A corda do Diabo 
Blake Pierce


Os Primórdios Riley Paige #3
Uma obra-prima de thriller e mistério! O autor fez um trabalho magnífico no desenvolvimento das personagens com um lado psicológico tão bem trabalhado que temos a sensação de estar dentro das suas mentes, sentindo os seus medos e aplaudindo os seus sucessos. A história é muito inteligente e mantém-nos interessados durante todo o livro. Pleno de reviravoltas, este livro obriga-nos a ficar acordados até à última página. Books and Movie Reviews, Roberto Mattos (re Sem Pistas) A CORDA DO DIABO (Os Primórdios de Riley Paige – Livro Três) é o livro #3 de uma nova série de thrillers psicológicos escrito pelo autor de sucesso Blake Pierce, cujo best-seller gratuito Sem Pistas (Livro #1) recebeu mais de 1,000 opiniões com cinco estrelas. Quando um assassino em série, suspeito de usar uma RV camper, atrai e mata mulheres pelo país, o FBI é obrigado a quebrar o protocolo e a contar com uma brilhante recruta da academia de 22 anos – Riley Paige. Riley Paige é aceite na extenuante academia do FBI e está determinada a finalmente passar despercebida e trabalhar afincadamente com os seus pares. Mas não é o que o destino lhe reserva já que é escolhida para ajudar os seus mentores a traçar um perfil e apanhar um assassino em série que tem aterrorizado o país. Que espécie de assassino diabólico, interroga-se Riley, utilizaria um RV para apanhar as vítimas?E qual o seu próximo passso?Não há tempo para Riley cometer erros neste jogo mortal do gato e do rato onde o seu próprio futuro está em risco, e em que o assassino à solta se pode revelar mais inteligente do que ela. Um thriller pleno de ação com suspense de cortar a respiração, A CORDA DO DIABO é o livro #3 de uma nova série alucinante que o obrigará a não largar o livro até o terminar. Os leitores vão recuar 20 anos até ao início da carreira de Riley – e é o complemento perfeito para a série SEM PISTAS (Um Mistério de Riley Paige) que já conta com 14 livros e continua. O livro #4 da série OS PRIMÓRDIOS DE RILEY PAIGE estará brevemente disponível.







A CORDA DO DIABO



(O PRIMÓRDIOS DE RILEY PAIGE — LIVRO 3)



B L A K E P I E R C E


Blake Pierce



Blake Pierce é o autor da série de enigmas RILEY PAGE, com doze livros (com outros a caminho). Blake Pierce também é o autor da série de enigmas MACKENZIE WHITE, composta por oito livros (com outros a caminho); da série AVERY BLACK, composta por seis livros (com outros a caminho), da série KERI LOCKE, composta por cinco livros (com outros a caminho); da série de enigmas PRIMÓRDIOS DE RILEY PAIGE, composta de dois livros (com outros a caminho); e da série de enigmas KATE WISE, composta por dois livros (com outros a caminho).



Como um ávido leitor e fã de longa data do gênero de suspense, Blake adora ouvir seus leitores, por favor, fique à vontade para visitar o site www.blakepierceauthor.com (http://www.blakepierceauthor.com) para saber mais a seu respeito e também fazer contato.



Copyright © 2017 por Blake Pierce. Todos os direitos reservados. Exceto conforme permitido na Lei de Direitos Autorais dos Estados Unidos (US. Copyright Act of 1976), nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, distribuída ou transmitida de nenhuma forma e por motivo algum, ou colocada em um sistema de dados ou sistema de recuperação sem permissão prévia do autor. Este e-book está licenciado apenas para seu aproveitamento pessoal. Este e-book não pode ser revendido ou dado a outras pessoas. Se você gostaria de compartilhar este e-book com outra pessoa, por favor compre uma cópia adicional para cada beneficiário. Se você está lendo este e-book e não o comprou, ou ele não foi comprado apenas para uso pessoal, então por favor devolva-o e compre seu próprio exemplar. Obrigado por respeitar o trabalho árduo do autor. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, empresas, organizações, lugares, eventos e acontecimentos são obras da imaginação do autor ou serão usadas apenas na ficção. Qualquer semelhança com pessoas de verdade, em vida ou falecidas, é totalmente coincidência. Imagem de capa: Copyright Artem Korionov, usada sob licença de Shutterstock.com.


LIVROS ESCRITOS POR BLAKE PIERCE



SÉRIE DE ENIGMAS KATE WISE

SE ELA SOUBESSE (Livro n 1)

SE ELA VISSE (Livro n 2)



SÉRIE OS PRIMÓRDIOS DE RILEY PAIGE

ALVOS A ABATER (Livro #1)

ESPERANDO (Livro #2)

A CORDA DO DIABO (Livro #3)

AMEAÇA NA ESTRADA (Livro #4)



SÉRIE DE MISTÉRIO DE RILEY PAIGE

SEM PISTAS (Livro #1)

ACORRENTADAS (Livro #2)

ARREBATADAS (Livro #3)

ATRAÍDAS (Livro #4)

PERSEGUIDA (Livro #5)

A CARÍCIA DA MORTE (Livro #6)

COBIÇADAS (Livro #7)

ESQUECIDAS (Livro #8)

ABATIDOS (Livro #9)

PERDIDAS (Livro #10)

ENTERRADOS (Livro #11)

DESPEDAÇADAS (Livro #12)

SEM SAÍDA (Livro #13)



SÉRIE DE ENIGMAS MACKENZIE WHITE

ANTES QUE ELE MATE (Livro nº1)

ANTES QUE ELE VEJA (Livro nº2)

ANTES QUE COBICE (Livro nº3)

ANTES QUE ELE LEVE (Livro nº4)

ANTES QUE ELE PRECISE (Livro nº5)

ANTES QUE ELE SINTA (Livro nº6)

ANTES QUE ELE PEQUE (Livro nº7)

ANTES QUE ELE CAÇE (Livro nº8)

ANTES QUE ELE ATAQUE (Livro nº9)



SÉRIE DE ENIGMAS AVERY BLACK

MOTIVO PARA MATAR (Livro nº1)

MOTIVO PARA CORRER (Livro nº2)

MOTIVO PARA SE ESCONDER (Livro nº3)

MOTIVO PARA TEMER (Livro nº4)

MOTIVO PARA SALVAR (Livro nº5)

MOTIVO PARA SE APAVORAR (Livro nº6)



SÉRIE DE ENIGMAS KERI LOCKE

UM RASTRO DE MORTE (Livro nº1)

UM RASTRO DE HOMICÍDIO (Livro nº2)

UM RASTRO DE IMORALIDADE (Livro nº3)

UM RASTRO DE CRIME (Livro nº4)

UM RASTRO DE ESPERANÇA (Livro nº5)


ÍNDICE

PRÓLOGO (#u4d19c280-546e-5c97-a12d-f3926c5d9f37)

CAPÍTULO UM (#u7bee1965-3217-54f1-979e-9509a0da5ec0)

CAPÍTULO DOIS (#ua0f13458-7a47-5b4e-9d47-f0fdbd0a334c)

CAPÍTULO TRÊS (#uc0f273e9-34d9-52c0-b26d-d80f0f200e02)

CAPÍTULO QUATRO (#u835e41ee-11b5-5647-bd36-ce985bfab900)

CAPÍTULO CINCO (#u54aca95e-3026-51ca-ade6-26dcc3865177)

CAPÍTULO SEIS (#u97e5216f-6c01-51b4-a2aa-3848a185a6b5)

CAPÍTULO SETE (#u0e63debc-c2e4-5f1c-b9d2-64d621a50055)

CAPÍTULO OITO (#u7ed26d2e-ea32-54ac-9058-2408456ff037)

CAPÍTULO NOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZ (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO ONZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DOZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TREZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUATORZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUINZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZESSEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZESSETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZOITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZENOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E DOIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E TRÊS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E QUATRO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E CINCO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E SEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E SETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E OITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E NOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E DOIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E TRÊS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E QUATRO (#litres_trial_promo)




PRÓLOGO


Hope Nelson olhou ao redor da loja pela última vez antes de fechar as portas. Ela estava cansada, já que aquele havia sido um longo e estressante dia de trabalho. Já passava da meia-noite, e ela estava ali desde o início da manhã.

Estava sozinha, porque havia mandado os últimos funcionários para casa um pouco mais cedo. Nenhum deles gostava de trabalhar até tarde nas noites de sábado. Em dias úteis, a loja sempre fechava às cinco, o que era mais do que suficiente para todos.

Não que os funcionários tivessem agradecido muito aquele gesto.

Dona do lugar ao lado de seu marido, Mason, e portanto trabalhando mais horas do que qualquer outra pessoa—Hope era a primeira a chegar e a última a sair na maioria dos dias. Não era segredo para ela que as pessoas do bairro sentiam inveja dela e de Mason por serem o casal mais rico na pequena cidade de Dighton.

Mas ela também tinha motivos para se ofender com eles.

Seu lema pessoal era...

Dinheiro é responsabilidade.

Levava suas muitas tarefas a sério, assim como Mason, que também era o prefeito da cidade. Eles não costumavam tirar férias, nem sequer dias de folga. Às vezes, Hope sentia que ela e Mason eram as únicas pessoas por ali que se importavam com algo.

Ao olhar para os produtos bem organizados—o computador e o gerador, as sementes, as comidas, os fertilizantes—Hope pensou, como sempre pensava...

Dighton não duraria um dia sem nós.

Na verdade, ela pensava assim sobre toda a região.

Às vezes, sonhava com os dois juntando suas coisas e indo embora, apenas para provar aquela tese.

Todo mundo iria entender.

Ela apagou as luzes com um suspiro cansado. Depois, ao chegar ao sistema de alarmes para ativá-lo antes de sair, viu uma figura através da porta de vidro. Era um homem, parado na calçada, sob a luz da rua, a cerca de dez metros.

Ele parecia estar olhando diretamente para ela.

Hope ficou assustada ao ver que o rosto dele era muito marcado e machucado—por marcas de nascença ou por algum acidente terrível, ela não sabia. Ele vestia uma camiseta, mas era possível perceber que tinha problemas parecidos nas mãos e nos braços.

Deve ser difícil para ele viver a vida assim, pensou.

Mas o que ele estaria fazendo sozinho ali tão tarde em uma noite de sábado? Ele teria vindo à loja antes? Se sim, um dos funcionários já devia tê-lo ajudado. Com certeza, Hope não esperava ver ele ou qualquer outra pessoa ali depois de fechar as portas.

Mas ali estava ele, olhando para ela e sorrindo.

O que ele queria?

O que quer que fosse, Hope precisaria conversar com ele pessoalmente. E aquilo a incomodava. Seria difícil fingir não perceber os problemas no rosto machucado.

Sentindo-se desconfortável, Hope digitou o código do alarme, saiu e fechou a porta de frente. O ar quente da noite trouxe uma sensação boa, após um dia inteiro dentro da loja sentindo cheiros fortes, a maior parte deles de fertilizantes.

Quando começou a caminhar em direção ao homem, sorriu e disse:

- Desculpe, já fechamos.

Ele encolheu os ombros e seguiu sorrindo e murmurando algo impossível de entender.

Hope suspirou. Queria pedir para que ele falasse mais alto. Mas sabia que qualquer coisa que dissesse soaria como uma ordem, e não como um pedido educado. Estava, irracionalmente, com medo que ferir os sentimentos daquele homem.

Ele aumentou seu sorriso enquanto ela caminhava em sua direção. Novamente, disse algo que ela não pode entender. Hope parou a apenas alguns centímetros dele.

