A Espera 
Blake Pierce


Os Primórdios Riley Paige #2
Uma obra-prima de thriller e mistério! O autor fez um trabalho magnífico no desenvolvimento das personagens com um lado psicológico tão bem trabalhado que temos a sensação de estar dentro das suas mentes, sentindo os seus medos e aplaudindo os seus sucessos. A história é muito inteligente e mantém-nos interessados durante todo o livro. Pleno de reviravoltas, este livro obriga-nos a ficar acordados até à última página. Books and Movie Reviews, Roberto Mattos (re Sem Pistas) A ESPERA (Os Primórdios de Riley Paige – Livro Dois) é o livro #2 de uma nova série de thrillers psicológicos escrito pelo autor de sucesso Blake Pierce, cujo best-seller gratuito Sem Pistas (Livro #1) recebeu mais de 1,000 opiniões com cinco estrelas. A brilhante estagiária do FBI, Riley Paige de 22 anos luta para decifrar enigmas de um assassino em série sádico apelidado pelos meios de comunicação social como o assassino palhaço – mas descobre que tudo se torna demasiado pessoal quando ela própria se torna o alvo e tem de lutar pela vida. A recém-licenciada Riley Paige é aceite num programa de verão do FBI e está determinada a ser bem-sucedida. Exposta a muitos departamentos do FBI, pensa que será um verão sossegado – até que um assassino em série assombra Washington. Apelidado de assassino palhaço, veste e pinta as suas vítimas como palhaços e zomba do FBI com enigmas fascinantes nos meios de comunicação social. Deixa todos a pensar: será que ele é um palhaço?Parece que apenas Riley tem uma mente suficientemente brilhante para descodificar as respostas. E no entanto, a viagem até à mente do assassino é demasiado obscura – e a batalha demasiado pessoal – para Riley sair incólume. Poderá ela vencer aquele jogo mortal do gato e do rato?Um thriller pleno de ação com suspense de cortar a respiração, A ESPERA é o livro #2 de uma nova série alucinante que o obrigará a não largar o livro até o terminar. Os leitores vão recuar 20 anos até ao início da carreira de Riley – e é o complemento perfeito para a série SEM PISTAS (Um Mistério de Riley Paige) que já conta com 13 livros e continua. O livro #3 da série OS PRIMÓRDIOS DE RILEY PAIGE estará brevemente disponível.







A ESPERA



(OS PRIMÓRDIOS DE RILEY PAIGE—LIVRO 2)



B L A K E P I E R C E


Blake Pierce



Blake Pierce é o autor da série de enigmas RILEY PAGE, com doze livros (com outros a caminho). Blake Pierce também é o autor da série de enigmas MACKENZIE WHITE, composta por oito livros (com outros a caminho); da série AVERY BLACK, composta por seis livros (com outros a caminho), da série KERI LOCKE, composta por cinco livros (com outros a caminho); da série de enigmas PRIMÓRDIOS DE RILEY PAIGE, composta de dois livros (com outros a caminho); e da série de enigmas KATE WISE, composta por dois livros (com outros a caminho).



Como um ávido leitor e fã de longa data do gênero de suspense, Blake adora ouvir seus leitores, por favor, fique à vontade para visitar o site www.blakepierceauthor.com (http://www.blakepierceauthor.com) para saber mais a seu respeito e também fazer contato.



Copyright© 2018 Blake Pierce. Todos os direitos reservados. Exceto como permitido sob o Copyright Act dos Estados Unidos de 1976, nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, distribuída ou transmitida por qualquer forma ou meios, ou armazenada numa base de dados ou sistema de recuperação sem a autorização prévia do autor. Este ebook está licenciado apenas para seu usufruto pessoal. Este ebook não pode ser revendido ou dado a outras pessoas. Se gostava de partilhar este ebook com outra pessoa, por favor compre uma cópia para cada recipiente. Se está a ler este livro e não o comprou ou não foi comprado apenas para seu uso, por favor devolva-o e compre a sua cópia. Obrigado por respeitar o trabalho árduo deste autor. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, empresas, organizações, locais, eventos e incidentes ou são o produto da imaginação do autor ou usados ficcionalmente. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou falecidas, é uma coincidência. Jacket image Copyright Artem Oleshko, usado sob licença de Shutterstock.com.


