Razão Para Matar 
Blake Pierce


Um mistério de Avery Black #1
Uma história dinâmica que prende a atenção desde o primeiro capítulo e não te solta maisMidwest Book Review, Diane Donovan (sobre Once Gone) Do autor de suspenses número 1, Blake Pierce, a nova obra-prima do suspense psicológico. A detetive de homicídios Avery Black passou por muitos problemas. Uma vez considerada uma advogada criminal das melhores, ela caiu em desgraça quando conseguiu libertar um brilhante professor de Harvard e o viu cometer outro assassinato em seguida. Black perdeu seu marido e sua filha, e viu sua vida desmoronar sob seus olhos. Tentando se redimir, Avery passou para o outro lado da lei. Trabalhando duro, ela se tornou Detetive de Homicídios, para desgosto de seus colegas de trabalho, que ainda lembram do que ela fez e, por isso, sempre a odiarão. Mesmo assim, eles não podem negar que Avery tem uma mente brilhante, e quando um serial killer perturbador começa a espalhar medo pelo coração de Boston, matando garotas dos colégios de elite, é com Black que eles contam. É a chance de Avery para provar sua redenção. No entanto, ela vai descobrir em breve que o assassino em seu caminho é tão brilhante e ousado quanto ela. Nesse jogo psicológico de gato e rato, mulheres estão morrendo com pistas misteriosas, e os riscos não poderiam ser maiores. Uma corrida frenética contra o tempo leva Avery a uma série de reviravoltas chocantes e inesperadas, que culminam em um climax que nem Black poderia imaginar. Uma história psicológica obscura com um suspense perturbador, RAZÃO PARA MATAR marca a estreia de uma nova série fascinante e de uma nova personagem amada, que o farão ler páginas e páginas noite adentro. O livro 2 da Série Avery Black estará disponível em breve. Uma obra-prima de suspense e mistério. Pierce fez um trabalho magnífico criando personagens com um lado psicológico tão bem descritos que nos fazerm sentir dentro de suas mentes, acompanhando seus medos e celebrando seu sucesso. A história é muito interessante e vai lhe entreter durante todo o livro. Cheio de reviravoltas, este livro vai lhe manter acordado até que você chegue à última página. Books and Movie Reviews, Roberto Mattos (sobre Once Gone)







RAZÃO PARA MATAR



(UM MISTÉRIO DE AVERY BLACK – LIVRO 1)



B L A K E P I E R C E


Blake Pierce



Blake Pierce é autor do bestseller RILEY PAGE, série de mistérios, que inclui os suspenses SEM PISTAS. Blake Pierce também é o autor das séries de mistérios MACKENZIE WHITE e AVERY BLACK.



Um leitor ávido e fã de longa data dos gêneros de mistério e suspense, Blake ama ouvir opiniões. Então, por favor, sinta-se à vontade para visitar www.blakepierceauthor.com (http://www.blakepierceauthor.com) para saber mais e manter-se em contato.



Copyright © 2016 by Blake Pierce. Todos os direitos reservados. Exceto conforme permitido na Lei de Direitos Autorais dos Estados Unidos (US. Copyright Act of 1976), nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, distribuída ou transmitida de nenhuma forma e por motivo algum, ou colocada em um sistema de dados ou sistema de recuperação sem permissão prévia do autor. Este ebook está licenciado apenas para seu aproveitamento pessoal. Este ebook não pode ser revendido ou dado a outras pessoas. Se você gostaria de compartilhar este ebook com outra pessoa, por favor compre uma cópia adicional para cada beneficiário. Se você está lendo este ebook e não o comprou, ou ele não foi comprado apenas para uso pessoal, então por favor devolva-o e compre seu próprio exemplar. Obrigado por respeitar o trabalho árduo do autor. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, empresas, organizações, lugares, eventos e acontecimentos são obras da imaginação do autor ou serão usadas apenas na ficção. Qualquer semelhança com pessoas de verdade, em vida ou falecidas, é totalmente coincidência. Imagem de capa: Copyright miljko, usada sob licença de iStock.com.


LIVROS DE BLAKE PIERCE



SÉRIE DE MISTÉRIOS RILEY PAGE

SEM PISTAS (Livro 1)



SÉRIE DE MISTÉRIOS MACKENZIE WHITE

ANTES QUE ELE MATE (Livro 1)



SÉRIE DE MISTÉRIOS AVERY BLACK

RAZÃO PARA MATAR (Livro 1)


ÍNDICE



PRÓLOGO (#uc6f406b8-bd66-51b2-9ac4-aec1de2280c0)

CAPÍTULO UM (#ua1f791d7-4a82-560e-afa1-66beecab8c19)

CAPÍTULO DOIS (#ud222f364-58ff-565d-8ae8-1beb0fe6b8cd)

CAPÍTULO TRÊS (#ubcc83c2f-504d-5564-a662-503c7bb4ed90)

CAPÍTULO QUATRO (#u23677028-f630-586f-9598-ff142af8833b)

CAPÍTULO CINCO (#u41890ca1-d066-5eff-b8e8-a992038a054c)

CAPÍTULO SEIS (#ub1105bb9-df3b-5f07-87fa-1235b29a0bbe)

CAPÍTULO SETE (#u668dea70-7312-5da2-b166-2ecf51f1b93f)

CAPÍTULO OITO (#u78dd78d8-f352-51e6-8fa0-ba67b6c9f4ce)

CAPÍTULO NOVE (#u08a5520d-77b2-5f6e-bcf9-f31718696a44)

CAPÍTULO DEZ (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO ONZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DOZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TREZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUATORZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUINZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZESSEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZESSETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZOITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZENOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E DOIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E TRÊS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E QUATRO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E CINCO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E SEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E SETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E OITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E NOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E DOIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E TRÊS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E QUATRO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E CINCO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E SEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E SETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E OITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E NOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUARENTA (#litres_trial_promo)




PRÓLOGO


Era quase impossível para Cindy Jenkins deixar a festa de primavera de sua irmandade no Atrium. A cobertura enorme tinha sido decorada com luzes estroboscópicas, dois bares completos e uma bola de cristal estelar, que piscava no salão de dança, repleto de pessoas festando. Ao longo da noite, ela tinha dançado sozinha, e também com todo mundo. Parceiros vieram e foram, e Cindy balançava seu cabelo ruivo e direcionava um sorriso perfeito e um olhar cor de céu para qualquer dançarino que aparecia. Esta era a sua noite, uma celebração não apenas para o orgulho das Kappa Kappa Gamma, mas para todos os anos em que ela se esforçou para ser a melhor.

Seu futuro, ela sabia, estava garantido.

Pelos últimos dois anos, ela tinha estagiado em uma grande contabilidade na cidade. Recentemente, a empresa ofereceu a ela uma promoção para contadora júnior. O salário inicial seria suficiente para comprar um elegante guarda-roupa novo, além de poder pagar um apartamento a apenas algumas quadras do trabalho. Suas notas? As mais altas da turma. Claro, ela poderia aliviar até a formatura, mas Cindy não entendia a palavra “aliviar”. Ela dava de tudo, todos os dias, não importa o que ela estivesse fazendo. Trabalhar duro para se divertir muito, esse era seu lema. E naquela noite, ela queria se divertir.

Outra taça de Dreamy Blue Slush, um drink altamente alcoólico, outro brinde com as Kappa Kappa Gamma, outra dança, e Cindy não tirava o sorriso do rosto. Nas luzes estroboscópicas, ela se movia em câmera lenta. Seu cabelo ia e voltava, enquanto ela olhava para um garoto que, ela sabia, queria beijá-la há anos. Por que não? Pensou. Só um beijinho, nada sério. Nada que arriscasse seu atual relacionamento, apenas o suficiente para que todo mundo na festa soubesse que ela não era sempre “a garotinha tipo A que segue todas as regras”.

As amigas olharam e brindaram, aprovando a ideia.

Cindy então foi em direção ao garoto. As consequências da dança, do álcool e do calor tinham finalmente chegado. Ela foi apagando aos poucos, ainda sorrindo, e segurou no pescoço do garoto para que não caísse.

- Você quer ir para minha casa? – ele sussurrou.

- Eu tenho namorado.

- Cadê ele?

É verdade, pensou Cindy. Onde está Winston? Ele odiava aquelas festas da irmandade. Apenas um monte de garotas que se acham ficando bêbadas e traindo seus namorados, ele sempre dizia. Bom, pensou, acho que eu finalmente concordo! Beijar um cara enquanto já estava comprometida com outro foi provavelmente a coisa mais fora da lei que ela já tinha feito.

Você está bêbada, lembrou a si mesma. Saia daqui.

- Tenho que ir – murmurou.

- Mais uma dança?

- Não – ela respondeu. - Sério, tenho que ir.

Contrariado, o garoto aceitou. Olhando apaixonadamente para a popular veterana de Harvard, ele voltou para o meio da multidão e deu tchau com as mãos.

Cindy colocou uma mecha de cabelo suado atrás da orelha e saiu da pista de dança, com os olhos baixos e uma alegria radiante no rosto. Sua música favorita começou a tocar e ela saiu na direção contrária à multidão.

- Nãão! – suas amigas lamentaram, quando viram que ela estava tentando ir embora.

- Onde você está indo? – uma delas perguntou.

- Para casa – ela insistiu.

Rachel, sua melhor amiga, passou a frente das outras e segurou as mãos de Cindy. Morena, baixinha, ela não era a mais bonita nem a mais inteligente do grupo, mas sua natureza sexual agressiva geralmente fazia dela o centro das atenções. Ela vestia um simples e acanhado vestido prata, e a cada movimento, seu corpo parecia pronto para sair da roupa.

- Você NÃO-PODE-IR! – Ela ordenou.

- Eu estou muito bêbada –respondeu Cindy.

- Nós ainda nem fizemos nossa pegadinha de 1º de abril! Esse é o auge da nossa festa! Por favor! Fique mais um pouquinho!

Cindy pensou no seu namorado. Eles estavam juntos por dois anos. Naquela noite, eles teoricamente iriam se encontrar mais tarde, depois da festa, no apartamento dele. Ela lamentou internamente o beijo na pista de dança. Como eu vou explicar isso?

- Sério, eu tenho que ir. – Apelando para a natureza erótica escandalosa de Rachel, ela olhou na direção do garoto que tinha beijado e ironicamente acrescentou: - Se eu ficar, sabe-se lá o que pode acontecer!

- Uou! - Suas amigas brindaram.

- Ela está descontrolada!

Cindy beijou Rachel na bochecha e sussurrou:

- Tenha uma boa noite. Vejo você amanhã – e saiu em direção à porta.

Já do lado de fora, o ar puro da primavera fez com que Cindy respirasse fundo. Ela tirou o suor do rosto e ignorou a Church Street com seu curto vestido de verão amarelo. As ruas do centro da cidade eram, em sua maioria, compostas de prédios baixos de tijolos e poucas e imponentes casas entre as árvores. Ela virou à esquerda na Brattle Street e caminhou em direção ao sudoeste.

As lâmpadas na rua iluminavam a maioria das esquinas, mas uma parte da Brattle Street estava no escuro. Ao invés de ficar assustada, Cindy apertou o passo e abriu os braços, como se as sombras pudessem, de alguma forma, tirar o álcool e o cansaço do seu corpo e lhe dar energias para o encontro com Winston.

