Se Ela Corresse 
Blake Pierce


Um Enigma Kate Wise #3
Uma obra-prima de suspense e mistério. Blake Pierce fez um trabalho magnífico desenvolvendo personagens com um lado psicológico tão bem descrito que nos sentimos dentro de suas mentes, seguindo seus medos e torcendo para que tenham sucesso. Cheio de reviravoltas, este livro fará você ficar acordado (a) até o final da última página. - Críticas de Livros e Filmes, Roberto Mattos (re Once Gone) SE ELA CORRESSE (Um Enigma da Série Kate Wise) é o livro nº3 de uma nova série de suspense psicológico escrita pelo autor best-seller Blake Pierce, cujo best-seller nº 1 Once Gone (livro nº1) (download gratuito) recebeu mais de 1. 000 avaliações cinco estrelas. Kate Wise, 55 anos, Agente do FBI, é chamada de volta após a aposentadoria quando o segundo homem casado e morador de um bairro rico é encontrado morto; ele foi morto a tiros a caminho de casa. Será uma coincidência?Houve um caso que assombrou toda a carreira de Kate, um que ela não conseguiu resolver. Agora, 10 anos depois, um segundo homem casado é morto da mesma maneira - e sendo da mesma cidade. Qual é a conexão entre eles?E será que Kate conseguirá se redimir e resolver isso antes que o caso caia no esquecimento de novo?Um thriller cheio de ação, um suspense emocionante, SE ELA CORRESSE é o terceiro livro de uma nova série fascinante que fará você virar páginas até tarde da noite. O livro nº4 da série KATE WISE estará disponível em breve.







se ela corresse



(um enigma da série kate wise—livro 3)



b l a k e p i e r c e


Blake Pierce



Blake Pierce é o autor da série de enigmas RILEY PAGE, com doze livros (com outros a caminho). Blake Pierce também é o autor da série de enigmas MACKENZIE WHITE, composta por oito livros (com outros a caminho); da série AVERY BLACK, composta por seis livros (com outros a caminho), da série KERI LOCKE, composta por cinco livros (com outros a caminho); da série de enigmas PRIMÓRDIOS DE RILEY PAIGE, composta de dois livros (com outros a caminho); e da série de enigmas KATE WISE, composta por dois livros (com outros a caminho).



Como um ávido leitor e fã de longa data do gênero de suspense, Blake adora ouvir seus leitores, por favor, fique à vontade para visitar o site www.blakepierceauthor.com (http://www.blakepierceauthor.com) para saber mais a seu respeito e também fazer contato.



Direitos Autorais © 2018 por Blake Pierce. Todos os direitos reservados. Exceto conforme o permitido sob as Leis Americanas de Direitos Autorais (EUA Copyright Act, de 1976), nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, distribuída ou transmitida de qualquer forma ou por qualquer meio, ou armazenada em um sistema de banco de dados ou de recuperação, sem a prévia autorização do autor. Este e-book é licenciado apenas para seu prazer pessoal. Este e-book não pode ser revendido ou distribuído para outras pessoas. Se você gostaria de compartilhar este livro com outra pessoa, adquira uma cópia adicional para cada destinatário. Se você está lendo este livro e não o comprou, ou ele não foi comprado apenas para o seu uso, então, por favor, devolva o livro e compre a sua própria cópia. Obrigado por respeitar o trabalho duro deste autor. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, empresas, organizações, locais, eventos e incidentes são um produto da imaginação do autor ou são usados ​​ficticiamente. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, é mera coincidência. Imagem da capa Copyright Tom Tom, usada sob licença da Shutterstock.com.


LIVROS ESCRITOS POR BLAKE PIERCE



SÉRIE DE ENIGMAS KATE WISE

SE ELA SOUBESSE (Livro n 1)

SE ELA VISSE (Livro n 2)

SE ELA CORRESSE (Livro n 3)

SE ELA ESCONDESSE (Livro n 4)



SUSPENSES PSICOLÓGICOS CHLOE FINE

A PRÓXIMA PORTA (Livro 1)

A MENTIRA MORA AO LADO (Livro 2)

CUL DE SAC (Livro 3)



SÉRIE OS PRIMÓRDIOS DE RILEY PAIGE

ALVOS A ABATER (Livro #1)

ESPERANDO (Livro #2)



SÉRIE DE MISTÉRIO DE RILEY PAIGE

SEM PISTAS (Livro #1)

ACORRENTADAS (Livro #2)

ARREBATADAS (Livro #3)

ATRAÍDAS (Livro #4)

PERSEGUIDA (Livro #5)

A CARÍCIA DA MORTE (Livro #6)

COBIÇADAS (Livro #7)

ESQUECIDAS (Livro #8)

ABATIDOS (Livro #9)

PERDIDAS (Livro #10)

ENTERRADOS (Livro #11)

DESPEDAÇADAS (Livro #12)

SEM SAÍDA (Livro #13)



SÉRIE DE ENIGMAS MACKENZIE WHITE

ANTES QUE ELE MATE (Livro nº1)

ANTES QUE ELE VEJA (Livro nº2)

ANTES QUE COBICE (Livro nº3)

ANTES QUE ELE LEVE (Livro nº4)

ANTES QUE ELE PRECISE (Livro nº5)

ANTES QUE ELE SINTA (Livro nº6)

ANTES QUE ELE PEQUE (Livro nº7)

ANTES QUE ELE CAÇE (Livro nº8)

ANTES QUE ELE ATAQUE (Livro nº9)



SÉRIE DE ENIGMAS AVERY BLACK

RAZÃO PARA MATAR (Livro nº1)

RAZÃO PARA CORRER (Livro nº2)

RAZÃO PARA SE ESCONDER (Livro nº3)

RAZÃO PARA TEMER (Livro nº4)



SÉRIE DE ENIGMAS KERI LOCKE

RASTRO DE MORTE (Livro nº1)

RASTRO DE UM ASSASSINO (Livro nº2)


SUMÁRIO

CAPÍTULO UM (#u33fdeaab-d006-5b55-a553-74f79fa188ee)

CAPÍTULO DOIS (#u658681e5-4e82-5471-a8cd-d41671d17aac)

CAPÍTULO TRÊS (#u81a4c282-39e1-5dbb-9281-87ef88e654a6)

CAPÍTULO QUATRO (#uf5e10d74-d90a-5b01-9a21-ab6b6cc055c3)

CAPÍTULO CINCO (#u03a8fa0f-7903-5f54-8223-82eb77a70b69)

CAPÍTULO SEIS (#u402e3dfd-ef2d-5f33-bd23-13f4f5ef78dc)

CAPÍTULO SETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTUO OITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO NOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZ (#litres_trial_promo)

CAPÍTUO ONZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DOZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TREZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUATORZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUINZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZESSEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZESSETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZOITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZENOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E DOIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E TRÊS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E QUATRO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E CINCO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E SEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E SETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E OITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E NOVE (#litres_trial_promo)




CAPÍTULO UM


Seus nervos estavam em chamas e ela sentiu que poderia ficar enjoada a qualquer momento. As luvas de boxe em suas mãos pareciam estranhas e o protetor de cabeça estava sufocando-a. Nenhuma dessas coisas era nova para Kate Wise - ela estava treinando há cerca de dois meses, mas essa era a primeira vez que ela lutava com uma adversária de verdade. Mesmo ciente de que estava tudo bem e divertido, de que aquilo era apenas parte da dinâmica do treino, ainda assim estava ficando nervosa. Ela daria socos reais no corpo de alguém e isso não era algo que ela fizesse de forma leve.



Ela olhou através do ringue para a adversária, uma mulher mais jovem que ela estava tentando ao máximo não vê-la como uma adversária. Ela também frequentava a pequena academia e estava passando pelo programa de boxe. O nome da mulher era Margo Dunn e ela estava fazendo o curso pela mesma razão que Kate; era um ótimo exercício para o corpo inteiro que, em essência, não envolvia muita corrida ou levantamento de peso.



Margo sorriu para Kate enquanto seu treinador deslizou o protetor para dentro da boca dela. Kate acenou de volta em resposta quando seu treinador deslizou o dela também. Quando aquilo se encaixou perfeitamente ao redor de seus dentes, Kate sentiu como se um interruptor tivesse sido apertado. Ela estava na modalidade boxe agora. Sim, os nervos ainda estavam lá e ela estava desconfortável com toda a situação, mas era hora de agir. Era hora de lutar. Havia apenas uma plateia de sete pessoas - composta de treinadores e dois outros membros da academia que estavam apenas curiosos sobre o que iria acontecer.



Ao lado do ringue, alguém tocou o pequeno sino para indicar o início da luta. Kate foi até o meio do ringue, onde se encontrou com a Margo. Elas bateram as luvas e deram dois passos respeitosos para trás.



E então, começou. Kate circulou um pouco, procurando fazer o ritmo com os pés que aprendeu, era como se estivesse dançando. Ela deu um passo à frente e lançou seu primeiro golpe. Margo a bloqueava facilmente, mas fazer aquela dança era bom para se aquecer. Kate a cutucou novamente, um pequeno soco com a mão esquerda. Margo a bloqueou, em seguida, rebateu com uma esquerda que pegou Kate na lateral de sua cabeça. O soco foi leve - afinal de contas, era apenas um treino – pegou bem do lado do protetor de cabeça. Mas ainda assim, foi o suficiente para balançar Kate um pouco.



Você tem cinquenta e seis anos, ela pensou consigo mesma. Que diabos você achou que iria acontecer?

Ela considerou a pergunta quando a Margo jogou um gancho de direita. Kate se esquivou desse. Desviar-se tão facilmente lhe deu mais confiança. Quando ela também conseguiu bloquear sem esforço o golpe que Margo desferiu, despertou nela a necessidade de se sobressair.

Você sabe por que você está fazendo isso, ela pensou. Nove semanas e você perdeu dezoito quilos e tem o melhor tônus muscular que você já teve em toda a sua vida. Você se sente cerca de vinte anos mais jovem e vamos falar admitir... Você já se sentiu tão forte assim antes?



Não, nunca. Mesmo longe de dominar a arte do boxe, ela sabia que tinha as habilidades básicas para fazer aquilo.



Com essa mentalidade firmada, ela deu um passo à frente em uma posição de ataque contínuo, fingiu um soco de esquerda e, em seguida, lançou um gancho de direita. Quando o gancho acertou o queixo de Margo, Kate lançou um golpe de esquerda... e depois outro. Ambos a acertaram em cheio, balançando Margo um pouco. Uma luz de surpresa brilhou em seus olhos enquanto ela cambaleava de volta contra as cordas. Ela sorriu, apesar do ocorrido. Como Kate, ela sabia que isso era só um treino e ela acabou de aprender uma lição: ficar atenta o tempo todo.



Margo respondeu com dois golpes no corpo de Kate, um nas costelas de Kate. O fôlego saiu apressado de dentro dela por um momento e quando ela o retomou, viu o pesado gancho de direita vindo lhe acertar pela esquerda. Ela tentou se mover, mas não deu tempo. O soco bateu ao lado de sua cabeça e a sacudiu para trás.