LIVROS ESCRITOS POR BLAKE PIERCE



SÉRIE DE ENIGMAS KATE WISE

SE ELA SOUBESSE (Livro n 1)

SE ELA VISSE (Livro n 2)



SÉRIE OS PRIMÓRDIOS DE RILEY PAIGE

ALVOS A ABATER (Livro #1)

ESPERANDO (Livro #2)



SÉRIE DE MISTÉRIO DE RILEY PAIGE

SEM PISTAS (Livro #1)

ACORRENTADAS (Livro #2)

ARREBATADAS (Livro #3)

ATRAÍDAS (Livro #4)

PERSEGUIDA (Livro #5)

A CARÍCIA DA MORTE (Livro #6)

COBIÇADAS (Livro #7)

ESQUECIDAS (Livro #8)

ABATIDOS (Livro #9)

PERDIDAS (Livro #10)

ENTERRADOS (Livro #11)

DESPEDAÇADAS (Livro #12)

SEM SAÍDA (Livro #13)



SÉRIE DE ENIGMAS MACKENZIE WHITE

ANTES QUE ELE MATE (Livro nº1)

ANTES QUE ELE VEJA (Livro nº2)

ANTES QUE COBICE (Livro nº3)

ANTES QUE ELE LEVE (Livro nº4)

ANTES QUE ELE PRECISE (Livro nº5)

ANTES QUE ELE SINTA (Livro nº6)

ANTES QUE ELE PEQUE (Livro nº7)

ANTES QUE ELE CAÇE (Livro nº8)

ANTES QUE ELE ATAQUE (Livro nº9)



SÉRIE DE ENIGMAS AVERY BLACK

MOTIVO PARA MATAR (Livro nº1)

MOTIVO PARA CORRER (Livro nº2)

MOTIVO PARA SE ESCONDER (Livro nº3)

MOTIVO PARA TEMER (Livro nº4)

MOTIVO PARA SALVAR (Livro nº5)

MOTIVO PARA SE APAVORAR (Livro nº6)



SÉRIE DE ENIGMAS KERI LOCKE

UM RASTRO DE MORTE (Livro nº1)

UM RASTRO DE HOMICÍDIO (Livro nº2)

UM RASTRO DE IMORALIDADE (Livro nº3)

UM RASTRO DE CRIME (Livro nº4)

UM RASTRO DE ESPERANÇA (Livro nº5)


ÍNDICE



PRÓLOGO (#uc2cab47d-da0c-5397-a17d-df2a8ceb4abb)

CAPÍTULO UM (#u457412dd-8e50-5c22-9d87-63fac82d3b37)

CAPÍTULO DOIS (#uc423f0fb-0dbe-5310-8cf9-39aca4185765)

CAPÍTULO TRÊS (#u7272efa1-6a6b-58da-b9b0-03446ef53176)

CAPÍTULO QUATRO (#u325d64ef-7a47-5d34-aaad-a69451f37fda)

CAPÍTULO CINCO (#u1fefcdbc-e239-5052-99f6-3ba765e5b721)

CAPÍTULO SEIS (#u9aa83e53-5766-5b60-85cd-232b3fe3b9b8)

CAPÍTULO SETE (#u88c46732-f193-5e83-9da3-664f6ad91d1c)

CAPÍTULO OITO (#uc4c7c602-94de-5c99-b86e-dc400e23e55a)

CAPÍTULO NOVE (#uf216cedb-9887-565f-b5c1-7f8788d8b9b4)

CAPÍTULO DEZ (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO ONZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DOZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TREZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO CATORZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUINZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZASSEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZASSETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZOITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZANOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E DOIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E TRÊS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E QUATRO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E CINCO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E SEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E SETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E OITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E NOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E DOIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E TRÊS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E QUATRO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E CINCO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E SEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E SETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E OITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E NOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUARENTA (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUARENTA E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUARENTA E DOIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUARENTA E TRÊS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUARENTA E QUATRO (#litres_trial_promo)




PRÓLOGO


A princípio, Janet Davis não tinha noção de nada a não ser da terrível dor que lhe atravessava o crânio como se mil castanholas soassem em uníssono.

Tinha os olhos fechados. Quando tentou abri-los, foi cega por uma brilhante luz branca e foi obrigada a fechá-los novamente.

