Razão Para Temer 
Blake Pierce


Um mistério de Avery Black #4
Uma história dinâmica que prende a atenção desde o primeiro capítulo e não te solta mais. Midwest Book Review, Diane Donovan (sobre Once Gone) Do autor de suspenses número 1, Blake Pierce, a nova obra-prima do suspense psicológico: RAZÃO PARA TEMER (Um mistério de Avery Black – Livro 4) . Quando um corpo aparece flutuando sob o rio Charles, a polícia de Boston chama sua detetive de homicídios mais brilhante e controversa – Avery Black – para resolver o caso. Mas Avery não leva muito tempo para descobrir que aquilo não foi um assassinato isolado, e sim algo feito por um assassino em série. Outros corpos começam a aparecer, todos com algo em comum: eles aparecem presos no gelo. Seria isso uma coincidência ou algum tipo de assinatura de um assassino particularmente perturbado?Com a cobertura da mídia e sofrendo pressão de seus chefes, Avery luta para desvendar o caso inexplicável, bizarro até para sua mente brilhante. Ao mesmo tempo, ela tenta deixar sua própria depressão de lado, enquanto sua vida pessoal para por um novo momento de baixa. Tudo isso enquanto ela tenta entrar na mente de um assassino psicótico e elusivo. O que Avery encontrará chocará até ela própria, e a fará perceber que nada é o que parece – e a pior escuridão pode, às vezes, estar muito próxima de nós. Uma história psicológica obscura com um suspense perturbador, RAZÃO PARA TEMER é o livro 4 de uma nova série fascinante e de uma nova personagem amada, que o farão ler páginas e páginas noite adentro. O livro 5 da série Avery Black estará disponível em breve. Uma obra-prima de suspense e mistério. Pierce fez um trabalho magnífico criando personagens com lados psicológicos tão bem descritos que nos fazem sentir dentro de suas mentes, acompanhando seus medos e celebrando seu sucesso. A história é muito interessante e vai lhe entreter durante todo o livro. Cheio de reviravoltas, este livro vai lhe manter acordado até que você chegue à última página. Books and Movie Reviews, Roberto Mattos (sobre Once Gone)







R A Z Ã O P A R A T E M E R



(UM MISTÉRIO DE AVERY BLACK – LIVRO 4)



B L A K E P I E R C E


Blake Pierce



Blake Pierce é o autor da série de enigmas RILEY PAGE, com doze livros (com outros a caminho). Blake Pierce também é o autor da série de enigmas MACKENZIE WHITE, composta por oito livros (com outros a caminho); da série AVERY BLACK, composta por seis livros (com outros a caminho), da série KERI LOCKE, composta por cinco livros (com outros a caminho); da série de enigmas PRIMÓRDIOS DE RILEY PAIGE, composta de dois livros (com outros a caminho); e da série de enigmas KATE WISE, composta por dois livros (com outros a caminho).



Como um ávido leitor e fã de longa data do gênero de suspense, Blake adora ouvir seus leitores, por favor, fique à vontade para visitar o site www.blakepierceauthor.com (http://www.blakepierceauthor.com) para saber mais a seu respeito e também fazer contato.



Copyright © 2017 por Blake Pierce. Todos os direitos reservados. Exceto conforme permitido na Lei de Direitos Autorais dos Estados Unidos (US. Copyright Act of 1976), nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, distribuída ou transmitida de nenhuma forma e por motivo algum, ou colocada em um sistema de dados ou sistema de recuperação sem permissão prévia do autor. Este e-book está licenciado apenas para seu aproveitamento pessoal. Este e-book não pode ser revendido ou dado a outras pessoas. Se você gostaria de compartilhar este e-book com outra pessoa, por favor compre uma cópia adicional para cada beneficiário. Se você está lendo este e-book e não o comprou, ou ele não foi comprado apenas para uso pessoal, então por favor devolva-o e compre seu próprio exemplar. Obrigado por respeitar o trabalho árduo do autor. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, empresas, organizações, lugares, eventos e acontecimentos são obras da imaginação do autor ou serão usadas apenas na ficção. Qualquer semelhança com pessoas de verdade, em vida ou falecidas, é totalmente coincidência. Imagem de capa: Copyright ozgurdonmaz, usada sob licença de istock.com.


LIVROS DE BLAKE PIERCE



SÉRIE UM THRILLER PSICOLÓGICO DE JESSIE HUNT

A ESPOSA PERFEITA (Livro #1)

O PRÉDIO PERFEITO (Livro #2)



SÉRIE UM THRILLER PSICOLÓGICO DE CHLOE FINE

A PRÓXIMA PORTA (Livro #1)

A MENTIRA MORA AO LADO (Livro #2)



SÉRIE UM MISTÉRIO DE KATE WISE

SE ELA SOUBESSE (Livro #1)

SE ELA VISSE (Livro #2)

SE ELA CORRESSE (Livro #3)



SÉRIE OS PRIMÓRDIOS DE RILEY PAIGE

ALVOS A ABATER (Livro #1)

À ESPERA (Livro #2)

A CORDA DO DIABO (Livro #3)

AMEAÇA NA ESTRADA (Livro #4)



SÉRIE UM MISTÉRIO DE RILEY PAIGE

SEM PISTAS (Livro #1)

ACORRENTADAS (Livro #2)

ARREBATADAS (Livro #3)

ATRAÍDAS (Livro #4)

PERSEGUIDA (Livro #5)

A CARÍCIA DA MORTE (Livro #6)

COBIÇADAS (Livro #7)

ESQUECIDAS (Livro #8)

ABATIDOS (Livro #9)

PERDIDAS (Livro #10)

ENTERRADOS (Livro #11)

DESPEDAÇADAS (Livro #12)

SEM SAÍDA (Livro #13)



SÉRIE UM ENIGMA DE MACKENZIE WHITE

ANTES QUE ELE MATE (Livro #1)

ANTES QUE ELE VEJA (Livro #2)

ANTES QUE ELE COBICE (Livro #3)

ANTES QUE ELE LEVE (Livro #4)

ANTES QUE ELE PRECISE (Livro #5)

ANTES QUE ELE SINTA (Livro #6)

ANTES QUE ELE PEQUE (Livro #7)

ANTES QUE ELE CACE (Livro #8)



SÉRIE UM MISTÉRIO DE AVERY BLACK

RAZÃO PARA MATAR (Livro #1)

RAZÃO PARA CORRER (Livro #2)

RAZÃO PARA SE ESCONDER (Livro #3)

RAZÃO PARA TEMER (Livro #4)

RAZÃO PARA SALVAR (Livro #5)

RAZÃO PARA SE APAVORAR (Livro #6)



SÉRIE UM MISTÉRIO DE KERI LOCKE

RASTRO DE MORTE (Livro #1)

RASTRO DE UM ASSASSINO (Livro #2)

UM RASTRO DE IMORALIDADE (Livro #3)

UM RASTRO DE CRIMINALIDADE (Livro #4)

UM RASTRO DE ESPERANÇA (Livro #5)


ÍNDICE

PRÓLOGO (#u32fbfc27-b7b6-5899-84df-ce2425b655b3)

CAPÍTULO UM (#u1f27f83f-004c-5791-b4a9-d2cc9a79e011)

CAPÍTULO DOIS (#u510de001-5f64-58c4-81a2-a522d64ce9fa)

CAPÍTULO TRÊS (#u89a54f3f-33c6-5476-8435-dee839f8a5b5)

CAPÍTULO QUATRO (#u9839a799-a220-57b5-8a57-b14ea7120e1f)

CAPÍTULO CINCO (#u44b19a00-8d86-5aaa-b6ad-63ee4f042ff3)

CAPÍTULO SEIS (#u105dc23b-c332-50f6-8c88-70a3a1f62c96)

CAPÍTULO SETE (#u03b8c9f0-40a2-52b1-9bd3-408e6c8fa1ff)

CAPÍTULO OITO (#u8f5526cc-e42d-5fac-90a2-3669e71dac78)

CAPÍTULO NOVE (#u1226e4ce-e43d-5db7-9f51-5efc7f28d8bd)

CAPÍTULO DEZ (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO ONZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DOZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TREZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUATORZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUINZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZESSEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZESSETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZOITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZENOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E DOIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E TRÊS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E QUATRO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E CINCO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E SEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E SETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E OITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E NOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E DOIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E TRÊS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E QUATRO (#litres_trial_promo)




PRÓLOGO


Aos trinta e nove anos, Denice Napier não se lembrava de um inverno tão frio quanto aquele. Mesmo que não desse bola para o frio, era o vento congelante que a incomodava. Ela sentiu uma rajada passando pela margem do Rio Charles quando sentou na cadeira dobrável, vendo seus filhos patinando, e respirou fundo. Era metade de janeiro, e a temperatura não tinha passado de menos doze pela última semana e meia.

Seus filhos, mais espertos do que ela admitia, sabiam que temperaturas tão drásticas significavam que a maior parte do Rio Charles estaria completamente congelada. Por isso ela havia ido até a garagem e pegado dois patins de gelo pela primeira vez no inverno. Ela os amarrou, afiou as lâminas e empacotou três garrafas térmicas de chocolate quente—uma para ela e uma para cada uma das crianças.

Ela olhava para eles naquele momento, patinando de um lado a outro sem se preocupar e em uma velocidade que só crianças eram capazes. O lugar que haviam escolhido era reto, porém estreito, com árvores ao redor e a cerca de dois quilômetros e meio de casa. Uma completa lâmina de gelo. Havia cerca de seis metros entre uma margem e outra e depois um espaço maior de nove metros até chegar ao rio congelado. Desajeitada, Denice havia caminhado pelo gelo e utilizado pequenos cones alaranjados para delimitar o espaço das crianças.

Ela olhava para eles—Sam, nove anos, e Stacy, doze—rindo juntos e realmente gostando da companhia um do outro. Aquilo não era algo que acontecia sempre, e por isso Denice estava disposta a enfrentar o frio mais vezes.

Também havia algumas outras crianças no local. Denice conhecia algumas delas, mas não o suficiente para iniciar uma conversa com seus pais, que também estavam sentados por ali. A maioria das outras crianças no gelo eram mais velhas, provavelmente estavam na oitava ou nona série, pelo que Denice via. Havia três garotos fazendo um jogo muito desorganizado de hóquei e outra menina praticando uma manobra nos patins.

Denice olhou seu relógio. Ela havia dado as crianças mais dez minutos antes de ir embora. Talvez eles se sentariam em frente à lareira e assistiriam algo na Netflix. Ou talvez até um daqueles filmes de super-heróis dos quais Sam estava começando a gostar.

Seus pensamentos foram interrompidos por um grito penetrante. Ela olhou para o gelo e viu que Stacy havia caído. Ela estava gritando, com o rosto olhando em direção ao gelo.

Todos os instintos maternos passaram por Denice naquele momento. Perna quebrada, tornozelo torcido, concussão...

Ela pensara em cada cenário possível quando começou a andar pelo gelo. Deslizou e escorregou em direção a Stacy. Sam também patinou na direção da irmã e estava olhando para o gelo, também. No entanto, Sam não estava gritando. Ele parecia congelado, na verdade.

