Razão Para Se Esconder 
Blake Pierce


Um mistério de Avery Black #3
Uma história dinâmica que prende a atenção desde o primeiro capítulo e não te solta maisMidwest Book Review, Diane Donovan (sobre Once Gone) Do autor de suspenses número 1, Blake Pierce, a nova obra-prima do suspense psicológico: RAZÃO PARA SE ESCONDER (Um mistério de Avery Black – Livro 3) . Corpos estão sendo encontrados nos arredores de Boston, com os cadáveres sendo queimados antes de serem reconhecidos. A polícia percebe que há um novo assassino em série à solta nas ruas. Quando a mídia descobre e a pressão aumenta, a Polícia de Boston procura a detetive de homicídios mais brilhante – e controversa: Avery Black. Avery, ainda tentando juntar os cacos de sua própria vida – seu relacionamento com Ramirez e reconciliação com Rose – de repente encontra-se colocada no caso mais desafiador de sua carreira. Com poucas evidências para seguir, ela precisa entrar na mente de um assassino psicopata, tentando entender a obsessão dele por fogo, e quais pistas sua personalidade oferece. Seu caminho a leva aos piores bairros de Boston, a confrontos com os piores psicopatas – e finalmente, a uma reviravolta que ela nunca poderia imaginar. Em um jogo psicológico de gato e rato, uma corrida frenética contra o tempo, Avery é levada às profundezas do labirinto da mente de um assassino, e a lugares sombrios que ela nunca desejara ver. Uma história psicológica obscura com um suspense perturbador, RAZÃO PARA SE ESCONDER é o livro 3 de uma nova série fascinante e de uma nova personagem amada, que o farão ler páginas e páginas noite adentro. O livro 4 da série Avery Black estará disponível em breve. Uma obra-prima de suspense e mistério. Pierce fez um trabalho magnífico criando personagens com lados psicológicos tão bem descritos que nos fazem sentir dentro de suas mentes, acompanhando seus medos e celebrando seu sucesso. A história é muito interessante e vai lhe entreter durante todo o livro. Cheio de reviravoltas, este livro vai lhe manter acordado até que você chegue à última página. Books and Movie Reviews, Roberto Mattos (sobre Once Gone)







R A Z Ã O P A R A S E E S C O N D E R



(UM MISTÉRIO DE AVERY BLACK – LIVRO 3)



B L A K E P I E R C E


Blake Pierce



Blake Pierce é o autor da série de enigmas RILEY PAGE, com doze livros (com outros a caminho). Blake Pierce também é o autor da série de enigmas MACKENZIE WHITE, composta por oito livros (com outros a caminho); da série AVERY BLACK, composta por seis livros (com outros a caminho), da série KERI LOCKE, composta por cinco livros (com outros a caminho); da série de enigmas PRIMÓRDIOS DE RILEY PAIGE, composta de dois livros (com outros a caminho); e da série de enigmas KATE WISE, composta por dois livros (com outros a caminho).



Como um ávido leitor e fã de longa data do gênero de suspense, Blake adora ouvir seus leitores, por favor, fique à vontade para visitar o site www.blakepierceauthor.com (http://www.blakepierceauthor.com) para saber mais a seu respeito e também fazer contato.



Copyright © 2017 por Blake Pierce. Todos os direitos reservados. Exceto conforme permitido na Lei de Direitos Autorais dos Estados Unidos (US. Copyright Act of 1976), nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, distribuída ou transmitida de nenhuma forma e por motivo algum, ou colocada em um sistema de dados ou sistema de recuperação sem permissão prévia do autor. Este e-book está licenciado apenas para seu aproveitamento pessoal. Este e-book não pode ser revendido ou dado a outras pessoas. Se você gostaria de compartilhar este e-book com outra pessoa, por favor compre uma cópia adicional para cada beneficiário. Se você está lendo este e-book e não o comprou, ou ele não foi comprado apenas para uso pessoal, então por favor devolva-o e compre seu próprio exemplar. Obrigado por respeitar o trabalho árduo do autor. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, empresas, organizações, lugares, eventos e acontecimentos são obras da imaginação do autor ou serão usadas apenas na ficção. Qualquer semelhança com pessoas de verdade, em vida ou falecidas, é totalmente coincidência. Imagem de capa: Copyright Dimedrol68, usada sob licença de Shutterstock.com.


LIVROS ESCRITOS POR BLAKE PIERCE



SÉRIE DE ENIGMAS KATE WISE

SE ELA SOUBESSE (Livro n 1)

SE ELA VISSE (Livro n 2)



SÉRIE OS PRIMÓRDIOS DE RILEY PAIGE

ALVOS A ABATER (Livro #1)

ESPERANDO (Livro #2)



SÉRIE DE MISTÉRIO DE RILEY PAIGE

SEM PISTAS (Livro #1)

ACORRENTADAS (Livro #2)

ARREBATADAS (Livro #3)

ATRAÍDAS (Livro #4)

PERSEGUIDA (Livro #5)

A CARÍCIA DA MORTE (Livro #6)

COBIÇADAS (Livro #7)

ESQUECIDAS (Livro #8)

ABATIDOS (Livro #9)

PERDIDAS (Livro #10)

ENTERRADOS (Livro #11)

DESPEDAÇADAS (Livro #12)

SEM SAÍDA (Livro #13)



SÉRIE DE ENIGMAS MACKENZIE WHITE

ANTES QUE ELE MATE (Livro nº1)

ANTES QUE ELE VEJA (Livro nº2)

ANTES QUE COBICE (Livro nº3)

ANTES QUE ELE LEVE (Livro nº4)

ANTES QUE ELE PRECISE (Livro nº5)

ANTES QUE ELE SINTA (Livro nº6)

ANTES QUE ELE PEQUE (Livro nº7)

ANTES QUE ELE CAÇE (Livro nº8)

ANTES QUE ELE ATAQUE (Livro nº9)



SÉRIE DE ENIGMAS AVERY BLACK

RAZÃO PARA MATAR (Livro nº1)

RAZÃO PARA CORRER (Livro nº2)

RAZÃO PARA SE ESCONDER (Livro nº3)

RAZÃO PARA TEMER (Livro nº4)



SÉRIE DE ENIGMAS KERI LOCKE

RASTRO DE MORTE (Livro nº1)

RASTRO DE UM ASSASSINO (Livro nº2)


ÍNDICE

PRÓLOGO (#u1bee08ec-c419-5d44-a184-9805995b9208)

CAPÍTULO UM (#ubc551a37-9bac-5c53-9e78-d855aba88e98)

CAPÍTULO DOIS (#u63112f55-9987-5cc1-a751-777b41738b10)

CAPÍTULO TRÊS (#udf94b974-45c0-594a-b77e-74c0b4c91438)

CAPÍTULO QUATRO (#u1763d7f4-49bb-51c0-be20-a1fbbeeb6123)

CAPÍTULO CINCO (#ud06d773d-2f65-5ecc-8cd8-7104c0f3f59f)

CAPÍTULO SEIS (#u68bcf921-fc52-584d-9e79-0a0871409fdd)

CAPÍTULO SETE (#u97225612-c0ce-55e4-91f6-b5678cd00a29)

CAPÍTULO OITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO NOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZ (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO ONZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DOZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TREZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUATORZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUINZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZESSEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZESSETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZOITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZENOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E DOIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E TRÊS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E QUATRO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E CINCO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E SEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E SETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E OITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E NOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E DOIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E TRÊS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E QUATRO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E CINCO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E SEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E SETE (#litres_trial_promo)




PRÓLOGO


Quando saiu pelo terreno vazio, o amanhecer estava levando embora o último suspiro da noite. Uma chuva fina caíra na noite anterior, criando uma névoa que tomava conta do lugar. Ele caminhou vagarosa e metodicamente, como se fizesse aquilo todas as manhãs.

Por todos os lados havia fundações de casas—casas que nunca seriam finalizadas. Ele supôs que as estruturas haviam sido feitas cinco ou seis anos atrás, e abandonadas quando a crise imobiliária chegou. Por alguma razão aquilo o irritava. Foram muitas promessas para uma família e um construtor, que acabaram falhando miseravelmente no fim.

Contra a névoa, ele parecia magro—magro e alto, como um espantalho vivo. Seu casaco preto misturava-se perfeitamente com o cinza claro do local. Era uma cena etérea, que o fez sentir-se como um fantasma. Aquilo o fez sentir-se uma lenda, quase invencível. Sentia-se como se fosse uma parte do mundo, e o mundo uma parte de si.

Mas não havia nada natural em sua presença ali. Na verdade, ele havia planejando aquilo por semanas. Meses, na verdade. Os anos anteriores haviam apenas passado, levando-o em direção àquele momento.

Caminhou pela névoa e escutou a cidade. A confusão e agitação estavam, talvez, a um quilômetro de distância. Ele estava em uma parte esquecida da cidade, pobre, um lugar que sofrera um colapso econômico. Muitos sonhos e esperanças espalhavam-se por aquele chão coberto pelo nevoeiro.

Aquilo tudo o fez querer queimar.

Pacientemente, ele esperou. Andou de um lado para o outro sem nenhuma razão aparente. Caminhou pela calçada da rua vazia e depois pela área de construção entre as casas que nunca foram terminadas. Olhou em volta, esperando que outro vulto aparecesse na névoa. Sabendo que o universo o enviaria.

Finalmente, apareceu.

Mesmo antes do vulto tornar-se totalmente visível, ele podia senti-lo através da luz fraca do amanhecer e da névoa escorregadia. O vulto era feminino.

Era o que ele estava esperando. O destino estava o ajudando.

Com seu coração batendo forte no peito, caminhou para frente, fazendo seu melhor para parecer calmo e natural. Abriu a boca para começar a chamar por um cachorro que não estava ali. Na névoa, sua voz não parecia ser sua; estava escassa e oscilante, como um fantasma.

Colocou a mão no bolso de seu casaco longo e puxou uma guia retrátil para cães que havia comprado no dia anterior.

- Pea, querida! – Chamou.

Era o tipo de nome que confundiria quem estivesse passando antes que a pessoa tivesse tempo para realmente olhar pela segunda vez.

- Pea, querida!

A figura da mulher chegou mais perto, caminhando pela névoa. Ele viu que ela tinha seu próprio cachorro e estava levando-o para uma caminhada matinal. O animal era de uma das menores raças, do tipo que mais parecia um rato. Claro, ele tinha essa informação sobre ela. Ele sabia praticamente tudo sobre sua programação pela manhã.

- Está tudo bem? – A mulher perguntou.

Ele conseguia ver o rosto dela agora. Ela era muito mais jovem que ele. Vinte anos, pelo menos.

Segurou a guia vazia e deu um sorriso triste para a mulher.

- Minha cachorra se perdeu. Tenho certeza que ela veio nessa direção, mas não consigo escuta-la.

- Ah, que pena – disse a mulher.

- Pea, querida! – Ele gritou novamente.

