, no próximo mês de setembro. Ele ficou completamente pálido. Ao vê-lo assim, Emily ficou ainda mais nervosa.

Chantelle parecia estar captando a tensão. Sua confiança brincalhona estava diminuindo. Seu olhar ia de Emily para Daniel, seu entusiasmo desaparecendo a cada momento que passava.

“Talvez, seja melhor pegar seu cartão, por ora”, Emily disse a Laura. “E remarcar quando soubermos de mais detalhes”. Ela se levantou abruptamente.

“Ah, ok, certo”, Laura disse, pega de surpresa, deixando cair o catálogo na pressa de se levantar e apertar a mão de Emily.

Emily se despediu rapidamente. Depois, saiu apressada do lugar, deixando Daniel para trás, apertando a mão de Laura com a mesma pressa. Ela irrompeu porta afora e desceu os degraus, ouvindo o som distante da voz de Daniel explicando a Laura que manteriam contato.

Já na rua, no frio, Emily segurou as lágrimas. Estava profundamente perturbada. Não só pela falta de planos deles, ou pelo silêncio em geral de Daniel nos últimos dias, mas pelas micro-expressões de seu rosto e o que ela inferia delas. Daniel realmente queria casar com ela ou o pedido foi algum momento impulsivo, impensado? A realidade de escolher uma data num futuro próximo estava assustando-o? E se ele tomasse a abordagem covarde de retardar o casamento por alguns anos, deixando-a numa espécie de limbo, arrastando noivado pelo máximo de tempo possível, como Jayne havia lhe alertado?

“Emily”, Daniel tentou, enquanto ele e Chantelle se juntavam a ela.

Sentiu as pontas dos dedos dele roçarem sua mão, mas ela se afastou, sem querer ser tocada naquele momento.

Daniel não tentou novamente. Ela o ouviu suspirar. Então, em silêncio, todos entraram novamente na caminhonete.

O humor na volta para casa não podia ser mais diferente do que eles tinham na ida. Era quase como se o ar estivesse permeado de ansiedade. O vestido fofo de Chantelle subitamente parecia uma fachada, como se eles tivessem vestido a menina bem para enganar Laura, para que ela pensasse que eram como qualquer outra família feliz e descomplicada, quando, na verdade, eles eram o oposto. Seus passados – o dela, o de Daniel, até o de Chantelle – complicavam tudo. E, pior que isso, seus passados complicavam suas essências, suas personalidades, suas habilidades de lidar com a pressão e com o estresse, suas habilidades de se relacionarem uns com os outros.

Pela centésima vez desde que ele fez o pedido, Emily se perguntou o que realmente estava se passando na cabeça de Daniel.




CAPÍTULO SEIS


Quando Emily contou a Daniel sobre seu desejo de adotar Chantelle, eles entraram em contato com seu amigo, Richard Goldsmith, um advogado especializado no assunto. Eles haviam tido uma conversa informal na pousada, com café e bolo. Mas, daquela vez, o encontro seria no escritório dele, no centro da cidade. Parecia mais sério e mais real.

Emily alisava nervosamente sua saia enquanto ela e Daniel entravam no escritório chique, que parecia saído de um livro de histórias, localizado num antigo prédio de tijolos vermelhos coberto com hera. Emily se sentiu apreensiva. E se Richard tivesse más notícias? E se ela nunca pudesse se tornar a mãe legal, verdadeira, de Chantelle, como a menina parecia desejar tanto quanto a própria Emily?

A recepcionista, uma jovem de cabelos ruivos, recebeu-os com um sorriso doce e reconfortante.

“O Sr. Goldsmith virá em alguns minutos”, ela disse, sem que eles nem precisassem se apresentar. “Ele só está atendendo outro cliente”.

Emily se encolheu um pouco e mordeu o lábio. Cliente. Parecia estranho pensar nela mesma dessa forma. Mas isso era o que ela era, e o que ela precisa ser, para alcançar seu objetivo. Conseguir a custódia legal de Chantelle não seria possível apenas batendo papo com um conhecido no terraço da casa dela, tomando café. Envolveria advogados e tribunais, juízes e documentação legal. Isso era pra valer e ela precisava se acostumar.