A luz aqueceu o seu rosto.

Onde é que estou? Perguntou-se.

Onde é que eu estava antes… antes disto ter acontecido?

E então começou a lembrar-se…

Estivera a tirar fotos nos pântanos perto do Lady Bird Jonhson Park. O verão já ia muito adiantado para os milhões de narcisos florescerem, mas as folhas dos cornisos eram de um lindo verde, particularmente bonito à hora do pôr do sol.

Ela estava na marina a fotografar os barcos e o magnífico jogo de luzes do pôr do sol na água quando ouviu passos a aproximarem-se rapidamente atrás dela. Antes de ter tempo para se virar e olhar, sentiu uma forte pancada na nuca e a câmara voara-lhe das mãos, e…

Acho que perdi a consciência.

Mas onde estava ela agora?

Estava demasiado atordoada para sentir medo, mas sabia que não faltaria muito para ele entrasse em cena.

Aos poucos começou a aperceber-se de que estava deitada de costas numa superfície dura.

Não conseguia mexer as pernas. As mãos e pés estavam dormentes de estar amarrada pelos pulsos e tornozelos.

Mas a sensação mais estranha era de dedos no seu rosto, espalhando algo suave e húmido na sua pele quente.

Conseguiu articular algumas palavras.

“Onde é que estou? O que é que está a fazer?”

Quando não lhe foi dada qualquer resposta, retorceu a cabeça, tentando fugir ao aborrecido movimento das pontas dos dedos viscosas.

Ouviu uma voz de homem a murmurar…

“Fique quieta.”

Ela não tinha intenção de ficar quieta. Continuou a retorcer-se até os dedos se afastarem.

Ouviu um suspiro audível de desaprovação. Depois a luz mudou de direção, já não estava diretamente virada para o seu rosto.

“Abra os olhos,” Disse a voz.

Ela abriu.

A brilhar à sua frente estava a lâmina afiada de uma faca de açougueiro. A ponta da faca aproximou-se do seu rosto, fazendo-a entortar os olhos e ver a lâmina em duplicado.

Janet arfou e a voz sussurrou novamente…

“Fique quieta.”

Congelou, olhando diretamente para cima, mas um espasmo de terror apoderou-se do seu corpo.

A voz silvou uma ordem mais uma vez.

“Eu disse quieta.”

Ela tentou manter o corpo quieto. Tinha os olhos abertos, mas a luz era dolorosamente brilhante e quente, impossibilitando que conseguisse ver o que quer que fosse com clareza.

A faca afastou-se e os dedos continuaram a esfregar, desta vez em torno dos seus lábios. Ela cerrou os dentes e conseguia ouvi-los a rangerem.

“Estou quase a terminar,” Disse a voz.

Apesar do calor, Janet começou a tremer de medo.

Os dedos começaram a esfregar à volta dos olhos agora e ela teve que os fechar outra vez para evitar que o que o homem espalhava entrasse dentro deles.

Então os dedos afastaram-se do seu rosto e ela pode abrir os olhos novamente. Agora conseguia ver a silhueta de uma cabeça com uma forma grotesca a movimentar-se na luz flamejante.

Sentiu um soluço de pavor sair-lhe da garganta.

“Deixe-me ir,” Disse ela. “Por favor, deixe-me ir.”

O homem não disse nada. Ela sentiu-o a apalpar o seu braço esquerdo agora, prendendo algo elástico à volta do bíceps e depois apertando-o dolorosamente.

O pânico de Janet auentou e ela tentou não imaginar o que estava prestes a acontecer.

“Não,” Disse ela. “Não faça isso.”

Ela sentiu um dedo a sondar-lhe a curva do braço e depois a dor penetrante de uma agulha a entrar numa artéria.

Janet soltou um grito de horror e desespero.

Então, ao sentir a agulha recuar, uma estranha transformação tomou conta de si.

O seu grito de repente converteu-se em…

Riso!

Ria-se vibrantemente, incontrolavelmente, repleta de uma euforia louca que nunca sentira antes.

Naquele momento sentia-se completamente invencível, forte e poderosa.

Mas quando tentou libertar-se novamente do que lhe prendia os pulsos e tornozelos, não conseguiu.

O seu riso transformou-se num acesso de fúria violenta.