Aos pés da mulher, seu pequeno cachorro levantou uma perna e urinou. A mulher pareceu quase nem perceber. Ela estava olhando para ele agora. Seus olhos pareciam estar lhe reconhecendo. Ela inclinou a cabeça. Um sorriso incerto apareceu em sua boca. Ela deu um pequeno passo atrás.

Ele colocou a mão no outro bolso do casaco e segurou o martelo que estava escondido ali. Tirou o objeto do bolso com uma velocidade que surpreendeu até a si mesmo.

Usou o martelo para golpeá-la com força na cabeça. O som do golpe no terreno quieto, em meio a névoa, foi quase imperceptível. Pou!

Os olhos dela pararam. Quando ela caiu no chão, traços do sorriso tímido ainda estavam em sua boca.

Seu pequeno cachorro chorou sobre ela e olhou para ele, latindo pateticamente. Ele caminhou na direção do cachorro e rosnou de leve. O cão urinou um pouco mais, recuou e depois correu pelo terreno, com a coleira balançando atrás dele.

Ele colocou no bolso o martelo e a guia inútil. Depois, por um momento, olhou para baixo, para o corpo dela, e vagarosamente a alcançou. O único som que se escutava era o latido do cachorro, ecoando sem fim em meio à névoa da manhã.




CAPÍTULO UM


Avery colocou a última das caixas no chão do novo apartamento de sua filha e sentiu vontade de chorar. O caminhão de mudanças tinha deixado a rua cinco minutos atrás e já não havia mais volta: Rose tinha um apartamento próprio. Avery sentiu um buraco crescendo em seu estômago: aquilo era totalmente diferente de tê-la morando em um dormitório universitário, onde havia amigos em todas as esquinas, além da segurança da polícia do campus.

Rose moraria sozinha agora. E Avery ainda não aceitara isso. Muito pouco tempos atrás, Rose estivera em perigo por conta do último caso de Avery—e aquilo era algo pelo qual ela ainda se culpava muito. Algo que a fizera sentir-se uma decepção como mãe e a deixara muito assustada por sua filha. E não era qualquer coisa que assustava uma detetive de homicídios como ela.

Ela tem dezoito anos, Avery pensou. Você não pode segura-la para sempre, especialmente porque você não a segurou por perto quase nunca, para não dizer nunca, enquanto ela estava crescendo.

Como Rose crescera tão rápido? Como ela se tornara uma mulher tão linda, independente e focada? Avery certamente não tinha méritos nisso, já que estivera ausente da maior parte da vida de sua filha.

Apesar de tudo, sentiu-se orgulhosa ao ver sua filha tirar as próprias louças das caixas e coloca-las em seu próprio armário. Apesar da infância e da adolescência tumultuadas pelas quais passara, Rose havia conseguido. O futuro havia chegado, e começado com ela colocando suas louças de lojas de 1,99 nos armários de seu primeiro apartamento.

- Estou orgulhosa de você, amor – Avery disse. Ela caminhou entre as muitas caixas que ocupavam o piso da sala.

- Pelo que? – Rose disse.

- Por sobreviver – Avery respondeu, rindo. – Eu sei que eu não tornei as coisas fáceis para você.

- Você não. Mas o pai tornou. E isso não é uma indireta para você.

Avery sentiu uma pontada de tristeza.

- Eu sei.

Avery sabia que admitir tal coisa era difícil para Rose. Ela sabia que sua filha ainda estava tentando encontrar uma base sólida para a relação delas. Para uma mãe e filha tipicamente distantes, a reconciliação já seria difícil. Mas ambas haviam passado por tempos horríveis ultimamente. Rose fora perseguida por um assassino em série e obrigada a mudar-se para um abrigo secreto, enquanto Avery estava lutando contra um estresse pós-trauma depois de correr pelo resgate da filha. Havia obstáculos enormes para ultrapassar. E até algo simples como levar caixas para o novo apartamento da filha era um passo enorme no caminho da reconciliação. E Avery queria se reconciliar mais do que tudo.

Dar aquele passo requeria algum tipo de normalidade—uma normalidade que não estava sempre disponível no mundo de uma detetive obcecada pelo trabalho.

Ela juntou-se a Rose na cozinha e a ajudou a abrir as caixas com a etiqueta “cozinha”. Enquanto elas trabalhavam juntas para esvaziar as caixas, Avery sentiu-se quase chorando novamente.

Que porra é essa? Desde quando eu sou tão emotiva?

- Você acha que vai ficar bem? – Avery perguntou, fazendo o possível para continuar a conversa. – Aqui não é como um dormitório da faculdade. Você está definitivamente por conta própria. Você está pronta depois... bem, depois de tudo que passou?

- Sim, mãe. Eu não sou mais uma garotinha.

- Bem, isso está bem claro.

- Além disso - Rose disse, colocando a última louça de lado e empurrando a última caixa, - eu não estou mais totalmente sozinha.

Ali estava. Rose estivera um pouco distraída ultimamente, mas também bem humorada, e um bom humor notável era algo raro para Rose Black. Avery havia pensado que poderia haver um garoto envolvido que abrira uma caixa completamente diferente com a qual ela não estava preparada para lidar. Ela havia perdido o período de conversas com Rose, os detalhes de seu primeiro namoradinho, a primeira dança e primeira beijo. Agora que estava sabendo de um possível amor da vida de sua filha de dezoito anos, ela entendeu quanta coisa tinha perdido.

- Como assim? – Avery perguntou.

Rose mordeu os lábios, como se tivesse se arrependido de dizer aquilo.

- Eu... bem, acho que eu conheci alguém.

Ela disse aquilo casualmente e sem muita atenção, mostrando claramente que não tinha interesse em falar sobre o assunto.

- Ah, sério? – Avery perguntou. – Quando foi isso?

- Quase um mês atrás – Rose respondeu.

Exatamente o mesmo tempo que tenho notado ela com um humor melhor, Avery pensou. Às vezes era difícil entender como suas habilidades de detetive invadiam sua vida pessoal.

- Mas... Ele não vai morar aqui, vai? – Avery perguntou.

- Não, mãe. Mas pode ser que ele venha bastante aqui.

- Isso não é o tipo de coisa que a mãe de uma garota de dezoito anos quer ouvir – Avery disse.

- Meu Deus, mãe. Está tudo bem.

Avery sabia que deveria parar por ali. Se Rose quisesse conversar com ela sobre esse cara, faria quando achasse melhor. Pressiona-la tornaria tudo pior.

Mas, novamente, seu instinto profissional se sobrepôs e ela não pode deixar de fazer mais perguntas.

- Posso conhece-lo?

- Uou, claro que não. Pelo menos por enquanto.

Avery percebeu a oportunidade de ir mais a fundo na conversa—a estranha conversa sobre sexo seguro e o risco de doenças e gravidez na adolescência. Mas ela sentiu quase como se não tivesse o direito, dada a relação tensa entre as duas.

Sendo uma detetive de homicídios, no entanto, era impossível não se preocupar. Ela conhecia os homens lá fora. Havia visto não apenas assassinos, mas muitos casos de abuso doméstico. E mesmo que aquele cara na vida de Rose pudesse ser um perfeito cavalheiro, era muito mais fácil para Avery pensar que ele era uma ameaça.

De alguma forma, no entanto, ela não deveria confiar nos instintos da filha? Não tinha acabado de elogiar a filha por quem ela havia se tornado apesar de tudo?

- Tome cuidado – Avery disse.

Rose estava claramente envergonhada. Ela virou os olhos e começou a mexer nos DVDs na pequena sala que ficava junto à cozinha.

- E você? – Rose perguntou. – Você não cansa de ficar sozinha? Sabe... Papai ainda está solteiro, também.

- Eu sei disso – Avery disse. – Mas não é da minha conta.

- Ele é seu ex-marido – Rose enfatizou. - E é meu pai. Então, sim, ele é da sua conta. Pode te fazer bem vê-lo.

- Não seria bom para nenhum de nós – Avery respondeu. – Se você perguntar para ele, tenho certeza que ele vai responder a mesma coisa.

Avery sabia que aquilo era verdade. Mesmo que eles nunca tivessem conversado sobre retomar a relação, havia um acordo velado entre os dois—algo que eles sentiam no ar desde que ela perdera seu trabalho como advogada e basicamente arruinara sua vida nas semanas seguintes. Eles tolerariam um ao outro por Rose. Ainda que houvesse sentimentos mútuos de amor e respeito, os dois sabiam que não havia volta. Jack só estava preocupado com a mesma coisa que Avery. Ele queria que ela passasse mais tempo com Rose. E cabia a ela descobrir uma maneira de fazer isso. Ela passara algum tempo pensando em um plano pelas últimas semanas e, mesmo que aquilo fosse requerer sacrifícios de sua parte, ela estava pronta para tentar.

Percebendo que o assunto delicado sobre Jack já estava passando, como uma nuvem de tempestade, Avery tentou tocar no assunto do sacrifício. Não havia como falar daquilo indiretamente, então ela simplesmente iniciou a conversa.

- Estava pensando em pedir uma carga de trabalho mais leve para os próximos meses. Eu acho que deveria mesmo dar uma chance de verdade para as outras coisas.

Rose parou por um minuto. Ela parecia realmente surpresa. Assentiu sutilmente e voltou a mexer nas caixas. O único som que fez foi um pequeno “hum”.

- O que foi? – Avery perguntou.

- Mas você ama seu trabalho.

- Amo – Avery concordou, - mas estive pensando em sair do departamento de homicídios. Se eu fizer isso, vou ter que trabalhar um pouco menos.

Rose parou completamente de mexer nas caixas. Ela fez diferentes expressões em poucos segundos. Avery ficou feliz em ver que uma delas parecia ser uma expressão de esperança.

- Mãe, você não tem que fazer isso. – A voz dela era leve e indefesa, quase como a da garotinha que Avery se lembrava facilmente. – Isso é quase como arrancar sua vida pela raiz.

- Não, não é. Estou ficando mais velha e percebendo que eu perdi um monte de coisas familiares. É isso o que eu preciso para seguir em frente, para ser melhor.

Rose sentou-se no sofá, cheio de caixas e roupas jogadas. Ela olhou para Avery, com a expressão de esperança ainda no rosto.

- Você tem certeza de que é isso o que você quer? – Ela perguntou.

- Não sei. Talvez.

- Além disso - Rose disse, - eu sei de onde vem minha habilidade incrível de trocar de assunto. Você saiu rapidamente do tema de estar sozinha sempre.

- Você percebeu, né?

- Sim. E para ser sincera, acho que meu pai também.

- Rose—

Rose virou-se para ela.

- Ele sente sua falta, mãe.

Avery congelou. Ficou parada, quieta por um momento, sem poder responder.

- Eu sinto falta dele às vezes também – admitiu. – Mas não o suficiente para ligar para ele e escavar o passado.

Ele sente sua falta, mãe.

