Arrebatadas 
Blake Pierce


Um Mistério de Riley Paige #3
Uma obra-prima de thriller e mistério! O autor fez um trabalho magnífico no desenvolvimento das personagens com um lado psicológico tão bem trabalhado que temos a sensação de estar dentro das suas mentes, sentindo os seus medos e aplaudindo os seus sucessos. A história é muito inteligente e mantém-nos interessados durante todo o livro. Pleno de reviravoltas, este livro obriga-nos a ficar acordados até à última página. Books and Movie Reviews, Roberto Mattos (re Sem Pistas) ARREBATADAS é o livro #3 da série de mistério de Riley Paige que começa com SEM PISTAS (Livro #1) – um livro que pode descarregar gratuitamente! Quando prostitutas aparecem mortas em Phoenix, não se dá grande importância ao caso. Mas quando é descoberto um perturbador padrão nos homicídios, a polícia local depressa compreende que se trata da obra de um assassino em série que os ultrapassa. Devido à natureza única dos crimes, é chamado o FBI que precisará de chamar à ação a sua mente mais brilhante para deslindar o caso: A Agente Especial Riley Paige. Riley, ainda a recuperar do seu último caso e a tentar reconquistar a sua vida, está de início relutante em aceitar o caso. Mas depois toma conhecimento da natureza grave dos crimes e compreende que o assassino atacará novamente em breve e deixa-se convencer. Começa a sua busca pelo assassino e a sua natureza obsessiva leva-a longe demais – talvez demasiado longe desta vez para poder recuar. A busca de Riley leva-a ao perturbador mundo da prostituição, de casas desfeitas e de sonhos quebrados. Riley aprende que mesmo entre essas mulheres há esperança, esperança que está a ser roubada por um violento psicopata. Quando uma jovem adolescente é raptada, Riley, numa corrida frenética contra o tempo, luta para entrar nas profundezas da mente do assassino. Mas o que descobre vai conduzi-la a uma reviravolta demasiado chocante até para ela. Um thriller psicológico negro com suspense inimaginável, ARREBATADAS é o livro #3 de uma alucinante nova série – com uma inesquecível nova personagem – que o obrigará a não largar o livro até o terminar. O livro #4 da série de Riley Paige também já se encontra disponível.







ARREBATADAS



(UM MISTÉRIO DE RILEY PAIGE – LIVRO 3)



BLAKE PIERCE


Blake Pierce



Blake Pierce é autor da série de mistério de sucesso RILEY PAIGE que inclui os thrillers de suspense e mistério SEM PISTAS (livro #1), ACORRENTADAS (livro #2) e ARREBATADAS (livro #3). Blake Pierce também é autor da série de mistério MACKENZIE WHITE.

Leitor ávido e eterno fã do género thriller, Blake gosta de interagir com os leitores por isso, não deixe de visitar a página do autor em www.blakepierceauthor.com (http://www.blakepierceauthor.com) para saber mais e manter o contato.



Copyright© 2016 Blake Pierce. Todos os direitos reservados. Exceto como permitido sob o Copyright Act dos Estados Unidos de 1976, nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, distribuída ou transmitida por qualquer forma ou meios, ou armazenada numa base de dados ou sistema de recuperação sem a autorização prévia do autor. Este ebook está licenciado apenas para seu usufruto pessoal. Este ebook não pode ser revendido ou dado a outras pessoas. Se gostava de partilhar este ebook com outra pessoa, por favor compre uma cópia para cada recipiente. Se está a ler este livro e não o comprou ou não foi comprado apenas para seu uso, por favor devolva-o e compre a sua cópia. Obrigado por respeitar o trabalho árduo deste autor. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, empresas, organizações, locais, eventos e incidentes ou são o produto da imaginação do autor ou usados ficcionalmente. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou falecidas, é uma coincidência. Jacket image Copyright GongTo, usado sob licença de Shutterstock.com.


LIVROS ESCRITOS POR BLAKE PIERCE



SÉRIE DE MISTÉRIO DE RILEY PAIGE

SEM PISTAS (Livro #1)

ACORRENTADAS (Livro #2)

ARREBATADAS (Livro #3)

ATRAÍDAS (Livro #4)



SÉRIE DE ENIGMAS MACKENZIE WHITE

ANTES QUE ELE MATE (Livro nº1)

ANTES QUE ELE VEJA (Livro nº2)



SÉRIE DE ENIGMAS AVERY BLACK

MOTIVO PARA MATAR (Livro nº1)

MOTIVO PARA CORRER (Livro nº2)


INDICE



PRÓLOGO (#ua9d9ac6c-b04e-584d-9a1a-e8ae197a255f)

CAPÍTULO UM (#uf603025c-32ff-543b-aafa-741232c661b8)

CAPÍTULO DOIS (#uebced6a2-ec75-5a0d-8c37-004d06af7ec2)

CAPÍTULO TRÊS (#u6549c768-f437-51d5-bdd6-0d3604f16ecd)

CAPITULO QUATRO (#u1efa90c0-1ef1-5407-87a4-2e9c6e5cdfe8)

CAPÍTULO CINCO (#u9e8f8fb4-0f01-586d-8aa4-894ae02fac7f)

CAPÍTULO SEIS (#u4ae6778f-065c-5e74-9345-69f91fde04bf)

CAPÍTULO SETE (#ue6bee004-e2a0-5a14-83c6-a517e8b8522d)

CAPÍTULO OITO (#u33d7f54b-88cd-51ef-aad2-141e6e51651e)

CAPÍTULO NOVE (#uf9d32406-52a9-5a8a-8c62-d20403a5d84f)

CAPÍTULO DEZ (#ud362c07d-fc93-5b5d-b210-4ce3754a4a04)

CAPÍTULO ONZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DOZE (#litres_trial_promo)

CAPITULO TREZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO CATORZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUINZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZASSEIS (#litres_trial_promo)

CAPITULO DEZASSETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZOITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZANOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E DOIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E TRÊS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E QUATRO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E CINCO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E SEIS (#litres_trial_promo)

CAPITULO VINTE E SETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E OITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E NOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E DOIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E TRÊS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E QUATRO (#litres_trial_promo)

CAPITULO TRINTA E CINCO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E SEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E SETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E OITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E NOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUARENTA (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUARENTA E UM (#litres_trial_promo)




PRÓLOGO


Janine pensou ter visto uma sombra escura na água, não muito longe da margem. Era grande e negra, e parecia mover-se ligeiramente nas brandas águas lustrosas.

Sorveu o cachimbo de marijuana e entregou-o ao namorado. Seria aquilo um peixe de grandes dimensões? Ou seria um outro tipo de criatura?

Janine sacudiu-se numa tentativa de não se deixar levar pela sua imaginação. Ter medo estragaria a euforia induzida pela marijuana. O Lago Nimbo era um grande reservatório artificial destinado à pesca, igual a tantos outros lagos do Arizona. Nunca houvera relatos de avistamentos de monstros Nessie por ali.

Ouviu o Colby dizer, “Uau, o lago está a arder!”

Janine virou-se para o namorado. O seu rosto sardento e cabelo ruivo brilhavam à luz tardia do fim do dia. Tinha acabado de fumar o conteúdo do cachimbo e olhava para a água com uma expressão de absurdo temor.

Janine soltou uma risadinha. “Só estás iluminado, meu,” Disse. “Em todos os aspetos.”

“Pois, e o lago também,” Respondeu Colby.

Janine voltou-se e contemplou o Lago Nimbo. Apesar de ainda não ter atingido o apogeu do efeito da marijuana, o que viu era deslumbrante. O sol do fim de tarde iluminava a muralha do desfiladeiro em tons de vermelho e dourado, e a água refletia as cores como se fosse um grande espelho liso.

De súbito lembrou-se que nimbo era a palavra espanhola para auréola. O nome enquadrava-se perfeitamente no cenário que presenciava.

Pegou novamente no cachimbo e inalou profundamente, sentindo um agradável ardor na garganta. A qualquer momento, estaria completamente pedrada. Ia ser divertido.

Ainda assim, que forma negra era aquela na água?

Apenas uma ilusão da luz, Disse Janine para si própria.

Fosse o que fosse, o melhor era ignorar, não ficar amedrontada com aquilo. Tudo o resto era tão perfeito. Aquele era o seu lugar preferido, dela e do Colby – tão belo, aninhado numa das baías do lago, longe de acampamentos, longe de tudo e de todos.

Ela e Colby gostavam de lá ir aos fins-de-semana, mas naquele dia tinham faltado às aulas para lá estar. A doçura daquele fim de verão era demasiado agradável para não ser aproveitada. Ali era bem mais fresco e aprazível do que em Phoenix. O carro velho de Colby estava estacionado na estrada de terra batida logo atrás deles.

Quando percorreu o lago com o olhar, Janine começou a sentir o efeito a apoderar-se dela – a sensação de que a pedrada estava iminente. O lago quase parecia demasiado belo para ser contemplado. Então olhou para Colby. Também ele parecia intensamente belo. Agarrou-se a ele e beijou-o. Ele retribuiu o beijo. O sabor dele era incrível. Tudo nele parecia e sabia maravilhosamente.

Apartou os lábios dos dele, olhou-o nos olhos e disse ofegante, “Nimbo significa auréola, sabias?”

“Uau,” Exclamou Colby. “Uau.”

Pela sua reação, parecia ter acabado de ouvir a coisa mais interessante que alguém já lhe dissera na vida. Ele parecia e soava tão engraçado ao dizer aquilo, quase como se fosse algo religioso. Janine começou a rir e Colby seguiu-lhe o exemplo rindo também. Dali a momentos, estavam completamente embrulhados nos braços um do outro.

Janine conseguiu desembaraçar-se.

“O que é que se passa?” Perguntou Colby.

“Nada,” Respondeu Janine.

De repente, tirou o top. Colby abriu muito os olhos.

“O que é que estás a fazer?” Perguntou ele.

“O que é que te parece que estou a fazer?”

Ela começou a tentar tirar-lhe a T-shirt.

“Espera,” Disse Colby. “Aqui?”

“E por que não aqui? Sempre é melhor do que no banco traseiro do teu carro. Ninguém está a ver.”

“Mas talvez um barco…”

Janine riu. “E se houver um barco? Que importa?”

Colby ficou mais animado, ajudando-a a tirar-lhe a T-shirt. A excitação tornava-os desajeitados, aumentando ainda mais o entusiasmo. Janine não compreendia porque é que ainda não o tinham feito ali. Não era propriamente a primeira vez que fumavam erva naquele lugar.

Mas Janine não conseguia deixar de pensar na forma que avistara na água. Alguma coisa era e até descobrir o quê, não ia descansar.

Ofegante, ergueu-se.

“Vem,” Disse. “Vamos ver uma coisa.”

“O quê?” Perguntou Colby.

“Não sei. Limita-te a vir.”

Pegou na mão de Colby e tropeçaram na encosta escarpada que dava para a margem. A pedrada de Janine começava a amargar. E ela odiava que isso acontecesse. Quanto mais rapidamente descobrisse que se tratava de algo perfeitamente inofensivo, mais depressa voltaria a sentir-se bem.

Ainda assim, começava a desejar que a pedrada não tivesse surgido tão rapidamente e com tanta força.

A cada passo que davam, o objeto começava a ganhar forma. Era feito de plástico preto e, aqui e ali, bolhas subiam à superfície. E havia qualquer coisa pequena e branca ao lado dele.

A cerca de um metro de distância da água, Janine pode ver que se tratava de um grande saco preto do lixo. Estava aberto na extremidade e dessa abertura espreitava a forma de uma mão, anormalmente pálida.

Talvez um manequim, Pensou Janine.

Debruçou-se sobre a água para ver melhor. As unhas estavam pintadas de um vermelho vivo que contrastava com a palidez da pele. Uma terrível perceção atravessou o corpo de Janine como se de uma corrente elétrica se tratasse.

A mão era real. Era a mão de uma mulher. O saco continha um cadáver.

Janine começou a gritar e ouviu Colby também a gritar.

E soube que o grito uníssono de ambos se prolongaria por muito tempo.




CAPÍTULO UM


Riley sabia que os diapositivos que estava prestes a apresentar iriam chocar os seus alunos da Academia do FBI. Alguns deles não iam aguentar. Perscrutou os jovens rostos ávidos que a observavam dos lugares dispostos em forma de meio círculo.

Vamos ver como reagem, Pensou. Isto pode ser importante para eles.

É claro que Riley sabia que na ampla gama de ofensas criminais, o homicídio em série era raro. Mas mesmo assim, aqueles jovens tinham que aprender tudo o que houvesse para aprender. Aspiravam a ser agentes de campo do FBI e em breve descobririam que a grande maioria dos responsáveis locais não tinha qualquer experiência em casos de homicídios em série. E a Agente Especial Riley Paige era uma autoridade nesse campo.

Carregou no controlo remoto. As primeiras imagens a surgirem no grande ecrã plano eram tudo menos violentas. Tratava-se de cinco retratos a carvão de mulheres, com faixas etárias que variavam entre jovens e a meia-idade. Todas as mulheres eram atraentes e sorridentes, e os retratos haviam sido produzidos com arte e engenho.

Ao passar as imagens, Riley apontava, “Estes cinco retratos foram feitos há oito anos por um artista chamado Derrick Caldwell. Todos os verões, Caldwell ganhava bom dinheiro a desenhar retratos de turistas no calçadão de Dunes Beach aqui na Virginia. Estas mulheres estavam entre as suas últimas clientes.”

Depois de mostrar o último dos cinco retratos, Riley carregou novamente no controlo. A fotografia que se seguiu era uma hedionda imagem de uma arca frigorífica aberta repleta de partes de corpos femininos desmembrados. A reação dos alunos foi imediatamente audível.

“Isto foi o que restou daquelas mulheres,” Sentenciou Riley. “Enquanto as desenhava, Derrick Caldwell convenceu-se, nas suas próprias palavras, que elas ‘eram demasiado belas para viver.’ Por isso perseguiu uma a uma, matou-as, desmembrou-as e guardou-as na arca frigorífica.”