“Deixe-me ir embora,” Silvou ela. “Deixe-me ir ou juro por Deus que o mato!”

O homem soltou uma risada.

Depois inclinou a sombra metálica do candeeiro para que a sua luz iluminasse o seu rosto.

Era o rosto de um palhaço, pintado de branco com uns enormes olhos estranhos e lábios pintados de preto e vermelho.

Janet susteve a respiração durante alguns segundos perante aquela visão.

O homem sorriu com uns dentes amarelos que constrastavam com o resto do rosto colorido.

Disse-lhe…

“Vão deixá-la para trás.”

Janet queria perguntar…

Quem?

De quem está a falar?

E quem é você?

Porque é que me está a fazer isto?

Mas agora nem sequer conseguia respirar.

A faca surgiu novamente à sua frente. Depois o homem colocou a sua ponta afiada na sua bochecha, descendo ao rosto e até à garganta. A mínima pressão e Janet sabia que a faca a magoaria.

A sua respiração não normalizava.

Ela sabia que estava a começar a hiperventilar, mas não conseguia controlar a respiração. Sentia o coração a bater dentro do peito, conseguia sentir e ouvir a sua pulsação violenta a aumentar a cada segundo.

Perguntou-se…

O que estava naquela agulha?

Fosse o que fosse, os seus efeitos estavam a tornar-se mais evidentes a cada segundo que passava. Não conseguia fugir ao que se passava com o seu próprio corpo.

Enquanto continuava a afagar-lhe o rosto com a ponta da faca, o homem murmurou…

“Vão deixá-la para trás.”

Ela conseguiu articular…

“Quem? Quem é que me vai deixar para trás?”

“Você sabe quem,” Disse ele.

Janet apercebeu-se que estava a perder o controlo dos seus pensamentos. Estava imersa em ansiedade e pânico, em sentimentos loucos de perseguição e vitimização.

A quem é que ele se refere?

Imagens de amigos, membros da família e colegas atravessaram-lhe a cabeça.

Mas os seus sorrisos familiares e amigáveis transformaram-se em caretas de desprezo e ódio.

Toda a gente, Pensou ela.

Toda a gente me está a fazer isto.

Todas as pessoas que já conheci.

Mais uma vez, sentiu uma explosão de raiva.

Devia saber que não devia confiar em ninguém.

Pior, ela sentiu como se a sua pele se estivesse a mover.

Não, algo estava a rastejar por toda a sua pele.

Insectos! Pensou.

Milhares deles!

Tentou libertar-se.

“Tire-os de cima de mim!” Implorou ao homem. “Mate-os!”

O homem riu enquanto a observava através da sua maquilhagem grotesca.

Não se ofereceu para a ajudar.

Ele sabe alguma coisa, Pensou Janet.

Ele sabe alguma coisa que eu não sei.

Então ocorreu-lhe…

Os insectos…

Eles não estão a rastejar na minha pele.

Eles estão a rastejar debaixo dela!

A sua respiração ecelerou e os pulmões queimaram como se tivesse corrido uma longa distância. O coração batia dolorosamente.

A sua cabeça explodia com emoções violentas – fúria, medo, nojo, pânico e completa perplexidade.

Teria o homem injetado milhares, talvez milhões de insectos na sua corrente sanguínea?

Como é que isso era sequer possível?

Numa voz que oscilava entre a raiva e a autocomiseração, ela perguntou…

“Porque é que me odeia?”

Desta vez o homem riu-se num tom mais elevado.

Ele disse, “Toda a gente a odeia.”

Agora Janet tinha dificuldades e ver. A sua visão não estava a ficar desfocada. Antes, a cena à sua frente parecia estar a retorcer-se e a oscilar e a saltar. Ela imaginou que conseguia ouvir as suas órbitas.

Por isso, quando viu outro rosto de palhaço, pensou estar a ver em duplicado.

Mas rapidamente percebeu…

Este rosto é diferente…

Estava pintado com as mesmas cores, mas as formas eram diversas.

Não é ele.

Por baixo da tinta estavam traços familiares.

Então ocorreu-lhe…

Eu. Sou eu.

O homem segurava um espelho em frente ao seu rosto. O rosto hediondamente garrido que via era o seu.

A visão daquele semblante distorcido, choroso e, no entanto, gozão, encheu-a de uma repugnância que nunca antes sentira.