- Desculpe, mas nós já fechamos por hoje – disse.

Ele murmurou algo inaudível. Ela balançou a cabeça para indicar que não havia entendido.

Ele falou um pouco mais algo, e dessa vez ela conseguiu entender:

- Tenho um problema com algo.

Hope perguntou:

- O que é?

Ele novamente disse algo inaudível.

Talvez ele queira devolver algo que comprou hoje, ela pensou.

A última coisa que Hope queria naquela hora era abrir as portas e desativar o sistema de alarme, apenas para receber o produto de volta e devolver o dinheiro. Ela disse:

- Se você quer devolver algo, desculpe, mas vai ter que voltar amanhã.

O homem com o rosto machucado murmurou:

- Não, mas...

Então ele riu em silêncio, ainda olhando para ela. Hope não conseguiu manter contato visual com ele. E, de certa maneira, sentiu que ele percebeu.

A julgar por seu sorriso, ele parecia estar até gostando.

Hope arrepiou-se ao pensar que ele poderia sentir prazer ao provocar desconforto em outras pessoas.

Então, o homem disse um pouco mais alto e claro:

- Venha ver.

Ele apontou para sua picape velha, que estava estacionada próxima à calçada, ali perto. Depois, virou-se e começou a caminhar em direção ao veículo. Hope ficou parada ali por um momento. Ela não queria segui-lo, e sabia que não tinha motivos para isso.

Seja o que for, pode esperar até amanhã.

Mas ela não conseguiu simplesmente se virar e ir embora.

Novamente, estava com medo de ser rude com ele.

Caminhou atrás dele até os fundos da picape. O homem abriu a tampa do veículo e ela pode ver um emaranhado de arame farpado por toda a carroceria.

De repente, ele a agarrou por trás e colocou um trapo molhado em seu rosto.

Hope tentou escapar, mas ele era mais alto e mais forte do que ela.

Ela não pode sequer livrar sua boca para gritar. Estava encharcada com um líquido espesso, que cheirava forte e tinha um gosto ligeiramente doce.

Então, uma estranha sensação tomou conta dela.

Tontura e euforia, como se tivesse usado algum tipo de droga.

Por alguns segundos, aquela euforia fez com que fosse difícil para Hope entender que ela estava em perigo. Depois, ela tentou lutar novamente, mas sentiu-se cada vez mais fraca.

Seja lá o que aquele homem quisesse fazer, ela já não conseguia lutar contra ele.

Sentindo-se quase que fora de seu próprio corpo, Hope percebeu o homem colocando-a na carroceria da picape, no emaranhado de arame farpado. Ele seguia segurando o trapo em seu rosto, e ela não conseguia parar de respirar o líquido espesso.

Hope Nelson mal pode sentir a dor em seu corpo e perdeu a consciência pouco a pouco.




CAPÍTULO UM


Preparando-se para assar dois bifes, Riley Sweeney pensou mais uma vez:

Quero que essa noite seja especial.

Ela e seu noivo, Ryan Paige, andavam ocupados demais para se divertir nos últimos tempos. O cansativo cronograma de Riley no Programa de Estágio de Honra do FBI e o novo trabalho de Ryan como advogado iniciante estavam tomando todo seu tempo e energia. Ryan estava trabalhando há muitas horas inclusive naquele dia—um sábado.

O aniversário de vinte e dois anos de Riley havia sido quase duas semanas antes, e simplesmente eles não tiveram tempo para comemorar. Ryan a presenteara com um lindo colar, e só—não houve festa, nem jantar, nem bolo. Ela esperava que o jantar especial daquela noite fosse uma compensação.

Além disso, aquele era o único momento possível para um bom jantar, até onde ela sabia. Um dia antes, Riley havia completado seu estágio com sucesso. No dia seguinte, ela iria para a Academia do FBI em Quantico, Virginia. Ryan ficaria em Washington. Ainda que a distância entre as duas cidades fosse de apenas uma hora de carro ou trem, os dois teriam muito trabalho pela frente. Ela não sabia quando teria outros momentos como aquele com Ryan novamente.

Seguindo detalhadamente a receita, Riley terminou de temperar dois bifes com sal, pimenta, cebola, polvilho, mostarda, orégano e tomilho. Depois, olhou em volta da cozinha e para todo seu trabalho. Ela havia feito uma linda salada, cortado cogumelos, prontos para assar junto com a carne, e duas batatas já estavam assando no forno. Na geladeira, um cheesecake comprado, pronto para a sobremesa.

A pequena mesa da cozinha estava quase toda arrumada, inclusive com um vaso cheio de flores que ela havia comprado na mercearia. Uma garrafa de um vinho tinto, nada caro, mas muito bom, esperava para ser aberta.

Riley olhou seu relógio. Ryan havia dito que chegaria em casa por volta daquele horário, e ela esperava que ele não se atrasasse. Não queria assar a carne antes que ele chegasse.

Enquanto esperava, não conseguiu lembrar de nada mais que precisasse ser feito naquele momento. Havia passado o dia inteiro lavando roupa, limpando seu pequeno apartamento, comprando e preparando a comida—tarefas domésticas para as quais raramente tinha tempo, desde que ela e Ryan haviam ido morar juntos, no começo do verão. Ela até gostava daquelas tarefas, bem diferentes de seu tempo na faculdade.

Mesmo assim, não podia deixar de se perguntar...

É assim que vai ser a vida de casada?

Se alcançasse a meta de se tornar uma agente do FBI, ela passaria mesmo dias inteiros deixando tudo perfeito para quando Ryan chegasse do trabalho? Não parecia muito provável.

Mas naquele momento, Riley tinha dificuldades em imaginar aquele futuro—ou qualquer outro futuro específico.

Ela jogou-se no sofá.

Fechou os olhos e percebeu que estava muito cansada.

Nós dois precisamos é de férias, pensou.

Mas tirar férias não era algo que aconteceria em um futuro próximo.

Sentiu-se um pouco sonolenta e quase cochilou, quando uma memória invadiu sua mente a força...



Ela estava amarrada nas mãos e nos pés, por um louco com uma fantasia e maquiagem de palhaço.

Ele segurava um espelho na cara dela e dizia...

“Tudo pronto. Veja!”

Ela viu que ele havia passado maquiagem no rosto dela e que, agora, ela parecia um palhaço também.

Então ele colocou uma seringa na frente dela. Ela sabia que se ele injetasse aquele conteúdo mortal, ela morreria de puro terror...



Os olhos de Riley abriram-se de repente ela olhou por tudo em volta.

Fazia apenas alguns meses que ela havia escapado das mãos de um criminoso famoso conhecido por “Palhaço Assassino”. Ainda tinha pesadelos com o episódio.

Ao tentar tirá-lo de sua memória, escutou alguém descendo os degraus do prédio até o corredor do subsolo.

Ryan! Ele chegou!



Riley pulou do sofá e olhou o forno para ter certeza de que estava na temperatura mais alta. Depois, apagou as luzes do apartamento e acendeu as velas que havia colocado na mesa. Finalmente, foi até a porta e encontrou Ryan assim que ele entrou.

Abriu seus braços para abraçá-lo e o beijou. Mas ele não devolveu o beijo, e ela sentiu o corpo dele em profunda exaustão. Ele olhou para o apartamento à luz de velas e disse:

- Riley—que porra é essa?

O coração de Riley se despedaçou.

Ela respondeu:

- Estou fazendo algo legal para a janta.

Ryan entrou, largou sua pasta e desabou no sofá.

- Não precisava se preocupar – ele disse. – Tive um dia daqueles. E nem estou com tanta fome.

Riley sentou-se ao lado dele e esfregou seus ombros. Ela disse:

- Mas está tudo quase pronto. Você não está com fome nem para bife de alcatra?

- Alcatra? – Ryan disse, surpreso. – Nós temos dinheiro pra isso?

Lutando contra um surto de irritação, Riley não respondeu. Ela cuidava das finanças da casa, e sabia muito bem o que eles podiam e não podiam pagar.

Parecendo perceber o desapontamento de Riley, Ryan disse:

- Alcatra é muito bom. Só me dê alguns minutos para tomar um banho.

Ryan levantou-se e foi para o banheiro. Riley correu para a cozinha, tirou as batatas do forno e colocou os bifes para assar, para que eles ficassem ao ponto.

Ryan sentou-se à mesa no momento em que ela serviu os pratos. Ele serviu taças de vinho para os dois.

- Obrigado – Ryan disse, esboçando um sorriso. – Muito legal.

Ao cortar seu bife, ele adicionou:

- Eu tive que trazer trabalho para casa. Vou ter que dar conta disso depois de comermos.

Riley segurou um suspiro de decepção. Ela esperava que aquele jantar terminasse de uma maneira mais romântica.

Os dois comeram em silêncio por alguns momentos. Depois, Ryan começou a reclamar sobre seu dia.

- Esse nível de trabalho, inicial, é praticamente escravidão. Temos que fazer todo o trabalho duro para os sócios—pesquisa, escrever briefings, deixar tudo pronto para o tribunal. E trabalhamos muito mais horas do que eles. Parece um tipo de trote, só que nunca acaba.

- Vai melhorar – Riley disse.

Então, forçou uma risada e acrescentou:

- Um dia você vai ser um sócio. E vai ter uma equipe inteira de novatos que vão para casa reclamar sobre você.

Ryan não riu, e Riley não o culpou. Ela só percebeu que a piada fora ruim depois que já tinha dito.

Ryan continuou resmungando durante o jantar, e Riley não sabia se estava mais chateada ou com raiva. Ele não tinha gostado de todo o esforço dela para fazer daquela uma noite perfeita?

Ele não entendia quanto a vida deles estava prestes a mudar?

Quando Ryan fez silêncio por alguns momentos, Riley disse:

- Sabe, vamos nos reunir amanhã no FBI para comemorar o fim do estágio. Você vai poder ir comigo, né?

- Acho que não, Riley. Essa semana vai ser cheia.

Riley quase se engasgou.

- Mas amanhã é domingo – ela disse.

Ryan encolheu os ombros e respondeu:

- Sim, pois é, como eu falei—trabalho escravo.

Riley respondeu:

- Olhe, não vai levar o dia todo. Vai ter um ou outro discurso—do diretor assistente e do nossos supervisor que vão querer falar um pouco. Depois vai ter uns salgados e—

Ryan interrompeu:

- Riley, me desculpe.

- Mas eu vou sair de Quantico amanhã, logo depois. Vou levar minha mala comigo. Achei que você iria me levar na rodoviária.

- Não posso – Ryan disse, um pouco ríspido. – Você vai ter que dar outro jeito de chegar lá.

Eles comeram em silêncio por alguns momentos.

Riley teve dificuldades em entender o que estava acontecendo. Por que Ryan não poderia acompanhá-la no dia seguinte? Levaria só algumas horas. Então, uma ficha começou a cair. Ela disse:

- Você ainda não quer que eu vá para Quantico.

Ryan resmungou, chateado.

- Riley, não vamos começar com isso – ele disse.

Riley sentiu seu rosto quente de raiva.

- Mas é agora ou nunca, não é?

- Você tomou sua decisão. E pelo que sei você não vai mudar.

Os olhos de Riley se arregalaram.

- Minha decisão? – ela disse. – Achei que fosse a nossa decisão.

Ryan suspirou.

- Não vamos falar sobre isso – ele disse. – Vamos terminar de comer, ok?

Riley parou, olhando para Ryan, que continuou comendo.

Ela começou a se perguntar...

Ele está certo?

Eu coloquei nós dois nessa?