Um beco estreito apareceu à sua esquerda. Seu instinto a disse para tomar cuidado. Afinal, já era muito tarde e ela não estava no lugar mais seguro de Boston, mas estava muito bêbada para acreditar que qualquer coisa poderia acontecer para atrapalhar seu futuro.

Fora do seu campo de visão, percebeu um movimento. Já era tarde demais quando ela se virou.

Cindy sentiu uma dor forte no pescoço, que fez com que ela segurasse a respiração, e, quando olhou para trás, viu algo cintilante na luz.

Uma agulha.

O coração quase parou, e seus sussurros silenciaram em um simples instante.

Ao mesmo tempo, ela sentiu alguém pressionar suas costas, um único braço esguio segurando os seus. O corpo era menor do que o dela, mas forte. Com um puxão, ela foi trazida para o beco.

- Shhh.

Qualquer pensamento de que aquilo poderia ser uma pegadinha foi embora quando ela ouviu a voz forte e perversa.

Ela tentou chutar e gritar. Por alguma razão, sua voz não saía, como se alguma coisa estivesse apertando os músculos de seu pescoço. Suas pernas também começaram a sentir como gelatina, e ela mal conseguia manter os pés no chão.

Faça algo! Ela implorava para si mesma, sabendo que, se não fizesse, morreria.

O braço estava em volta de seu lado direito. Cindy conseguiu se soltar, e ao mesmo tempo fez força com o pescoço para trás para dar uma cabeçada no agressor. A parte de trás de seu crânio acertou o nariz do bandido e ela pode quase escutar o som do osso quebrando. O homem xingou de dor e a libertou.

Corra! Cindy pensou.

Mas seu corpo se recusou a entender. Suas pernas cederam, e ela caiu com força no cimento.

Cindy caiu de costas, com as pernas abertas e os braços em ângulo contrário, sem poder se mexer.

O agressor se ajoelhou a seu lado. Sua face estava escondida por uma peruca velha, um bigode falso e óculos com lentes grossas. Os olhos por trás dos óculos arrepiaram seu corpo de medo: frios e severos. Sem alma.

- Eu te amo – ele disse.

Cindy tentou gritar. Só conseguiu murmurar.

O homem quase tocava seu rosto. Depois, como se soubesse o que havia nos arredores, rapidamente se levantou.

Cindy sentiu seu corpo ser puxado pelas mãos e levado pelo beco.

Seus olhos se encheram de medo.

Alguém me ajude, ela pedia mentalmente. Ajuda! Ela pensou em suas colegas de classe, seus amigos, as pessoas na festa. Ajuda!

Ao fim do caminho, o pequeno homem a levantou e a abraçou com força. A cabeça dela caiu em seus ombros. Ele, apaixonadamente, acariciou seus cabelos.

Ele segurou uma das mãos dela e a girou como se eles fossem amantes.

- Está tudo bem – ele disse em voz alta, como se quisesse que outras pessoas escutassem. –Vou abrir a porta.

Cindy viu pessoas ao longe. Pensar era difícil. Nada se movia. Seu esforço para falar também falhou.

O lado do carona de uma minivan azul estava aberto. Ele a colocou dentro do carro e cuidadosamente fechou a porta, para que a cabeça dela descansasse na janela.

Ele entrou pelo lado do motorista e colocou um saco macio, como almofada, sobre a cabeça dela.

- Durma, meu amor – ele disse, ligando o carro. –Durma.

A van arrancou, enquanto a mente de Cindy desvaneceu na escuridão, com seu último pensamento sendo sobre seu futuro, seu brilhante e inacreditável futuro, que, de repente, de forma terrível, tinha sido destruído.




CAPÍTULO UM


Avery Black estava na parte de trás da sala de conferências lotada, encostada em uma parede, pensando profundamente, dispersa dos procedimentos em volta dela. Mais de trinta agentes lotavam a pequena sala de conferências do Departamento de Polícia de Boston na New Sudbury Street. Duas paredes eram amarelas, enquanto duas eram de vidro e tinham vista para o segundo piso do departamento. O Capitão Mike O’Malley, cinquenta e poucos anos, um pequeno, mas poderoso cidadão nascido e criado em Boston, com olhos e cabelos negros, seguia se movendo inquieto atrás do pódio. Para Avery, ele parecia sempre inquieto, desconfortável consigo mesmo.

- Por último, mas não menos importante – disse ele, com seu sotaque forte, - Eu gostaria de dar as boas-vindas a Avery Black ao Esquadrão de Homicídios.

Alguns poucos aplausos foram ouvidos na sala, que mesmo assim continuou em um silêncio constrangedor.

- Ora, ora – o capitão se irritou, - não há porque destratar a nova detetive. Black realizou mais prisões do que qualquer um de vocês no último ano, e ela acabou com os West Side Killers praticamente sozinha. Deem a ela o respeito devido – disse ele, balançando a cabeça para trás com um sorriso prudente.

De cabeça baixa, Avery sabia que seu cabelo loiro descolorido escondia suas características. Vestida mais como uma advogada do que como uma policial, com seu terninho preto e camiseta de botão, sua roupa era uma lembrança de seus dias como advogada de defesa. Mais uma razão para que a maioria dos policiais do departamento se afastasse ou a desejasse mal pelas costas.

- Avery! – O capitão levantou os braços. - Estou tentando lhe dar um apoio aqui. Acorde!

Ela olhou em volta, assustada, para o mar de caras feias olhando em sua direção. Começou, então, a imaginar se ter aceitado entrar para o Esquadrão de Homicídios tinha sido mesmo uma boa ideia.

- Certo. Vamos começar – acrescentou o capitão ao restante da sala. –Avery, você no meu escritório. Agora. – Ele se dirigiu a outro policial. – Eu quero ver você também. E você, Hennessey, venha cá. Charlie, por que você está saindo tão rápido?

Avery esperou que todos os policiais saíssem, depois começou a se dirigir ao escritório do Capitão. Um policial parou em sua frente. Alguém que ela já havia visto no departamento, mas nunca tinha sido formalmente apresentada. Ramirez era um pouco mais alto que ela, magro e de boa aparência, com um bronzeado latino. Ele tinha cabelos curtos e negros, barba feita e vestia um bonito terno cinza. Sua postura e aparência estavam tranquilas. Um gole de café e ele continuou olhando, sem expressar emoções.

- Posso ajudá-lo? – Ela perguntou.

- Ao contrário – ele respondeu. – Sou eu sou quem vai te ajudar.

Ele estendeu a mão. Ela não correspondeu.

- Estou apenas tentando conhecer a infame Avery Black. Muitos rumores. Eu queria descobrir quais deles são verdade. Até agora o que eu ouvi foi: distraída, age como se estivesse acima de todos. Confirmado e confirmado. Duas de duas. Nada mal para uma segunda-feira.

Insultos de policiais não eram nada novo para Avery. Aquilo havia começado três anos antes, quando ela se tornou policial novata, e nunca tinha parado. Poucos no departamento eram considerados amigos, e quase ninguém era confiável.

Avery passou pelo policial.

- Boa sorte com o comandante – disse Ramirez, ironicamente. – Ouvi dizer que ele pode ser um imbecil e tanto.

Avery respondeu acenando com as mãos. Com o passar dos anos, ela aprendeu que era melhor reconhecer seus colegas hostis do que evitá-los completamente, apenas para que eles soubessem que ela estava lá, e não iria sair.

O segundo andar do departamento de polícia A1 no centro de Boston era um complexo de atividades grande e movimentado. Cubículos preenchiam o centro do enorme local de trabalho, e pequenas salas de vidro cercavam as janelas laterais. Os policiais olharam fixamente para Avery enquanto ela passou.

- Assassina – alguém sussurrou.

- O Departamento de Homicídios é perfeito para você – disse outro.

Avery passou por uma policial irlandesa que ela tinha salvo da mira de uma quadrilha. Ela olhou para Black rapidamente e disse baixinho:

- Boa sorte, Avery. Você merece.

- Obrigada – Avery sorriu.

A primeira palavra amiga do dia lhe deu a confiança que ela precisava para entrar na sala do capitão. Para sua surpresa, Ramirez estava a apenas alguns passos da divisória de vidro. Ele levantou seu café e sorriu.

- Entre – disse. - E feche a porta atrás de você.

Avery sentou-se.

O’Malley era ainda mais formidável de perto. A tintura no cabelo era perceptível, assim como as muitas rugas em volta de seus olhos e boca. Ele passou a mão na testa e sentou-se.

- Você gosta daqui? – perguntou.

- Como assim?

- Daqui, do A1. Coração de Boston. Você está bem no centro. Cidade grande. Você vem de cidade pequena, certo? Oklahoma?

- Ohio.

- Certo, certo – ele concordou. – O que há no A1 que você gosta tanto? Há muitos outros departamentos em Boston. Você poderia ter começado pelo Southside, B2, talvez D14 e ter experimentado os subúrbios. Tem muitos bandidos por lá. Mas você só se inscreveu aqui.

- Eu gosto de cidades grandes.

- Temos gente ruim de verdade por aqui. Você tem certeza que quer entrar nessa? Aqui é o Esquadrão de Homicídios. É um pouco diferente do que fazer rondas.

- Eu vi o líder dos West Side Killers torturar uma pessoa viva enquanto o resto da quadrilha cantava músicas e assistia. De que tipo de ‘gente ruim’ nós estamos falando?

O’Malley analisava cada movimento dela.

- Pelo que eu soube – ele disse, - você foi totalmente enganada por aquele psicopata de Harvard. Ele fez você parece uma idiota. Destruiu sua vida. De advogada estrela para advogada em desgraça, até virar um nada. E depois a mudança para policial caloura. Isso deve doer.

Avery se contorceu na cadeira. Por que ele tinha que reviver tudo isso? Por que agora? Hoje era um dia para celebrar sua promoção ao Esquadrão de Homicídios, e ela não queria estragar isso – e certamente não queria reviver o passado. O que estava feito, estava feito. Agora ela só podia olhar para frente.

- Mas você deu a volta por cima – ele consentiu, - construiu uma nova vida aqui. Do lado certo, dessa vez. Tenho que respeitar isso. Mas, - ele disse, a olhando, - eu quero ter certeza que você está pronta. Você está?

Ela retribuiu o olhar, imaginando onde ele queria chegar.

- Se eu não estivesse pronta eu não estaria aqui – respondeu.

Ele concordou com a cabeça, parecendo satisfeito com a resposta.

- Nós acabamos de receber uma ligação. Uma garota morta. Um cenário produzido. Não parece nada bom. Os caras no local não sabem o que fazer.

O coração de Avery bateu mais rápido.

- Estou pronta – ela disse.

- Está? - O capitão perguntou. - Você é competente, mas se isso vier a se tornar um caso de grandes proporções, não quero que você estrague tudo.

- Isso não vai acontecer – respondeu.

- Era isso o que eu queria ouvir – disse o capitão, empurrando alguns papeis sobre sua mesa. – Dylan Connelly supervisa o Esquadrão. Ele está lá agora trabalhando com os peritos. Você tem um novo parceiro. Tente não deixá-lo morrer.

- Aquilo não foi culpa minha – Avery respondeu, lembrando internamente da recente investigação de Affairs Internos, tudo porque seu ex-parceiro, um preconceituoso precipitado, tinha tentado se infiltrar em uma gangue sozinho para ficar com o crédito sobre o trabalho dela.

O comandante apontou para fora.

- Seu parceiro está esperando. Eu nomeei você detetive líder. Não me decepcione.