Ela ficou tonta por um momento. Sua visão ficou turva e seus joelhos pareciam um pouco fracos. Ela pensou em cair, só para se dar um tempo.



Sim... velha demais para isso.

Mas então o contragolpe para isso foi: Você conhece outras mulheres com mais de cinquenta anos que poderiam aguentar este soco e permanecer de pé?



Kate respondeu com dois socos e depois deu um golpe no corpo dela. Apenas um dos socos a acertou, mas o golpe no corpo a atingiu em cheio. Margo voltou para as cordas, cambaleando um pouco. Ela então voltou e lançou um uppercut impaciente. Não foi projetado para acertá-la. Era só para fazer com que Kate levantasse os braços para bloqueá-lo, para que Margo pudesse lançar socos em direção à sua parte exposta. Mas Kate viu a ligeira hesitação e entendeu o propósito por trás disso.



Em vez de bloquear o soco, ela deu um passo para a direita, esperou que todo o movimento fosse feito, e então lançou um soco com a mão direita em direção à lateral da cabeça de Margo.

Margo caiu imediatamente. Ela caiu de bruços e rolou rapidamente. Ela deslizou de volta para o canto e tirou o seu protetor da boca. Ela sorriu para Kate e balançou a cabeça em descrença.



"Desculpe-me", disse Kate, ajoelhando-se na frente de Margo.



"Não se desculpe", disse Margo. “Honestamente, não entendo como você consegue ser tão rápida. Eu sinto que eu preciso me desculpar. Por causa da sua idade, presumi que você seria... mais lenta.

O treinador de Kate - um homem grisalho de sessenta e poucos anos com uma longa barba branca - subiu entre as cordas, rindo. "Eu cometi o mesmo erro", disse ele. “Fiquei com um olho roxo por cerca de uma semana por causa disso. Peguei exatamente o mesmo soco que acabou de derrubá-la.



"Não se sinta assim", disse Kate. “Aquele soco na minha cabeça foi terrível. Quase me acertou.

"Deveria ter acertado você", disse o treinador. “Honestamente, esses treinos de luta foram um pouco mais difíceis do que eu gostaria.” Ele então olhou para a Margo.

"Você decide. Quer continuar?



Margo assentiu e se levantou. Mais uma vez, seu treinador colocou seu protetor bucal. Ambas voltaram para seus respectivos cantos e esperaram o sino.



Mas não foi o sino que Kate ouviu. Em vez disso, ela ouviu o toque de seu telefone. E era o toque usado para todas as ligações que vinham da agência.



Ela empurrou o protetor para fora da boca e colocou as mãos enluvadas na direção do seu treinador. "Desculpem-me", disse ela. "Eu tenho que atender esta ligação."



Seu treinador sabia sobre seu trabalho de meio período como agente especial. Ele a achou durona (suas próprias palavras) por ter se recusado a se aposentar completamente de tal trabalho. Então, quando ele desamarrou as luvas para ela, ele fez isso o mais rápido possível.



Kate deslizou entre as cordas e correu para sua bolsa de ginástica, que estava perto da parede. Ela sempre a mantinha lá fora e não no vestiário, no caso de receber alguma ligação. Ela pegou o telefone e seu coração disparou com excitação e desespero, tudo de uma só vez, quando viu o nome do diretor adjunto Duran no visor.



"Agente Wise falando", disse ela.

“Wise, é Duran. Você tem um segundo pra mim?

"Sim", disse ela, olhando para o ringue com saudade. O treinador de Margo estava conversando com ela sobre como evitar dissimulações. "O que posso fazer para você?"

“Eu espero que você possa entrar em um caso. Imediatamente, e preciso que você e DeMarco voem hoje à noite.”



"Eu não sei", disse ela. E era verdade. Foi muito repentino e ela conversou com Melissa, sua filha, várias vezes nas últimas semanas sobre não estar tão prontamente disponível para os empregos de última hora. Ela tem passado muito mais tempo com Melissa e Michelle, sua neta, no último mês, e elas finalmente tiveram algo bom ocorrendo - uma rotina. Algo parecido com uma família.



"Eu agradeço que você tenha pensado em mim", disse Kate. "Mas eu não sei se posso entrar nisso. Está em cima da hora. E ter que voar... Isso faz parecer que o lugar é bem longe. Eu não sei se estou preparada para uma longa viagem. Onde é, afinal?



“Nova York. Kate… Tenho certeza que tem conexões com o caso Nobilini.”



Aquele nome enviou um arrepio através do corpo dela. Sua cabeça começou a rodar, e não foi por causa do golpe da Margo momentos atrás. Flashes de um caso de quase oito anos caíram em cascata em sua cabeça - maliciosos, irônicos.



"Kate?"



"Estou aqui", disse ela. Ela então olhou de volta para o ringue. Margo estava se espreguiçando e correndo levemente sem sair do lugar, pronta para a próxima luta.

Era uma pena não poder continuar. Mas assim que Kate ouviu aquele nome, ela soube que aceitaria o caso. Ela tinha que.



O caso Nobilini tinha se afastado dela há oito anos - uma das verdadeiras derrotas que ela já teve em sua carreira.

Esta era sua chance de dar um desfecho ao caso - fechar o único caso que realmente a superou.



"Quando é o vôo?" Ela perguntou a Duran.

"Dulles para JFK, sai em quatro horas.”



Ela pensou em Melissa e Michelle, seu coração ficou abatido. Melissa não entenderia, mas Kate não conseguia recusar aquela oportunidade.



"Eu estarei nesse caso", disse ela.




CAPÍTULO DOIS


Kate conseguiu fazer as malas e sair de Richmond em menos de uma hora e meia. Quando conheceu sua parceira, Kristen DeMarco, do lado de fora de um dos muitos Starbucks no Aeroporto Internacional de Dulles, elas tinham apenas dez minutos restantes antes da decolagem; a maioria dos passageiros do avião já havia embarcado.



Quando DeMarco começou a andar em direção a Kate com o café na mão, ela sorriu e balançou a cabeça. "Se você fosse se mudasse para DC, não estaria correndo e chegando atrasada o tempo todo."



"Não dá", Kate disse quando elas se juntaram e começaram a correr para o portão. "Já basta esse trabalho de meio período me manter longe da minha família mais do que eu gostaria. Se precisasse morar em DC, eu não estaria fazendo nada disso.”



"Como estão Melissa e a pequena Michelle?", Perguntou DeMarco.



“Elas estão bem. Falei com Melissa a caminho daqui. Ela disse que entendia e me desejou sorte. E pela primeira vez, acho que ela realmente quis dizer isso.”

“Bom. Eu te disse que ela mudaria de ideia. Suponho que seja legal pra caramba ter uma mãe durona.”



"Estou longe de ser uma idiota", Kate disse quando chegaram ao portão. Ainda assim, ela pensou no que estava fazendo quando recebeu a ligação, logo achou que poderia aceitar aquele rótulo... Pelo menos um pouco.



- Da última vez - disse Kate – “você estava trabalhando em um caso de assassinato triplo em Maine.”



“Sim, eu estava. Nós resolvemos o caso há cerca de uma semana - cerca de seis agentes ao todo. Quando recebi a ligação de Duran sobre esse caso, ele me disse que planejava mandá-la e perguntou se eu queria fazer parceria com você. Eu, claro, aproveitei a chance. Eu disse a ele que gostaria de ter uma parceria com você sempre que possível no futuro.”



"Obrigada", disse Kate. Ela não disse mais nada a respeito, no entanto. Na verdade, significava muito para ela, mas ela não queria ficar melosa com DeMarco.

Elas embarcaram no avião juntas e tomaram seus lugares, uma ao lado da outra. Quando elas estavam acomodadas, DeMarco enfiou a mão na bolsa e tirou uma pasta grossa cheia de papéis e documentos.

"Aqui tem tudo sobre o caso Nobilini", disse ela. "Com base em sua história neste caso, eu suponho que você conhece pasta pelo avesso.



"Provavelmente", disse Kate.

"É um voo bastante rápido", destacou DeMarco. "Eu prefiro ouvir as informações de você em vez de ver anotações e arquivos."



Kate faria da mesma maneira. O que a surpreendeu foi como ela estava ansiosa para compartilhar os detalhes do caso com DeMarco. O caso gerava uma irritante sensação no fundo de sua mente ao longo dos anos, mas ela sempre conseguiu afastá-la, não querendo se concentrar no verdadeiro fracasso de sua carreira.



Assim, quando o avião começou a se posicionar em direção à pista, Kate começou a rever as especificidades do caso. Ao fazê-lo, parou para ouvir os chatos anúncios pré voo, percebeu que tudo parecia novo agora. Talvez tenha sido todo o tempo que passou desde a última vez que realmente se dedicou a isso, ou a quase aposentadoria (ou ambos), mas o caso agora parecia vivo e ativo.



Ela contou para DeMarco os detalhes do caso em um subúrbio de alto nível que fica perto de Nova York. Apenas um corpo, mas o caso foi alavancado por alguém no Congresso, já que a vítima estava intimamente ligada a ele. Nenhuma impressão digital, sem pistas. O corpo, Frank Nobilini, foi encontrado em um beco no distrito de Midtown. O melhor palpite era que ele estava indo para o trabalho, andando no quarteirão da garagem para o seu escritório. Apenas um único tiro na parte de trás da cabeça. Estilo de execução.



"Como poderia ser um estilo de execução se alguém o sequestrou e o arrastou para o beco?", Perguntou DeMarco.



“Essa é outra questão não respondida para o caso. Assumiu-se que Nobilini foi um pouco agredido, forçado a ficar de joelhos e, em seguida, atiraram na parte de trás da sua cabeça. Sangue e pedaços do crânio estavam do lado da parede do prédio ao lado do corpo. As chaves da sua BMW ainda estavam nas mãos dele.”



DeMarco assentiu e permitiu que Kate continuasse.



"A vítima era de uma cidade pequena, um pequeno e caprichoso subúrbio chamado Ashton", disse Kate. "É o tipo de cidade que atrai visitantes para suas pretensiosas lojas de antiguidades, restaurantes caros e imóveis imaculados."



"E isso é o que eu não entendo", disse DeMarco. “Um lugar assim, as pessoas tendem a fofocar, certo? Você supõe que alguém soube de alguma coisa ou ouviu rumores sobre quem era o assassino. Mas não há nada nesses arquivos.” Ela disse esse último pedaço enquanto batia os dedos contra a pasta.



"Isso sempre me enervou", disse Kate. “Ashton é um lugar de luxo. Mas fora isso, também é uma comunidade muito restrita. Todos se conhecem. Na maior parte, todos são educados uns com os outros. Vizinhos ajudando vizinhos, grandes vendas de bolos nas escolas, ao longo de nove pátios inteiros. O lugar é completamente limpo.



"Nenhuma motivação para um assassino?" DeMarco perguntou.