Emily se preparou mentalmente. Ela dava conta. Tinha que dar conta, amava Chantelle demais para falhar, para ceder sob a pressão. Mas havia outra parte de Emily que ainda estava remoendo o fracasso do sábado, quando tentaram visitar um local para o casamento, e ainda se ressentia com a maneira como Daniel havia se fechado à mera sugestão de escolher uma estação para a cerimônia. Se ele mudasse de ideia sobre casar, precisa ter a coragem de dizer a ela antes que as coisas fiquem sérias, antes que os contratos sejam assinados e os corações estejam envolvidos demais para voltar atrás. As palavras de sua mãe e de suas amigas ainda ecoavam na mente de Emily: que Daniel a estava usando “porque queria alguém para criar Chantelle para ele”, que Emily “havia tornado tudo fácil demais para ele”. Ela o havia deixado morar de graça na sua propriedade, havia acolhido sua filha sem questionar, e havia-o perdoado muito rápido por aquelas longas seis semanas durante as quais ele havia priorizado a filha em relação a ela. Mas o que elas não aceitavam ou compreendiam era como todas aquelas coisas faziam com que o amasse ainda mais: sua engenhosidade e resiliência durante os anos em que vivera na antiga garagem, o cuidado que teve pela propriedade durante as décadas em que permaneceu desocupada, mantendo-a relativamente bem cuidada, para o caso de Roy Mitchell retornar, e o fato dele ter assumido Chantelle sem questionar, provando ser um homem de verdade, o tipo que não fugia das próprias responsabilidades, que colocava as necessidades de sua filha acima das suas.

A porta do escritório de Richard se abriu de repente, tirando Emily de seus devaneios. Richard estava de pé na entrada da sala, enquanto apertava a mão de uma mulher pequena e loira, assoando o nariz num lenço. Ela fez Emily imediatamente se lembrar de Sheila. Uma onda de culpa a atingiu.

Não pôde distinguir as palavras apressadas de Richard, mas conseguiu captar seu tom tranquilizador. Então, ele se despediu da mulher e ela passou por eles apressada, dirigindo-se à porta.

Assim que ela se afastou, Richard se virou para Emily e Daniel. “Por favor, entrem”.

“Ela está bem?” Emily perguntou, enquanto o seguiam até o escritório.

Ela estava preocupada com a mulher que ele havia acabado de despedir, mas também queria saber a razão das suas lágrimas. Talvez ela estivesse prestes a entrar uma batalha legal como eles, só que estava do outro lado da moeda, o lado em que estava tendo sua guarda legal revogada. Era justo? Havia feito algo para merecer isso, como usar drogas ou abandonar a criança? Alguém merece isso?

Mas então ela se lembrou de Chantelle. Não, não era justo. Mas não se tratava do que era justo, mas do que era certo.

“Não posso falar sobre isso, sinto muito”, Richard disse, pondo um fim na fantasia descontrolada de Emily. Ele se acomodou em sua grande cadeira de couro e ajustou as pernas da calça de seu elegante terno cinza. “Tenho que ter o mesmo nível de confidencialidade com todos os meus clientes. Tenho certeza que você compreende”.

O desconforto de Emily retornou bruscamente ao ouvir aquela palavra mais uma vez. Cliente. Lembrava-lhe de como era sério aquilo tudo. Estavam pagando por aquele encontro, pela expertise de Richard e pelo seu tempo. Subitamente, tudo havia se tornado muito formal. Emily se perguntou se não deveria ter vindo de terninho.

Daniel parecia igualmente desconfortável ao lado dela. Podia notar pela maneira como ele ficava se mexendo e ajustando os botões da camisa. Ambos estavam muito longe de sua zona de conforto no escritório sofisticado de Richard.

O advogado tirou os óculos e levantou os olhos da papelada em que estava descrito o caso deles. “Há duas opções a considerar aqui. Em parte, é uma questão de semântica, mas existem algumas diferenças cruciais entre os dois caminhos que podemos seguir”.

“Que são...?” Emily perguntou.