Avery deixou aquelas palavras a invadirem. Ela dificilmente pensava em Jack em qualquer sentido romântico. No entanto, havia dito a verdade: Ela sentia a falta dele. Falta do estranho senso de humor de Jack, da maneira como o corpo dele parecia sempre um pouco gelado demais pela manhã, como a necessidade dele de sexo era quase engraçada de tão previsível. Mais do que tudo, no entanto, ela sentia falta de ver como ele era um excelente pai. Mas tudo aquilo havia passado e era parte de uma vida que Avery estava tentando fortemente deixar para trás.

Ainda assim, ela não pode deixar de imaginar como tudo poderia ter sido, percebendo que tivera a chance de uma vida excelente. Uma vida com cercas de piquete, arrecadação de fundos para a escola e tardes preguiçosas de domingo no quintal.

Mas a chance para aquilo tudo já era. Rose havia perdido aquele cenário dos sonhos e Avery ainda se culpava.

- Mãe?

- Desculpe, Rose. Só não vejo eu e seu pai consertando as coisas, sabe? Além disso – ela continuou, respirando fundo e preparando-se para a reação de Rose, - talvez você não seja a única que conheceu alguém.

Rose virou-se para ela, e Avery ficou aliviada ao ver seu sorriso. Ela olhou para sua mãe com o sorriso maroto que amigas trocavam em coquetéis enquanto falavam sobre homens. Aquilo esquentou o coração de Avery de uma maneira que ela não estava preparada, nem conseguiria explicar.

- Que? – Rose perguntou, fingindo surpresa. – Você? Detalhes, por favor.

- Não tem detalhes ainda.

- Hum... Quem é ele?

Avery riu, percebendo quão bobo seria aquilo. Ela quase não disse nada. Afinal, ela mal havia dito para o homem o que sentia. Contar algo para sua filha era um pouco surreal.

Ainda assim, ela e Rose estavam progredindo. Não fazia sentido esconder a informações apenas por sua vergonha de sentir algo por um homem que não fosse o pai de Rose.

- É um homem que trabalha comigo. Ramirez.

- Vocês já se pegaram?

- Rose!

Rose deu de ombros.

- Ei... Você queria uma relação aberta e honesta com sua filha, certo?

- Sim, acho que sim – ela disse, sorrindo. – E não... nós não nos pegamos. Mas eu estou afim dele. Ele é bacana. Engraçado, sexy, e tem um tipo de charme nele que antes me irritava, mas agora... é atraente.

- Ele sente o mesmo por você? – Rose perguntou.

- Sente. Ou... sentia. Acho que estraguei tudo. Ele foi paciente, mas acho que a paciência dele acabou. – O que ela guardou para si mesma foi o fato de que havia decidido falar a Ramirez o que sentia, mas ainda não havia colocado os nervos no lugar para isso.

- Você fez ele se afastar? – Rose perguntou.

Avery sorriu.

- Caramba, você percebe as coisas.

- Estou te dizendo. Isso é genético.

Rose voltou a sorrir, parecendo ter esquecido das caixas por um instante.

- Vá em frente, mãe!

- Ah, meu Deus.

Rose riu e Avery a acompanhou. Aquele era facilmente o momento mais próximo das duas desde que elas haviam começado a tentar reparar seu relacionamento. De repente, a ideia de dar um passo atrás no esquadrão de homicídios e tirar algum tempo de folga do trabalho parecia uma necessidade ao invés de apenas uma ideia bacana.

- Você tem algo para fazer no final de semana? – Avery perguntou.

- Arrumar a casa. Talvez um encontro com o Ma—o cara que é melhor continuar sem nome por enquanto.

- Que tal um dia de garotas com sua mãe amanhã? Almoço, cinema, salão.

Rose torceu o nariz com a ideia, mas depois levou a ideia a sério.

- Posso escolher o filme?

- Você deve.

- Parece divertido. – Rose disse com uma ponta de excitação. – Pode contar comigo.

- Excelente – Avery disse. Depois, sentiu um instinto—uma necessidade de perguntar algo que pareceria estranho, mas seria fundamental para que a relação delas seguisse adiante. Ela sabia que o que estava prestes a perguntar para sua filha seria embaraçoso, mas, ao mesmo tempo, libertador.

- Então está tudo bem por você se eu seguir minha vida? – Avery perguntou.

- Como assim? – Rose perguntou. – Esquecer meu pai de vez?

- Sim. Seu pai e toda aquela parte da minha vida—uma parte da minha vida que deixou as coisas difíceis para todos nós. Uma grande parte de mim seguindo em frente, sem estar acorrentada pela culpa. E eu tenho que esquecer seu pai para isso. Eu sempre vou ama-lo e respeita-lo por ter te educado enquanto eu não estava presente, mas tem uma grande parte da minha vida da qual eu preciso me libertar. Você me entende?

- Sim – Rose disse. Sua voz estava suave e indefesa novamente. Escutar aquilo fez com que Avery quisesse ir até o sofá para abraça-la. – E você não precisa da minha permissão, mãe. – Rose continuou. – Eu sei que você está tentando. Eu estou vendo. Mesmo.

Pela terceira vez em quinze minutos, Avery sentiu seus olhos se encherem de lágrimas. Ela suspirou e mandou embora a vontade de chorar.

- Como você se tornou uma pessoa tão boa? – Avery perguntou.

- Genética – Rose disse. – Você pode ter cometido alguns erros, mãe, mas você sempre foi foda.

Antes de que Avery tivesse tempo para formular uma resposta, Rose deu um passo a frente e a abraçou. Um abraço genuíno—algo que ela não recebia de sua filha há tempos.

Naquele momento, Avery deixou as lágrimas caírem.

Ela não conseguia lembrar da última vez em que havia se sentido tão feliz. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu como se estivesse realmente progredindo para escapar dos erros do passado.

Mais um grande passo seria dado falando com Ramirez e deixando-o saber que ela havia se cansado de esconder o que estava crescendo entre eles. Ela queria estar com ele—seja lá como fosse. De repente, com os braços de sua filha em sua volta, Avery mal podia esperar para conversar com ele.

Na verdade, ela esperava que fosse muito mais do que uma conversa. Esperava que eles acabassem fazendo muito mais do que apenas falar, deixando finalmente de lado a tensão construída entre os dois.




CAPÍTULO DOIS


Ela encontrou Ramirez três horas depois, logo depois do fim do turno dele. Ele havia atendido a ligação ansioso, mas parecia cansado. Por isso eles escolheram encontrar-se à beira do Rio Charles, em um dos muitos bancos com vista para a água na trilha de caminhada em volta do lado leste do rio.

Quando caminhou até o banco em que eles haviam combinado de se encontar, Avery viu que ele acabara de chegar. Estava sentado, olhando para o rio. O cansaço em sua voz também estava em seu rosto. No entanto, ele parecia tranquilo. Ela havia percebido aquilo nele em muitas ocasiões, como ele ficava quieto e introspectivo sempre que presenciava uma vista panorâmica da cidade.

Ela se aproximou e ele virou-se quando escutou os passos. Ele mostrou seu sorriso e, assim, já não parecia cansado. Uma das muitas coisas que Avery gostava em Ramirez era como ele fazia ela se sentir sempre que olhava para ela. Era óbvio que havia mais do que uma simples atração ali; ele olhava para ela com apreciação e respeito. Isso, somado ao fato de que ele dizia que ela era linda rotineiramente, fez com que ela se sentisse mais segura e desejada do que podia lembrar.

- Dia longo? – Avery perguntou quando sentou-se no banco.

- Não muito – Ramirez disse. – Cheio de trabalho normal. Queixas de barulho. Uma briga em um bar com um pouco de sangue. E olha que merda, recebi até uma chamada sobre um cachorro que tinha perseguido uma criança árvore acima.

- Uma criança?

- Uma criança – Ramirez disse. – A glamurosa vida de um detetive quando a cidade está quieta e chata.

Os dois olharam para o rio em um silêncio que, durante as últimas semanas, começara a se tornar confortável. Mesmo que não tivessem algo sério, eles haviam começado a apreciar o tempo juntos, que não se limitava apenas a conversar por conversar. Devagar e de propósito, Avery segurou a mão dele.

- Você quer caminhar comigo?

- Claro – ele disse, apertando a mão dela.

Até dar as mãos era algo enorme para Avery. Ela e Ramirez davam as mãos frequentemente e haviam se beijado rapidamente em algumas poucas ocasiões—mas segurar a mão dele intencionalmente era algo que a tirava da zona de conforto.

Mas está ficando confortável, ela pensou quando eles começaram a caminhar. Uou, está confortável já faz um tempo.

- Você está bem? – Ramirez perguntou.

- Sim – ela disse. – Tive um dia muito bom com a Rose.

- Está tudo voltando ao normal por lá? – Ele perguntou.

- Longe do normal – Avery disse. – Mas estamos chegando lá. E falando em chegar lá...

Ela parou, pensando porque era tão difícil para ela dizer o que queria. Por conta de seu passado, sabia que era alguém forte emocionalmente. Então por que era tão difícil expressar seus sentimentos em momentos importantes?

- Vai parecer brega – Avery disse. – Então por favor tenha paciência comigo e lembre-se da minha vulnerabilidade.

- Tudo bem... – Ramirez disse, claramente confuso.

- Eu sei, já faz um bom tempo, que eu preciso mudar algumas coisas. Uma grande parte disso está em consertar as coisas com a Rose. Mas há outras coisas também. Coisas que eu fico amedrontada em admitir para mim mesma.

- Tipo o que? – Ramirez disse.

Ela podia ver que ele estava ficando um pouco desconfortável. Eles haviam sido sinceros um com o outro antes, mas nunca a esse ponto. Estava sendo mais difícil do que ela esperava.

- Olhe... Eu sei que eu praticamente estraguei tudo entre a gente – Avery disse. – Você mostrou muita paciência e entendimento enquanto eu fiz tudo errado. E eu sei que eu continuei te atraindo por um tempo para depois te afastar.

- Se você quer que eu confirme, sim – Ramirez disse com um pouco de ironia.

- Eu não posso me desculpar o suficiente por isso – Avery disse. – E se você puder encontrar no seu coração um espaço para perdoar minha hesitação e meus medos... Eu realmente gostaria de ter uma nova chance.

- Uma chance para o que? – Ramirez disse.

Ele vai me fazer dizer, ela pensou. E eu acho que mereço esse tratamento.

A tarde estava virando noite e havia apenas poucas pessoas nas trilhas ao redor do rio. A cena era pitoresca, como naqueles filmes que ela geralmente odiava assistir.

- Uma chance para nós – Avery disse.

Ramirez parou de caminhar, mas continuou segurando a mão dela. Ele olhou para ela com seus olhos castanho escuro e seguiu fitando-a.

- Não pode ser uma chance – ele disse. – Tem que ser algo real. Algo seguro. Não posso continuar deixando você ir e voltar, fazendo com que eu sempre tenha que adivinhar.

- Eu sei.

- Então, se você puder me explicar o que você quer com nós, eu vou pensar sobre isso.

