Razão para Correr Blake Pierce Um mistério de Avery Black #2 Uma história dinâmica que prende a atenção desde o primeiro capítulo e não te solta maisMidwest Book Review, Diane Donovan (sobre Once Gone) Do autor de suspenses número 1, Blake Pierce, a nova obra-prima do suspense psicológico. Em RAZÃO PARA CORRER (Um Mistério de Avery Black – Livro 2), um novo assassino está aterrorizando Boston, matando suas vítimas de maneiras bizarras, desafiando a polícia com quebra-cabeças misteriosos com referências às estrelas. Com o tempo passando e a pressão aumentando, a Polícia de Boston é forçada a pedir a ajuda da mais brilhante – e controversa – detetive de homicídios: Avery Black. Ainda se recuperando de seu último caso, Avery se vê contra uma delegacia rival e um assassino hábil e brilhante, que está sempre um passo a sua frente. Ela é forçada a entrar em sua mente escura e confusa a cada vez em que ele deixa pistas para o próximo assassinato, além de ter que buscar lugares em sua própria mente que ela não gostaria de visitar. Black é obrigada a procurar a ajuda de Howard Randall, o confuso assassino que ela havia libertado anos antes, tudo isso enquanto sua nova vida com Rose e Ramirez desmorona. Quando parece que as coisas não podem piorar, ela descobre algo a mais: ela mesma pode ser o próximo alvo do assassino. Em uma guerra psicológica de gato e rato, a corrida frenética contra o tempo leva Avery a uma série de reviravoltas chocantes e inesperados, chegando a um ponto que Avery não poderia imaginar. Uma história psicológica obscura com um suspense perturbador, RAZÃO PARA CORRER é o livro 2 de uma nova série fascinante e de uma nova personagem amada, que o farão ler páginas e páginas noite adentro. O livro 3 da série Avery Black estará disponível em breve. Uma obra-prima de suspense e mistério. Pierce fez um trabalho magnífico criando personagens com um lado psicológico tão bem descritos que nos fazem sentir dentro de suas mentes, acompanhando seus medos e celebrando seu sucesso. A história é muito interessante e vai lhe entreter durante todo o livro. Cheio de reviravoltas, este livro vai lhe manter acordado até que você chegue à última página. Books and Movie Reviews, Roberto Mattos (sobre Once Gone) R A Z Ã O P A R A C O R R E R (UM MISTÉRIO DE AVERY BLACK – LIVRO 2) B L A K E P I E R C E Blake Pierce Blake Pierce é autor do bestseller RILEY PAGE, série de mistérios, que inclui os suspenses SEM PISTAS. Blake Pierce também é o autor das séries de mistérios MACKENZIE WHITE e AVERY BLACK. Um leitor ávido e fã de longa data dos gêneros de mistério e suspense, Blake ama ouvir opiniões. Então, por favor, sinta-se à vontade para visitar www.blakepierceauthor.com (http://www.blakepierceauthor.com) para saber mais e manter-se em contato. Copyright © 2016 by Blake Pierce. Todos os direitos reservados. Exceto conforme permitido na Lei de Direitos Autorais dos Estados Unidos (US. Copyright Act of 1976), nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, distribuída ou transmitida de nenhuma forma e por motivo algum, ou colocada em um sistema de dados ou sistema de recuperação sem permissão prévia do autor. Este ebook está licenciado apenas para seu aproveitamento pessoal. Este ebook não pode ser revendido ou dado a outras pessoas. Se você gostaria de compartilhar este ebook com outra pessoa, por favor compre uma cópia adicional para cada beneficiário. Se você está lendo este ebook e não o comprou, ou ele não foi comprado apenas para uso pessoal, então por favor devolva-o e compre seu próprio exemplar. Obrigado por respeitar o trabalho árduo do autor. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, empresas, organizações, lugares, eventos e acontecimentos são obras da imaginação do autor ou serão usadas apenas na ficção. Qualquer semelhança com pessoas de verdade, em vida ou falecidas, é totalmente coincidência. Imagem de capa: Copyright miljko, usada sob licença de iStock.com. LIVROS ESCRITOS POR BLAKE PIERCE SÉRIE DE MISTÉRIOS RILEY PAGE SEM PISTAS (Livro 1) ACORRENTADAS (Livro 2) SÉRIE DE ENIGMAS MACKENZIE WHITE ANTES QUE ELE MATE (Livro nº1) ANTES QUE ELE VEJA (Livro nº2) SÉRIE DE ENIGMAS AVERY BLACK MOTIVO PARA MATAR (Livro nº1) MOTIVO PARA CORRER (Livro nº2) ÍNDICE PRÓLOGO (#u20094870-049e-51e9-9be3-7f46abb7d7aa) CÁPITULO UM (#u5d3aaa65-2ce1-5b21-9ca5-d49a829564a7) CAPÍTULO DOIS (#u1dec6480-3f68-5efc-84c8-560256eb35af) CAPÍTULO TRÊS (#u031dc0c6-c758-545e-8c9a-d3a36da17899) CAPÍTULO QUATRO (#ue368fe32-2041-5cdd-a85a-8dec3db7d392) CAPÍTULO CINCO (#uc4063519-34bd-5d66-a237-1d087fdac5bd) CAPÍTULO SEIS (#ub6697f59-c5d5-53b2-a8f3-dfb92982519b) CAPÍTULO SETE (#u86abd415-a7fd-5673-978f-f1d902a885c6) CAPÍTULO OITO (#u8256db70-ab25-5a33-95ed-a67664d2ead9) CAPÍTULO NOVE (#uc14c5246-dae4-596f-a829-aeff352eb64d) CAPÍTULO DEZ (#litres_trial_promo) CAPÍTULO ONZE (#litres_trial_promo) CAPÍTULO DOZE (#litres_trial_promo) CAPÍTULO TREZE (#litres_trial_promo) CAPÍTULO QUATORZE (#litres_trial_promo) CAPÍTULO QUINZE (#litres_trial_promo) CAPÍTULO DEZESSEIS (#litres_trial_promo) CAPÍTULO DEZESSETE (#litres_trial_promo) CAPÍTULO DEZOITO (#litres_trial_promo) CAPÍTULO DEZENOVE (#litres_trial_promo) CAPÍTULO VINTE (#litres_trial_promo) CAPÍTULO VINTE E UM (#litres_trial_promo) CAPÍTULO VINTE E DOIS (#litres_trial_promo) CAPÍTULO VINTE E TRÊS (#litres_trial_promo) CAPÍTULO VINTE E QUATRO (#litres_trial_promo) CAPÍTULO VINTE E CINCO (#litres_trial_promo) CAPÍTULO VINTE E SEIS (#litres_trial_promo) CAPÍTULO VINTE E SETE (#litres_trial_promo) CAPÍTULO VINTE E OITO (#litres_trial_promo) CAPÍTULO VINTE E NOVE (#litres_trial_promo) CAPÍTULO TRINTA (#litres_trial_promo) CAPÍTULO TRINTA E UM (#litres_trial_promo) CAPÍTULO TRINTA E DOIS (#litres_trial_promo) CAPÍTULO TRINTA E TRÊS (#litres_trial_promo) CAPÍTULO TRINTA E QUATRO (#litres_trial_promo) CAPÍTULO TRINTA E CINCO (#litres_trial_promo) CAPÍTULO TRINTA E SEIS (#litres_trial_promo) CAPÍTULO TRINTA E SETE (#litres_trial_promo) CAPÍTULO TRINTA E OITO (#litres_trial_promo) CAPÍTULO TRINTA E NOVE (#litres_trial_promo) CAPÍTULO QUARENTA (#litres_trial_promo) CAPÍTULO QUARENTA E UM (#litres_trial_promo) CAPÍTULO QUARENTA E DOIS (#litres_trial_promo) CAPÍTULO QUARENTA E TRÊS (#litres_trial_promo) CAPÍTULO QUARENTA E QUATRO (#litres_trial_promo) CAPÍTULO QUARENTA E CINCO (#litres_trial_promo) CAPÍTULO QUARENTA E SEIS (#litres_trial_promo) CAPÍTULO QUARENTA E SETE (#litres_trial_promo) EPÍLOGO (#litres_trial_promo) PRÓLOGO Ele estava abaixado na sombra da cerca de um estacionamento, olhando para o prédio de tijolos de três andares do outro lado da rua. Imaginou que era hora do jantar, um momento em que as famílias estariam reunidas, rindo e contando as histórias do dia. Histórias, ele zombou. Histórias eram para os fracos. O assovio quebrou seu silêncio. O assovio dela. Henrietta Venemeer assoviava enquanto caminhava. Tão feliz, ele pensou. Tão distraída. Sua raiva aumentou quando a viu. Uma raiva ardente, que tomou conta de todo seu campo de visão. Ele fechou os olhos e respirou fundo para que a raiva parasse. Remédios costumavam ajuda-lo com a raiva. Eles o acalmavam e mantinham sua mente clara e despreocupada. Agora, porém, até as drogas falharam. Ele precisava de algo maior para ajudá-lo a balancear sua vida. Algo cósmico. Você sabe o que tem que fazer, relembrou a si mesmo. Ela era uma mulher delicada e mais velha, com cabelos vermelhos e um ar de autoconfiança que a rodeava em todos os momentos: seu quadril balançava como se ela estivesse dançando uma música interna, e havia um movimento notável em seus passos. Ela trazia uma bolsa de besteiras comestíveis e estava indo diretamente em direção ao prédio de tijolos naquela parte esquecida do leste de Boston. Vá agora, ele ordenou a si mesmo. Assim que ela chegou à porta do prédio e estava procurando pelas chaves, ele deixou seu esconderijo e atravessou a rua lentamente. Ela abriu a porta do prédio e entrou. Antes que a porta batesse, ele colocou seu pé na entrada. A câmera que vigiava o hall de entrada havia sido desligada mais cedo: ele havia aplicado um spray nas lentes para escurecer as imagens, mas ainda assim dar a impressão de que a câmera estivesse funcionando. A segunda porta do hall havia sido quebrada, também, na fechadura de fácil violação. Ela seguia assoviando quando desapareceu em direção às escadas. Ele caminhou prédio adentro para segui-la, evitando outras câmeras e a desconfiança de pessoas na rua, que pudessem estar olhando de outros prédios. Tudo fora investigado mais cedo, e o momento de seu ataque fora alinhado com o universo. Assim que ela chegou ao terceiro andar, para destravar a porta principal, ele estava atrás dela. A porta abriu e, assim que ela entrou no apartamento, ele a segurou pelo queixo e fechou sua boca com a mão, abafando seus gritos. Depois, ele entrou no apartamento e fechou a porta atrás de si. CÁPITULO UM Avery Black tirou do estacionamento seu novo carro, um Ford conversível, estilo policial, preto, de quatro portas, e sorriu para si mesma. O cheiro de carro novo e a sensação do volante em suas mãos lhe deram um sentimento de alegria, de recomeço. A velha BMW branca, que ela havia comprado em seu tempo de advogada e que a lembrava constantemente de sua vida antiga, já não existia. Uhul, ela comemorou internamente, como fazia quase todas vezes em que sentava atrás daquele volante. O carro novo não tinha apenas vidros escuros, acabamento em preto e bancos de couro, mas era também totalmente equipado com case para arma, computador no painel e luzes de polícia nas grades, janelas e retrovisores. Melhor ainda, quando as luzes azuis e vermelhas estavam desligadas, o carro se parecia a qualquer outro veículo na estrada. De fazer inveja a qualquer tira, pensou. Ela fora buscar um parceiro. Dan Ramirez, às oito em ponto. Como sempre, o look dele estava perfeito: cabelos negros penteados para trás, pele bronzeada, olhos escuros, vestido com as roupas mais chiques. Usava uma camisa amarelo-canário sob uma jaqueta carmesim. Ele vestia uma calça carmesim, um cinto marrom claro e sapatos da mesma cor. - Nós deveríamos fazer algo hoje à noite – ele disse. – Última noite do nosso cronograma de trabalho da semana. Pode ser quarta, mas parece sexta. Ele sorriu calorosamente. Como resposta, Avery piscou os olhos e lhe deu um rápido e amável sorriso, mas depois suas feições se tornaram ilegíveis. Ela focou na estrada e pensou internamente o que iria fazer sobre seu relacionamento com Dan Ramirez. O termo “relacionamento” nem sequer era o mais