“Nenhum que eu soubesse. Ashton tem uma população de pouco mais de três mil habitantes. E com certeza, embora atraia uma quantidade significativa de pessoas da cidade de Nova York e de outras áreas afastadas, a taxa de criminalidade é incrivelmente pequena. Então, mesmo que o assassinato não tenha ocorrido em Ashton, é por isso que o assassinato de Nobilini foi um grande problema há oito anos. ”



"E nunca houve nenhum outro assassinato como este?"



"Não. Não até hoje, aparentemente. Minha teoria é que o assassino notou a presença do FBI e ficou assustado. Em uma cidade desse tamanho, seria fácil notar a presença do FBI. Kate fez uma pausa e pegou a pasta de arquivos de DeMarco. “Quanto Duran lhe contou a respeito?”



“Não muito. Ele disse que estávamos com pressa e pediu que eu lesse os arquivos do caso.”

“Você viu que tipo de arma foi usada no assassinato?” Kate perguntou.



“Vi. Uma Ruger Hunter Mark IV. Parecia estranho. Parecia profissional. Era uma arma cara para algum assassinato aleatório sem motivo aparente.”

“Concordo. A bala e o invólucro que encontramos fizeram com que fosse fácil reconhecê-la. E apesar da arma cara e muito boa, o fato de que ela foi usada nos diz tudo o que precisávamos saber: era alguém que não sabia nada sobre matar pessoas.”



"Como é isso?"



“Qualquer um que soubesse o que eles estavam fazendo saberia que a Ruger Hunter Mark IV deixaria para trás um invólucro. O que torna a escolha terrível.



"Este último homem foi morto por uma arma similar?" DeMarco perguntou.

"De acordo com Duran, é exatamente a mesma arma."



“Então, esse assassino decidiu fazer isso novamente oito anos depois. Esquisito.”



“Bem, vamos ter que esperar para ver isso,” disse Kate. “Tudo o que Duran me contou foi que a vítima parecia ter sido. E que a arma usada para matá-lo era do mesmo tipo que matou Frank Nobilini.”



“Sim, e esse aqui no centro da cidade de Nova York. Eu me pergunto se esta última vítima também está conectada a Ashton.”



Kate apenas deu de ombros quando o avião passou por um pouco de turbulência. Fez muito bem para ela passar pelos detalhes do caso. Essencialmente, isso tirou as teias de aranha do caso e fez com que aquilo parecesse novo de novo. E talvez, Kate imaginou, oito anos de espaço entre ela e o caso original pudessem permitir que ela olhasse para ele com novos olhos.



***

Já fazia um tempo desde que Kate esteve em Nova York. Ela e Michael, seu falecido marido, tinham ido para lá para uma escapada de fim de semana pouco antes de ele morrer. O congestionamento e a ocupação absoluta do lugar nunca deixaram de assombrá-la. Isso fez com que o impasse de Washington, DC, parecesse trivial. O fato de estar perto das nove da noite de sexta-feira não estava ajudando.



Chegaram ao local do crime às 8:42 da noite. Kate estacionou o carro alugado o mais perto possível da fita da cena do crime. A cena estava em um beco localizado na 43rd Street, havia a agitação da Grand Central Station a algumas quadras. Havia dois carros de polícia estacionados cara a cara na frente do beco, não bloqueando a fita amarela da cena do crime ou o beco em si, mas mostrando a qualquer um que quisesse dar uma espiada no que estava acontecendo que sua curiosidade teria consequências.



Quando Kate e DeMarco chegaram ao beco, um policial grandalhão os deteve na fita da cena do crime. Mas quando Kate mostrou seu distintivo, ele encolheu os ombros e levantou a fita. Ela notou que ele não fez nenhuma tentativa de encarar DeMarco quando ela se abaixou para passar por baixo da fita. Ela se perguntou, indiferente, se DeMarco, uma mulher abertamente homossexual, se ofendia quando um homem a olhava de cima a baixo ou se ela considerava isso um elogio.



“Feds”, disse o oficial com um mau humor. “Ouvi dizer que eles ligaram para você. Parece um pouco demais para mim. Casinho bem complicado.”

“Só checando uma coisa - disse Kate enquanto ela e DeMarco entravam no beco escuro.



Os carros da polícia na entrada do beco estavam estacionados em um ângulo de luz para permitir que os faróis brilhassem na escuridão. As sombras alongadas de Kate e DeMarco adicionaram um ar fantasmagórico à cena.



Nos fundos do beco - que terminava em uma parede de tijolos - havia dois policiais e um detetive à paisana em pé em um pequeno semicírculo. Havia um pequeno relevo contra a parede na frente deles. A vítima, Kate presumiu. Ela se aproximou dos três homens, se apresentou e apresentou DeMarco assim que mostraram novamente suas identificações.



"Prazer em conhecê-las", disse um dos policiais. "Mas, se estou sendo honesto, não sei bem por que o FBI insistiu tanto para colocar alguém aqui."



"Ah, Jesus", disse o detetive à paisana. Ele parecia estar em seus quarenta anos e era um pouco desleixado. Cabelos longos e escuros, barba por fazer e um par de óculos que fazia Kate se lembrar de todas as fotos que ela já tinha visto do cantor Buddy Holly.



"Já passamos por isso", disse o detetive. Ele olhou para Kate, revirou os olhos e disse: “Se é um crime que tem mais de uma semana, o NYPD não quer se meter nisso. Surpreende-nos que alguém queira desenterrar um caso de assassinato não resolvido de oito anos atrás. Eu, na verdade, chamei a agência. Eu sei que eles estavam quentes e trabalhando pesado no caso Nobilini quando ele ainda estava ativo. Algum tipo de amizade com alguém do Congresso, certo?”



"Isso mesmo", disse Kate. "E eu era o agente principal nesse caso."

“Ah. Bom lhe conhecer. Eu sou o detetive Luke Pritchard. Eu meio que tenho uma obsessão por casos frios. Este atraiu o meu interesse por causa da arma que parece ter sido usada, bem como o estilo de execução. Se você olhar de perto, pode ver marcas na testa onde o assassino aparentemente o encostou na parede de tijolos bem aqui.” Ele colocou a mão na lateral do prédio à direita, onde havia sangue seco espalhado por toda parte.



“Podemos?” Perguntou Kate.



Os dois policiais deram de ombros e recuaram. "Com certeza", disse um deles. "Com um detetive e a agência nisso, nós ficaremos felizes."

"Divirta-se", o outro policial disse quando eles se viraram e voltaram para a boca do beco.



Kate e DeMarco se amontoaram ao redor do corpo. Pritchard recuou para lhes permitir algum espaço extra, mas manteve-se por perto.

"Bem", disse DeMarco, "eu diria que a causa imediata da morte está bem clara."



Verdade. Havia um único buraco de bala na parte de trás da cabeça do homem, o buraco bastante limpo, mas a borda estava carbonizada e sangrando - exatamente como a de Frank Nobilini. Era um homem, com trinta e tantos anos ou quarenta e poucos anos, se Kate tivesse que arriscar um palpite. Ele usava roupas esportivas da moda, um moletom com capuz fino e calças de jogging bem legais. Os laços de seus caros tênis de corrida estavam amarrados perfeitamente e os fones de ouvido da Apple que ele ouvia estavam ao seu lado, como se tivessem sido colocados lá intencionalmente.



"Nós temos ainda temos a identificação?" Kate perguntou.

"Sim", disse Pritchard. “Jack Tucker. O documento em sua carteira diz que sua residência está na cidade de Ashton. O que, para mim, era uma conexão ainda mais forte com o caso Nobilini”.



"Você está familiarizado com Ashton, detetive?" Kate perguntou.

"Não muito. Já passei por lá algumas vezes, mas não é o meu tipo de lugar. Perfeitinho demais, muito singular e repugnantemente encantador.



Ela sabia o que ele queria dizer. Ela não podia deixar de imaginar como ele se sentiria, tendo que voltar para Ashton.



“Quando o corpo foi descoberto?” Perguntou DeMarco.



“Quatro e meia da tarde. Cheguei em cena às quinze para as cinco e fiz todas essas conexões. Eu tive que implorar para eles não moverem o corpo até vocês chegarem aqui. Eu acho que você precisa ver a cena, corpo e tudo mais.”



“Eu aposto que isso fez você ficar popular”, Kate comentou.

“Ah, eu estou acostumado com isso. Eu gostaria de estar brincando quando lhe digo que muitos policiais por aqui me chamam de Cold Case Pritchard.”



“Bem, acho que neste caso, você fez a ligação certa”, disse Kate. “Mesmo se não estiver conectado, ainda há alguém por aí que atirou neste homem, alguém que precisamos encontrar apenas no caso de não ser um incidente isolado.”



"Sim, não tenho ideia do meu fim", disse Pritchard. "Eu tenho alguns áudios com minhas observações, se você quiser ouvi-los."



“Isso poderia ser útil. Presumo que a perícia já tenha tirado fotos, certo?”

“Sim. As digitais provavelmente já estão disponíveis.”



Com isso, Kate se levantou, os olhos ainda estavam no corpo de Jack Tucker. Sua cabeça estava inclinada para a direita, como se ele estivesse olhando ansiosamente para os fones de ouvido que haviam sido cuidadosamente colocados ao seu lado.



“A família foi notificada?” Perguntou DeMarco.



"Não. E temo que porque pedi ao detetive para adiar a movimentação do corpo e o andamento do caso, eles vão me incumbir disso.”



"Se é tudo a mesma coisa, eu prefiro fazer isso", disse Kate. "Quanto menos canais com detalhes estiverem sendo processados, melhor."



"Se é o que você quer."



Kate finalmente desviou o olhar do corpo de Jack Tucker e depois o direcionou para a entrada do beco onde os dois policiais estavam se reunindo com o policial que havia levantado a fita. Ela já havia divulgado notícias devastadoras mais vezes do que gostaria e nunca foi uma tarefa fácil. De fato, de alguma forma, parecia ficar cada vez mais difícil.



Mas ela também havia aprendido que, estranhamente, era nos espasmos agudos e agonizantes da tristeza que aqueles que sofriam a perda pareciam ser capazes de se lembrar do mais ínfimo dos detalhes.



Kate esperava que fosse verdade neste caso.

E se assim for, talvez uma nova viúva desavisada pudesse ajudá-la a encerrar um caso que a assombrou por quase uma década.




CAPÍTULO TRÊS


Ficava a apenas vinte minutos de carro do centro de Ashton. Eram 9:20 quando eles deixaram a cena do crime e o trânsito da noite de sexta-feira permaneceu parado e cansativo. Quando saíram da pior parte do tráfego e entraram na via expressa, Kate notou que DeMarco estava estranhamente quieto. Ela estava no banco do passageiro, olhando quase desafiadoramente pela janela para a paisagem urbana que passava.

"Você está bem aí?" Kate perguntou.



Sem se virar para Kate, DeMarco respondeu imediatamente, deixando claro que algo estava em sua mente desde que saiu da cena do crime.



"Eu sei que você está nisso há algum tempo e sabe das coisas, mas eu só dei uma notícia de morte de um familiar uma única vez. Eu odiei ter que fazer isso. Isso fez eu me sentir horrível. E eu realmente gostaria que você tivesse conversado comigo sobre isso antes de voluntariamente nos colocar nisso.”