Entretanto Riley passou às imagens seguintes que eram ainda mais chocantes do que as anteriores. Eram fotografias tiradas pela equipa do médico-legista após reagrupamento dos corpos.

Riley prosseguiu, “Caldwell ‘baralhava’ as partes dos corpos numa tentativa de as desumanizar e tornar irreconhecíveis.”

Riley voltou-se para os alunos e não pode deixar de reparar que um deles se dirigia apressadamente para a saída, nitidamente agoniado. Outros pareciam à beira de vomitar. Alguns choravam. Apenas uma minoria aparentava estar imperturbável.

Paradoxalmente, Riley tinha a certeza de que os alunos que demonstravam aquela tranquilidade seriam os que não iriam sobreviver à formação na academia. Para esses, o que ela mostrara eram apenas imagens, nada de real. Não seriam capazes de enfrentar o verdadeiro horror quando se deparassem com ele ao vivo e a cores. Também não conseguiriam enfrentar as consequências pessoais, o stress pós-traumático de que poderiam sofrer. Riley ainda era ocasionalmente assombrada por visões de um maçarico flamejante, mas o seu SPT encontrava-se em fase decrescente. Estava a curar-se. Mas Riley tinha a certeza de que antes de se recuperar de algo, tinha que se sentir esse algo.

“E agora,” Declarou Riley, “Vou fazer algumas afirmações e vocês vão-me dizer se se tratam de mitos ou factos. Aqui vai a primeira. ‘A maioria dos assassinos em série mata por motivação sexual.’ Mito ou facto?”

Mãos erguidas entre os alunos. Riley apontou na direção de um aluno particularmente ansioso na primeira fila.

“Facto?” Perguntou o aluno.

“Sim, facto,” Anuiu Riley. “Apesar de poderem existir outras razões, a componente sexual é a mais frequente. Pode assumir as mais variadas formas, às vezes bastante bizarras. O Derrick Caldwell é um exemplo clássico. O médico-legista concluiu que cometera atos de necrofilia nas vítimas antes de as desmembrar.”

Riley apercebeu-se que a maioria dos alunos teclava notas nos seus portáteis. E prosseguiu, “Agora, uma outra afirmação. ‘Os assassinos em série infligem mais violência às vítimas à medida que continuam a matar.’”

Outra vez mãos erguidas. Desta vez, Riley apontou na direção de um aluno que se encontrava numas filas mais atrás.

“Facto?” Disse o aluno.

“Mito,” Contrariou Riley. “Apesar de já me ter deparado com algumas exceções, na maior parte dos casos não se verifica essa mudança com o passar do tempo. O nível de violência de Derrick Caldwell permaneceu consistente no espaço de tempo em que matou. Mas era imprudente, não era propriamente um cérebro maléfico. Tornou-se demasiado ganancioso, ávido. Matou as vítimas num período de apenas um mês e meio. Ao despertar esse tipo de atenção, tornou a sua captura inevitável.”

Riley olhou para o relógio e constatou que a sua hora tinha terminado.

“É tudo por hoje,” Disse. “Mas há muitas suposições erradas acerca dos assassinos em série e muitos mitos ainda circulam por aí. A Unidade de Análise Comportamental recolheu e analisou os dados, e eu trabalhei em casos de homicídios em série no campo um pouco por todo o país. Ainda temos muita informação a coligir.”

A turma dispersou-se e Riley começou a arrumar as suas coisas para ir para casa. Três ou quatro alunos reuniram-se à volta da sua secretária para fazer perguntas.

Um jovem perguntou, “Agente Paige, não esteve envolvida no caso Derrick Caldwell?”

“Sim, estive,” Respondeu Riley. “Isso é uma história para outro dia.”

Também era uma história que Riley não ansiava por contar, embora não o tivesse verbalizado.

Uma jovem perguntou, “O Caldwell foi executado pelos crimes cometidos?”

“Ainda não,” Respondeu Riley.

Tentando não parecer indelicada, Riley começou a caminhar em direção à saída. A iminente execução de Caldwell não era algo que gostasse de discutir. Na verdade, esperava o seu agendamento para breve. Enquanto agente que o capturara, fora convidada a assistir à sua morte. Ainda não decidira se aceitava ou não o convite.

Riley sentia-se bem caminhando para fora do edifício rumo a uma agradável tarde de setembro. Ainda estava de licença.

Sofria de SPT desde que um assassino maníaco a mantivera prisioneira. Tinha conseguido fugir e matar o seu inimigo. Mas mesmo nessa altura, não ficara de baixa. Continuara a trabalhar para concluir outro caso de contornos terríveis ocorrido no estado de Nova Iorque e que terminara com o assassino a suicidar-se à sua frente.

Aquele momento ainda a assombrava. Quando o chefe de Riley, Brent Meredith, a abordou para trabalhar noutro caso, ela declinou a proposta. Por sugestão de Meredith, concordara em contrapartida dar aulas na Academia do FBI em Quantico.

Ao entrar no carro e começar a conduzir, Riley pensou na sensatez da sua decisão. Finalmente a sua vida estava preenchida por uma persistente sensação de paz e harmonia.

E contudo, ao conduzir rumo a casa, uma sensaçã arrepiante e familiar começou a instalar-se, um sentimento que provocou o súbito bater acelerado do seu coração num belo dia de céu azul. Compreendeu que se tratava de uma sensação intensificada de antecipação, de algo nefasto que se aproximava.

E por muito que se tentasse imaginar envolta naquela tranquilidade para sempre, Riley sabia que não era algo para durar.




CAPÍTULO DOIS


Riley estremeceu de medo ao sentir a vibração do telemóvel na mala. Parou à porta da sua nova casa e pegou no telemóvel. O seu coração bateu com mais força.

Era uma mensagem de Brent Meredith.

Ligue-me.

Riley ficou preocupada. O chefe poderia apenas querer saber se estava tudo bem. Fazia-o muitas vezes. Por outro lado, podia querer que ela voltasse ao trabalho. O que faria ela se fosse esse o caso?

Digo que não, claro, Pensou Riley.

No entanto, isso podia não ser tarefa fácil. Ela gostava do chefe e sabia que ele conseguia ser muito convincente. Era uma decisão que não queria tomar, por isso largou o telemóvel.

Quando abriu a porta e penetrou no espaço luminoso e arejado da sua casa nova, a ansiedade momentânea que experimentara há segundos desapareceu. Tudo parecia tão em ordem desde que se mudara.

Uma voz agradável perguntou.

“¿Quién es?”



“Soy yo,” Respondeu Riley. “Cheguei, Gabriela.”

A robusta mulher guatemalteca de meia-idade saiu da cozinha, secando as mãos num pano. Era bom ver o rosto sorridente de Gabriela. Era empregada da família há anos, muito antes de Riley se divorciar de Ryan. Riley estava grata por Gabriela ter concordado em mudar-se com ela e com a filha.

“Como foi o seu dia?” Perguntou Gabriela.

“Foi ótimo,” Disse Riley.

“¡Qué bueno!”



Entretanto Gabriela regressou à cozinha. Os odores do maravilhoso jantar que preparava inundavam a casa. Ouviu Gabriela começar a cantar em Espanhol.

Riley dirigiu-se para a sala de estar para desfrutar do espaço. Ela e a filha tinham-se mudado para aquela casa há pouco tempo. A pequena casa onde tinham vivido após o fim do casamento revelara-se demasiado isolada para a segurança de ambas. Para além disso, Riley sentira uma necessidade urgente de mudança, tanto por ela como por April. Agora que o divórcio se tinha oficializado e que Ryan finalmente se mostrava generoso no apoio financeiro à filha, chegara o momento de começar a vida do zero.

Ainda havia uns toques finais a acrescentar. Parte da mobília era bastante velha e não se enquadrava num ambiente tão imaculado. Tinha que a substituir. Uma das paredes parecia demasiado nua e Riley não tinha nada para ali colocar. Tinha que fazer umas compras com a April no próximo fim-de-semana. Essa ideia fez Riley sentir-se confortavelmente normal, uma mulher com uma simpática família e não uma agente à caça de um qualquer perverso assassino.

Naquele momento perguntou-se onde estaria April?

Parou para ouvir. Não havia música proveniente do quarto de April. Depois ouviu a filha a gritar.

A voz de April vinha do quintal. Riley sobressaltou-se e atravessou a sala de jantar que dava para o quintal das traseiras. Quando avistou o rosto e tronco de April acima da vedação entre quintais, Riley demorou apenas alguns momentos a perceber o que se estava a passar. Depois descontraiu-se e riu para si mesma. O seu pânico automático fora uma reação excessiva, mas instintiva. Ainda estava fresco na sua memória o salvamento de April das garras de um louco que a aprisionara para se vingar de Riley.

April desapareceu de vista e depois surgiu novamente a guinchar de prazer. Pulava no trampolim da vizinha de quem ficara amiga, uma adolescente da idade dela que até frequentava a mesma escola.

“Tem cuidado!” Disse Riley a April.

“Está tudo bem, mãe!” Gritou April sem fôlego.

Riley riu novamente. Era um som pouco familiar que jorrava de sentimentos de que já quase se esquecera. Queria habituar-se novamente a rir.

Também se queria voltar a habituar à expressão de alegria estampada no rosto da filha. Ainda há pouco tempo April se mostrara demasiado rebelde e caprichosa, mesmo para uma adolescente. Mas Riley não a podia culpar. Ela sabia que deixara muito a desejar enquanto mãe e só queria fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para mudar essa situação.

Isso era uma das coisas de que mais gostava em estar de licença do trabalho de campo, um trabalho que lhe roubava muitas e imprevisíveis horas em locais distantes. Agora o seu horário coincidia com o de April e Riley temia a probabilidade de que um dia as coisas tivessem que mudar.

O melhor é aproveitar enquanto posso, Pensou.

Riley voltou para dentro de casa mesmo a tempo de ouvir a campainha tocar.

Disse alto, “Eu vejo quem é, Gabriela.”

Abriu a porta e ficou surpreendida por ver diante de si um homem sorridente que nunca tinha visto antes.

“Olá,” Cumprimentou o homem timidamente. “Chamo-me Blaine Hildreth e vivo aqui ao lado. A sua filha está lá com a minha filha Crystal.” Estendeu uma caixa a Riley e acrescentou, “Bem-vinda à vizinhança. Trouxe-lhe um pequeno presente de boas-vindas.”

“Oh,” Disse Riley, espantada com aquela insólita cordialidade. Levou algum tempo a dizer, “Entre, por favor.”

Aceitou a caixa desajeitadamente e convidou o vizinho a sentar-se numa cadeira da sala de estar. Riley sentou-se no sofá, segurando a caixa que Blaine lhe oferecera no colo. Blaine Hildreth olhava para Riley ansiosamente.

“Foi muito amável da sua parte,” Agradeceu Riley ao mesmo tempo que abria o pacote que continha um conjunto de coloridas canecas de café, duas decoradas com borboletas e as outras duas com flores.

“São adoráveis,” Disse Riley. “Toma café?”

“Aceito,” Respondeu Blaine.

Riley chamou Gabriela que logo surgiu vinda da cozinha.

“Gabriela, pode trazer-nos café nestas canecas?” Pediu Riley, entregando-lhe duas das canecas. “Blaine, como prefere o seu?”

“Simples, obrigado.”

Gabriela levou as canecas para a cozinha.

“Chamo-me Riley Paige,” Apresentou-se a Blaine. “Obrigado pela visita e obrigado pelo presente.”

“De nada,” Disse Blaine.

Gabriela regressou com duas canecas de delicioso café quente e depois voltou para a cozinha. Para seu constrangimento, Riley deu por si a tirar as medidas ao seu vizinho. Agora que era solteira, não conseguia resistir. Esperava que ele não tivesse reparado.

Que se dane, Pensou. Talvez ele esteja a fazer o mesmo comigo.

A primeira coisa em que reparou foi que não tinha aliança de casamento. Imaginou que seria viúvo ou divorciado.

Depois, calculou que teria mais ou menos a sua idade, talvez um pouco mais novo, quase nos quarenta anos.

Por último, era atraente ou, pelo menos, razoavelmente atraente. Começava a apresentar os primeiros sinais de calvície, o que não era necessariamente negativo. Também parecia ser magro e estar em forma.

“Então, o que faz na vida?” Perguntou Riley.

Blaine encolheu os ombros. “Sou dono de um restaurante. Já ouviu falar do Blaine’s Grill na baixa?”

Riley ficou agradavelmente impressionada. O Blaine’s Grill era um dos locais mais simpáticos para se comer em Fredericksburg. Ouvira dizer que os jantares eram magníficos, mas ainda não tivera a oportunidade de experimentar.

“Já lá estive,” Disse.

“Bem, é meu,” Afirmou Blaine. “E você?”

Riley respirou profundamente. Nunca era fácil partilhar com um desconhecido a sua profissão. Sobretudo com os homens que não raro se sentiam intimidados.

“Trabalho no FBI,” Disse. “Sou agente de campo.”

Os olhos de Blaine dilataram-se.

“A sério?” Perguntou.

“Bem, de momento estou de licença. Estou a dar aulas na academia.”

Blaine inclinou-se mais na sua direção, demonstrando um crescente interesse.

“Uau. Imagino que tenha histórias incríveis. Gostava de ouvir alguma.”

Riley riu-se nervosamente. Ocorreu-lhe se alguma vez conseguiria falar sobre algumas das coisas que vira fora do FBI. Talvez fosse ainda mais difícil falar sobre as coisas que tinha feito.

“Não me parece,” Disse rispidamente. Riley percebeu que Blaine se retraiu e que o seu tom tinha sido bastante indelicado.

Blaine baixou a cabeça e declarou, “Peço desculpa. Não queria fazê-la sentir-se desconfortável.”

Conversaram durante mais alguns minutos, mas Riley tinha consciência de que o seu novo vizinho se mostrava agora mais reservado. Depois de Blaine educadamente se despedir, Riley fechou a porta e suspirou. Teve a noção de que não se mostrara acessível. A mulher que agora iniciava uma nova página na sua vida era a mesma Riley de sempre.

Mas aquilo não interessava. Uma relação amorosa era a última coisa de que precisava naquele momento. Precisava de clarificar algumas coisas na sua vida e ainda agora começava a avançar nessa direção.