Tentou pensar nas conversas entre os dois, tentando se lembrar, entender. Ela lembrava do quão orgulhoso Ryan ficara quando ela havia conseguido parar o Palhaço Assassino.

“Você salvou a vida de pelo menos uma mulher. Resolvendo esse caso, você pode ter salvado a vida de outras também. Que loucura. Acho que talvez você seja louca. Mas também é uma heroína”.

Na época, ela imaginara que era isso o que ele queria—que ela construísse uma carreira no FBI, que seguisse sendo uma heroína.

Mas agora, pensando naquilo, Riley não conseguia se lembrar dele dizendo exatamente essas palavras. Ryan nunca havia lhe dito...

“Eu quero que você vá. Eu quero que você siga seu sonho.”

Riley suspirou lentamente, várias vezes.

Precisamos discutir isso com calma, pensou.

Finalmente, disse:

- Ryan, o que você quer? Para nós, eu digo.

Ryan inclinou a cabeça e olhou para ela.

- Você quer mesmo saber? – Ele perguntou.

A garganta de Riley deu um nó.

- Eu quero saber – ela disse. – Me diga o que você quer.

Um olhar dolorido tomou conta do rosto de Ryan. Riley tentou imaginar o que ele diria a seguir. Finalmente, ele respondeu:

- Eu só quero uma família.

Então, ele encolheu os ombros e comeu mais um pedaço de carne.

Sentindo-se um pouco aliviada, Riley respondeu:

- Eu também quero.

- Quer mesmo? – Ryan perguntou.

- Claro que sim. Você sabe que sim.

Ryan balançou a cabeça e disse:

- Não sei nem se você sabe o que quer de verdade.

Riley sentiu-se como se tivesse levado um soco no estômago. Por um momento, ela simplesmente não soube o que dizer. Depois, finalmente falou:

- Você não acha que eu posso ter uma carreira e uma família?

- Com certeza sim – Ryan disse. – Mulheres fazem isso o tempo todo hoje em dia. Chama-se “ter de tudo”, pelo que eu sei. É difícil, requer planejamento e sacrifícios, mas é possível. E eu amaria te ajudar a fazer tudo isso. Mas...

A voz dele diminuiu.

- Mas o que? – Riley perguntou.

Ele respirou profundamente, depois respondeu.

- Talvez seria diferente se você quisesse ser uma advogada, como eu. Ou uma médica, ou uma psiquiatra. Ou corretora. Ou começasse seu próprio negócio. Ou se tornasse uma professora universitária. Eu poderia lidar com tudo isso. Poderia mesmo. Mas essa história toda de você ir para o FBI—você vai ficar em Quantico por dezoito semanas! Quantas vezes nós vamos nos ver nesse período? Você acha que qualquer relação consegue sobreviver a esse tempo todo? E além disso...

Ele olhou para Riley por um instante. Depois, continuou:

- Riley, você quase morreu duas vezes desde que eu te conheci.

Riley engoliu em seco.

Ele estava certo, claro. Seu encontro mais recente com a morte fora nas mãos do Palhaço Assassino. Antes disso, durante seu último semestre na faculdade, ela quase havia sido assassinada por um professor psicopata que ainda aguardava julgamento por ter matado outras duas alunas. Riley conhecia aquelas garotas. Uma delas era sua melhor amiga e colega de quarto.

A ajuda de Riley para solucionar aquele caso terrível de assassinato acabara levando-a ao programa de estágio de verão, e fora uma das principais razões pela quais ela decidira se tornar uma agente do FBI.

Com a voz em choque, Riley disse:

- Você quer que eu saia? Você quer que eu não vá para Quantico amanhã?

Ryan respondeu:

- Não importa o que eu quero.

Riley estava lutando para não chorar.

- Sim, importa sim, Ryan – ela disse. – Importa muito.

Ryan fechou os olhos pelo que pareceu ser um bom tempo. Depois, disse:

- Acho que sim. Quero dizer, quero que você saia. Eu sei que você acha isso incrível. Que tem sido uma aventura e tanto para você. Mas é hora de nós dois nos acalmarmos. É hora de encararmos nossa vida real.

Riley de repente sentiu-se como se estivesse em um pesadelo, mas sem conseguir acordar.

Nossa vida real! Pensou.

O que aquilo significava?

E o que dizia sobre ela o fato de ela não saber o que aquilo significava?

Riley só tinha uma certeza...

Ele não quer que eu vá para Quantico.

Então, Ryan disse:

- Olhe, você pode trabalhar com todos os tipos de serviços aqui em Washington. E você tem muito tempo para pensar no que quer fazer a longo prazo. Enquanto isso, não interessa se você ganhar pouco ou muito dinheiro. Nós não vamos ser ricos com meu salário, mas vamos viver bem, e logo eu vou estar ganhando muito bem.

Ryan voltou a comer, parecendo estranhamente aliviado, como se tivesse resolvido tudo.

Mas eles haviam resolvido algo? Riley havia passado o verão inteiro sonhando com a Academia do FBI. Não passava pela cabeça dela desistir naquele momento.

Não, pensou. Não posso fazer isso.

Então, sentiu a raiva subindo em seu corpo. Com a voz tensa, disse;

- Sinto muito por você pensar assim. Não vou mudar de ideia. Vou para Quantico amanhã.

Ryan olhou para ela como se não acreditasse no que estava ouvindo.

Riley levantou-se da mesa e disse:

- Aproveite o resto do jantar. Tem cheesecake na geladeira. Estou cansada. Vou tomar banho e deitar.

Antes que Ryan pudesse responder, Riley seguiu para o banheiro. Ela chorou por alguns minutos, depois tomou um banho quente e demorado. Quando colocou seu roupão e chinelos e saiu do banheiro, viu Ryan sentado na cozinha. Ele havia limpado a mesa e estava trabalhando em seu computador. Ele não olhou para ela.

Riley foi para o quarto, caiu na cama e começou a chorar novamente.

Ao enxugar os olhos e assoar o nariz, perguntou-se:

Por que estou com tanta raiva?

Ryan está errado?

Algo nisso tudo é culpa dele?

Seus pensamentos estavam confusos e ela não conseguia raciocinar. Então, uma memória terrível a assombrou—de acordar na cama com muita dor e ver que estava rodeada por sangue...

Meu aborto.

Encontrou-se perguntando-se—seria aquela uma das razões pelas quais Ryan não queria que ela fosse para o FBI? Ela estava muito estressada com o caso do Palhaço Assassino na época do aborto. Mas a médica havia assegurado que aquele estresse não tivera nada a ver com o acidente.

Ao invés disso, a médica havia dito que a causa fora “anormalidades nos cromossomos”.

Pensando naquilo tudo novamente, aquela palavra a incomodou...

Anormalidades.

Perguntou-se: seria ela de alguma forma anormal, no que se tratava do que realmente importava?

Seria ela incapaz de ter uma relação duradoura e uma família?

Ao deitar-se para tentar dormir, sentiu que só tinha certeza de uma coisa...

Vou para Quantico amanhã.

Pegou no sono antes que pudesse imaginar o que aconteceria depois.




CAPÍTULO DOIS


O homem sentiu prazer ao ouvir o gemido fraco da mulher. Ele sabia que ela estava voltando a ficar consciente. Sim, ele pode ver os olhos dela se abrindo um pouco.

Ela estava deitada de lado em uma mesa de madeira rústica na pequena sala de chão sujo, paredes de concreto e teto de madeira baixo. Estava amarrada com força, como uma concha, com muita fita adesiva. Suas pernas pressionavam seu peito, e suas mãos estavam presas nas canelas. Sua cabeça estava encostada em seus joelhos.

Ela o fazia lembrar de fotos que ele havia visto de fetos humanos—e também de embriões que às vezes encontrava quebrando ovos de galinha. Ela parecia inocente, ingênua, e aquilo de era de certa forma comovente.

Principalmente, é claro, ela o lembrava de outra mulher—seu nome era Alice, ele acreditava. Certa vez, ele pensara que Alice seria a única que ele trataria daquele jeito, mas ele havia gostado... e havia poucos prazeres em sua vida... como ele iria parar?

- Dói – a mulher murmurou, como se estivesse sonhando. – Por que dói?

Ele sabia que era porque ela estava deitada em uma cama com um emaranhado de arame farpado. O sangue escorria pela mesa, juntando-se às manchas da mesa inacabada. Não que aquilo importasse. A mesa era mais velha do que ele, e ele era a única pessoa que a veria.

Ele também estava com dor e sangrando. Havia se cortado ao tirá-la da picape com arame farpado. Fora mais difícil do que ele esperava, porque ela havia tentado lutar mais de uma vez.

Ela havia se contorcido muito enquanto o clorofórmio caseiro fizera efeito. Mas sua luta enfraquecera e ele finalmente a dominara completamente.

Mesmo assim, ele não estava chateado por ter se machucado com o arame. Sabia, por experiência própria, que aqueles arranhões curavam-se rapidamente, mesmo que deixassem algumas cicatrizes.

Abaixou-se e olhou o rosto dela de perto.

Os olhos dela estava abertos, arregalados agora. Sua íris se contorcia enquanto ela olhava para ele.

Ela ainda está tentando evitar olhar para mim, ele percebeu.

Todo mundo agia assim com ele, em qualquer lugar. Ele não culpava as pessoas por fingirem que ele era invisível, ou que ele simplesmente não existia. Algumas vezes, ele olhava no espelho e desejava que pudesse desaparecer.

Então, a mulher murmurou novamente...

- Dói.

Além dos cortes, ele sabia que a cabeça dela estava doendo por conta da alta dose de clorofórmio caseiro. Na primeira vez em que criara aquela substância, ali mesmo, ele quase havia desmaiado, e sofrera com uma dor de cabeça forte vários dias depois. Mas a preparação havia dado certo, então ele pode continuar.

Agora, ele estava preparado para o próximo passo. Estava vestindo luvas grossas e uma jaqueta grossa e acolchoada. Não iria machucar a si mesmo novamente até terminar o processo.

Começou o trabalho com o arame farpado e cortadores de fio. Depois, passou um fio pelo corpo da mulher e torceu as pontas em nós improvisados para mantê-lo no lugar.

A mulher gemeu de dor e tentou se virar, mas o arame arranhou sua pele e sua roupa.

Enquanto trabalhava, ele disse:

- Você não precisa ficar quieta. Pode gritar o quanto quiser—se for ajudar.

Certamente, ele não tinha medo de que alguém pudesse ouvi-la.

Ela resmungou mais alto, como se quisesse gritar, mas estava com a voz fraca.

Ele riu, quieto. Sabia que ela não conseguiria juntar ar suficiente nos pulmões para gritar—não com as pernas apertando seu peito daquele jeito.

Ele colocou mais um fio de arame farpado nela e apertou, vendo o sangue sair de cada machucado através das roupas dela, encharcando o tecido, abrindo buracos muito maiores do que o machucado em si.

Seguiu puxando fio por fio em volta dela, até que ela estivesse toda amarrada, como se fosse um casulo de arame enorme, longe de parecer um humano. Aquele casulo fazia todos os tipos de sons, estranhos e baixos, gemidos e suspiros. O sangue não parou de jorrar até deixar a mesa inteira pintada de vermelho.

Então, ele deu um passo atrás e admirou seu trabalho.

Apagou a luz acima de sua cabeça e caminhou no escuro, fechando a porta pesada de madeira.

O céu estava limpo e estrelado, e ele só podia ouvir o barulho alto dos grilos.

Respirou profundamente aquele ar puro.

A noite estava perfeita naquele momento.