Ela não conseguia perceber se ele estava falando sério ou somente dificultando as coisas. Desviou o olhar e apertou as mãos dele.

- Droga – ela disse. – Você vai tornar isso ainda mais difícil para mim, não vai?

- Bem, eu acho que—

Ela o interrompeu com um beijo. No passado, os beijos entre eles haviam sido rápidos, estranhos, cheios de sua hesitação habitual. Agora, porém, ela se perdera no beijo. Juntou os corpos o mais perto possível e o beijou com a maior paixão que ela havia posto em um contato físico desde seu último ano feliz de casamento com Jack.

Ramirez não tentou evitar nada. Ela sabia que ele queria aquilo também e podia sentir sua ansiedade.

Eles se beijaram como adolescentes apaixonados ao lado do Rio Charles. Um beijo macio, quente, que acabava com a frustração sexual que houvera entre eles por muitos meses.

Com as línguas juntas, Avery sentiu uma onda de energia passando por ela—uma energia que ela queria usar de uma maneira muito específica.

Ela interrompeu o beijo e colocou sua testa em frente a dele. Eles se olharam por muitos segundos na mesma posição, aproveitando o silêncio e o peso do que haviam acabado de fazer. Uma linha fora ultrapassada. E no silêncio tenso, ambos sentiram que ainda havia muitas linhas para cruzar.

- Você tem certeza disso? – Ramirez perguntou.

- Sim. E eu sinto por ter levado tanto tempo para perceber.

Ele puxou ela para perto e a abraçou. Ela sentiu um alívio no corpo, como se um grande peso tivesse ido embora.

- Eu quero tentar – Ramirez disse.

Ele interrompeu o abraço e a beijou novamente, de leve, no canto da boca.

- Acho que precisamos celebrar essa ocasião. Você quer jantar?

Ela suspirou e sorriu. Já havia quebrado uma barreira emocional ao confessar seus sentimentos para ele. Que mal faria continuar sendo completamente honesta com ele agora?

- Eu acho mesmo que nós temos que celebrar – ela disse. – Mas agora, nesse momento, não estou tão interessada em jantar.

- Então o que você quer fazer? – Ele perguntou.

A pergunta foi mais do que charmosa. Ela inclinou-se e sussurrou na orelha dele, aproveitando a sensação de seu toque e o cheiro de sua pele.

- Vamos para a sua casa.

Ele se afastou e olhou para ela com o mesmo ar sério de antes, mas agora havia algo a mais. Era algo que ela havia visto nos olhos dele algumas vezes—algo que parecia muito com excitação e vinha de uma necessidade física.

- Sim? – Ele disse, sem certeza.

- Sim – ela respondeu.

Enquanto caminhavam pela grama em direção ao estacionamento onde ambos haviam deixado seus carros, riram como crianças. Avery não conseguia lembrar da última vez em que se sentira tão animada e livre.



***



A paixão que haviam sentido enquanto caminhavam à beira do rio ainda estava presente quando Ramirez abriu a porta de seu apartamento. Havia uma parte de Avery que queria pular em cima dele naquele momento, antes mesmo que ele tivesse tempo para fechar a porta. Eles haviam se acariciado durante todo o caminho até o apartamento e agora que estavam ali, Avery sentia que estava à beira de algo incrível.

Quando Ramirez fechou e trancou a porta, Avery surpreendeu-se com o fato de que ele não foi diretamente na direção dela. Ao invés disso, ele passou pela sala e foi até a cozinha, onde serviu a si mesmo um copo d’água.

- Quer água? – Ele perguntou.

- Não, obrigada. – Ela respondeu.

Ele bebeu de seu copo e olhou pela janela da cozinha. A noite havia chegado e as luzes da cidade refletiam no vidro.

Avery juntou-se a ele na cozinha e, brincando, tirou o copo d’água da mão dele.

- O que foi? – Ele perguntou.

- Você... Bem, você mudou de ideia sobre mim? – Ela perguntou. – Toda a espera te fez parar de me desejar?

- Claro que não – ele disse, e colocou seus braços em volta da cintura dela, enquanto Avery viu que ele estava buscando as palavras certas.

- Podemos esperar – ela disse, torcendo para que ele não concordasse.

- Não – ele disse, rapidamente. – É que... Merda, não sei.

Aquilo fora uma surpresa para Avery. Com todo o flerte e as conversas sedutoras nos últimos meses, ela estava certa de que ele seria até um pouco agressivo quando e se aquela hora chegasse. Mas agora, ele parecia inseguro sobre si mesmo—quase nervoso.

Ela inclinou-se e o beijou no canto do rosto. Ele suspirou e se inclinou na direção dela.

- O que foi? – Ela perguntou, com os lábios encostando na pele dele enquanto falava.

- É que isso tudo é de verdade agora, sabe? Não é algo de uma noite só. É de verdade. Eu me preocupo muito com você, Avery. Mesmo. E eu não quero apressar as coisas.

- Nós estivemos ensaiando esse momento pelos últimos quatro meses – ela disse. – Não acho que isso seja se apressar.

- Bem pensado – ele disse, e a beijou na bochecha, depois no pedacinho do ombro que a camiseta dela mostrava. Seus lábios depois encontraram o pescoço dela e quando ele a beijou ali, ela pensou que fosse cair no chão no mesmo momento, trazendo ele consigo.

- Ramirez? – Ela disse, ainda evitando, de brincadeira, o primeiro nome dele.

- Sim? – Ele perguntou, com seu rosto no pescoço dela, dando beijos.

- Me leve para a cama.

Ele a puxou para perto, levantou-a, e a deixou colocar suas pernas em volta da cintura dele. Eles começaram a se beijar e depois ele a obedeceu. Devagar, a carregou para o quarto e, quando fechou a porta, Avery nem chegou a ouvir, de tão perdida que estava no momento.

Tudo o que ela conseguia sentir eram as mãos, boca e corpo em forma dele junto ao dela quando ele a colocou na cama.

Ele interrompeu um longo beijo para perguntar:

- Você tem certeza disso?

E se ela precisava de mais uma razão para quere-lo, ali estava. Ele realmente se preocupava com ela e não queria estragar o que eles sentiam um pelo outro.

Ela assentiu e o empurrou para debaixo dela.

Depois, por um tempo, ela não era uma detetive de homicídios frustrada, nem uma mãe atrapalhada ou uma filha que assistira sua mãe morrer nas mãos de seu pai. Ela era apenas Avery Black... uma mulher como qualquer outra, aproveitando os prazeres que a vida podia oferecer.

Ela quase havia quase se esquecido de como era aquilo.

Assim que começou a se acostumar novamente com aqueles prazeres, prometeu a si mesma que nunca mais se permitiria esquece-los novamente.




CAPÍTULO TRÊS


Avery abriu os olhos e viu o teto desconhecido sobre sua cabeça. A luz fraca do amanhecer entrou pela janela do quarto, alcançando seu corpo quase nu. A luz também mostrou o corpo nu de Ramirez ao lado dela. Ela virou-se e sorriu, com sono. Ele ainda estava dormindo, com o rosto virado para o lado contrário dela.

Eles haviam feito amor duas vezes na noite anterior, com um intervalo de duas horas entre cada uma para um rápido jantar, e para discutir como aquilo poderia complicar sua relação profissional se eles não tomassem cuidado. Era quase meia noite quando eles haviam finalmente deitado lado a lado. Avery estivera sonolenta e não conseguia lembrar quando pegara no sono, mas lembrava-se do braço dele em sua cintura.

Ela queria aquilo novamente... Aquele sentimento de ser desejada e estar segura. Pensou em passar seus dedos pela coluna dele (e talvez outros lugares também) apenas para acorda-lo para que ele pudesse abraça-la.

Mas ela não teve essa chance. O sinal de mensagem de seu telefone tocou. O de Ramirez também. No mesmo momento, em uma ocasião que só poderia ter um significado: era algo relacionado ao trabalho.

Ramirez sentou-se rapidamente. Naquele momento, o lençol caiu e revelou tudo. Avery olhou, sem conseguir segurar a si mesma. Ele pegou seu telefone do criado mudo e olhou-o com seus olhos claros. Enquanto fez isso, Avery procurou seu próprio telefone na pilha de roupas no chão.

A mensagem era de Dylan Connelly, o supervisor do departamento de homicídios do A1. Do jeito típico de Connelly, o texto ia direto ao ponto.



Corpo encontrado. Muito queimado. Pode ter trauma na cabeça.

Vá para o terreno de construções abandonadas na Kirkley St. AGORA.



- Bem, essa é uma boa maneira de acordar pela manhã – ela resmungou.

Ramirez saiu da cama, ainda completamente nu, e a puxou para o chão junto com ele. Puxou-a para perto e disse:

- Sim, esse é um bom jeito de acordar.

Ela inclinou-se na direção dele, um pouco assustada pela sensação de realização que tomava conta dela naquele momento. Resmungou novamente e levantou-se.

- Merda – ela disse. – Vamos chegar atrasados na cena do crime. Preciso pegar meu carro e ir até em casa para trocar de roupa.

- Vai dar tudo certo – Ramirez disse enquanto se vestia. – Vou responder a mensagem daqui a pouco, quando estivermos indo até o seu carro. Você ignora a sua. Talvez o som da mensagem não te acordou. Talvez eu te liguei para te acordar.

- Parece ilusório – ela disse, colocando sua camiseta.

- É inteligente, isso sim.

Eles sorriram um para o outro e terminaram de se vestir. Depois, foram ao banheiro, onde Avery fez seu melhor para arrumar seu cabelo enquanto Ramirez escovava os dentes. Eles correram para a cozinha e Avery puxou dois potes de cereal.

- Como você pode ver – ela disse, - eu sou uma cozinheira e tanto.

Ele a abraçou por trás e respirou em seu pescoço.

- Vai ficar tudo bem com a gente? – Ele perguntou. – Nós vamos fazer dar certo, né?

- Acho que sim – ela disse. – Vamos sair lá fora e tentar.

Eles comeram o cereal rapidamente, levando mais tempo olhando um para o outro, tentando descobrir a reação do outro sobre o que havia acontecido na noite anterior. Pelo que Avery podia ver, ele estava tão feliz quanto ela.

Eles saíram em direção à porta da frente, mas antes de fecha-la, Ramirez parou.

- Espere aqui dentro um pouco.

Confusa, ela voltou para dentro.

- Dentro – ele disse, - não estamos trabalhando. Não somos oficialmente parceiros, certo?

- Certo – Avery disse.

- Então posso fazer isso mais uma vez – ele disse.

Ele inclinou-se e a beijou. Um beijo estonteante, com força suficiente para fazer os joelhos dela tremerem um pouco. Ela, brincando, o empurrou.

- Como eu já disse antes – ela falou, - não comece se você não tem a intenção de terminar.

- Está certo – ele disse, e depois a levou para fora e fechou a porta atrás deles. – Ok, estamos trabalhando agora. Tome as rédeas, Detetive Black.