apropriado. Desde que ela matara Edwin Peet, um dos mais estranhos assassinos em série na história recente de Boston, seu parceiro havia deixado claro seus sentimentos, e Avery, em retorno, deixara-o saber que ela também poderia estar interessada nele. Aquela situação não havia evoluído muito. Eles haviam jantado, trocado olhares apaixonados e se dado as mãos apenas algumas vezes. Mas Avery estava preocupada sobre Ramirez. Sim, ele era lindo e respeitoso. Ele salvara sua vida após a queda de Edwin Peet e ficara ao lado dela praticamente o tempo todo durante sua recuperação. Ainda assim, ele era seu parceiro. Eles estavam lado a lado por cinco ou mais dias na semana, das oito da manhã às seis da tarde ou até mais, dependendo do caso. Além disso, Avery não sabia o que era um relacionamento há anos. Na única vez em que se beijaram, parecera que ela estava beijando seu ex-marido, Jack, o que fez com que Black imediatamente interrompesse o momento. Ela olhou as horas no painel. Eles não estavam nem cinco minutos no carro e Ramirez já estava falando sobre jantar. Você tem que falar com ele sobre isso, ela se deu conta. Assim que foram chegando ao escritório, Avery escutou o rádio da polícia, como fazia todos os dias. De repente, Ramirez sintonizou uma estação de jazz, e eles seguiram algumas quadras escutando jazz misturado com o operador da polícia detalhando várias atividades ao redor de Boston. - Sério mesmo? – Avery perguntou. - O que? - Como eu vou conseguir curtir a música e ouvir as chamadas? É confuso. Por que temos que escutar os dois ao mesmo tempo? - Ok, tudo bem – ele disse com um falso desapontamento, - mas nós vamos ter que escutar minha música em alguma hora do dia. Ela me deixa calmo e tranquilo, sabe? Não, Avery pensou. Não sei. Ela odiava jazz. Felizmente, uma ligação no rádio a salvou. - Temos um dez-dezesseis, dez-trinta-e-dois em andamento na East Fourth Street fora de Broadway – disse uma voz feminina estridente. – Não houve tiros. Algum carro na redondeza? - Abuso doméstico - disse Ramirez – o cara está com uma arma. - Estamos perto – Avery respondeu. - Vamos lá. Ela deu a volta no carro, acendeu as luzes e ligou o receptor. - Aqui é Detetive Black, - ela disse e passou o número de seu distintivo. – Estamos a três minutos do local. Vamos atender o chamado. - Obrigada, Detetive Black – a mulher respondeu, e em seguida passou o endereço, número do apartamento e demais informações. Uma das muitas coisas que Avery amava em Boston eram as casas. Pequenas, a maioria de dois ou três pisos, com estruturas uniformes que davam à cidade essa sensação comum. Ela virou à esquerda na Fourth Street e seguiu para o destino. - Isso não significa que nós vamos ficar de fora do que foi programado – ela insistiu. - Claro que não. – Ramirez encolheu os ombros. O tom de voz dele, no entanto, junto com sua atitude e os papeis bagunçados em sua própria mesa fizeram Avery pensar se aquele caso logo cedo teria sido a melhor decisão. Não foi preciso muito trabalho de detetive para descobrir qual era a casa em questão. Um carro de polícia, junto com um pequeno amontoado de pessoas escondidas atrás de algo, rodeavam a casa azul com persianas da mesma cor e teto preto. Um homem latino estava em pé no gramado frontal, de samba canção e regata. Em uma mão, ele segurava o cabelo de uma mulher que estava de joelhos e chorando. Na outra mão, ele apontava uma arma para as pessoas, a polícia e a mulher. - Para trás porra! – Ele gritou. – Todos vocês, vocês aí! – Ele apontou sua pistola em direção a um carro estacionado. – Saiam de perto do carro! Pare de chorar! – Gritou para a mulher. – Se você continuar chorando, vou estourar sua cabeça só por me encher o saco. Havia um policial em cada lado do gramado. Um tinha uma arma em punho. O outro estava com uma mão no cinto e uma palma para cima. - Senhor, por favor largue sua arma. O homem apontou a pistola para o policial. - Que? Você quer fazer isso? – Ele disse. – Então atire em mim! Atire, filho da puta, e você vai ver o que acontece. Que se foda. Nós dois morremos. - Não atire, Stan! – O outro policial gritou. – Todo mundo calmo. Ninguém vai matar ninguém hoje. Senhor, por favor, só— - Pare de falar comigo porra! – O homem gritou. – Só me deixem sozinho. Essa é minha casa. Essa é minha esposa. Essa traidora do caralho! – Ele se irritou e colocou a boca de sua arma na bochecha dela. – Eu deveria limpar essa sua boca imunda! Avery desligou suas sirenes e estacionou. - Outro porra de policial!? – O homem esbravejou. – Vocês são como baratas. Tudo bem, - ele disse, calmo e determinado. – Alguém vai morrer hoje. Vocês não vão me prender. Então ou vocês vão para casa, ou alguém vai morrer. - Ninguém vai morrer, – o primeiro policial disse, - por favor, Stan! Abaixe sua arma! - Não mesmo. - O parceiro dele respondeu. - Porra, Stan! - Fique aqui - Avery disse para Ramirez. - Nem fodendo! – Ele respondeu. – Sou seu parceiro, Avery. - Ok, então. Mas escute, - ela disse, - tudo o que nós não queremos agora são mais dois policiais transformando isso aqui num banho de sangue. Fique calmo e faça o que eu disser. - Que seria? - Apenas me siga. Avery saiu do carro. - Senhor – ela disse ao policial – abaixe sua arma. - Quem diabos é você? - Isso, quem é você, porra? – o agressor Latino disse. - Vocês dois têm que sair da área - Avery disse aos policiais. – Sou a Detetive Avery Black, do A1. Vou cuidar disso. Você também – ela disse a Ramirez. - Você me disse para te seguir! – Ele gritou. - Faça isso. Entre no carro. Todo mundo tem que sair daqui. O policial com a arma cuspiu e balançou a cabeça. - Burocracia de merda - ele disse. – O que? Só porque você está em alguns jornais você acha que é uma super tira ou algo assim? Bem, você quer saber? Eu gostaria de ver como você lida com isso, super tira. – Com seus olhos no criminoso, ele levantou sua arma e caminhou para trás até ficar atrás de uma árvore. – Se vire. – Seu parceiro o seguiu. Assim que Ramirez entrou no carro e os policiais estavam seguros, distantes de onde tiros poderiam chegar, Avery deu passos à frente. O homem latino sorriu. - Olhe só – ele disse e apontou sua arma. – Você é a tira do assassino em série, certo? Muito bem, Black. Aquele cara era louco pra cacete. Você o pegou. Ei! – Ele gritou para a mulher de joelhos. – Pare de se contorcer. Você não vê que eu estou tentando conversar? - O que ela fez? – Avery perguntou. - Essa puta fodeu com meu melhor amigo. Isso é o que ela fez. Não fez, vagabunda? - Porra - Avery disse. – Isso é foda. Ela fez algo assim antes? - Sim - ele admitiu. – Acho que ela traiu o ex comigo, mas porra, eu casei com essa puta! Isso tinha que valer algo, certo? - Com certeza - Avery concordou. Ele era magro, com o rosto fino e dentes faltando. Olhou para as pessoas, depois para Avery como uma criança culpada e sussurrou: - Isso não parece bom, certo? - Não - Avery respondeu. – Não é bom. Da próxima vez, você deveria dar um jeito disso na privacidade da sua casa. E sem barulho – ela disse calmamente e chegou mais perto. - Por que você está chegando tão perto? – Ele disse com a sobrancelha levantada. Avery encolheu os ombros. - É meu trabalho – ela disse como se isso fosse algo ruim. – Sabe de algo? Você tem duas escolhas. Uma: Você vem comigo na boa. Você já está ferrado. Muito barulho, muito público, muitas testemunhas. Pior cenário? Ela presta queixa e você tem que arrumar um advogado. - Ela não vai prestar porra de queixa nenhuma – ele disse. - Não vou amor, eu prometo! – A mulher jurou. - Se ela não prestar queixas, então teremos um ataque grave, prisão com resistência e outras infrações menores. - Vou ter que ficar preso algum tempo? - Você já foi preso antes? - Sim - ele admitiu. – Cinco anos de condicional por tentativa de homicídio culposo. - Qual seu nome? - Fernando Rodriguez. - Você ainda está em condicional, Fernando? - Não, terminou duas semanas atrás. - Ok - ela pensou por um momento. – Então você provavelmente vai ter que ficar preso até as coisas se ajeitarem. Talvez um mês ou dois. - Um mês? - Ou dois - ela repetiu. – Vamos lá. Vamos ser honestos. Depois de cinco anos? Isso não é nada! Da próxima vez você resolve isso em local privado. Ela estava bem em frente a ele, perto o suficiente para desarma-lo e libertar a vítima, mas ele já estava se acalmando. Avery havia visto pessoas como ele antes, quando lidava com as gangues de Boston. Homens que foram maltratados por tanto tempo que a menor infração poderia explodi-los. No fim das contas, porém, quando ganhavam uma chance para relaxar e pensar sobre suas situações, suas histórias eram sempre as mesmas: eles só queriam ser confortados, ajudados e sentirem que não estavam sozinhos no mundo. - Você era advogada, não era? – O homem disse. - Sim - ela concordou. – Mas depois eu cometi um erro estúpido e minha vida se tornou uma merda. Não seja como eu - ela alertou. – Vamos acabar com isso agora. - E ela? – Ele apontou para sua esposa. - Por que você iria querer estar com alguém como ela? – Avery perguntou. - Eu a amo. Avery sugou seus lábios e o desafiou com um olhar. - Isso parece amor? A pergunta pareceu tão sincera que o irritou. Com a sobrancelha enrugada, ele olhou para Avery, para sua mulher e para Avery novamente. - Não - ele disse e abaixou sua arma. – Isso não pode ser amor. - Vou te dizer algo - Avery falou. – Me dê essa arma e deixe esses caras te levarem na boa e eu te prometo algo. - O que? - Prometo que vou ficar de olho e assegurar que você seja bem tratado. Você não parece um cara do mal para mim, Fernando Rodriguez. Apenas parece que você teve uma vida difícil. - Você não sabe nem a metade – ele disse. - Não – ela concordou. Eu não sei. Ela estendeu uma mão. Ele libertou a refém e entregou a arma. No mesmo momento, sua mulher rolou pelo gramado e correu para um lugar seguro. O policial agressivo que estava preparado para atirar caminhou para frente com um olhar cínico de inveja. - Eu levo ele – disse com sarcasmo. Avery o olhou no olho. - Faça um favor para mim - ela sussurrou. – Pare de agir como se você fosse melhor do que as pessoas que você prende e trate ele como um ser humano. Isso vai ajudar. O policial ficou vermelho de raiva e parecia pronto para explodir e destruir o clima de tranquilidade que Avery havia criado. Felizmente, o segundo policial alcançou o homem latino primeiro e o segurou com cuidado. – Vou algemá-lo agora - ele disse calmamente. – Não se preocupe, eu vou assegurar que você seja tratado bem. Tenho que citar seus direitos para você. Tudo