CAPÍTULO TRÊS


Enquanto se alinhava juntamente com os outros estagiários para a foto oficial, Riley ouviu a porta da sala de recepção abrir.

Seu coração pulou, e ela virou-se cheia de expectativa para ver quem havia chegado.

Mas era apenas Hoke Gilmer, o supervisor do programa de treinamento, retornando após uma saída rápida.

Riley segurou um suspiro. Ela já sabia que o Agente Crivaro não estaria ali naquele dia. No dia anterior, ele havia a parabenizado por completar o curso, e disse que queria voltar para Quantico. Era óbvio que ele simplesmente não gostava de cerimônias e recepções.

Sua esperança secreta era de que Ryan pudesse aparecer do nada para celebrar com ela o término do programa de verão.

Mas é claro que ela sabia que não podia esperar que isso acontecesse.

Mesmo assim, não pode deixar de fantasiar que, de alguma maneira, ele mudaria de ideia e apareceria no último minuto, pedindo desculpas por seu comportamento frio na noite anterior e finalmente dizendo as palavras que ela esperava tanto que ele dissesse.

“Quero que você vá para a academia. Quero que você persiga seu sonho.”

Mas obviamente, aqui não iria acontecer.

E quanto mais rápido eu tirar isso da minha cabeça, melhor.

Os 20 estagiários formaram três filas para os fotógrafos—uma sentada em uma mesa comprida, com as outras duas em pé, atrás deles. Com todos alinhados em ordem alfabética, Riley estava na fila de trás, entre duas outras estudantes cujos sobrenomes começavam com S—Naomi Strong e Rhys Seely.

Ela não conhecia nenhuma das duas muito bem.

Na verdade, ela não conhecia bem nenhum dos outros estagiários. Havia se sentido um peixe fora d’água entre eles desde o primeiro dia do programa, dez semanas antes. O único aluno de quem ela se aproximara durante todo aquele tempo fora John Welch, que agora estava em pé, um pouco mais a sua esquerda.

Naquele primeiro dia, John havia explicado porque os outros estavam olhando estranho e sussurrando coisas sobre ela.

“Todo mundo aqui sabe quem você é. Acho que sua reputação fala por você, antes de você mesma.”

Riley era, de fato, a única estagiária que já tinha o que todo mundo chamava de “experiência de campo”.

Ela segurou outro suspiro ao pensar naquelas palavras.

“Experiência de campo.”

Achava estranho pensar no que acontecera na Lanton University como “experiência de campo”. Aquilo havia sido mais um pesadelo. Nunca conseguira tirar de suas memórias a imagem de duas amigas próximas com suas gargantas cortadas em seus quartos banhados de sangue.

Na época, a última coisa que ela pensara era em um treinamento no FBI. Fora colocada no caso sem escolha—e havia ajudado a resolvê-lo, e por isso todos no programa sabiam quem ela era desde o primeiro dia.

Então, quando o programa começara, e todos os outros estudantes começaram a aprender sobre computadores, peritos e outros assuntos menos interessantes, Riley havia parado o mortal Palhaço Assassino. Ambos os casos haviam sido traumáticos e ameaçadores.

Aquele começo especial na “experiência de campo” não a tornara muito popular entre os outros estagiários. Na verdade, ela havia percebido um ressentimento mudo entre eles durante todo o treinamento.

Agora, pelo menos alguns deles a invejavam por entrar na Academia.

Se eles soubessem tudo o que eu passei, pensou.

Riley duvidada que eles a invejariam.

Sentiu medo e culpa ao lembrar das duas amigas sendo mortas na Lanton, e desejou que pudesse voltar no tempo e evitar aquilo. Não só suas amigas ainda estariam vivas, mas sua própria vida seria completamente diferente. Teria um diploma de psicologia e algum trabalho comum, além da incerteza do que faria pelo resto da vida.

E Ryan estaria perfeitamente feliz comigo.

Mas Riley duvidava que estaria feliz. Ela não sentira paixão por nenhuma carreira até que a possibilidade de ser uma agente do FBI tinha aparecido—mesmo sentindo que essa carreira havia a escolhido, e não o contrário.

Quando as três filas de estagiários estavam perfeitamente posadas, Hoke Gilmer fez uma piada para fazer todos rirem enquanto o fotógrafo tirava as fotos. Riley não estava nenhum pouco bem humorada, então não achou a piada muito engraçada. Ela tinha certeza de que seu sorriso sairia forçado e falso na foto.

Também sentiu-se insegura com seu terninho, que havia comprado meses antes em um brechó. A maioria dos outros alunos tinha uma vida financeira melhor do que a dela, e estavam muito mais bem vestidos. Definitivamente, ela não estava ansiosa por ver aquela foto.

Depois, o grupo se desfez para aproveitar os salgados e refrigerantes colocados em outra mesa, no meio da sala. Todos formaram grupos e, como sempre, Riley se sentiu isolada.

Percebeu que Natalia Embry estava se engraçando para Rollin Sloan, um aluno que iria diretamente para um emprego de salário alto, como analista de dados, em um grande escritório no meio-oeste.

Riley ouviu uma voz a seu lado.

- É, parece que a Natalie conseguiu o que ela queria aqui, ein?

Riley virou-se e viu John Welch a seu lado. Ela riu e respondeu:

- Ah, John. Você não está sendo um pouco malvado?

John encolheu os ombros e disse:

- Vai dizer que eu estou errado?

Riley olhou novamente para Natalie, que estava mostrando seu novo anel de noivado para alguém.

- Não, acho que não – Riley respondeu.

Natalie não parara de mostrar aquele anel para todo mundo, desde que Rollin havia lhe dado, dias antes. Aquele romance evoluíra rápido—ela e Rolling sequer se conheciam antes de entrarem no programa de verão.

John deixou escapar um suspiro falso de simpatia.

- Pobre Rollin – disse. – Só pela graça de Deus.

Riley riu alto. Ela sabia exatamente o que John queria dizer. Desde o primeiro dia do programa, Natalie estivera procurando um noivo. Havia inclusive tentado com John, até que ele deixara claro que não gostava dela.

Riley perguntou-se—será que Natalie chegou a estar interessada no programa? Apesar de tudo, ela havia sido inteligente o suficiente para ser aceita naquele programa de honra.

Provavelmente não, deu-se conta.

Natalie parecia ter entrado no programa pela mesma razão pela qual algumas amigas de Riley haviam ido para a faculdade—para conseguir um marido de sucesso.

Riley tentou imaginar como seria uma vida com as prioridades de Natalie. As coisas com certeza seriam mais simples, pelo menos, e as decisões seriam mais claras.

Encontrar um homem, se mudar para um boa casa, ter filhos...

Riley não pode deixar de invejar, pelo menos, a estabilidade de Natalie.

Mesmo assim, sabia que viveria entediada com uma vida assim—e era exatamente por isso que as coisas não andavam bem entre ela e Ryan naquele momento.

Então, John disse:

- Imagino que você vá direto para Quantico depois daqui.

- Sim. Você também, certo?

John concordou. Riley sentiu-se animada ao pensar que ela e John estavam entre os poucos alunos que continuariam na Academia do FBI.

A maioria dos outros estagiários procuraria outras possibilidades. Alguns iriam fazer faculdade em campos que haviam atraído sua atenção durante o programa. Outros começariam em seus novos trabalhos, em laboratórios ou escritórios ali mesmo, no Hoover Building ou em sedes de outras cidades. Eles começariam carreiras no FBI como cientistas da computação, analistas de dados, técnicos—trabalhos com horários regulares que não levavam a situações que colocavam a vida em risco.

Trabalhos que Ryan aprovaria, Riley pensou, melancólica.

Ela quase perguntou para John como ele iria para Quantico. Mas já sabia—ele iria dirigindo seu carro caro. Riley quase considerou pedir uma carona. Afinal, economizaria dinheiro tanto do táxi quanto do trem.

Mas ela não conseguiu fazer isso. Não queria admitir para John que Ryan não a levaria sequer até a estação. John era um cara esperto, e com certeza perceberia que as coisas não estavam bem entre ela e Ryan. Preferiu não falar sobre aquilo—pelo menos não naquele momento.

Ao seguir conversando com John, Riley não pode deixar de notar novamente o quão atraente ele era—atlético, com cabelo curto e um lindo sorriso.

Ele era bem de vida e estava usando um terno caro, mas Riley não via sua riqueza como um ponto negativo. Seus pais eram advogados de sucesso em Washington, muito envolvidos em política, e Riley admirava a escolha de John por uma vida mais humilde, dedicada aos serviços da lei.

Ele era um cara legal, um idealista de verdade, e Riley gostava muito dele. Eles haviam trabalhado juntos para resolver o caso do Palhaço Assassino, comunicando-se secretamente com o assassino para tirá-lo de seu esconderijo.

Parada perto dele e apreciando aquele sorriso e a conversa, Riley imaginou como a amizade entre os dois aumentaria na Academia.

Definitivamente, eles passariam muito tempo juntos.

E eu vou estar longe do Ryan...

Alertou a si mesma para não deixar que sua imaginação fosse tão longe. Provavelmente, os problemas com Ryan eram apenas temporários. Talvez o que eles precisavam era de um tempo separados, para lembrá-los porque haviam se apaixonado lá no início.

Os estagiários terminaram de comer e começaram a ir embora. John acenou para Riley ao sair, e ela sorriu e devolveu o aceno. Ainda ao lado de Rollin, Natalie seguiu mostrando seu anel no caminho para a porta.

Riley disse tchau para Hoke Gilmer, o supervisor do treinamento, e para o diretor assistente Marion Connor. Ambos haviam discursado para os alunos um pouco antes. Depois, ela saiu da sala de recepções e seguiu para o vestiário, para pegar sua mala.

Encontrou-se sozinha no vestiário grande e vazio. Olhou em volta, melancólica. A sala era onde todos os alunos juntavam-se para as reuniões durante o verão. Duvidou que voltaria a pisar naquele lugar.

Ela sentiria falta do programa? Não tinha certeza. Havia aprendido muito, e gostara da experiência como estagiária. Mas sabia que com certeza era hora de dar um passo a frente.

Então por que estou triste? Perguntou-se.

Rapidamente, deu-se conta de que o motivo era como as coisas estavam com Ryan. Lembrou-se de suas palavras ríspidas na noite anterior, antes de ir para a cama.

Aproveite o resto do jantar. Tem cheesecake na geladeira. Estou cansada. Vou tomar banho e deitar.

Eles não haviam conversado desde então. Ryan acordara e saíra para trabalhar antes que Riley tivesse aberto os olhos naquela manhã.

Riley desejou nunca ter falado com ele daquela maneira. Mas qual escolha ele havia lhe deixado? Ele não tinha sido muito sensível com os sentimentos e sonhos dela.

O peso do anel de noivado parecia estranho em seu dedo. Riley segurou sua mão em frente ao rosto e olhou. Ao ver a joia modesta, porém linda, brilhando sob a luz fluorescente do teto, lembrou-se do momento lindo em que Ryan a pedira em casamento.

Parecia ter sido há tanto tempo.

Depois da discussão da noite anterior, Riley perguntou-se—eles ainda estavam noivos? A relação tinha acabado? Eles haviam terminado sem dizer essas palavras? Seria hora dela seguir em frente, como já havia feito com outros caras? Ryan estaria pronto para seguir em frente?

Por um momento, brincou com a ideia de não pegar o táxi e o trem para Quantico—pelo menos não naquele momento. Talvez não fosse atrapalhá-la chegar um dia atrasada para as aulas. Talvez ela pudesse conversar com Ryan novamente quando ele chegasse do trabalho. Talvez eles pudessem deixar tudo certo.