Ele tem razão, Pensou.

Toda a gente me odeia.

E eu sou o meu pior inimigo.

Como se partilhassem a sua repugnânica, as criaturas debaixo da sua pele começaram a remexer como baratas subitamente expostas à luz do sol e impossibilitadas de se esconderem.

O homem afastou o espelho e começou a acariciar o seu rosto com a ponta da faca novamente.

E disse mais uma vez…

“Vão deixá-la para trás.”

Quando a faca roçou a sua garganta, ocorreu-lhe…

Se ele me cortar os insectos podem fugir.

É claro que a lâmina também a mataria. Mas isso parecia um baixo preço a pagar para se libertar dos insectos e daquele terror.

Ela sussurrou…

“Faça-o. Faça-o agora.”

De repente, o ar preencheu-se com um riso feio e distorcido, como se milhares de palhaços estivessem a regozijar-se ruidosamente com o seu pedido.

O riso fez com que o seu coração batesse ainda com mais descompassadamente. Janet sabia que o seu coração não aguentaria muito mais.

E ela não queria.

Ela queria que ele parasse o mais rapidamente possível.

Deu por si a tentar contar as batidas…

Uma, duas… três, quatro, cinco… seis…

Mas as batidas eram mais rápidas e menos regulares.

Interrogou-se – o que é que iria explodir primeiro, o seu coração ou o seu cérebro?

Então, finalmente, ouvia a sua última batida e o mundo desapareceu.




CAPÍTULO UM


Riley se riu quando Ryan lhe tirou a caixa de livros.

Disse, “Me deixa levar alguma coisa, OK?”

“É demasiado pesada,” Disse Ryan, carregando a caixa até à estante vazia. “Não devia levantá-la.”

“Então, Ryan. Estou grávida, não doente.”

Ryan pousou a caixa em frente à estante e sacudiu as mãos.

“Pode tirar os livros e colocá-los na estante,” Disse ele.

Riley se riu novamente.

Perguntou, “Quer dizer que me está dando autorização para me mudar para o nosso apartamento?”

Agora Ryan parecia envergonhado.

“Não era isso que eu queria dizer,” Disse. “É só porque… bem, fico preocupado.”

“E não me canso de lhe dizer, não tem nada com que se preocupar,” Disse Riley. “Só estou grávida de seis semanas e me sinto ótima.”

Preferiu não falar nos enjoos matinais ocasionais. Até ao momento não tinham sido muito graves.

Ryan abanou a cabeça. “Tente não exagerar, OK?”

“Não exagero,” Disse Riley. “Prometo.”

Ryan anuiu e voltou à pilha de caixas ainda por abrir.

Riley abriu a caixa de cartão à sua frente e começou a colocar livros nas prateleiras. Na verdade, se sentia feliz por estar sossegada e a fazer uma tarefa simples. Se apercebeu de que a sua mente precisava mais de descanso do que o corpo.

Os últimos dias tinham sido muito ocupados.

Na verdade, também as últimas semanas tinham sido agitadas.

O dia da graduação da licenciatura em psicologia tinha sido um dia louco e de grandes mudanças. Logo após a cerimónia, um agente do FBI a tinha recrutado para o Honors Internship Summer Program da agência com duração de dez semanas. Logo após isso, Ryan lhe tinha pedido para ir viver com ele assim que começassse a trabalhar.

O mais incrível de tudo é que tanto o programa de internato como o novo emprego de Ryan eram em Washington, DC. Dessa forma, ela não tivera que escolher.

Pelo menos ele não se passou quando lhe disse que já estava grávida, Pensou.

Na verdade, parecera maravilhado. Ficara mais nervoso com a ideia da vinda de um bebé a partir da graduação – mas Riley também não estava menos nervosa.

A simples ideia a deixava confusa. Estavam a começar uma vida em comum e muito em breve estariam a partilhar a maior das responsabilidades – criar um filho.

Espero bem que estejamos prontos, Pensou Riley.

Entretanto, sentiu uma certa estranheza em arrumar os seus livros de psicologia nas prateleiras. Ryan tentara convencê-la a vendê-los e ela sabia que provavelmente era o que devia fazer…

Deus é testemunha de quanto nos faz falta cada cêntimo.

Ainda assim, tinha a sensação de que precisaria deles no futuro. Só não sabia porquê ou para quê.