Ainda assim, tinha sido agradável conversar durante algum tempo com um homem atraente e um alívio ter finalmente vizinhos – e ainda para mais vizinhos simpáticos.



*



Quando Riley e April se sentaram à mesa para jantar, April não tirava as mãos do smartphone.

“Pára de enviar mensagens,” Disse Riley. “É hora de jantar.”

“Só um minuto,” Disse April, continuando a teclar.

Riley estava ligeiramente irritada com o comportamento tipicamente adolescente de April. Mas a verdade era que havia uma vantagem. April estava a portar-se lindamente na escola naquele ano e a fazer novos amigos. E por aquilo que Riley já pudera observar, não havia dúvidas de que eram bem melhores do que aqueles com quem April se dera antes. Riley imaginou que April estava a trocar mensagens com um rapaz de quem gostava apesar de, até àquele momento, April não o ter mencionado uma única vez.

April parou de teclar quando Gabriela veio da cozinha com um tabuleiro de chiles rellenos. Ao colocar os fumegantes pimentões recheados na mesa, April deu uma risadinha maliciosa.

“Suficientemente picante, Gabriela?” Perguntou.

“Sí,” Respondeu Gabriela, também a rir.

Era uma piada recorrente entre as três. Ryan não gostava de comida demasiado condimentada. Na verdade, não podia ingerir comida condimentada. Mas para April e Riley, quando mais picante melhor. Gabriela já não tinha que se conter, pelo menos não tanto como anteriormente. Riley duvidava que ela e April aguentassem as receitas guatemaltecas originais de Gabriela.

Quando Gabriela acabou de colocar a comida na mesa, dirigiu-se a Riley, “O senhor é guapo, não?”

Riley sentiu-se ruborizar. “Bonito? Não me apercebi, Gabriela.”

Gabriela soltou uma risada franca. Acabara de sentar-se para comer e começou a cantarolar uma música. Riley imaginou que fosse uma canção de amor da Guatemala. April fitou a mãe.

“Que senhor, mãe?” Perguntou.

“Oh, o nosso vizinho passou por cá há bocado…”

April interrompeu-a entusiasmada. “Ó Meu Deus! Era o pai da Crystal? Foi mesmo! Não é lindo?”

“E penso que é solteiro.” Acrescentou Gabriela.

“Ok, deixem-se disso,” Disse Riley libertando uma risada. “Dêem-me espaço para viver. Não preciso que vocês as duas me tentem impingir o vizinho do lado.”

Comeram os pimentões recheados e quando o jantar estava prestes a terminar Riley sentiu o telemóvel vibrar no bolso.

Raios, Pensou. Não o devia ter trazido para a mesa.

A vibração não parava. Ela podia muito bem não o ter atendido. Desde que chegara a casa, Brent Meredith deixara mais dois SMS e Riley convencera-se de que lhe ligaria mais tarde. Já não podia adiar aquela decisão por mais tempo. Pediu desculpa, levantou-se da mesa e atendeu o telefone.

“Riley, desculpe incomodá-la,” Disse o chefe. “Mas preciso mesmo da sua ajuda.”

Riley ficou alarmada por ouvir Meredith a tratá-la pelo nome próprio. Era raro. Apesar de se sentir muito próxima dele, geralmente dirigia-se a ela como Agente Paige. Meredith era habitualmente muito profissional, por vezes chegando a ser brusco.

“O que se passa?” Perguntou Riley.

Meredith nada disse durante alguns segundos. Riley interrogou-se porque estaria ele a ser tão reticente. E de repente, foi invadida por uma sensação funesta. Tinha a certeza de que ele era o portador das notícias que ela mais temia.

“Riley, vou fazer-lhe um pedido pessoal,” Disse, parecendo muito menos autoritário do que o normal. “Foi-me pedido que investigasse um homicídio em Phoenix.”

Riley ficou surpreendida. “Um único homicídio?” Perguntou. “Porque é que precisam do FBI?”

“Tenho um velho amigo no gabinete de Phoenix,” Explicou Meredith. “Garreth Holbrook. Andámos juntos na academia. A vítima foi a sua irmã Nancy.”

“Lamento muito,” Disse Riley. “Mas a polícia local…”

Havia um raro tom de súplica na voz de Meredith.

“O Garreth quer a nossa ajuda. Ela era prostituta. Desapareceu e o corpo foi encontrado num lago. Ele quer que investiguemos o caso como se se tratasse da obra de um assassino em série.”

Riley considerou o pedido estranho. As prostitutas desapareciam com frequência sem serem mortas. Por vezes decidiam trabalhar noutro local ou simplesmente abandonar essa vida.

“Ele tem algum motivo para pensar isso?” Perguntou Riley.

“Não sei,” Respondeu Meredith. “Talvez queira pensar dessa forma para nos envolver. Mas também sabe que é verdade que as prostitutas são alvos frequentes dos assassinos em série.”

Riley sabia que era um facto. O estilo de vida das prostitutas tornavam-nas alvos fáceis. Estavam visíveis e acessíveis, sozinhas com estranhos, muitas vezes eram toxicodependentes.

Meredith continuou, “Ligou-me a título pessoal. Prometi-lhe que enviaria os melhores agentes a Phoenix. E é claro que você está incluída.”

Riley ficou comovida. Meredith não lhe estava a facilitar a vida.

“Tente compreender,” Principiou Riley. “Não posso aceitar um novo caso.”

Riley sentiu-se vagamente desonesta. Não posso ou não quero? Perguntou a si própria. Depois de ser capturada e torturada por um assassino em série, todos tinham insistido que deixasse de trabalhar. Tinha tentado fazê-lo, mas dera por si a desejar desesperadamente regressar ao trabalho. Agora pensava o que significara aquele desespero. Tinha sido imprudente e autodestrutiva, e fora extremamente difícil recuperar a sua vida. Quando finalmente matou Peterson, o seu carrasco, pensou que tudo voltaria à normalidade. Mas ele ainda a assombrava e começava a ter problemas com a resolução do seu último caso.

Após um momento de silêncio, Riley acrescentou, “Preciso de ficar mais tempo afastada do trabalho de campo. Ainda estou tecnicamente de licença e estou a tentar recompor a minha vida.”

Seguiu-se um prolongado silêncio. Não parecia que Meredith fosse argumentar ou impor a sua vontade. Mas também não ia dizer que concordava. Não ia desistir de a pressionar.

Ouviu Meredith libertar um triste e longo suspiro. “O Garreth já não tinha qualquer contacto com a Nancy há vários anos. Agora o que lhe aconteceu está a corroê-lo por dentro. Penso que há uma lição qualquer a retirar daqui, não é? Não dês nada nem ninguém como certo na tua vida. Vai sempre ao encontro do que é importante.”

Riley quase deixou cair o telefone. As palavras de Meredith atingiram uma parte dela que não era tocada há muito tempo. Riley não contactava com a sua própria irmã mais velha há vários anos. Estavam afastadas e nem sequer pensava na Wendy há muito tempo. Não fazia a mínima ideia do que a sua própria irmã fazia agora.

Após outra pausa, Meredith disse, “Prometa-me que pensa no assunto.”

“Prometo,” Disse Riley.

Terminaram a chamada.

Riley sentia-se pessimamente. Meredith acompanhara-a em momentos difíceis e nunca mostrara tamanha vulnerabilidade como naquele momento. Não queria desiludi-lo. E acabara de lhe prometer que pensaria no assunto.

E por muito desesperadamente que quisesse, Riley não sabia se seria capaz de recusar.




CAPÍTULO TRÊS


O homem estava sentado no seu carro no parque de estacionamento, observando a prostituta enquanto ela se aproximava. Chamava-se a si própria “Chiffon”. Obviamente que não era o seu nome verdadeiro e ele tinha a certeza de que havia muito mais a seu respeito que ele desconhecia.

Podia obrigá-la a dizer-me, Pensou. Mas não aqui. Não hoje.

E também não a mataria hoje e ali. Não, não ali tão perto do seu pouso habitual – o “Kinetic Custom Gym”. A partir do local onde ele se encontrava sentado, podia observar as decrépitas máquinas de exercícios – três passadeiras, uma máquina de remos e um par de máquinas de pesos, nenhuma a funcionar. Tanto quanto ele sabia, ninguém lá ia para fazer exercício.

Pelo menos não de uma forma socialmente aceitável, Pensou, sorrindo sarcasticamente.

Não ia àquele lugar muitas vezes – não desde que levara aquela morena que ali trabalhara há vários anos. É evidente que não a tinha morto ali. Tinha-a atraído para um quarto de motel para “serviços extra” e com a promessa de receber muito mais dinheiro.

E mesmo assim não tinha sido um homicídio premeditado. O saco de plástico na cabeça da mulher apenas se destinava a acrescentar o perigo como elemento de fantasia. Mas uma vez consumado, tinha ficado surpreendido com a profunda satisfação que sentira. Tinha sentido um prazer epicurista, distinto de todos os outros que já experimentara na sua vida povoada de prazeres.

Ainda assim, nos encontros que tivera desde essa altura, tinha sido mais cuidadoso e contido. Ou pelo menos assim tinha sido até à semana passada, altura em que o mesmo jogo mortal acontecera com aquela acompanhante… Como é que se chamava?

Ah, sim, Lembrou-se. Nanette.

Na altura suspeitou que Nanette poderia não ser o seu nome verdadeiro. Agora nunca descobriria. No seu íntimo, ele sabia que a morte dela não havia sido um acidente. Não propriamente. Ele tivera a intenção de o fazer. E a sua consciência estava impoluta. Estava pronto para o fazer novamente.

A tal da Chiffon aproximava-se a uma distância de meio quarteirão. Envergava um top amarelo e uma saia minúscula, e trotava na direção do ginásio empoleirada nuns saltos altos impossíveis ao mesmo tempo que falava ao telemóvel.

Ele queria mesmo saber se Chiffon era o seu nome verdadeiro. O anterior encontro profissional que haviam tido, tinha sido um fracasso – culpa dela, não dele, disso ele tinha a certeza. Algo nela o havia desencorajado.

Ele sabia perfeitamente que ela era mais velha do que dizia ser. Não era apena o corpo – até prostitutas adolescentes tinham marcas de partos. E também não eram as rugas que já despontavam no seu rosto. As prostitutas envelheciam mais rapidamente.

Não conseguia entender. Mas havia muitas mais coisas nela que o deixavam perplexo. Ela mostrava um certo tipo de entusiasmo falsamente ameninado que não era característica de uma verdadeira profissional, nem mesmo de uma novata.

Dava demasiadas risadinhas como se se tratasse de uma criança a jogar um jogo. Era demasiado ávida. E muito estranhamente, ele suspeitava que ela gostava realmente do que fazia.

Uma prostituta que gosta realmente de sexo, Pensou ele ao vê-la aproximar-se. Quem já ouviu uma coisa destas?

Na verdade, era algo que o excitava.

Bem, pelo menos tinha a certeza que não era uma polícia infiltrada. Tê-lo-ia percebido num instante.

Quando ela se aproximou o suficiente para o ver, ele buzinou. Ela parou de falar ao telemóvel por um momento e olhou na sua direção, protegendo os olhos da luz da manhã. Quando viu quem era, acenou-lhe e sorriu - um sorriso que parecia completamente sincero.

Depois caminhou pelas traseiras do ginásio na direção da entrada de “serviço”. Ele apercebeu-se que ela muito provavelmente teria um compromisso no bordel. Não importava, solicitaria os seus serviços noutro dia quando lhe apetecesse gozar um tipo de prazer mais específico. Entretanto, havia por ali muitas mais prostitutas.

Agora recordava-se em que ponto as coisas tinham ficado no seu último encontro. Ela mostrara-se alegre, bondosa e apologética.

“Volta sempre que quiseres,” Dissera-lhe. “Da próxima vez vai correr melhor. Vamos consegui-lo juntos. Vai ser mesmo excitante.”

“Ah, Chiffon,” Murmurou em voz alta para si próprio. “Nem fazes ideia.”




CAPITULO QUATRO


Um tiroteio desfilava à volta de Riley. À esquerda, ouvia os ruídos ensurdecedores de pistolas. À direita, ouvia armas mais pesadas – rebentamentos de espingardas de assalto e o silvar pausado de submetralhadoras.

No meio de todo este clamor, sacou da sua Glock do coldre na anca, descendeu à posição de decúbio ventral e disparou seis rodadas. Ergueu-se para a posição de joelhos e disparou três rodadas. Recarregou a arma rápida e habilmente, depois levantou-se, disparou seis rodadas e, finalmente, ajoelhou-se e disparou mais três rodadas com a mão esquerda.

Levantou-se e guardou a arma no coldre, depois afastou-se da linha de fogo e retirou os protetores auditivos e óculos de proteção. O alvo em forma de garrafa estava a vinte e três metros de distância. Mesmo àquela distância, conseguiu ver que tinha agregado todos os tiros juntos. Nas filas ao lado da sua, estagiários da Academia do FBI continuavam a treinar sob a orientação dos seus instrutores.

Já tinha passado algum tempo desde que Riley disparara uma arma pela última vez, apesar de andar sempre armada em serviço. Tinha reservado aquela fila da carreira de tiro da Academia do FBI para treinar e, como sempre, sentira a satisfação do poderoso recuo da arma, da força bruta que transmitia.

Ouviu uma voz atrás de si.

“És mesmo da velha guarda, não és?”

Voltou-se e viu o sorridente Agente Especial Bill Jeffreys próximo dela. Ela devolveu-lhe o sorriso. Riley sabia muito bem o que ele queria dizer com “velha guarda”. Há alguns atrás, o FBI tinha alterado as regras de fogo real para habilitação no disparo de armas de fogo. Disparar na posição de decúbio ventral fazia parte do antigo exercício e já não era obrigatório. Agora davam mais ênfase ao disparo contra alvos mais próximos, a distâncias entre os três e os seis metros. A isso acrescentou-se ainda uma instalação de realidade virtual onde os agentes eram inseridos em cenários que envolviam confrontos armados em bairros. E os formandos também passavam pelo conhecido Hogan’s Alley, uma cidade de dez acres em tamanho real onde combatiam terroristas com armas de paintball.