- Stacy? – Denice perguntou, quase sem poder escutar a si mesma por conta dos gritos da filha. – Stacy, amor, o que aconteceu?

- Mãe? – Sam disse. – O que... O que é isso?

Confusa, Denice finalmente chegou até Stacy e se ajoelhou ao lado dela. Ela parecia estar ilesa. Parou de gritar assim que sua mãe chegou, mas estava tremendo. Também estava apontando para o gelo e tentando abrir a boca para dizer algo.

- Stacy, o que foi?

Então Denice viu a forma debaixo do gelo.

Era uma mulher. Seu rosto era uma sombra pálida azul e seus olhos estavam arregalados. Ela olhava pelo gelo e tinha uma expressão congelada de terror. Cabelos loiros serpenteavam seu crânio, congelado em posição de desordem.

O rosto que olhava para ela, com olhos abertos e pele pálida, o revisitaria em seus pesadelos durante meses.

Mas naquele momento, tudo o que Denice pode fazer foi gritar.




CAPÍTULO UM


Avery não se lembrava da última vez em que havia ido as compras tão despreocupada. Ela não tinha certeza de quanto dinheiro gastara porque havia parado de prestar atenção nisso na segunda parada. Na verdade, ela quase não olhou para os recibos. Rose estava com ela e isso, na verdade, não tinha preço. Poderia ser que ela sentisse algo diferente quando as contas chegasse, mas naquele momento não valia a pena pensar nisso.

Com evidências da extravagância nas sacolas de marca em seus pés, Avery olhou pela mesa para Rose. Elas estavam sentadas em algum lugar chique no Leather District de Boston, em um lugar que Rose havia escolhido e se chamava Caffe Nero. O café era muito caro, mas era o melhor que Avery tomara em muito tempo.

Rose estava no telefone, mandando mensagem para alguém. Geralmente, isso irritaria Avery, mas ela estava aprendendo a aceitar as coisas. Se ela e Rose fossem um dia ter uma relação direita, teriam que entender e deixar passar algumas coisas. Ela tinha que lembrar a si mesma que havia uma diferença de vinte e dois anos entre as duas e que Rose estava se tornando mulher em um mundo diferente daquele em que ela fora criada.

Quando Rose terminou de escrever, deixou o telefone na mesa e olhou Avery com um olhar que pedia perdão.

- Desculpe – ela disse.

- Não precisa – Avery respondeu. – Posso perguntar quem é?

Rose pareceu pensar naquilo por um momento. Avery sabia que a filha também estava disposta a entender e deixar passar algumas coisas em prol do relacionamento delas. Ela ainda não havia decidido quanto de sua vida pessoal queria dividir com sua mãe.

- Marcus – Rose disse, suavemente.

- Ah, não sabia que vocês ainda estavam juntos.

- Não estamos. Não mesmo. Bem... Não sei, talvez estamos.

Avery sorriu, lembrando do tempo em que homens eram confusos e intrigantes ao mesmo tempo.

- Bom, vocês estão namorando?

- Acho que podemos dizer que sim – Rose disse. Ela não estava falando muito, mas Avery podia ver as bochechas de sua filha ficando vermelhas.

- Ele te trata bem? – Avery perguntou.

- Na maior parte do tempo. Nós queremos coisas diferentes. Ele não é um cara com muitos objetivos. Parece sem direção.

- Bem, você sabe que eu não me importo de ouvir você falar sobre essas coisas – Avery disse. – Estou sempre disposta a escutar. Ou falar. Ou te ajudar com caras que estão te machucando. Com meu trabalho... você é praticamente a única amiga que eu tenho. – Ela lamentou internamente quão brega aquilo havia soado, mas já era tarde para voltar atrás.

- Eu sei disso, mãe – Rose disse. Depois, sorrindo, continuou. – E você não tem noção de quão triste isso soa.

Elas riram juntas mas, em segredo, Avery admirou-se ao ver como Rose se parecia com ela naquele momento. Quando qualquer conversa se tornava muito emotiva ou pessoal, Rose tendia a trocar o assunto com silêncio ou humor. Em outras palavras, o fruto nunca caia longe do pé.

No meio da risada, uma fina garçonete apareceu, a mesma que havia tirado seus pedidos e levado o café até a mesa.

- Querem mais? – Ela perguntou.

- Para mim não – Avery respondeu.

- Também não – Rose disse. Ela levantou-se quando a garçonete saiu. – Na verdade preciso ir – ela disse. – Tenho a reunião com o supervisor acadêmico em uma hora.

Aquilo era outra coisa da qual Avery tinha medo de tornar algo grande demais. Ela estava animada porque Rose havia finalmente decidido ir para a faculdade. Aos dezenove anos, havia marcado reuniões com supervisores de faculdades em Boston. Até onde Avery sabia, aquilo significava que ela estava pronta para cuidar de sua vida, mas não totalmente pronta para deixar de lado assuntos familiares—que potencialmente incluíam resolver seu relacionamento com sua mãe.

- Me ligue depois para contar como foi – Avery disse.

- Pode deixar. Obrigada de novo, mãe. Foi bem divertido. Temos que fazer isso de novo logo.

Avery assentiu e viu sua filha sair. Ela tomou o último gole de seu café e levantou-se, segurando as sacolas. Depois de colocar todas nos ombros, saiu da cafeteria em direção ao carro.

Quando seu telefone tocou, foi quase impossível atender com tantas sacolas nos ombros. Tanto que ela se sentiu um pouco estúpida. Avery nunca fora uma dessas mulheres que gostavam de ir às compras. Mas havia sido um belo exercício de reconciliação com Rose, e isso era o que importava.

Depois de ajeitar as sacolas no ombro, ela finalmente conseguiu pegar o telefone no bolso de seu casaco.

- Avery Black – atendeu.

- Black – disse o sempre rude supervisor do Departamento de Homicídios do A1, Dylan Connelly. – Onde você está agora?

- Leather District – ela disse. – O que foi?

- Preciso que você venha até o rio Charles, fora da cidade, perto de Watertown, o mais rápido possível.

Ela escutou a urgência no tom de voz dele e seu coração bateu mais forte.

- O que foi? – Ela disse, quase com medo de perguntar.

Depois de uma longa pausa, ouviu um suspiro profundo.

- Encontramos um corpo sob o gelo – ele disse. – E você vai ter que ver para acreditar.




CAPÍTULO DOIS


Avery chegou ao local exatamente vinte e sete minutos depois. Watertown, em Massachusetts, a cerca de trinta quilômetros de Boston, era apenas uma das cidades que compartilhava o rio Charles com a capital. A barragem de Watertown ficava acima da ponte da cidade. A área ao redor da barragem era em sua maioria rural, como o local do crime em que ela estava estacionando naquele momento. Ela estimava que a barragem ficava a cerca de vinte e cinco quilômetros dali, e a cidade de Watertown a cerca de seis quilômetros pela rodovia.

Quando caminhou ao lado do rio, Avery viu uma longa faixa de fita delimitando a cena do crime. A cena era muito grande, e a fita amarela desenhava um retângulo enorme de duas árvores perto dos bancos até dois polos de aço que a polícia havia enterrado no gelo sólido do rio. Connelly estava em pé na margem, falando com dois agentes. No gelo, uma equipe de três pessoas estava abaixada, olhando algo.

Ela passou por Connelly e acenou. Ele olhou o relógio, deu um olhar impressionado, e respondeu o aceno.

- Os peritos podem te contar tudo – ele disse.

Estava tudo bem por ela. Mesmo que estivesse começando a gostar mais dele a cada caso, era melhor ir pouco a pouco. Avery seguiu em direção ao gelo, imaginando se aquelas poucas vezes patinando quando era adolescente iriam servir para algo agora. Aparentemente, no entanto, aquelas habilidades já não existiam. Ela caminhou devagar, com cuidado para não escorregar. Odiava se sentir vulnerável e sem controle total, mas o gelo era realmente muito escorregadio.

- Tudo bem – um dos peritos disse, vendo ela vir em direção a eles. – Hatch já caiu com a bunda no gelo umas três vezes aqui.

- Cale a boca – outro membro da equipe disse, presumidamente Hatch.

Avery finalmente chegou até onde estavam os peritos. Eles estavam abaixados, olhando um pedaço quebrado de gelo. Abaixo dele, ela viu o corpo nu de uma mulher. Ela parecia ter vinte e poucos anos. Apesar de sua pele estar pálida e parcialmente congelada, ela parecia linda. Maravilhosa, na verdade.

Os peritos haviam trabalhado para tirar o corpo dali com estacas de plástico. A ponta de cada estaca tinha uma curva em forma de U, coberta com o que parecia ser algum tipo de algodão. À direita do gelo quebrado, um simples cobertor esperava pelo corpo.

- Ela foi encontrada assim? – Avery perguntou.

- Sim – disse a mulher que ela assumiu ser Hatch. – Pelas crianças. A mãe ligou para a polícia local e uma hora e quinze depois, aqui estamos nós.

- Você é Avery Black, certo? – O terceiro membro perguntou.

- Sou.

- Você precisa checar algo antes de tirarmos ela?

- Sim, se vocês não se importarem.

Os três recuaram um pouco. Hatch e o membro ao lado que havia rido dela por cair no gelo seguravam as estacas de plástico. Avery se aproximou. Seus dedos estavam a menos de quinze centímetros do gelo quebrado e da água.

O gelo quebrado a permitiu ver a mulher da testa até os joelhos. Ela parecia quase uma estátua de cera. Avery sabia que aquilo tinha a ver com temperaturas extremas, mas havia algo a mais na perfeição dela. Ela era incrivelmente magra—talvez tivesse só um pouco mais do que quarenta e cinco quilos. Seu rosto tinha uma sombra azul, mas além disso, não havia manchas, arranhões, cortes, contusões, nem sequer espinhas.

Avery também percebeu que além do cabelo encharcado e parcialmente congelado, não havia nenhum outro pelo no corpo. As pernas estavam perfeitamente raspadas, assim como a região do púbis. Parecia uma boneca de tamanho real.

Com um último olhar para o corpo, Avery recuou.

- Terminei – ela disse aos peritos.

Eles avançaram e, contando até três, puxaram o corpo vagarosamente da água. Quando o tiraram, deixaram em um ângulo para que a maior parte do corpo já ficasse no cobertor de isolamento. Avery notou que havia também uma maca abaixo do cobertor.

Com o corpo completamente fora da água, ela percebeu outras duas coisas que achou estranhas. Primeiro, a mulher não usava nenhuma joia. Ela se ajoelhou e viu que as orelhas eram furadas, mas estavam sem brincos. Depois, tornou sua atenção para o segundo ponto estranho: as unhas dos pés e das mãos da mulher estavam muito bem cortadas—a ponto de parecer que haviam sido feitas recentemente.

Aquilo era estranho, e era o que mais havia chamado sua atenção. Com a carne congelada ficando azul debaixo das unhas, havia algo sinistro naquilo. É quase como se ela tivesse sido polida, pensou.

- Terminamos? – Hatch perguntou.

Ela assentiu.