bem: Você tem o direito de ficar em silêncio... Avery recuou. O agressor latino olhou para cima. Os dois trocaram olhares por um momento. Ele assentiu em agradecimento, e Avery respondeu. – Tudo o que eu disse é verdade – ela reiterou antes de virar-se para sair. Ramirez estava com um sorriso largo no rosto. - Porra, Avery. Isso foi sexy! O flerte incomodou Black. - Eu fico nervosa quando tiras tratam suspeitos como animais - ela disse e se virou para assistir à prisão. – Aposto que metade dos tiros de Boston poderiam ser evitados com um pouco de respeito. - Talvez se houvesse uma comissária mulher como você no comando – ele brincou. - Talvez – ela respondeu e pensou seriamente no assunto. Seu walkie-talkie chamou. Eles ouviram a voz do capitão O’Malley. - Black - ele disse. – Cadê você? Ela atendeu. - Aqui, capitão. - Deixe seu telefone ligado a partir de agora - ele disse. – Quantas vezes eu tenho que te dizer isso? E venha para a Boston Harbor Marina, na Marginal Street, no Leste. Temos algo aqui. Avery franziu a testa. - Esse lugar não é território da Boston A7? – Ela perguntou. - Esqueça isso - ele disse. – Pare o que você estiver fazendo e venha para cá o mais rápido possível. Temos um assassinato. CAPÍTULO DOIS Avery chegou ao Boston Harbor & Shypyard pelo Callahan Tunnel, que conectava o norte ao leste de Boston. A marina ficava na Marginal Street, à beira d’água. O local estava lotado de policiais. - Cacete! – Ramirez disse. – Que porra aconteceu aqui? Avery entrou vagarosamente na marina. Os carros de polícia estavam estacionados em uma fila que se formou acidentalmente, junto com uma ambulância. Muitas pessoas que queriam usar seus barcos naquela manhã de sol brilhante conversavam entre si, perguntando-se o que deveriam fazer. Ela estacionou e os dois saíram do carro mostrando seus distintivos. Após o portão e prédio principais havia uma grande doca. Dois píeres estavam projetados em forma de V. A maioria dos policiais estava agrupada no fim da primeira doca. Ao longe, estava o Capitão O’Malley, vestido de terno preto e gravata. Ele estava em uma discussão profunda com outro homem com uniforme de policial. Pelas duas linhas em seu peito, Avery imaginou que o outro cara fosse o capitão do A7, que cuidava da parte leste de Boston. - Olhe esse cara. – Ramirez apontou para o homem uniformizado. Ele está vindo de uma cerimônia ou algo assim? Agentes do A7 os olharam de cara feia. - O que o A1 está fazendo aqui? - Voltem para o norte! – Outro gritou. O vento batia no rosto de Avery enquanto ela caminhava pelo píer. O ar estava salgado e ameno. Ela apertou sua jaqueta em volta da cintura para que não voasse. Ramirez estava com problemas com as rajadas intensas, que insistiam em bagunçar seu cabelo, perfeitamente penteado. As docas se projetavam em ângulos perpendiculares em um lado do píer, e cada uma delas estava lotada de barcos. No outro lado, também havia embarcações alinhadas: jet-skis, barcos de navegação caríssimos e iates gigantes. Uma doca separada formava um T com o final do píer. Um único iate branco, de tamanho médio, estava ancorado ali no meio. O’Malley, o outro capitão e dois oficiais conversavam enquanto a equipe forense investigava o barco e tirava fotos. O’Malley estava com o visual bruto de sempre: cabelo curto e preto e um rosto que parecia de um ex-boxeador, arranhado e enrugado. Seus olhos estavam meio fechados, como sempre, e ele parecia aborrecido. - Ela chegou. Deem uma chance. O outro capitão tinha um jeito imponente: cabelo grisalho, rosto fino e um olhar soberbo sob uma sobrancelha enrugada. Ele era muito mais alto que O’Malley e parecia um pouco contrariado por O’Malley ou qualquer pessoa de fora de sua equipe estar invadindo seu território. Avery balançou a cabeça em cumprimento a todos. - Como vai, Capitão? - Isso é uma festa ou o que? – Ramirez sorriu. - Tire esse sorriso da cara – o capitão imponente disse. – Essa é a cena de um crime, jovem, e eu espero que você a trate como tal. - Avery, Ramirez, esse é o Capitão Holt do A7. Ele foi bondoso o suficiente para— - Bondoso é o caralho! – Ele gritou. – Eu não sei qual é o showzinho do prefeito, mas se ele acha que pode se intrometer na minha divisão, ele está muito enganado. Eu te respeito, O’Malley. Nós nos conhecemos há muito tempo, mas isso é algo sem precedentes e você sabe. Como você se sentiria se eu entrasse no A1 e começasse a dar ordens? - Ninguém está se metendo em nada – O’Malley disse. – Você acha que eu gosto de fazer isso? Nós temos trabalho suficiente na nossa área. O prefeito ligou para nós dois, não ligou? Eu tinha uma programação totalmente diferente para hoje, Will, então não aja como se eu estivesse tentando roubar seu poder. Avery e Ramirez trocaram um olhar. - Qual é a situação? – Avery perguntou. - Ligaram essa manhã. – Holt disse e apontou para o iate. – Uma mulher foi encontrada morta naquela embarcação. Foi identificada como uma vendedora de livros local. Tem uma livraria de publicações espirituais na Summer Street há pelo menos quinze anos. Sem registros. Aparentemente nada suspeito sobre ela. - A não ser pela maneira em que ela foi assassinada. – O’Malley interrompeu. – O Capitão Holt estava tomando café da manhã com o prefeito quando a chamada chegou. O prefeito decidiu que queria vir até aqui e ver ele mesmo. - A primeira coisa que ele disse foi ‘Por que nós não chamamos a Avery Black para esse caso’ – Holt concluiu olhando Avery com raiva. O’Malley tentou acalmar a situação. - Não foi o que você me disse, Will. Você disse que seus homens vieram e não entenderam a cena que estavam vendo, então o prefeito sugeriu que você chamasse alguém com experiência nesse tipo de caso. - Que seja – Holt disse e levantou o queixo. - Dê uma olhada – O’Malley falou, apontando para o iate. – Veja o que você encontra. Se ela não achar nada, - ele disse a Holt – nós vamos embora. Não parece justo? Holt caminhou em direção a seus dois outros detetives. - Aquele dois são do Esquadrão de Homicídios dele – O’Malley indicou. – Não olhe para eles. Não fale com eles. Não os irrite. Essa é uma situação policial muito delicada. Apenas fique de boca fechada e me diga o que você encontrar. Ramirez espantou-se quando eles caminharam até o iate. - É uma embarcação e tanto – ele disse. – Parece um Sea Ray 58 Sedan Bridge. Dois andares. Sombra em cima, ar condicionado dentro. Avery impressionou-se. - Como você sabe tudo isso? – Perguntou. - Gosto de pescar – ele respondeu. – Nunca pesquei em algo assim antes, mas podemos sonhar, certo? Eu deveria te levar para conhecer meu barco qualquer hora. Avery nunca gostou muito do mar. Praia, às vezes. Lagos, com certeza. Mas embarcações a motor e mar aberto? Davam ataques de pânico. Ela havia nascido e crescido em terra firme, e a ideia de estar balançando nas ondas, sem ideia do que poderia estar à espreita no fundo das águas, fazia sua mente ter pensamentos terríveis. Holt e seus dois detetives ignoraram Avery e Ramirez quando eles passaram e se prepararam para entrar no barco. Um fotógrafo na proa fez um último clique e acenou para Holt. Ele caminhou até a embarcação a estibordo e levantou suas sobrancelhas para Avery. - Você nunca mais vai olhar para um iate do mesmo jeito – brincou. Uma escada portátil branca levava ao barco. Avery subiu, colocou suas mãos nas janelas pretas e foi em direção à parte frontal. Uma mulher de meia idade e aparência santa com cabelo vermelho selvagem havia sido posicionada na parte frontal da embarcação, ao lado das luzes laterais da proa. Ela estava deitada, virada para o leste, com suas mãos presas aos joelhos e cabeça baixa. Se ela estivesse sentada, poderia parecer adormecida. Estava completamente nua, e o único ferimento visível era uma linha escura em volta do pescoço. Ele quebrou, Avery pensou. O que fazia a vítima destacar-se, além da nudez e da apresentação pública de sua morte, era sua sombra. O sol estava no leste. Seu corpo estava ligeiramente posicionado para cima, e isso produzia uma imagem de espelho dela que formava uma sombra longa e deformada. - Caralho! – Ramirez suspirou. Como fazia quando limpava sua casa, Avery abaixou-se e olhou para a proa. A sombra poderia ser uma coincidência ou um sinal com algum sentido deixado pelo assassino, e se ele tivesse deixado um sinal, poderia ter deixado outro. Ela seguiu para o outro lado. No brilho do sol, na superfície branca da proa, logo acima da cabeça da mulher, entre o corpo e a sombra, Avery viu uma estrela. Alguém havia usado os dedos para desenhar um estrela, com saliva ou água do mar. Ramirez chamou O’Malley. - O que os peritos dizem? - Encontraram alguns pelos no corpo. Podem ser de carpete. A outra equipe ainda está no apartamento. - Que apartamento? - O apartamento dela – O’Malley respondeu. – Acreditamos que ela foi raptada lá. Não há digitais em nenhum lugar. O cara devia estar usando luvas. Como ele trouxe ela para cá, em uma doca muito visível, sem ninguém ver, não sabemos. Ele escureceu algumas das câmeras da marina. Deve ter feito isso antes do crime. Ela foi morta possivelmente ontem à noite. O corpo não parece molestado, mas o coronel tem que dar a última palavra. Holt riu. - Isso é perda de tempo – ele disse a O’Malley. – O que essa mulher poderia encontrar que meus homens já não teriam descoberto? Eu não estou nem aí para o último caso dela ou sua imagem pública. Até onde eu sei ela é só uma advogada acabada que deu sorte em seu primeiro caso importante porque um assassino em série, que ela defendeu no tribunal, a ajudou! Avery levantou-se, inclinou-se sobre a grade e olhou para Holt, O’Malley e os outros dois detetives na doca. O vento batia em sua jaqueta e suas calças. - Vocês viram a estrela? – Ela perguntou. - Que estrela? – Holt respondeu. - O corpo dela está virado de lado e para cima. Na luz do sol, isso cria a sombra de uma imagem com a forma dela. Muito raro. Parece quase como se fossem duas pessoas, de costas uma para a outra. Entre o corpo e a sombra, alguém desenhou uma estrela. Pode ser uma coincidência, mas o local é perfeito. Talvez podemos ter sorte se o assassino desenhou com saliva. Holt virou-se para um de seus homens. - Você viu uma estrela? - Não, senhor. – Respondeu um homem magro, loiro e de olhos castanhos. - E os peritos? O detetive balançou a cabeça. - Ridículo. – Holt murmurou. – Uma estrela desenhada? Uma criança poderia ter feito isso. Uma sombra? Sombras são feitas pela luz. Não tem nada de especial nisso, Detetive Black. - Quem é o dono do iate? – Avery perguntou. - Essa informação