"Eu sinto muito. Eu nem pensei nisso. Mas isso faz parte do trabalho em alguns casos. Correndo o risco de parecer fria, é melhor começar a se acostumar logo de cara. Além disso... Se estivermos cuidando do caso, qual é o objetivo de delegar essa tarefa miserável àquele pobre detetive?



"Ainda assim... Que tal avisar sobre coisas assim no futuro?"



O tom em sua voz era de raiva, algo que ela nunca tinha ouvido de DeMarco antes – não sendo direcionada para ela, de qualquer maneira. "Sim", ela disse, e deixou por isso mesmo.



Eles dirigiram o resto do caminho para Ashton em silêncio. Kate tinha trabalhado em muitos casos em que ela teve que dar a notícia de uma morte para saber que qualquer tensão entre os parceiros tornaria o problema muito pior. Mas ela também sabia que DeMarco não era do tipo que ouviria as lições que ela tinha para dar quando estivesse chateada. Então talvez essa lição, Kate pensou, fosse algo que pudesse simplesmente ser aprendido na prática, vivendo.



Eles chegaram na residência de Tucker às 9:42. Kate não ficou nem um pouco surpresa ao ver que a luz da varanda, assim como quase todas as outras luzes da casa, estava acesa. Pela aparência da roupa de Jack Tucker, ele havia saído para uma corrida matinal. O fato de seu corpo estar na cidade, no entanto, gerava muitos questionamentos. Todas essas perguntas presumivelmente deixavam sua esposa bastante preocupada.



Uma esposa preocupada que está prestes a descobrir que agora é viúva, pensou Kate. Meu Deus, espero que eles não tenham filhos.

Kate estacionou na frente da casa e saiu do carro. DeMarco seguiu-a, só que mais devagar, como se quisesse deixar Kate saber que ela não estava nada feliz com esse detalhe em particular. Elas subiram a laje em direção aos degraus e Kate viu a porta da frente se abrir antes mesmo de chegarem à varanda.



A mulher na porta as viu e congelou. Parecia que ela estava lutando para chegar nas palavras que ela queria falar. No final, tudo o que ela conseguiu dizer foi: "Quem são vocês?"



Kate lentamente enfiou a mão no bolso do paletó para pegar seu distintivo. Antes que ela pudesse mostrar ou dar o nome dela, a esposa já sabia. Seus olhos mostraram seu sentimento e o modo como seu rosto lentamente demonstrou desesperança. E quando Kate e DeMarco finalmente chegaram aos degraus da varanda, a esposa de Jack Tucker ficou de joelhos na porta e começou a chorar.

***



Como se viu, os Tuckers tinham filhos. Três, na verdade, com sete, dez e treze anos. Todos ainda estavam acordados, esperando na sala de estar, enquanto Kate fazia o possível para conversar com a esposa - Missy, ela conseguiu se apresentar através entre gemidos e soluços - entrou e sentou-se. A menina de 13 anos veio correndo para o lado de sua mãe, enquanto isso DeMarco fazia o possível para afastar os outros enquanto a mãe das crianças aceitava a notícia devastadora que acabava de receber.



De certa forma, Kate percebeu que talvez tivesse se precipitado com DeMarco. Os primeiros vinte minutos que ela passou na casa dos Tucker naquela noite foram angustiantes. Ela só conseguiu se lembrar de um único momento de sua carreira em que passou por algo tão doloroso. Ela olhava para DeMarco, tanto durante quanto depois de tentar conter as crianças, e viu o desafio e a raiva ali presentes. Kate achou que isso poderia ser algo que DeMarco mantinha em segredo contra ela há um longo tempo.



Em algum lugar no meio de tudo isso, Missy Tucker percebeu que ela teria que encontrar alguém para ficar com seus filhos se ela quisesse tentar ajudar Kate e DeMarco. Subitamente, através de um lampejo, ela ligou para o seu cunhado, tendo que dar a notícia para ele também. Eles também moraram em Ashton e a esposa dele partiu quase imediatamente para ficar com as crianças.



Em um esforço para dar a Missy e às crianças Tucker alguma privacidade para lidar com sua dor, Kate conseguiu a permissão de Missy para olhar ao redor da casa e procurar por quaisquer sinais do que poderia ter ocorrido para que alguém pudesse desejar assassinar o seu marido. Elas começaram no quarto principal, vasculhando os criados-mudos dos Tuckers e itens particulares. Todo o procedimento feito ao som de uma família soluçando no andar de baixo.



"Que droga", disse DeMarco.

“Sim. Sinto muito, DeMarco. De verdade. Eu apenas pensei que seria mais fácil para todos os envolvidos.”



"É isso mesmo?" DeMarco perguntou. "Eu sei que ainda não a conheço tão bem, mas uma das coisas que eu sei a seu respeito é que você tem uma tendência de se esforçar para dar o seu melhor. E é por isso que você não consegue realizar a simples tarefa de equilibrar seu tempo de trabalho na agência com o tempo para a sua família."



"Como é?" Kate perguntou, sentindo um surto de raiva.

DeMarco deu de ombros. "Desculpa. Mas é verdade. Policiais locais poderiam ter feito isso e provavelmente já estaríamos em outro lugar, investigando esse caso.”



"Sem testemunhas, a esposa é a melhor aposta", disse Kate. “Acontece que ela também está tendo que lidar com a morte do marido. É uma droga para todos os envolvidos. Mas você tem que superar seu próprio desconforto. No geral, quem está mais desconfortável agora? Você ou a viúva recém-avisada lá embaixo?



Kate não estava ciente de seu tom alto e irritado até que as últimas palavras saíram de sua boca. DeMarco a encarou por um momento antes de sacudir a cabeça como uma adolescente mimada sem refutação e saiu do cômodo.



Quando Kate também saiu da sala, ela viu que DeMarco estava olhando para um escritório e biblioteca no final do corredor. Kate a deixou, optando por ir para fora procurar por pistas. Ela não esperava encontrar nada enquanto contornava a casa, mas sabia que seria irresponsável não passar por essa parte rotineira.



De volta para dentro, ela viu que o irmão e a esposa de Jack Tucker tinham vindo. O irmão e Missy estavam em um abraço trêmulo enquanto a esposa dele se ajoelhava junto às crianças e lhes dava um abraço também. Kate viu que a garota de treze anos de idade - uma garota que se parecia muito com seu pai - tinha um olhar vazio. Vendo isso, ela não culpou DeMarco por estar chateada com ela.



"Agente Wise?"



Kate virou-se quando estava prestes a voltar a subir as escadas e viu Missy descendo o corredor em direção a ela. "Sim?"



“Se vamos conversar, vamos fazer isso agora. Eu não sei por quanto tempo eu posso aguentar.” Ela já estava começando a soltar pequenos gemidos e choramingar novamente. Sendo que a notícia da morte do marido tinha apenas uma hora, Kate a admirava por sua força.



Missy não disse mais nada, mas subiu as escadas com um rápido olhar para a sala onde seus filhos e parentes estavam reunidos. DeMarco se juntou a eles de onde estava verificando o armário de remédios no banheiro do andar de cima e os três entraram no quarto principal - o quarto que Kate e DeMarco já haviam verificado.



Missy sentou-se na beira da cama como uma mulher acordando de um sonho muito ruim, apenas para perceber que o sonho ainda estava acontecendo.

"Você me perguntou mais cedo por que ele estava em Nova York", disse ela. “Jack trabalhou como contador sênior de uma grande empresa - Adler e Johnson. Eles trabalham dia e noite nesta grande reforma de uma empresa de desativação nuclear na Carolina do Sul. Nas últimas noites, ele está ficando na cidade. ”



"Você estava esperando ele de volta esta noite ou você estava pensando que ele iria ficar em um hotel?" DeMarco perguntou.



Falei com ele às sete da manhã, antes de partir para a corrida matinal. Ele disse que não só planejava estar em casa hoje, mas provavelmente bem cedo - talvez às quatro.

“Eu suponho que você começou a tentar ligar ou mandar mensagens para ele em um certo momento, quando percebeu que estava atrasado?” Kate perguntou.



“Sim, depois das sete. Quando trabalham, o tempo fica em segundo plano.”



"Sra. Tucker, o FBI foi chamado no assassinato do seu marido porque a situação reflete os detalhes e as circunstâncias de um caso de oito anos atrás. A vítima era outro homem que morava aqui em Ashton, também morto em Nova York - explicou Kate. “Não há provas concretas para confirmar isso, mas estamos perto o suficiente para despertar a atenção do escritório. Então é muito importante que você tente pensar em qualquer pessoa com quem seu marido tenha uma inimizade. ”



Kate poderia dizer que Missy estava mais uma vez lutando contra as lágrimas. Ela engoliu a necessidade de deixar sair a dor, tentando passar por isso.

"Eu não consigo pensar em ninguém. Eu não estou apenas dizendo isso porque eu amo o aquele homem, mas ele era extremamente gentil. Fora alguns pequenos desentendimentos no trabalho, eu não acho que ele tenha tido uma única discussão acalorada em toda a sua vida. ”



“E os amigos íntimos?” Kate perguntou. "Há algum amigo, homens em particular, que ele anda por aí com quem possa ter demonstrado um outro lado dele?"

"Bem, ele agiu de um maneira meio infantil com este grupo de amigos no iate clube, mas eu não acho que eles o descreveriam como alguém ruim."



"Você tem os nomes de alguns desses amigos com os quais poderíamos conversar?", Perguntou DeMarco.

"Sim. Ele tinha esse principal... Ele e três outros caras. Eles se reúnem no iate clube ou ficam no bar de tabacaria e assistem esportes. Futebol americano, principalmente.”



"Por acaso você sabe se algum deles têm pessoas que podem considerar inimigos?", Perguntou DeMarco. “Mesmo ex-esposas ciumentas ou membros da família afastados?”

“Eu não sei. Eu não os conheço muito bem e...”



O som de soluços incontroláveis do andar de baixo a interrompeu. Missy olhou na direção da porta do quarto com uma careta que fez o coração de Kate doer.

“Esse é Dylan, nosso filho do meio. Ele e o pai dele eram...

Ela parou aqui, seu lábio tremia enquanto tentava não desmoronar.



"Tudo bem, Sra. Tucker", disse DeMarco. “Vá ver seus filhos. Temos o suficiente para começar. ”

Missy se levantou rapidamente e correu para a porta, já começando a chorar. DeMarco seguiu-a lentamente, lançando um olhar irritado para Kate. Kate ficou no quarto por mais um momento, controlando suas próprias emoções. Não, essa parte do trabalho nunca fica mais fácil.



E o fato de eles terem recebido muito pouca informação da visita tornou a situação ainda pior. Ela finalmente voltou para o corredor, entendendo por que DeMarco estava brava com ela. Inferno, ela estava um pouco irritada consigo mesma.