De qualquer das formas, a caixa também continha muitos livros de direito de Ryan e ele não considerara vender nenhum deles. É claro que provavelmente os usaria no seu novo emprego como advogado estagiário no escritório de advogados de DC da Parsons and Rittenhouse.

Quando a caixa ficou vazia e os livros todos arrumados nas prateleiras, Riley se sentou no chão a observar Ryan que não parava de empurrar e reposicionar mobília como se tentasse encontrar o lugar perfeito para tudo.

Riley conteve um suspiro…

Pobre Ryan…

Ela sabia que Ryan não estava satisfeito com aquele apartamento numa cave. Ele tinha um apartamento mais simpático em Lanton com a mesma mobília que trouxera – uma agradável coleção boémia de artigos em segunda mão.

Na opinião dela, as coisas de Ryan ainda lhe pareciam muito bem ali. E o pequeno apartamento não a incomodava nem um pouco. Se habituara a um quarto de dormitório em Lanton, por isso, aquele lugar parecia um luxo apesar dos tubos cobertos, pendurados no quarto e na cozinha.

É verdade que os apartamentos dos andares superiores eram mais simpáticos, mas esse era o único disponível. Quando Ryan o vira pela primeira vez, quase recusara arrendá-lo. Mas a verdade era que aquilo era o máximo que podiam pagar. Já estavam muito sobrecarregados financeiramente. Ryan tinha atingido o plafon máximo do cartão de crédito com as despesas da mudança, o depósito do apartamento e tudo o mais que precisavam naquele momento de suas vidas.

Finalmente, Ryan olhou para Riley e disse, “Que acha se fizermos uma pausa?”

“Claro,” Concordou Riley.

Riley se levantou do chão e se sentou à mesa da cozinha. Ryan tirou dois refrigerantes da geleira e se sentou ao lado dela. Ficaram em silêncio durante alguns momentos e Riley pressentiu de imediato que Ryan tinha algo em mente.

Por fim, Ryan tamborilou os dedos na mesa e disse…

“Uh, Riley, temos que conversar sobre uma coisa.”

Parece mesmo sério, Pensou Riley.

Ryan se calou novamente com um olhar distante.

“Não vais acabar tudo comigo, pois não?” Perguntou.

É claro que estava a brincar.

Mas Ryan não se riu. Nem parecia ter ouvido a pergunta.

“Hã? Não, não é nada disso, é que…”

A sua voz se suspendeu e Riley se sentiu desconfortável.

O que se passa? Questionou-se. Será que o emprego de Ryan não se concretizara ou algo do género?

Ryan olhou Riley nos olhos e disse…

“Não te rias de mim, OK?”

“Porque é que me havia de rir?” Perguntou Riley.

Um tanto abalado, Ryan se levantou e se ajoelhou ao lado de Riley.

E então Riley percebeu…

Oh meu Deus! Ele vai-me pedir em casamento!

E obviamente, riu-se. É claro que era um riso nervoso.

Ryan corou profundamente.

“Eu pedi para você não rir,” Disse ele.

“Não estou rindo de você, “ Disse Riley. “Vai, diga o que tem a dizer. Tenho a certeza… bem, avance.”

Ryan remexeu nos bolsos de onde tirou uma pequena caixa. Abriu-a, revelando um modesto mas encantador anel de diamante. Riley suspirou.

Ryan gaguejou…

“Uh, Riley Sweeney, quer… casar comigo?”

Tentando sem sucesso abafar suas risadinhas nervosas, Riley conseguiu dizer…

“Oh, sim. Absolutamente.”

Ryan tirou o anel da caixa e Riley estendeu sua mão esquerda, deixando-o colocá-lo em seu dedo.

“É lindo,” Disse Riley. “Agora se levante e se sente qui comigo.”

Ryan sorriu envergonhadamente ao sentar-se a seu lado.

“Ajoelhar-me foi demais?” Perguntou.

“Foi perfeito,” Disse Riley. “Foi tudo…. Perfeito.”

Ela olhou num relance para o pequeno anel de diamante no seu dedo. O seu ataque de riso nervoso já tinha passado e agora sentia um nó de emoção se formando na garganta.

Não estava à espera. Nem se atrevera a sonhar com aquilo – pelo menos não imaginara que pudesse acontecer tão cedo.