não nos ajuda. – O’Malley respondeu. – É um grande empresário do ramo imobiliário. Está no Brasil a negócios há pelo menos um mês. - Se o barco foi limpo no último mês - Avery disse, - então a estrela foi colocada aqui pelo assassino. E já que está localizada perfeitamente entre o corpo e a sombra, tem que ter algum significado. Não tenho certeza do que, mas é algo. O’Malley olhou para Holt. Holt suspirou. - Simms - ele falou para o agente loiro, - traga os peritos de volta. Investiguem a estrela e a sombra. Eu vou telefonar quando nós terminarmos. Holt lançou um olhar miserável para Avery e balançou sua cabeça. - Vamos ver o apartamento dela. CAPÍTULO TRÊS Avery caminhou vagarosamente pelo hall do prédio escuro, com Ramirez a seu lado e seu coração batendo mais forte, como sempre acontecia quando ela entrava na cena de um crime. Nesse momento, ela desejava estar em qualquer lugar que não fosse ali. Ela fugiu daquela sensação. Fez sua expressão de trabalho e forçou-se a observar cada detalhe. A porta do apartamento da vítima estava aberta. Um agente parado do lado de fora moveu-se para permitir que Avery e os outros entrassem na cena do crime. Um corredor estreito levava à sala. A cozinha ficava ao lado do corredor. Nada parecia fora do comum ali; apenas um apartamento muito bacana. As paredes eram pintadas de cinza claro. Havia estantes de livros por todos os lados. Pilhas de livros estavam no chão. Plantas penduradas nas janelas. Um sofá verde de frente para uma televisão. No único quarto, a cama estava feita, com um edredom branco de renda. O único fator obviamente estranho no apartamento estava na sala, onde claramente faltava um tapete central. Um contorno de poeira, em um espaço escuro, havia sido marcado com várias etiquetas amarelas de polícia. - O que os peritos encontraram aqui? – Avery perguntou. - Nada - disse O’Malley. – Nenhuma digital. Nenhuma câmera. Estamos no escuro. - Algo foi tirado do apartamento? - Não que eu saiba. O pote de moedas está cheio, as roupas estão arrumadas no cesto. Dinheiro e documentos ainda nos bolsos. Avery começou a analisar o apartamento. Como fazia habitualmente, moveu-se em pequenas seções e observou cada uma delas com cuidado—as paredes, o piso, os rodapés de madeira, as bugigangas nas prateleiras. Havia uma foto da vítima com duas amigas. Ela fez uma nota mental para lembrar-se de descobrir os nomes e o contato delas. As estantes e pilhas de livros foram analisadas. Havia muitos romances. O restante era, em sua maioria, sobre assuntos espirituais, como autoajuda e religião. Religião, Avery pensou. A vítima tinha uma estrela sobre a cabeça. Seria a estrela de Davi? Após observar o corpo morto no barco e o apartamento, Avery começou a formar uma imagem do assassino em sua mente. Ele havia atacado pela entrada. A morte foi rápida e ele não deixou marcas, não cometeu erros. As roupas e efeitos na vítima foram deixados em um local limpo, sem desarrumar o apartamento. Apenas o tapete foi movido, e havia poeira na área e nas bordas. Algo ali havia deixado o assassino com raiva. Se ele foi tão meticuloso em todos os outros detalhes, Avery imaginou, por que não limpar a poeira nas bordas do tapete? Por que não remover o tapete por completo? Por que não deixar tudo em condições perfeitas? Ele quebrou o pescoço dela, tirou suas roupas, colocou-as no cesto e deixou tudo em ordem, mas depois a enrolou em um tapete e a carregou como um selvagem. Ela foi até a janela e olhou para a rua. Havia alguns poucos lugares onde alguém poderia esconder-se e observar o apartamento sem ser visto. Um local em particular chamou sua atenção: um beco estreito e escuro atrás de uma cerca. Você estava ali? Ela se perguntou. Olhando? Esperando o momento certo? - Então? – O’Malley disse. – O que você acha? - Temos um assassino em série em nossas mãos. CAPÍTULO QUATRO - O assassino é homem e é forte – Avery continuou. – Ele claramente destruiu a vítima e teve que carregá-la até a doca. Parece uma vingança pessoal. - Como você sabe? – Holt perguntou. - Por que se meter em tantos problemas com uma vítima qualquer? Nada parece ter sido roubado, então não foi um assalto. Ele foi preciso em tudo, menos no tapete. Se você gasta tanto tempo planejando um assassinato, tirando a roupa da vítima e colocando as roupas dela num cesto, por que levar qualquer item dela? Parece um gesto planejado. Ele queria algo. Talvez mostrar que ele era forte? Que ele poderia fazer isso? Não sei. E deixá-la num barco? Nua e à vista de todo o porto? Esse cara quer ser visto. Ele quer que todo mundo saiba que ele foi o assassino. Talvez nós temos outro assassino em série nas mãos. Qualquer que seja a decisão que você tome sobre quem vai cuidar desse caso - ela olhou para O’Malley, - você tem que decidir logo. O’Malley virou-se para Holt. - Will? - Você sabe o que eu penso disso – Holt respondeu. - Mas você vai fazer o chamado? - Isso está errado. - Mas? - Como o prefeito quiser. O’Malley virou-se para Avery. - Você está pronta? – Ele perguntou. – Seja sincera comigo. Você acabou de sair de um caso de um assassino em série pesado. A imprensa te crucificou a cada passo. Os olhos vão estar em você de novo, mas dessa vez, o prefeito vai prestar uma atenção especial. Ele pediu especificamente por você. O coração de Avery bateu mais rápido. Fazer a diferença como policial era o que ela realmente amava em seu trabalho, mas pegar assassinos em série e vingar mortes era o que ela ansiava. - Nós temos vários casos em aberto - ela disse, - e um julgamento. - Eu posso colocar Thompson e Jones nisso. Você pode supervisionar o trabalho deles. Se você pegar este caso, ele terá prioridade. Avery virou-se para Ramirez. - Você topa? - Claro. – Ele assentiu. - Estamos dentro - ela disse. - Muito bem. – O’Malley suspirou. – Você está no caso. O Capitão Holt e seus homens vão cuidar do corpo e do apartamento. Você terá total acesso aos arquivos e total cooperação deles durante a investigação. Will, quem eles devem procurar se precisarem de informações? - O Detetive Simms – ele respondeu. - Simms é o detetive líder que você viu hoje de manhã, - O’Malley prosseguiu, - loiro, olhos escuros, durão. O barco e o apartamento serão cuidados pelo A7. Simms vai entrar em contato diretamente com você se encontrar qualquer pista. Talvez você deva falar com a família por agora. Veja o que você consegue descobrir. Se você estiver certa e isso for algo pessoal, eles podem estar envolvidos ou terem informações que podem ajudar. - Estamos dentro – Avery disse. * Uma rápida ligação para o Detetive Simms e Avery soube que os pais da vítima moravam um pouco mais ao norte, fora de Boston, na cidade de Chelsea. Dar essas informações às famílias era a segunda coisa que Avery mais odiava em seu trabalho. Ainda que ela soubesse lidar com as pessoas, havia um momento, logo depois de eles ficarem sabendo sobre a morte de alguém que amavam, em que emoções complexas se misturavam. Psiquiatras chamavam isso de “os cinco estágios do sofrimento”, mas Avery via aquilo como uma tortura lenta. Primeiro, havia a negação. Amigos e parentes queriam saber tudo sobre o corpo—informações que os fariam apenas sofrer mais, e não importava o quanto Avery dissesse, era sempre impossível para eles imaginar. Depois, vinha a raiva: da polícia, do mundo, de todos. A dúvida vinha em sequência: “você tem certeza que eles morreram? Talvez estejam vivos ainda”. Esses estágios poderiam acontecer todos juntos, ou poderia levar anos. Os dois últimos geralmente aconteciam quando Avery já estava longe: depressão e aceitação. - Tenho que dizer - Ramirez devaneou, - eu não gosto de encontrar corpos mortos, mas isso nos dá liberdade para trabalhar nesse caso. Sem mais julgamentos e papeladas. Isso é bom, certo? Fazemos o que queremos e não temos que ficar atolados em fitas vermelhas. Ele inclinou-se para beijar a bochecha dela. Avery esquivou-se. - Não agora – ela disse. - Sem problemas - ele respondeu com as mãos para cima. – Só pensei, sabe... que nós fôssemos algo agora. - Olhe - ela disse e teve que pensar muito nas próximas palavras, - eu gosto de você. Gosto mesmo. Mas isso tudo está indo rápido demais. - Rápido demais? – Ele reclamou. – Nós nos beijamos uma vez em dois meses! - Não é isso que eu quero dizer – ela disse. – Desculpe. O que eu quero dizer é que eu não sei se eu estou pronta para um relacionamento sério. Nós somos parceiros. Nos vemos toda semana. Eu adoro todo o flerte e ver você pela manhã. Só não sei se estou pronta para ir adiante. - Uou! – Ele disse. - Dan— - Não, não. – Ele levantou uma mão. – Está tudo bem. Sério. Eu acho que já esperava isso. - Não estou dizendo que quero que isso acabe – Avery o tranquilizou. - O que é isso? – Ele perguntou. – Digo, eu nem sei! Quando estamos trabalhando, você só fala disso, e quando eu tento te ver depois do trabalho, é quase impossível. Você demonstrava mais sentimentos por mim no hospital do que na vida real. - Não é verdade - ela disse, mas uma parte de si se deu conta de que ele estava certo. - Eu gosto de você, Avery - ele disse. – Gosto muito. Se você precisa de tempo, tudo bem por mim. Eu só quero ter certeza que você de fato sente algo por mim. Porque se não, eu não quero perder meu tempo, nem o seu. - Eu sinto - ela disse e olhou para ele rapidamente. – De verdade. - Ok - ele disse. – Tudo bem. Avery seguiu dirigindo, focando na estrada e na vizinhança, forçando a si mesma a voltar a pensar no trabalho. Os pais de Henrietta Venemeer viviam em um complexo de apartamentos logo após o cemitério na Central Avenue. O Detetive Simms havia dito a Avery que os dois eram aposentados e estavam quase sempre em casa. Ela não havia ligado antes de ir até lá. Uma difícil lição que ela havia aprendido no passado era que uma ligação poderia alertar um possível assassino. No prédio, Avery estacionou e os dois caminharam até a porta frontal. Ramirez tocou a campainha. Houve uma longa pausa até que uma mulher de idade atendeu. - Quem é? - Senhora Venemeer, aqui é o Detetive Ramirez da Divisão A1 da polícia. Estou aqui com minha parceira, Detetive Black. Podemos por favor entrar e falar com você? - Quem? Avery inclinou-se para frente. - Polícia - ela disse. – Por favor abra a porta da frente. A porta se abriu. Avery sorriu para Ramirez. - Assim é que se faz - ela disse. - Você nunca para de me impressionar, Detetive Black. O casal Venemeer morava no quinto andar. Assim que Avery e Ramirez saíram do elevador, eles puderam ver uma mulher de idade saindo de trás de uma porta fechada. Avery