“Às vezes gosto de agir à moda da velha guarda,” Disse ela. “Pode ser que um dia tenha que fazer uso de força letal à distância.”

Da sua própria experiência, Riley sabia que as situações mais sérias eram próximas e pessoais, e eram muitas vezes inesperadas. Na verdade, ela já tivera que lutar com as suas próprias mãos em dois casos bem recentes. Tinha morto um assassino com a sua própria faca e outro com uma pedra.

“Achas que alguma coisa prepara estes miúdos para a realidade?” Perguntou Bill, indicando com a cabeça os formandos que se preparavam para abandonar a carreira de tiro.

“Nem por isso,” Respondeu Riley. “Na RV o teu cenário assume o cenário como real, mas não há perigo iminente, não há dor, não há raiva para controlar. Algo no nosso íntimo sabe que não podemos ser mortos.”

“Pois é,” Disse Bill. “Vão ter que o descobrir por si próprios como nós descobrimos há tantos anos atrás.”

Riley observou-o de lado enquanto se afastavam da carreira de tiro.

Tal como ela, Bill tinha quarenta anos e cabelos brancos a despontar da cabeleira escura. Perguntava-se qual o significado de o estar a comparar mentalmente com o seu magro e enjeitado vizinho.

Qual era o nome dele? Questionou-se. Ah, sim… Blaine.

Blaine era atraente, mas não estava certa se batia Bill. Bill era grande, sólido e cativante.

“O que te traz por cá?” Perguntou Riley.

“Soube que estarias cá,” Respondeu Bill.

Riley fitou-o apreensiva. Muito provavelmente, aquela não era uma visita de cortesia. Pela sua expressão, Riley percebeu que ele ainda não estava preparado para lhe contar o que queria.

Bill disse, “Posso cronometrar se quiseres fazer o exercício completo.”

“Agradecia-te,” Disse Riley.

Dirigiram-se a uma secção à parte da carreira de tiro onde não correria o risco de ser atingida por balas perdidas provenientes dos formandos.

Enquanto Bill segurava num cronómetro, Riley ultrapassou todos os níveis do curso de habilitação para manuseamento de arma, disparando contra o alvo a uma distância de três metros, depois cinco, depois sete, depois quinze. A quinta e última fase do exercício era a única parte que Riley considerava pouco desafiante – disparar atrás de uma barricada a uma distância de vinte e três metros.

Quando terminou, Riley retirou os protetores de cabeça. Ela e Bill encaminharam-se para o alvo e observaram o resultado do treino de Riley. Todas as marcas estavam juntas.

“Cem porcento – um resultado perfeito,” Disse Bill.

“Só tinha que ser,” Disse Riley. Não gostaria nada de constatar que estava a perder o jeito.

Bill apontou para o cenário natural atrás do alvo.

“Um tanto surreal, não?” Perguntou Bill.

Vários veados de cauda branca pastavam satisfeitos no alto da colina. Na verdade, tinham-se ali reunido enquanto Riley disparava. Estavam a curta distância, facilmente alcançáveis até para a sua arma. Mas a realidade é que não estavam minimamente incomodados com os milhares de balas que embatiam contra os alvos logo abaixo da cumeeira em que se encontravam.

“Sim,” Concordou Riley, “e belo.”

Naquela altura do ano os veados eram uma presença natural ali na carreira de tiro. Era época de caça e de alguma forma sabiam que ali estavam seguros. De facto, os terrenos da Academia do FBI tinham-se tornado numa espécie de refúgio de vida selvagem para muitos animais, incluindo raposas, perus selvagens e marmotas.

“Há alguns dias atrás um dos meus alunos viu um urso no parque de estacionamento,” Comentou Riley.

Riley aproximou-se da barreira. Os veados ergueram as cabeças, fitaram-na e afastaram-se. Não tinham medo de tiroteio, mas não gostavam que as pessoas se aproximassem demasiado.

“Como é que eles saberão?” Perguntou Bill. “Quero dizer, que aqui é um sítio seguro. Os tiros não soam todos da mesma forma?”

Riley limitou-se a abanar a cabeça. Era um mistério para ela. O pai tinha-a levado a caçar quando era pequena. Para ele, os veados eram simplesmente recursos – comida e pele. Não a tinha incomodado matá-los há tantos anos atrás. Mas isso tinha mudado.

Parecia estranho, agora que se dava ao trabalho de pensar nisso. Não tinha qualquer pejo em usar força letal contra um ser humano quando necessário. Podia matar um homem num abrir e fechar de olhos. Mas matar uma dessas criaturas parecia agora impensável.

Riley e Bill caminharam na direção de uma área de repouso e sentaram-se juntos numa vedação. Fosse qual fosse o motivo que o levara até ali, Bill continuava reticente em verbalizá-lo.

“Como te estás a dar sozinho?” Perguntou Riley com uma voz carinhosa.

Ela sabia que era uma questão delicada e viu-o estremecer. A mulher de Bill tinha-o deixado recentemente após anos de tensão entre o trabalho e a vida familiar. Bill tinha ficado preocupado com a perspetiva de perder o contacto com os filhos ainda tão jovens. Agora vivia num apartamento na cidade de Quantico e passava tempo com os filhos aos fins-de-semana.

“Não sei, Riley,” Disse. “Não sei se alguma vez me vou habituar.”

Era óbvio que Bill se sentia só e deprimido. Riley tinha passado por um processo semelhante depois de recentemente se ter separado e divorciado. Ela também sabia que após uma separação se ficava particularmente frágil. Mesmo que a relação não fosse das melhores, dava-se por si num mundo de estranhos, a sentir falta de anos de familiaridade, sem saber bem o que fazer.



Bill tocou-lhe no braço. Com a voz embargada pela emoção, disse, “Às vezes penso que tudo aquilo que me resta na vida… és tu.”



Naquele momento, Riley sentiu uma vontade incontrolável de o abraçar. Quando haviam sido parceiros, Bill tinha-a ajudado inúmeras vezes, tanto física como emocionalmente. Mas ela sabia que tinha que ter cuidado. E também sabia que em situações como aquela, as pessoas podiam agir de forma precipitada. Riley tinha telefonado a Bill numa noite de bebedeira e propusera-lhe iniciarem uma relação. Agora os papéis tinham-se invertido. Riley sentia a iminente dependência de Bill em relação a ela, logo agora que ela começava a sentir-se livre e suficientemente forte para estar sozinha.

“Fomos bons parceiros,” Disse Riley. Era uma lamechice mas não lhe ocorrera mais nada para dizer.

Bill respirou fundo.

“Foi por isso mesmo que vim ter contigo,” Disse Bill. “O Meredith disse-me que te tinha ligado sobre o caso de Phoenix. Estou a trabalhar nesse caso e preciso de um parceiro.”

Riley sentiu-se ligeiramente irritada. A visita de Bill parecia-lhe agora uma espécie de cilada.

“Eu disse ao Meredith que ia pensar no assunto,” Respondeu Riley.

“E agora sou eu que te estou a pedir,” Continuou Bill.

Instalou-se o silêncio.

“E a Lucy Vargas?” Perguntou Riley.

A Agente Vargas era uma novata que tinha trabalhado com Bill e Riley no seu último caso. Ambos tinham ficado muito impressionados com o seu trabalho.

“O tornozelo dela não sarou,” Disse Bill. “Não pode regressar ao trabalho de campo pelo menos por mais um mês.”

Riley sentiu-se uma idiota por ter perguntado. Quando ela, Bill e Lucy tinham encontrado Eugene Fisk, o “assassino das correntes”, Lucy tinha caído, partido um tornozelo e quase fora morta. Era óbvio que não podia regressar tão cedo ao trabalho.

“Não sei, Bill,” Retomou Riley. “Esta pausa do trabalho tem-me feito muito bem. Estava a pensar em apenas ensinar a partir de agora. Só te posso dizer aquilo que já disse ao Meredith.”

“Que vais pensar no assunto.”

“Exatamente.”

Bill soltou um resmundo de descontentamento.

“Podemos ao menos encontrar-nos e conversar sobre o assunto?” Perguntou Bill. “Talvez amanhã?”

Riley calou-se novamente por alguns segundos.

“Amanhã não,” Disse. “Amanhã tenho que ver um homem morrer.”




CAPÍTULO CINCO


Riley olhou pela janela para a sala onde Derrick Caldwell em breve morreria. Estava sentada ao lado de Gail Bassett, a mãe de Kelly Sue Bassett, a última vítima de Caldwell. O homem tinha assassinado cinco mulheres antes de Riley o apanhar.

Riley tinha vacilado antes de aceitar o convite de Gail para assistir à execução. Só tinha visto outra até à data, dessa vez como testemunha voluntária sentada entre jornalistas, advogados, polícias, conselheiros espirituais e o representante do júri. Agora ela e Gail encontravam-se entre nove familiares de mulheres mortas por Caldwell, todos amalgamados num espaço exíguo, sentados em cadeiras de plástico.

Gail, uma mulher pequena de sessenta anos com um rosto delicado, tinha mantido o contacto com Riley ao longo dos anos. Na altura da execução o marido já tinha morrido e ela tinha escrito a Riley dizendo que não tinha ninguém para a amparar naquele momento tão importante. E Riley concordara em fazer-lhe companhia.

A câmara da morte estava logo ali do outro lado da janela. O único mobiliário visível na sala era a maca destinada à execução, uma mesa em forma de cruz. Uma cortina de plástico azul estava pendurada por cima da cabeceira da maca. Riley sabia que tubos intravenosos e químicos letais se encontravam por detrás daquela cortina.

Um telefone vermelho na parede tinha ligação direta ao gabinete do Governador. Só tocaria caso houvesse uma decisão de última hora ditando a clemência. Mas ninguém esperava que tal sucedesse. Um relógio por cima da porta que dava para a sala da execução, era o outro objeto de decoração visível.

Na Virginia, os criminosos condenados podiam escolher entre a cadeira elétrica e a injeção letal, mas os químicos acabavam por ser a escolha de eleição. Se o prisioneiro se recusasse a optar, era-lhe atribuída a injeção.

Riley quase estava surpreendida por Caldwell não ter optado pela cadeira elétrica. Era um monstro sem remorsos que parecia acolher com agrado a sua própria morte.

O relógio marcava 08:55 quando a porta se abriu. Riley ouviu um rumor silencioso na sala enquanto vários membros da equipa de execução introduziam Caldwell na câmara. Dois guardas flanqueavam-no, agarrando um em cada braço, e um outro seguia logo atrás dele. Um homem bem vestido surgiu atrás de todos os outros – o diretor da prisão.

Caldwell vestia calças e camisola azuis, sandálias sem meias e estava algemado. Riley não o via há vários anos. Durante a sua breve carreira de assassino em série, exibira cabelo comprido e uma barba desgrenhada, um aspeto boémio que condizia com a sua condição de artista de rua. Agora apresentava-se barbeado e com um aspeto absolutamente normal.

Apesar de não reagir ao ambiente que o rodeava, parecia assustado.

Ótimo, Pensou Riley.

Caldwell olhou para a maca, mas desviou rapidamente o olhar. Parecia tentar a todo o custo não olhar para a cortina de plástico azul na cabeceira da maca. Por um instante, fixou a janela da sala onde se encontrava Riley e os familiares das vítimas. Subitamente pareceu mais calmo e mais composto.

“Quem me dera que nos pudesse ver,” Sussurrou Gail.

Estavam protegidos por um vidro especial e Riley não partilhava do desejo de Gail. Caldwell já tinha olhado para ela de demasiado perto para o seu gosto. Para o capturar tivera que se infiltrar. Fingira ser uma turista no passeio de Dunes Beach e contratou-o para lhe desenhar um retrato. Enquanto trabalhava, tinha-a inundado com todo o tipo de elogios, dizendo-lhe que ela era a mulher mais bela que desenhara em muito tempo.

E soube naquele momento que seria a sua próxima vítima. Naquela mesma noite servira de engodo para o atrair, deixando que a perseguisse na praia. Quando ele a tentara atacar, os reforços chegaram e não tinham tido qualquer dificuldade em detê-lo.

A sua captura tinha sido bastante vulgar. A descoberta de como ele tinha desfeito e mantido as vítimas na arca frigorífica fora outra questão. Estar presente no momento em que a arca fora aberta, resultara numas das experiências mais pungentes da carreira de Riley. Ainda sentia pena das famílias das vítimas, entre elas Gail, por terem tido que identificar as mulheres, filhas e irmãs desmembradas…

“Demasiado belas para viverem,” Tinha dito Caldwell.

Riley sentia-se arrepiada só de pensar que ela fora uma das mulheres que ele vira sob essa perspetiva. Nunca se encarara como bela e raramente os homens, mesmo o ex-marido Ryan, lhe diziam que era. Caldwell tinha sido uma crua e horrível exceção.

O que significaria o facto de um monstro patológico a ter considerado tão perfeitamente adorável? Será que tinha reconhecido nela o que havia de monstruoso nele? Depois do julgamento e condenação, Riley tivera durante algum tempo pesadelos com os seus olhos cintilantes, as suas palavras doces e a sua arca frigorífica repleta de partes de corpos.

A equipa de execução ergueu Caldwell na direção da maca de execução, retiraram as algemas, tiraram as sandálias e amarraram-no com tiras de couro – duas no peito, duas nas pernas, duas à volta dos tornozelos e duas nos pulsos. Os pés nus foram virados na direção da janela o que tornava difícil ver o seu rosto.

De repente, as cortinas das janelas fecharam-se. Riley compreendeu que tal sucedera para esconder a fase da execução em que algo de errado podia acontecer, como por exemplo, a equipa ter dificuldade em encontrar uma veia adequada. Ainda assim, Riley estranhou. As pessoas que ali se encontravam estavam prestes a assistir à morte de Caldwell contudo, não lhes era permitido testemunhar a mundana inserção de agulhas. As cortinas oscilaram ligeiramente, aparentemente deslocadas por um dos membros da equipa que se movimentava do lado de lá.