Mas então, ela rapidamente percebeu...

Se eu voltar para o apartamento agora, talvez eu nunca vá para Quantico.

Teve um calafrio só de pensar.

De certa forma, ela sabia que seu destino a esperava em Quantico, e ela não ousaria perdê-lo.

É agora ou nunca, pensou.

Pegou sua mala e saiu do prédio, para então pegar um táxi com destino à estação de trem.




CAPÍTULO QUATRO


Guy Dafoe não gostava de acordar cedo de manhã. Mas pelo menos agora, ele estava trabalhando duro para cuidar do seu próprio gado, e não do rebanho de outros donos. Acordar cedo pelo menos parecia ser um esforço que valia a pena agora.

O sol estava nascendo, e ele sabia que aquele seria um lindo dia. Amava o cheiro do campo e os sons do gado.

Passara muitos anos trabalhando em fazendas e rebanhos maiores. Mas aquela era sua própria terra, seus próprios animais. E ele estava alimentando os animais do jeito certo, sem criá-los artificialmente, com hormônios. Aquilo era um desperdício, e os gados criados assim viviam vidas miseráveis. Ele se sentia bem com o que estava fazendo.

Juntara todas as suas economias para comprar aquela fazenda e alguns gados para começar. Sabia que o risco era grande, mas tinha fé em um futuro próspero na venda de gados alimentados à base de mato. Aquele era um mercado em crescimento.

Os bezerros novos estavam agrupados ao redor do celeiro, onde ele havia os colocado na noite anterior para verificar sua saúde e desenvolvimento. Eles o olhavam e mugiam baixo, como se esperassem pelo dono.

Ele tinha orgulho de sua pequena leva de Black Angus, e às vezes precisava resistir à tentação de apaixonar-se por eles, como se fossem animais de estimação. Aqueles eram animais para consumo, afinal de contas. Seria uma má ideia desenvolver um sentimento individual por qualquer um deles.

Naquele dia, ele queria levar os bezerros ao pasto na beira da estrada. O campo onde eles estavam estava com a grama baixa, e o pasto na beira da estrada estava pronto para ser consumido.

Assim que abriu o portão, percebeu algo estranho do outro lado do pasto. Parecia algum tipo de emaranhado ou pacote perto da estrada.

Resmungou em voz alta...

- Seja o que for, provavelmente não é coisa boa.

Passou pelo portão e voltou a fechá-lo, deixando os bezerros onde estavam. Não queria tirar seus animais dali até descobrir o que ela aquele objeto estranho.

Ao cruzar o campo, ficou mais intrigado. Aquilo parecia um grande emaranhado de arame farpado, pendurado em um poste. Aquele rolo teria batido no caminhão de alguém e terminado ali de alguma forma?

Mas ao chegar mais perto, ele viu que não se tratava de um rolo novo. Era um emaranhado de arame velho, apontado para todas as direções.

Não fazia sentido nenhum.

Quando chegou ao pacote e olhou de perto, percebeu que havia algo dentro.

Inclinou-se em direção ao objeto, olhou, e sentiu um arrepio aterrorizante.

- Cacete! – Gritou, pulando para trás.

Mas talvez fosse só sua imaginação. Forçou-se a olhar novamente.

E ali estava—o rosto de uma mulher, branco e machucado, contorcido em agonia.

Pegou o arame para tirá-lo do rosto dela, mas rapidamente parou.

Não vai adiantar nada, percebeu. Ela está morta.

Cambaleou até o poste seguinte, encostou-se e vomitou.

Seja forte, disse a si mesmo.

Ele precisava ligar para a polícia—já.

Cambaleando, começou a correr em direção a sua casa.




CAPÍTULO CINCO


O agente especial Jake Crivaro estava sentado quando o telefone de seu escritório tocou.

As coisas estavam muito calmas em Quantico desde que ele voltara, no dia anterior.

Naquele momento, sua intuição imediatamente lhe disse...

É um caso novo.

De fato, quando atendeu o telefone, escutou a sonora voz do Agente Especial em Comando Erik Lehl.

- Crivaro, preciso de você no meu escritório agora.

- É para já, senhor – Crivaro disse.

Ele desligou o telefone e pegou sua bolsa, que sempre deixava pronta. O Agente Lehl fora mais direto do que o normal, o que com certeza significava urgência. Crivaro tinha certeza de que teria que ir para algum lugar logo—provavelmente na próxima hora.

Sentiu seu coração batendo um pouco mais rápido ao se apressar pelo corredor. Era um sentimento bom. Depois de dez semanas servindo como mentor no Programa de Honra de Estágio do FBI, aquelas eram as boas-vindas à normalidade.

Durante os primeiro dias do programa de verão, ele fora afastado por um caso de assassinato—o notório “Palhaço Assassino”. Depois disso, havia sido colocado na função de ser o mentor de apenas um dos estagiários—uma jovem talentosa, mas enfurecida, chamada Riley Sweeney, que havia sido brilhante o ajudando no caso.

Mesmo assim, o programa havia passado muito devagar para ele. Não estava acostumado a passar tanto tempo longe do campo.

Quando Jake entrou no escritório de Lehl, o homem esguio levantou-se da cadeira para cumprimentá-lo. Erik Lehl era tão alto que mal parecia caber nos espaços que frequentava. Outros agentes diziam que ele parecia estar sempre vestindo pernas de pau. Para Jake, parecia mais que ele era feito de pernas de pau—algo montado em madeira que parecia coordenar perfeitamente com seus movimentos. Tamanho a parte, aquele homem fora um agente excelente e havia conquistado seu posto na Unidade de Análise Comportamental do FBI.

- Nem perca tempo em sentar, Crivaro – Lehl disse. – Você já vai sair.

Jake manteve-se em pé, obediente.

Lehl olhou para a pasta de papel pardo que segurava e soltou um suspiro pesado. Jake já havia percebido, há tempos, a tendência de Lehl de levar todos os casos ao extremo—inclusive pessoalmente, como se ele fosse sempre diretamente insultado por qualquer tipo de monstruosidade criminosa.

Jake não conseguia se lembrar de ter encontrado Lehl de bom humor.

Afinal de contas...

Nós lidamos com monstros.

E Jake sabia que Lehl não o colocaria naquele caso se não fosse algo realmente hediondo. Jake era especialista em casos que desafiavam a imaginação humana.

Lehl deu a pasta para Jake e disse:

- Temos uma situação horrível em West Virginia. Veja.

Jake abriu a pasta e viu uma foto em preto e branco de um pacote estranho, preso por fita adesiva e arame farpado. O pacote estava pendurado em um poste. Jake levou um momento para perceber que o pacote tinha um rosto e mãos—e que na verdade tratava-se de uma mulher, obviamente morta.

Jake respirou fundo.

Até para ele, aquilo era bizarro demais.

Lehl explicou:

- A foto foi tirada cerca de um mês atrás. O corpo de uma funcionária de um salão de beleza chamada Alice Gibson foi encontrado envolto em arame farpado e pendurado em um poste em uma estrada rural perto de Hyland, em West Virginia.

- Que coisa nojenta – Jake disse. – Como os tiras locais estão lidando com isso?

- Eles têm um suspeito sob custódia – Lehl disse.

Os olhos de Jake se arregalaram de surpresa.

- Então o que faz com que esse seja um caso para o FBI?

- Acabamos de receber uma ligação do chefe de polícia de Dighton, uma cidade perto de Hyland. Outro corpo empacotado como esse foi encontrado hoje de manhã, pendurado em um poste em uma estrada rural.

Jake estava começando a entender. Estar preso no momento do segundo assassinato dava ao suspeito um excelente álibi. E, pelo jeito, parecia que havia um assassino em série que estava apenas começando. Lehl continuou:

- Já dei ordens para não mexerem na cena do crime. Então você precisa ir para lá já. Seriam quatro horas dirigindo, então já coloquei um helicóptero esperando por você na pista de pouso.

Jake estava se virando para sair da sala quando Lehl acrescentou:

- Você quer que eu te dê um parceiro?

Jake voltou a se virar e olhou para Lehl. De certa forma, ele não estava esperando aquela pergunta.

- Não preciso de um parceiro – Jake disse. – Mas vou precisar de uma equipe de peritos. Os tiras na área rural de West Virginia não vão saber como ler a cena do jeito certo.

Lehl concordou e disse:

- Vou montar sua equipe agora mesmo. Eles vão voar com você.

Quando Jake estava saindo pela porta, Lehl disse:

- Agente Crivaro, mais cedo ou mais tarde você vai precisar de outro parceiro.

Jake encolheu os ombros de um jeito estranho e respondeu:

- Se você diz, senhor, tudo bem.

Com uma pitada de reclamação na voz, Lehl respondeu:

- Eu digo. Já é hora de você aprender a lidar bem com os outros.

Jake olhou para ele, surpreso. Era raro que Erik Lehl, um homem de poucas palavras, dissesse mais do que o essencial.

Pelo jeito ele acha mesmo isso, Jake percebeu.

Sem dizer mais nada, Jake saiu da sala e caminhou pelo prédio. Ao caminhar rapidamente, pensou no que Lehl dissera sobre ele ter um novo parceiro. Jake era muito conhecido por ser ríspido no trabalho em campo. Mas ele acreditava que não era duro demais com ninguém, a não ser que a pessoa merecesse.

Seu último parceiro regular, Gus Bollinger, certamente merecera. Ele havia sido demitido por estragar as digitais de uma evidência essencial em um caso chamado “Assassino da Caixa de Fósforos”.

Como consequência, o caso havia esfriado—e Jake odiava casos frios mais do que tudo.

No caso do Palhaço Assassino, Jake trabalhara com um agente de Washington, chamado Mark McCune. McCune não fora tão ruim quanto Bollinger, mas cometera erros estúpidos demais para o gosto de Jake. Ele agradecera pelo fato de a parceria ter durado apenas um caso e de McCune ter ficado na capital.

Ao chegar ao local onde o helicóptero estava esperando, pensou em mais alguém com quem havia trabalhado recentemente.

Riley Sweeney.

Ele havia ficado impressionado com ela desde que Sweeney, uma estudante de psicologia, o ajudara a resolver o caso do assassino da Lanton University. Quando ela se formou, ele mexeu seus pauzinhos e irritou alguns colegas para colocá-la no Programa de Estágio de Honra. E talvez contra sua própria vontade, havia pedido ajuda a ela no caso do Palhaço Assassino.

Sweeney tinha feito um trabalho brilhante. Mas também cometera erros gritantes e estava longe de aprender a obedecer ordens. No entanto, ele conhecia poucos agentes com uma intuição tão poderosa.

Um deles era ele próprio.

Quando Jake abaixou-se sob as hélices e subiu no helicóptero, ele viu a equipe de quatro homens da perícia correndo pela pista. Todos eles subiram, e o helicóptero decolou.

Parecia bobo pensar em Riley Sweeney naquele momento. Quantico era uma base gigante, e mesmo com ela estando na Academia do FBI, seus caminhos provavelmente não se cruzariam novamente.

Jake abriu a pasta para ler novamente o relatório da polícia.



*



Depois de ter passado pelas montanhas apalaches, o helicóptero sobrevoou vários pastos, lotados de gados Black Angus. Quando começou a descer, Jake pode ver onde as viaturas haviam bloqueado um trecho da estrada de cascalho, para manter os curiosos longe da cena do crime.

O helicóptero pousou em um pasto. Jake e os peritos saíram e seguiram em direção a um pequeno grupo de pessoas uniformizadas e várias viaturas e veículos oficiais.