tomou a frente. - Olá, senhora Venemeer - ela disse em sua voz mais clara e suave. – Sou a Detetive Black e esse é meu parceiro, Detetive Ramirez. – Os dois mostraram seus distintivos. – Podemos entrar? A senhora Venemeer tinha cabelos longos emaranhados assim como sua filha, com a diferença de que os seus eram grisalhos. Ela usava óculos grossos pretos e uma camisola branca. - O que é isso? – Ela preocupou-se. - Acho que será mais fácil se pudermos entrar - Avery disse. - Tudo bem - ela resmungou e os deixou entrar. O apartamento inteiro cheirava a naftalina. Ramirez fez uma cara feia e mexeu o nariz quando eles entraram. Avery bateu no braço dele. O som de uma televisão podia ser escutado na sala. No sofá, havia um homem grande que Avery imaginou ser o senhor Venemeer. Ele vestia apenas cuecas vermelhas e uma camiseta que provavelmente usava para dormir, e parecia não ter ideia do que estava acontecendo. Estranhamente, a senhora Venemeer sentou no sofá ao lado de seu marido, sem nenhuma indicação de onde Avery e Ramirez poderiam sentar. - O que posso fazer por você? – Ela perguntou. Um programa de jogos estava passando na TV. O som estava alto. De vez em quando, o marido torcia de seu lugar, relaxado e resmungando a si mesmo. - Você pode desligar a TV? – Ramirez pediu. - Não mesmo - ela disse. – John tem que assistir Roda da Fortuna. - Estamos aqui para falar de sua filha - Avery acrescentou. – Nós precisamos mesmo falar com vocês, e gostaríamos de sua total atenção. - Amor - ela disse e tocou o braço de seu marido. – Esses dois agentes querem falar sobre Henrietta. Ele deu de ombros e resmungou. Ramirez desligou a TV. - Ei! – John gritou. – O que você fez? Ligue de volta! Ele parecia bêbado. Uma garrafa de Bourbon pela metade estava a seu lado. Avery ficou ao lado de Ramirez e apresentou-se novamente. - Olá,- ela disse, - meu nome é Detetive Black e esse é meu parceiro, Detetive Ramirez. Nós temos notícias difíceis para dar a vocês. - Vou te dizer o que é difícil! – John gritou. – Difícil é lidar com um monte de tiras bem no meio do meu programa de TV. Ligue essa porra de televisão! – Ele tentou levantar-se, mas não parecia estar em condições. - Sua filha morreu – Ramirez disse, agachando-se para olha-lo nos olhos. – Você me entendeu? Sua filha está morta! - Que? – A senhora Venemeer não acreditou. - Henrietta? – John murmurou e encostou-se. - Eu sinto muito por isso – disse Avery. - Como? – Murmurou a senhora. – Eu não... Não, não Henrietta. - Diga do que você está falando! – Disse John. – Você não pode entrar aqui e dizer que nossa filha está morta. Que porra é essa? Ramirez sentou-se. Negação, pensou Avery. E raiva. - Ela foi encontrada morta nessa manhã – disse Ramirez, - e identificada por sua posição na comunidade. Não temos certeza do motivo. Agora, o que temos são muitas perguntas. Se vocês puderem, por favor sejam firmes nesse momento e nos ajudem a responder algumas delas. - Como? – A mãe chorava. – Como isso aconteceu? Avery sentou-se ao lado de Ramirez. - Infelizmente essa é uma investigação em andamento. Não podemos dar detalhes ainda. Agora, só precisamos saber qualquer coisa que vocês possam saber para nos ajudar a identificar o assassino. Henrietta tinha namorado? Amigos próximos que vocês conheciam? Alguém que poderia sentir algum rancor dela? - Você tem certeza que era Henrietta? – A mãe perguntou. - Henrietta não tem inimigos! – John disse. – Todos a amam. É uma santa! Vinha toda semana trazer algo. Ajudava pessoas sem teto. Não pode ser. Tem que haver algum engano. Dúvida, pensou Avery. - Eu te garanto - ela disse, - vocês dois serão chamados essa semana para identificar o corpo. Eu sei que é difícil de aceitar. Vocês acabaram de receber notícias terríveis, mas por favor, vamos ficar focados para tentar encontrar quem fez isso. - Ninguém! – John disse em voz alta. – Isso é claramente um erro. Vocês estão enganados. Henrietta não tinha inimigos - ele declarou. – Ela foi atropelada por um ônibus? Caiu de uma ponte? Pelo menos nos dê uma ideia do que está acontecendo aqui. - Ela foi assassinada - Avery respondeu. – É tudo o que eu posso dizer. - Assassinada – a mãe suspirou. - Por favor - disse Ramirez. – Vocês conseguem pensar em algo? Qualquer coisa. Mesmo se parecer insignificante para vocês, pode ser de grande ajuda para nós. - Não - a mãe respondeu. – Ela não tinha namorado. Tinha algumas amigas. Saíram ano passado no Dia de Ação de Graças. Nenhuma delas pode ter feito algo assim. Vocês têm que estar errados. Ela olhou para cima com olhos de misericórdia. - Vocês têm! CAPÍTULO CINCO Avery estacionou em uma vaga na rua entre carros de polícia e preparou-se para entrar no departamento de polícia A7 na Paris Street no leste de Boston. Fora da estação havia um circo formado pela mídia. Uma coletiva havia sido marcada para discutir o caso e o amontoado de carros de televisão, câmeras e repórteres trancavam o caminho, além de muitos agentes que tentavam afastar a imprensa do local. - Seu público está esperando – Ramirez disse. Ele parecia querer ser entrevistado. Andava com a cabeça levantada e sorria para cada repórter que o olhava. Para sua tristeza, nenhum deles aproximou-se. Avery baixou sua cabeça e caminhou o mais rápido possível para dentro do departamento. Ela odiava multidões. Em um momento de sua vida, quando era advogada, ela amava quando as pessoas sabiam seu nome e lotavam seus julgamentos, mas desde que ela própria fora julgada pela imprensa, aprendeu a desprezar a atenção deles. Os repórteres viraram-se instantaneamente. - Avery Black - um deles disse com o microfone no rosto dela. – Você pode por favor nos dizer algo sobre a mulher assassinada na marina hoje? - Por que você está no caso, Detetive Black? – Gritou outro. – Aqui é o A7. Você foi transferida para esse departamento? - O que você acha sobre a nova campanha do prefeito, ‘Parem com os Crimes’? - Você ainda tem algo com Howard Randall? Howard Randall, ela pensou. Apesar do forte desejo de cortar todos os laços com Randall, Avery não conseguia tirá-lo de sua cabeça. Todos os dias desde seu último encontro com Randall, ele encontrara alguma maneira de seguir em seus pensamentos. Às vezes, um simples cheiro ou uma imagem era tudo o que ela precisava para ouvir as palavras dele: “Isso te lembra algo de sua infância, Avery? O que? Me conte...” Outras vezes, trabalhando em outros casos, ela tentara pensar como Randall pensaria para solucionar o problema. - Saiam da frente! – Ramirez gritou. – Vamos, saiam, logo! Ele colocou uma mão nas costas de Avery e a levou para dentro da estação. A sede do A7, um grande prédio de pedra e tijolos, havia recém recebido uma reforma interna. As mesas de metal que tipicamente davam a sensação de uma organização operada pelo estado foram retiradas. No lugar, foram colocadas lustrosas mesas pratas, cadeiras coloridas e uma área aberta que mais parecia a entrada de um parque de diversões. Assim como o A1—porém mais moderna—a sala de conferências era envolta em vidro para que as pessoas pudessem ver a parte externa. Uma grande mesa oval de mogno tinha microfones em cada assento e uma enorme TV de tela plana para conferências. O’Malley já estava sentado na mesa, ao lado de Holt. Ao lado deles estavam o Detetive Simms e seu parceiro, além de outras duas pessoas que Avery imaginou serem o perito e o coronel. Dois lugares seguiam vazios na ponta da mesa, perto da entrada. - Sentem-se - O’Malley acenou. – Obrigado por vir. Não se preocupem. Eu não estarei atrás de vocês o tempo todo – ele disse a todos, especialmente para Avery e Ramirez. – Só quero ter certeza que estamos todos no mesmo caminho. - Você é sempre bem-vindo aqui - disse Holt com sinceridade para O’Malley. - Obrigado, Will. Podemos começar. Holt virou-se para seu agente. - Simms? – Ele disse. - Vamos lá - disse Simms, - acho que é minha vez. Por que não começamos com a perícia, depois passamos para o relatório do coronel, depois eu falo sobre o resto do nosso dia - continuou com ênfase para o Capitão Holt, antes de virar-se para o perito. – Pode ser, Sammy? Um homem indiano magro era o líder da equipe forense. Ele vestia terno e gravata e levantou o dedo em sinal de positivo quando seu nome foi mencionado. - Claro, senhor Mark - disse, quase babando. – Como discutimos, temos pouco a fazer. O apartamento estava limpo. Sem sangue, sem sinal de briga. As câmeras já estavam desabilitadas com uma resina que você pode comprar em uma loja de ferramentas. Encontramos restos de fibras pretas de luva, mas novamente, não foi possível tirar pistas sólidas disso. O Detetive Simms seguia movendo o queixo na direção de Avery. Sammy não conseguia entender quem estava no comando. Ele seguia olhando para Simms, Holt e todos os outros. Eventualmente, começou a dirigir-se a Avery e Ramirez. - No entanto, temos algo sobre o estaleiro - disse. – Claramente, o assassino desabilitou as câmeras de lá, da mesma maneira que fez com as do apartamento. Para entrar no estaleiro sem ser notado ele teria que ter agido entre onze da noite, que é quando o último funcionário sai da marina, e seis da manhã, quando o primeiro chega. Encontramos marcas de sapatos iguais no estaleiro e no barco antes dos outros agentes chegarem no local. O pé é quarenta e dois, variedade Redwing. Ele parece ser manco da perna direita, porque o sapato esquerdo fez marcas mais profundas que o direito. - Excelente – disse Simms, orgulhoso. - Nós analisamos a estrela desenhada na proa também - Sammy continuou. – Nenhum material genético foi encontrado. No entanto, nós encontramos uma fibra preta na estrela, similar às fibras da luva no apartamento. Essa é, então, uma conexão muito interessante. Obrigado por nos ajudar, Detetive Black. – Ele balançou a cabeça. Avery respondeu o gesto. Holt bufou. - Por último - Sammy concluiu, - acreditamos que o corpo foi carregado para o estaleiro em um tapete enrolado, já que havia muitas fibras de tapete no corpo e um tapete faltando na casa. Ele fez um gesto indicando que havia terminado. - Obrigado, Sammy - disse Simms. – Dana? Uma mulher de jaleco branco, que parecia não querer estar naquela sala, foi a próxima a falar. Ela tinha meia idade, cabelos lisos castanhos até os ombros e franzia o rosto constantemente. - A vítima morreu com o pescoço quebrado - ela disse. – Havia contusões em seus braços e pernas que indicaram que ela foi arremessada ao chão ou contra a parede. O corpo estava morto há mais ou menos doze horas e não havia sinal de entradas a força. Ela encostou-se com os braços