Ela se virou e viu Ramirez esperando. Então resmungou:

- Ramirez? Por que ele?

- De verdade? – O capitão respondeu. – Ele é o único aqui que queria trabalhar com você. Todos os outros parecem te odiar.”

Ela sentiu o estômago embrulhado.

- Vá com cuidado, jovem detetive – ele acrescentou e se levantou, sinalizando que a reunião havia terminado. – Você precisa de todos os amigos que puder ter.




CAPÍTULO DOIS


- Como foi? – Perguntou Ramirez, assim que Avery saiu do escritório.

Ela baixou a cabeça e seguiu caminhando. Avery odiava conversinhas, e ela não acreditava que nenhum de seus colegas poderia conversar sem ao menos um insulto.

- Pra onde nós vamos? - Ela respondeu.

- Assuntos profissionais. – Ramirez sorriu. - Bom saber. Ok, Black. Há uma garota morta em um banco no Lederman Park, perto do rio. É uma área com muito movimento. Nem de longe o melhor lugar para se deixar um corpo.

Alguns agentes cumprimentaram Ramirez.

- Pega ela, tigrão!

- Quebra ela no meio, Ramirez.

Avery sacudiu a cabeça. Bacana.

Ramirez levantou suas mãos.

- Não fui eu.

- São todos vocês – Avery retrucou. - Nunca pensei que uma estação policial fosse ser pior do que um escritório de advocacia. Clube secreto dos bolinhas, certo? Garotas não são bem-vindas?

- Menos, Black.

Ela seguiu em direção aos elevadores. Alguns agentes celebraram por terem conseguido irritá-la. Geralmente, Avery conseguia ignorar os insultos, mas algo neste novo caso tinha mexido com ela mais do que o normal. As palavras usadas pelo capitão não eram típicas de um simples homicídio: Não sabem o que fazer. Um cenário produzido.

Além disso, o ar indiferente e arrogante de seu novo parceiro não era exatamente confortante: parece resolvido. Nada é fácil assim, nunca.

A porta do elevador estava para fechar quando Ramirez colocou suas mãos para dentro.

- Desculpe, ok?

Ele parecia sincero. Mão estendida, um olhar de desculpas nos seus olhos negros. Um botão pressionado e eles desceram.

Avery olhou para ele.

- O capitão disse que você era o único que queria trabalhar comigo. Por quê?

- Você é Avery Black – ele respondeu, como se a resposta fosse óbvia. – Como eu poderia não estar curioso? Ninguém te conhece de verdade, mas todo mundo parece ter uma opinião: idiota ou gênia, decadente ou em ascensão, assassina ou salvadora. Eu quero separar os fatos da ficção.

- Por que você se importa?

Ramirez deu um sorriso enigmático.

Mas não disse nada.



* * *



Avery seguiu Ramirez enquanto ele caminhava calmamente pelo estacionamento. Ele não usava gravata e seus dois botões de cima estavam abertos.

- Estou logo ali – ele apontou.

Eles passaram por alguns agentes uniformizados que pareciam conhecê-lo. Um deles o cumprimentou e o lançou um olhar estranho que parecia perguntar: O que você está fazendo com ela?

Ele a levou até um Cadilac carmim, velho e empoeirado, com bancos em caramelo rasgados.

- Boa carona – brincou Avery.

- Esse garotão já me salvou muitas vezes – respondeu Ramirez com orgulho, batendo de leve no capô. – Tudo o que tenho que fazer é me vestir como um cafetão ou um espanhol faminto e ninguém nem percebe minha presença.

Eles saíram do estacionamento.

O Lederman Park estava a apenas alguns quilômetros da estação de polícia. Eles seguiram sentido oeste pela Cambridge Street e pagaram a direita em Blossom.

- Então – disse Ramirez – Ouvi dizer que você já foi advogada.

- Mesmo? – Os olhos azuis o miraram de relance. – O que mais você ouviu?

- Advogada de defesa criminal – ele completou. – A melhor das melhores. Você trabalhou na Goldfinch & Seymour. Não é pra qualquer um. O que te fez sair?

- Você não sabe?

- Eu sei que você defendeu muitos crápulas. Nunca perdeu, certo? Você inclusive colocou alguns policiais sujos atrás das grades. Deve ter vivido a vida. Salário enorme, sucesso interminável. Que tipo de pessoa deixa tudo para trás para entrar na polícia?

Avery lembrou a casa em que ela cresceu, uma pequena fazendo cercada de terras vazias por quilômetros. O isolamento nunca foi para ela. Nem os animais ou cheiro do lugar: fezes, pelos e penas. Desde o começo ela queria sair de lá. E saiu. Para Boston. Primeiro para a universidade, depois para os estudos e carreira no direito.

E agora isso.

Deixou escapar um suspiro.

- Vamos dizer que algumas coisas não saem como planejamos.

- O que você quer dizer?

Em sua mente, ela viu aquele sorriso de novo. Aquele sorriso antigo e sinistro, daquele homem enrugado com óculos de lentes grossas. Ele parecera tão sincero no começo, tão humilde, inteligente e honesto. Todos eles pareciam, pensou.

Até quando os julgamentos terminavam, eles voltavam para suas rotinas e ela era forçada a aceitar que não era nenhuma heroína dos desamparados, defensora das pessoas, mas sim um peão, um simples peão em um jogo muito complexo e enraizado para ser modificado.

- A vida é difícil – divagou. “Você acha que sabe algo em um dia e, no outro, o jogo vira de cabeça para baixo e tudo muda.

Ramirez assentiu.

- Howard Randall – disse ele, claramente percebendo do que ela estava falando.

Aquele nome a deixou mais consciente de tudo. O ar puro no carro, sua posição no banco, a localização deles na cidade. Ninguém tinha dito aquele nome em voz alta por muito tempo, especialmente para ela. Avery se sentiu exposta e vulnerável, contraindo o corpo e se ajeitando no banco em resposta.

- Desculpe – disse Ramirez. – Eu não quis—

- Tudo bem – ela respondeu.

Mas não estava tudo bem. Tudo tinha desmoronado depois dele. Sua vida. Seu trabalho. Sua sanidade. Ser uma advogada de defesa tinha sido um desafio, para dizer o mínimo, mas ele era quem deveria ter deixado tudo certo novamente. Um professor gênio de Harvard, respeitado por todos, simples e gentil, tinha sido acusado de assassinato. A salvação de Avery deveria vir através da defesa dele. Dessa vez, ela poderia fazer o que sonhou desde criança: defender o inocente e garantir que a justiça prevalecesse.

Mas nada daquilo acontecera.




CAPÍTULO TRÊS


O parque já tinha sido fechado para o público.

Dois policiais à paisana viram o carro de Ramirez e rapidamente acenaram para que eles não estacionassem no pátio principal, e sim mais à esquerda. Entre os agentes que obviamente eram de seu departamento, Avery viu alguns policiais do estado.

- O que eles estão fazendo aqui? - Perguntou.

- A sede deles fica aqui na rua.

Ramirez estacionou próximo a uma fila de carros de polícia. Uma fita amarela havia isolado uma boa parte do terreno. Vans de imprensa, repórteres, câmeras e populares se aglomeravam atrás da fita para tentar ver o que estava acontecendo.

- Ninguém passa daqui - disse um policial.

- Esquadrão de Homicídios – disse Black. Foi a primeira vez em que ela se deu conta de seu novo cargo, e se sentiu orgulhosa por isso.

- Onde está Connelly? – Perguntou Ramirez.

Um oficial apontou em direção às árvores.

Eles caminharam pela grama, um pedaço de um campo de beisebol, à esquerda. Encontraram mais fita amarela antes de chegar às árvores. Debaixo da folhagem espessa havia um caminho que ladeava o rio Charles. Um policial, um perito e uma fotógrafa estavam em pé, ao redor de um banco.

Avery evitou contato com aqueles que já estavam no local. Com o passar dos anos, ela havia aprendido que interações sociais atrapalhavam seu foco, e muitas perguntas e formalidades com outras pessoas atrapalhavam seu ponto de vista. Infelizmente, essa era outra de suas características que tinha despertado o desprezo de todos no departamento.

A vítima era uma jovem colocada no banco em posição diagonal. Obviamente ela estava morta, mas não fosse a cor da pele, a posição e a expressão facial poderiam ter feito a maioria das pessoas que passaram por ali ter que olhar duas vezes para perceberem que algo estava errado.

Como uma apaixonada esperando seu amado, as mãos da garota estavam na parte de trás do banco. Seu queixo descansava em suas mãos. Um sorriso malicioso nos lábios. Seu corpo estava virado, como se ela estivesse sentada e se movido para olhar para alguém ou para respirar fundo. Ela vestia um vestido de verão amarelo e sandálias brancas, com um lindo cabelo ruivo caindo sobre seu ombro esquerdo. Suas pernas estavam cruzadas e os dedos dos pés descansavam sutilmente no chão.

Apenas o olhar de vítima entregava seu tormento. Eles emanavam dor e descrença. Avery ouviu uma voz em sua mente, a voz do velho homem que assombrava suas noites e seus dias também. Sobre suas próprias vítimas, certa vez ele a havia perguntado: O que elas são? Coisas sem nome, sem face, poucas em meio a bilhões, esperando para encontrar suas razões.

Seu corpo se encheu de raiva. Raiva por ter sido exposta e humilhada e, acima de tudo, por ter tido toda sua vida destruída.

Ela se aproximou do corpo.

Como advogada, ela havia sido obrigada a examinar incontáveis perícias e fotos de legistas e qualquer coisa relacionada a seus casos. Como policial, seu conhecimento havia aumentado muito, já que rotineiramente analisava vítimas de assassinato pessoalmente, podendo fazer avaliações muito mais precisas.

O vestido, notou, tinha sido lavado, assim como o cabelo da vítima. As unhas dos pés e das mãos estavam bem feitas, e quando chegou bem perto da pele, sentiu cheiro de coco e mel, com apenas um leve toque de formol.

- Você vai beijá-la ou o que? – Alguém disse.

Avery estava inclinada sobre o corpo da vítima, com as mãos em suas costas. No banco, um letreiro amarelo com o número 4. Além disso, na cintura da garota, havia cabelos crespos e alaranjados, quase imperceptíveis pelo vestido amarelo.

O Supervisor de Homicídios Dylan Connelly estava em pé, com as mãos no quadril, esperando por uma resposta. Ele era áspero e durão, com cabelos loiros ondulados e olhos azuis penetrantes. Seu peito e seus braços quase saíam de sua camiseta azul. Suas calças eram de linho, marrom, e os sapatos pretos e grossos. Avery já tinha o visto várias vezes no escritório. Ele não era exatamente o tipo dela, mas tinha uma ferocidade animal que ela admirava.

- Esta é a cena de um crime, Black. Da próxima vez, veja por onde você está andando. Você tem sorte que nós já buscamos as pegadas e impressões digitais.

Ela olhou para baixo, confusa. Havia tomado cuidado por onde pisara. Black olhou para os Connelly, viu seu olhar determinado e percebeu que ele estava apenas encontrando uma desculpa para reprová-la.

- Eu não sabia que isso era a cena de um crime – ela disse. – Obrigada por me lembrar.

Ramirez riu em silêncio.

Connelly mordeu a língua e deu um passo a frente.

- Você sabe por que as pessoas não te suportam, Black? Não é apenas porque você veio do outro lado. É porque quando você estava do outro lado, você não respeitava os policiais, e agora que você está aqui dentro, você respeita menos ainda. Vou ser bem claro: eu não gosto de você, eu não confio em você, e com toda certeza eu não queria você na minha equipe.