Quando as cortinas se abriram novamente, os tubos intravenosos estavam colocados, dispostos nos braços do prisioneiro por buracos que passavam as cortinas azuis de plástico. Alguns elementos da equipa de execução estavam atrás dessas cortinas onde administrariam as drogas letais.

Um homem segurava no auscultador do telefone, pronto para receber uma chamada que, com toda a certeza, nunca se realizaria. Outro homem falou com Caldwell, as suas palavras quase inaudíveis graças ao fraco sistema de som. Perguntava a Caldwell se queria pronunciar as suas últimas palavras.

De forma contrastante, a resposta de Caldwell surgiu com uma alarmante clareza.

“A Agente Paige está cá?” Perguntou.

Riley estremeceu ao ouvir aquelas palavras.

O homem não respondeu. Não era uma pergunta que Caldwell tivesse o direito de ver respondida.

Após um momento de silêncio tenso, Caldwell falou novamente.

“Digam à Agente Paige que gostava que a minha arte lhe tivesse feito justiça.”

Apesar de Riley não conseguir ver o seu rosto com clareza, julgou ouvir uma risadinha.

“É tudo,” Disse. “Estou pronto.”

Riley foi inundada por uma onda de raiva, horror e confusão. Não esperava que aquilo pudesse acontecer. Derrick Caldwell tinha dedicado os seus últimos momentos de vida a ela. E sentada ali atrás daquela inquebrantável barreira de vidro, sentiu-se incapaz de fazer fosse o que fosse em relação ao que acabara de ouvir.

Tinha-o levado a prestar contas perante a justiça, mas no final, ele parecia ter alcançado um tipo de vingança estranha e doentia.

Riley sentiu a pequena mão de Gail a apertar a sua.

Meu Deus, Pensou Riley. Ela está a reconfortar-me.

Riley reprimiu a náusea que se apoderava dela.

E então Caldwell proferiu mais algumas palavras.

“Vou sentir quando começar?”

Mas mais uma vez, não obteve qualquer resposta à sua pergunta. Riley viu o fluido mover-se nos tubos intravenosos transparentes. Caldwell respirou fundo várias vezes e pareceu adormecer. O seu pé esquerdo contraiu-se algumas vezes e depois parou.

Um momento depois, um dos guardas apertou ambos os pés e não obteve qualquer reação. Parecia um gesto peculiar. Mas Riley compreendeu que o guarda verificava se o sedativo estava a fazer efeito e se Caldwell estava completamente inconsciente.

O guarda disse qualquer coisa de inaudível às pessoas que estavam atrás da cortina. Riley viu um fluxo renovado de fluido movimentar-se nos tubos intravenosos. Ela sabia que uma segunda droga iria agora atuar para parar o funcionamento dos pulmões. Dali a pouco, uma terceira droga parar-lhe-ia o coração.

À medida que a respiração de Caldwell abrandava, Riley deu por si a pensar naquilo que estava a assistir. Quão diferente era aquilo do seu uso de força letal? A verdade é que já tinha morto vários assassinos.

Mas esta era uma morte diferente dessas outras. Por comparação, era bizarramente controlado, limpo, clínico, imaculado. Parecia inexplicavelmente errado. Irracionalmente, Riley deu por si a pensar…

Não devia ter deixado as coisas chegarem a este ponto.

Ela sabia que estava errada, que tinha capturado Caldwell de forma profissional e em concordância com as regras. Mas mesmo assim pensou…

Devia tê-lo morto eu mesma.

Gail agarrou na mão de Riley com força durante dez longos minutos. Por fim, o elemento da equipa de execução junto a Caldwell disse algo que Riley não conseguiu ouvir.

O guarda saiu de trás da cortina e falou numa voz clara para ser compreendido por todas as testemunhas.

“A sentença foi cumprida com sucesso às 09:07.”

Depois as cortinas encerraram-se novamente. As testemunhas já tinham visto tudo o que deviam ver. Os guardas entraram na sala e pediram a todos para saírem o mais rapidamente possível.

Quando o grupo se encaminhava para o corredor, Gail pegou novamente na mão de Riley.

“Lamento que ele tenha dito o que disse,” Afirmou Gail.

Riley ficou sobressaltada. Como é que era possível que Gail estivesse preocupada com os sentimentos de Riley num momento daqueles, quando justiça tinha sido finalmente feita ao assassino da sua própria filha?

“Com está Gail?” Perguntou Riley enquanto se dirigiam apressadamente para a saída.

Gail caminhou em silêncio durante alguns segundos. A sua expressão parecia completamente vazia.

“Acabou,” Disse por fim, a voz entorpecida e fria. “Acabou.”

Dali a nada já estavam no exterior banhado pelo sol da manhã. Riley conseguiu ver dois ajuntamentos de pessoas do outro lado da rua, divididos um do outro e controlados firmemente pela polícia. De um lado estavam as pessoas que se tinham reunido para aplaudir a execução empunhando sinais de ódio, alguns profanos e obscenos. Estavam compreensivelmente jubilantes. Do outro lado estavam manifestantes anti pena de morte com os seus próprios cartazes. Tinham passado ali a noite em vigília. Eram muito mais moderados.

Riley não conseguia sentir simpatia por qualquer um dos grupos. Estas pessoas estavam ali por elas, para fazer um espetáculo público da sua revolta e retidão, agindo por puro comodismo. No que lhe dizia respeito, não tinham o direito de estar ali, não entre pessoas cuja dor e pesar eram tão reais.

Entre a entrada e os ajuntamentos encontrava-se um enxame de jornalistas com as suas carrinhas de notícias por perto. Quando Riley tentou atravessar a multidão, uma mulher correu na sua direção com um microfone e um repórter de imagem logo atrás dela.

“Agente Paige? É a Agente Paige?” Perguntou.

Riley não respondeu. Tentou passar pela jornalista mas ela não desarmou. “Ouvimos dizer que Caldwell a mencionou nas suas últimas palavras. Quer comentar?”

Outros jornalistas se aproximaram, fazendo a mesma pergunta. Riley cerrou os dentes e furou a multidão. Pelo menos ela conseguiu libertar-se.

Quando se apressava na direção do carro, deu por si a pensar em Meredith e em Bill. Ambos lhe tinham implorado para aceitar um novo caso. E ela estava a evitar dar uma resposta a qualquer um deles.

Porquê? Pensou.

Tinha acabado de fugir aos jornalistas. Também estaria a fugir de Bill e Meredith? Estaria a fugir de quem ela era? De tudo o que tinha que fazer?



*



Riley estava feliz por se encontrar em casa. A morte a que assistira naquela manhã ainda a deixava com uma sensação de vazio e o regresso a Fredericksburg tinha sido cansativo. Mas quando abriu a porta de casa, algo parecia não estar certo.

Estava anormalmente silenciosa. April já devia ter voltado da escola. E onde estava Gabriela? Riley foi até à cozinha e encontrou-a vazia. Um recado repousava na mesa da cozinha.

Me voy a la tienda, Estava escrito. Gabriela tinha ido fazer compras.

Assolada por uma onda de pânico, Riley agarrou com força as costas de uma cadeira. Da outra vez que Gabriela tinha ido fazer compras, April tinha sido raptada da casa do pai.

Escuridão, o vislumbre da chama.

Riley virou-se e correu para junto das escadas.

“April,” Gritou.

Não obteve resposta.

Riley subiu as escadas a correr. Ninguém se encontrava nos quartos. Ninguém estava no seu escritório.

O coração de Riley batia aceleradamente, apesar da cabeça não parar de lhe dizer que estava a ser pateta. Mas o corpo não ouvia e não obedecia ao que a mente lhe dizia.

Desceu as escadas a correr e saiu para a varanda.

“April,” Gritou.

Mas não havia ninguém a brincar no quintal vizinho e não havia crianças à vista.

Impediu-se de soltar outro grito. Não queria que os vizinhos pensassem que era louca. Não tão cedo.

Tateou o bolso e tirou o telemóvel. Enviou um SMS a April.

Não obteve resposta.

Riley voltou para dentro de casa e sentou-se no sofá. Segurava a cabeça entre as mãos.

Estava de volta ao espaço exíguo do cativeiro, deitada na terra e na escuridão.

Mas a pequena luz movia-se na sua direção. Podia ver o seu rosto cruel a brilhar por entre as chamas. Mas não sabia se o assassino vinha para a levar a ela ou para levar April.

Riley obrigou-se a separar a visão da sua realidade presente.

O Peterson morreu, Dizia enfaticamente a si mesma. Nunca mais nos vai torturar.

Sentou-se no sofá e tentou focar-se no aqui e agora. Agora estava ali na sua nova casa, a viver a sua nova vida. Gabriela tinha ido à loja fazer compras. April estava com toda a certeza por perto.

A sua respiração abrandou, mas não se conseguiu erguer. Tinha medo de ir novamente lá fora e gritar.

Depois do que parecia uma eternidade, Riley ouviu a porta da frente abrir-se.

April entrou a cantar.

Agora Riley já se conseguiu levantar. “Onde é que estiveste?”

April parecia chocada.

“O que é que se passa, mãe?”

“Onde é que estavas? Porque é que não respondeste à minha mensagem?”

“Desculpa, tinha o telemóvel no silêncio. Estava na casa da Cece do outro lado da rua. Quando saímos do autocarro da escola a mãe dela ofereceu-nos gelado.”

“E como é que eu podia adivinhar onde é que tu estavas?”

“Pensei que ainda não estivesses em casa.”

Riley ouvia-se a gritar e não conseguia parar. “Não quero saber o que pensaste. Não pensaste. Tens que me informar sempre…”

As lágrimas a correr no rosto de April impediram-na finalmente de continuar a gritar.

Riley acalmou-se e precipitou-se a abraçar a filha. Inicialmente, o corpo de April estava rígido de raiva, mas Riley sentiu que relaxava gradualmente. E apercebeu-se que pelo seu rosto também corriam lágrimas.

“Desculpa,” Disse Riley. “Desculpa. É só porque passámos por tanto… tanto horror.”

“Mas agora já acabou,” Disse April. “Já acabou, mãe.”

Sentaram-se no sofá, um sofá novo comprado quando se tinham mudado. Tinha-o comprado para a sua nova vida.

“Eu sei que acabou,” Disse Riley. “Eu sei que o Peterson está morto. Estou a tentar habituar-me a isso.”

“É tudo tão melhor agora, mãe. Não tens que te preocupar comigo de minuto a minuto. E não sou uma criancinha estúpida, já tenho quinze anos.”

“E és muito esperta,” Disse Riley. “Eu sei. Só vou ter que me lembrar sempre disso. Amo-te April,” Disse. “É por isso que às vezes enlouqueço.”

“Eu também te amo mãe,” Disse April. “Mas não te preocupes tanto.”

Riley ficou deliciada por ver a filha sorrir novamente. April tinha sido raptada, mantida em cativeiro e ameaçada com um maçarico. Parecia novamente uma adolescente normal, ainda que a mãe ainda não tivesse recuperado a sua estabilidade.

Ainda assim, Riley não conseguia evitar perguntar-se se aquelas memórias negras ainda espreitavam algures na mente da filha, à espera do momento certo para irromper.

Quanto a ela, sabia que precisava de falar com alguém sobre os seus medos e pesadelos recorrentes. Tinha que o fazer muito em breve.




CAPÍTULO SEIS


Riley agitava-se na cadeira ao tentar pensar no que queria dizer a Mike Nevins. Sentia-se inquieta e insegura.

“Demora o tempo que for preciso,” Disse o psiquiatra forense, inclinando a cadeira para a frente e fitando-a com preocupação.

Riley deu uma risadinha pesarosa. “O problema é esse,” Disse. “Eu não tenho tempo. Tenho andado a arrastar-me. Tenho que tomar uma decisão. Já a adiei por demasiado tempo. Alguma vez me viste tão indecisa?”

Mike não respondeu. Limitou-se a sorrir e juntou as pontas dos dedos.

Riley estava habituada àquele tipo de silêncio da parte dele. Aquele homem elegante e exigente tinha sido muitas coisas para ela ao longo doa anos. Um amigo, um terapeuta, em alguns momentos uma espécie de mentor. Mais recentemente, ligava-lhe para obter a sua perspetiva sobre a mente obscura de criminosos. Mas esta visita era diferente. Tinha-lhe ligado a noite passada depois de chegar a casa vinda da execução e passara pelo seu gabinete de D.C. naquela manhã.

“Então afinal que escolhas são essas?” Perguntou ele por fim.

“Bem, parece que tenho que decidir o que vou fazer para o resto da minha vida – se ensino ou se sou agente de campo. Ou pensar em qualquer coisa completamente diferente.”

Mike riu-se. “Espera lá. Vamos tentar não planear toda a tua vida futura hoje. Vamos ficar-nos pelo agora. O Meredith e o Jeffreys querem que aceites um caso. Só um caso. Ninguém te disse que tinhas de desistir de ensinar. E tudo o que tens que fazer é dizer sim ou não. Então, qual é o problema?”

Chegara a vez de Riley se calar. Ela não sabia qual era o problema. Era por isso que ali estava.

“Presumo que tens medo de alguma coisa,” Disse Mike.

Riley engoliu em seco. Era isso. Ela tinha medo. Recusava-se a admiti-lo, mesmo a si própria. Mas agora Mike ia obrigá-la a falar sobre isso.

“Então, de que é que tens medo?” Perguntou Mike. “Disseste que andavas a ter pesadelos.”

Riley permaneceu calada.

“Isto está relacionado com o teu problema de SPT,” Disse Mike. “Ainda tens flashbacks?”

Riley estava à espera daquela pergunta. No final de contas, Mike contribuíra mais do que ninguém para ela ultrapassar o trauma de uma experiência particularmente horrível.

Inclinou a cabeça para trás na cadeira e fechou os olhos. Por um momento, estava novamente na gaiola negra de Peterson e ele ameaçava-a com um amaçarico. Meses depois de Peterson a ter mantido cativa, aquela memória impusera-se de forma sistemática na sua mente.

Mas foi então que ela apanhara e matara Peterson. Na verdade, tinha-o espancado até ele se transformar num pedaço de carne sem vida.

Se isso não é um ponto final na história, então não sei o que será, Pensou Riley.