cruzados. Simms levantou suas sobrancelhas e virou-se para Avery. - Detetive Black, algo sobre a família? - Nada - Avery disse. – A vítima via os pais uma vez por semana para trazer besteiras e fazer o jantar. Não tinha namorado. Nenhum outro parente próximo em Boston. No entanto, ela tinha um círculo de amigas que nós teremos que encontrar. Os pais não são suspeitos. Quase não conseguem sair do sofá. Nós iríamos começar a buscar as amigas, mas eu não estava segura sobre o protocolo - ela disse, olhando para O’Malley. - Obrigado - disse Simms. – Entendido. Acho que depois dessa reunião, você estará no comando, Detetive Black, mas isso não é uma decisão minha. Deixe-me dizer o que minha equipe descobriu até agora. Nós checamos os registros telefônicos e e-mails dela. Nada estranho. As câmeras no prédio foram desabilitadas e nenhuma outra lente filmava o prédio. No entanto, encontramos algo na livraria da Venemeer. Estava aberta hoje. Ela tinha dois funcionários full-time. Eles não sabiam da morte da vítima e ficaram realmente chocados. Nenhum deles parecia ser suspeito em potencial, mas os dois mencionaram que recentemente uma gangue local, conhecida como Chelsea Death Squad, colocou fogo na loja. O nome vem do ponto de encontro deles, na Chelsea Street. Falei com nossa unidade de gangues e fiquei sabendo que eles são uma gangue latina, relativamente nova, pouco afiliada a outros grupos. O líder deles é Juan Desoto. Avery já tinha ouvido falar de Desoto, quando lidava com gangues em seus anos de novata. Ele podia até ser um peixe pequeno no novo esquadrão, mas havia sido um nome forte nas gangues de Boston durante anos. Por que um bandido da multidão com seu próprio esquadrão iria querer matar a dona de uma livraria local e depois colocar o corpo em um iate chique? Ela imaginou. - Parece que temos uma boa pista – disse Holt. – É angustiante que tenhamos que passar as rédeas para um departamento que está do outro lado do canal. Triste, mas faz parte. Não é, Capitão O’Malley? Compromisso, certo? – Ele sorriu. - Exatamente - O’Malley respondeu, relutante. Simms ajeitou-se na cadeira. - Juan Desoto com certeza seria meu suspeito número um. Se esse caso fosse meu - ele fez questão de enfatizar, – eu tentaria encontra-lo primeiro. O golpe indireto incomodou Avery. Eu preciso mesmo disso? Ela pensou. Ainda que estivesse muito intrigada com o caso, os limites confusos sobre quem cuidaria do que a incomodavam. Eu tenho que seguir essa pista? Ele é meu supervisor agora? Ou posso fazer o que eu quiser? O’Malley pareceu ler sua mente. - Acho que terminamos. Certo, Will? – Ele disse antes de falar exclusivamente com Avery e Ramirez. – Depois daqui, vocês dois estão no comando, a não ser que precisem falar novamente com o Detetive Simms sobre as informações que acabamos de ouvir. Cópias dos arquivos estão sendo feitas para vocês agora mesmo. Serão enviadas para o A1. Então - ele suspirou e se levantou, - a não ser que alguém tenha mais alguma pergunta, vamos começar. Tenho um departamento para comandar. * A tensão do A7 manteve Avery nervosa até que eles saíssem do prédio, passassem pelos repórteres e entrassem no carro. - Até que foi tudo bem - Ramirez comemorou. – Você percebeu o que acabou de acontecer ali? – Ele perguntou. – Você está no comando do maior caso do A7, provavelmente em anos, e isso porque você é Avery Black. Avery balançou a cabeça, sem dizer nada. Estar no comando tinha um preço. Ela poderia fazer as coisas de seu próprio jeito, mas se surgissem problemas, eles estariam sozinhos em sua cabeça. Além disso, ela sentia que aquela não era a última vez que ouviria notícias do A7. Parece que tenho dois chefes agora, lamentou internamente. - O que fazemos agora? – Ramirez perguntou. - Vamos deixar tudo certo com o A7 e visitar o Desoto. Não sei o que vamos encontrar, mas se a gangue dele estava atacando uma dona de livraria, eu quero saber o motivo. Ramirez assoviou. - Como você sabe onde encontra-lo? - Todo mundo sabe onde encontra-lo. Ele é dono de uma cafeteria pequena na Chelsea Street, perto da via expressa e do parque. - Você acha que é ele? - Matar não é algo novo para Desoto - Avery disse. – Não sei se a cena desse crime bate com o modus operandi dele, mas ele pode saber de algo. Ele é uma lenda em Boston. Pelo que eu sei, ele já fez trabalhos para negros, irlandeses, italianos, espanhóis, vários outros. Quando eu era novata, o chamavam de Assassino Fantasma. Durante anos, ninguém acreditava que ele existia. A Unidade de Gangues o relacionava com crimes até em Nova York, mas ninguém conseguia provar. Ele é dono daquela cafeteria desde que eu escutei o nome dele pela primeira vez. - Você já o encontrou? - Não. - Sabe como ele é? - Sim - ela disse. – Vi uma foto dele uma vez. Pele branca e muito, muito grande. Acho que tem os dentes afiados também. Ramirez virou-se para ela e sorriu, mas naquele sorriso ela podia sentir o mesmo pânico e adrenalina que ela mesma estava sentindo. Eles estavam indo à cova do leão. - Isso vai ser interessante - ele disse. CAPÍTULO SEIS A cafeteria de esquina ficava na parte norte da passagem subterrânea para a via expressa no leste de Boston. O local era um prédio de tijolos de um andar com janelas grandes e um sinal simples, Cafeteria. As janelas estavam com as cortinas fechadas. Avery estacionou perto da porta de entrada e saiu do carro. O céu começava a escurecer. Em direção ao sudoeste, ela podia ver o pôr do sol em um horizonte laranja, vermelho e amarelo. Havia uma mercearia na esquina oposta. Residências completavam a rua. A área era calma e modesta. - Vamos lá – disse Ramirez. Depois de um longo dia apenas acompanhando e sentado em uma reunião, Ramirez parecia pulsante, pronto para agir. Sua ânsia preocupou Avery. Gangues não gostam de tiras nervosos invadindo seus lugares, ela pensou. Especialmente aqueles sem mandados que estão ali apenas com rumores. - Calma - ela disse. – Eu faço as perguntas. Sem movimentos bruscos. Nenhuma atitude impensada, ok? Estamos aqui apenas para fazer algumas perguntas e ver se eles podem nos ajudar. - Claro - Ramirez franziu a testa, e sua linguagem corporal respondeu outra coisa. Uma campainha tocou quando eles entraram na cafeteria. O pequeno local contava com quatro mesas com assentos almofadados e apenas um balcão, onde as pessoas podiam pedir cafés e outras coisas para o café da manhã. O menu tinha menos do que quinze itens e havia poucos clientes no local. Dois latinos idosos que deviam ser sem-teto bebiam café em uma das mesas à esquerda. Um cavalheiro mais jovem com óculos de sol e um chapéu preto estava em uma das mesas, virado para a porta. Ele vestia uma regata preta. Uma arma podia facilmente ser vista em uma alça no ombro. Avery olhou para os sapatos dele. Trinta e oito, pensou. Trinta e nove, no máximo. - Puta - ele murmurou ao ver Avery. O homem mais velho parecia distante. Nenhum chef ou garçom podia ser visto atrás do balcão. - Olá - Avery acenou. – Gostaríamos de falar com Juan Desoto se ele estiver por aqui. O jovem riu. Rápidas palavras foram ditas em espanhol. - Ele disse, ‘vá se foder tira, sua puta, você e seu putinho’ – Ramirez traduziu. - Que amável - Avery disse. – Escute, nós não queremos problemas - ela acrescentou e juntou as palmas de suas mãos, em sinal de submissão. – Só queremos perguntar algumas coisas para Desoto sobre uma livraria na Summer Street que ele não parece gostar muito. O homem levantou e apontou para a porta. - Dê o fora daqui, tira! Avery poderia ter lidado com a situação de várias maneiras. O homem estava carregando uma arma que, ela imaginava, estava carregada e para a qual não tinha porte. Ele também parecia pronto para agir, mesmo sem nada ter de fato acontecido. Isso, combinado ao balcão vazio, fizeram com que ela acreditasse que algo poderia estar acontecendo na sala dos fundos. Drogas, ela imaginou, ou eles têm algum dono de loja azarado lá atrás e estão batendo nele sem dó. - Nós só queremos alguns minutos com Desoto - ela disse. - Puta! – O homem gritou e puxou sua arma. Ramirez sacou a sua imediatamente. Os dois homens idosos continuaram tomando seu café, sentados em silêncio. Ramirez engatilhou sua arma. - Avery? - Todo mundo calmo, - disse Black. Um homem apareceu em uma janela atrás do balcão principal. Um homem grande, pelo que mostrava seu pescoço e bochechas. Parecia estar inclinado na janela, o que fazia com que ele parecesse não ser alto. Seu rosto estava parcialmente escondido na sombra; um latino careca, de pele branca, com um brilho cômico nos olhos. Ele sorria. Em sua boca, um aparelho que fazia todos seus dentes parecerem diamantes afiados. Nenhum sinal de malícia podia ser observado, mas ele estava tão calmo diante de uma situação tão tensa que Avery imaginou o porquê. - Desoto - ela disse. - Sem armas, sem armas - Desoto disse da janela. – Tito - ele falou, - coloque sua arma na mesa. Tiras, coloquem suas armas na mesa. Nada de armas aqui. - Não mesmo - Ramirez disse e seguiu com a arma apontada para o outro homem. Avery podia sentir a faca que ela carregava no tornozelo, para caso se visse com problemas. Além disso, todos sabiam que eles estavam indo encontrar Desoto. Vai ficar tudo bem, ela pensou. Eu espero. - Abaixe a arma - ela disse. Como mostra de confiança, Avery gentilmente sacou sua Glock e a colocou na mesa, entre os dois idosos. - Faça isso - disse a Ramirez. – Coloque na mesa. - Porra - Ramirez murmurou. – Isso não é bom. Nada bom. – Ainda assim, ele concordou. Colocou sua arma na mesa. O outro homem, Tito, abaixou sua arma e sorriu. - Obrigado - disse Desoto. – Não se preocupe. Ninguém quer as armas dos tiras. Elas vão ficar seguras aqui. Venham. Vamos conversar. Ele desapareceu de vista. Tito apontou para uma pequena porta vermelha, praticamente impossível de notar, já que ficava atrás de uma das mesas. - Você primeiro - disse Ramirez. Tito curvou-se e entrou. Ramirez entrou atrás, seguido por Avery. A porta vermelha levou à cozinha. Um corredor seguia mais ao fundo. Bem em frente a eles estavam as escadas do porão, íngremes e escuras. No fundo, havia outra porta. - Estou com um mau pressentimento – disse Ramirez. - Quieto - Avery respondeu. Uma partida de pôquer estava sendo disputada na próxima sala. Cinco homens, todos latinos, bem-vestidos e armados, seguiram em silêncio com a chegada deles. A mesa estava cheia de dinheiro e joias. Havia sofás encostados nas paredes da enorme sala. Em muitas prateleiras, Avery notou armas e facões. Outra porta podia ser vista. Um rápido olhar