***



Eles seguiram o plano de Ramirez. Avery não respondeu a mensagem de Connelly pelos dezesseis minutos seguintes. Neste tempo, ela já estava quase em seu apartamento e ainda bastante atordoada pela maneira como tudo acontecera na noite anterior. Vestiu-se, pegou um café e saiu novamente em menos de dez minutos. O resultado do plano, claro, era chegar na Kirkley Street cerca de meia hora depois do que Connelly queria e imaginava.

Já havia muitos agentes no local. Todos rostos familiares, que ela conhecera e começara a respeitar desde que se tornara uma detetive de homicídios. As expressões em seus rostos naquela manhã a deram pistas de que aquele seria um longo dia.

Uma das pessoas que ela viu trabalhando foi Mike O’Malley. Ela achou alarmante o fato de o capitão estar por lá tão cedo. Como comandante da maior parte da polícia de Boston, ele raramente era visto na agitação de crimes rotineiros, não importando quão vis fossem. O’Malley estava conversando com dois agentes, sendo um deles Finley. Avery havia começado a respeitar Finley como agente, mesmo que ele fosse um tanto desinteressado para seu gosto.

Ela viu Ramirez ao longe. Ele estava conversando com Connelly no lado mais distante do terreno abandonado.

Enquanto caminhava até Ramirez e Connelly, ela analisou a cena da melhor maneira possível. Já havia estado naquela parte da cidade muitas vezes, mas nunca tinha prestado atenção de verdade. Era uma das muitas partes pobres daquela parte da cidade, uma área onde investidores entusiasmados haviam investido muito dinheiro, e depois visto as propriedades perderem seu valor e seus potenciais compradores irem embora rapidamente. Quando os esforços imobiliários acabaram, a área voltara a ruir. E parecia se encaixar nas redondezas.

Duas chaminés idênticas podiam ser vistas ao longe, surgindo como gigantes danificados. As duas soltavam pedaços de fumaça no ar, dando à manhã uma sensação sombria—mas apenas naquela parte da cidade. No outro lado do terreno abandonado, Avery podia ver a beira do que deveria ter sido um pequeno riacho promissor, que devia passar por trás das casas de classe média alta. Agora, o riacho já havia sido tomado pelas ervas daninhas e amoreiras. Sacolas de plástico, embalagens de salgadinho e outros tipos de lixo estavam em meio às ervas daninhas. A pequena margem estava cheia de lama e descuidada, fazendo com que o lodo tomasse conta de boa parte do local.

De maneira geral, aquela havia se tornado uma parte da cidade em que quase ninguém seria feliz. Avery conhecia aquele sentimento: quando chegou perto de Ramirez e Connelly, o local instantaneamente a fez sentir-se queimando por dentro.

Uma área assim não pode ser uma coincidência, pensou. Se alguém matou ou deixou um corpo aqui, tem que haver algum significado... ou para o crime em si ou para o assassino.

Logo ao lado de Finley e Ramirez, um agente havia terminado de colocar pequenas estacas vermelhas para delimitar uma parte retangular do terreno. Quando Avery olhou para ver o que havia dentro da área demarcada, a voz de Connelly surgiu a seu lado, a poucos centímetros de distância.

- Porra, Black... Por que você demorou tanto?

- Desculpe – ela disse. – Não escutei o som da mensagem. Ramirez me ligou e me acordou.

- Bem, você não está atrasada porque estava arrumando o cabelo ou se maquiando, disso eu tenho certeza – Connelly enfatizou.

- Ela não precisa de maquiagem – Ramirez disse. – Essa merda é para menininhas.

- Obrigada pessoal – Avery disse.

- Que seja – Connelly tomou a palavra. – Então, o que você acha disso? – Ele perguntou, apontando para o retângulo desenhado pelas estacas.

Dentro da área demarcada, ela viu o que pareciam ser restos humanos. A maior parte do que viu era uma estrutura de esqueleto, mas que parecia brilhar. Não havia como identificar a idade. Era com certeza um esqueleto que fora recentemente retirado de seu corpo. Em volta dele, algo que parecia ser cinzas e pó de carvão. Em alguns lugares, ela viu o que deveriam ser músculos e tecidos daquele esqueleto, principalmente em volta das pernas e costelas.

- Que porra aconteceu aqui? – Ela perguntou.

- Ora, boa pergunta para nossa melhor detetive começar o trabalho – Connelly disse. – Mas o que nós sabemos até agora é o seguinte: cerca de uma hora e quinze atrás, uma mulher que estava em sua corrida matinal nos ligou descrevendo algo que, segundo ela, parecia um ritual satânico. A ligação nos trouxe a isso.

Avery passou pelas marcas vermelhas e entrou na área demarcada. Uma hora e quinze minutos atrás. Isso significava que se a sujeira preta em volta do esqueleto fossem mesmo cinzas, o esqueleto estivera coberto com pele pelo menos uma hora e meia antes. Mas aquilo não parecia certo. Seria preciso muita determinação e planejamento para matar alguém e depois, milagrosamente, queima-lo até não sobrar nada, apenas ossos, em tão pouco tempo. Na verdade, ela pensou que isso seria quase impossível.

- Alguém tem luvas? – Ela perguntou.

- Um segundo. – Ramirez disse.

Enquanto ele foi até Finley e os outros agentes que haviam abrido espaço para Avery, ela também sentiu um cheiro no local. Era fraco, mas perceptível—um cheiro químico que parecia água sanitária no nariz.

- Alguém mais está sentindo isso? – Ela perguntou.

- Algo químico, certo? – Connelly perguntou. – Nós achamos que um incêndio induzido por químicos é o único jeito de queimar um corpo assim tão rápido.

- Eu não acho que o corpo foi queimado aqui – ela disse.

- Como você tem certeza? – Connelly perguntou.

Não tenho certeza, ela pensou. Mas a única coisa que faz sentido para mim em um primeiro momento para mim parece muito absurda.

- Avery— - Connelly disse.

- Um segundo – ela respondeu. – Estou pensando.

- Meu Deus...

Ela o ignorou, olhando para as cinzas e para o esqueleto com olhos investigativos. Não... o corpo não pode ter sido queimado aqui. Não há marcas de queimadura em volta do corpo. Uma pessoa queimada iria se mexer e correr loucamente. Não tem mais nada queimado aqui. O único sinal de fogo são essas cinzas. Então por que um assassino queimaria um corpo e depois o traria para cá? Talvez seja aqui que ele raptou a vítima...

Havia incontáveis possibilidades. Uma delas, Avery pensou, era que talvez aquele esqueleto fosse propriedade de algum laboratório, em algum lugar, e aquilo era apenas uma brincadeira estúpida e idiota. Mas dada a localização e estado daquilo, ela duvidava dessa hipótese.

Ramirez retornou com um par de luvas de látex. Avery as vestiu e abaixou-se até as cinzas. Ela colocou um pouco do material entre seu dedo indicador e polegar. Esfregou os dedos e os trouxe para perto do rosto. Cheirou e olhou de perto. Pareciam cinzas normais, mas com traços de um cheiro químico.

- Precisamos analisar essas cinzas – Avery disse. – Se há algo químico aqui, há uma boa chance de ainda encontrarmos isso nas cinzas.

- Tem uma equipe de peritos vindo, como conversamos – Connelly disse.

Devagar, Avery levantou-se e tirou as luvas. O’Malley e Finley chegaram perto e Avery não se surpreendeu ao ver Finley manter distância do esqueleto e das cinzas. Ele olhava como se o esqueleto pudesse pular em cima dele a qualquer momento.

- Estou trabalhando para conseguir imagens de todas as câmeras de segurança em um raio de seis blocos – O’Malley disse. – Já que não há muitas nessa parte da cidade, não deve demorar.

- Pode ser uma boa ideia também conseguir os números de todas as empresas que vendem produtos químicos altamente inflamáveis – Avery disse.

- Pode ser que existam milhões de lugares assim – Connelly disse.

- Não, ela está certa – O’Malley disse. – Isso aqui não foi feito só com um produto de limpeza de casa ou um spray. Foi um produto químico concentrado, eu diria. Finley, você pode começar a trabalhar nisso?

- Sim, senhor – Finley disse, claramente feliz por ter um motivo para sair dali.

- Black e Ramirez... Esse caso é de vocês agora – O’Malley disse. – Trabalhem com Connelly para formar uma equipe o mais rápido possível.

- Perfeito – Ramirez disse.

- E Black, nada de se atrasar daqui para frente. Seu atraso essa manhã nos fez perder quinze minutos.

Avery assentiu, sem permitir a si mesma entrar em uma discussão. Ela sabia que a maioria dos homens acima dela ainda estavam procurando qualquer pequeno motivo para elimina-la. E lidava bem com isso. Dado seu histórico sórdido, ela na verdade esperava por isso.

Quando começou a se afastar das estacas vermelhas, ela percebeu algo muitos metros à direita. Havia visto aquilo na primeira vez em que se aproximou do esqueleto, mas pensaraque era apenas lixo. Mas agora, caminhando até mais perto dos detritos, viu o que pareciam ser estilhaços de alguma coisa. Parecia-se quase com vidro, possivelmente algo que fora queimado em um forno em algum momento. Ela caminhou até os estilhaços, tendo uma visão melhor do riacho obscuro na parte de trás do terreno.

- Alguém mais viu isso? – Ela perguntou.

Connelly olhou, sem muito interesse.

- Apenas lixo – ele disse.

- Não acho – ela respondeu.

Ela colocou novamente as luvas de látex e juntou um pedaço dos estilhaços. Olhando de perto, viu que o que quer que fosse aquele objeto, era feito de vidro, e não material de cerâmica. Não parecia haver qualquer poeira ou desgaste nos fragmentos. Havia sete pedaços grandes, do tamanho de sua palma, e incontáveis pedaços menores por todo o chão. Mesmo tendo sido quebrado, o que quer que fosse aquele objeto, parecia ser bastante novo.

- Seja lá o que for isso, não está aqui por muito tempo – ela disse. – Os peritos têm que analisar isso aqui e procurar digitais.

- Vou mandar eles fazerem isso – Connelly disse em um tom que indicava que ele não gostava de receber ordens. – Agora, vocês dois... Cheguem no A1 em no máximo meia hora. Vou fazer algumas ligações e deixar uma equipe esperando por vocês na sala de reuniões. Essa cena está aqui a menos de duas horas. Quero pegar esse babaca antes que ele tenha tempo para escapar.

Avery olhou para o esqueleto pela última vez. Sem a carne por cima, ele parecia estar sorrindo. Para Avery, era quase como se o assassino estivesse sorrindo para ela, com um riso provocador. E não foi apenas a vista de um esqueleto recém despido que a fazia ter uma sensação de desgraça. Era também o local, os montes de cinzas colocados quase perfeitamente em volta dos ossos, os restos deixados à vista de propósito, e o cheiro de química.

Tudo parecia apontar para algo preciso. Para algo muito intencional e planejado. E até onde Avery sabia, aquilo só poderia significar uma coisa: quem fizera aquilo certamente faria novamente.