Agora as memórias pareciam impessoais, como se assistisse ao desdobramento da história de outra pessoa.

“Estou melhor,” Disse Riley. “São mais curtos e menos frequentes.”

“E a tua filha?”

A pergunta ferira-a como o gume de uma faca. Sentiu um eco do horror que vivera quando Peterson tinha capturado April. Ainda conseguia ouvir os gritos de ajuda de April a ecoar na sua cabeça.

“Acho que ainda não ultrapassei isso,” Disse. “Acordo com medo de que ela tenha sido novamente levada. Tenho que ir ao quarto dela e certificar-me que ela está lá, segura e a dormir.”

“É por isso que não queres aceitar outro caso?”

Riley estremeceu. “Não quero sujeitá-la outra vez a uma coisa daquelas.”

“Isso não responde à minha pergunta.”

“Pois não,” Disse Riley.

O silêncio instalou-se no gabinete de Mike Nevins.

“Tenho a sensação de que há algo mais,” Disse Mike. “Que mais te provoca pesadelos? Que mais te acorda a meio da noite?”

Estremecendo, um terror escondido subiu à superfície da sua mente.

Sim, havia algo mais.

Mesmo com os olhos bem abertos, conseguia ver o rosto dele - o rosto ameninado e grotescamente inocente de olhos brilhantes de Eugene Fisk. Riley olhara para o fundo desses olhos durante o seu confronto fatal.

O assassino ameaçava Lucy Vargas com uma navalha apontada ao seu pescoço. Naquele momento, Riley sondara os seus mais terríveis medos. Falara sobre as correntes – aquelas correntes que ele acreditava que falavam consigo, forçando-o a cometer homicídio atrás de homicídio, acorrentando mulheres e cortando-lhes as gargantas.

“As correntes não querem que leves esta mulher,” Dissera-lhe Riley. “Ela não é aquilo que elas querem. Tu sabes o que é que as correntes querem.”

Com os olhos a cintilarem com lágrimas, Eugene anuiu. Depois infligiu a si próprio a mesma morte que infligira às suas vítimas.

Cortou a sua própria garganta à frente de Riley.

E agora, ali sentada no gabinete de Mike Nevins, Riley quase sufocava com o seu próprio horror.

“Eu matei o Eugene,” Disse com um tremor súbito.

“Queres dizer, o assassino das correntes. Bem, ele não foi o primeiro homem que mataste.”

Era verdade, ela já usara força letal várias vezes. Mas com Eugene fora muito diferente. Pensava frequentemente na sua morte, mas nunca falara sobre aquilo com ninguém.

“Eu não usei uma arma ou uma pedra ou os meus punhos,” Disse Riley. “Matei-o com compreensão, com empatia. A minha própria mente é uma arma letal. Nunca me apercebera disso antes. E aterroriza-me, Mike.”

Mike anuiu, compreendendo o que Riley lhe transmitia. “Sabes o que é que Nietzsche disse sobre olhar demasiado tempo para um abismo,” Disse Mike.

“O abismo devolve-te o olhar,” Disse Riley, concluindo a célebre frase. “Mas eu fiz muito mais do que olhar para o abismo. Eu praticamente vivi nele. Quase me sentia confortável lá. É uma segunda casa. Assusta-me de morte, Mike. Um destes dias, posso entrar nesse abismo e nunca mais sair de lá. E quem sabe quem posso magoar ou matar.”

“Nesse caso,” Disse Mike, recostando-se na cadeira. “Talvez estejamos a caminhar na direção certa.”

Riley não tinha tanta certeza. E ela não se sentia mais próxima de tomar uma decisão.



*



Quando Riley atravessou a porta de entrada da sua casa um pouco mais tarde, April surgiu a descer as escadas na sua direção.

“Tens que me ajudar, mãe! Vem!”

Riley seguiu April pelas escadas acima até ao seu quarto. Uma mala estava aberta em cima da cama e roupas estavam espalhadas por todo o lado.

“Não sei o que hei-de levar!” Disse April. “Nunca tive que fazer isto antes!”

Sorrindo perante a combinação de pânico e entusiasmo da filha, Riley ajudou-a a arrumar as coisas. April partia no dia seguinte para uma viagem de estudo – uma semana perto de Washington, D.C. Ia na companhia de um grupo de alunos de História Americana e professores.

Quando Riley assinara os impressos e pagara o valor da viagem, sentira algumas reservas em fazê-lo. Peterson mantivera April presa em Washington e apesar de ter sido nas franjas da cidade, Riley estava preocupada com o facto de a viagem poder trazer o trauma à tona. Mas April parecia estar a sair-se muito bem tanto a nível académico como emocional. E a viagem era uma oportunidade fantástica.

Enquanto ela e April brincavam de forma despreocupada sobre aquilo que April devia levar, Riley apercebeu-se de que se estava a divertir. O abismo de que ela e Mike tinham falado há pouco parecia longínquo. Ela ainda tinha uma vida fora desse abismo. Era uma boa vida e fosse qual fosse a sua decisão, estava determinada em mantê-la.

Enquanto estavam a arrumar as coisas, Gabriela entrou no quarto.

“Señora Riley, o meu táxi vai chegar a qualquer momento,” Disse a sorrir. “Tenho tudo pronto. As minhas malas estão à porta.”

Riley quase se tinha esquecido que Gabriela também estava de partida. Como April ia estar fora, Gabriela pedira uns dias para visitar parentes no Tennessee e Riley tinha concordado.

Riley abraçou Gabriela e disse, “Buen viaje,”

E com o sorriso a desvanecer um pouco, Gabriela disse, “Me preocupo.”

“Estás preocupada?” Perguntou Riley, surpreendida. “O que é que te preocupa Gabriela?”

“Você,” Declarou Gabriela. “Vai ficar sozinha nesta casa.”

Riley riu. “Não te preocupes, eu sei tomar bem conta de mim.”

“Mas não está sola desde que tantas coisas más aconteceram,” Disse Gabriela. “Preocupo-me.”

As palavras de Gabriela tocaram Riley. O que ela dizia era verdade. Desde que ocorrera aquela situação com Peterson, pelo menos a April estivera sempre presente. Poderia abrir-se um vazio escuro e assustador na sua nova casa? Será que mesmo agora o abismo a queria engolir?

“Vou ficar bem,” Tranquilizou-a Riley. “Vai e diverte-te com a tua família.”

Gabriela sorriu e entregou um envelope a Riley. “Isto estava na caixa do correio,” Disse.

Gabriela abraçou April, depois abraçou Riley outra vez e desceu as escadas para esperar pelo táxi.

“O que é mãe?” Perguntou April.

“Não sei,” Disse Riley. “Não tem selo.”

Riley abriu o envelope e encontrou no seu interior um cartão de plástico. Letras decorativas no cartão anunciavam o “Blaine’s Grill”. Por baixo lia-se, “Jantar para dois”.

“Parece que é um cartão presente do nosso vizinho,” Afirmou Riley. “Foi simpático da parte dele. Podemos ir lá jantar quando regressares.”

“Mãe!” Exclamou April. “Ele não quer que o jantar seja para nós as duas.”

“Por que não?”

“Ele está a convidar-te para jantar.”

“Achas mesmo? Não diz nada aqui.”

April abanou a cabeça. “Não sejas pateta. O homem quer sair contigo. A Crystal disse-me que o pai dela gosta de ti. E ele é mesmo giro.”

Riley sentiu-se corar. Já não se lembrava da última vez que alguém a convidara para sair. Estivera casada com Ryan durante vários anos. Desde que se tinham divorciado que ela se tinha focado em instalar-se na sua nova casa e em tomar decisões relacionadas com o trabalho.

“Estás a corar, mãe,” Disse April.

“Vamos arrumar as tuas coisas,” Grunhiu Riley. “Penso em tudo isto mais tarde.”

Ambas voltaram à escolha da roupa. Após alguns minutos de silêncio, April disse, “Estou um bocado preocupada contigo, mãe. Como a Gabriela disse…”

“Eu fico bem,” Disse Riley.

“Ficas mesmo?”

A dobrar uma blusa, Riley ficou sem saber o que responder. Tinha enfrentado muito recentemente pesadelos bem mais complicados do que uma casa vazia – psicopatas assassinos obcecados com correntes, bonecas e maçaricos, só para nomear alguns. Mas será que uma legião de demónios se soltaria quando ela estivesse sozinha? De repente, uma semana começou a parecer-lhe muito tempo. E a perspetiva de decidir se saíria ou não com um vizinho não lhe parecia menos assustadora.

Eu resolvo tudo, Pensou Riley.

Para além disso, ainda tinha outra opção. E já era altura de tomar uma decisão de uma vez por todas.

“Pediram-me para trabalhar num caso,” Disse Riley a April. “Tinha que partir já para o Arizona.”

April parou de dobrar a roupa e olhou para Riley.

“E então vais, não é?” Perguntou.

“Não sei, April,” Disse Riley.

“Qual é a novidade? É o teu trabalho, não é?”

Riley olhou a filha nos olhos. Os tempos difíceis entre ambas pareciam mesmo ser coisa do passado. Desde que ambas tinham sobrevivido aos horrores infligidos por Peterson que estavam ligadas por um novo e inquebrantável laço.

“Tenho andado a pensar em não voltar ao trabalho de campo,” Disse Riley.

Os olhos de April abriram-se muito, surpreendidos.

“O quê? Mãe, apanhar maus da fita é o que fazes melhor.”

“Também sou boa a ensinar,” Declarou Riley. “Sou muito boa a ensinar. E adoro fazê-lo. Gosto mesmo.”

April encolheu os ombros, como se não compreendesse o que Riley lhe dizia. “Bem, então força e ensina. Ninguém te impede. Mas não pares de os apanhar. É tão importante como ensinar.”

Riley abanou a cabeça. “Não sei, April. Depois de tudo por que te fiz passar…”

April ficou incrédula. “Depois de tudo por que me fizeste passar? Do que é que estás a falar? Não me fizeste passar por nada. Fui apanhada por um psicopata chamado Peterson. Se não me tivesse levado a mim, tinha levado outra pessoa qualquer. Não te culpes de nada.”

Depois de um momento de silêncio, April disse, “Senta-te mãe. Temos que falar.”

Talvez precise mesmo de sermão, Pensou Riley.

April sentou-se ao pé de Riley.

“Alguma vez te falei da minha amiga Angie Fletcher?” Perguntou April.

“Penso que não.”

“Bem, éramos muito chegadas mas ela mudou de escola. Ela era muito esperta, estava apenas um ano à minha frente. Ouvi dizer que ela tinha começado a comprar drogas a um tipo que toda a gente chamava de Trip. Ela começou a consumir heroína a sério. E quando ficava sem dinheiro, o Trip punha-a a trabalhar como prostituta. Treinou-a pessoalmente, obrigou-a a mudar-se para casa dele. A mãe estava tão mal que mal notou a ausência da Angie. O Trip até fazia publicidade a ela no site, obrigou-a a fazer uma tatuagem a jurar que era dele para sempre.”

Riley estava chocada. “O que é que lhe aconteceu?”

“Bem, o Trip acabou por ser preso e a Angie foi para um centro de reabilitação. Isto aconteceu este verão enquanto estávamos em Nova Iorque. Não sei o que é que lhe aconteceu depois disso. Só sei que tem dezasseis anos e tem a vida arruinada.”

“Tenho muita pena,” Disse Riley.

April resmungou com impaciência.

“Não estás mesmo a perceber, pois não mãe? Não tens que lamentar nada. Passaste a tua vida inteira a evitar este tipo de situação. E prendeste tipos como o Trip – alguns deles para sempre. Mas se parares de fazer aquilo que fazes melhor, quem é que o vai fazer por ti? Alguém tão bom como tu? Duvido, mãe. Duvido muito.”

Riley nada disse durante alguns segundos. Então, sorrindo, apertou carinhosamente a mão de April.

“Acho que tenho que fazer um telefonema,” Disse.




CAPÍTULO SETE


Quando o avião do FBI levantou voo de Quantico, Riley tinha a certeza que ia enfrentar outro monstro. E sentia-se desconfortável com essa pespetiva. Tinha querido afastar-se de assassinos durante algum tempo, mas aceitar aquela investigação parecia a decisão mais acertada. Meredith tinha ficado claramente aliviado quando ela aceitara.

April tinha partido para uma visita de estudo de uma semana naquela manhã e agora Riley e Bill estavam a caminho de Phoenix. Pela janela do avião, Riley assistira à tarde a converter-se em noite e via a chuva bater ferozmente no vidro. Riley manteve-se presa ao assento até o avião atravessar as ameaçadoras nuvens cinzentas, subindo até um pedaço de céu tranquilo. Por baixo deles avistava-se uma vasta superfície almofadada que escondia a terra onde o mais provável era as pessoas estarem a tentar manter-se secas. E, pensou Riley, dedicarem-se aos seus prazeres ou horrores de todos os dias ou a qualquer outra coisa intermédia.

Assim que o avião estabilizou, Riley virou-se para Bill e perguntou, “O que tens para me mostrar?”

Bill abriu o seu portátil na mesa à frente deles. Mostrou uma foto de um grande saco do lixo preto não inteiramnete submerso em águas pouco profundas. Era visível uma mão branca sem vida a sair da abertura do saco.

Bill explicou, “O corpo de Nancy Holbrook foi encontrado num lago artificial no sistema hídrico à saída de Phoenix. Era uma acompanhante de trinta anos que prestava serviços por elevados preços. Por outras palavras, era uma prostituta de luxo.”

“Afogou-se?” Perguntou Riley.

“Não. A causa de morte mais provável é asfixia. Depois foi colocada dentro de um saco do lixo e atirada para o lago. O saco do lixo continha pedras para fazer peso.”

Riley examinou a fotografia com mais atenção. Na sua mente já se perfilavam muitas perguntas.

“O assassino deixou alguma prova física?” Perguntou. “Impressões digitais, fibras, ADN?”

“Nada.”

Riley abanou a cabeça. “Não percebo. Quero dizer, a forma como se descartou do corpo. Porque é que o assassino não foi mais cuidadoso? Um lago de água doce é perfeito para alguém se livrar de um corpo. Os corpos afundam-se e decompõem-se mais rapidamente em água doce. Claro que podem voltar a emergir mais tarde devido ao inchaço e aos gases. Mas pedras suficientes no saco teriam resolvido o problema. Porquê deixá-la em águas pouco profundas?”