Ele virou-se para Ramirez.

- Diga a ela o que nós sabemos. Estou indo pra casa tomar um banho. Estou cansado – disse. Retirou as luvas e as jogou no chão. Para Avery, acrescentou. – Espero um relatório completo até o fim do dia. Cinco em ponto. Sala de conferências. Você me escutou? Não se atrase. E limpe essa bagunça antes de sair também. Os agentes do estado foram gentis o suficiente para nos deixar trabalhar aqui. Seja gentil o suficiente para ao menos ser cortês com eles.

Connelly saiu, com raiva.

- Você sabe lidar com as pessoas – comentou Ramirez.

Avery deu de ombros.

A legista naquele caso era uma americana de origem africana, jovem e em forma, chamada Randy Johnson. Ela tinha olhos grandes e seu cabelo curto e com dreadlocks estava coberto apenas parcialmente pelo boné branco.

Avery já havia trabalhado com ela antes. Elas tiveram um contato rápido durante um caso de violência doméstica. A última vez em que tinham visto uma a outra tinha sido após alguns drinks.

Animada por estar em mais um caso com Avery, Randy estendeu a mão, se deu conta de que estava de luva e, envergonhada, aos risos, disse:

- Oops! Eu posso estar contaminada.

- Bom te ver, Randy.

- Parabéns por entrar no Esquadrão de Homicídios – Randy disse. – Subindo na vida.

- Uma coisa por vez. O que nós temos?

- Eu diria que alguém estava apaixonado – respondeu Randy. – Limparam ela muito bem. Abriram pelas costas, drenaram o corpo, colocaram formol para não apodrecer e costuraram novamente. Roupas novas. Manicure. Cuidado total. Sem impressões digitais por enquanto. Não posso dizer muita coisa até chegar ao laboratório. Só consegui encontrar dois ferimentos. Consegue ver a boca? Você pode fazer isso por dentro, ou usar um gel para fazer um cadáver sorrir assim. Por esse ferimento de perfuração aqui – ela apontou para o canto do lábio – eu diria injeção. Tem outro aqui. – Apontou para o pescoço. – Pela coloração, esse foi feito primeiro, talvez na hora da abdução. Esse corpo está morto por aproximadamente 48 horas. Encontrei alguns cabelos intrigantes.

- Há quanto tempo ela está aqui?

- Ciclistas a encontraram às seis. – Ramirez respondeu. – O parque é vigiado todas as noites por volta da meia-noite e três da manhã. Ninguém viu nada.

Avery não conseguiu parar de olhar os olhos da garota morta. Eles pareciam olhar para algo distante, mas ainda assim perto da costa, daquele lado do rio. Ela cuidadosamente foi até atrás do banco e tentou seguir a linha do olhar. Após o rio, havia muitos prédios de tijolo. Um deles era pequeno, com uma cúpula branca no topo.

- Que prédio é aquele? – Perguntou. – O grande com a cúpula?

Ramirez analisou.

- Talvez o Cinema Omni?

- Podemos descobrir o que está em cartaz?

- Por que?

- Não sei. Só um pressentimento.

Avery se levantou.

- Nós sabemos quem é ela?

- Sim – Ramirez respondeu e checou suas anotações. – Acreditamos que o nome dela é Cindy Jenkins. Veterana de Harvard. Da irmandade. Kappa Kappa Gamma. Desapareceu duas noites atrás. A guarda do campus e os policiais de Cambridge divulgaram a foto dela ontem à noite. O pessoal do Connelly analisou as fotos e descobriu. Ainda precisamos da confirmação. Vou ligar para a família.

- Como está a nossa busca por imagens?

- Jones e Thompson estão trabalhando nisso agora. Você os conhece, certo? Detetives excelentes. Eles estão conosco hoje. Depois disso, estamos por conta própria a não ser que provemos que precisamos de recursos extras. Não há câmeras na entrada do parque, mas há algumas na estrada e pela rua. Teremos algo hoje à tarde.

- Alguma testemunha?

- Até agora não. Os ciclistas são inocentes. Posso vasculhar.

Avery analisou a área isolada. A fita amarela cobria uma grande parte do parque. Nada extraordinário podia ser visto perto do rio, do caminho dos ciclistas ou da grama. Ela tentou criar uma imagem mental do que tinha acontecido. Ele devia ter dirigido pela estrada principal, estacionado perto da água para ter acesso fácil ao banco. Como ele colocou o corpo no banco sem nenhuma suspeita?

Pessoas poderiam ter visto. Ele tinha que estar preparado para aquilo. Talvez ele fez parecer como se ela estivesse viva? Avery olhou novamente para o corpo. Definitivamente essa era uma possibilidade. A garota era linda, mesmo morta. Obviamente ele havia passado muito tempo planejando para ter certeza de que ela parecesse perfeita. Não tinha sido uma gangue de assassinos, ela se deu conta. Nem um apaixonado desprezado. Era diferente. Avery tinha visto isso antes.

De repente, ela pensou que O’Malley poderia estar certo. Talvez ela não estivesse pronta.

- Posso pegar seu carro emprestado? – Ela pediu.

Ramirez levantou a sobrancelha.

- E a cena do crime?

- Você é um bom garoto. Descubra.

- Onde você vai?

- Harvard.




CAPÍTULO QUATRO


Ele estava sentado em um escritório em um cubículo. Superior, vitorioso, mais poderoso do que qualquer pessoa no planeta. A tela do computador estava aberta a sua frente. Com um suspiro profundo, fechou os olhos e relembrou.

Recordou do profundo porão de sua casa, que mais parecia um viveiro. Muitas variedades de flores alinhadas na sala principal: vermelhas, amarelas e brancas. Muitas outras plantas psicodélicas, cada uma conseguida através de incontáveis anos, estavam em grandes calhas. Algumas eram estranhas e intrigantes, outras tinham uma aparência mais comum, que teriam sido ignoradas em qualquer cenário selvagem, apesar de suas potentes habilidades. Um sistema de irrigação automático, um medidor de temperatura e luzes de LED mantinham as plantas crescendo.

Um grande corredor feito de vigas de madeira levava às outras salas. Nas paredes, fotos. A maioria de animais em vários estágios de morte, e depois “renascidos”, preenchidos e devidamente posicionados. Um gato malhado, apoiado nas patas traseiras, brincando com um novelo. Um cachorro com pintas, rolando e esperando por um carinho na barriga.

Depois lembrou das portas. Ele imaginou a porta da esquerda aberta. Lá, ele a viu novamente, seu corpo nu deitado na mesa prateada. Luzes fluorescentes fortes iluminavam o lugar. Em um case de vidro, várias jarras limpas com líquidos coloridos.

Ele sentiu a pele dela quando esfregou seus dedos por sua coxa. Mentalmente, reencenou cada um dos delicados procedimentos: a drenagem, preservação, limpeza e preenchimento do corpo. Durante o “renascimento”, tirou fotos que mais tarde estariam estampadas nas paredes guardadas para seus troféus humanos. Algumas das fotos já tinham sido colocadas.

Uma energia tremenda e surreal emergia de si.

Durante anos, ele havia evitado humanos. Eles são sinistros, mais violentos e incontroláveis do que animais. Ele amava animais. Humanos, por outro lado, ele havia descoberto serem sacrifícios mais potentes para o Espírito Maior. Após a morte da garota, tinha visto o céu aberto, e a imagem sombria do Grande Criador o havia olhado e dito: Mais.

Sua reverência foi interrompida por uma voz estridente.

- Você está sonhando acordado de novo?

Um outro funcionário estava em pé, atrás dele, resmungando com cara feia. Tinha cara e corpo de um ex-jogador de futebol. O terno azul não ajudava muito a diminuir sua ferocidade.

Devagar, ele abaixou sua cabeça. Seus ombros foram se curvando, e ele se transformou em um mero trabalhador, desprezível.

- Desculpe, Senhor Peet.

- Estou cansado das suas desculpas. Me dê aquelas figuras.

Por dentro, o assassino sorria como um gigante gargalhando. No trabalho, o jogo era quase tão animado quanto sua vida privada. Ninguém sabia quão especial ele era, quão dedicado e essencial para o delicado balanço do universo. Nenhum deles iria receber um lugar honorável no reino do Mundo Superior. O dia a dia deles, mundano, tarefas terrenas: vestir-se, ir a reuniões, mandar dinheiro de um lado a outro. Tudo sem sentido. Só fazia sentido para ele porque o conectava ao outro mundo e o permitia fazer o trabalho do Senhor.

O comandante resmungou e saiu.

Com os olhos ainda fechados, o assassino imaginou seu Senhor Supremo: a criatura sombria e tenebrosa que sussurrava em seus sonhos e diretamente em seus pensamentos.

Um som em reverência saiu de seus lábios, e ele cantou, sussurrando: “Oh senhor, oh senhor, nosso trabalho é puro. Peça-me e eu lhe darei mais.”

Mais.




CAPÍTULO CINCO


Avery já tinha um nome: Cindy Jenkins. Ela conhecia a irmandade: Kappa Kappa Gamma. E tinha total conhecimento sobre a Universidade de Harvard. A Liga das Heras havia a rejeitado como caloura, mas ainda assim ela tinha encontrado uma maneira de viver a vida de Harvard durante seu tempo na faculdade, namorando dois caras de lá.

Diferente de outras universidades, as irmandades e fraternidades de Harvard não eram oficialmente reconhecidas. Não existiam casas gregas dentro ou fora do campus. As festas, no entanto, aconteciam regularmente em casas ou apartamentos fora do campus, sob o nome de “organizações” ou “clubes” especiais. Avery tinha testemunhado in loco o paradoxo da vida universitária durante seu tempo na faculdade. Todos pretendiam estar somente focados nas notas até o anoitecer, quando se transformavam em animais selvagens, sedentos por festas.

Enquanto esperava em um semáforo, Avery fez uma busca rápida na internet e descobriu que a Kappa Kappa Gamma tinha duas áreas alugadas na mesma quadra de Cambridge: a Church Street. Um dos locais era para eventos, enquanto o outro para reuniões e encontros sociais.

Ela passou pela ponte Longfellow, antiga MIT, e pegou à direita na Massachusetts Avenue. Logo, ela viu Harvard à sua direita, com seus incríveis prédios de tijolos vermelhos entre árvores e ruas asfaltadas.

Havia uma vaga para estacionar na Church Street.

Avery estacionou, fechou a porta do carro, e olhou para o sol. Era um dia quente, com temperaturas acima dos 25 graus. Ela olhou as horas: dez e meia.

O prédio da Kappa era uma estrutura longa, de dois andares, com fachada de tijolos. No primeiro piso, havia algumas lojas de roupa. O segundo, Avery imaginou, estava reservado para escritórios e para os negócios da irmandade. O único símbolo no interfone para o segundo andar era a flor-de-lis azul, símbolo de Harvard. Ela pressionou o botão.

Uma voz feminina arranhada saiu do interfone.

- Olá?

- Polícia – respondeu. – Abra.

Um momento de silêncio.

- Sério – a voz respondeu. – Quem é?

- É a polícia. – Disse com a voz séria. – Está tudo bem. Ninguém está em apuros. Só preciso falar com alguém da Kappa Kappa Gamma.

A porta se abriu.