CAPÍTULO QUATRO


Quarenta minutos depois, Avery entrou na sala principal de reuniões da sede do A1. O lugar já estava lotado com um misto de agentes e especialistas, totalizando doze pessoas, das quais ela conhecia a maioria, apesar de não tão bem quanto Ramirez ou Finley. Supôs que a culpa por isso era dela mesma. Depois de Ramirez ter sido designado para ser seu parceiro, ela não havia mais feito amigos. Parecia algo bobo para se fazer enquanto detetive de homicídios.

Quando todos tomaram seus lugares ao redor da mesa—exceto por Avery, que sempre preferia ficar em pé—um dos agentes que ela não conhecia começou a passar cópias impressas do que eles sabiam até aquele momento—imagens da cena do crime e uma lista de tópicos do que eles havia descoberto sobre o caso. Avery viu uma das folhas e achou o material muito resumido.

Ela notou que quando todos se sentaram, Ramirez escolheu um lugar a sua frente. Ela olhou para ele e percebeu que tinha, instintivamente, dado um passo para mais perto dele. Também percebeu que queria colocar sua mão no ombro dele, apenas para toca-lo. Mas recuou, percebendo que Finley estava olhando para ela de um jeito estranho.

Merda, pensou. É tão óbvio assim?

Voltou a ocupar-se relendo as notas. Enquanto lia, O’Malley e Connelly entraram na sala. O’Malley fechou a porta e foi até a frente da sala. Antes que ele começasse a falar, os murmurinhos e conversas na sala terminaram. Avery o olhou com muito apreço e respeito. Ele era o tipo de homem que poderia tomar o comando de uma sala simplesmente limpando a garganta ou deixando as pessoas saberem que estava prestes a falar.

- Obrigado por virem todos tão rápido – O’Malley disse. – Vocês têm em suas mãos tudo o que nós sabemos sobre o caso até agora, com uma exceção. Eu pedi para funcionários da cidade juntarem tudo o que eles podiam das câmeras de trânsito da cidade naquela área. Duas das quatro câmeras mostram uma mulher caminhando com um cachorro. E isso é tudo o que nós temos.

- Tem outra coisa – um dos agentes na mesa disse. Avery sabia que o nome daquele homem era Mosely, mas isso era tudo o que ela sabia sobre ele. – Dois minutos antes de entrar nessa reunião eu fiquei sabendo de um homem idoso que nos ligou essa manhã e diz ter visto o que ele descreveu como ‘um homem alto e assustador’ caminhando naquela área. Disse que ele estava enfiando uma espécie de saco dentro de um casaco. Nosso pessoal anotou isso, mas achou que fosse apenas um velho intrometido que não tinha nada melhor para fazer. Mas depois, quando esse caso de corpo queimado apareceu, eles me avisaram sobre isso.

- Temos o contato desse idoso? – Avery perguntou.

Connelly a fitou com um olhar irritado. Ela imaginou que ele achava que ela estava falando quando não era sua vez—mesmo que menos de quarenta e cinco minutos atrás ele havia dito que aquele caso era dela.

- Nós temos – Mosely respondeu.

- Quero que alguém ligue para ele assim que essa reunião acabar – O’Malley disse. – Finley, como está nossa lista de lugares que vendem químicos que podem queimar um corpo assim em tão pouco tempo?

- Encontrei três lugares num raio de vinte quilômetros. Dois deles estão me mandando uma lista de químicos que poderiam ser usados para isso e se eles têm ou não esses produtos em estoque.

Avery escutou tudo, tomando notas mentais e tentando organiza-las da melhor maneira possível. A cada informação nova, o estranho caso daquela manhã passava a fazer mais sentido. No entanto, na verdade, não havia como perceber muito sentido naquilo tudo.

Ainda não temos ideia de quem é a vítima – O’Malley disse. – Vamos ter que analisar registros da arcada dentária, a não ser que possamos fazer alguma conexão com as imagens das câmeras. – Depois, ele olhou para Avery e acenou para ela. – A Detetive Black é a líder desse caso, então tudo o que vocês encontrarem sobre isso deve ser diretamente encaminhado para ela.

Avery juntou-se a ele na parte da frente da mesa e olhou para todos. Seus olhos pararam em Jane Parks, uma das investigadoras líderes dos peritos.

- Temos algum resultado sobre os estilhaços de vidro? – Ela perguntou.

- Ainda não – Parks respondeu. – Mas temos certeza de que não há digitais. Ainda estamos trabalhando para descobrir o que era aquele objeto. Até agora, podemos supor que era algum tipo de besteira que não tem relação com o crime.

- E qual a opinião dos peritos a respeito do fogo? – Avery perguntou. – Você também concordam que não foi um jeito comum de queimar?

- Sim. As cinzas ainda estão sendo estudadas, mas é óbvio que nenhum fogo comum poderia queimar a carne humana tão rápido. Quase não há sequer restos carbonizados nos ossos e eles parecem quase intactos, sem sinais de chamas.

- Você consegue descrever para nós como seria o processo comum de um corpo queimando? – Avery perguntou.

- Bem, nunca é comum queimar um corpo a não ser que você esteja o cremando – Parks disse. – Mas vamos supor que um corpo está trancado em uma casa incendiada e o fogo vai alcança-lo. A gordura do corpo vai agir como um tipo de combustível assim que a pele for queimada, o que mantém o fogo vivo. Quase como uma vela, sabe? Mas nesse caso, foi rápido e sucinto... provavelmente tão intenso que a queimadura vaporizou a gordura antes mesmo de que ela pudesse agir como combustível.

- Quanto tempo levaria para que um corpo fosse queimado até que sobrassem só os ossos? – Avery perguntou.

- Bem, há vários fatores determinantes – Parks disse. – Mas algo entre cinco e sete horas seria um bom número. Incêndios lentos e controlados, como os usados em crematórios, podem levar até oito horas.

- E esse foi queimado em menos de uma hora e meia? – Connelly perguntou.

- Sim, é o que supomos – Parks respondeu.

A sala de reuniões encheu-se de murmúrios de desgosto e temor. Avery entendia a situação. Estava difícil manter sua mente focada.

- Ou – Avery disse, - o corpo foi queimado em outro lugar e os restos foram colocados naquele terreno essa manhã.

- Mas aquele esqueleto... Era um esqueleto novo – Parks disse. – Não estava muito tempo sem pele, músculos e tecidos. Não mesmo.

- Você consegue imaginar há quanto tempo o corpo estava queimado? – Avery perguntou.

- Com certeza não mais do que um dia.

- Então isso tudo exigiu planejamento e conhecimento do assassino – Avery disse. – Ele teria que saber muito sobre corpos queimados. E o fato dele não ter tentando esconder os restos e ter matado a vítima de uma maneira tão assustadora... nos leva a algumas ideias. E eu temo a primeira delas.

- Como assim? – Connelly perguntou.

Avery sentiu que todos os olhos na sala se viraram para ela.

- Quero dizer que provavelmente isso é obra de um assassino em série.

Um enorme silêncio tomou conta do local.

- Do que você está falando? – Connelly perguntou. – Não há evidência para comprovar isso.

- Não é óbvio – Avery admitiu. – Mas ele queria que os restos fossem encontrados. Ele não tentou esconde-los naquele terreno. Havia um riacho atrás da propriedade. Ele poderia ter jogado tudo lá. Mais do que isso, havia cinzas. Por que jogar as cinzas no local quando você poderia facilmente te-las levado embora? O planejamento e método do assassinato... Ele se orgulhou e teve prazer em fazer isso. Ele queria que os restos fossem encontrados e analisados. E tudo isso são marcas de um assassino em série.

Avery sentiu todos na sala olhando para ela com um ar sério, e sabia que eles estavam pensando a mesma coisa que ela: aquilo estava evoluindo de um caso estranho envolvendo uma cremação imprópria para uma caça contra o tempo a um assassino em série.




CAPÍTULO CINCO


Depois da tensão da reunião, Avery ficou feliz em ver-se atrás do volante de seu carro com Ramirez no banco do passageiro. Havia um silêncio estranho entre eles que a fez sentir-se incomodada. Ela fora mesmo tão inocente a ponto de pensar que dormir com ele não mudaria em nada sua relação profissional?

Teria sido um erro?

Ela começava a sentir que sim. No entanto, era difícil aceitar, já que o sexo fora algo tão incrível.

- Agora que temos um minuto – Ramirez disse – vamos falar sobre ontem à noite?

- Podemos – Avery disse. – Sobre o que você quer falar?

- Bem, correndo o risco de soar como o estereótipo masculino, estava pensando se isso foi algo de uma noite ou se nós vamos repetir.

- Não sei – Avery disse.

- Já está arrependida? – Ele perguntou.

- Não – ela disse. – Não me arrependo. Só que naquele momento, eu não estava pensando em como isso afetaria nossa relação profissional.

- Eu sei que isso pode atrapalhar – Ramirez disse. – Brincadeiras à parte, nós dois estivemos bailando por essa química física durante meses. Nós finalmente tomamos uma atitude, então a tensão deveria acabar agora, certo?

- Se você diz – Avery disse com um sorriso manhoso.

- Você acha que isso não é para você?

Ela pensou por um tempo e depois encolheu os ombros.

- Não sei. E para falar a verdade, não sei se estou pronta para falar sobre isso.

- Tudo bem. Nós estamos no meio de algo que parece ser um caso fodido, dos grandes.

- Sim, estamos – ela disse. – Você recebeu o e-mail? O que mais nós sabemos sobre nossa testemunha além do endereço dele?

Ramirez olhou seu celular e abriu seu e-mail.

- Recebi – ele disse. – Nossa testemunha é Donald Greer, oitenta anos. Aposentado. Mora em uma apartamento a meio quilômetro da cena do crime. É um viúvo que trabalhou cinquenta anos como supervisor de estaleiro depois de perder dois dedos na guerra do Vietnã.

- E como ele viu o assassino? – Avery perguntou.

- Ainda não sei. Mas acho que é nosso trabalho descobrir, certo?

- Certo – ela respondeu.

O silêncio tomou conta do carro novamente. Ela sentiu uma vontade de segurar na mão dele, mas pensou melhor. Seria melhor manter as coisas estritamente profissionais. Talvez eles iriam terminar indo para a cama de novo e talvez as coisas progredissem ainda mais—para algo mais emocional e concreto.

Mas nada disso importava agora. Naquele momento, eles tinham trabalho a fazer e nada que envolvesse suas vidas pessoais deveria ser trazido à tona.



***



Donald Greer demonstrava ter cada um de seus oitenta anos de sua vida. Seu cabelo era um desgastado emaranhado branco acima da cabeça e seus dentes eram um pouco descoloridos pela idade e pouco cuidado. Ainda assim, ele parecia claramente feliz por ter companhia quando convidou Avery e Ramirez para entrarem em sua casa. Quando sorriu para eles, o gesto foi tão genuíno que as condições desagradáveis de seus dentes pareceram desaparecer.