Kate desceu as escadas e saiu pela porta. Ela viu que DeMarco já estava entrando no carro, enxugando as lágrimas dos olhos. Kate fechou a porta suavemente atrás dela, a tristeza e o choro da família Tucker a empurrando mais e mais fundo para um caso que já parecia perdido.




CAPÍTULO QUATRO


Às nove horas da manhã seguinte, a notícia do assassinato de Jack Tucker começou a se espalhar pela cidade de Ashton. Foi a principal razão pela qual houve tanta facilidade para Kate e DeMarco entrassem em contato com os amigos de Jack - os nomes e números que Missy lhes deu na noite anterior. Não só seus amigos ouviram as notícias, como começaram a bolar planos de como ajudar Missy e as crianças enquanto lidavam com a perda.



Depois de alguns telefonemas rápidos, Kate e DeMarco marcaram uma reunião com três amigos de Jack no iate clube. Era um sábado, então o lugar já estava começando a encher, mesmo às nove da manhã. O clube estava localizado ao longo de Long Island Sound e tinha o que Kate considerava ser, provavelmente, a melhor vista da região, sem todo aquele pretensioso tráfego de barcos atrapalhando.



O clube em si era um edifício de dois andares que parecia quase colonial em estilo, com um toque moderno, particularmente na parte exterior e no paisagismo. Kate foi recebida por um homem que já estava de pé na porta. Ele estava vestido com uma camisa simples de botão e uma calça cáqui - provavelmente um traje comum de fim de semana para alguém que pertence a um iate clube como aquele.



"Agente Wise?" Perguntou o homem.

"Sou eu. E essa é minha parceira, a Agente DeMarco.



DeMarco apenas balançou a cabeça, sua raiva e amargura da noite anterior ainda estavam muito presentes. Quando elas se separaram no hotel ontem à noite, DeMarco não disse mais do que um cumprimento. Ela havia conseguido um simples "bom dia" durante o rápido café da manhã, mas isso foi há muito tempo.



"Eu sou James Cortez", disse o homem. “Falei com você ao telefone esta manhã. Os outros caras estão na varanda, prontos e esperando enquanto tomam café.



Ele as conduziu através do clube, com seus tetos altos e ambiente aconchegante absolutamente encantador. Kate imaginou quanto custaria ser membro por um ano. Fora de sua condição financeira, com certeza. Quando saíram para a varanda que dava para Long Island Sound, ela teve certeza disso. Era lindo, a vista dava diretamente para a água com aquela arquitetura de contornos altos e a neblina da cidade do outro lado.



Havia dois outros homens sentados em uma pequena mesa de madeira que continha um grande prato de doces e bagels, assim como uma jarra de café. Os dois homens olharam para as agentes e se levantaram para cumprimentá-las. Um dos homens parecia um tanto jovem, com menos de trinta anos, enquanto James Cortez e o outro homem tinham facilmente quarenta e poucos anos.

"Duncan Ertz", o homem mais jovem disse, estendendo a mão.



Tanto Kate quanto DeMarco apertaram as mãos dos homens enquanto faziam uma rápida rodada de apresentações. O homem mais velho era Paul Wickers, recém-aposentado de seu emprego como corretor de ações e mais do que disposto a falar sobre isso, já que foi a segunda coisa que saiu de sua boca.



Kate e DeMarco sentaram-se à mesa. Kate pegou uma das xícaras de café vazias e encheu-a, preparando-o com o açúcar e o creme que estavam no prato de bolos de café da manhã.

"Dói pensar na pobre Missy e aquelas crianças", disse Duncan, mordendo um dinamarquês.



Kate recordou o trauma da noite passada e sentiu que precisava falar com a pobre mulher. Ela olhou para a mesa de DeMarco e se perguntou se precisava falar com ela também. Olhando de fora a situação, Kate estava começando a entender que talvez DeMarco estivesse tão irritada por causa de algo do passado - algo que ela ainda não havia superado.



“Bem,” disse Kate, “Missy mencionou especificamente seus colegas como os mais próximos de Jack fora de sua família. Eu espero obter algumas informações sobre o tipo de homem que ele era fora de casa e do trabalho.”



"Bem, pois é", disse James Cortez. “Pelo que sei, Jack era o mesmo homem, não importava onde ele estivesse. Uma alma gentil que sempre quis ajudar os outros. Se ele tinha alguma falha, eu diria que era estar envolvido demais com o trabalho.”



"Ele sempre contava piadas", disse Duncan. "Elas não eram engraçadas na maior parte das vezes, mas ele adorava contá-las."



"Com certeza", disse Paul.

"Não havia segredos?" Perguntou DeMarco. "Talvez um caso ou mesmo vontade de ter um caso?"

"Deus, não", disse Paul. “Jack Tucker era insanamente apaixonado por sua esposa. Eu me sentiria seguro dizendo que aquele homem amava tudo em sua vida. Sua esposa, filhos, trabalho, amigos...



"É por isso que não faz sentido", disse James. “Quero dizer isso da maneira mais respeitosa possível, mas do ponto de vista de um estranho, Jack era um cara bastante normal. Quase chato.”



“Sabem se ele pode ter alguma ligação com a vítima de um assassinato ocorrido oito anos atrás?” Perguntou Kate. "Um cara chamado Frank Nobilini, que também morava em Ashton e foi morto em Nova York."



"Frank Nobilini?" Duncan Ertz disse, balançando a cabeça.



"Sim", disse James. “Trabalhei para essa grande agência de publicidade que faz todos os trabalhos de tênis. A esposa dele era a Jennifer... A sua esposa provavelmente a conhece. Boa moça. Envolvida em projetos de embelezamento da comunidade e muito ativa na Associação de Pais e Mestres e coisas do tipo.”



Ertz encolheu os ombros. Aparentemente, ele era o novato do grupo e não sabia nada disso.

"Você acha que o assassinato de Jack está ligado ao de Nobilini?" Perguntou Paul.

"Ainda é muito cedo para saber isso", disse Kate. "Mas, dada a natureza do assassinato, temos que olhar para ele tendo isso como referência."



“Algum de vocês sabe nomes de pessoas com quem Jack trabalhou?” Perguntou DeMarco.

"Há apenas duas pessoas", disse Paul. “Um deles é um cara chamado Luca. Ele mora na Suíça e vem três ou quatro vezes por ano. O outro é um cara local chamado Daiju Hiroto. Tenho certeza de que ele é o supervisor dos escritórios da Adler and Johnson em Nova York.”



“De acordo com Jack”, Duncan disse, “Daiju é o tipo de cara que praticamente mora no trabalho”.

"Era comum Jack ter que trabalhar nos fins de semana?" Kate perguntou.



"De vez em quando", disse James. “Ele tinha feito muita coisa ultimamente, na verdade. Eles estão no meio de um grande trabalho para ajudar a socorrer uma empresa de desmantelamento nuclear. Da última vez que falei com o Jack, ele disse que se resolvessem tudo a tempo, poderia haver muito dinheiro envolvido nisso.



"Eu aposto que você vai encontrar quase toda a equipe trabalhando hoje", disse Paul. "Eles podem ser capazes de lhe dizer algumas coisas que não sabemos."

DeMarco deslizou um de seus cartões de visita para James Cortez e depois pegou uma cereja dinamarquesa do prato na frente deles. "Por favor, ligue para nós se você lembrar de alguma outra coisa ao longo dos próximos dias."



E talvez seja discreto quanto ao caso de oito anos atrás - disse Kate. "A última coisa que queremos é que as pessoas que vivem em Ashton entrem num frenesi."

Paul assentiu, sentindo que ela estava falando diretamente com ele.

"Obrigado, senhores", disse Kate.



Ela tomou mais um longo gole de café e deixou os homens curtirem seus cafés da manhã quietamente. Ela olhou para a vista onde um veleiro estava vagarosamente saindo pela água, como se estivesse puxando o começo do fim de semana atrás dele.



"Vou checar o endereço do escritório de Jack Tucker em Adler and Johnson", disse DeMarco, puxando o celular. E mesmo nisso, seu tom era distante e frio.



Ela e eu vamos ter que resolver isso antes que fique fora de controle, pensou Kate. Claro, ela é durona, mas se eu tiver que colocá-la em seu lugar, não hesitarei.



***



Os escritórios da Adler and Johnson estavam localizados em um dos prédios mais glamourosos de Manhattan. Eles estavam localizados no primeiro e segundo andares de um prédio que também continha um escritório de advocacia, um desenvolvedor de aplicativos para celulares e uma pequena agência literária.



Acontece que Paul Wickers estava certo; a maior parte da equipe com quem Jack Tucker trabalhava estava no escritório. O espaço de trabalho cheirava a café forte e, embora houvesse muita ocupação entre as oito pessoas que trabalhavam, havia também um clima sombrio.



Daiju Hiroto se encontrou com elas imediatamente, escoltando-as para o seu grande escritório. Ele parecia um homem atormentado - talvez entre sua necessidade de concluir esse enorme projeto na hora e a reação humana à morte de um colega de trabalho e amigo.



"Eu recebi a notícia esta manhã," disse Hiroto por trás de sua grande mesa. “Eu estava no trabalho desde seis da manhã e uma de nossas funcionárias - Katie Mayer - chegou com a notícia. Havia quinze de nós aqui na hora e eu dei a eles a opção de folgar no fim de semana. Seis pessoas acharam melhor sair para prestar suas condolências.”



"Se você não tivesse essa equipe para supervisionar, você teria feito o mesmo?" Kate perguntou.

"Não. É uma resposta egoísta, mas esse trabalho precisa ser feito. Temos duas semanas para terminar tudo e estamos um pouco atrasados. E mais de cinquenta empregos estão em risco se não conseguirmos terminar.”



“Da sua equipe, quem você acha que conheceria melhor Jack?” Perguntou Kate.

“Provavelmente eu. Jack e eu trabalhamos juntos em vários grandes trabalhos nos últimos dez anos. Nós viajamos por todo o mundo juntos, viramos noites e fomos a reuniões que o resto da equipe desconhece.”



"Mas você disse que alguém soube da morte dele primeiro?" Perguntou DeMarco.

“Sim, Katie. Ela mora em Ashton e é bastante amiga da esposa de Jack.”



Kate queria dizer algo sobre como parecia um pouco ofensivo que Hiroto não folgasse aquele dia, assim como os outros que haviam ficado obedientemente, para que pudessem prestar condolências e sofrer o luto da situação. Mas ela conhecia os demônios que, às vezes, deixam humanos possuídos por seu trabalho e sabia que não era sua tarefa fazer tal julgamento.



"Em todo esse tempo com Jack, você soube de segredos dele?" DeMarco perguntou.

“Não me lembro de nenhum. E se ele tinha algum, eu aparentemente não seria alguém para quem ele quisesse contar. Mas cá entre nós, acho muito difícil acreditar que Jack tenha uma vida secreta. Ele andava na linha, sabe? Um cara legal. Certinho.



"Então, você não consegue pensar em alguma razão para alguém querer matá-lo?" Kate perguntou.

"Não. Isso é insano.” Ele parou aqui e olhou através das paredes de vidro de seu escritório e para o resto de sua equipe. “E foi aqui na cidade?” Ele perguntou.