“Guarda legal ou adoção”, Richard concluiu. “A guarda legal, basicamente, simplesmente estabeleceria uma relação legal entre Chantelle e Emily, mas não daria fim ao relacionamento legal de Sheila com sua filha. Por outro lado, com a adoção, todos os direitos e obrigações de Sheila em relação a Chantelle cessariam e Emily seria, a partir daí, considerada mãe dela. Em outras palavras, ela seria uma substituta para Sheila em todos os sentidos legais. A adoção busca criar um lar permanente e estável, então, Sheila precisaria abrir mão de seus direitos sobre Chantelle, e compreender que isso seria irrevogável”.

Emily assentiu, absorvendo as palavras dele. Pensou em Chantelle pedindo a ela para prometer que Sheila nunca mais voltaria.

“Chantelle não quer um relacionamento com a mãe”, Emily explicou.

“Mas uma guarda legal seria mais fácil de obter”, Richard contestou, cruzando as mãos sobre a mesa. “Se Sheila não está pronta a abrir mão de seus direitos sobre Chantelle, algo que, pelo que me contaram até agora, ela não quer fazer, teremos que provar que a criança não apenas estaria melhor com vocês, mas que Sheila é incapaz de cuidar dela, e que permitir qualquer contato com a mãe prejudicaria a menina”.

“Ela me disse várias vezes que quer que eu seja sua mãe de verdade”, Emily disse. “Que ela nunca mais quer ver Sheila”.

Daniel parecia desconfortável. “Não acho que seria correto cortar Sheila completamente”.

Richard os ouvia em silêncio. “Não se trata de direitos de visitação ou coisa do tipo. Se você se tornar a mãe legal de Chantelle, decidiria se ela veria ou não Sheila novamente. A menos que estejam planejando uma ordem de restrição contra ela. Isto é apenas sobre a legalidade, sobre quem toma as decisões sobre os cuidados com a criança”.

Tudo parecia clínico demais. Como a vida de uma criança e seu bem-estar poderia ser considerado só uma questão legal?” Eles estavam falando sobre seu coração. Não havia como separar suas emoções. Era impossível.

Emily tocou levemente a mãe de Daniel.

“Precisa ser a adoção completa”, ela explicou. “De outro modo, Sheila pode levá-la de nós um dia. Chantelle acorda gritando à noite com essa perspectiva. Ela me pediu várias vezes para protegê-la de Sheila. Me perguntou se eu poderia ser sua mãe. Eu sei que ela só tem sete anos, mas aquela menina sabe o que quer.”

Daniel finalmente cedeu, assentindo uma única vez, triste. Emily se sentiu mal por ele, mas ao mesmo tempo estava certa de que era a coisa certa a fazer para o bem de Chantelle.

“Queremos a adoção”, Daniel confirmou.

Richard assentiu. “Cada Estado tem um processo diferente”, ele explicou. “Mas aqui no Maine, precisamos abrir um processo de destituição em relação à mãe biológica. O fórum enviaria a intimação para ela e, então, ela teria direito a aconselhamento, haveria um encontro de mediação na presença de um magistrado em direito de família, com o objetivo de chegar a uma resolução pacífica. É claro, se Sheila consentir, as coisas serão mais tranquilas. Se ela lutar contra a petição, as coisas levarão mais tempo, já que será necessária uma audiência preliminar, uma audiência formal, uma revisão judicial, e, por fim, uma audiência para tomar a decisão definitiva”.

“Quais seriam os custos?” Daniel perguntou.

“Há alguns”, Richard explicou. “Mas não tão altos como poderiam imaginar. Estamos falando de cerca de duzentos dólares por audiência, então, tudo custaria menos de mil dólares”.

Mil dólares. Seria todo o necessário para tornar Chantelle filha deles. Mil dólares, mais semanas e meses de angústia.

“Daniel”, Richard disse então, um tanto solene. “Preciso deixar claro que sua condenação anterior não vai favorecê-lo”.

“Condenação anterior?” Emily balbuciou.

“Eu te contei”, Daniel falou numa voz apressada e constrangida. “Quando defendi Sheila. Do ex-marido dela. Você lembra”.