- Posso servi-los café ou chá? – Ele perguntou quando entraram na casa.

- Não, obrigado – Avery disse.

Em algum lugar da casa, um cachorro latia. Era um cão pequeno, e seu latido mostrava que ele deveria ser tão velho quanto Donald.

- Então, é sobre o homem que eu vi hoje de manhã? – Donald perguntou. Ele sentou-se em uma poltrona na sala.

- Sim, senhor. É isso – Avery respondeu. – Fomos avisados de que você viu um homem alto que parecia estar escondendo algo em seu—

O cachorro em algum lugar dos fundos do apartamento começou a latir ainda mais. Seus latidos eram altos e roucos.

- Chega, Daisy! – Donald disse. O cachorro silenciou-se, dando um pequeno soluço. Donald balançou a cabeça e riu. – Daisy ama companhia – disse. – Mas ela está ficando velha e costuma urinar nas pessoas quando fica muito animada, então eu tive que tranca-la para sua visita. Eu estava caminhando com ela hoje de manhã quando vi aquele homem.

- Até onde você caminha com ela? – Avery perguntou.

- Ah, eu e Daisy caminhamos pelo menos um quilômetro e meio toda manhã. Meu coração já não é tão forte como costumava ser. O médico diz que eu preciso caminhar o máximo possível. Teoricamente isso faz bem para minhas articulações também.

- Entendi – Avery disse. – Você faz o mesmo caminho todas as manhãs?

- Não. Nós mudamos de vez em quando. Temos mais ou menos cinco caminhos diferentes.

- E onde você estava quando viu aquele homem pela manhã?

- Na Kirkley. Eu e Daisy tínhamos acabado de passar pela esquina da Spring Street. Aquela parte da cidade sempre está vazia de manhã. Alguns caminhões aqui e ali, mas é só. Eu acho que passei por duas ou três pessoas na Kirkley no último mês... e todos estavam caminhando com seus cachorros. Você não vê nem aqueles masoquistas que gostam de correr naquela área.

Era óbvio, pela maneira que falava, que Donald Greer não recebia muitas visitas. Ele falava demais e muito alto. Avery imaginou se isso acontecia porque ele já não ouvia bem por conta da idade ou porque suas orelhas sofriam com os latidos de Daisy o dia inteiro.

- Esse homem estava indo ou vindo? – Avery perguntou.

- Vindo, eu acho. Não tenho certeza. Ele estava muito na minha frente e parecia ter parado por um segundo quando eu cheguei na Kirkley. Acho que ele sabia que eu estava lá, atrás dele. Ele começou a caminhar de novo, um pouco rápido, e depois meio que desapareceu na névoa. Talvez ele tenha virado em uma das ruas que fazem esquina com a Kirkley.

- Ele estava caminhando com um cachorro? – Ramirez perguntou.

- Não. Eu teria visto. Daisy fica louca quando vê outro cachorro ou sente o cheiro de algum ao redor. Mas ela ficou quieta como sempre.

- Você tem alguma ideia do que ele poderia estar escondendo debaixo do casaco que você disse que ele estava vestindo?

- Não consegui ver – Donald disse. – Apenas o vi colocando algo dentro do casaco. Mas a névoa hoje de manhã estava muito forte.

- E esse casaco que ele estava vestindo? – Avery perguntou. – Como era?

Antes que ele pudessem responder, eles foram interrompidos pelo celular de Ramirez. Ele atendeu e se afastou, falando baixo.

- O casaco – Donald disse, - era um daquele longos, chiques, desses pretos que homens de negócio usam às vezes. Aqueles que vão até os joelhos.

- Como um sobretudo.

- Sim – Donald disse. – Isso mesmo.

Avery estava ficando sem perguntas, tendo quase certeza de que aquele interrogatório com sua única testemunha fora um fracasso. Ela tentava pensar em alguma outra pergunta quando Ramirez voltou à sala.

- Preciso ir – Ramirez disse. – Connelly precisa de mim como reforço em alguma coisa perto do Boston College.

- Tudo bem – Avery disse. – Acho que terminamos por aqui. – Ela virou-se para Donald e disse. – Senhor Greer, muito obrigado pelo seu tempo.

Donald caminhou com eles até o lado de fora do prédio e acenou quando eles entraram no carro.

- Você vai comigo? – Ramirez perguntou quando eles saíram da rua.

- Não – ela disse. – Acho que vou voltar na cena do crime.

- Kirkley Street? – Ele disse.

- Sim. Você pode ficar com o carro para fazer o que for que Connelly pedir. Vou pegar um táxi de volta para o departamento.

- Tem certeza?

- Sim. Não tenho mais nada para—

- Para o que?

- Merda!

- O que foi? – Ramirez perguntou, preocupado.

- Rose. Eu combinei de sair com a Rose essa tarde. Combinei com ela um dia de garotas. E agora parece que não vai acontecer. Vou decepcionar minha filha de novo.

- Ela vai entender – Ramirez disse.

- Não. Não vai. Eu sempre faço isso com ela.

Ramirez não teve resposta. O carro permaneceu em silêncio até eles chegarem na Kirkley Street. Ramirez estacionou o veículo no lado da rua diretamente ao lado da cena do crime.

- Tome cuidado – ele disse.

- Pode deixar – ela respondeu, e surpreendeu a si mesma quando inclinou-se e o beijou rapidamente na boca.

Depois, saiu do carro e começou imediatamente a estudar o local. Estava tão focada na área que quase não percebeu quando Ramirez foi embora atrás dela.




CAPÍTULO SEIS


Depois de olhar para o local por um tempo, Avery virou-se para olhar a rua. Seus olhos seguiram o caminho que Donald Greer possivelmente fizera, à sua direita, onde a Kirkley encontrava a Spring Street. Ela caminhou pela rua, chegou à esquina, e dobrou.

Muitos pensamentos invadiram sua mente quando ela começou a caminhar. O assassino estivera a pé todo o tempo? Se sim, por que ele viera da Spring Street—uma rua tão feia e acabada quanto a Kirkley? Ou, talvez, ele havia vindo de carro. Se fosse o caso, onde ele teria estacionado? Se a névoa estivera forte o suficiente, ele poderia ter estacionado em qualquer lugar da Kirkley e seu carro não teria sido visto.

Se o homem com o longo casaco preto fosse mesmo o assassino, ele teria caminhado pelo mesmo caminho menos de oito horas atrás. Avery tentou imaginar o local a sua volta com uma névoa forte pela manhã. Não era uma tarefa difícil já que a área era tão desolada. Enquanto caminhou devagar pelo terreno onde os ossos e estilhaços foram encontrados, manteve os olhos atentos a possíveis lugares onde o homem poderia ter sumido de vista.

Na verdade, havia muitos lugares assim. Havia seis terrenos vazios e duas ruas laterais onde o homem poderia ter se escondido. Se a névoa fora forte o suficiente, qualquer um daqueles locais teria sido um esconderijo e tanto.

Aquilo despertou uma ideia interessante. Se o homem tivesse se escondido em uma daquelas áreas, ele teria deixado Donald Greer passar sem incomoda-lo. Aquilo eliminava a possibilidade de o assassinato ter sido um ato de pura violência. A maioria das pessoas capazes desse tipo de violência não teriam deixado Donald passar tão facilmente. Na verdade, Donald teria se tornado uma vítima na maioria dos casos.

Se precisava de mais provas de que o corpo fora queimado em outro lugar, aquela ideia lhe comprovou essa hipótese. Talvez, então, o objeto que o homem estava escondendo debaixo do casaco fosse um recipiente contendo os restos que ele despejara no terreno.

Aquilo fazia sentido e, aos poucos, ela começou a sentir um sentimento crescente de que. estava chegando em algum lugar.

Caminhou pelo terreno onde os restos haviam sido encontrados. Sempre rápido e eficiente, O’Malley já havia retirado a polícia do local. Ela imaginou que ele fizera isso logo que os peritos vieram para coletar os restos.

Avery caminhou até onde os ossos e as cinzas foram derrubados e simplesmente parou ali, olhando em volta. A área pantanosa atrás do terreno era mais visível do que nunca agora. Ficava perto e era muito menos aberta do que o terreno. Então por que alguém jogaria os ossos no meio do terreno ao invés de fazer isso em um riacho infestado de ervas daninhas? Por que alguém colocaria os restos a céu aberto ao invés de esconde-los na lama e na água parada?

Eram perguntas que os policiais já tinham feito. E em sua mente, a resposta era a prova de que eles estavam lidando com um assassino em série.

Ele quer que as pessoas vejam o que ele fez. Ele é orgulhoso e talvez um pouco arrogante.

Ela pensou que ele poderia ser inteligente, também. O uso da névoa para esconder-se mostrava que ele havia planejado tudo muito bem. Ele fora persistente, monitorando o tempo para ter certeza de que encontraria uma névoa forte. Ele também teria que conhecer a área relativamente bem. Aquilo tudo teria que ter sido muito bem planejado.

E fogo... ele precisava entender muito bem de fogo. Queimar um corpo de forma tão limpa, sem carboniza-lo e sem danificar os ossos, custava muita dedicação e paciência. O assassino teria que saber muito sobre fogo e processos de queima.

Queima, ela pensou. Fogo.

Enquanto estudava o local e imaginava o assassino ali, Avery sentiu que estava deixando algo passar—alguma pista crucial estava bem a sua frente. Mas tudo o que podia ver era a área pantanosa e lameada nos fundos do terreno, bem como o pequeno espaço quadrado onde alguma pobre vítima havia sido deixada como se não fosse nada mais do que uma simples pilha de lixo.

Ela olhou em volta do terreno vazio novamente, imaginando que talvez a localização dos restos não fosse importante quanto ela pensara. Se o assassino estava usando fogo para enviar uma mensagem para alguém (a vítima ou a polícia), talvez isso era o que precisava ser focado.

Com uma ideia vindo à mente, Avery pegou seu telefone e ligou para o táxi mais próximo. Depois da chamada, olhou seus contatos e parou no nome de sua filha por cinco segundos.

Desculpe, Rose, pensou.

Apertou em “Chamar” e colocou o telefone no ouvido, com o coração partido.

Rose atendeu ao terceiro toque. Ela parecia feliz. Avery pode ouvir a música que tocava baixinho ao fundo. Ela pode imaginar Rose se arrumando para a tarde especial e odiou a si mesma por um momento.

- Oi, mãe – Rose disse.

- Oi, Rose.

- Diga.

- Rose... – ela disse. Sentiu as lágrimas vindo. Olhou para o vazio em volta, tentando se convencer de que tinha que fazer isso e de que, um dia, Rose a entenderia.

Antes que Avery falasse mais uma palavra, Rose pareceu entender a situação. Ela soltou uma pequena risada de raiva.

- Perfeito – Rose disse, agora sem alegria na voz. – Mãe, você está falando sério mesmo?

Avery escutara aquele tom de Rose antes, mas dessa vez aquilo o atingiu como um punhal no coração, pois ela sabia que merecia aquela reação.