Ao fim dos degraus, Avery foi recebida por uma garota cansada, com cara de sono, em um suéter cinza e calça de moletom branca. Com cabelos negros, ela parecia ter vindo de uma festa. Os cabelos cobriam boa parte de seu rosto. Havia círculos pretos abaixo de seus olhos, e o corpo do qual ela normalmente se orgulharia em mostrar parecia fora de forma.

- O que você quer? – ela perguntou.

- Fique calma - respondeu Avery. – Isso não tem nada a ver com a irmandade. Só estou aqui para fazer algumas perguntas.

- Posso ver sua identificação?

Avery mostrou seu distintivo.

Ela analisou Avery, viu o distintivo, e recuou.

O espaço da Kappa Kappa Gamma era grande e iluminado. O teto era alto. Alguns confortáveis sofás marrons e pufes azuis preenchiam o lugar. As paredes eram azul-escuras. Havia um bar, um sistema de som e uma TV de tela plana enorme. As janelas chegavam quase ao teto. Na rua, Avery podia enxergar o topo de outro pequeno complexo de apartamentos, depois o céu. Algumas nuvens apareceram.

Ela imaginou que seu tempo na faculdade tinha sido muito diferente da maioria das garotas da Kappa Kappa Gamma. Para começar, ela tinha pago por seu próprio estudo. Todo dia depois das aulas ela ia até um escritório de advocacia e trabalhava muito, primeiro como secretária, até chegar a honorável posição de assistente jurídica. Ela raramente bebia. Seu pai tinha sido alcoólatra. Na maioria das festas da faculdade, ela era a motorista da rodada ou ficava no dormitório estudando.

Uma esperança repentina apareceu no rosto da garota.

- É sobre Cindy? – ela perguntou.

- Cindy era sua amiga?

- Sim, minha melhor amiga. – disse. – Por favor, me diga que está tudo bem com ela!

- Qual seu nome?

- Rachel Strauss.

- Foi você que ligou para a polícia?

- Sim. Cindy saiu da nossa festa muito bêbada sábado à noite. Ninguém viu ela desde então. Ela não é desse tipo. – Ela virou os olhos para cima e deu um pequeno sorriso, quando completou. – Geralmente ela era bem previsível. Ela era a Senhorita Perfeita, sabe? Sempre ia para a cama na mesma hora, mesma rotina, nunca mudava, já fazia uns cinco anos. Sábado ela estava louca. Bebendo. Dançando. Saiu de si por alguns momentos. Foi legal de ver.

Rachel olhou para o nada por um momento.

- Ela estava apenas feliz, sabe?

- Alguma razão especial? – Avery perguntou.

- Eu não sei. A melhor da turma, um emprego garantido para o outono.

- Que emprego?

- Devante? Eles são, tipo, o melhor escritório de Boston. Ela seria contadora júnior. Chato, eu sei, mas ela era uma gênia quando o assunto era números.

- Você pode me falar sobre sábado?

Os olhos de Rachel se encheram de lágrimas.

- Você está aqui por causa dela, né?

- Sim - disse Avery. – Podemos sentar?

Rachel sentou no sofá e começou a chorar.

Com dificuldades, tentou falar.

- Ela está bem? Onde ela está?

Essa era a parte do trabalho que Avery mais odiava. Falar com parentes e amigos. Havia pouca coisa que ela poderia dizer. Quanto mais as pessoas ficavam sabendo sobre um caso, mais elas falavam, e a conversa deveria ajudar a encontrar os criminosos. Mas ninguém entendia isso, ou se importava com isso naquele momento. Tudo o que essas pessoas queriam eram respostas.

Avery sentou-se ao dela.

- Nós agradecemos muito você ter ligado – disse. – Você fez a coisa certa. Mas infelizmente não posso falar sobre uma investigação em andamento. O que posso dizer é que eu estou fazendo tudo o que eu posso para descobrir o que aconteceu com Cindy naquela noite. Eu não posso fazer isso sozinha, eu preciso da sua ajuda.

Rachel assentiu e enxugou as lágrimas.

- Eu posso ajudar - ela disse. – Eu ajudo.

- Eu gostaria de saber tudo o que você lembra daquela noite e de Cindy. Com quem ela estava falando? Tem alguma coisa na sua mente? Comentários que ela fez? Pessoas interessadas nela? Algo sobre quando ela saiu da festa?

Rachel desmoronou completamente.

Momentos depois, ela levantou as mãos, assentiu e se recompôs.

- Sim - ela disse. – Com certeza.

- Onde está o resto das pessoas daqui? – Avery perguntou para distrair. – Achei que as casas da irmandade estariam cheias com garotas Kappa de ressaca.

- Elas estão em aula. – Rachel disse, enxugando os olhos novamente. – Algumas foram tomar café da manhã. A propósito - acrescentou – tecnicamente nós não somos uma irmandade. Esse é só um lugar que alugamos para ficar quando não queremos voltar para nossos dormitórios. Cindy nunca ficou aqui. Muita modernidade para ela. Ela era mais caseira.

- Onde ela morava?

- Em uma casa de estudantes perto daqui. – disse Rachel – Mas ela não estava indo para casa sábado à noite. Ela ia encontrar com o namorado.

Avery apurou os sentidos.

- Namorado?

Rachel assentiu.

- Winston Graves, veterano de longa data, remador, um imbecil. Ninguém nunca entendeu porque ela namorava ele. Bom, acho que eu sei na verdade. Ele é lindo e tem muito dinheiro. Cindy nunca teve dinheiro. Eu acho que quando você nunca teve dinheiro, isso é algo atraente.

Sim, Avery pensou, eu sei. Ela lembrou de como o dinheiro, o prestígio e o poder de seu antigo escritório de advocacia tinham feito com que ela acreditasse que era diferente da jovem assustada e determinada que havia saído de Ohio.

- Onde Winston mora? – Perguntou.

- Em Winthrop Square. É bem perto daqui. Mas Cindy não chegou até lá. Winston veio no domingo de manhã procurando por ela. Ele pensou que ela tinha apenas esquecido do que eles combinaram e tinha dormido. Então nós fomos até a casa dela juntos e ela também não estava lá. Foi quando eu liguei para a polícia.

- Ela pode ter ido para outro lugar?

- Nunca – disse Raquel. – Não é o tipo dela.

- Então quando ela saiu daqui você tinha certeza que ela estava indo para a casa do Winston.

- Com certeza.

- Alguma coisa pode ter mudado os planos dela? Algo que aconteceu naquela noite, mais cedo?

Rachel balançou a cabeça.

- Não. Bem… - ela lembrou – houve algo. Tenho certeza que não é nada de mais, mas havia um garoto que gostava da Cindy há anos. O nome dele é George Fine. Ele é lindo, solitário, mas um pouco estranho, se você me entende. Malha e corre muito pelo campus. Eu tive aulas com ele uma vez ano passado. Uma de nossas brincadeiras é que todo semestre ele estava em pelo menos uma aula com Cindy, desde o ano de calouro. Ela era obcecado por ela. Ele estava aqui sábado, e o mais louco é que Cindy dançou com ele, e eles até se beijaram. Totalmente estranho em se tratando de Cindy. Quero dizer, por ela estar namorando Winston. Não que eles tinham um namoro perfeito. Mas ela estava muito bêbada, e com raiva. Eles dançaram, se beijaram, e depois ela foi embora.

- George a seguiu?

- Eu não sei – ela disse. Sinceramente, eu não lembro de te visto ele seguindo Cindy, mas pode ser porque eu estava totalmente bêbada.

- Você lembra a que horas ela foi embora?

- Sim - ela disse – exatamente quinze para as três. Sábado era nossa festa anual de Primeiro de Abril, e nós iríamos fazer uma pegadinha, mas todo mundo estava se divertindo tanto que nós esquecemos disso até a hora que Cindy saiu.

Rachel baixou sua cabeça. Um vazio tomou conta do lugar por um instante.

- Bom, veja - disse Avery – isso pode ser de grande ajuda. Obrigado. Aqui está meu cartão. Se você lembrar de mais alguma coisa, ou se as garotas da irmandade tiverem algo para contar, eu gostaria muito de saber. Essa é uma investigação aberta, então até o menor detalhe pode nos ajudar.

Rachel a olhou com lágrimas nos olhos. As lágrimas começaram a cair por seu rosto, mas sua voz se manteve calma e estável.

- Ela está morta, não está?

- Rachel, eu não posso…

Rachel assentiu, e depois cobriu o rosto com as mãos, completamente destruída. Avery chegou perto e a abraçou forte.




CAPÍTULO SEIS


Do lado de fora, Avery olhou para o sol e respirou fundo.

A Church Street era muito movimentada, e muitos lugares tinham câmeras. Mesmo no meio da noite, ela não acreditava que era ali que Cindy havia sido raptada.

Onde você foi? Imaginou.

Uma busca rápida no celular mostrou o caminho mais rápido para a Winthrop Square. Ela seguiu na Church e virou à esquerda na Brattle. A Brattle Street era mais larga que a Church, com a mesma quantidade de lojas. Na rua, ela viu o Teatro Brattle. Um pequeno beco se situava em um dos lados do prédio, colado em um café. Árvores deixavam a área em sombras. Curiosa, Avery caminhou até a faixa estreita entre os prédios.

Ela voltou à Brattle e olhou cada uma das fachadas no raio de uma quadra nos dois lados da Church Street. Havia pelo menos duas lojas com câmeras no lado de fora.

Ela entrou em uma pequena tabacaria.

O sino na porta tocou.

- Posso ajudar? – Disse um hippie, branco e idoso, com dreadlocks no cabelo.

- Sim - disse Avery – Eu vi que você tem uma câmera ali fora. Até onde você acha que ela chega?

- Na quadra inteira - ele disse – nas duas direções. Tive que instalar há dois anos. Malditos universitários. Todo mundo acha que esses jovens de Harvard são especiais, mas são apenas um bando de imbecis como quaisquer outros. Durante anos eles quebraram minhas janelas. Essas pegadinhas de faculdade, sabe? Não comigo. Você sabe quanto custa uma janela dessa?

- Eu sinto por isso. Olha, eu não posso garantir - ela disse mostrando seu distintivo – mas algumas dessas crianças idiotas podem ter causado um distúrbio aqui na rua, mais pra frente. Não há câmeras lá. Eu poderia dar uma olhada? Eu sei o horário exato. Não vai demorar.

Ele franziu a testa e murmurou para si mesmo.

- Não sei. Eu tenho que cuidar da loja. Eu estou sozinho aqui.

- Eu vou fazer seu tempo valer a pena. – Ela sorriu. – O que acha de 50 mangos?

Sem falar nada, ele baixou a cabeça, saiu do balcão e mudou o sinal da porta de “aberto” para “fechado”.

- Cinquenta mangos? – ele disse. – Entre!

A parte de trás da loja era escura e bagunçada. Entre caixas e alguns objetos, o homem abriu espaço até uma televisão. Acima da televisão, em uma estante mais alta, havia uma série de equipamentos eletrônicos conectados à TV.

- Eu não ando usando muito - ele disse – apenas quando há algum problema. As fitas são apagadas toda semana, às segundas à noite. Quando foi seu incidente?

- Sábado à noite – respondeu Black.

- Certo. Então você está com sorte.

Ele ligou a TV.

A imagem em preto e branco era de fora da loja. Avery podia ver perfeitamente a entrada, assim como o outro lado da rua e boa parte da Brattle. A área que ela queria investigar, especificamente, estava a mais ou menos 50 metros. A imagem estava granulada, e era quase impossível ver alguma coisa na frente do beco.