“Foi. Você não ligou para ele quando percebeu que ele não tinha vindo?”



“Ah, liguei. Várias vezes. Quando ele não respondeu ao meio-dia, eu deixei pra lá. Jack sempre foi muito perspicaz, muito inteligente. Se ele precisasse de algumas horas, o que ele fazia de vez em quando, eu deixava.

"Sr. Hiroto, você se importaria se falássemos com alguns dos outros lá fora?” Kate perguntou, apontando para o outro lado das paredes de vidro.



“Claro que não. Fique à vontade."

"E você poderia passar os contato daqueles que decidiram ir embora?" DeMarco perguntou.

"Certamente."



Kate e DeMarco se aventuraram pelo espaço de trabalho com mesas grandes e café. Mas, mesmo antes de falar com uma única pessoa, Kate teve uma boa impressão de que elas conseguiriam mais do mesmo. Normalmente, quando mais de uma pessoa descrevia alguém como sendo muito simples e sem complicações, isso geralmente se revelava verdadeiro.



Em quinze minutos, elas haviam conversado com os outros oito funcionários que estavam no escritório. Kate estava certa; todo mundo descreveu Jack como doce, gentil, não como um cara problemático. E pela segunda vez naquela manhã, alguém se referiu a Jack Tucker como chato - mas de uma maneira boa e não ofensiva.



Na parte de trás de sua cabeça, Kate sentiu algo se mexer, alguma lembrança ou dizer que ouvira em algum lugar ao longo das estradas de sua vida. Algo sobre cuidar de uma esposa ou cônjuge entediada - como o tédio poderia fazer as pessoas se sentirem desconcertadas. Mas ela evitou o pensamento.



Depois de passar pelo escritório de Hiroto uma última vez para pegar uma lista das pessoas que haviam decidido deixar o trabalho, Kate e DeMarco voltaram para a linda manhã de Nova York naquele sábado. Pensou na pobre Missy Tucker, sentada sob o peso desse lindo dia, tentando se adaptar a uma vida que, por algum tempo, poderia não parecer tão bonita.



***



Passaram o resto da manhã visitando os que decidiram deixar o trabalho. Elas encontraram muitas lágrimas e alguns ficaram furiosos por saber que um homem tão inocente e gentil quanto Jack Tucker teria sido assassinado. Era exatamente o mesmo que falar com os outros no escritório, só que não tão sufocante.



Elas falaram com a última pessoa - um homem chamado Jerry Craft - logo após a hora do almoço. Elas chegaram em sua casa assim que Jerry estava entrando em seu carro. Kate estacionou atrás dele em sua garagem, ganhando um olhar irritado. Ela saiu do carro quando Jerry Craft se aproximou. Seus olhos estavam vermelhos e ele parecia bastante melancólico.



"Desculpe incomodá-lo", disse Kate, mostrando seu distintivo. DeMarco se aproximou e fez o mesmo. “Somos Agentes Wise e DeMarco, FBI. Você tem tempo para falar conosco sobre Jack Tucker?”

A irritação rapidamente saiu do rosto de Jerry e ele assentiu e se apoiou na traseira do carro.



"Eu não sei o que eu poderia fazer por vocês, tenho certeza de que você já ouviu todos os outros. Eu suponho que você falou com o Sr. Hiroto e todos os outros no escritório?”

"Ouvimos", disse Kate. "Estamos falando agora com os que saíram hoje, pois parece que eles tinham uma conexão mais próxima com o Jack."



"Eu não sei se isso é necessariamente verdade", disse Jerry. “Havia apenas alguns de nós que realmente saíam fora do trabalho. E Jack geralmente não estava entre eles. Alguns deles provavelmente aceitaram a proposta de Hiroto apenas para ter um dia de folga.”

"Alguma ideia de por que Jack não gostava de sair depois do horário de trabalho?" DeMarco perguntou.



"Não há razão, eu acho. Jack era caseiro, sabe? Ele preferia estar em casa com sua esposa e filhos em seu tempo livre. O trabalho o fez trabalhar por loucas horas - não fazia sentido ficar em um bar com aquelas mesmas pessoas com quem você acabou de sair do trabalho. Ele amava sua família, sabe? Sempre fazia coisas extravagantes para os aniversários em família. Sempre falando com seus filhos no trabalho.”



"Então você também acha que ele teve a vida perfeita?" Kate perguntou.

“Parecia assim. Embora duvide que algum de nós possa ter uma vida perfeita. Quero dizer, até Jack teve um pouco de tensão no relacionamento com a mãe pelo que sei. Mas quem nunca teve?”



"Como assim?"



“Nada demais. Houve um dia de trabalho em que o ouvi conversando com sua esposa ao telefone. Ele estava na escada para ter privacidade, mas eu estava usando uma das estações de trabalho mais antigas perto da porta da escada. Foi a única vez que o ouvi falando com sua esposa em um tom que não era de felicidade. ”



“E era uma conversa sobre a mãe dele?” Kate perguntou.

"Com certeza. Eu meio que o provoquei quando ele voltou, mas ele não estava brincando. ”

"Você sabe alguma coisa sobre os pais dele?" Kate perguntou.

"Não. Como eu disse, Jack era um cara legal, mas eu realmente não o chamaria de amigo.

"Para onde você está indo agora?" DeMarco perguntou.



“Eu ia pegar algumas flores e deixá-las na casa da família. Eu conheci sua esposa e filhos. Nos encontramos algumas vezes em festas de Natal e churrascos da empresa, coisas assim. Uma ótima família. É uma pena o que aconteceu. Me deixa um chateado, sabe?



"Bem, nós não vamos segurá-lo por mais tempo," disse Kate. "Obrigada, senhor Craft."



De volta ao carro, Kate saiu da garagem de Jerry e disse: "Você quer pegar as informações da mãe de Jack?"



"Sim", DeMarco disse um pouco friamente.

Kate novamente se encontrou lutando para ficar quieta. Se DeMarco queria esticar sua pequena irritação sobre os eventos da noite anterior, isso era uma escolha dela. Kate com certeza não deixaria isso afetar seu progresso neste caso.



Ao mesmo tempo, ela também se viu tendo que morder um sorriso irônico. Ela passou tanto tempo lutando para saber se sua nova posição a estava mantendo longe de sua família, mas aqui estava ela, trabalhando com uma mulher que a lembrava tanto de Melissa que, às vezes, era assustador. Pensou em Melissa e Michelle enquanto DeMarco se aproximava dos departamentos do escritório, procurando informações sobre a mãe de Jack Tucker.



Ela pensou em como Melissa se comportou e agiu na primeira vez que ela, Kate, ficou tão encantada com o caso Nobilini. Isso foi há oito anos; Melissa tinha vinte e um anos, ainda ligeiramente rebelde e praticamente contra qualquer coisa que sua mãe desejasse que ela fizesse. Houve um período em que Melissa tentou colorir seu cabelo de roxo.



Na verdade, ficou muito bom, mas Kate nunca conseguira dizer isso em voz alta. Tinha sido um período difícil em suas vidas, mesmo quando Michael, seu marido, ainda estava vivo e ali para ajudá-la a cuidar dos filhos, já que Melissa havia ficado mais velha.



"Isso é interessante", disse DeMarco, tirando Kate de sua viagem pela estrada da memória. Ela estava baixando o telefone e olhando para a frente com um pequeno brilho animado em seus olhos.

"O que é interessante?" Kate perguntou.



“A mãe de Jack é Olivia Tucker. Sessenta e seis anos de idade, mora no Queens. Um registro criminal completamente limpo, mas com um detalhe.”



"Qual detalhe?"



“Policiais ligaram para ela dois anos atrás. A ligação foi a pedido de Missy Tucker, na mesma noite em que Olivia Tucker estava tentando entrar na casa deles.”



Compartilharam um olhar e, dentro dela, Kate pôde sentir que parte daquela tensão começou a se dissipar. As boas lideranças, afinal de contas, tendiam a aproximar até mesmo parceiros mais afastados.



Sentindo-se como se estivesse finalmente chegando a algum lugar, Kate virou o carro e se dirigiu para Queens.




CAPÍTULO CINCO


Olivia Tucker morava em um apartamento comum e básico em Jackson Heights. Quando Kate e DeMarco chegaram, ela estava sendo visitada por um evangelizador local. Foi o evangelizador que atendeu a porta, um negro alto que parecia muito sombrio e triste. Ele olhou para as agentes ceticamente e suavemente suspirou.



"Posso ajudar vocês, senhoras?"

"Precisamos falar com a Sra. Tucker", disse DeMarco. "Quem é você?"

"Eu sou Leland Toombs, o pastor da igreja dela. E quem é você?"



Elas passaram pela rotina habitual de mostrar suas identidades e se apresentar. Toombs deu um passo hesitante para trás e olhou para elas com desaprovação.

"Você entende que ela está em um estado muito angustiado, certo?"

"Claro", disse Kate. "Estamos tentando encontrar o assassino de seu filho e esperamos que ela possa dar alguma luz para nos ajudar."



"Quem é?" Uma voz trêmula perguntou de outro lugar no apartamento. Uma mulher apareceu em outro cômodo e foi para a porta.

"É o FBI", Leland disse a ela. "Mas Olivia, eu sugiro que você pense um pouco para ver se está pronta para falar com elas."



Olivia Tucker veio até a porta, parecendo absolutamente confusa. Seus olhos estavam vermelhos e parecia que ela estava tendo problemas para andar. Ela olhou para Kate e DeMarco e depois colocou uma mão reconfortante no ombro de Toombs.



"Sim, eu acho que preciso," disse ela. "Pastor Toombs, você me daria um momento a sós?"

"Eu acho que talvez eu deva ficar aqui enquanto elas falam com você."

Ela balançou a cabeça. “Não. Eu agradeço, mas preciso fazer essa parte sozinha.”

Toombs franziu a testa e depois olhou para Kate e DeMarco. "Por favor, sejam gentis. Ela não está bem.” Ele então deu a Olivia uma última olhada e saiu pela porta, falando por cima do ombro, “Por favor, me ligue se precisar de alguma coisa, Olivia.”



Olivia observou-o ir e então fechou devagar a porta. "Por favor, venham para a sala de estar."

Sua voz era suave e áspera e ela andava como se suas pernas não tivessem certeza do que estavam fazendo.



"Vocês sabiam", ela disse enquanto entravam na sala de estar, "que os policiais me ligaram e me disseram o que tinha acontecido seis horas depois que o corpo dele foi encontrado?"

"Por que tanto tempo?" Kate perguntou.



Suponho que eles acharam que Missy ligaria e me contaria. Eles disseram a ela primeiro, claro. Mas foi mais tarde, depois que Missy se recusou a acreditar naquilo, que a polícia finalmente ligou.

"Tem certeza que ela se recusou?" DeMarco perguntou. "Dada a natureza do que aconteceu, você acha que ela simplesmente esqueceu?"



Olivia encolheu os ombros, mas não para demonstrar que não sabia nada a respeito. Aquilo parecia mais um “não me importo”.