“Acho que nos compete a nós descobrir isso,” Disse Bill.

Bill mostrou entretanto várias outras fotos da cena do crime, mas não acrescentaram grande coisa.

“Então o que te parece?” Perguntou Riley. “Estamos perante um assassino em série ou não?”

Bill franziu o sobrolho pensativo.

“Não sei,” Disse. “A sério, só temos uma prostituta assassinada. Claro, outras prostitutas desapareceram em Phoenix. Mas isso não tem nada de novo. Isso acontece com frequência em todas as grandes cidades do país.”

A palavra “frequência” naquele contexto desagradava a Riley. Como é que o desaparecimento continuado de um certo tipo de mulheres podia ser considerado algo normal e rotineiro? Ainda assim, ela sabia que o que Bill dizia era verdade.

“Quando o Meredith telefonou deu a entender que era algo urgente,” Disse Riley. “E agora dá-nos tratamento VIP com voo direto para lá num avião da UAC.” Riley pensou por um momento. “As suas palavras exatas foram que o seu amigo queria que encarássemos aquele homicídio como o trabalho de um assassino em série. Mas parece que ninguém tem a certeza que se trata de um assassino em série.”

Bil encolheu os ombros. “Pode não ser. Mas o Meredith parece ser muito próximo do irmão de Nancy Holbrook, Garrett Holbrook.”

“Pois,” Disse Riley. “Ele disse-me que tinham frequentado a academia juntos. Mas isto é tudo muito invulgar.”

Bill não contestou. Riley reclinou-se no seu banco e considerou a situação. Parecia bastante óbvio que Meredith estava a contornar as regras do FBI como favor ao amigo. Isso não era nada habitual em Meredith.

Mas isso não fez com que Riley tivesse menos consideração por Meredith. Aliás, ela admirava a devoção que demonstrava em relação ao amigo. E pensou…

Se haveria alguém por quem contornaria as regras? Talvez o Bill?

Ao longo dos anos ele fora muito mais do que um mero parceiro e até mais do que um amigo. Ainda assim, Riley não tinha a certeza. E isso fê-la pensar no quão próxima se sentia dos colegas de trabalho, incluindo o Bill.

Mas não fazia muito sentido pensar naquilo naquele momento. Riley fechou os olhos e adormeceu.



*



O dia estava limpo e solarengo quando aterraram em Phoenix.

Ao saírem do avião, Bill cutucou Riley e disse, “Uau, que tempo fantástico. Talvez tenhamos algum tempo livre nesta viagem.”

Riley duvidou que a estadia em Phoenix lhe proporcionasse qualquer diversão. Já se passara muito tempo desde que tivera umas férias a sério. A sua última tentativa em Nova Iorque com a April tinha sido encurtada pelo caos e desordem que faziam parte da sua vida.

Um destes dias, tenho que descansar a sério, Pensou.

Um jovem agente local foi ter com eles ao avião e levou-os até às instalações do FBI de Phonenix, um vistoso edifício moderno. Ao estacionar o carro no parque de estacionamento do Bureau, comentou, “Design fixe, não é? Até ganhou um prémio qualquer. Conseguem adivinhar o que é suposto parecer?”

Riley olhou para a fachada. Era completamente lisa com longos retângulos e estreitas janelas verticais. Tudo estava cuidadosamente disposto e o padrão parecia familiar. Riley deteve-se e observou o edifício durante alguns momentos.

“Sequenciamento de ADN?” Perguntou Riley.

“Sim,” Disse o agente. “Mas aposto que não consegue adivinhar com que se assemelha o labirinto de pedra visto de cima.”

Mas entraram no edifício antes de Riley e Bill arriscarem uma hipótese. No interior do edifício, Riley viu o motivo de ADN reproduzido nos azulejos do chão. O agente conduziu-os por entre paredes e divisórias horizontais de aspeto severo até chegarem ao gabinete do Agente Especial Responsável Elgin Morley.

Riley e Bill apresentaram-se a Morley, um homem pequeno na casa dos cinquenta com um negro e espesso bigode, e óculos redondos. Outro homem estava à espera deles no gabinete. Estava na casa dos quarenta, era alto, esquelético e ligeiramente curvado. Riley pensou que tinha um ar cansado e deprimido.

Morley disse, “Agentes Paige e Jeffreys, apresento-vos o Agente Garrett Holbrook. A sua irmã foi a vítima encontrada no Lago Nimbo.”

Cumprimentaram-se com apertos de mão e por fim os quatro agentes sentaram-se para discutir o caso.

“Obrigado por terem vindo,” Disse Holbrook. “Isto tem sido bastante avassalador.”

“Fale-nos da sua irmã,” Principiou Riley.

“Não vos consigo dizer muita coisa,” Disse Holbrook. “Não a conhecia lá muito bem. Era meia-irmã. O meu pai era um idiota mulherengo, deixou a minha mãe e teve filhos de três mulheres diferentes. A Nancy era quinze anos mais nova do que eu. Tivemos muito pouco contacto ao longo dos anos.”

Durante alguns momentos, fitou o chão com um olhar vazio, os dedos a tamborilarem de forma ausente no braço da cadeira. Depois, sem olhar para os colegas disse, “A última vez que soubera dela, estava a trabalhar num escritório e a ter aulas numa escola comunitária. Isso foi há alguns anos. Fiquei chocado quando soube o rumo que tinha seguido. Não fazia ideia.”

Depois calou-se. Riley teve a sensação de que algo ficara por dizer, mas acabou por se capacitar de que talvez aquilo fosse mesmo tudo o que o homem sabia. No final de contas, o que é que Riley podia dizer da sua própria irmã mais velha caso alguém a interpelasse? Ela e a Wendy estavam sem saber uma da outra há tanto tempo que bem podiam nem ser irmãs.

Ainda assim, Riley pressentiu algo mais do que pesar no comportamento de Holbrook e não pode deixar de considerar estranho este seu primeiro depoimento.

Morley sugeriu que Riley e Bill fossem com ele à Patologia Forense onde poderiam observar o corpo. Holbrook assentiu e referiu que iria para o seu gabinete.

Ao seguirem o Agente Responsável pelo corredor, Bill perguntou, “Agente Morley, qual a razão para pensarmos que estamos perante um assassino em série?”

Morley abanou a cabeça. “Não sei bem se temos uma razão concreta para pensar dessa forma,” Disse. “Mas quando o Garrett soube da morte da Nancy, não sossegou. É um dos nossos melhores agentes e tentei protegê-lo. Ele tentou avançar com a sua própria investigação, mas não chegou a lado nenhum. A verdade é que durante todo este tempo não tem estado em si.”

Riley tinha notado que Garrett parecia terrivelmente inquieto. Talvez um pouco mais do que deveria um agente experiente, mesmo tratando-se da morte de um familiar. Afinal, ele tornara claro que ele e a irmã não eram chegados.

Morley conduziu Riley e Bill até à área de Patologia Forense do edifício onde os apresentou à chefe de equipa, Dra. Rachel Fowler. A patologista abriu a unidade refrigerada onde se encontrava guardado o corpo de Nancy Holbrook.

Riley estremeceu ligeiramente perante o odor familiar a decomposição, apesar do cheiro ainda não estar particularmente forte. Reparou que a mulher possuíra estatura baixa e fora muito magra.

“Não esteve muito tempo dentro de água,” Disse Fowler. “A pele estava a começar a enrugar quando foi encontrada.”

A Dra. Fowler apontou para os pulsos.

“Podem ver-se queimaduras de corda. Parece ter sido amarrada quando foi morta.”

Riley reparou em marcas empoladas no cotovelo de um dos braços da vítima.

“Parecem marcas de toxicodependente,” Disse Riley.

“Pois é. Ela consumia heroína. O meu palpite é que ela estava a entrar completamente no vício.”

Parecia a Riley que a mulher tinha sido anorética e isso era consistente com a teoria de adição aventada por Fowler.

“Esse tipo de vício parece algo deslocado quando falamos de uma acompanhante de luxo,” Disse Bill. “Como é que podemos saber que era viciada?”

Fowler mostrou um cartão de negócios laminado que estava dentro de um saco de prova. Tinha uma foto provocadora de uma mulher morta nele. O nome no cartão era simplesmente “Nanette” e o negócio era “Ishtar Escorts”.

“Este cartão estava com a vítima quando foi encontrada,” Explicou Fowler. “A polícia entrou em contacto com a Ishtar Escorts e descobriu o nome verdadeiro da mulher, o que tornou possível identificá-la como a meia-irmã do Agente Holbrook.”

“Como é que foi asfixiada?” Perguntou Riley.

“Tem nódoas negras no pescoço,” Disse Fowler. “O assassino pode ter enfiado a cabeça da vítima num saco de plástico.”

Riley observou as marcas mais atentamente. Teria aquilo sido um jogo sexual que correu mal ou um ato homicida deliberado? Ainda não podia ter a certeza.

“O que tinha vestido quando foi encontrada?” Perguntou Riley.

Fowler abriu uma caixa que continha a roupa da vítima. Usava um vestido rosa com um decote cavado, mas não demasiado, claramente um degrau acima da típica prostituta de rua. Era o vestido de uma mulher que queria parecer muito sexy e ao mesmo tempo adequado como traje para clubes noturnos.

Junto ao vestido estava um saco de plástico com joias.

“Posso ver?” Perguntou Riley a Fowler.

“Força.”

Riley pegou no saco e observou o seu conteúdo. A maioria era bijuteria de razoável gosto – um colar de contas, pulseiras e brincos simples. Mas um elemento se destacava entre os outros. Um elegante anel de ouro com um diamante. Pegou nele e mostrou-o a Bill.

“Verdadeiro?” Perguntou Bill.

“Sim,” Respondeu Fowler. “Ouro verdadeiro e diamante verdadeiro.”

“O assassino não se deu ao trabalho de o roubar,” Comentou Bill. “Não teve nada a ver com dinheiro.”

Riley virou-se para Morley. “Gostava de ver o local onde o corpo foi encontrado,” Disse. “Agora mesmo, enquanto ainda temos luz do dia.”

Morley parecia intrigado.

“Podemos lá chegar de helicóptero,” Disse. “Mas não sei o que espera encontrar. Polícias e agentes passaram aquilo a pente fino.”

“Confie nela,” Disse Bill. “Ela vai encontrar alguma coisa.”




CAPÍTULO OITO


A ampla superfície do Lago Nimbo parecia quieta e tranquila quando o helicóptero se aproximou.

Mas as aparências enganam, Lembrou Riley a si mesma. Ela sabia melhor do que ninguém que superfícies calmas podiam esconder segredos terríveis.

O helicóptero desceu, oscilando enquanto pairava à procura de um lugar para aterrar. Riley sentiu-se um pouco enjoada graças àquele movimento irregular. Ela não gostava muito de helicópteros. Olhou para Bill sentado a seu lado. Não parecia melhor do que ela.

Mas quando Riley olhou para o Agente Holbrook, viu um rosto vazio. Mal tinha proferido uma palavra durante o voo de meia hora de Phoenix. Riley ainda não sabia muito bem o que pensar a respeito dele. Estava habituada a decifrar as pessoas facilmente, às vezes demasiado facilmente para o seu próprio gosto. Mas Holbrook ainda era para ela um enigma.

Finalmente o helicóptero tocou no solo e os três agentes do FBI pisaram terra firme, baixando-se debaixo das hélices que rodavam por cima das suas cabeças. A estrada onde o helicóptero aterrara não passava de uma faixa no meio das ervas do deserto onde se avistavam marcas de pneus paralelas.

Riley reparou que a estrada não parecia ser muito frequentada. Ainda assim, parecia que haviam passado por ali suficientes veículos na semana anterior para ocultar quaisquer marcas deixadas pelo veículo conduzido pelo assassino.

O ruidoso motor do helicóptero parou, tornando mais fácil a Riley e Bill conversarem com Holbrook enquanto o seguiam a pé até ao local onde o corpo fora encontrado.

“Diga-nos o que puder sobre lago,” Pediu Riley a Holbrook.

“É um de uma série de reservatórios criados por barragens ao longo do Rio Acacia,” Disse Holbrook. “É o mais pequeno dos lagos artificiais. Tem muito peixe e é um popular lugar de recreação, mas as áreas públicas estão situadas do outro lado do lago. O corpo foi descoberto por dois adolescentes pedrados. Vou mostra-vos o local exato.”

Holbrook levou-os para fora da estrada até um cume de pedra com vista para o lago.

“Os miúdos estavam aí onde está,” Disse. Apontou na direção da margem do lago. “Olharam lá para baixo e viram-na. Disseram que lhes parecia apenas uma forma escura na água.”

“Em que altura do dia é que os miúdos estiveram aqui?” Perguntou Riley.

“Um pouco mais cedo do que agora,” Respondeu Holbrook. “Tinham faltado à escola e pedraram-se.”

Riley abarcou a cena. O sol estava baixo e o topo das falésias vermelhas do outro lado do lago estavam iluminadas pelo sol. Alguns barcos flutuavam na água. A distância entre o local e a água não era muita, talvez apenas três metros.

Holbrook apontou para um lugar próximo onde o declive não era tão acentuado.

“Os miúdos foram até lá abaixo para verem mais de perto,” Disse. “Foi aí que descobriram do que é que se tratava.”

Pobres miúdos, Pensou Riley. Já haviam passado duas décadas desde que ela tinha experimentado marijuana na faculdade. Mesmo assim, podia muito bem imaginar o ampliado horror da descoberta sob a influência da droga.

“Queres ir até lá abaixo para vermos mais de perto?” Perguntou Bill a Riley.

“Não, vê-se bem daqui,” Disse Riley.

O seu instinto dizia-lhe que estava certa no essencial. Afinal de contas, de certeza que o assassino não tinha arrastado o corpo por aquele declive por onde os miúdos tinham descido.

Não, Pensou. Ele ficou aqui mesmo.

Parecia que a vegetação esparsa ainda estava quebradiça no local onde ela se encontrava.