Os policiais e a equipe de examinadores médicos estavam dos dois lados da cerca de arame farpado que seguia pela estrada, na beira do pasto. Jake pode ver o que parecia ser um feixe de arame enrolado, pendurado em um poste.

Um homem pequeno e forte, da altura de Jake e musculoso, deu um passo a frente para cumprimentá-lo.

- Sou Graham Messenger, o comandante da polícia aqui de Dighton – ele disse, apertando a mão de Jake. – Tivemos alguns incidentes terríveis por aqui. Deixe-me lhe mostrar.

O comandante seguiu até o poste e, ali, um estranho pacote estava pendurado, todo enrolado em fita adesiva e arame farpado. Novamente, Jake pode ver um rosto e as mãos, indicando que o pacote na verdade era o corpo de um ser humano. Messenger disse:

- Imagino que você já saiba sobre Alice Gibson, a outra vítima, de Hyland. Isso aqui parece a mesma coisa. Dessa vez, a vítima se chama Hope Nelson.

Crivaro disse:

- Alguém deu queixa do desaparecimento dela antes do corpo ser encontrado?

- Sim, deram sim – Messenger disse, apontando em direção a um homem de meia idade, que parecia atordoado, e estava parado próximo às viaturas. – Hope era casada com Mason Nelson, aquele homem ali—o prefeito da cidade. Ela estava trabalhando no mercado local deles ontem à noite, mas não voltou para casa como Mason esperava. Ele me ligou no meio da noite, muito assustado.

O comandante encolheu os ombros, demonstrando culpa.

- Bom, eu estou acostumado com pessoas desaparecendo e depois aparecendo novamente. Eu disse ao Mason que iria atrás disso hoje se ela não aparecesse. Eu não tinha ideia de...

A voz de Messenger travou. Então, ele suspirou, balançou a cabeça e acrescentou:

- Os Nelson são donos de muitas propriedades aqui em Dighton. Sempre foram pessoas boas e respeitadas. A pobre Hope não merecia isso. Bom, acho que ninguém merece.

Outro homem aproximou-se deles. Ele tinha um rosto comprido, mais velho, cabelos brancos e um bigode espesso. O comandante Messenger o apresentou como Hamish Cross, o líder da equipe de examinadores médicos. Mastigando um pedaço de erva, Cross parecia relaxado e pouco curioso com o que estava acontecendo. Ele perguntou a Jake:

- Você já viu algo assim antes?

Jake não respondeu. A resposta, é claro, era não.

Jake aproximou-se do pacote e examinou mais de perto. Ele disse a Cross:

- Imagino que você tenha trabalhado no outro assassinato.

Cross assentiu, aproximou-se de Jake e girou a erva em sua boca.

- Sim – Cross disse. – E esse aqui é muito parecido. Ela não morreu aqui, isso está claro. Foi raptada, amarrada primeiro com fita adesiva e depois com arame farpado, e sangrou devagar, até a morte. Ou isso, ou foi sufocada antes. Amarrada com tanta força assim, ela não devia estar conseguindo nem respirar direito. Tudo isso aconteceu em outro lugar—não tem nenhum sinal de sangue aqui.

Jake podia ver que o rosto e as mãos estavam brancos como papel, e brilhavam no sol da manhã como pedaços de porcelana. A mulher simplesmente não parecia real, e sim um tipo de escultura grotesca.

Algumas moscas haviam parado em volta do corpo. Ela caminhavam em volta e voltavam a voar. Pareciam não saber o que fazer com o objeto misterioso.

Jake voltou a se levantar e perguntou ao Comandante Messenger:

- Quem encontrou o corpo?

Em resposta, Jake ouviu a voz de um homem:

- O que está acontecendo aqui? Quanto tempo mais isso vai levar?

Jake virou-se e viu um homem de cabelos longos, com barba por fazer, vindo em direção a eles. Ele parecia nervoso, e sua voz estava trêmula. Ele gritou:

- Quando é que vocês vão tirar esse... essa coisa daqui? Isso é um absurdo. Estou tendo que deixar meu gado num pasto ruim por causa disso. Tenho muita coisa para fazer hoje. Quanto tempo mais isso vai levar?

Jake virou-se para Hamish Cross e disse, em voz baixa:

- Você pode tirar o corpo daqui agora mesmo.

Cross assentiu e deu ordens a sua equipe. Então, tirou o homem bravo dali e falou com ele em voz baixa, aparentemente o acalmando.

O Comandante Messenger explicou a Jake:

- Esse é Guy Dafoe, dono do terreno. É um fazendeiro orgânico—um hippie local, podemos dizer. Não está aqui há muito tempo. Acontece que essa área é boa para criar gados orgânicos. As fazendas orgânicas estão abastecendo muito nossa economia local.

O telefone do comandante tocou e ele atendeu a ligação. Escutou por um momento, e depois disse a Jake:

- É Dave Tallhamer, o xerife de Hyland. Você deve saber que há um suspeito sob custódia pelo primeiro assassinato—Philip Cardin. Ele é ex-marido da primeira vítima, um cara ruim que não tinha um álibi bom. Tallhamer achou que ele era o culpado. Mas acho que esse novo assassinato muda tudo, não muda? Dave quer saber se deve soltar o cara.

Jake pensou por um momento, e então respondeu:

- Não até que eu possa conversar com ele.

Com uma expressão de curiosidade, Messenger disse:

- Ué, estar preso em uma cela quando a mulher foi morta basicamente não o inocenta?

Jake segurou um suspiro de impaciência. Ele simplesmente repetiu:

- Eu quero falar com ele.

Messenger concordou e voltou a falar com o xerife no telefone.

Jake não queria ter que explicar nada naquele momento. A verdade é que ele não sabia absolutamente nada sobre o suspeito sob custódia, nem sequer se ele era mesmo suspeito. Pelo que Jake sabia, Philip Cardin poderia ter um parceiro que cometera esse novo assassinato, ou então...

Só Deus sabia o que estava acontecendo.

Naquele ponto da investigação, havia sempre milhares de perguntas e nenhuma resposta. Jake esperava mudar esse panorama em breve.

Enquanto Messenger seguiu falando ao telefone, Jake caminhou até o marido da vítima, que estava encostado em uma viatura, olhando para o nada. Jake disse:

- Senhor Nelson, sinto muito por sua perda. Eu sou o Agente Especial Jake Crivaro, e estou aqui para ajudar a trazer justiça ao assassino da sua mulher.

Nelson assentiu levemente, como se mal soubesse com quem estava falando. Jake disse, com sua voz firme:

- Senhor Nelson, você tem alguma ideia de quem pode ter feito isso? Ou por quê?

Nelson olhou para ele com uma expressão confusa.

- Quê? – Ele disse. Então, repetiu: - Não, não, não.

Jake sabia que não fazia sentido fazer mais perguntas ao homem, pelo menos não naquele momento. Ele estava claramente em estado de choque, e aquilo não era surpreendente. A esposa dele não só estava morta, mas havia sido assassinada de um jeito grotesco.

Jake voltou à cena do crime, onde os peritos já estavam trabalhando.

Ele olhou em volta, notando como o local parecia ser isolado. Pelo menos, não havia uma multidão de curiosos por perto.

E até então, nenhum sinal da mídia.

Mas então, ele ouviu o som de outro helicóptero. Olhou em volta e viu o helicóptero de uma TV, descendo em direção ao campo.

Jake suspirou profundamente e pensou...

Esse caso vai ser complicado.




CAPÍTULO SEIS


Riley encheu-se expectativa quando o orador se posicionou em frente aos cerca de 200 recrutas. O homem parecia pertencer a uma época diferente, com seu terno fino, gravata slim preta e corte de cabelo bagunçado. Ele lembrava Riley de fotos que ela havia visto de astronautas dos anos 60. Ao mexer em algumas anotações, ele olhou para seu público, e ela esperou ouvir palavras de boas-vindas e elogios.

O Diretor da Academia Lane Swanson começou exatamente como ela esperava.

- Eu sei que todos vocês trabalharam duro para se preparar para esse dia.

Ele acrescentou com um sorriso de canto de boca.

- Bom, deixe-me dizer para vocês agora mesmo—vocês não estão preparados. Nenhum de vocês.

Um suspiro coletivo foi ouvido pelo auditório e Swanson parou por um momento, para que suas palavras ecoassem. Então, ele continuou:

- É isso o que esse programa de 20 semanas faz—preparar vocês para começar uma vida no FBI. E parte da preparação é conhecer os limites da preparação, como lidar com o inesperado, aprender a pensar por si próprio. Sempre lembrem—o FBI é chamado de “o lado Oeste da força da lei”, e isso tem motivos. Nossos padrões são altos. Nem todos vocês vão conseguir passar por isso. Mas os que passarem estarão preparados ao máximo para as tarefas que lhes esperam.

Riley concordou com cada palavra que Swanson disse sobre os padrões da academia em promover segurança, uniformidade, responsabilidade e disciplina. Então, ele começou a falar sobre o currículo rigoroso—cursos sobre tudo, de leis e ética a interrogatórios e coleta de evidências.

Riley sentiu-se mais e mais ansiosa a cada palavra, e deu-se conta:

Não estou mais em um programa de verão.

O programa de verão parecia um acampamento adolescente se comparado ao que ela iria enfrentar agora.

Seria tudo aquilo muito para ela?

Aquela tinha sido uma má ideia?

Por um momento, ao olhar em volta para os outros recrutas, sentiu-se como uma criança. Quase ninguém ali tinha a idade dela. Percebeu, pelos rostos, que todos ali tinham pelo menos a mesma experiência que ela, e muitos tinham muito mais. A maioria tinha mais do que 23 anos, e alguns pareciam ter a idade máxima para o recrutamento, 37.

Ela sabia que eles tinham todos os tipos de bagagem e vinham de várias áreas diferentes. A maioria havia sido agente de polícia, e muitos outros haviam servido o exército. Outras haviam trabalhado como professores, advogados, cientistas, empresários, e muitas outras profissões, vez ou outra. Mas todos eles tinham algo em comum—um compromisso forte de passar o resto de suas vidas servindo às forças da lei.

Poucas pessoas ali haviam saído do programa de estágio. John Welch, que estava sentado alguma fileiras à frente dela, era um deles. Como Riley, ele era uma exceção à regra de que todos os recrutas precisavam de pelo menos três anos de experiência para entrar na academia.

Swanson terminou seu discurso:

- Estou ansioso para apertar a mão daqueles que completarem o programa aqui em Quantico. Nesse dia, vocês serão empossados pelo Diretor do FBI em pessoa, Bill Cormack. Boa sorte a todos vocês.

Então, ele acrescentou com uma risada:

- E agora—ao trabalho!

O instrutor tomou o lugar de Swanson no púlpito e começou a chamar os nomes dos recrutas—“NATs”, eles eram chamados, o que significava “Novos Agentes em Treinamento”. Quando os NATs responderam a seus nomes, o instrutor criou pequenos grupos, que participariam de aulas juntos.

Enquanto esperava para ter seu nome chamado, Riley lembrou-se de quão tedioso havia sido tudo desde que ela chegara ali, no dia anterior. Antes de entrar, ela precisou preencher muitos formulários, comprar um uniforme e solicitar um dormitório.

Aquele dia, porém, já estava sendo bem diferente.

Sentiu uma pontada ao ouvir o nome de John Welch ser chamado por um grupo que não era o dela. Poderia ser bom, ela pensou, ter um amigo ao lado nas semanas que estavam por mim. Por outro lado...

Está bom assim também.

Dados seus confusos sentimentos por John, a presença dele poderia se tornar uma distração.