- Rose, apareceu um caso. Um desses complicados e eu tenho que—

- Eu sei o que você tem que fazer – Rose disse. Ela não gritou. Ela quase nem levantou a voz. E de alguma maneira, isso piorou ainda mais a situação.

- Rose, eu não pude fazer nada. Eu com certeza não esperava por isso. Quando fiz aqueles planos com você, eu tinha uma programação de folga por alguns dias. Mas agora esse caso apareceu e... bem, as coisas mudaram.

- Acho que as coisas mudam às vezes – Rose disse. – Mas não com você. Com você, as coisas são sempre iguais... Quando se trata de mim, no caso.

- Rose, não é justo.

- Nem tente me dizer que não é justo agora! E quer saber, mãe? Esqueça. Essa e qualquer outra vez em que você queira tentar ser a ‘mamãe boazinha’ no futuro. Não é mais uma opção para nós.

- Rose—

- Eu entendi, mãe. Mesmo. Mas você sabe o quanto é ruim ter essa mulher como sua mãe... uma mulher foda com um trabalho tão exigente? Uma mulher que eu respeito muito... mas que está sempre me decepcionando?

Avery não tinha ideia do que dizer. E não havia mesmo o que falar, já que Rose tinha terminado.

- Tchau, mãe. Obrigado por me avisar com antecedência. Seria melhor do que não falar nada, eu acho.

- Rose, eu—

A ligação foi encerrada.

Avery colocou o telefone no bolso e respirou fundo. Uma única lágrima caiu em seu rosto, do olho direito, e ela a secou o mais rápido que pode. Depois, caminhou de propósito pela área que havia sido demarcada mais cedo e a analisou por um bom tempo.

Fogo, pensou. Talvez seja mais do que algo que o assassino está usando em seus atos. Talvez seja simbólico. Talvez esse fogo seja uma pista melhor do que qualquer outra.

Então, enquanto esperava pelo táxi, pensou sobre fogo e que tipo de pessoa o usaria para enviar algum tipo de mensagem. No entanto, era difícil pensar, porque ela sabia muito pouco sobre incêndios.

Vou precisar de mais alguém pensando nisso, pensou.

E com aquele pensamento, pegou seu telefone e ligou para o A1. Pediu para falar com Sloane Miller, a psicologista do departamento e psiquiatra dos agentes e detetives. Se alguém poderia entrar na mente de um assassino com fogo na mente, essa pessoa seria Sloane.




CAPÍTULO SETE


Avery estava de volta à sede do A1 meia hora depois. Ao entrar, ela não pegou o elevador para ir até seu escritório. Ao invés disso, permaneceu no primeiro andar e caminhou até os fundos do prédio. Ela estivera ali antes quando fora obrigada a conversar com Sloane Miller, a psicologista, durante seu último grande e assustador caso, que a havia afetado de uma maneira que ela ainda não tinha conseguido entender. Mas agora a visita tinha outro motivo... entrar na mente de um assassino. E, daquela maneira, o encontro parecia mais natural.

Ela chegou ao escritório de Sloane e ficou aliviada ao ver a porta escancarada. Sloane não tinha uma agenda definida e trabalhava mais ao estilo “por chegada” conforme a demanda da polícia. Quando Avery bateu na porta, ela pode ouvir Sloane digitando algo no notebook.

- Entre – Sloane disse.

Avery entrou, sentindo-se muito mais à vontade do que da última vez em que havia encontrado a psiquiatra. Ali em sua função, e não como paciente, as coisas eram um pouco mais formais.

- Ah, Detetive Black – Sloane disse com um cumprimento genuíno. – Que bom te ver! Fiquei muito feliz em ter notícias suas quando você ligou. Como você tem passado?

- Tudo bem – Avery disse. Mas, em sua mente, ela sabia que Sloane aproveitaria a oportunidade para analisar seus problemas com Rose e sua relação complicada com Ramirez.

- Como posso te ajudar hoje? – Sloane perguntou.

- Bem, eu queria que você me ajudasse com um tipo particular de personalidade. Estou lidando com um caso que envolve um homem que nós temos certeza que está queimando suas vítimas. Ele deixou apenas ossos e cinzas na cena do crime—ossos limpos, sem torrões ou danos. Também há uma pilha de cinzas e um leve cheiro de químicos no ar... vindos das cinzas, eu acho. Está muito claro que ele sabe o que está fazendo. Ele sabe como queimar um corpo, o que parece um conhecimento muito particular. Mas eu não acho que ele esteja usando o fogo simplesmente como uma ferramenta para seus atos. Preciso saber que tipo de pessoa usaria o fogo não apenas para queimar, mas também como algum tipo de simbolismo.

- A ideia de que ele esteja usando o fogo para simbolizar algo é uma excelente dedução – Sloane disse. – Em um caso assim, eu posso praticamente te garantir que é isso o que está acontecendo. No fundo, acho que você está lidando com alguém que tem interesse ou um passado relacionado a incêndios. Talvez ele já teve um trabalho ou um hobby que lidasse com fogo. Estudos mostram muito claramente que até crianças que são fascinadas por fogueiras ou fósforos mostram sinais de interesse em atos relacionados a incêndios.

- Você pode me dizer algo sobre esse tipo de personalidade que poderia nos ajudar a chegar até esse cara mais cedo ou mais tarde?

- Eu com certeza posso tentar – Sloane disse. – Primeiro de tudo, deve haver algum tipo de problema mental, mas nada profundo. Pode ser algo tão simples como uma tendência à raiva até nas situações mais inocentes. Ele provavelmente também não teve muita educação. A maioria das pessoas que cometem incêndios não se formaram no ensino médio. Alguns veem isso como uma maneira de se rebelarem contra um sistema que eles nunca conseguiram entender—aquela besteira toda de alguns homens apenas querem ver o mundo queimar. Alguns vão dizer que colocam fogo como um ato de revanche, mas nunca definem do que eles estão se vingando. Eles geralmente se sentem isolados ou deixados de lado pelo mundo. Então existe uma boa chance de você estar procurando um homem solteiro ou um homem que está em um casamento sem amor. Eu imaginaria que ele vive sozinho em uma pequena casa—provavelmente passa muito tempo em um escritório em casa, no porão ou na garagem, por exemplo.

- E o que acontece quando você junta toda essa descrição com alguém que claramente não vê problemas em matar pessoas?

- Acaba sendo uma pegadinha – Sloane admitiu. – Mas acho que podemos aplicar as mesmas regras. Pessoas que causam incêndios geralmente têm muito interesse em que as pessoas vejam o que eles fizeram. Colocar fogo é uma maneira de atrair atenção. Eles quase se orgulham disso, é algo que eles criaram. Seu suspeito, por exemplo, deixou restos... é um tipo estranho. Acho que podemos relacionar isso com registros de pessoas que causaram incêndios e visitaram a cena do crime para ver os bombeiros apagarem o fogo. Eles veem os bombeiros lutando contra o fogo e sentem que fizeram aquilo acontecer—a pessoa que causa um incêndio está, de alguma maneira, controlando os bombeiros.

- Então você acha que nosso suspeito pode estar por perto, assistindo tudo?

Sloane pensou por um momento, depois encolheu os ombros.

- Certamente é uma possibilidade. Mas a precisão com que ele está queimando os corpos, como você disse, deixando os ossos limpos, me faz pensar que esse cara também é paciente e organizado. Não acho que ele faria algo tão idiota como revisitar a cena do crime.

Paciente e organizado, Avery pensou. Isso se encaixa perfeitamente com o plano esquisito dele, usando névoa como cobertura para pegar as vítimas e despejar os restos.

Ela pensou na maneira em que os ossos haviam sido colocados, quase à vista, praticamente tão óbvio e chocante quanto um incêndio.

- Você já tem alguma opinião sobre o caso? – Sloane perguntou.

- Acho que ele é um assassino em série. Até onde sabemos, essa é a primeira vítima, mas a maneira flagrante em que ele deixou os restos está me irritando. Mais do que isso, tem algo de muito organizado em pegar a vítima, queima-la desse jeito e depois jogar os restos de uma maneira específica. Para mim, isso mostra tendências de um assassino em série.

- Eu concordo com você – Sloane disse.

- Queria que um dos homens que trabalham comigo fossem brilhantes assim – Avery disse, sorrindo.

- E como vai você ultimamente, Avery? Sem fugir do assunto, por favor.

- Eu estou realmente bem, considerando tudo. Pela primeira vez na vida, meus problemas parecem até normais, comparados a meu passado.

- Que tipo de problemas? – Sloane perguntou.

- Problemas com minha filha. Uma relação confusa com um cara.

- Ah, os riscos de ser uma mulher que trabalha muito.

Avery sorriu, ainda que sentisse que uma conversa mais profunda estivesse a caminho. Por isso ela suspirou internamente quando seu telefone tocou naquele exato momento. Ela puxou-o de seu bolso e viu o nome de Connelly.

- Tenho que atender.

Sloane assentiu.

Avery saiu do escritório e atendeu a ligação no corredor.

- Black, não deixe que isso suba para sua cabeça, mas você estava certa. Os registros dentários dos restos chegaram. Você mandou bem. A vítima é Keisha Lawrence. Trinta e nove anos e vivia a um quilômetro do lugar.

- O que mais nós sabemos? – Avery disse, ignorando os elogios.

- O suficiente para acelerar esse caso um pouco – ele respondeu. – Tenho alguns caras trabalhando nisso, mas até agora nós sabemos com certeza que ela não tinha família por perto. A única pessoa que pode interessar é um namorado e a mãe que morreu recentemente.

- Alguém já falou com o namorado?

- Mandei alguém lá agora. Enquanto isso, busquei a ficha dele. O babaca tem uma lista de abusos domésticos e brigas em bar. Um verdadeiro campeão.

- Quer que eu vá encontra-lo depois do cara que você já mandou?

- Sim, vá falar com esse babaca depois. Vou ligar para Ramirez para tira-lo do incidente no Boston College. Ele vai ser todo seu pelo resto do dia.

Ela tinha percebido uma voz sarcástica? Tinha certeza que sim. Ou era isso, ou estava ficando paranoica.

Sua vida sexual não é tão importante assim, pensou. Ignore isso.

- Se mexa, Black – Connelly disse. – Vamos pegar esse cara antes que apareça uma nova pilha de ossos.

Avery desligou e correu para a garagem para pegar um carro. Ela pensou no que Sloane havia dito sobre incendiários geralmente assistirem os bombeiros trabalhando, sentindo que estavam controlando os bombeiros de certa maneira.

Talvez nós temos que colocar um possível voyeur na lista de características do suspeito, pensou.

Incendiários queriam sentir que estavam controlando as pessoas que trabalhavam para entender seus crimes... Avery Black não era bombeiro e com certeza não gostava de sentir que alguém estava a controlando.

Ela saiu rapidamente da garagem, cantando pneus. O namorado de Keisha Lawrence era a primeira pista real nesse caso e Avery queria visita-lo antes de qualquer pessoa.




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