"Você quer me dizer que você acha que Missy teria feito algo assim de propósito?" Kate perguntou.



"Honestamente, eu simplesmente não sei. A mulher é vingativa como o inferno. Eu não duvidaria. Ela provavelmente esqueceu, então ela não teria que falar comigo ou, Deus me livre, me ver.

"Quer nos dizer por que você parece não gostar dela?" DeMarco perguntou.



“Ah, eu nunca gostei dela, na verdade. Ela era bastante encantadora no começo, quando estava tentando ganhar minha simpatia. Mas no momento em que Jack colocou o anel de noivado em seu dedo, ela se tornou outra pessoa. Controlando. Manipulando. Ela nunca gostou da vida simples que tem. Ela pode ter amado Jack de alguma forma doentia - eu não duvido disso. Mas ela nunca o admirou.



"Você pode falar sobre isso um pouco mais?" Kate perguntou.



“Ela estava sempre querendo outras coisas - querendo mais. E ela nem disfarçava isso. Tudo o que ela tinha, não importava o que fosse - crianças, marido rico, casa bonita, o nome dele - nunca era suficiente. Nada que o Jack fez foi bom o suficiente para ela.



Kate notou o olhar de veneno absoluto no rosto de Olivia enquanto falava. Ela acreditava em cada palavra que estava dizendo. Mas pelo pouco tempo que Kate passou com Missy Tucker, achava difícil acreditar em tudo aquilo.



"Você sabe se Jack percebia isso nela?"

"Meu Deus, não. Ele estava tão cego por ela. Por ela e sua falsidade.

"Então, você descartaria confortavelmente a ideia de ele estar envolvido em um caso com outra pessoa?"



Seu olhar de choque foi toda a resposta que Kate precisava. Mas Olivia tinha algumas palavras bem escolhidas também. “Considerando o que eu passei nas últimas horas, como você se atreve a fazer uma pergunta tão estúpida? Você está experimentando ser insensível e rude comigo?”



“Só perguntei porque isso nos daria, pelo menos, algum lugar para começar a procurar. Se ele estivesse envolvido em algo assim, isso nos daria uma série de pistas para prosseguir. Porque, francamente, a partir de agora, não temos testemunhas nem suspeitos.”

“Suspeitos? Querida, eu já te disse quem fez isso. Foi a cruel esposa dele.”



Kate e DeMarco trocaram um olhar desconfortável. Quer a afirmação de Oliva Tucker fosse verdadeira ou não, este caso ficaria bastante embaraçoso até chegar ao fim.

Kate deixou o comentário pairar no ar por um momento antes de continuar. Quando ela fez isso, teve a certeza de que deveria usar suas palavras cuidadosamente, escolhendo cada uma com intencionalidade.



“Tem certeza de que quer fazer uma declaração tão ousada?” - perguntou Kate. "Se você está falando sério, eu tenho que considerar isso como uma pista e começar a perseguir Missy Tucker como uma suspeita em potencial."



"Você faz o seu trabalho do jeito que você quiser", disse Olivia. “Mas eu conheço essa mulher. Ela queria algo diferente. Ela queria sair, mas sem o risco de perder tudo. Agora você me diz uma maneira mais fácil de fazer isso do que matar o próprio marido.”



Ao longo de toda a sua carreira, Kate não conheceu alguém tão cego de ódio por outra pessoa - sogros, irmãos afastados, e assim por diante, ela já tinha visto tudo isso. Mas Olivia Tucker levou as coisas para um nível totalmente diferente.



“Eu tenho que ressaltar”, disse DeMarco, “muito tempo de nossa viagem por aqui foi gasto para saber o máximo possível sobre Jack e Missy. Embora não tenhamos relatórios completos ainda, ouvimos mais do que o suficiente para saber que não havia discórdia conjugal forte o suficiente para criar problemas judiciais.”



"Isso mesmo", disse Kate. “Além disso, não havia problemas financeiros, sem registro criminal, não há nada disso. Você, por outro lado, tem uma pequena passagem no seu registro. Quer me contar sobre a noite em que Missy teve que chamar a polícia porque você estava tentando entrar na casa deles?”



“Jack estava tendo dificuldades no trabalho. Ele teve um ataque de pânico. Liguei para saber sobre ele e conversar com meus netos, mas Missy não estava permitindo isso. Ela me disse que Jack era legal demais para dizer qualquer coisa para mãe, mas que eu fazia parte do motivo de seu ataque de pânico. Ela desligou quando liguei, então decidi ir para a casa deles. Ela me empurrou para fora da porta, recusando-se a me deixar entrar na casa. Depois disso... Bem, deixei meu temperamento tomar conta de mim e ela chamou a polícia.”



"Se precisarmos, vamos investigar isso," Kate disse: "Mas, honestamente, não há nada que tenhamos visto e nada nos registros para indicar que Missy teria algum motivo para matar seu marido. Não há motivos aparentes.

"Bem, se você está convencida disso, por que diabos você está aqui para falar comigo?"



"Honestamente?" DeMarco disse. "É porque seu nome surgiu. Um dos colegas de trabalho de Jack ouviu-o ter uma conversa acalorada com a esposa sobre você. Nós checamos seus registros apenas como um procedimento rotineiro e descobrimos sobre a ligação para a polícia.”



Olivia sorriu o tipo de sorriso frequentemente visto em vilões cansados em filmes. "Bem, então parece que você já tem sua opinião sobre mim."

“Esse não é o caso. Nós apenas-"

"Se vocês, senhoras, não se importarem, eu vou educadamente pedir para vocês saírem. Eu gostaria de poder passar pelo luto do meu filho do jeito certo.”



Kate sabia que o tempo deles com Olivia Tucker já tinha esgoto; se ela continuasse pressionando, a mulher não responderia. Além disso, ela era inútil para se obter mais informações - a menos que os sentimentos vis que ela tinha em relação à nora pudessem ser vistos como verdade. E Kate duvidou que houvesse alguma coisa real naquilo tudo.

"Obrigada", disse Kate. "E realmente sentimos muito pela sua perda."



Olivia assentiu, levantou-se e saiu do cômodo. "Eu tenho certeza que vocês se lembram onde a porta está", disse ela, antes de desaparecer em outro lugar dentro da casa.

Kate e DeMarco se despediram, sabendo que não estavam mais perto de uma pista concreta, mas ficaram completamente abaladas pela visão de Olivia Tucker sobre Missy.



"Você acha que há algum fragmento de verdade nisso?" Perguntou DeMarco. Ela parecia estar saindo de sua birra, aparentemente motivada pelo caso.



“Eu acho que nesse momento, enquanto ela procura respostas para o que aconteceu, ela acha que algumas delas são verdade. Eu acho que ela está juntando tralhas emocionais que teve ao longo dos anos e amplificando-as apenas para ter onde descontar sua culpa e sua raiva.”

DeMarco assentiu enquanto entravam no carro. "Seja o que for, foi repulsivo."



“E acho que isso a exclui de qualquer jogo sujo. Podemos ficar de olho em Missy, só para mantê-la segura. Talvez até mesmo deixar que a polícia local saiba como Olivia parece estar desequilibrada.

"E depois?"

“E então nos reagrupamos. Possivelmente, com um copo ou dois de vinho lá no hotel.”



Parecia uma boa ideia, mas Kate continuou a pensar em Missy Tucker e em como o mundo dela era agora como uma concha vazia. Kate se lembrava muito bem de como era perder o homem que você amava, o homem que conhecia você como um livro que ele lera milhões de vezes. Era comovente além das palavras e drenava a vida de qualquer pessoa.



Revisitar esse sentimento naquele momento, enquanto ela se dirigia para o hotel, deixou-a mais motivada do que nunca. Isso a fez voltar às suas lembranças para onde os detalhes do primeiro caso estavam, onde o caso Nobilini havia começado.



Sua mente tentou se agarrar a um nome - um nome que ela conhecia bem, mas que se desvanecera nas regiões mais profundas de sua memória. Era um nome que ela lembrou no início do dia, quando eles se encontraram com os amigos de Jack Tucker no clube de iate.



Cass Nobilini.

Você sabe que há respostas lá, pensou Kate.

Pode haver. E ela iria procurá-las.



Mas ela realmente esperava não ter que fazer isso. Ela esperava passar o resto de sua vida sem nunca mais ter que ver Cass Nobilini novamente. Mas ela também sabia que as chances eram muito pequenas, de fato. Este encontro aconteceria mais cedo ou mais tarde.




CAPÍTULO SEIS


Elas foram para o bar do hotel assim que a agitação para jantar começou a lotar o lugar. Enquanto a perspectiva de um copo de vinho era realmente promissora, Kate descobriu que estava um pouco mais animada com o hambúrguer que pediu. Normalmente, quando estava em um caso, ela de alguma forma se esquecia de almoçar, ficando faminta ao final do dia.



Quando ela afundou a boca no hambúrguer para dar a primeira mordida, ela viu DeMarco dando-lhe um pequeno sorriso. Foi seu primeiro sorriso autêntico do dia.



"O quê?" Kate perguntou com a boca cheia de hambúrguer.

"Nada", DeMarco disse, pegando sua salada de frango grelhado. "É reconfortante ver uma mulher do seu tamanho e idade comer desse jeito."

Engolindo a mordida, Kate assentiu e disse: "Eu fui agraciada com um incrível metabolismo."



"Ah, sua vaca."

"Vale a pena poder comer assim."

Um breve silêncio passou entre elas e foi quebrado por ambas rindo juntas. Foi bom poder baixar a guarda com DeMarco depois do tenso dia que elas compartilharam. DeMarco parecia sentir o mesmo, com base no que ela disse depois de beber sua taça de vinho.



“Desculpe por ter sido tão amarga o dia todo. Ter que dar notícias assim para uma família… É difícil. Quer dizer, eu sei que é difícil, mas é especialmente difícil para mim. Eu tive essa coisa que aconteceu no meu passado e que me abalou. Eu pensei que estava superado, mas aparentemente, não está.



"O que aconteceu?"



DeMarco levou um momento, talvez considerando se ela queria ou não se aprofundar na história. Com outro grande gole de vinho, ela decidiu ir em frente. Ela soltou um suspiro e começou.



“Eu sabia que era gay quando tinha 14 anos. Eu tive minha primeira namorada quando eu tinha dezesseis anos. Quando tinha dezessete, minha namorada Rose e eu - ela tinha dezenove - decidimos que iríamos em frente e sairíamos do armário. Nós duas tínhamos mantido aquilo em segredo, particularmente para os nossos pais. Então lá estávamos nós - prestes a dar a notícia. Eu deveria encontrá-la na casa dela e iríamos contar para seus pais, que devo acrescentar, achavam que Rose e eu éramos realmente só amigas.



Eu estava sempre na casa dela e vice-versa, sabe? Então, estava sentada no sofá dos pais dela quando recebo uma ligação. É da polícia, me dizendo que Rose havia sofrido um acidente de carro e que tinha morrido logo após o impacto. Eu fui chamada em vez de seus pais porque eles encontraram o celular dela e viram que eu ocupava cerca de noventa por cento do histórico de chamadas.