Riley aliviou-se, no entanto, ao ver que estava no mesmo grupo de Francine Dow, a colega de quarto com quem ela fora colocada no dia anterior. Frankie, como ela preferia ser chamada, era mais velha que Riley, por volta dos 30 anos—e era uma ruiva cheia de espírito que, por suas características, parecia já ter muita experiência na vida.

Riley e Frankie ainda não haviam tido tempo para conversar e se conhecer. No dia anterior, elas apenas arrumaram suas coisas no dormitório, e tinham se separado na hora do café da manhã.

Finalmente, o grupo de NATs de Riley juntou-se no pátio de entrada com o Agente Marty Glick, o instrutor do grupo. Glick parecia ter trinta e poucos anos. Ele era alto e tinha o corpo de um jogador de futebol musculoso. Tinha uma expressão séria, que pouco dizia sobre ele.

Ele disse ao grupo:

- Temos um dia e tanto pela frente. Mas antes de começarmos, tem algo que eu quero mostrar a vocês.

Glick os levou para o hall de entrada principal, uma sala enorme com a marca do FBI no meio de seu piso de mármore, além de um distintivo em bronze em uma parede com uma faixa preta em volta. Riley havia passado por ali quando chegara, e sabia que aquilo era chamado de Hall de Honra. Era um local solene, onde agentes mártires do FBI eram eternizados.

Glick levou-os a uma parede com duas telas de retratos e nomes. Entre as telas, havia uma placa que dizia:



Graduados na Academia Nacional mortos em combate,

em resultado de uma ação adversa.



Alguns suspiros foram ouvidos entre o grupo enquanto eles caminhavam pelo local. Glick não disse nada por um momento, deixando que todos sentissem o impacto emocional do local. Finalmente, ele disse, quase em um sussurro:

- Não decepcionem eles.

Ele levou o grupo de NATs para fora da sala, para começar suas atividades, e Riley olhou novamente para as fotos na parede. Ela não pode deixar de se perguntar...

Minha foto vai estar aí um dia?

Obviamente, era impossível saber. Ela só podia ter certeza de que os dias seguintes trariam desafios que ela nunca enfrentara na vida. Sentiu-se desafiada por aquela sensação de responsabilidade para com o agentes mártires.

Não posso decepcioná-los, pensou.




CAPÍTULO SETE


Com um carro emprestado e em alta velocidade, Jake dirigiu pelas ruas de cascalho de Dighton em direção a Hyland. O comandante Messenger havia lhe emprestado o carro para que Jake pudesse sair antes que o helicóptero da imprensa aterrissasse.

Ele não tinha ideia do que esperar em Hyland, mas estava feliz por ter escapado da mídia. Odiava ser assediado por repórteres que o enchiam de perguntas que ele não podia responder. A mídia gostava de se saborear com assassinatos bizarros em locais bucólicos. O fato da vítima ser a esposa do prefeito com certeza tornava aquela história ainda mais irresistível para eles.

Ele dirigiu com a janela aberta, aproveitando o ar fresco. Messenger havia configurado um mapa, e Jake estava aproveitando o pequeno tour pelas estradas do interior. O homem que seria interrogado não iria a lugar algum antes que Jake chegasse.

Claro, o suspeito na prisão de Hyland poderia não ter nenhuma relação com nenhum dos dois crimes. Ele estava preso no momento da morte da segunda vítima.

Não que isso prove a inocência dele, Jake pensou.

Sempre existia a possibilidade de haver uma equipe de dois ou mais em ação. Hope Nelson poderia ter sido raptada por um imitador, seguindo os passos do assassinato de Alice Gibson.

Nenhuma possibilidade surpreenderia Jake. Ele já havia trabalhado em casos mais estranhos que aquele em sua longa carreira.

Quando estacionou em Hyland, a primeira coisa da qual se deu conta foi como a cidade parecia pequena e quieta—muito menor do que Dighton, com uma população de cerca de mil pessoas. A placa pela qual esse acabara de passar indicava que apenas algumas centenas de pessoas moravam aqui.

O tamanho mínimo para ser emancipada, Jake pensou.

A estação de polícia era uma entrada pequena, na pacata rua comercial. Ao estacionar na estrada, Jake viu um homem obeso e uniformizado encostado na porta, como se não tivesse mais nada para fazer.

Jake saiu do carro. Ao caminhar em direção à estação, percebeu que o policial gigante estava olhando diretamente para alguém do outro lado da rua. Era um homem vestido um jaleco branco, médico, parado ali com seus braços cruzados. Jake teve a estranha impressão de que os dois estavam parados, olhando um para o outro, por um bom tempo.

O que está acontecendo aqui? Ele se perguntou.

Caminhou até o homem uniformizado na porta e lhe mostrou seu distintivo. O homem apresentou-se como o xerife David Tallhamer. Ele estava mastigando um maço de tabaco, e disse a Jake em um tom monótono:

- Entre, vou lhe apresentar nosso convidado—Phil Cardin é o nome dele.

Quando Tallhamer entrou, Jake olhou para trás e viu o homem de jaleco branco ainda parado, no mesmo lugar.

Dentro da estação, Tallhamer apresentou Jake para um policial que estava sentado com os pés na mesa, lendo um jornal. O tira acenou para Jake e seguiu lendo seu noticiário.

O pequeno escritório parecia ter uma estranha sensação de tédio. Se Jake não tivesse essa informação, ele jamais imaginaria que aqueles dois policiais estavam lidando com um caso de assassinato grotesco.

Tallhamer levou Jake por uma porta nos fundos da estação que levava à prisão. A cadeia tinha apenas duas celas, uma de frente para outra em um corredor estreito. As duas estavam ocupadas naquele momento.

Em uma cela, um homem com um terno velho estava deitado, roncando alto em sua cama. No outro lado, um homem com cara de mal-humorado, de jeans e camiseta, estava sentado em seu beliche.

Tallhamer pegou suas chaves e destrancou a cela do prisioneiro sentado, dizendo:

- Você tem visita, Phil. Um verdadeiro Agente do FBI – ele disse.

Jake entrou na cela e Tallhamer ficou parado, do lado de fora, mantendo a cela aberta.

Phil Cardin apertou seu olhar em direção a Jake e disse:

- FBI, é? Bom, talvez você possa ensinar esse tira aí a fazer o trabalho dele. Eu não matei ninguém, muito menos minha ex. Se eu tivesse feito isso, seria o primeiro a me gabar. Então deixe eu ir embora logo.

Jake perguntou-se:

Alguém já falou para ele do outro assassinato?

Ele imaginou que Cardin não sabia daquilo. Percebeu que era melhor deixar assim, pelo menos por enquanto. Jake disse a ele:

- Tenho algumas perguntas, senhor Cardin. Você quer a presença de um advogado?

- Ele já está presente—de certa forma – Cardin disse.

Depois, gritou:

- Ei, Ozzie, por que você não acorda? Preciso de um representante legal. Faça com que meus direitos não sejam violados. Embora eu ache que já tenham sido, seu incompetente bêbado.

O homem de terno velho na outra cela sentou-se e esfregou os olhos.

- Que porra você está gritando aí? – Ele murmurou. – Você não vê que eu estou tentando dormir? Cara, estou com uma dor de cabeça do cacete.

Jake ficou de queixo caído. O xerife gordo riu ao perceber a surpresa do agente. Tallhamer disse:

- Agente Crivaro, gostaria que você conhecesse Oswald Hines, o único advogado da cidade. Ele é chamado para funções de defesa pública às vezes. Ele foi preso um tempo atrás por desrespeito à ordem e excesso de álcool. Conveniente para todos, porque agora ele fica sempre aqui. E isso não é nada incomum.

Oswald Hines tossiu e gemeu.

- É, acho que é verdade – ele disse. – Isso aqui é como minha segunda casa—ou um segundo escritório, podemos dizer. Em horas como essa, é um local conveniente. Eu odiaria ter que ir a outro lugar do jeito que estou me sentindo agora.

Hines respirou fundo, devagar, quase sem olhar para as outras pessoas ali. Então, ele disse a Jake:

- Escute, Agente Sei-Lá-O-Que. Como advogado de defesa desse homem, eu devo insistir que vocês o deixem em paz. Já foram feitas muitas perguntas para ele na última semana. Ele está sendo mantido preso sem motivo. – O advogado bocejou e continuou. – Na verdade, eu esperava que ele já tivesse sido solto. É melhor ele já ter saído quando eu acordar novamente.

O advogado começou a se deitar novamente, mas o xerife disse:

- Fique acordado, Ozzie. Você tem trabalho a fazer. Vou pegar uma xícara de café para você. Você quer que eu abra sua cela para que você fique mais perto do seu cliente?

- Não, estou bem aqui – Ozzie disse. – Mas corra com esse café. Você sabe como eu gosto.

Rindo, o xerife Tallhamer disse:

- Como é mesmo?

- Em qualquer xícara – Ozzie murmurou. – Vá. Agora.

Tallhamer voltou para seu escritório. Jake ficou parado, olhando para o preso por um instante. Finalmente, ele disse:

- Senhor Cardin, imagino que você não tenha um álibi para o momento do assassinato de sua ex-mulher.

Cardin encolheu os ombros e respondeu:

- Eu não sei de onde tiraram isso. Eu estava em casa. Jantei comida congelada, assisti TV até tarde, dormi o resto da noite. Eu não estava nem perto de onde tudo aconteceu—seja já onde for.

- Alguém pode comprovar isso? – Jake disse.

Cardin sorriu e disse:

- Não, mas ninguém poderia provar se eu estava sozinho, não é?

Observando a malícia na expressão de Cardin, Jake se perguntou:

Ele é culpado e está me provocando?

Ou ele só não entendeu a seriedade dessa situação?

Jake perguntou:

- Como era sua relação com sua ex-mulher na época do assassinato?

O advogado intrometeu-se rapidamente.

- Phil, não responda essa pergunta.

Cardin olhou para a outra cela e disse:

- Ah, cala a boca Ozzie. Não vou falar para ele nada diferente do que eu já disse ao xerife centenas de vezes. Não vai fazer diferença nenhuma. – Então, ele olhou para Jake e disse, em um tom sarcástico. - As coisas estavam muito bem entre Alice e eu. Nosso divórcio foi totalmente amigável. Eu não teria machucado um fio de cabelo daquele rosto lindo.

O xerife havia acabado de retornar e entregou a xícara de café ao advogado.

- Amigável, claro – Tallhamer disse a Cardin. – No dia do assassinato, você entrou gritando no salão de beleza em que ela trabalhava, dizendo na frente das clientes que ela tinha arruinado sua vida, que você a odiava e queria ela morta. É por isso que você está aqui.

Jake colocou as mãos no bolso e disse:

- Você se importaria em me falar sobre isso?

Cardin olhou dentro dos olhos de Jake e disse, apertando os dentes:

- Foi tudo culpa dela.

Jake arrepiou-se ao sentir o ódio na voz dele.

É um verdadeiro idiota, pensou.

Ele já havia lidado com muitos assassinos que não conseguiam assumir a responsabilidade por qualquer coisa que dava errado em suas vidas. Jake sabia que o ressentimento de Cardin dificilmente provava sua culpa. Mas ele já podia entender completamente porque Cardin havia sido preso.

Ainda assim, Jake sabia que mantê-lo preso era outro problema, agora que havia acontecido outro assassinato. Pelo que o Comandante Messenger dissera a Jake em Dighton, não havia nenhuma evidência física ligando Cardin ao crime. A única evidência era o comportamento ameaçador, especialmente a cena no salão onde Alice trabalhara. Tudo era circunstancial.