Um pequeno mouse foi usado para ver as imagens antigas.

- Que horas você disse? – Ele perguntou.

- Quinze para as três - ela respondeu – mas eu preciso ver outros horários também. Você se importa se eu sentar aqui e olhar eu mesma? Você pode voltar para a loja.

Um olhar suspeito a fitou.

- Você vai roubar alguma coisa?

- Eu sou policial - ela disse. – Seria contra meus princípios.

- Então você não é como todos os policiais que eu conheço – ele riu.

Avery puxou uma pequena cadeira. Ela tirou a poeira e sentou-se. Analisou o equipamento rapidamente e logo aprendeu a colocar as imagens para frente e para trás.

Às quinze para as três, algumas poucas pessoas caminhavam nos dois sentidos da Brattle Street.

Às dez para as três, a rua parecia vazia.

Às oito para as três, alguém – uma garota pelo vestido e cabelo – apareceu no vídeo, na direção da Church. Ela caminhou pela Brattle e virou à esquerda. Assim que passou do café, uma imagem escura vinda das árvores apareceu junto à dela, e os dois desapareceram. Por um momento, Avery só conseguia ver o movimento indecifrável de várias sombras negras. Na continuação da cena, as árvores tomaram sua forma original. A garota nunca reapareceu.

- Merda! – Sussurrou.

Ela tirou um moderno walkie-talkie da parte de trás de seu cinto.

- Ramirez - disse – cadê você?

- Quem é? – respondeu uma voz crepitante.

- Você sabe quem é. Sua nova parceira.

- Ainda estou na Lederman. Quase terminando aqui. Eles acabaram de levar o corpo.

- Eu preciso de você aqui, agora. – Ela disse e o deu a localização. – Eu acho que sei onde Cindy Jenkins foi raptada.



* * *



Uma hora depois, Avery já tinha bloqueado os dois lados do beco com fita amarela. Na Brattle Street, um carro da polícia e uma van da perícia estavam estacionadas na calçada. Um oficial foi posicionado para afastar os curiosos.

O beco terminava em uma rua larga e escura, mais ou menos na metade da quadra. Em um lado da rua havia um prédio de uma imobiliária com fachada de vidro e uma doca de carregamento. No outro lado da rua havia um complexo de casas. Havia também um estacionamento com espaço para quatro carros. Outro carro de polícia, parado rente a mais uma faixa de fita amarela, estava ao fim do beco.

Avery estava parada em frente à doca.

- Ali - disse, apontando para uma câmera no alto. – Nós precisamos daquelas imagens. Provavelmente essa câmera é da imobiliária. Vamos até lá ver o que podemos encontrar.

Ramirez balançou a cabeça.

- Você está louca - disse – não deu pra ver nada naquela fita.

- Cindy Jenkins não tinha porque entrar nesse beco – disse Avery. – O namorado dela mora na direção contrária.

- Talvez ela queria dar uma caminhada. – Ramirez argumentou. – Só estou dizendo que estamos colocando muitos homens trabalhando aqui, e tudo que temos é um pressentimento.

- Não é só um pressentimento. Você viu a fita.

- Eu vi um monte de borrões pretos que não consegui identificar! – Ele argumentou. – Por que o assassino atacaria aqui? Tem câmeras em todos os lados. Só se ele fosse um idiota!

- Vamos descobrir – respondeu Black.

A imobiliária Top Real State era dona do prédio de vidro e da doca.

Após uma pequena discussão com a segurança no hall de entrada, Avery e Ramirez foram instruídos a esperar no sofá de couro até que alguém com mais autoridade chegasse. Dez minutos depois, o chefe da segurança e o presidente da empresa apareceram.

Avery abriu seu melhor sorriso e apertou suas mãos.

- Obrigada por virem – disse. – Nós gostaríamos de ter acesso à câmera que está bem acima da sua doca. Nós não podemos garantir – ela franziu a testa – mas acreditamos que uma garota, que agora está morta, foi raptada sábado à noite, provavelmente em frente à sua porta de trás. A não ser que encontremos algo, nós não vamos levar mais do que 20 minutos.

- E se vocês encontrarem? – perguntou o presidente.

- Nesse caso você terá feito a coisa certa em ajudar a polícia em algo tão importante e urgente. Um mandado pode nos tomar um dia inteiro. O corpo da garota está morto há dois dias. Ela não pode mais falar. Ela não pode nos ajudar. Mas você pode. Por favor, nos ajude. A cada segundo perdido nós ficamos mais longe da verdade.

O presidente assentiu e se virou para seu segurança.

- Davis – disse – mostre a eles. Dê tudo o que eles precisarem. Se houver algum problema – ele olhou para Avery – por favor me avise.

No caminho, Ramirez sussurrou:

- Que encantadora.

- Faço o que for preciso. – respondeu Avery, também com um sussurro.

O escritório de segurança da Top Real State era uma sala barulhenta, com mais de 20 televisões. O guarda sentou-se à frente de uma mesa preta e um teclado.

- OK - ele disse – Hora e local?

- Doca. Por volta de duas e cinquenta e dois, e depois adiante.

Ramirez balançou a cabeça.

- Nós não vamos encontrar nada.

As câmeras da imobiliária eram muito melhores do que a da tabacaria, além de serem coloridas. A maioria das telas tinha um tamanho parecido, mas uma em particular era maior. O segurança pôs a câmera da doca na tela grande e depois começou a retroceder a imagem.

- Aí – interrompeu Avery. – Pare!

A imagem foi paralisada às duas e cinquenta. A câmera mostrava uma vista panorâmica do estacionamento diretamente da doca, bem como o lado esquerdo, em direção ao sinal de Rua sem Saída e da próxima rua. Havia apenas uma vista parcial do beco em direção à Brattle. Apenas um carro estava parado no estacionamento: uma minivan que parecia ser azul-escura.

- Aquele carro não deveria estar ali – apontou o segurança.

- Você pode consultá-lo? – perguntou Avery.

- Sim, vou fazer isso – disse Ramirez.

Os três seguiram olhando. Por enquanto, o único movimento vinha dos carros na rua perpendicular e das árvores.

Às duas e cinquenta e três, duas pessoas apareceram na tela.

Devia ser um casal apaixonado.

Um era um pequeno homem, magro e baixo, com cabelo grosso, bigode e óculos. A outra era uma garota, mais alta, com cabelos longos. Ela vestia sandálias e um vestido claro de verão. Eles pareciam estar dançando. Ele segurava uma das mãos dela e a girava pela cintura.

- Cacete! – disse Ramirez – é Jenkins!

- Mesmo vestido – disse Avery – Sapato, cabelo.

- Ela estava dopada – ele falou. – Olhe só. Os pés estão se arrastando.

Eles assistiram ao assassino abrir a porta do carona e colocar a garota dentro do carro. Depois, ele caminhou para o lado do motorista, olhou diretamente para a câmera da doca, curvou-se como se estivesse no teatro, e chegou à porta do motorista.

- Merda! – Ramirez berrou. – Esse filho da puta está brincando com a gente!

- Quero todos trabalhando nisso – disse Avery. – Thompson e Jones ficam o tempo todo na vigilância a partir de agora. Thompson pode ficar no parque. Fale para ele sobre a minivan. Isso vai ajudá-lo nas buscas. Nós precisamos saber para que direção esse carro foi. Jones tem uma missão mais difícil. Ele precisa vir até aqui agora e seguir a van pelas imagens. Não quero saber como. Diga a ele para ir atrás de qualquer câmera que possa ajudar ele nisso.

Ela virou-se para Ramirez, que a olhava, chocado.

- Achamos nosso assassino.




CAPÍTULO SETE


O cansaço finalmente chegou para Avery às quinze para as sete da noite, no elevador que subia com direção ao segundo andar da estação de polícia. Toda a energia e ímpeto que havia chegado com as revelações daquela manhã culminaram em um dia produtivo, mas em uma noite de muitas perguntas sem resposta. Sua pele clara estava um pouco queimada pelo sol, seu cabelo bagunçado, a jaqueta que estava usando jogada em seus ombros. Sua camiseta, suja e amassada. Ramirez, por outro lado, parecia estar com mais forças do que pela manhã. Cabelo penteado para trás, roupa quase sem amasso, olhos afiados e apenas uma gota de suor na testa.

- Como você pode parecer tão inteiro? – Ela perguntou.

- São minhas raízes hispano-mexicanas – explicou orgulhoso. – Eu posso trabalhar vinte e quatro, vinte e oito horas e ainda assim manter esse brilho.

Um rápido olhar para Avery e ele lamentou:

- É, você está bem acabada.

Seus olhos se encheram de respeito.

- Mas você conseguiu.

O segundo andar não estava completamente cheio à noite, com a maioria dos oficiais em casa ou trabalhando nas ruas. As luzes da sala de conferências estavam acesas. Dylan Connelly estava lá dentro, obviamente irritado. Quando os viu, ele abriu a porta.

- Onde vocês estavam? – Esbravejou. – Eu disse que queria um relatório às cinco! São quase sete. Vocês desligaram os walkie-talkies. Os dois! – Ele apontou. – Eu poderia esperar isso de você, Black, mas não de você, Ramirez. Ninguém me ligou. Ninguém atendeu as ligações. O capitão também está puto, então não adianta chorar pra ele. Vocês têm ideia do que aconteceu por aqui? Que merda vocês estão pensando?

Ramirez levantou as mãos.

- Nós ligamos - disse – nós deixamos uma mensagem.

- Você ligou vinte minutos atrás – Dylan esbravejou. – Eu estou te ligando a cada meia hora desde as quatro e quarenta. Alguém morreu? Vocês estavam perseguindo o assassino? O Deus Todo Poderoso desceu do céu para ajudar vocês nesse caso? Porque essas são as únicas respostas aceitáveis para essa desobediência flagrante. Eu deveria tirar vocês dois desse caso agora mesmo!

Ele apontou para a sala de conferências.

- Entrem aí.

Ameaças raivosas não funcionavam com Avery. A fúria de Dylan era um barulho distante que ela poderia facilmente ignorar. Ela havia aprendido a fazer isso há muito tempo, ainda em Ohio, quando tinha que escutar seu pai gritando com sua mãe quase todas as noites. Naquele tempo, ela colocava as mãos nas orelhas com força, cantava e sonhava com o dia em que finalmente seria livre. Agora, ela tinha coisa mais importantes para prestar atenção.

O jornal da tarde estava sobre a mesa.

A foto de Avery estava na capa, em uma foto em que parecia que alguém havia apenas empurrado uma câmera em seu rosto. A manchete dizia: “Assassinato no Lederman Park. Advogada defensora de assassinos em série no caso!” Ao lado da foto de página inteira havia uma foto de Howard Randall, o velho e acabado assassino dos pesadelos de Avery com uma garrafa de Coca-Cola e um sorriso no rosto. A manchete sobre sua foto dizia: “Não acredite em ninguém. Advogados ou policiais”.

- Você viu isso? – Perguntou Connelly.

Ele pegou o jornal e virou para a contra capa.

- Você está na capa! Primeiro dia no Esquadrão de Homicídios e você está na capa dos jornais… outra vez. Você consegue ver o quão amador é isso? Não, não - ele disse ao ver a expressão de Ramirez – nem tente falar nada agora. Vocês dois foderam tudo. Eu não sei com quem vocês falaram hoje de manhã, mas vocês começaram uma avalanche! Como é que Harvard ficou sabendo da morte de Cindy Jenkins? Tem uma homenagem pra ela no site da Kappa Kappa Gamma!