Mas ali estavam ela e Ryan a dar outro salto gigantesco nas suas vidas.

Enquanto observava a luz incidindo no diamante, Ryan disse…

“Um dia ofereço-te um anel mais bonito.”

Riley nem queria acreditar.

“Nem te atrevas!” Disse. “Esse vai ser sempre o meu único anel de noivado!”

Mas ao observar o anel, não conseguiu evitar preocupar-se…

Quanto é que terá custado?

Como se lhe estivesse a ler os pensamentos, Ryan disse…

“Não te preocupes com o anel.”

O sorriso tranquilizador de Ryan despreocupou-a num instante. Ela sabia que ele não era de cometer loucuras no que dizia respeito ao dinheiro. O mais certo era tê-lo comprado por um bom preço – apesar de não se atrever a perguntar.

Então Riley reparou que a expressão de Ryan se alterou quando olhou em seu redor para o apartamento.

“Passa-se alguma coisa?” Perguntou.

Ryan soltou um suspiro e disse, “Vou melhorar a sua vida. Prometo.”

Riley se sentiu estranhamente abalada.

Perguntou, “O que tem de mal a vida que temos agora? Somos jovens e amamo-nos e vamos ter um bebé e…”

“Você sabe do que estou falando,” Disse Ryan, interrompendo-a.

“Não, não sei bem,” Disse Riley.

Um silêncio se interpôs entre eles.

Ryan suspirou novamente e disse, “Ouça, vou começar o trabalho amanhã com um salário de estagiário. Não me sinto propriamente alguém bem-sucedido. Mas é um bom escritório e se lá continuar, vou subir na hierarquia e quem sabe me possa tornar sócio um dia.”

Riley olhou para ele fixamente.

“Um dia, claro,” Disse ela. “Mas já é um grande começo e eu gosto do que temos neste momento.”

Ryan encolheu os ombros. “Não temos muito. Para começar, só temos um carro e vou precisar dele para ir para o trabalho, o que quer dizer que…”

Riley interrompeu-o, “O que quer dizer que eu apanho o metro para o programa de treino todas as manhãs. O que é que isso tem de mal?”

Ryan pegou na mão de Riley.

“Até à paragem mais próxima de metro é uma caminhada de dois quarteirões,” Disse ele. “E este não é o bairro mais seguro do mundo. Não gosto que tenha que andar sozinha. Fico preocupado.”

Riley se sentiu invadir por um sentimento estranho e desagradável. Ainda não sabia ao certo que sentimento era esse.

Disse, “Será que não lhe passou pela cabeça que eu até gosto desse bairro? Passei toda a minha vida na Virginia rural. Isto é uma mudança excitante, uma aventura. Para além disso, você sabe que sou dura. Meu pai era capitão dos Marines. Ele me ensinou a tomar conta de mim.”

Quase acrescentou…

E sobrevivi ao ataque de um assassino em série há alguns meses atrás, se lembras?

Não só sobrevivera ao ataque, como ajudara o FBI a identificar o assassino e a prendê-lo. Por isso lhe deram a oportunidade de se juntar ao programa de treino.

Mas ela sabia que Ryan não queria saber disso naquele momento. O seu orgulho masculino estava delicado.

E Riley se apercebeu de algo….

Fico realmente ressentida com isso.

Riley escolheu as palavras cuidadosamente, tentando não dizer a coisa errada…

“Ryan, sabe, tornar a nossa vida melhor não depende apenas de você. Depende de ambos. Eu tenho uma palavra a dizer. Vou ter a minha própria carreira.”

Ryan desviou o olhar.

Riley conteve um suspiro ao perceber…

Afinal disse a coisa errada.

Quase se esquecera que Ryan não apoiava o seu internato de verão. Lembrara-lhe que eram apenas dez semanas e que não era treino físico. Apenas iria observar agentes a trabalhar, sobretudo a nível interno. Para além disso, estava convencida que até podia resultar num trabalho de escritório ali mesmo na sede do FBI.

Ele se tornara mais recetivo à ideia, mas continuava a não o entusiasmar.

Riley não sabia o que ele preferia para ela.

Será que ele queria que ela fosse mãe a tepo inteiro? Se fosse esse o caso, ia ficar desiludido mais cedo ou mais tarde.

Mas aquele não era o momento para pensar naquilo.