“Você foi condenado por aquilo?” Emily perguntou. Não sabia que tinha sido tão sério. Havia imaginado que Daniel tinha sido apenas algemado pelos policiais locais e mandado embora.

Ela mudou de posição desconfortavelmente em sua cadeira.

Richard pigarreou. Ele não parecia perturbado. Provavelmente, havia visto de tudo em seu escritório.

“O que realmente ajudaria, Daniel, seria você conseguir um emprego com salário fixo”.

“Ele tem”, Emily disse. “Ele trabalha para mim”.

“Mas ele não está na sua folha de pagamento”, Richard explicou. “Trabalho informal não fica bem. Precisa ser consistente. Um emprego das 8 às 18h, de preferência”.

“Certo”, Daniel disse, parecendo decidido. “Farei isso, se vai ajudar”.

Subitamente, Emily se sentiu apreensiva. Daniel sempre esteve disponível para ela. A parceria deles era 50% para cada. Como seria viver com ele fora de casa o dia todo? Ela teria que cuidar de Chantelle sozinha. Mas a pressão por uma adoção total estava vindo dela. Por Daniel, eles tomariam o caminho menos dramático da guarda legal. Mas ela queria a adoção.

Richard fechou seu arquivo e colocou os óculos novamente sobre o nariz. “Bem, os próximos passos são preparar a documentação e enviar a petição legal para o advogado de Sheila. Depois, entrarei em contato com mais informações. Mas preciso avisá-los, isso vai gerar alguma turbulência a curto prazo. Estejam preparados para um pouco de drama”.

Daniel apertou o braço de Emily para se tranquilizar.

“Podemos lidar com isso”, ela contou a Richard. “Por Chantelle, podemos lidar com qualquer coisa”.




CAPÍTULO SETE


Com as palavras de Richard Goldsmith ainda ecoando em seus ouvidos, Emily e Daniel voltaram para a pousada, desejando algum tempo a sós para refletir sobre sua situação. Ao invés disso, encontraram uma grande agitação.

Vários hóspedes que haviam chegado durante o final de semana estavam sendo servidos na sala de jantar por Matthew, o jovem chef que Emily contratara em tempo integral para ajudar Parker, agora que eles haviam começado a servir almoço e jantar também. Colin, que ainda estava hospedado no chalé e que agora fazia a maioria de suas refeições na pousada, estava entre eles, seu rosto bonito atraindo olhares das mulheres, apesar dele nem notá-las.

Colin havia se mantido muito calado desde o dia de Ação de Graças. Ele sempre desaparecia para o chalé assim que terminava a refeição, mergulhando novamente em seu trabalho. Sua beleza impressionante virou o assunto da cidade (pelo menos entre as moradoras), e seu ar misterioso só fazia aumentar o mistério. Emily sabia que ele havia se separado recentemente da esposa e se perguntava se havia se jogado no trabalho (fosse qual fosse) numa tentativa de esquecer seus problemas. Ele estava sempre ocupado no laptop ou escrevendo furiosamente numa caderneta, assim como fazia agora, na mesa do canto da sala de jantar. Emily estava intrigada sobre qual poderia ser seu trabalho, mas, é claro, não queria ser intrometida e perguntar realmente.

Enquanto Daniel e Emily caminhavam pelo corredor, ela notou uma mulher jovem usando legging com uma estampa vibrante de pé na mesa da recepção vazia, esperando ser atendida. O turno de Serena havia terminado e era Lois, a nova garota, que só estava trabalhando há mais ou menos uma semana, que deveria estar atendendo na recepção. Mas ela não estava à vista. Emily olhou para a caixa registradora vintage que havia comprado de Rico sobre o pesado tampo de mármore. Um roubo não estava exatamente no topo de sua lista de preocupações num lugar como Sunset Harbor, mas nunca se sabe.

“Sinto muito”, Emily disse para a mulher, indo apressadamente para trás da mesa de recepção. “Posso ajudá-la?”

“Eu sou Tracey”, a mulher baixinha falou, com um grande sorriso e fazendo balançar seu cabelo chanel castanho-claro. “A professora de ioga”.

“Ah!” Emily exclamou, notando pela primeira vez o tapete de ioga enrolado sob o braço da mulher.




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