Quando os três cobriram o corpo e depois cuidadosamente caminharam em direção à margem com a maca, Avery permaneceu na área de gelo quebrado. Ela olhou dentro da água, pensando. Colocou a mão no bolso, procurando um pedaço pequeno de lixo, mas tudo o que pode encontrar foi um laço de cabelo que havia usado mais cedo naquele dia.

- Black? – Connelly chamou da margem. – O que você está fazendo?

Ela olhou para trás e viu ele, em pé, perto do gelo, mas com muito cuidado para não pisar ali.

- Trabalhando – ela respondeu. – Por que você não patina até aqui e ajuda?

Ele virou os olhos e virou as costas para o gelo. Ela jogou o laço na água e assistiu ele subir e descer por um momento. Depois, devagar, percebeu a lenta corrente de água debaixo do gelo. Ela levava para à esquerda, longe, na direção de Watertown.

Então ela foi jogada em outro lugar, Avery pensou, olhando para o rio na direção de Boston. Na margem, Connelly e o agente com quem ele estava falando estavam atrás da equipe de peritos.

Avery continuou no gelo, agora totalmente em pé. Ela estava ficando com frio e podia ver sua respiração vaporizar no ar. Mas algo naquela temperatura gelada parecia chamar sua atenção. Aquilo a permitia pensar, a usar o barulho do gelo se quebrando como um metrônomo que organizava seus pensamentos.

Nua e sem cicatrizes nem hematomas. Estupro está fora de cogitação. Sem joias, então pode ter sido um assalto. Mas na maioria dos casos um corpo depois de ser assaltado teria sinais de luta... e essa mulher não tem nada. E essas unhas e a falta de pelos?

Ela caminhou até a margem, olhando para o rio congelado, onde ele fazia uma curva e seguia na direção de Boston. Era estranho pensar em quão bonito o rio Charles era olhando da Boston University, sendo que vinte minutos atrás um corpo havia sido jogado ali.

Ela puxou seu casaco em volta do pescoço e caminhou até a margem. Chegou em tempo de ver as portas de trás da van dos peritos se fecharem. Connelly estava se aproximando, mas olhava além dela, para o rio congelado.

- Você olhou bem para ela? – Avery perguntou.

- Sim, parece um brinquedo ou algo assim. Pálida, gelada e...

- E perfeita – Avery disse. – Você percebeu que não havia pelos nela? Nem hematomas, nem manchas.

- Nem joias – Connelly acrescentou. Suspirando fundo, ele perguntou. – Já posso perguntar sobre seus primeiros pensamentos?

Ela não queria que Connelly tivesse espaço para perguntar aquilo naquele momento. Mas ele tinha, desde que ele e O’Malley haviam oferecido a ela uma promoção para sargento dois meses atrás. Em troca, eles pareciam mais dispostos a aceitar as teorias dela do que a questionar de onde ela tirava as palavras que saíam de sua boca.

- As unhas estavam perfeitamente feitas – ela disse. – É como se ela tivesse acabado de sair do salão antes de ser jogada no rio. E está faltando pelos por todos os lados. Uma dessas coisas já seria estranha, mas as duas juntas me assustam de verdade.

- Você acha que alguém a limpou antes de mata-la?

- Parece que sim. É quase como a funerária deixando o defunto apresentável para o velório. Quem fez isso a limpou. A raspou e fez as unhas.

- Alguma ideia do por quê?

Avery encolheu os ombros.

- Só posso especular agora. Mas posso te dizer uma coisa que você provavelmente não vai gostar.

- Ah, não – ele disse, sabendo o que viria a seguir.

- Esse cara fez tudo no tempo dele... não digo no assassinato, mas em como o corpo estava quando foi encontrado. Ele fez intencionalmente. Foi paciente. Baseada em casos similares, posso quase te garantir que esse não vai ser o único corpo.

Com outro suspiro profundo, Connelly pegou seu telefone do bolso.

- Vou convocar uma reunião no A1 – ele disse. – Vou avisa-los que temos um assassino em série em potencial.




CAPÍTULO TRÊS


Avery imaginou que se fosse aceitar a posição de sargento, precisava resolver sua antipatia pela sala de conferências do A1. Ela não tinha nada contra a sala em si. Mas sabia que uma reunião tão logo após a descoberta de um corpo significava que haveria conversas paralelas e discussões, a maioria delas usadas para derrubar suas teorias.

Talvez como sargento, isso vai acabar, ela pensou enquanto entrava na sala.

Connelly estava na ponta da mesa, mexendo em alguns papeis. Ela imaginou que O’Malley chegaria logo. Ele parecia estar muito mais presente em qualquer reunião em que ela estava desde que eles haviam a oferecido a promoção.

Connelly olhou para os agentes.

- As coisas estão rápidas nesse caso – ele disse. – O corpo tirado do rio foi identificado cinco minutos atrás. Patty Dearborne, vinte e dois anos. Aluna da Boston University e natural de Boston. Até agora, é o que sabemos. Os pais serão informados assim que essa reunião acabar.

Ele deslizou pela mesa uma pasta que continha duas folhas. Uma mostrava uma foto de Patty Dearbone retirada de seu Facebook. A outra tinha três fotos, todas tiradas no rio Charles mais cedo, naquele dia. O rosto de Patty Dearbone estava presente em todas elas, com suas pálpebras cor púrpura fechadas.

Em um pensamento mórbido, Avery tentou ver o rosto da jovem da mesma maneira que o assassino poderia ter visto. Patty era linda, mesmo morta. Tinha um corpo que Avery achava muito magro, mas que faria salivar homens em um bar. Ela usou essa mentalidade tentando imaginar porque o assassino escolheria essa vítima se não houvesse motivos sexuais.

Talvez ele queira mais do que beleza. A pergunta, claro, é se ele está procurando essas belezas para bajula-las ou destruí-las. Ele aprecia a beleza ou quer destruí-la?

Ela não sabia por quanto tempo estava pensando nisso. Tudo o que sabia era que tinha dado um pequeno pulo quando Connelly pediu ordem na reunião. Havia um total de nove pessoas na sala de conferências. Ela viu que Ramirez havia chegado. Ele estava sentado perto de Connelly, olhando a mesma pasta que fora distribuída minutos atrás. Ele aparentemente sentiu que ela o olhava: retribuiu o olhar e sorriu.

Avery retribuiu o sorriso quando Connelly começou. Ela desviou o olhar, sem querer ser óbvia. Mesmo que quase todo mundo ali soubesse que ela e Ramirez tinham algo, os dois ainda queriam tentar manter as coisas escondidas.

- Todo mundo já deve estar sabendo de tudo – Connelly disse. – Para aqueles que não estão, a mulher foi identificada como Patty Dearborne, veterana da Boston University. Foi encontrada no rio Charles, fora de Watertown, mas é nativa de Boston. Como a Detetive Black pontuou no briefing que vocês receberam, a corrente do rio nos faz crer que o corpo foi jogado em outro lugar. Os peritos acham que o corpo estava na água por no máximo vinte e quatro horas. Essas duas coisas nos levam a crer que ela foi deixada em algum lugar de Boston.

- Senhor – o Oficial Finley disse. – Me perdoe por perguntar, mas por que sequer pensar na possibilidade de suicídio? O briefing diz que não havia cicatrizes nem sinais de luta.

- Eu eliminei essa possibilidade quando vi que a vítima estava nua – Avery disse. – Suicídio até seria uma possibilidade a ser considerada, mas é muito pouco provável que Patty Dearborne tenha se despido antes de se jogar no rio Charles.

Ela quase odiou a si mesma por destruir a ideia de Finley. Ela o vira tornar-se um ótimo policial semana a semana. Ele havia amadurecido no último ano, transformando-se de um bobão em um agente que todos reconheciam por trabalhar duro.

- Mas não tem marcas – outro agente disse. – isso diz muito coisa.

- Pode ser uma evidência de que não foi um suicídio – Avery disse. – Se ela tivesse pulado de qualquer altura maior que dois ou três metros, teria que haver contusões visíveis no corpo pelo impacto.

- Os peritos concordam com isso – Connelly disse. – Eles vão enviar um relatório mais detalhado depois, mas eles têm certeza disso. – Ele então olhou para Avery e fez um gesto para a mesa com sua mão. – O que mais você sabe, Detetive Black?

Ela levou um momento para pensar nas coisas que tinha dito a Connelly—detalhes que estavam no briefing. Havia mencionado as unhas, a falta de pelos e a ausência de joias.

– Outra coisa a se dizer – acrescentou, - é que o assassino que deixa suas vítimas nesse nível de apresentação mostra ou uma estranha admiração pela vítima ou algum tipo de arrependimento.

- Arrependimento? – Ramirez perguntou.

- Sim. Ele deixou ela como uma boneca, o mais linda possível, porque talvez ele não queria matar ela.

- A ponto de raspa-la nas regiões baixas? – Finley perguntou.

- Sim.

- E diga para eles por que você acha que estamos lidando com um assassino em série, Black – Connelly disse.

- Porque mesmo que isso fosse um erro, o fato de o assassino ter feito as unhas e raspado ela mostra paciência. E quando você junta isso com o fato de que a mulher estava linda e sem marcas, isso me faz pensar que ele é atraído pela beleza.

- O que nos leva de volta à linha de pensamento de que talvez ele não queria mata-la.

- Então você acha que pode ser um encontro que deu errado? – Finley perguntou.

- Não podemos ter certeza – ela disse. – Minha primeira reação é não. Se ele foi intencional a esse ponto e cuidadoso com o jeito que ela estaria depois de jogar o corpo, acho que ele teve o mesmo cuidado em seleciona-la.

- Seleciona-la para o que, Black? – Connelly perguntou.

- Acho que é isso o que precisamos descobrir. Com sorte os peritos vão ter algumas respostas para nos levar ao caminho certo.

- E o que fazemos até lá? – Finley perguntou.

- Trabalhamos – Avery disse. – Investigamos a fundo a vida de Patty Dearborne, esperando encontrar alguma pista que vai nos ajudar a encontrar o cara antes que ele faça isso de novo.

Quando a reunião terminou, Avery caminhou pela sala de conferências para falar com Ramirez. Alguém precisava informar os pais de Patty Dearborne e ela sentiu que precisava fazer isso. Falar com pais aflitos, mesmo sendo algo incrivelmente difícil e emocional, era geralmente uma das melhores coisas a se fazer para conseguir pistas. Ela queria Ramirez junto, mesmo querendo manter o balanço entre a vida profissional e pessoal dos dois. Era algo difícil, mas que eles estavam devagar aprendendo a fazer.

Antes que ela chegasse até Ramirez, no entanto, O’Malley entrou na sala. Ele estava falando no telefone, claramente com pressa. Seja lá qual fosse o assunto, deveria ser algo importante para faze-lo perder a reunião sobre o caso Patty Dearborne. Ele ficou na porta, esperou que todos, com exceção de Avery, Ramirez e Connelly saíssem, e a fechou. Terminou a ligação com um quase rude “Sim, depois”, e depois respirou fundo.

- Perdão por perder a reunião - disse. – Algo importante apareceu?

- Não – Connelly disse. – Temos a identidade da mulher e agora precisamos avisar a família. Estamos trabalhando com a hipótese de que quem fez isso vai fazer de novo.