"Então eu desmoronei imediatamente e os pais dela estavam sentados lá, imaginando o que diabos havia acontecido - porque eu estava de repente em lágrimas, de joelhos no chão. E eu tive que dizer a eles. Tive que contar a eles o que o policial tinha acabado de me dizer. ” Ela fez uma pausa aqui, cutucou um pouco a salada e acrescentou: “Foi o pior momento da minha vida.”



Kate achou difícil olhar para DeMarco; ela estava contando a história não como uma parte emocional da vida dela, mas como se ela fosse um robô, recitando uma série de eventos. Ainda assim, foi mais do que suficiente para explicar a atitude de DeMarco na noite anterior, quando ela, Kate, se ofereceu para dar a má notícia à Missy Tucker.



"Se eu soubesse disso, você sabe, não teria proposto a ida até lá," disse Kate.

"Eu sei. E eu sabia. Mas minhas emoções estrangularam qualquer razão ou lógica. Sinceramente, eu só precisava sentar e processar isso por algum tempo. Desculpe-me, você sentiu o peso de tudo isso.

"Água debaixo da ponte," disse Kate.



“Você já fez muito isso em sua carreira? Notícias de última hora como essa?

"Ai, sim. E isso nunca é fácil. Torna-se mais fácil separar-se da situação, mas o ato em si nunca é fácil.”

A mesa caiu em silêncio novamente. O garçom veio e encheu sua taça de vinho, enquanto Kate continuava a devorar seu hambúrguer.



“Então, como está o seu homem?” DeMarco perguntou. “Allen, certo?”

“Ele está bem. Ele está prestes a se preocupar com o meu envolvimento no FBI. Ele prefere que eu pegue um trabalho de secretária. Ou aposente.

"Então está ficando sério, hein?"



“Parece que sim. E parte de mim está animada com isso. Mas há uma pequena parte de mim que diz que é uma perda de tempo. Ele e eu estamos rapidamente chegando aos sessenta. Começar um novo relacionamento nessa idade parece… Estranho, eu acho.” Sentindo que DeMarco insistiria no tópico se fosse autorizada a fazê-lo, Kate rapidamente redirecionou a conversa.



"E quanto a você? A vida amorosa engatou desde a última vez que tivemos essa conversa estranha?

DeMarco sacudiu a cabeça e sorriu. “Não, mas isso é por opção. Eu ainda estou curtindo a Terra dos Ficantes enquanto posso.”

"Isso faz você feliz?"



DeMarco parecia genuinamente chocada com a pergunta. “Até que faz. Eu não preciso das responsabilidades e requisitos que vêm com um relacionamento agora. ”

Kate riu. Ela nunca tinha ido à Terra dos Ficantes. Ela conheceu Michael na faculdade e se casou com ele um ano e meio depois. Foi o tipo de relação em que ela começou a entender que eles passariam a vida juntos assim que deram o primeiro beijo.



"Então, o que será o próximo passo neste caso?" DeMarco perguntou.

"Estou pensando em revisitar o caso inicial em vez de usá-lo apenas como referência. Gostaria de saber se há novas informações que possam ter surgido na família Nobilini. Mas… Assim como a sua história sobre a sua namorada ter sido morta enquanto você estava sentada no sofá dos pais dela, este não é um território fácil de ser revisitado.”



"Então, mais visitas e conversas difíceis amanhã?"

"Talvez. Eu ainda não tenho certeza."

"Há algo que valha a pena saber antes de eu entrar cegamente nisso?"

"Provavelmente. Mas confie em mim... Seria melhor guardarmos isso para a manhã. Entrar nisso agora só vai nos manter acordadas até tarde e ferrar meu sono.”

“Ah. Essas histórias.”

"Exatamente."



Elas terminaram seus copos de vinho e pagaram as contas. No caminho para os quartos, Kate pensou na história que DeMarco acabou de contar - daquele triste vislumbre de seu passado. Isso a fez perceber que ela sabia muito pouco sobre sua parceira. Se elas estivessem trabalhando em uma rotina normal, se vendo quase todos os dias, em vez de uma ou duas vezes em meses, isso certamente seria diferente. Isso a fez se perguntar se ela estava fazendo sua parte para realmente conhecer DeMarco.



Elas se separaram em seus quartos - Demarco estava do outro lado do corredor de Kate - e Kate sentiu a necessidade de dizer alguma coisa. Qualquer coisa, realmente, para deixá-la saber que ela apreciava a disposição de DeMarco para se abrir.

“Mais uma vez, peço desculpas pela noite passada. Estou me dando conta de que não te conheço bem o suficiente para tomar decisões assim para nós duas.”



"Tudo bem, realmente," disse DeMarco. "Eu deveria ter contado sobre isso ontem à noite."

“Precisamos focar em nos conhecermos melhor. Se estamos confiando uma na outra, arriscando nossas vidas, isso se faz necessário. Talvez fora do trabalho, algum dia.”



"Sim, isso seria bom." DeMarco fez uma pausa aqui quando abriu a porta. “Você disse que tinha um pensamento… Sobre o caso antigo. O caso Nobilini. Me avise se você precisar de alguém para trocar ideias.”

"Eu avisarei", disse Kate.



Com isso, elas entraram nos quartos, terminando o dia entre elas. Kate tirou os sapatos e foi diretamente para o laptop. Quando ela o ligou, imediatamente ligou para o diretor Duran. Como ela já esperava, ele não atendeu o telefone, mas a linha foi então redirecionada para a sua assistente de direção, uma mulher chamada Nancy Saunders.



Kate fez um pedido para que cópias digitais dos arquivos Nobilini fossem enviadas para o e-mail dela o mais rápido possível. Ela sabia que DeMarco havia trazido alguns, mas era apenas a visão geral do caso. Kate sentiu a necessidade de voltar à aridez do caso, até os detalhes mais sutis. Saunders se comprometeu a atender o seu pedido, deixando-a saber que as cópias seriam enviadas até nove horas da manhã seguinte.



Cass Nobilini, Kate pensou.

Ela pensou na mulher quase imediatamente, depois que Duran lhe contou sobre a possível conexão. Ela tinha pensado nela novamente quando ela ouviu os gemidos e gritos de Missy Tucker enquanto ela lamentava pelo seu marido assassinado, e novamente enquanto conversava com os amigos de Jack Tucker.



Cass Nobilini, a mãe de Frank Nobilini. A mulher que achou tudo aquilo um insulto e obscuramente impróprio para a mídia se agarrar ao caso do assassinato de seu filho só porque ele já havia trabalhado como consultor financeiro em estreita colaboração com alguns homens famosos no Congresso. Kate se achou boba por pensar que esse caso não a levaria de novo até Cass Nobilini.



Foi esse pensamento que permaneceu com ela pelo resto da noite, agarrando-se à frente de sua mente quando ela finalmente deitou na cama e adormeceu.



***



Ela ainda podia ver a cena do crime em sua cabeça. O desgaste da memória deixou-a um pouco desbotada e enferrujada, mas a nebulosidade desapareceu quando sonhou com isso. Em seus sonhos, tudo era tão claro quanto se estivesse assistindo televisão.



E ela viu isso naquela noite, conseguindo adormecer pouco depois das nove, mas se contraindo e gemendo levemente em seu sono enquanto a meia-noite se aproximava.



A cena: Frank Nobilini, morto no beco e ainda segurando suas chaves da BMW. O caso acabou por levá-la de volta à sua casa, uma casa de quatro quartos em Ashton. Ela começou na garagem, que cheirava suavemente a aparas de relva de um recente corte de grama. Ela sentiu como se estivesse em algum lugar assombrado, como se o espírito de Frank Nobilini estivesse em algum lugar, esperando por ela.



Talvez no espaço vazio onde seu BMW deveria estar, mas naquela época, estava estacionado a vários quarteirões de distância de onde seu corpo havia sido encontrado. A garagem estava fria e parecia uma tumba estranha. Era uma das poucas cenas de seu passado que sempre voltavam vividamente por motivos que ela nunca havia entendido.



Não havia pistas de qualquer tipo na casa, nenhum sinal de por que alguém poderia querer matá-lo. Alguém poderia pensar que talvez fosse por seu carro muito bom, mas as chaves estavam em sua mão. A casa estava limpa. Quase de maneira estranha. Nenhuma pista burocrática, nada digno de atenção nos cadernos de endereços ou no correio. Nada.



Em seu sonho, Kate estava ali no beco. Ela estava tocando a mancha ainda pegajosa de sangue no lado da parede da mesma forma experimental que uma criança toca uma gota de xarope na mesa da cozinha. Ela se virou e olhou para trás, querendo olhar para o beco, mas viu o interior da garagem dos Nobilinis.



Como se ela tivesse sido convidada para entrar, ela foi até a escada de madeira que levava à porta que a levaria para a cozinha. Ela então se moveu do modo que apenas os sonhos permitem, fluidamente, quase sendo projetada ao invés de movida por suas pernas.



Ela foi parar no banheiro, olhando para a grande banheira/chuveiro combo instalada na parede. Estava cheia de sangue. Algo estava se movendo sob a superfície, fazendo com que pequenas bolhas subissem até o topo do sangue. Se estourassem, enviariam minúsculas gotas contra a porcelana da parede.



Ela recuou, atravessando a porta do banheiro e entrando no corredor. Lá, Frank Nobilini estava andando em direção a ela. Atrás dele, sua esposa, Jennifer, simplesmente assistindo. Ela até deu a Kate um pequeno e inofensivo aceno enquanto seu falecido marido se balançava pelo corredor. Frank andava como um zumbi, devagar e com um andar exagerado.

"Tudo bem", alguém disse atrás dela.



Ela se virou e viu Cass Nobilini, a mãe de Frank, sentada no chão. Ela parecia cansada, derrotada... Como se estivesse esperando pela lâmina de um carrasco.



"Cass...?"

“Você nunca resolveria isso. Foi um problemão. Mas o tempo... Ele tem um jeito de mudar as coisas, não é?”



Kate voltou-se para Frank, ainda avançando. Quando ele chegou à porta do banheiro, Kate viu que parte do sangue saía da banheira e caía no chão, vazando para o corredor. Quando Frank entrou, fez um som de sucção molhada.



Frank Nobilini sorriu e levantou a mão para ela - meio decadente e todo manchado. Kate recuou lentamente, erguendo suas mãos até o rosto e soltou um grito.



Ela acordou, sentindo o grito alojado em sua garganta.

Essa maldita casa. Ela nunca tinha entendido por que isso a tinha agitado de tal maneira. Talvez por causa dos gritos e gemidos de Jennifer Nobilini, misturados com a casa perfeita... Tudo parecia surreal. Como algo saído de um filme de terror artístico.



Kate sentou-se e lentamente avançou até a beira da cama. Ela fez algumas respirações profundas e olhou para o relógio: 1:22. A única luz no aposento vinha dos números do despertador e do brilho fraco das luzes de segurança do lado de fora, mal iluminando as persianas fechadas.




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