para os pés dos homens revelou que nenhum deles tinha o tamanho dos pés do assassino. No sofá, com os braços abertos e um enorme sorriso no rosto, mostrando os aparelhos, Juan Desoto estava sentado. Seu corpo parecia mais de um touro do que de um homem, forte e esculpido por exercícios diários e, Avery imaginou, esteroides. Um gigante mesmo sentado, ele devia medir cerca de 2,10m. Seus pés, da mesma forma, eram gigantes. Pelo menos quarenta e quatro, Avery pensou. - Todo mundo calmo - Desoto ordenou. – Joguem, joguem – ele disse a seus homens. – Tito, traga algo para beber. O que você gostaria, Agente Black? – Perguntou enfatizando. - Você me conhece? – Avery perguntou. - Não te conheço - ele respondeu. – Eu sei sobre você. Você prendeu meu primo Cruz dois anos atrás, e alguns dos meus bons amigos da West Side Killers. Sim, tenho muitos amigos em outras gangues - ele disse ao olhar surpreso de Avery. – Nem todas as gangues brigam entre si como animais. Eu gosto de pensar maior que isso. Por favor, o que posso oferecer para vocês? - Nada para mim - Ramirez disse. - Para mim também - Avery acrescentou. Desoto fez sinal para Tito, que saiu. Todos os homens na mesa continuaram jogando, com exceção de um. Ele se parecia com Desoto, mas era muito menor e mais jovem. Esse homem balbuciou algo e os dois tiveram uma conversa nervosa. - Esse é o irmão mais novo de Desoto - Ramirez traduziu. – Ele acha que eles deveriam matar nós dois e jogar no rio. Desoto está tentando dizer para ele que é por isso que ele está sempre preso, porque ele pensa muito quando deveria apenas ficar quieto e escutar. - Sientate! – Desoto finalmente gritou. Relutante, seu irmão mais novo sentou e olhou para Avery com dureza. Desoto respirou fundo. - Você gosta de ser uma celebridade, tira? – Ele perguntou. - Não mesmo - Avery disse. – Acabo me tornando um alvo para caras como você. Não gosto de ser um alvo. - É verdade - ele disse. - Estamos buscando informações - Avery acrescentou. – Uma mulher de meia idade chamada Henrietta Venemeer é dona de uma livraria na Summer. Livros espirituais, nova era, psicologia, coisas assim. Dizem por aí que você não gosta da loja. Ela estava sendo atacada. - Por mim? – Ele disse surpreso, apontando para si mesmo. - Por você ou seus homens. Não temos certeza. Por isso estamos aqui. - Por que você viria até a casa do diabo para perguntar sobre uma mulher em uma livraria? Por favor, me explique melhor isso. Sua expressão não mostrava nenhum sinal de que ele conhecesse Henrietta. De fato, Avery sentiu que ele se sentiu insultado pela acusação. - Ela foi assassinada ontem à noite - Avery disse, prestando muita atenção aos homens na sala e em suas reações. – O pescoço foi quebrado e ela foi amarrada em um iate na marina da Marginal Street. - Por que eu faria isso? – Ele perguntou. - É isso que eu estou tentando descobrir. Desoto começou a falar com seus homens em um rápido e agitado espanhol. Seu irmão e outro homem pareciam muito incomodados de serem acusados de algo tão claramente abaixo deles. Os outros três, no entanto, ficaram acanhados com o interrogatório. Uma discussão iniciou-se. Em um momento, Desoto levantou-se de raiva e mostrou toda sua altura e tamanho. - Esses três estiveram na livraria - Ramirez sussurrou. – Roubaram o lugar duas vezes. Desoto está com raiva porque ele só ficou sabendo agora. Vociferando alto, Desoto deu um soco na mesa e a quebrou em duas. Dinheiro e joias voaram pela sala. Um colar veio na direção de Avery e ela teve que se esconder atrás da porta. Todos os cinco homens se levantaram de suas cadeiras. O irmão de Desoto gritou de frustação e levantou seus braços. Desoto focou sua raiva em um homem em particular. Ele apontou o dedo no rosto do homem e seguiu xingando. - Aquele cara levou os outros à livraria - Ramirez sussurrou. – Ele está ferrado. Desoto abriu os braços. - Eu peço desculpas - ele disse. – Meus homens de fato abordaram essa mulher na loja dela. Duas vezes. Só estou sabendo disso agora. O coração de Avery batia rápido. Eles estavam em uma sala isolada, cheia de criminosos com raiva e armados, e independente das palavras e gestos de Desoto, ele era uma presença intimidante e, se os rumores fossem verdade, um assassino em massa. De repente, o sentimento de que sua pequena lâmina estava longe de alcance não era confortante como ela pensara. - Obrigado - Avery disse. – Apenas para ter certeza de que estamos no mesmo caminho, algum de seus homens teria algum motivo para matar Henrietta Venemeer? - Ninguém aqui mata sem minha aprovação - ele respondeu prontamente. - Venemeer foi colocada de um jeito estranho em um barco - Avery disse. – Com vista completa para o porto. Uma estrela foi desenhada acima de sua cabeça. Isso significa algo para você? - Você se lembra do meu primo? – Desoto perguntou. – Michael Cruz? Um cara pequeno? Magrinho? - Não. - Você quebrou o braço dele. Eu perguntei para ele como uma garotinha podia ter feito isso, e ele disse que você era muito rápida e forte. Você acha que você poderia me derrubar, agente Black? A situação começou a piorar. Avery podia sentir. Desoto estava aborrecido. Ele havia respondido as perguntas e estava aborrecido, com raiva, e tinha dois policiais desarmados em sua sala privada debaixo de uma cafeteria. Mesmo os homens que estavam jogando pôquer estavam completamente trancados ali. - Não - ela disse. – Eu acho que você me mataria em um combate mano a mano. - Eu acredito em olho por olho - Desoto disse. – Eu acredito que quando uma informação é dada, uma informação deve ser recebida. Balanço - ele enfatizou, - é algo importante na vida. Eu te dei uma informação. Você prendeu meu primo. Agora você já tirou duas coisas de mim, você entende, certo? – Ele perguntou. – Você me deve algo. - O que eu te devo? – Ela perguntou. Com apenas um gemido, Desoto pulou para frente, levantou seu braço direito e deu um soco. CAPÍTULO SETE O quarto ficou vazio na mente de Avery: totalmente preto, e tudo o que ela conseguia ver eram os cinco homens e sentir Ramirez ao seu lado, além de ver o punho de Desoto chegando próximo a seu rosto. Ela chamava isso de “a névoa”, um lugar onde ela esteve várias vezes em seu passado—outro mundo, separado de sua existência física. Seu professor de jiu-jitsu chamava aquilo de “consciência final”, um lugar onde o foco se tornava seletivo e então os sentidos ficavam mais aguçados em torno de alvos específicos. Ela virou na direção do braço de Desoto e segurou seu pulso. Ao mesmo tempo, o quadril de Black foi para trás, usando o corpo dele como alavanca, e ela pode usar o peso de Desoto para arremessa-lo na porta do porão. Madeiras se quebraram e o gigante caiu com força. Sem perder o embalo, Avery virou-se e chutou outro homem no estômago. Depois disso, tudo se moveu em câmera lenta. Cada um dos cinco homens tornaram-se alvos, buscando o maior dano possível com a menor agressão. Um soco na garganta derrubou um deles. Um chute giratório na virilha fez outro cair na mesa quebrada. O irmão de Desoto saiu de sua vista por um segundo. Quando virou-se, ela viu que ele estava preparando um golpe com soco inglês; Ramirez pulou e o jogou no chão. Desoto rugiu e atacou Avery por trás com um abraço de urso. Seu peso parecia um bloco de cimento. Avery não conseguiu se livrar. Ela chutou o ar. Ele a levantou e a jogou contra a parede. Avery bateu contra várias prateleiras e todas elas pareceram uma só em sua cabeça quando ela caiu. Desoto a chutou no estômago; a pancada foi tão forte que a levantou. Outro chute e seu pescoço foi para trás. Desoto abaixou-se. Braços grossos seguraram o pescoço dela, em uma perigosa sufocação. Um rápido movimento e ela estava em pé—sentindo-se pendurada. - Eu poderia quebrar seu pescoço - ele sussurrou, - como um galho. Tonta. Sua mente estava tonta com os golpes. Estava difícil respirar. Foco, ordenou a si mesma. Ou você vai morrer. Ela tentou virar-se para escapar dos braços gigantes. Um punho de ferro a segurou rapidamente. Algo atingiu as costas de Desoto. Ele colocou os pés de Avery no chão e olhou para trás, vendo Ramirez com uma cadeira. - Não te machucou? – Ramirez perguntou. Desoto resmungou. Avery reintegrou-se, levantou os pés e pisou nos dedos dele com o calcanhar. - Ah! – Desoto berrou. Ele vestia uma camiseta de botão branca, shorts marrons e chinelos; o pisão de Avery havia quebrado dois ossos. Instintivamente, ele a soltou, e quando ele estava pronto para agredi-la novamente, Avery já estava em posição para dar um rápido chute em sua garganta, seguido de um soco no abdômen. Havia um bastão de ferro no chão. Ela juntou-o e acertou Desoto na cabeça. Ele perdeu suas forças no mesmo momento. Dois de seus homens já estavam no chão, incluindo seu irmão. Um terceiro—que havia assistido sua batalha com Desoto—arregalou os olhos, surpreso. Ele puxou uma arma. Avery atingiu a mão dele com o bastão, girou e acertou-o no rosto. Ele caiu junto a uma parede. Ramirez tomou conta dos outros dois. Avery bateu com o bastão na parte de trás do joelho de um dos homens. Ele levantou-se. Ela voltou a golpeá-lo no peito, o derrubando novamente, e chutou seu rosto. O outro homem a deu um soco na mandíbula e a carregou, aos berros, até a mesa de pôquer. Eles caíram juntos. O homem estava por cima e proferia muitos socos. Avery conseguiu segurar um dos pulsos dele e rolar. Ele caiu e ela pode girar e segurar um dos braços em um movimento de imobilização. Ela deitou em posição perpendicular ao corpo dele. Suas pernas estavam sobre a barriga dele e o braço do homem estava muito estendido. - Me solte! Me solte! – O homem gritava. Ela levantou uma perna e chutou seu rosto, até que ele desmaiasse. - Vá se foder! – Ela gritou. A sala ficou em silêncio. Todos os cinco homens, incluindo Desoto, estavam abatidos. Ramirez rosnou e prendeu as pernas e braços do líder. - Meu Deus... – ele murmurou. Avery pegou uma arma do chão. Ela apontou-a para a porta do porão. Quase ao mesmo tempo, Tito apareceu. - Não se atreva a pegar sua arma! – Avery gritou. – Está escutando? Não faça isso! Tito olhou para a arma na mão dela. - Se você puxar uma arma eu atiro. Era impossível para Tito acreditar no que estava vendo naquela sala; seu queixo praticamente caiu quando ele viu Desoto. - Vocês fizeram tudo isso? – Ele perguntou seriamente. - Largue a arma! Ele apontou para ela. Avery atirou duas vezes em seu peito e o fez voar de volta para as escadas. CAPÍTULO OITO Fora da cafeteria, Avery segurava uma compressa de gelo em seu olho. Duas feridas feias latejavam no