- Black, você pode me mandar um relatório rápido explicando os detalhes?

- Sim senhor, - ela disse. Ele nunca pedia coisas pequenas assim para ela. Ela imaginou se aquele era mais um dos testes dele. Vinha percebendo que ele estava sendo mais brando com ela nas últimas semanas, disposto a dar a ela mais responsabilidades sem interferências. Tinha certeza que aquilo tinha tudo a ver com a proposta para se tornar sargento.

- Já que os dois estão aqui – O’Malley disse, olhando para Avery e Ramirez, - eu gostaria de ter uma palavra com vocês. Algumas, na verdade... e eu não tenho muito tempo, então vou ser rápido. Primeiro... Por mim está tudo bem se vocês têm algo fora do trabalho. Pensei muito em separar vocês aqui no A1, mas porra, vocês trabalham melhor juntos. Então, enquanto vocês puderem tolerar as piadas internas e especulações, vocês vão continuar sendo parceiros. Está bem?

- Sim senhor – Ramirez disse. Avery assentiu, concordando.

- A outra coisa... Black. O assunto de sargento... Vou precisar de uma decisão logo. Em quarenta e oito horas. Tentei ser paciente, deixar você pensar. Mas já se passaram dois meses. Acho que é justo.

- É justo – ela disse. – Vou te informar até amanhã.

Ramirez a olhou, surpreso. Na verdade, a resposta surpreendeu até ela mesma. No fundo, no entanto, ela achava que sabia o que queria.

- Agora, o caso dessa mulher no rio – O’Malley disse. – É oficialmente seu, Black. Ramirez está com você, mas vamos manter isso de um jeito profissional.

Avery estava um pouco envergonhada e sentiu-se ficando vermelha. Ah, não, ela pensou. Primeiro uma tarde de compras e agora ficando vermelha na frente de um cara. Que merda está acontecendo comigo?

Para superar aquele momento, Avery voltou a falar do caso.

- Eu gostaria de ser responsável por avisar a família.

- Podemos mandar outra pessoa – Connelly sugeriu.

- Eu sei. Mas por mais terrível que pareça, pais recebendo notícias assim são geralmente as melhores fontes de informação. Tudo está aberto, vivo.

- Deus, isso foi muito sem coração – Connelly disse.

- Mas efetivo – O’Malley disse. – Muito bem, Black. São quatro e cinquenta agora. Com sorte, você vai encontra-los saindo do trabalho. Vou fazer alguém te enviar o endereço em dez minutos. Agora vamos ao trabalho. Dispensados.

Avery e Ramirez saíram. No corredor, os cumpridores de horário estavam começando a sair. Para Avery, no entanto, o dia estava longe de acabar. Na verdade, com a tarefa de dar a notícia da morte de uma filha para seus pais, Avery sabia que aquela seria uma longa noite.




CAPÍTULO QUATRO


A família Dearborne morava em uma pequena casa em Somerville. Avery leu as informações que haviam sido enviadas a ela enquanto Ramirez dirigia. Patty Dearborne fora uma excelente aluna em seu ano de veterana na Boston University, e estava prestes a se tornar conselheira de uma empresa de saúde comportamental. Sua mãe, Wendy, era uma enfermeira que trabalhava entre duas áreas hospitalares diferentes. O pai de Patty, Richard, era um gerente de negócios em desenvolvimento de uma grande empresa de telecomunicações. Eles eram uma família ficha limpa, sem nem um rastro de sujeira em seus registros.

E Avery estava prestes a conta-los que sua filha estava morta. Não só morta, mas que havia sido jogada no rio congelado, completamente nua.

- Então – Ramirez disse enquanto dirigia pela suas estreitas de Somerville. – Você vai aceitar a posição de sargento?

- Ainda não sei.

- Alguma ideia?

Ela pensou no assunto por um momento e depois balançou a cabeça.

- Não quero falar sobre isso agora. É algo pequeno comparado ao que estamos prestes a fazer.

- Ei, você se escalou para fazer isso – ele disse.

- Eu sei – ela respondeu, ainda sem ter certeza do por quê. Sim, a ideia de ter boas pistas era verdade, mas ela sentia que havia algo a mais. Patty Dearborne era só três anos mais velha que Rose. Era muito fácil ver o rosto de Rose naquele corpo congelado. Por algum motivo bizarro, aquilo fez com que Avery pensasse que precisava dar a notícia à família. Talvez fosse uma necessidade maternal, mas ela sentiu que devia aquilo aos pais por algum motivo estranho.

- Então me deixe perguntar - ele disse. – O que te faz ter certeza que ele vai matar de novo? Talvez seja um ex-namorado que perdeu a cabeça. Talvez seja só ela.

Ela sorriu rapidamente porque sabia que ele não estava discutindo. Não mesmo. Ela sabia que ele gostava de entender como a mente dela funcionava. Refutar suas teorias era um jeito simples de fazer isso.

- Porque baseado no que sabemos sobre o corpo, o cara é cuidadoso e meticuloso. Um ex-namorado enraivado não seria tão cuidadoso para não deixar marcas. As unhas dizem muito para mim. Alguém levou tempo para cuidar delas. Espero que os pais possam me dar mais ideias de que tipo de mulher Patty era. Se soubermos mais sobre ela, vamos saber exatamente quanto do cuidado foi feito por quem jogou esse corpo no rio.

- Falando nisso – Ramirez disse, apontando. – Chegamos. Você está pronta?

Ela respirou fundo. Avery amava seu trabalho, mas essa era uma parte que ela definitivamente receava.

- Sim, vamos – disse.

Antes que Ramirez dissesse algo mais, Avery abriu a porta e saiu.

Ela estava preparada.



***

Avery sabia que duas pessoas nunca respondiam ao luto da mesma forma. Por isso ela não ficou tão surpresa quando, quinze minutos depois, Wendy Dearborne estava quase em estado de choque enquanto Richard Dearborne estava agitado e falando alto. Em certo momento, ela temeu que ele se tornasse violento quando jogou um vaso da mesa da cozinha no chão, quebrando-o.

O peso da notícia pairava na sala. Avery e Ramirez ficaram quietos, falando apenas quando perguntavam algo. Em silêncio, Avery viu duas fotos de Patty na sala; uma estava acima da lareira e a outra estava pendurada na parede. As suspeitas de Avery estavam certas. A garota era completamente linda.

Wendy e Richard estavam, ambos, sentados no sofá da sala. Wendy havia se controlado, deixando escapar alguns soluços enquanto encostava a cabeça no ombro de Ricahrd.

Com lágrimas caindo, Richard olhou para Avery.

- Podemos vê-la? Quando podemos vê-la?

- Nesse momento, os peritos ainda estão tentando determinar o que aconteceu com ela. Como vocês podem imaginar, a água fria e as temperaturas gélidas tornam mais difícil encontrar pistas ou evidências. Nesse meio tempo, tem algumas perguntas que eu gostaria de fazer que podem nos ajudar a encontrar respostas.

Os dois tinham olhares confusos e absolutamente horrorizados, mas estava claro que Wendy não ajudaria. Ela estava perdida, em silêncio, olhando em volta da sala tentando se certificar do lugar onde estava.

- Claro, pode perguntar o que quiser – Richard disse. Avery imaginou que o homem estava tentando ser forte—talvez tentando encontrar respostas para si próprio.

- Eu sei que vai ser uma pergunta estranha - Avery disse. – Mas Patty era o tipo de garota que se preocupava muito com as unhas, maquiagem, essas coisas?

Richard deixou escapar um soluço e balançou a cabeça. Ele ainda estava chorando, mas pelo menos conseguia formar palavras quando não estava puxando o ar.

- Não mesmo. Na verdade ela era meio moleque. Era mais fácil achar sujeira nas unhas dela do que unhas feitas. Ela se arrumava às vezes em ocasiões especiais. Às vezes prestava muita atenção no cabelo, mas não é—não era—uma garotinha dessas meigas, sabe?

Corrigir a si mesmo com o “era” pareceu despertar algo em Richard Dearborne. Avery tentou esconder seu coração partido por ele. Aquilo fora suficiente para faze-la decidir-se por não fazer a próxima pergunta planejada—uma pergunta sobre a frequência com que Patty depilava as pernas. Avery imaginou que a resposta era óbvia se ela era mesmo uma menina moleque. Não havia necessidade de perguntar aquilo a alguém que havia acabado de perder a filha.

- Você sabe sobre algum inimigo que Patty tinha? Alguém com quem ela teve problemas?

A pergunta levou um tempo para ser absorvida. Quando foi, a ponta de raiva que ela havia visto nos olhos de Richard Dearborne retornou. Ele levantou do sofá, mas foi segurado por sua mulher.

- Aquele filho da puta – Richard disse. – Sim, sim, tem alguém que eu apostaria qualquer coisa que... Deus...

- Senhor Dearborne? – Ramirez perguntou. Ele tinha se levantando devagar, talvez antecipando algum movimento de raiva de Richard.

- Allen Haggerty. Era um namorado de escola que não entendeu quando as coisas terminaram no segundo ano da faculdade.

- Ele causou problemas? – Ramirez perguntou.

- Sim. Tantos que Patty teve que prestar queixas contra ele. Ele ficava esperando do lado de fora das aulas dela. Ficou tão chato que Patty morou aqui no último ano porque não se sentia segura nos dormitórios.

- Ele chegou a ser violento? – Avery perguntou.

- Se foi, Patty nunca disse nada. Eu sei que ele tentou tocar ela—abraços, beijos, coisas assim. Mas nunca soube nada sobre ele tentar bater nela.

- O bilhete...

A voz de Wendy Dearborne era leve como o vento. Ela ainda não olhava para Avery e Ramirez. Seus olhos estavam abaixados, sua boca parcialmente aberta.

- Que bilhete? – Avery perguntou.

- Um bilhete que Patty nunca nos mostrou, mas nós encontramos no bolso dela enquanto lavava a roupa quando ela morava aqui – Richard disse. – O idiota deixou um bilhete no dormitório dela. Ela nunca disse, mas nós achamos que esse foi o fator que fez ela se mudar para cá. Não lembro de todas as palavras, mas falava sobre como ele pensava em se matar porque não podia tê-la, mas como isso às vezes o irritava. Coisas obscuras, do tipo se ele não pudesse tê-la, ninguém poderia.

- Você ainda tem esse bilhete? – Avery perguntou.

- Não. Quando nós perguntamos a Patty sobre isso, ela o jogou fora.

- Quando tempo ela ficou aqui? – Avery perguntou.

- Até o verão passado – Richard respondeu. – Ela disse que estava cansada de viver com medo. Tomamos a decisão de que se algo acontecesse com Allen novamente, nós iríamos diretamente à polícia. E agora... Agora isso...

Um silêncio pesado tomou conta da sala, até que finalmente ele olhou para os dois. Avery podia sentir a raiva e o luto do pai naquele olhar.

- Eu sei que foi ele – Dearborne disse.