- Um chute, quem sabe? – disse Avery.

- Vá se foder, Black! Você está fora do caso. Entendeu?

O capitão O’Malley entrou na sala.

- Espere! – Disse Ramirez. – Você não pode fazer isso. Você não sabe o que nós conseguimos!

- Não me importa o que vocês conseguiram - Dylan esbravejou. - Eu ainda não terminei. Essa merda fica pior. O Prefeito ligou uma hora atrás. Parece que ele costumava jogar golf com o pai da Jenkins, e ele quer saber porque uma ex-advogada de defesa, que livrou um assassino em série da prisão, está cuidando do caso de assassinato da filha de um amigo tão próximo.

- Acalme-se – O’Malley interviu.

Dylan caminhou pela sala, com o rosto vermelho e a boca aberta. Ao sinal do Capitão, que era menor e mais calmo, mas parecia pronto para explodir, ele tentou se acalmar.

- Por alguma razão - O’Malley disse com a voz branda – esse caso saiu do controle. Por isso, eu quero saber o que vocês fizeram o dia todo. Se estiver tudo bem por você, Dylan.

Connelly murmurou qualquer coisa e saiu.

O capitão assentiu para Avery.

- Explique-se.

- Eu não falei o nome da vítima para ninguém – disse Avery. – Mas eu falei com uma garota da Kappa Kappa, a melhor amiga de Cindy Jenkins, Rachel Strauss. Ela deve ter se dado conta. Eu sinto por isso. – Falou com um olhar realmente sentido para Dylan. – Esse tipo de conversa não é meu forte. Eu queria respostas e eu as consegui.

- Conte pra eles – intrometeu-se Ramirez.

Avery andou em volta da mesa de conferências.

- Nós temos um assassino em série nas mãos.

- Ah, fala sério! – lamentou Dylan. – Como ela pode dizer isso? Ela está no caso faz um dia. O que nós temos é uma garota morta. Não tem como.

- Você pode calar a boca? – berrou O’Malley.

Dylan mordeu os lábios e assentiu.

- Esse não é um assassinato comum – disse Avery. – Você mesmo me disse, Capitão, e você deve ter percebido também - continuou olhando para Dylan. – A vítima foi transformada para parecer viva. Nosso assassino a venerava. Sem feridas no corpo, sem entradas a força, então podemos eliminar gangues e violência doméstica. Os peritos confirmaram que ela foi drogada com um anestésico forte, provavelmente natural, que o assassino pode ter criado ele mesmo, com extrato de plantas que podem ter a paralisado instantaneamente e a matado devagar. Levando em conta que ele guarda essas plantas clandestinamente em um lugar fechado, ele precisa de luzes, comida e um sistema de irrigação. Eu fiz algumas ligações para descobrir como essas sementes são importadas, onde são vendidas, e como colocar as mãos nesse equipamento. Ele também queria que a vítima ficasse viva, pelo menos um pouco. Eu não sabia porque, até que nós o encontramos nas imagens de vigilância de uma câmera.

- Que? – murmurou O’Malley.

- Nós o encontramos – disse Ramirez. – Não se anime muito. As imagens são granuladas e difíceis de ver, mas todo o rapto pode ser visto de duas câmeras diferentes. Jenkins saiu da festa um pouco depois das duas e meia na madrugada de domingo para ir para a casa do namorado. Ele mora a mais ou menos cinco quadras do prédio das Kappa Kappa Gamma. Avery fez o mesmo caminho que ela imaginava que Jenkins havia feito. Ela encontrou um beco. Não sei o que deu nela pra fazer isso, mas com um pressentimento, ela foi checar a câmera de segurança em uma tabacaria próxima ao local.

- Você precisa de um mandado para isso. – interrompeu Dylan.

- Só se alguém pedir. – Avery respondeu. – E às vezes um sorriso amigo e uma conversa convincente podem ajudar muito. Aquela tabacaria sofreu com vandalismo mais ou menos dez vezes no último ano. Eles instalaram uma câmera do lado de fora recentemente. A loja fica no lado oposto ao beco, meia quadra antes, mas claramente é possível ver uma garota debaixo de algumas árvores, e eu achei que poderia ser Cindy Jenkins.

- Foi quando ela me ligou – Ramirez tomou a palavra. – Eu achei que ela estava louca. Sério. Eu vi o vídeo e eu não teria notado nada. Mas Black me fez ligar para os peritos e levar a equipe toda para lá. Você pode imaginar, eu fiquei puto. No entanto - ele falava com ânimo nos olhos – ela estava certa. Havia outra câmera em uma doca nos fundos do beco. Nós pedimos para a empresa para ver as imagens. Eles concordaram e, boom! – Ele abriu os braços – Um homem apareceu no beco segurando nossa vítima. O mesmo vestido. Os mesmos sapatos. Ele é minúsculo, menor que Cindy, e dançava. Na verdade, ele estava segurando ela e dançando. Aquele merda estava nos provocando. Ele colocou ela no banco da frente de uma minivan e dirigiu para o nada. O carro é um Chrysler, azul escuro.

- Rastrearam a placa?

- É falsa. Eu já rastreei. Devia ser uma placa de mentira. Estou fazendo uma lista de todas as minivans Chrysler daquela cor vendidas nos últimos cinco anos em um raio considerável. Vai demorar um pouco, mas talvez nós conseguiremos diminuir a lista com mais informações. Outra coisa, ele estava disfarçado. Mal dava pra ver a cara. Estava de bigode, talvez peruca, óculos. A única coisa que podemos ter certeza é a altura, entre 1,65 e 1,68m, e talvez a cor da pele: branca.

- Onde estão as fitas? – Perguntou O’Malley.

- Lá embaixo, com Sarah – respondeu Avery. – Ela disse que pode levar um tempo, mas ela vai tentar desenhar um retrato do assassino com base no que ela conseguir ver até amanhã. Assim que tivermos um retrato, podemos comparar com nossos suspeitos, colocar da base de dados e ver o que encontramos.

- Onde estão Jones e Thompson? – Perguntou Dylan.

- Espero que trabalhando ainda – disse Avery. – Thompson está no comando das buscas no parque. Jones está tentando descobrir para onde foi a minivan depois que saiu do beco.

- Até a hora que saímos – acrescentou Ramirez – Jones tinha encontrado pelo menos seis câmeras em um raio de dez quadras do beco que poderiam ajudar.

- Mesmo que ele perca o carro de vista – Avery disse – nós podemos pelo menos restringir a direção. Nas sabemos que ele foi para o norte do beco. Essa informação, junto com seja lá o que Thompson encontrar no parque, pode nos fazer determinar uma área e ir de casa em casa se for preciso.

- E os peritos? Encontraram algo? – O’Malley perguntou.

- No beco, nada. – Avery respondeu.

- Isso é tudo?

- Nós temos alguns suspeitos, também. Cindy estava em uma festa na noite do rapto. Um cara chamado George Fine estava lá. Parece que ele estava atrás de Cindy há anos: indo às mesmas aulas, aos mesmos eventos que ela. Ele beijou Cindy pela primeira vez e dançou com ela a noite toda.

- Você falou com ele?

- Ainda não – ela disse, e olhou para Dylan. – Eu queria sua aprovação antes de criar uma tempestade em Harvard.

- Que bom que você ainda tem algum senso de protocolo. – Dylan resmungou.

- Também tem o namorado - ela acrescentou para O’Malley. – Winston Graves. Cindy teoricamente iria para a casa dele naquela noite. Mas nunca apareceu.

- Então temos dois suspeitos em potencial, imagens do caso, e um carro para encontrar. Estou impressionado. E sobre o motivo? Você já pensou em algo?

Avery desviou o olhar.

As imagens que ela viu, bem como a maneira com que a vítima havia sido manipulada e colocada no parque, tudo apontava para um homem que amava o que fazia. Ele já tinha feito aquilo antes, e faria novamente. Algum tipo de força maior devia tê-lo motivado, porque ele teve pouco cuidado com a polícia. Aquela cena no beco, diretamente para a câmera, também dizia muito. Aquilo demandava coragem, ou estupidez, e nada no rapto ou na colocação do corpo no parque apontavam para algo impensado.

- Ele está jogando conosco – ela disse. – Ele gosta de fazer o que faz, e quer fazer novamente. Eu diria que ele tem algum tipo de plano. Isso ainda não acabou.

Dylan bufou e balançou a cabeça.

- Ridículo.

- Tudo bem – disse O’Malley. – Avery, você está liberada para falar com os suspeitos amanhã. Dylan, entre em contato com Harvard e os deixe a par da situação. Eu vou ligar para o comandante hoje à noite e avisá-lo do que nós já temos. Eu acho que também devemos te dar um mandado de acesso às câmeras. Vamos manter Thompson e Jones nas tarefas deles. Dan, eu sei que você trabalhou o dia todo. Só mais uma coisa e você pode ir embora. Consiga o endereço dos dois garotos de Harvard se você ainda não tem. Passe por lá no caminho pra casa. Certifique-se de que eles não vão fugir. Não quero ninguém escapando.

- Eu posso fazer isso – disse Ramirez.

- Ok - aprovou O’Malley. – Vá. Excelente trabalho de vocês dois. Vocês devem ter orgulho disso. Avery e Dylan, fiquem aqui mais um pouco.

Ramirez olhou para Avery.

- Você quer que eu te busque amanhã de manhã? Às 8? Vamos sair juntos?

- Claro.

- Eu vou me manter em contato com Sarah sobre o retrato. Talvez ela tenha algo.

Ver um parceiro querendo ajudar, por livre e espontânea vontade, era algo novo para Avery. Todos os seus outros parceiros desde que ela havia entrado na polícia tinham tido vontade deixá-la morta em uma vala, se possível.

- Parece ótimo – ela disse.

Assim que Ramirez saiu, O’Malley fez Dylan sentar-se em um lado da mesa de conferências, e Avery no outro.

- Escutem, vocês dois - disse com voz firme. – O comandante me ligou hoje, querendo saber o que eu estava pensando, colocando uma ex-advogada de defesa criminal conhecida e acabada neste caso. Avery, eu disse a ele que você era a oficial certa para este trabalho e mantive minha decisão. Seu trabalho hoje prova que eu estava certo. Mas são quase sete e meia e eu ainda estou aqui. Eu tenho uma esposa e três filhos esperando por mim em casa e eu quero muito ir para casa vê-los e esquecer desse lugar horrível por um tempo. Claro, nenhum de vocês têm essa preocupação, então talvez vocês não entendam o que eu estou dizendo.

Ela o olhava de volta, pensando.

Vamos logo. Pare de me encher com suas besteiras.

Um silêncio tenso tomou conta da sala.

- Dylan, comece a agir como um supervisor. Não me ligue a cada detalhezinho. Aprenda a cuidar do seu pessoal sozinho. E você - ele disse a Avery – é melhor parar com esse jeito idiota e com as atitudes de quem não está nem aí e começar a agir como se você se importasse, porque eu sei que você se importa. – Ele olhou para ela por um bom tempo. – Eu e Dylan ficamos te esperando por horas. Você quer desligar o rádio? Não atender o telefone? Isso te ajuda a pensar? Bom pra você. Faça isso. Mas quando seu superior liga, você tem que retornar. A próxima vez que isso acontecer, você está fora do caso. Entendido?