Respirou fundo algumas vezes, tentando ver as coisas sob a perspetiva do assassino. Sem dúvida que ali tinha estado à noite. Mas a noite estava sem nuvens ou nublada? Bem, naquela época do ano no Arizona, o mais provável era a noite estar sem nuvens. E lembrou-se que a lua estaria luminosa há uma semana atrás. Na noite estrelada e banhada de luar, conseguiria ver o que estava a fazer com bastante nitidez – muito possivelmente até sem precisar de uma lanterna.

Riley imaginou o assassino a pousar o corpo ali. Mas o que fizera de seguida? Obviamente que fizera o corpo rebolar. Caíra diretamente na água.

Mas algo neste cenário parecia não bater certo. Pensou novamente, como já o fizera no avião, por que é que ele fora tão descuidado.

Na verdade, dali o mais certo era ele não ter conseguido ver que o corpo não se afundara muito. Os miúdos tinham descrito o saco como “uma forma negra na água”. Daquela altura, o saco submerso estaria provavelmente invisível até numa noite sem nuvens. Ele assumira que o corpo se tinha afundado, como sucede com os cadáveres recentes na água doce, sobretudo quando auxiliados pelo peso de pedras.

Mas porque é que ele partiu do princípio de que ali a água era profunda?

Espreitou na direção da água clara. À luz do fim de tarde, conseguia facilmente ver o ressalto submerso onde o corpo tinha aterrado. Era uma pequena área horizontal, não mais do que a ponta de uma pedra. À sua volta, a água era negra e profunda.

Olhou em redor do lago. Falésias despontavam de todos os lados na água. Era possível perceber que o Lago Nimbo tinha sido um desfiladeiro profundo antes da barragem o encher de água. Apenas detetara alguns locais onde se podia caminhar ao longo da margem. Os lados da falésia caíam na direção das profundezas.

À direita e à esquerda, Riley viu cumes semelhantes aos que vira do local onde se encontrava, a erguerem-se a uma altura aproximada. A água abaixo das falésias era negra, não mostrando sinais do tipo de ressalto que estava logo abaixo.

E foi então que Riley compreendeu.

“Ele já fez isto antes,” Disse a Bill e Holbrook. “Há outro corpo neste lago.”



*



Na viagem de helicóptero de regresso à sede da Divisão de Phoenix do FBI, Holbrook disse, “Então pensa que afinal sempre pode ser um caso de assassino em série?”

“Sim, acredito que sim,” Afirmou Riley.

Holbrook disse, “Eu não tinha a certeza. Estava sobretudo ansioso por ter na investigação alguém realmente bom. O que é que viu que a fez mudar de ideias?”

“Há outros ressaltos muito semelhantes àquele para onde ele empurrou o corpo,” Explicou Riley. “Já tinha usado um desses pontos antes e esse corpo afundara como era suposto. Mas talvez desta vez não tivesse encontrado esse mesmo local. Ou talvez pensasse que se tratava do mesmo local. De qualquer das formas, ele esperava obter o mesmo resultado desta vez e enganou-se.”

Bill disse, “Eu disse que ela ia encontrar alguma coisa.”

“Os mergulhadores vão ter que fazer buscas neste lago,” Acrescentou Riley.

“Isso vai exigir muito trabalho,” Disse Holbrook.

“Tem que ser feito de qualquer das formas. Há outro corpo algures. Podem ter a certeza que há. Não sei há quanto tempo lá está, mas está lá.”

Parou por um momento, avaliando mentalmente o que tudo aquilo indicava acerca da personalidade do assassino. Era competente e capaz. Não era um zé-ninguém patético como Eugene Fisk. Era mais como Peterson, o assassino que a tinha capturada a ela e a April. Era astuto e preparado, e gostava de matar – mais um sociopata do que um psicopata. Acima de tudo, ele era alguém confiante.

Talvez demasiado confiante para o seu próprio bem, Pensou Riley.

Essa confiança podia muito facilmente vir a ser a sua queda.

Riley disse, “O homem que procuramos não é um marginal. Aposto que é um cidadão normal, razoavelmente bem-educado, talvez com mulher e família. Ninguém que o conheça pensa que é um assassino.”

Riley observou o rosto de Holbrook à medida que falavam. Apesar de agora saber mais detalhes sobre o caso, Holbrook ainda lhe parecia completamente impenetrável.

O helicóptero circulou o edifício do FBI. Já anoitecera e a área em baixo estava bem iluminada.

“Olha para ali,” Disse Bill, apontando para a janela.

Riley olhou para onde Bill tinha apontado. Ficou surpreendida ao ver que dali o jardim de pedras parecia uma impressão digital gigantesca. Espalhava-se debaixo deles como um sinal de boas-vindas. Algum paisagista excêntrico decidira que aquela imagem de pedra era mais adequada para o novo edifício do FBI do que seria um jardim convencional. Centenas de pedras haviam sido cuidadosamente colocadas em filas curvas para criar a ilusão.

“Uau,” Disse Riley a Bill. “Que impressão terão usado? Alguém lendário. O Dillinger, talvez?”

“Ou talvez John Wayne Gacy. Ou Jeffrey Dahmer.”

Riley pensou que era um estranho espetáculo. No solo, ninguém poderia adivinhar que o arranjo de pedras seria algo mais do que um labirinto sem significado.

Quase lhe pareceu um sinal de aviso. Este caso ia exigir que ela visse as coisas sob uma nova e perturbadora perspetiva. Estava prestes a sondar uma escuridão que nem ela julgava possível existir.




CAPÍTULO NOVE


O homem gostava de observar as prostitutas. Gostava da forma como se juntavam na esquina e percorriam os passeios, geralmente aos pares. Considerava-as muito mais alegres do que as call girls ou as acompanhantes, propensas a perder as estribeiras mais facilmente.

Por exemplo, naquele preciso momento, vira uma a praguejar contra um grupo de rapazes malcriados que haviam tirado uma fotografia sua a partir de um carro. O homem não a censurava. Porque afinal de contas, ela estava ali para trabalhar, não para servir de cenário.

Onde está o respeito? Pensou o homem com um sorriso de escárnio. Estes miúdos de hoje em dia.

Agora os rapazes riam-se dela e gritavam-lhe obscenidades. Mas não conseguiam estar à altura das suas coloridas réplicas, algumas delas em Espanhol. O homem gostava do estilo dela.

Naquela noite estava à espreita, estacionado junto a uma fila de motéis baratos onde as prostitutas se reuniam. As outras raparigas tinham menos vivacidade do que aquela que ele vira praguejar. Em comparação, as suas tentativas de parecerem sexy eram estranhas e as suas tentativas de aliciamento de clientes eram cruas e vazias. Enquanto as observava viu uma delas a levantar a saia para mostrar as minúsculas cuecas ao condutor de um carro que passava em marcha lenta. O condutor não parou.

O homem mantinha debaixo de olho aquela que primeiro lhe tinha chamado a atenção. Andava por ali de forma pouco digna, a queixar-se às outras raparigas.

O homem sabia que a teria se quisesse. Podia muito bem ser a sua próxima vítima. Tudo o que tinha a fazer para chamar a sua atenção era conduzir na sua direção.

Mas não, não o faria. Nunca o fazia. Nunca abordara uma prostituta na rua. Ela é que tinha que o abordar. E o mesmo acontecia com as prostitutas que conhecia através de um serviço ou de um bordel. Fazia com que o encontrassem sozinho em separado, sem nunca perguntar diretamente. Assim, pareceria que a ideia partira delas.

Com alguma sorte, a rapariga alegre repararia no seu carro caro e encaminhar-se-ia na sua direção. O seu carro era um magnífico chamariz. E também o facto de se vestir bem.

Mas independentemente de como a noite terminasse, teria que ter mais cuidado do que da última vez. Fora descuidado ao largar o corpo naquele local à espera que se afundasse.

E que alvoroço tinha despoletado! A irmã de um agente do FBI! E até tinham chamado os melhores agentes de Quantico. Não lhe agradava. Ele não queria publicidade ou fama. Só queria satisfazer os seus desejos.

E não os tinha todas as noites? Que homem adulto saudável não tinha os seus desejos?

Agora iam enviar mergulhadores para o lago para procurarem corpos. Ele sabia bem o que lá podiam encontrar, mesmo passados três anos. E não lhe agradava nada.

E não era só por si. Estranhamente, sentia pena do lago. Mergulhadores a sondarem e espreitarem cada canto submerso e escuso, parecia-lhe algo obsceno e invasivo, uma indesculpável violação. Afinal, o lago não tinha feito nada de mal. Porque deveria ser importunado?

De qualquer das formas, não estava preocupado. Não havia forma de ligarem qualquer das vítimas a ele. Era simplesmente impossível de acontecer. Mas não ia regressar àquele lago. Ainda não decidira onde ia depositar a próxima vítima, mas tinha a certeza que tomaria uma decisão antes do fim da noite.

Agora a rapariga alegre olhava para o seu carro. Começou a caminhar atrevidamente na sua direção.

Baixou a janela do lado do passageiro e ela introduziu a cabeça lá dentro. A mulher era uma latina de pele morena, pesadamente maquilhada com batôn espesso, sombras coloridas e sobrancelhas ferozes que pareciam tatuagens. Os brincos eram crucifixos enormes e dourados.

“Belo carro,” Disse a mulher.

Ele sorriu.

“O que é que uma rapariga tão bonita como tu faz tão tarde na rua?” Perguntou o homem. “Não é hora de dormir?”

“Talvez me quisesses aconchegar,” Disse a mulher a sorrir.

Reparou que os dentes dela eram incrivelmente brancos e direitos. De facto, parecia notavelmente saudável. Isso era algo muito raro de encontrar ali nas ruas onde a maior parte das raparigas eram consumidoras de metanfetaminas.

“Gosto do teu estilo,” Disse o homem. “Muito chola.”

O sorriso dela alargou-se. Ele percebeu que se sentira elogiada.

“Como te chamas?” Perguntou o homem.

“Socorro.”

Ah, “socorro”, Pensou. A palavra espanhola para “ajuda”.

“Aposto que serias um grande socorro,” Disse o homem num tom malicioso.

E os olhos profundos e castanhos da mulher devolveram-lhe a malícia. “Parece que precisas de algum socorro neste momento.”

“Talvez precise,” Disse o homem.

Mas antes de começarem a discutir as condições, um carro parou logo atrás dele. Ouviu um homem a gritar da janela do condutor.

“¡Socorro!” Gritou. “¡Vente!”

A mulher ergueu-se com uma clara demonstração de indignação.

“¿Porqué?” Gritou ela.

“Vente aquí, ¡puta!”

O homem detetou um laivo de medo nos olhos da mulher. Não podia ser porque o homem no carro a chamara de puta. Assumiu que o homem fosse o proxeneta a ver ificar quanto dinheiro ela tinha ganho até àquele momento.

“¡Pinche Pablo!”Murmurou o insulto entredentes. Depois caminhou na direção do carro.

O homem ali ficou, a pensar se ela voltaria, se ainda quereria ir com ele. De qualquer das formas, ele não gostou daquilo. Esperar não era o seu estilo.

O seu interesse na rapariga desapareceu subitamente. Não, não se ia ralar com ela. Não tinha a menor ideia da sorte que tinha.

Para além disso, o que fazia ele ali? A sua próxima vítima tinha que ter mais classe.

Chiffon, Pensou. Quase se tinha esquecido da Chiffon. Mas talvez a esteja a reservar para uma ocasião especial.

Ele podia esperar. Não tinha que ser naquela noite. Saiu do bairro, regozijando-se com a sua demonstração de contenção apesar dos seus imensos desejos. Considerava aquela uma das suas melhores qualidades.

Afinal, ele era um homem muito civilizado.




CAPÍTULO DEZ


As três jovens mulheres que se encontravam na sala de interrogatório não se pareciam minimamente com aquilo que Riley esperava. Durante alguns momentos, limitou-se a observá-las através do vidro. Estavam vestidas com elegância, quase como secretárias bem pagas. Tinham-lhe dito que se chamavam Mitzi. Koreen e Tantra. É claro que Riley tinha a certeza de que aqueles não eram os seus nomes verdadeiros.

Riley também duvidava que se vestissem de forma tão aceitável quando estavam a trabalhar. A trabalhar por cerca de 250 dólares à hora, com certeza que investiriam em guarda-roupas elaborados para se ajustarem a todas as fantasias dos seus clientes. Tinham sido colegas de Nancy “Nanette” Holbrook na Ishtar Escorts. As roupas que Nancy Holbrook vestia quando foi morta eram nitidamente menos próprias. Mas Riley presumiu que quando não estivessem a trabalhar, aquelas mulheres queriam ter uma aparência respeitável.

Apesar das prostitutas terem desempenhado um papel em alguns dos casos que Riley investigara no passado, aquela era a primeira vez que trabalhava tão de perto com elas. Aquelas mulheres eram elas próprias potenciais vítimas. Até podiam ser potenciais suspeitas, apesar de virtualmente todos os homicídios daquele género serem executados por homens. Riley tinha a certeza que aquelas mulheres não eram o tipo de monstros com que tantas vezes se deparara nas suas investigações.

Já era domingo à tardinha. Na noite anterior, Riley e Bill tinham-se instalado nos seus confortáveis quartos de hotel, não muito distantes do edifício do FBI. Riley ligara a April que se encontrava em Washington, D.C. numa visita de estudo de história. April estava risonha e feliz, e avisara a mãe que não tinha muito tempo a perder com chamadas. “Amanhã envio-te uma mensagem,” Disse April, gritando por cima do barulho adolescente que a rodeava.




Конец ознакомительного фрагмента.


Текст предоставлен ООО «ЛитРес».

Прочитайте эту книгу целиком, купив полную легальную версию (https://www.litres.ru/pages/biblio_book/?art=43693551) на ЛитРес.

Безопасно оплатить книгу можно банковской картой Visa, MasterCard, Maestro, со счета мобильного телефона, с платежного терминала, в салоне МТС или Связной, через PayPal, WebMoney, Яндекс.Деньги, QIWI Кошелек, бонусными картами или другим удобным Вам способом.