CAPÍTULO CINCO


Quando Avery e Ramirez chegaram à quadra do endereço de Allen Haggerty, ela recebeu as informações dele por e-mail. Ficou surpresa em encontrar pouca coisa no arquivo. Ele tinha três multas de velocidade até os dezessete anos e fora rapidamente detido em um protesto basicamente pacífico em Nova York cinco anos antes, mas nada que fosse considerado grave.

Talvez ele só enlouqueceu um pouco quando Patty quis deixa-lo, ela pensou. Ela sabia que isso acontecia às vezes. Aquela era, na verdade, a desculpa mais utilizada por maridos violentos que batiam nas esposas. Eles falavam sobre ciúmes, descontrole e sentimento de vulnerabilidade.

Ninguém estava em casa, por isso, uma hora e meia depois de que os Dearbone haviam sido avisados de que sua filha estava morta, já havia um comunicado relatando que a polícia estava à procura dele. Enquanto andavam pela vizinhança, Ramirez mais uma vez demonstrou o quão conectado estava à ela.

- Isso tudo te faz pensar na Rose, não faz? – Ele perguntou.

- Faz – ela admitiu. – Como você sabe?

Ele sorriu.

- Porque eu conheço suas caras muito bem. Eu sei quando você está puta. Sei quando você está envergonhada, brava, feliz. Também vi que você desviou o olhar das fotos da Patty muito rápido na casa dos Dearbone. Patty não era muito mais velha que Rose. Eu percebi. Por isso você insistiu em dar a notícia aos pais dela?

- Sim. Boa percepção.

- Acontece às vezes – ele disse.

O telefone de Avery tocou às 10:08. Connelly estava na linha, parecendo cansado, mas animado.

- Localizamos Allen Haggerty saindo de um bar no Leather District – ele disse. – Temos dois caras segurando ele para você. Em quanto tempo você chega lá?

Leather District, ela pensou. Foi lá que eu e Rose estávamos hoje, pensando em quão bem nossas vidas estavam e como nós estávamos arrumando nossa relação. E agora tem um potencial assassino no mesmo lugar. É... estranho. Como um ciclo, de um jeito estranho.

- Black?

- Dez minutos – ela respondeu. – Qual é o bar?

Ela anotou as informações e, então, Ramirez dirigiu até a mesma área da cidade onde ela estivera, menos de doze horas antes, aproveitando a vida com sua filha.

Saber que aquilo era algo que Wendy Dearborne nunca mais poderia fazer fez doer seu coração. E também a deixou com um pouco de raiva.

Na verdade, ela não podia esperar para pegar aquele filho da puta.



***



Os dois agentes que haviam localizado Allen Haggerty pareciam felizes em tê-lo detido. Um deles era um cara que Avery havia conhecido muito bem—um homem mais velho que poderia estar aposentado há anos. Seu nome era Andy Liu e ele sempre parecia ter um sorriso no rosto. Mas agora, parecia irritado.

Os quatro se encontraram fora da viatura de Andy Liu. No banco de trás, Allen Haggerty olhava para eles, confuso e claramente irritado. Algumas pessoas passando a caminho do bar na sexta-feira à noite tentavam ver o que estava acontecendo sem parecerem óbvios.

- Ele trouxe problemas para vocês? – Ramirez perguntou.

- Não mesmo – o parceiro de Andy respondeu. – Ele só está um pouco bêbado. Nós estávamos quase levando ele para o batalhão, para a sala de interrogatório, mas O’Malley disse que queria que vocês falassem com ele antes que a gente tomasse essa decisão.

- Ele sabe por que vocês querem falar com ele? – Avery perguntou.

- Nós contamos para ele da morte de Patty Dearborne – Andy disse. – Foi aí que ele ficou doido. Tentei manter as coisas em ordem no bar, mas no fim, tive que algema-lo.

- Tudo bem – Avery disse. Ela olhou para dentro da viatura e franziu a testa. – Você se importa de me emprestar seu carro por um segundo?

- Fique à vontade – Andy disse.

Avery entrou no lado do motorista enquanto Ramirez sentou no banco do carona. Eles olharam tranquilamente para Allen no banco de trás.

- Então, como isso aconteceu? – Allen perguntou. – Como ela morreu?

- Isso não está claro ainda – Avery disse, sem razões para ser vaga com ele. Ela aprendera muito tempo antes que a honestidade era sempre a melhor maneira de se aproximar se você queria ler seu suspeito do melhor jeito possível. – O corpo dela foi encontrado em um rio congelado, debaixo do gelo. Nós não temos informações suficientes para saber se ela morreu congelada ou se foi morta antes de ser jogada no rio.

Isso pode ter sido um pouco áspero, Avery pensou ao olhar a expressão chocada de Allen. Ainda assim, ver aquela expressão genuína no rosto dele era tudo o que ela precisava para ter um bom pressentimento de que Allen Haggerty não tnha nada a ver com a morte de Patty.

- Quando foi a última vez que você a viu? – Avery perguntou.

Claramente, ele estava tendo problemas em pensar sobre aquilo. Avery tinha certeza que quando a noite acabasse, Allen relembraria muito mais do que os poucos anos com o seu amor perdido.

- Um pouco mais de um ano atrás, eu acho – ele finalmente respondeu. – E foi pura coincidência. Eu passei por ela quando ela estava saindo da mercearia. Nós nos olhamos por dois segundos e depois ela se apressou. E eu não a culpo. Eu fui um babaca com ela. Fiquei totalmente obcecado.

- E desde então não houve contato? – Avery perguntou.

- Não. Eu encarei os fatos. Ela não me queria mais. E ficar obcecado por alguém que não te quer não é o melhor jeito de conquistar, sabe?

- Você sabe de alguém na vida dela que poderia ser capaz de fazer algo algo assim com ela? – Ramirez perguntou.

Novamente, houve sinais de luta nos olhos de Allen enquanto ele pensava. Nesse momento, o telefone de Avery tocou. Ela olhou para a tela e viu o nome de O’Malley.

- Alô? – Ela disse, respondendo rapidamente.

- Onde você está? – Ele perguntou.

- Falando com o ex-namorado.

- Alguma chance dele ser quem nós estamos procurando?

- Dificilmente – ela disse, e continuou vendo a tristeza nos olhos de Allen no banco de trás.

- Bom. Preciso de você de volta no A1 rápido.

- Está tudo bem? – Avery perguntou.

- Depende do seu ponto de vista – O’Malley respondeu. Acabamos de receber uma carta do assassino.




CAPÍTULO SEIS


Mesmo antes de que Avery e Ramirez chegassem ao batalhão, Black sabia que a situação havia saído do controle. Ela teve que manobrar o carro com cuidado no estacionamento do A1 para não bater nas vans de reportagem. O lugar era um circo completo e eles ainda nem haviam entrado.

- Parece ruim – Ramirez disse.

- Pois é – ela respondeu. – Como a imprensa soube sobre essa carta se ela chegou direto aqui?

Ramirez só pode encolher os ombros quando eles saíram do carro e correram para dentro. Alguns repórteres apareceram no caminho, sendo que um deles praticamente parou na frente de Avery. Ela quase esbarrou nele, mas desviou em tempo. Escutou-o chama-la de vaca, mas aquela era sua última preocupação.

Eles chegaram até a porta, com repórteres clamando por comentários e flashes por todos os lados. Avery sentiu seu sangue fervendo e daria tudo naquele momento para socar um dos repórteres no nariz.

Quando finalmente entraram no esquadrão e fecharam as portas atrás de si, ela viu que lá dentro as coisas não estavam muito melhores. Ela havia visto o A1 em estado de urgência e desordem antes, mas não àquele ponto. Talvez haja um vazamento no A1, ela pensou enquanto caminhava rapidamente em direção ao escritório de Connelly. Antes de chegar lá, no entanto, viu uma confusão no corredor. O’Malley e Finley estavam caminhando por ali.

- Sala de conferências – Connelly disse.

Avery assentiu, virando à direita no corredor. Ela viu que ninguém mais estava indo em direção à sala de conferências, dando a entender que a reunião seria restrita. E aquele tipo de reunião nunca era agradável. Ela e Ramirez seguiram Connelly até a sala. Quando O’Malley e Finley também entraram, Connely bateu a porta e a trancou.

Ele jogou um pedaço de papel na mesa. Estava coberto por um pedaço de plástico, o que fez com que deslizasse quase perfeitamente na direção de Avery. Ela pegou o papel e olhou.

- Leia – Connelly disse. Ele estava frustrado e parecia um pouco pálido. Seu cabelo estava bagunçado e havia raiva em seu olhar.

Avery fez o que ele pediu. Sem mexer na folha, leu a carta. A cada palavra lida, a sala ficava mais fria.

Gelo é bonito, mas mata. Pense em uma linda camada fina de geada no seu para brisas em uma manhã de outono. O mesmo lindo gelo está matando plantas vivas.

Há eficiência nessa beleza. E a flor volta... sempre volta. Renasce.

O frio é erótico, mas mutila. Pense em estar com muito frio saindo de uma tempestade de inverno e, depois, enrolando-se nu com um amante debaixo dos lençóis.

Você está gelado ainda? Pode sentir a frieza de ser muito esperto?

Haverá mais. Mais corpos gelados, flutuando na pós-morte.

Eu os desafio a me parar.

Vocês vão sucumbir ao frio antes de me encontrar. E enquanto estiverem congelando, imaginando o que aconteceu, como as flores queimadas pela geada, eu terei ido.

- Quando isso chegou? – Avery perguntou, colocando a carta na mesa para que Ramirez pudesse ler.

- Em algum momento, hoje. – Connelly disse. – O envelope não estava aberto até uma hora atrás.

- Como a porra da imprensa já sabe? – Ramirez perguntou.

- Porque todas as redes locais receberam uma cópia.

- Puta merda – Ramirez disse.

- Nós sabemos quando a mídia recebeu as cópias? – Avery perguntou.

- Foi enviada por e-mail um pouco mais de uma hora atrás. Nós acreditamos que isso foi feito para dar tempo de aparecer nos jornais das onze.

- O e-mail foi enviado de onde? – Avery perguntou.

- Essa é a pior parte... bem, uma das piores partes – O’Malley disse. – O e-mail é registrado como sendo de uma mulher chamada Mildred Spencer. Ela tem setenta e dois anos, é viúva e só tem esse e-mail para ter contato com seus netos. Nós já falamos com ela, mas tudo indica que a conta foi hackeada.

- Podemos rastrear quem hackeou?

- Ninguém no A1 tem essa capacidade. Ligamos para a Polícia do Estado para tentar fazer isso.

Ramirez havia acabado de ler e jogou a carta para o centro da mesa. Avery a puxou e olhou novamente. Ela não a leu mais uma vez, apenas a estudou: o papel, a letra a mão, a estranha colocação das frases no papel.

- Algum pensamento inicial, Black? – Connelly perguntou.

- Alguns. Primeiro, onde está o envelope de onde isso veio?

- Na minha mesa. Finley, pegue para nós.

Finley fez o que lhe foi requisitado enquanto Avery continuou olhando para a carta. A letra a mão parecia primitiva, mas também infantil. Parecia que alguém havia feito muito esforço para melhora-la. Também havia algumas palavras chave que se destacavam por serem estranhas.

- O que mais? – Connelly perguntou.