Avery assentiu, humildemente.

- Entendido.

- Entendido. – Dylan repetiu.

- Que bom – O’Malley respondeu.

Ele levantou-se e sorriu.

- Agora… Eu tinha que ter feito isso antes, mas não há hora melhor para apresentações. Avery Black, eu gostaria de te apresentar Dylan Connelly, pai divorciado de duas crianças. A esposa o deixou dois anos atrás porque ele nunca voltava para casa e bebia muito. Agora eles moram em Maine e ele nunca vê os filhos, então ele está sempre estressado.

Dylan endureceu-se e se preparou para falar, mas não disse nada.

- E Dylan… Apresento Avery Black, ex-advogada de defesa criminal que se fodeu ao libertar um dos piores assassinos do mundo nas ruas de Boston, um homem que voltou a matar e destruiu a vida dela. Ela perdeu um marido multimilionário e tem uma filha que quase não fala com ela. E, assim como você, ela geralmente desconta as mágoas no trabalho e no álcool. Você vê? Vocês têm mais em comum do que você pensava.

Ele voltou a ficar sério.

- Não me envergonhem de novo, ou os dois estão fora do caso.




CAPÍTULO OITO


Deixados sozinhos na sala de conferências, Avery e Dylan ficaram se olhando por alguns momentos em silêncio. Nenhum dos dois se movia. Ele estava de cabeça baixa, fazendo careta e parecendo estar refletindo sobre algo. Pela primeira vez, Avery sentiu simpatia por ele.

- Eu sei como é - ela começou a falar.

Dylan levantou-se rapidamente e colocou a cadeira com força de volta no lugar.

- Não pense que isso muda alguma coisa - ele disse. – Você e eu não temos nada em comum.

Ainda que suas expressões fossem de raiva e distantes, seus olhos diziam algo diferente. Avery tinha certeza de que ele estava à beira de um colapso. Algo que o capitão havia dito o afetou, assim como havia afetado ela. Os dois estavam fragilizados e sozinhos.

- Olha só - ela disse – Eu estava pensando…

Dylan se virou a abriu a porta. Seu movimento até a saída a fez confirmar o que ela imaginava: seus olhos vermelhos estavam cheios de lágrimas.

- Cacete! – Ela sussurrou.

As noites eram a pior parte do dia para Avery. Ela não tinha mais um grupo estável de amigos, nem hobbies, nem outro trabalho, e andava tão cansada que não conseguia nem pensar em fazer exercícios. Sozinha na mesa enorme, ela baixou a cabeça, temendo o que viria a seguir.

A saída do escritório foi como todos os dias, porém carregada com um sentimento estranho, e muitos oficiais ainda mais irritados com a capa do jornal estampando Avery.

- Ei, Black! – Alguém a chamou e apontou para o jornal. – Boa foto!

Outro policial tocou a imagem de Howard Randall.

- Essa matéria diz que vocês eram bem próximos, Black. Você entende de gerontofilia? Você sabe o que é isso? Significa que você gosta de foder com idosos!

- Vocês são hilários! – Ela sorriu e apontou os dedos em forma de arma.

- Vá se foder, Black.



* * *



Uma BMW branca estava estacionada na garagem. Cinco anos de uso, suja. Avery havia a comprado no auge de sua carreira como advogada de defesa.

Onde você estava com a cabeça? Pensou. Por que alguém compra um carro branco?

Sucesso, ela lembrou. A BMW branca, outrora, fora brilhante e chamativa, e ela queria que todo mundo soubesse que ela era a chefe. Agora, o carro era um lembrete de sua vida mal sucedida.

O apartamento de Avery era na Bolton Street, no sul de Boston. Ela era dona de um dois quartos no segundo andar de um prédio de dois andares. O lugar era decadente em relação à sua antiga casa, mas era espaçoso e agradável, com um bom terraço onde ela podia sentar e relaxar após um dia árduo de trabalho.

A sala de estar era um espaço aberto com um tapete marrom e felpudo. A cozinha ficava à direita da porta de entrada, separada do resto da sala por dois grandes móveis. Não havia plantas ou animais. Virado para o norte, o apartamento geralmente era escuro. Avery jogou suas chaves na mesa e se desfez do resto de seus pertences: arma, colete, walkie-talkie, distintivo, cinto, telefone e carteira. Ela se despiu no caminho para o banho.

Após pensar muito para processar o que havia acontecido no dia, ela vestiu um roupão, pegou uma cerveja da geladeira, seu telefone e foi até o terraço.

Quase vinte chamadas não atendidas estavam na tela do celular, além de dez novas mensagens. A maioria era de Connelly e O’Malley, muitas vezes gritando.

Às vezes, Avery ficava tão concentrada e focada em algo que se recusava a prestar atenção em qualquer coisa que não fosse essencial para sua tarefa, especialmente quando ainda havia um quebra-cabeça para ser montado. Hoje havia sido um desses dias.

Ela arrastou a tela para os últimos números discados e para todos os números que haviam ligado para ela no último mês. Nenhuma chamada era de sua filha ou de seu ex-marido.

De repente, ela sentiu falta dos dois.

Números foram discados.

O telefone tocou.

Uma mensagem respondeu: “Oi, aqui é Rose. Eu não posso atender agora, mas se você deixar uma breve mensagem com seu nome e número, eu retorno assim que puder. Muito obrigada.” Bip.

Avery desligou.

Ela considerou a ideia de ligar para Jack, seu ex. Ele era um bom homem, seu amor da faculdade, e tinha um coração de ouro. Um cara decente. Eles viveram um amor tórrido desde que tinham 18 anos, mas seu ego causado pelo trabalho dos sonhos havia estragado tudo.

Por anos, ela culpou outras pessoas pela separação e pela briga com sua filha. Howard Randall por suas mentiras, seu antigo chefe, o dinheiro, o poder, e todas aquelas pessoas que constantemente ela precisava entreter e barganhar para estar um passo à frente da verdade. Pouco a pouco, seus clientes se tornaram menos confiáveis, e mesmo assim ela quis seguir, ignorando a verdade, enganando a justiça de um jeito ou de outro, simplesmente para ganhar. Só mais um caso, ela dissera várias vezes. Da próxima vez, vou defender alguém realmente inocente e colocar as coisas em ordem.

Howard Randall havia sido aquele caso.

Eu sou inocente, ele dissera chorando na primeira reunião. Esses alunos são minha vida. Por que eu machucaria algum deles?

Avery havia acreditado nele, e pela primeira vez em muito tempo, ela havia começado a acreditar em si mesma. Randall era um professor de psicologia de Harvard mundialmente renomado, com seus 60 e poucos anos, sem razão ou passado conhecido de suas perturbadoras crenças pessoais. Mais do que isso, ele parecia fraco e acabado, e Avery sempre quis defender os fracos.

Quando ela o libertou, havia sido o auge de sua carreira, o ponto mais alto, até ele voltar a matar e transformá-la em uma fraude.

Tudo que Avery queria saber era: por que?

Por que você fez isso? Ela perguntara certa vez para ele no telefone. Por que você mentiu e armou para mim, simplesmente para ir para a cadeira pelo resto da vida?

Porque eu sabia que você se salvaria, Howard respondera.

Salvaria, Avery pensou.

Isso é se salvar? Ela pensou e olhou em vota. Aqui? Agora? Sem amigos? Sem família? Uma cerveja na mão e uma vida nova caçando assassinos que me fazem relembrar meu passado? Ela deu um gole na cerveja e balançou a cabeça. Não, isso não é se salvar. Pelo menos não ainda.

Seus pensamentos se voltaram para o assassino.

Uma imagem dele apareceu em sua mente: quieto, sozinho, desesperado por atenção, especialista em ervas e cadáveres. Ela descartou um alcoólatra ou viciado. Ele era muito cuidadoso. A minivan indicava uma família, mas suas ações pareciam indicar que uma família era o que ele queria, não o que ele tinha.

Com a mente inundada em pensamentos e imagens, Avery tomou mais duas cervejas até que finalmente pegou no sono em sua confortável cadeira.




CAPÍTULO NOVE


Em seus sonhos, Avery estava com sua família outra vez.

Seu ex era um homem atlético com o cabelo bem cortado e olhos verdes deslumbrantes. Alpinistas ávidos, eles estavam em um passeio com sua filha, Rose. Ela só tinha 16 anos e já havia sido admitida antecipadamente na Brandeis College, mesmo ainda estando no segundo grau. No sonho, no entanto, ela ainda era uma criança de seis anos. Eles estavam cantando e caminhando juntos por um caminho cheio de grandes árvores. Pássaros pretos bateram as asas e cantaram antes das árvores se transformarem em um monstro assombroso e algo como uma faca atingisse Rose no peito.

- Não! - Avery gritou.

Outra mão esfaqueou Jack e ele e sua filha foram levados.

- Não! Não! Não! – Avery chorava.

O monstro se abaixou.

Os lábios negros sussurraram em seu ouvido.

Não existe justiça.

Avery acordou assustada com o som de um toque incessante. Ela ainda estava no terraço, de roupão. O sol já havia nascido. O telefone continuava tocando.

Ela atendeu.

- Black.

- Ei, Black! – Ramirez respondeu. – Você não atende nunca? Estou aqui embaixo. Pegue suas coisas e vamos. Tenho café e alguns esboços de retratos.

- Que horas são?

- Oito e meia.

- Preciso de cinco minutos – ela respondeu e desligou.

O sonho continuou nos pensamentos dela. Vagarosamente, Avery levantou-se e entrou no apartamento. Sua cabeça latejava. Ela vestiu calças jeans e uma camiseta branca, que ficou mais apresentável junto com o blazer preto. Três goles de suco de laranja e uma barra de granola batida serviram de café da manhã. Na saída de casa, Avery se olhou no espelho. Suas roupas e aquele café da manhã estavam a anos luz dos ternos de milhares de dólares e dos cafés diários nos restaurantes mais chiques. Esqueça isso, ela pensou. Você não está aqui para se vestir bem. Você está aqui para ir atrás de bandidos.

Ramirez a entregou uma xícara de café no carro.

- Você está com boa aparência, Black - ele brincou.

Como sempre, ele parecia o modelo da perfeição: jeans azul-escuros, uma camisa de botão azul-claro e uma jaqueta azul-escuro com cintos e sapatos marrons.

- Você deveria ser modelo - Avery respondeu – não policial.

Um sorriso mostrou seus dentes perfeitos.

- Na verdade, eu trabalhei um pouco como modelo um tempo atrás.

Ele saiu da rua em sentido norte.

- Você conseguiu dormir essa noite? – Ramirez perguntou.

- Não muito. E você?

- Dormi como um neném - ele respondeu orgulhoso. – Eu sempre durmo bem. Nada disso me atinge, sabe? Eu gosto de deixar acontecer – disse, balançando as mãos pelo ar.

- Alguma novidade?

- Os dois garotos estavam em casa ontem à noite. Connelly ficou de olho neles para ter certeza que não iriam fugir. Ele também falou com o reitor para dar algumas informações e garantir que ninguém se desespere com um monte de policiais fardados pelo campus. Nenhum dos dois têm antecedentes. O reitor disse que os dois são bons garotos de boas famílias. Vamos ver hoje. Nada ainda da Sarah sobre o reconhecimento facial. Devemos ter algo à tarde. Algumas concessionárias me ligaram de volta com nomes e números. Eu vou segurar a lista por enquanto e ver o que acontece. Você viu o jornal da manhã?




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