A não ser que ele diga algo que o incrimine aqui, agora.

Jake disse a Cardin:

- Pelo que eu vejo você é um ex-marido que não está exatamente de luto.

Cardin grunhiu e disse:

- Talvez eu estivesse se Alice não tivesse me feito tão mal. Passou nosso casamento todo dizendo que eu era um fracassado—como se aquele sapo com quem ela casou depois fosse muito melhor. Bom, eu não era um fracassado até ela se divorciar de mim. Foi só aí que as coisas começaram a dar errado para mim. Não é justo...

Jake escutou Cardin seguir reclamando de sua ex. A amargura e a dor no coração dele eram muito perceptíveis. Jake suspeitava que Cardin nunca havia conseguido deixar de amar Alice. Parte dele parecia ainda ter esperanças de que eles pudessem terminar juntos.

No entanto, esse amor dele por ela era claramente doente e obsessivo—nenhum pouco saudável, em nenhum aspecto. Jake conhecia muitos assassinos que haviam agido exatamente movidos por esse tipo de sentimento, que chamavam de amor.

Cardin parou por um momento, e então disse:

- Me diga—é verdade que encontraram o corpo dela envolto em arame farpado? – Balançando a cabeça e sorrindo, ele acrescentou: - Cara, isso foi... foi criativo.

Jake chocou-se um pouco com tais palavras.

O que exatamente Cardin queria dizer?

Ele estava admirando o trabalho manual de outra pessoa?

Ou estava maliciosamente elogiando seu próprio esforço?

Jake percebeu que era hora de tentar abordá-lo sobre o outro crime. Se Cardin fosse cúmplice de quem havia matado Hope Nelson, talvez Jake poderia fazê-lo admitir. Mas ele sabia que precisava tocar no assunto com cuidado. Ele disse:

- Senhor Cardin, você conhecia uma mulher chamada Nope Nelson, de Dighton?

Cardin coçou a cabeça e respondeu.

- Nelson... esse nome é familiar. Não é a mulher do prefeito, ou algo assim?

Encostado na grade do lado de fora da cela, o Xerife Tallhamer grunhiu e disse:

- Ela esta morta, é isso que ela está.

Jake lutou para não deixar transparecer seu desânimo. Ele não planejara contar a verdade a Cardin tão diretamente. Esperava levar um tempo, para tentar descobrir se ele já sabia do que acontecera com Hope Nelson.

O advogado na outra cela levantou-se.

- Morta? – Ele disse. – De que porra vocês estão falando?

Tallhamer cuspiu um pouco de tabaco no chão de concreto e disse:

- Ela foi morta ontem à noite—exatamente do mesmo jeito que Alice. Amarrada em um poste, empacotada com arame farpado.

Parecendo completamente sóbrio de repente, Ozzie esbravejou:

- Então por que diabos vocês ainda estão segurando meu cliente? Não vão me dizer que vocês acham que ele matou outra mulher ontem enquanto estava preso aqui.

Jake desabou por dentro. Sua tática havia dado errado, e ele sabia que qualquer outra pergunta não faria sentido. Mesmo assim, ele perguntou novamente a Cardin:

- Você conhecia Hope Nelson?

- Não acabei de falar que não? – Cardin disse, um pouco surpreso.

Mas Jake não conseguiu decifrar se aquela surpresa era real ou não.

Ozzie segurou as grades de sua própria cela e gritou:

- É melhor vocês soltarem meu cliente agora, ou vocês vão enfrentar um bom processo!

Jake segurou um suspiro.

Ozzie estava certo, é claro, mas...

Ele escolheu ser competente de repente.

Jake virou-se para Tallhamer e disse:

- Solte Cardin. Mas fique bem de olho nele.

Tallhamer chamou seu parceiro para que ele trouxesse os pertences de Cardin. Quando o xerife abriu a cela para que Cardin saísse, ele virou-se para Ozzie e disse:

- Você também quer ir?

Ozzie bocejou e deitou-se em seu beliche.

- Não. Tive um belo dia de trabalho. Vou dormir mais um pouco—enquanto você não precisar da cela para por outra pessoa.

Tallhamer piscou e disse:

- Sinta-se à vontade.

Ao sair da estação com Tallhamer e Cardin, Jake viu que o homem de jaleco branco ainda estava ali, do outro lado da rua, exatamente no mesmo lugar que antes.

De repente, o homem começou a se mexer, atravessando a rua em direção a eles.

Tallhamer murmurou para Jake:

- Lá vem problema.




CAPÍTULO OITO


Jake analisou o homem que estava correndo em direção a eles no lado de fora da estação policial. Ele viu raiva no rosto do homem, mas não sentiu que era o alvo daquele sentimento. Percebeu, claramente, que Tallhamer não estava pronto para o que estava por vir.

No mesmo instante, Cardin havia se virado e estava correndo rapidamente pela calçada.

O homem nervoso atacou Tallhamer. Apontando um braço na direção de Cardin, ele gritou:

- Eu exijo que esse merda volte a ser preso!

Aparentemente imune à raiva do homem, o xerife Tallhamer calmamente apresentou Jake a Earl Gibson, o único médico da cidade, marido de Alice Gibson.

Jake esticou a mão e ofereceu suas condolências, mas os braços do médico ainda estavam balançando em círculos enquanto ele falava com Tallhamer. Jake percebeu que o Dr. Gibson era um homem simples, e seu rosto tinha muitas marcas, ainda mais visíveis por sua onda de fúria. Ele lembrou de que Cardin havia o descrito como “aquele sapo com que ela casou depois”.

De fato, Cardin era um cara muito bonito se comparado ao médico.

Jake imaginou que Earl Gibson devia ter outras virtudes, que não sua aparência, que teriam atraído a mulher agora morta. Afinal de contas, Gibson era médico, e o ex-marido de Alice não passava de um cozinheiro fracassado.

Provavelmente, uma escolha muito fácil em uma cidade com poucas opções.

A raiva de Gibson só aumentou quando ele descobriu quem Jake era.

- O FBI! Por que é que o FBI tem que estar aqui? Vocês já pegaram o assassino da minha mulher! Vocês soltaram ele! Não tem um júri no mundo que diria que ele não é culpado. E agora vocês soltaram ele!

O xerife Tallhamer arrastou seus pés e disse em um tom paciente, quase com pena:

- Earl, nós falamos sobre isso pouco tempo atrás, não?

O Dr. Gibson disse:

- Sim, falamos. E por isso eu fiquei esperando. Eu tinha que ver com meus próprios olhos. Eu queria impedir.

- Nós tivemos que soltar ele, e você sabe porque – Tallhamer disse. – Outra mulher foi morta ontem à noite em Dighton, do mesmo jeito que Alice foi. Eu posso garantir onde Phil Cardin estava ontem à noite, e com certeza não era nem perto de Dighton. Ele não matou aquela mulher, e agora não temos motivos para acreditar que ele tenha matado Alice.

- Não tem motivos! – Gibson disse, explodindo de raiva. – Ele ameaçou a vida dela no mesmo dia. E não venha me falar besteiras sobre a vítima de Dighton e sobre como Phil Cardin não matou ela. Nós dois sabemos que existe um suspeito viável para o outro crime.

Jake se interessou pela conversa de repente.

- Um suspeito viável? – Ele perguntou.

Gibson riu para o xerife e disse:

- Você não contou para ele, contou?

- Me contou o que? – Jake perguntou.

- Sobre o irmão de Phil Cardin, Harvey – Gibson disse a Jake. – Ele defende Phil em tudo. Ele também ameaçou Alice. Ele ligou para ela e disse que ele e Phil iriam se vingar. Ligou no dia em que ela foi morta. E seja lá onde ele estava ontem à noite, não era numa cela. Foi ele que matou aquela mulher em Dighton. Apostaria minha vida nisso.

Jake estava completamente surpreso. Ele perguntou a Gibson:

- Por que você acha que ele mataria alguém em outra cidade?

- Os motivos dele, você quer saber? Talvez ele tinha algo pessoal contra aquela mulher. Ele anda bastante pelo estado, então talvez tenha se envolvido com ela, e então seguido o exemplo do irmão. Mas acho que é mais provável que ele tenha feito isso para proteger o irmão—para fazer as pessoas pensarem que Phil não matou Alice.

Tallhamer suspirou e disse:

- Earl, nós já falamos sobre isso também, não falamos? Nós dois conhecemos Harvey Cardin a vida inteira. Ele viaja por aí porque é um encanador itinerante. Ele fala besteiras às vezes, mas não é como o irmão. Ele não mataria uma mosca, muito menos alguém de um jeito tão horrível.

Jake forçou sua mente para tentar entender o que estava escutando.

Ele desejou que Tallhamer tivesse lhe contado sobre Harvey Cardin desde o início.

Tiras de cidades pequenas, pensou. Alguns deles têm tanta certeza de que sabem tudo sobre todo mundo que podem deixar passar algo importante.

Jake disse ao xerife Tallhamer:

- Quero falar com Harvey Cardin.

O xerife encolheu os ombros, como se achasse que aquilo seria uma perda de tempo. Ele disse:

- Bom, se você quer, tudo bem. Harvey mora só a algumas quadras daqui. Vou levar você lá.

Ao caminhar com o xerife, Jake viu que Gibson estava os seguindo. A última coisa que ele precisava naquele momento era de um viúvo cheio de raiva atrapalhando seu interrogatório com um possível suspeito.

Da maneira mais delicada possível, ele disse:

- Dr. Gibson, o xerife e eu precisamos que você nos deixe fazer nosso trabalho.

Quando Gibson abriu sua boca para protestar, Jake acrescentou:

- Quero falar com você em breve. Onde posso lhe encontrar?

Gibson ficou em silêncio por um momento.

- Estarei no meu consultório – ele disse. – O xerife pode lhe dizer onde fica.

Gibson virou-se e saiu, ainda com raiva.

Jake e Tallhamer caminharam uma curta distância até chegarem a uma pequena casa branca, onde Harvey Cardin morava. Era um cabana velha, com um gramado descuidado.

Tallhamer bateu na porta da frente. Ninguém respondeu, ele bateu novamente, e seguiu sem resposta. O xerife disse:

- Provavelmente ele está fora, talvez trabalhando em outra cidade. Vamos ter que falar com ele outra hora.

Jake não queria esperar “outra hora”. Ele olhou por um dos vidros na porta da frente. Pode ver alguns móveis simples e pouca coisa lá dentro—sem nenhuma decoração especial. Parecia o tipo de lugar que era alugado mobiliado, mas não havia sinais de que alguém morava ali.

Jake imaginou que Harvey Cardin estava de fato fora da cidade...

Mas ele voltaria em algum momento?

Seus pensamentos foram interrompidos pela voz de um homem, na porta ao lado.

- Posso ajudá-lo com algo, xerife?

Jake virou-se e viu um homem parado no gramado. Tallhamer disse ao homem:

- Esse agente do FBI e eu estamos procurando Harvey Cardin.

O homem balançou a cabeça e disse:

- Você está sem sorte, eu acho. Eu vi ele carregando um caminhão há uma semana—logo depois que o irmão dele foi preso por matar Alice Gibson. Parecia que ele estava levando tudo o que tinha, que não era muita coisa. Perguntei para onde ele ia, e ele disse ‘qualquer lugar que não seja Hyland. Estou cheio dessa porra de cidade’.

Jake sentiu um alarme tocando em sua mente.

Um possível suspeito havia desaparecido.

- Vamos lá – Jake disse a Tallhamer. – Precisamos falar com algumas pessoas.




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