- Bem, algumas coisas para analisar. O fato de que ele nos enviou uma carta deixa claro que ele quer que nós saibamos sobre ele—sem saber sua identidade. Então, mesmo que não seja um jogo, é algo pelo qual ele quer os créditos. Ele também gosta de ser caçado. Ele quer que a gente o procure.

- Alguma pista nisso tudo? – O’Malley perguntou. – Eu já li essa porra dez vezes e não achei nada.

- Bem, as palavras que ele usa em alguns lugares são estranhas. A menção a um para-brisas em uma carta onde as únicas outras coisas concretas as quais ele faz referência são flores e lençóis parece estranha. Acho que vale a pena notar que ele usou as palavras erótico e amante. Junte isso ao fato da vítima encontrada hoje ser muito linda e tem que haver algo aí. A menção a pós-vida e renascimento também é estranha. Mas nós poderíamos pegar um milhão de caminhos se não tivermos mais informações.

- Algo mais? – Ramirez perguntou com seu habitual sorriso escondido. Ele amava ver Avery trabalhando. Ela tentou ignorar aquilo para prosseguir.

- O jeito que ele quebra as linhas... quase como estrofes fragmentadas e um poema. Quase todas as cartas que eu vi em outros casos estudados onde o assassino entrou em contato com a polícia estavam em blocos de texto.

- Como isso pode ser uma pista? – Connelly perguntou.

- Pode não ser – Avery disse. – Só estou jogando ideias aqui.

Uma batida foi ouvida na porta. Connelly abriu e Finley entrou. Ele fechou a porta e a trancou. Depois, com cuidado, pôs um envelope na mesa. Não havia nada de excepcional nele. O endereço da estação fora escrito com a mesma letra cuidadosa da carta. Não havia endereço do remetente e um selo no canto esquerdo. O carimbo estava no lado esquerdo, em cima, tocando as bordas do envelope.

- Veio do CEP 02199 – O’Malley disse. – Mas isso não diz nada. O assassino pode ter ido longe para enviar isso.

- Verdade – Avery disse. – E esse cara parece ser muito esperto e determinado para nos dar uma pista pelo CEP. Ele deve ter pensado nisso. O CEP não vai nos levar a nada, eu posso garantir.

- Então, por onde devemos continuar? – Finley perguntou.

- Bom – Avery disse – esse cara parece ser preocupado com o frio, com gelo, na verdade. E não só porque foi lá que encontramos o corpo. Está pela carta toda. Ele parece ter uma fixação nisso. Então, eu imagino que... podemos fazer uma busca por algo que tenha a ver com gelo ou frio? Pistas de patinação, frigoríficos, laboratórios, qualquer coisa.

- Você tem certeza que a localização não vai ajudar? – Connelly perguntou. – Se ele quer ser conhecido, talvez o CEP seja um chamamento.

- Não, não tenho certeza. Não mesmo. Mas se nós encontrarmos algum negócio ou empresa que lide com gelo ou com frio na área desse CEP, eu começaria por ali.

- Tudo bem – Finley disse. – Então precisamos checar as fitas de segurança ao redor dos locais dos correios ou caixas de correios?

- Não – Connelly disse. – Vai levar uma vida inteira e não tem como nós sabermos exatamente quando essa carta foi enviada.

- Precisamos de uma lista dessas empresas – Avery disse. – Vai ser o melhor jeito de começar. Alguém já tem algo em mente?

Após muitos segundos de silêncio, Connelly suspirou.

- Não me vem nada à mente – ele disse, - mas eu posso te entregar uma lista em meia hora. Finley, você pode mandar alguém fazer isso?

- É para já – Finley disse.

Quando ele saiu novamente da sala, Avery levantou uma sobrancelha na direção de Connelly.

- Finley é um garoto de recados agora?

- Não mesmo. Você não é a única perto de uma promoção. Estou tentando envolver ele em todos os aspectos de casos importantes. E como você sabe, ele acha que você é sobrenatural, então vou dar uma chance a ele nessa.

- E por que estamos nos trancando na sala de conferências? – Ela perguntou.

- Porque a imprensa está de olho nisso. Não quero dar brechas com portas destrancadas ou linhas de telefone grampeadas.

- Parece paranoia – Ramirez disse.

- Parece inteligente – Connelly respondeu, com maldade.

Querendo prevenir uma discussão entre os dois, Avery puxou a carta para perto de si.

- Você se importa se eu analisar melhor essa carta enquanto nós esperamos os resultados?

- Por favor. Eu gostaria muito que alguém do A1 desvendasse isso antes que a mídia coloque tudo na TV e alguma criança nerd descubra antes de nós.

- Precisamos colocar os peritos nisso. Deve ser feita análise da caligrafia. O envelope tem que ser investigado para encontrar qualquer evidência: digitais, poeira, qualquer coisa.

- Eles já estão sabendo e a carta vai para as mãos deles assim que você terminar de analisar.

- Vou fazer isso logo – ela disse. – Sei que você só estava brincando sobre uma criança nerd desvendar isso aqui, mas é uma preocupação legítima. E quando isso chegar nas redes sociais, não temos como prever que tipo de olhos e mentes estarão analisando isso aqui.

Quando ela começou a olhar mais de perto para a carta, Finley voltou à sala.

- Que rápido – O’Malley disse.

- Pois é. Acontece que uma das mulheres do despacho tem um pai que trabalha perto do Prudential Center, que fica no CEP 02199, a propósito. Talvez seja só uma coincidência, mas nunca se sabe. De qualquer jeito, o marido dela trabalha em um laboratório tecnológico naquela direção. Ela diz que eles fazem experimentos loucos com mecânica quântica e coisas assim. Um tipo de braço da escola de tecnologia da Boston University.

- Mecânica quântica? – O’Malley perguntou. – Isso não tem a ver com nosso procurado, tem?

- Depende dos experimentos – Avery disse, instantaneamente interessada. – Não sei muito sobre o tema, mas sei que tem áreas da mecânica quântica que lidam com temperaturas extremas. Algo a ver com encontrar a durabilidade e pontos de origem central de diferentes tipos de coisas.

- Como você sabe disso tudo? – Connelly perguntou.

Ela encolheu os ombros.

- Assisti muito Discovery Channel na faculdade. Gravei algumas coisas, acho.

- Bom, vale a pena tentar – Connelly disse. – Vamos conseguir informações sobre o laboratório e ir até la falar com eles.

- Posso fazer isso – Avery disse.

- Enquanto isso – Connelly disse, olhando para o relógio, - os jornais da noite vão ao ar em três minutos. Vamos ligar a TV e ver quanto a mídia vai foder com a gente nesse caso.

Ele saiu voando da sala de conferências com O’Malley atrás. Finley olhou para Avery se desculpando e também saiu. Ramirez olhou a carta pelos ombros de Avery, balançando a cabeça.

- Você acha que esse cara é perturbado ou ele só quer que a gente ache que ele é louco? – Ele perguntou.

- Não tenho certeza – ela disse, lendo novamente a carta. – Mas sei que esse laboratório é o lugar perfeito para começar.




CAPÍTULO SETE


A Esben Technologies ficava escondida entre outros prédios de aparência normal a cerca de dois quilômetros e meio do Prudential Center, em uma quadra de prédios cinzas totalmente sem destaque. A empresa ocupava o prédio central e aparentava ser exatamente igual aos prédios ao redor—sem parecer ser um laboratório.

Quando Avery entrou com Ramirez, ela percebeu que a sala frontal consistia em pouco mais do que um lindo chão de madeira, destacado pelo sol da manhã que entrava pelo teto solar acima. Uma mesa enorme ficava encostada na parede ao longe. Em uma ponta, uma mulher estava digitando algo em um computador. Na outra, outra mulher estava escrevendo algo. Quando Avery e Ramirez entraram, essa mulher olhou e sorriu formalmente.

- Sou Detetive Avery Black e esse é Detetive Ramirez – Avery disse quando se aproximou da mulher. – Nós gostaríamos de falar com quem estiver no comando aqui.

- Bem, o supervisor geral mora no Colorado, mas o homem que meio que comanda tudo aqui no prédio deve estar no escritório dele.

- Pode ser com ele – Avery disse.

- Um momento – a recepcionista disse, levantando-se e passando por uma grande porta de carvalho no lado mais longínquo da sala.

Quando ela saiu, Ramirez aproximou-se de Avery, mantendo sua voz baixa para que a outra mulher no computador não ouvisse.

- Você sabia que esse lugar existia até ontem? – Ele perguntou.

- Não tinha nem ideia. Mas acho que a discrição faz sentido. Centros de tecnologia que são ligados a universidades, mas não estão dentro do campus, geralmente tentam ficar na surdina.

- Discovery Channel? – Ele perguntou.

- Não. Buscas antigas.

Pouco menos de um minuto se passou até que a mulher retornasse. Quando ela voltou, um homem a acompanhava. Ele vestia uma camisa de botão. Um grande casaco branco que lembrava aqueles dos médicos cobria a camisa parcialmente. Ele tinha uma expressão de preocupação que parecia ser realçada por seus óculos.

- Olá – ele disse, dando um passo em direção a Avery e Ramirez. Ele estendeu a mão para comprimentar e disse: - Sou Hal Bryson. O que posso fazer para ajuda-los?

- Você é o supervisor aqui? – Avery perguntou.

- Mais ou menos. Só trabalhamos em quatro aqui. Somos como um local de entrada e saída, mas sim, eu superviso experimentos e dados.

- E que tipo de trabalho é feito aqui? – Avery perguntou.

- Muita coisa – Bryson disse. – Sem querer parecer arrogante, se você pudesse me dizer porque vocês vieram até aqui, eu provavelmente poderia ser mais exato.

Avery manteve a voz baixa, sem querer que a mulher na mesa a escutasse. E já que estava claro que Bryson não tinha intenção de convida-los a passar além do hall de entrada, ela percebeu que teria que conversar ali mesmo.

- Estamos lidando com um caso onde um suspeito parece ter interesse em gelo e temperaturas frias – ela disse. – Ele nos enviou uma carta provocadora ontem. Estamos tentando descobrir se pode ter algum tipo de pesquisa aqui que possa estar relacionada a isso. É um caso muito estranho, então estamos começando com a única pista que temos—o frio.

Entendi – Bryson disse. – Bem, de fato há alguns experimentos aqui que envolvem temperaturas extremamente frias. Eu poderia leva-los lá atrás no laboratório para lhes mostrar, mas eu teria que pedir que vocês estivessem completamente higienizados e colocassem as roupas apropriadas.

- Eu agradeceria – Avery disse. – E talvez lhe pediremos isso mais tarde. Com sorte, não teremos que fazer isso. Você poderia apenas nos dar uma ideia sucinta desses testes?

- Claro – Bryson disse. Ele pareceu feliz em poder ajudar, agindo como um professor expressivo quando começou a explicar. – O volume de testes e trabalhos que fazemos aqui que envolvem temperaturas frígidas envolve ir além do que se sabe sobre limites de ação quântica. Esse limite é a temperatura pouco acima de absoluto zero Fahrenheit—dez mil vezes mais frio do que temperaturas que você encontra no vácuo do espaço.