local, e sua bochecha estava inchada. Também estava difícil respirar, o que a fazia pensar que havia fraturado uma costela, e seu pescoço ainda estava ferido e vermelho pelo apertão de Desoto. Apesar de tudo, Avery se sentia bem. Mais do que bem. Ela tinha se defendido com sucesso de um assassino gigante e cinco outros homens. Você conseguiu, pensou. Ela havia passado anos aprendendo a lutar. Incontáveis anos e horas quando ela era apenas mais uma no dojô, fazendo sparring consigo mesma. Ela estivera em outras lutas antes, mas nenhuma contra cinco homens e certamente nenhuma contra alguém forte como Desoto. Ramirez estava sentado no meio-fio. Ele estivera à beira de um colapso desde toda a cena no porão. Comparado a Avery, ele parecia mal: rosto cheio de cortes e inchaços e constantes tonturas. - Você foi um animal lá dentro - ele murmurou, - um animal... - Obrigada? – Ela disse. A cafeteria de Desoto ficava no coração do A7, e por isso Avery sentiu-se obrigada a ligar para Simms para pedir reforço. Uma ambulância chegou, junto com vários policiais do A7 para levar Desoto e seus homens por agressão, porte ilegal de armas, e outras pequenas infrações. O corpo de Tito—enrolado em uma capa preta—foi retirado primeiro e colocado no porta malas de um veículo de emergência. Simms apareceu e balançou a cabeça. - Que bagunça isso tudo - ele disse, - obrigado pelo trabalho extra. - Você preferia que eu tivesse ligado para o meu departamento? - Não - ele admitiu, - acho que não. Temos três departamentos diferentes, todos tentando achar algo contra Desoto, então pelo menos essa situação pode nos ajudar nisso. Não sei o que você tinha na cabeça indo nesse lugar sem reforço, mas você foi bem. Como você derrubou os seis sozinha? - Eu tive ajuda - Avery disse e olhou para Ramirez. Ramirez levantou uma mão, agradecendo. - E o assassinato no iate? – Simms perguntou. – Alguma conexão? - Acho que não - ela disse. – Dois dos homens dele roubaram a livraria duas vezes. Desoto ficou surpreso e irritado quando soube. Se os outros dois funcionários confirmarem a história, acho que eles estão limpos. Eles queriam dinheiro, não a dona da livraria morta. Outro policial apareceu e acenou para Simms. Ele deu um tapinha no ombro de Avery. - Acho que você vai querer sair daqui agora - disse. – Os tiras estão trazendo eles. - Não - Avery respondeu. – Eu gostaria de vê-los. Desoto era tão grande que teve que ser retirado pela porta da frente. Dois policiais estavam em cada lado dele, e mais um atrás. Comparado aos outros, ele parecia um gigante. Seus homens foram trazidos logo depois dele. Todos foram levados a uma van da polícia. Quando passou perto de Avery, Desoto parou e virou-se; nenhum dos policiais conseguiu fazê-lo se mover. - Black - ele chamou. - Sim? – Ela respondeu. - Você sabe aquele alvo que você estava falando? - Sim? - Click, click, boom! – Ele disse, com uma piscada. Ele seguiu olhando para ela por mais um segundo antes de deixar que os policiais o carregassem até a van. Ameaças indolentes eram parte do trabalho. Avery aprendera isso há muito tempo, mas alguém como Desoto deixava a coisa mais séria. Por fora, ela seguiu parada e olhando de volta até que ele desaparecesse, mas por dentro, mal podia se conter. - Preciso beber algo - ela disse. - Não mesmo - Ramirez respondeu. – Estou acabado. - Vou te dizer algo - ela disse. – Qualquer bar que você queira. Sua escolha. Ele se animou imediatamente. - Sério? Avery nunca havia se oferecido para ir a um bar que Ramirez quisera. Quando ele saia, bebia com o esquadrão, enquanto Avery preferia lugares quietos, bares escondidos perto de sua casa. Desde que eles começaram a ter algo, Avery nunca havia o acompanhado ou bebido com qualquer outra pessoa do departamento. Ramirez levantou-se rapidamente. - Eu conheço o lugar certo - disse. CAPÍTULO NOVE - Cacete, Avery! – Finley rosnou com o tom de voz embriagado. – Você derrubou seis caras do Chelsea Death Squad, entre eles Juan Desoto? Não acredito. Não acredito nessa porra. Dizem que Desoto é um monstro. Algumas pessoas não acreditam nem que ele existe. - Ela conseguiu - Ramirez jurou. – Eu estava lá, cara. Estou de dizendo, ela fez isso. Essa mulher é uma mestre do kung-fu ou algo do tipo. Você tinha que ter visto ela. Rápida como a luz. Nunca vi nada daquilo. Como você aprendeu a lutar assim? - Muitas horas na academia - Avery disse. – Não tinha vida. Não tinha amigos. Só eu, uma mochila e um monte de suor e lágrimas. - Você tem que me ensinar alguns desses golpes – ele pediu. - Você se virou bem sozinho lá – Avery disse. – Você me salvou duas vezes, se eu me lembro bem. - Sim, é verdade - ele concordou para que todos ouvissem. Eles estavam no Joe’s Pub na Canal Street, um bar de tiras a apenas algumas quadras do A1. Na grande mesa de madeira estavam todos que já haviam estado no esquadrão de homicídios com Avery: Finley, Ramirez, Thompson e Jones, além de dois outros tiras de rondas que eram amigos de Finley. O supervisor de Homicídios do A1, Dylan Connelly, estava em outra mesa, não tão longe, bebendo com alguns homens que trabalhavam em sua unidade. De vez em quando, ele olhava para tentar encontrar os olhos de Avery. Ela não chegou a perceber. Thompson era a maior pessoa no bar inteiro. Praticamente albino, ele tinha a pele muito branca, com cabelos loiros finos, lábios grossos e olhos claros. Bêbado, ele olhou para Avery. - Eu te derrubaria - ele declarou. - Eu derrubaria ela - Finley disse. – Ela é uma menina. Meninas não lutam. Todo mundo sabe. Deve ter sido sorte. Desoto estava doente e seus homens ficaram todos cegos de repente quando viram a belezinha. Não tem como ela ter derrubado eles em forma. Impossível. Jones, um jamaicano velho e magro, inclinou-se para frente, realmente interessado. - Como você derrubou Desoto? – ele perguntou. – Sério, sem papinho de academia. Eu também treinei muito e olhe para mim. Eu mal consigo dar um soco. - Eu tive sorte - Avery disse. - Sim, mas como? – Ele queria mesmo saber. - Jiu-jitsu - ela disse. – Eu costumava correr quando era advogada, mas depois de todo o escândalo, correr pela cidade não era mais o que eu queria. Eu entrei na aula de jiu-jitsu e ficava horas lá, todos os dias. Acho que eu estava tentando expurgar minha alma ou algo do tipo. Eu gostei. Muito. Tanto que o professor me deu as chaves da academia e disse que eu poderia ir quando quisesse. - Porra de jiu-jitsu, - Finley disse como se fosse um palavrão. – Eu não preciso de karatê. Eu só ligo para os meus caras e eles chegam atirando - ele disse e fez o gesto de uma metralhadora. – Eles estouram a cabeça de todo mundo! Uma rodada de shots foi pedida para comemorar a noite. Avery jogou sinuca, jogou dardos e, às dez, ela estava morta de cansada. Era a primeira vez que ela de fato saia com sua equipe, e isso lhe deu uma verdadeira sensação de comunidade. Em um raro momento de vulnerabilidade, ela colocou seus braços em volta de Finley na mesa de sinuca. – Eu gosto de todos vocês - disse. Finley, parecendo deslumbrado pelo toque e pelo fato de ter uma loira alta e linda a seu lado, ficou sem palavras. Ramirez ficou no bar, sentado sozinho, onde esteve por toda a noite. Avery caminhou até ele e quase caiu no chão. Ela colocou seu braço em volta do pescoço dele e o deu um beijo na bochecha. - Está melhor? – Ela perguntou. - Está doendo. - Ah - ela murmurou. – Vamos embora daqui. Eu vou fazer você melhorar. - Não - ele resmungou. - O que aconteceu? Ramirez estava perturbado quando virou-se. - Você - ele disse. – Você é incrível em tudo o que faz. E eu? Eu me sinto jogado de lado às vezes, sabe? Até você aparecer, eu pensava que era um tira dos bons, mas quando nós estamos juntos eu vejo minhas falhas. Hoje de manhã—quem mais poderia ter impedido aquele cara de atirar naquele tira? Na doca, quem mais poderia ter visto o que você viu? Quem mais poderia ter ido até a cafeteria do Desoto e derrubado ele? Você é boa demais, Avery, e isso me faz questionar o meu próprio valor. - Ah não - Avery disse e aproximou sua testa da dele. – Você é um tira excelente. Você salvou minha vida. De novo. Desoto teria quebrado meu pescoço em dois. - Qualquer um poderia ter feito aquilo - ele disse e se afastou. - Você é o tira mais bem vestido que eu conheço,- ela disse, - e o mais entusiasmado, e você sempre me faz sorrir com seu jeito positivo. - Mesmo? - Claro - ela insistiu. – Eu fico muito presa nos meus pensamentos. Poderia ficar lá por semanas. Você me faz sair da minha bolha e me sentir como mulher. Ela o beijou nos lábios. Ramirez abaixou a cabeça. - Obrigado - ele disse. – Sério, obrigado. Isso significa muito para mim. Estou bem. Só me dê um minuto, ok? Só preciso terminar esse copo e pensar sobre algumas coisas. - Claro - ela respondeu. O bar estava ainda mais cheio do que quando eles chegaram. Avery olhou para as pessoas. Thompson e Jones haviam ido embora. Finley estava jogando sinuca. Havia um casal de agentes que ela reconheceu do escritório, mas ninguém que ela quisesse mesmo conversar. Dois homens bem vestidos acenaram para ela e apontaram para alguns drinks. Ela balançou a cabeça. Imagens apareceram em sua mente: as mãos de Desoto em seu pescoço, e a mulher no barco com a sombra misteriosa e a estrela. Avery pediu outra bebida e encontrou uma mesa vazia perto dos fundos. Para qualquer pessoa que olhasse, ela sabia que pareceria louca: uma mulher sozinha, com o rosto machucado, mãos na mesa em volta da bebida e os olhos focados no nada, enquanto, por dentro, pensava em tudo o que acontecera no dia e tentava achar conexões. Desoto, nada. Os pais, nada. Amigos? Avery se deu conta de que precisaria segui-los em algum momento, provavelmente logo. Por que o assassino desenhou uma estrela? Ela tentou imaginar. Ela pensou sobre o apartamento onde o assassinato aconteceu, os livros, as roupas no cesto e o tapete faltando. Ele é grande, ela pensou, e forte, e ele definitivamente tem algo no ombro. As câmeras estavam inativas, o que significa que ele também é dissimulado. Teve treinamento militar? Talvez. Ela pensou por outro ângulo. Конец ознакомительного фрагмента. Текст предоставлен ООО «ЛитРес». Прочитайте эту книгу целиком, купив полную легальную версию (https://www.litres.ru/pages/biblio_book/?art=43693415) на ЛитРес. Безопасно оплатить книгу можно банковской картой Visa, MasterCard, Maestro, со счета мобильного телефона, с платежного терминала, в салоне МТС или Связной, через PayPal, WebMoney, Яндекс.Деньги, QIWI Кошелек, бонусными картами или другим удобным Вам способом.