- E qual a razão de tais trabalhos? – Avery perguntou.

- Auxiliar na pesquisa e desenvolvimento de sensores hipersensíveis para trabalhos mais avançados. Também são ótimos para entender a estrutura de certos elementos e como eles respondem a temperaturas tão extremas.

- E vocês conseguem chegar a essas temperaturas nesse prédio? – Ramirez perguntou.

- Não, não nos nossos laboratórios. Estamos trabalhando como um tipo de extensão para o Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia em Boulder. Mas podemos chegar perto aqui, sim.

- E você diz que vocês são só quatro aqui – Avery disse. – Sempre foi assim?

- Bom, éramos cinco até cerca de um ano atrás. Um dos meus colegas teve que sair. Ele começou a ter dores de cabeça e outros problemas de saúde. Ele não estava bem mesmo.

- Ele saiu por vontade própria? – Avery perguntou.

- Sim.

- Eu poderia saber o nome dele, por favor?

Um pouco preocupado, Bryson respondeu.

- O nome dele é James Nguyen. Mas por favor me perdoe por dizer... Eu duvido muito que ele é quem vocês estão procurando. Ele sempre foi muito gentil, escudado... um cavalheiro. E meio que um gênio, também.

- Obrigada pela franqueza – Avery disse, - mas temos que seguir todos os caminhos que aparecerem para nós. Você saberia como eu posso entrar em contato com ele?

- Sim, posso te dar essa informação.

- Quando foi a última vez que você falou com o senhor Nguyen?

- Faz pelo menos... Ah, não sei... oito meses eu diria. Foi apenas uma ligação para saber como ele estava.

- E como ele estava?

- Bem, até onde eu sei. Está trabalhando como editor e pesquisador para um jornal científico.

- Obrigada pelo seu tempo, senhor Bryson. Se você conseguir o contato do senhor Nguyen, ajudaria muito.

- Claro – ele disse, parecendo triste. – Um momento.

Bryson foi até a recepcionista atrás do notebook e falou baixo com ela. Ela assentiu e começou a digitar algo. Enquanto esperavam, Ramirez novamente aproximou-se de Avery. Aquele era um velho sentimento: manter-se profissional quando ele chegava perto era muito difícil.

- Mecânica quântica? – Ele disse. – Vácuo no espaço? Acho que esse negócio é demais para mim.

Ela sorriu para ele, com dificuldades para não beija-lo. Fez o melhor que pode para manter-se focada quando Bryson voltou em direção a eles com um pedaço de papel impresso nas mãos.

- É demais para mim também – ela murmurou para Ramirez, rapidamente sorrindo para ele. – Mas eu não tenho problemas em remar contra a maré.



***



Havia dias em que Avery quase se espantava com a fluidez com que as coisas andavam. Bryson havia lhes entregado o telefone, e-mail e endereço de James Nguyen. Avery ligara para Nguyen e ele havia não só atendido, mas também os convidado para ir a sua casa. E ele parecia feliz em fazer isso, na verdade.

Então, quando ela e Ramirez chegaram à porta da frente, quarenta minutos depois, Avery não pode deixar de pensar que eles poderiam estar perdendo tempo. Nguyen vivia em uma linda casa de dois andares em Beacon Hill. Aparentemente, sua carreira na ciência pagava bem suas contas. Às vezes, Avery encontrava-se admirada por pessoas com mentes matemáticas e científicas. Ela amava ler textos deles ou falar com pessoas assim—essa era uma das razões pelas quais ela começara a assistir Discovery Channel e ler revistas científicas na biblioteca da faculdade.

Ramirez bateu à porta. Não levou tempo algum até que Nguyen atendesse. Ele parecia ter quase sessenta anos. Vestia uma camiseta do Boston Celtics e shorts de academia. Parecia casual, calmo e até feliz.

Como já tinham se apresentado pelo telefone, Nguyen os convidou a entrar. Eles entraram em um hall elaborado que levou até uma grande sala. Parecia que Nguyen havia se preparado para recebe-los. Ele colocou roscas e xícaras de café no que parecia ser uma mesa de café muito cara.

- Por favor, sentem – Nguyen disse.

Avery e Ramirez sentaram no sofá olhando para a mesa de café, enquanto Nguyen sentou em uma poltrona, no lado oposto.

- Sirvam-se – Nguyen disse, apontando para o café e as roscas. – Agora, o que posso fazer por vocês?

- Bem, como eu disse no telefone – Avery disse – nós falamos com Hal Bryson e ele nos disse que você saiu do seu trabalho na Esben Technologies. Você poderia nos falar um pouco sobre isso?

- Sim. Infelizmente, eu estava colocando muito tempo e energia no trabalho. Comecei a ter visões duplas e dores de cabeça fortes. Trabalhei oitenta e seis horas por semana por cerca de sete meses seguidos. Fiquei obcecado pelo meu trabalho.

- Por qual aspecto do trabalho, exatamente? – Avery perguntou.

- Olhando para trás, eu sinceramente não sei te dizer – ele disse. – Era apenas por saber que nós estávamos perto de criar temperaturas no laboratório que imitariam algo que alguém poderia sentir no espaço. Encontrar maneiras de manipular elementos com temperaturas... tem algo divino nisso. Pode ser viciante. E eu não percebi até que fosse tarde.

A obsessão dele pelo trabalho certamente bate com a descrição de seja quem for que nós estivermos procurando, Avery pensou. Ainda assim, mesmo tendo falado com Nguyen por apenas dois minutos, ela tinha certeza de que Bryson estava certo. Não havia chances de Nguyen estar envolvido naquilo.

- Em que exatamente você estava trabalhando quando saiu? – Avery perguntou.

- É complicado – ele disse. – E desde então, eu deixei aquilo para trás. Mas, essencialmente, eu estava trabalhando em livrar-se do excesso de calor causado quando átomos perdem seu impulso durante processos de resfriamento. Estava lidando com unidades quânticas de vibração e fótons. Agora, pelo que eu entendo, isso está sendo aperfeiçoado pelos nossos amigos em Boulder. Mas naquele tempo, eu estava trabalhando como um louco!

- Além do trabalho que você está fazendo para jornal e as coisas na faculdade, ainda está fazendo algum trabalho? – Ela perguntou.

- Faço umas coisas aqui e ali – ele disse. – Mas só coisas aqui em casa. Tenho meu pequeno laboratório próprio em uma sala alugada a algumas quadras daqui. Nada sério. Você gostaria de ver?

Avery sabia que eles não estavam sendo enganados. Nguyen era claramente apaixonado pelo trabalho que costumava fazer. E quanto mais ele falava sobre o que havia feito, mais ele os colocava em um mundo de mecânica quântica—um mundo que com certeza estava longe do mundo de um assassino louco jogando um corpo em um rio congelado.

Avery e Ramirez se olharam. Um olhar que Avery encerrou quando baixou a cabeça.

- Bem, senhor Nguyen – ela disse, - nós agradecemos pelo seu tempo. Mas deixe-me fazer só mais uma pergunta: durante o tempo que você trabalhou no laboratório, você conheceu alguém—colegas, alunos, qualquer pessoa—que parecia muito excêntrica ou um pouco louca?

Nguyen levou alguns momento para pensar, mas depois balançou a cabeça.

- Não que eu lembre agora. Mas eu repito, nós cientistas somos todos um pouco excêntricos no trabalho. Mas se eu lembrar de alguém, eu lhe aviso.

- Obrigada.

- E se vocês mudarem de ideia e quiserem ver meu laboratório, é só me avisar.

Apaixonado pelo trabalho e solitário, Avery pensou. Porra... Eu era assim até uns meses atrás.

Ela podia enxergar essa relação. E por isso, aceitou feliz o cartão de Nguyen quando ele a ofereceu na porta, que ele fechou quando Avery e Ramirez seguiram pelas escadas em direção ao carro.

- Você entendeu alguma palavra do que ele disse? – Ramirez perguntou.

- Muito pouco – ela disse.

Mas a verdade é que ele havia dito uma coisa que ainda permanecia em sua mente. Algo que não a fez querer investigar Nguyen mais a fundo, mas a deu uma ideia sobre como pensar sobre o assassino.

Encontrar maneiras de manipular elementos com temperaturas, Nguyen dissera. Tem algo divino nisso.

Talvez nosso assassino está agindo achando que é um deus, ela pensou. E se ele pensa como um deus, ele pode ser mais perigoso do que nós achamos.




CAPÍTULO OITO


O hamster parecia um bloco de gelo peludo quando ele o tirou do congelador. Estava gelado como um bloco de gelo, também. Ele não pode evitar uma risada quando ouviu o som que o animal fez quando foi colocado forma. Suas pernas estavam penduradas no ar—bem diferente do modo como ele havia andado de um lado a outro em pânico quando fora colocado no congelador.

Isso fora três dias atrás. Desde então, a polícia havia descoberto o corpo da garota no rio. Ele ficara surpreso com quão longe o corpo havia ido. Todo o caminho até Watertown. E o nome da garota era Patty Dearborne. Soava pretencioso. Mas porra, aquela garota era linda.

Ele pensou, futilmente, em Patty Dearborne, a garota que levara dos subúrbios do campus da Boston University, enquanto passava os dedos pela barriga gelada do hamster. Ele ficara muito nervoso, mas havia sido muito fácil. Claro, ele não tinha a intenção de matar a garota. As coisas saíram do controle. Mas então... então tudo se desencadeara para ele.

A beleza poderia ser tomada, mas não em algum tipo mortal. Até mesmo quando Patty Dearborne estava morta, ela ainda era linda. Uma vez que ele pegou Patty nua, ele a tinha encontrado quase impecável. Havia um sinal na pele na parte inferior das costas e uma pequena cicatriz na parte superior do tornozelo. Mas fora isso, ela estava impecável.

Ele havia jogado Patty no rio e quando ela bateu na água gelada, já estava morta. Ele assistira a cena com grande expectativa, pensando se eles seriam capazes de trazê-la de volta... pensando se o gelo que a havia mantido por aqueles dois dias a preservariam de alguma forma.

Era óbio que não.

Eu fui desleixado, ele pensou, olhando para o hamster. Vai levar um tempo, mas eu vou descobrir.

Ele estava pensando que o hamster poderia ser uma parte da descoberta. Com os olhos ainda em seu pequeno corpo congelado, pegou duas almofadas térmicas no balcão da cozinha. Eram do tipo de almofada térmica usada em atletas para soltar os músculos e relaxar as partes mais tensas do corpo. Ele colocou uma das almofadas abaixo do corpo e a outra sob suas pernas rígidas e frígidas.

Ele tinha certeza que seria necessário esperar. Ele tinha muito tempo... não tinha nem um pouco de pressa. Estava tentando enganar a morte e sabia que a morte não iria a nenhum lugar.

Com este pensamento na cabeça, preencheu o apartamento com uma risada parecida com a de uma bruxa. Dando um último olhar ao hamster, caminhou para seu quarto. Estava bem arrumado. Foi até o banheiro e lavou suas mãos com a eficiência de um cirurgião. Então, olhou para o espelho e olhou para seu rosto – um rosto que ele, algumas vezes, pensava ser de um monstro.

Havia um dano irreparável no lado esquerdo do seu rosto. Começava logo abaixo do seu olho e alcançava seu lábio superior. Enquanto a maior parte da pele e tecido havia se recuperado em sua juventude, havia cicatrizes permanentes e descoloração naquele lado da face. Sua boca sempre parecia estar congelada. Uma carranca permanente.

Aos trinta e nove anos de idade, havia deixado de se preocupar em quão ruim aquilo parecia. Era a ajuda que ele recebera. Uma ajuda de merda havia resultado num rosto desfigurada. Mas estava tudo bem... ele estava trabalhando em consertá-lo. Olhou para o reflexo deformado no espelho e sorriu. Poderia levar anos para conseguir, mas estava tudo bem.

- Hamsters custam apenas cinco dólares cada um – ele disse no banheiro vazio.

Ele havia feito algumas leituras, principalmente em fóruns de enfermeiros e estudantes de medicina. Para saber se o experimento com o hamster estava funcionando, as almofadas térmicas precisariam ficar nele por mais ou menos quarenta minutos. Seria um descongelamento lento, que não poderia ser interrompido nem chocar o coração congelado.

Ele passou aqueles quarenta minutos assistindo às notícias. Viu algumas coisas rápidas sobre Patty Dearborne. Viu que Patty estudava na Boston University e havia rumores de se tornar uma conselheira. Ela tinha um namorando e também tinha pais que a amavam. Viu os pais dela na TV, se abraçando e chorando juntos enquanto falavam com a mídia.

Ele desligou a TV enquanto caminhava para a cozinha. O cheiro do hamster descongelando estava começando a tomar conta da sala... um cheiro que ele não estava esperando. Correu de volta ao pequeno corpo e tirou as almofadas térmicas dele.

A pele estava chamuscada e a barriga, até então congelada, estava levemente carbonizada. Ele empurrou aquele pequeno corpo peludo. Quando caiu no chão da cozinha com pequenos trilhos de fumaça saindo da sua pele, ele gritou.

Ele correu pelo apartamento por alguns instantes, furioso. Como era de se esperar, sua raiva e absoluta fúria eram guiadas por memórias de um queimador de forno... queimando suas memórias de infância com cheiro de carne queimada.

Seus gritos diminuíram e se tornaram uma cara feia e soluços em menos de cinco minutos. Então, como se nada fora do comum tivesse acontecido, foi para a cozinha e pegou o hamster. Jogou-o na lixeira como se fosse um pedaço de lixo e lavou suas mãos na pia da cozinha.

Estava sussurrando quando terminou. Quando pegou suas chaves no gancho perto da porta, como de costume, correu sua mão livre pela cicatriz do lado direito do seu rosto. Fechou a porta, trancou, e foi para a rua. Lá, no meio de uma manhã de inverno absolutamente linda, entrou em sua van vermelha e começou a descer pela rua.

Quase casualmente, olhou para si mesmo no espelho retrovisor.

Aquela carranca permanente estava ainda lá, mas não deixou que aquilo o intimidasse.

Ele tinha trabalho a fazer.



***



Sophie Lentz estava de saco cheio da fraternidade. Aliás, ela estava quase desistindo da universidade também.

Vaidosa ou não, ela sabia como era. Havia garotas mais bonitas do que ela, com certeza. Mas ela tinha uma veia latina que a favorecia, os olhos escuros e os cabelos pretos brilhosos. Poderia também mudar seu sotaque quando precisasse. Havia nascido nos Estados Unidos, crescido no Arizona, mas de acordo com sua mãe, a veia Latina nunca a deixara. A veia Latina nunca deixara seus pais também... nem mesmo quando se mudaram para New York na semana depois que Sophie foi aceita na Emerson.

No entanto, aquela veia era mais gritante em sua aparência do que nas suas atitudes e personalidade. E aquilo a ajudara no Arizona. Na verdade, também a ajudara na universidade. Mas apenas no ano de caloura. Ela havia aproveitado, mas não como sua mãe provavelmente pensara. E aparentemente, a história havia se espalhado: Sophie Lentz não demorava muito para ir para a cama, e quando ela ia, você tinha que estar preparado.

Ela supunha que haviam reputações piores. Mas aquilo havia explodido em sua cara nesta noite. Algum cara – ela achava que o nome dele era Kevin – tinha começado a beijá-la e ela deixou. Mas quando eles estavam sozinhos e ele não aceitou um não como resposta...

A mão direita de Sophie ainda doía. Ainda havia um pouco de sangue em seus dedos. Ela os limpou em seu jeans apertado, lembrando o som do nariz daquele babaca batendo contra o seu punho. Ela estava furiosa, mas, no fundo, se perguntava se merecia isso. Ela não acreditava em karma, mas talvez o lado megera que ela havia usado no semestre passado estava se voltando contra ela. Talvez ela estivesse colhendo o que plantou.

Caminhava pelas ruas que cortavam a Emerson College, voltando para o seu apartamento. Sua colega de quarto certinha estaria, sem dúvidas, estudando para algum teste do dia seguinte, então pelo menos ela não estaria sozinha.

Estava a três quarteirões do seu apartamento quando começou a sentir uma sensação estranha. Olhou para trás, certa de que estava sendo seguida, mas não havia ninguém. Ela podia ver as sombras de algumas pessoas em um pequeno café a alguns metros atrás dela, mas era só. Teve um pensamento sobre qual tipo de idiotas bebiam café às onze e meia da noite, ainda irritada sobre Kevin ou qualquer que fosse o nome daquele cara.

Na frente de um semáforo, alguém estava tocando um terrível hip hop. O para choque traseiro do carro estava tremendo e o som parecia miserável. Você está sendo uma verdadeira vadia esta noite, não está? Ela disse a si mesma.

Ela olhou para sua mão direita ligeiramente inchda e sorriu. Sim. Sim, estou.

Quando chegou ao cruzamento onde estava o carro, a luz havia mudado e o carro acelerou. Ela virou à direita no cruzamento e seu prédio já estava à vista. Mais uma vez, porém, sentiu aquela estranha sensação. Virou-se para olhar para trás e, de novo, não havia nada. Um pouco abaixo, na rua, um casal caminhava de mãos dadas. Havia vários carros estacionados na rua e uma única van vermelha andando na direção do semáforo pelo qual ela acabara de passar.

Talvez ela apenas estivesse sendo paranoica porque um babaca havia, basicamente, tentado estupra-la. Aquela adrenalina adicional que estava fluindo por ela era uma combinação insalubre. Ela apenas precisava ir para casa, tomar um banho e ir para a cama. Aquela porcaria de fazer festas tinha que acabar.

Ela se aproximou do apartamento, esperando que sua colega de quarto não estivesse em casa. Ela faria milhares de perguntas do porquê ela chegara cedo em casa. Fazia isso porque era intrometida e não tinha uma vida própria... e não porque se importava.

Ela subiu os degraus do prédio. Quando abriu a porta e entrou, olhou para a rua, com aquela sensação de estar sendo observada novamente. No entanto, as ruas estavam vazias; a única coisa que viu foi um casal se beijando com força na frente de um prédio próximo ao dela. Ela também viu a mesma van vermelha. Estava estacionada no semáforo, numa espécie de marcha lenta. Sophie se perguntou se havia algum babaca dirigindo, assistindo a pegação na frente do outro prédio.

Com uma série de arrepios, Sophie entrou. A porta se fechou, deixando a noite atrás dela. Mas aquele sentimento inquietante permaneceu.



***



Ela acordou quando sua colega de quarto saiu na manhã seguinte. A chata barulhenta estava, provavelmente, saindo para comprar mais mangas ou mamãos para seus pretenciosos smoothies de fruta. Sophie tinha certeza que sua colega de quarto não tinha aulas naquela manhã. Ela olhou para o relógio e viu que eram dez e meia

Merda, ela pensou. Ela teria aula em uma hora e não conseguiria chegar a tempo. Precisava que tomar banho, comer algo e então ir para o campus. Ela suspirou, pensando em como havia permitido se tornar aquele tipo de garota. Seria assim agora? Deixaria seu drama pessoal atrapalhar sua educação e melhora de vida? Ela estava—

Uma batida na porta interrompeu suas reflexões internas. Ela resmungou e saiu da cama. Vestia apenas calcinhas e uma camiseta fina de algodão, mas aquilo não importava. Tinha quase certeza que era sua colega de quarto. A idiota provavelmente havia deixado sua carteira. Ou chaves. Ou alguma coisa...

Outra batida, macia, mas insistente. Sim… era sua colega de quarto. Só ela tinha aquele jeito irritante de bater.

- Calma aí! – Sophie gritou.

Ela chegou na porta e abriu, destrancando a fechadura. Encontrou-se olhando para um estranho. Havia algo errado no rosto dele–foi a primeira coisa que ela notou.

E a última.

O estranho invadiu o apartamento, fechando a porta rapidamente. Antes que Sophie pudesse gritar, havia uma mão em sua garganta e um pano sob sua boca. Ela respirou uma dose pesada de algum tipo de produto químico – um cheiro tão forte que encheu seus olhos de água enquanto ela lutava contra os braços do estranho.

Sua luta diminuiu rapidamente. No momento em que qualquer medo real pudesse tomar conta dela, o mundo havia se tornado uma sombra preta que levou Sophie a um lugar mais escuro e profundo que o sono.




CAPÍTULO NOVE


Noites que não eram cheias de trabalho ou agitadas não eram algo com o qual Avery estava acostumada. Então, quando se via em uma noite assim, ela nunca sabia como agir. No momento, estava sentada em seu sofá, segurando seu telefone e enviando uma mensagem para Rose. Ela sabia que se realmente fosse manter Rose em sua vida a partir de agora, teria que torna-la sua prioridade.

Sim, ela tinha as notas do caso de Patty Dearbone em sua frente, mas elas não a estavam consumindo. Ela também tinha uma cópia da carta que o assassino enviara e mesmo que aquilo a provocasse, ela fez o melhor que pode para colocar Rose acima de tudo naquele momento. Em suas mensagens para a filha, estava descobrindo que Rose estava esperando por algum tipo de atenção, mesmo que não estivesse ciente disso. Ela estava fofocando com uma garota adolescente, falando sobre garotos e filmes. Elas também estavam planejando a próxima saída juntas. Avery tomou o cuidado de contar a Rose o que estava acontecendo em seu trabalho. Assim, se alguma coisa acontecesse e interferisse nos planos, não seria algo que surgiria do nada.

Tentando se acostumar com as estranhas conversas com sua filha de 19 anos, Avery também estava curtindo outro aspecto em sua vida com o qual ela ainda não estava acostumada: ter Ramirez na maior parte do tempo.

Ele estava sentado no lado oposto do sofá, com as pernas esticadas. Seus pés estavam entrelaçados, com os dedos roçando preguiçosamente.

Isso é meio triste, ela pensou. Fofo... mas triste. Eu pensei que essa parte da minha vida tinha acabado... brincando com os dedos com um belo homem mem meu sofá. Essa é a minha vida agora?

Ela riu para si mesma. Não pode evitar. Algumas vezes as surpresas da vida iam além do que era possível compreender.




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