Não estragues este momento, Disse Riley a si própria.

Olhou novamente para o seu anel e depois para Ryan.

“É lindo,” Disse ela. “Estou muito feliz, Obrigada.”

Ryan sorriu e apertou-lhe a mão.

Então Riley disse, “Então com quem é que vamos partilhar a notícia?”

Ryan encolheu os ombros. “Não sei. Ainda não temos amigos aqui em DC. Acho que posso falar com alguns dos meus amigos da faculdade de direito. Talvez possas ligar ao teu pai.”

A ideia não agradou a Riley. A última visita que fizera ao pai não fora agradável. A sua relação sempre fora profundamente atribulada.

E para além disso…

“Ele não tem telefone, lembras-te?” Disse Riley. “Ele vive sozinho nas montanhas.”

“Ah, pois é,” Disse Ryan.

“E os teus pais?” Perguntou Riley.

O sorriso de Ryan desvaneceu-se.

“Escrevo-lhes a contar,” Disse ele.

Riley teve que se impedir de perguntar…

E porque é que não lhes ligas?

Talvez nessa altura pudesse finalmente falar com eles.

Riley nunca conhecera os pais de Ryan que viviam na pequena cidade de Munny, Virginia.

Riley sabia que Ryan tinha crescido entre pessoas da classe trabalhadora e que sentia alguma ansiedade em deitar essa vida para trás das costas.

Interrogava-se se sentiria vergonha deles ou…

Terá vergonha de mim?

Será que eles sabem que estamos a viver juntos?

Aprovariam?

Mas antes que Riley pudesse pensar na melhor forma de abordar o assunto, o telefone tocou.

“Talvez pudéssemos não atender,” Disse Ryan.

Riley pensou durante um momento enquanto o telefone continuava a tocar.

“Pode ser importante,” Disse ela. Dirigiu-se ao telefone e atendeu a chamada.

Uma voz masculina alegre e profissional disse, “Posso falar com Riley Sweeney?”

“É a própria,” Disse Riley.

“Daqui fala Hoke Gilmer, o seu supervisor do programa de treino do FBI. Só lhe queria lembrar…”

Riley disse, entusiasmada, “Sim, eu sei! Lá estarei cedinho às sete da manhã de amanhã!”

“Ótimo!” Respondeu Hoke. “Estou ansioso por conhecê-la.”

Riley desligou o telefone e olhou para Ryan. Ele estava com um olhar pensativo.

“Uau,” Disse ele. “Tudo se está a concretizar, não é?”

Riley percebeu como é que ele se estava a sentir. Desde que se tinham mudado de Lanton que raramente tinham estado afastados um do outro.

E agora, amanhã, ambos iriam para os seus empregos.

Riley disse, “Talvez precisemos de fazer alguma coisa especial juntos.”

“Boa ideia,” Disse Ryan. “Talvez ir ao cinema e a um restaurante simpático e…”

Riley riu ao agarrá-lo pela mão, levantando-o.

“Tenho uma ideia melhor,” Disse ela.

Arrastou-o para o quarto onde caíram na cama a rir.




CAPÍTULO DOIS


Riley sentiu o coração a acelerar quando saiu na paragem de metro em direção ao enorme edifício branco J. Edgar Hoover.

Porque é que estou tão nervosa? Perguntou a si mesma. Afinal, ela tiha conseguido fazer a sua primeira viagem sozinha no metro de uma cidade com uma dimensão inédita para ela até ao momento.

Tentou convencer-se a si mesma de que não era uma mudança assim tão drástica – que ia simplesmente mais uma vez para a escola, tal como sucedera em Lanton.

Mas não conseguia evitar sentir-se impressionada e assustada. Para começar, o edifício estava situado na Avenida Pensilvânia, mesmo entre a Casa Branca e o Capitólio. Ela e Ryan tinham passado pelo edifício no início daquela semana, mas a realidade de que ali iria aprender e trabalhar nas próximas dez semanas só agora a atingia.

Quase parecia um sonho.

Ela atravessou a entrada principal e passou pelo átrio até ao portão de segurança. O guarda de serviço encontrou o seu nome numa lista de visitantes e entregou-lhe um cartão de identificação. Disse-lhe para descer três andares no elevador até um pequeno auditório.

Quando Riley encontrou o auditório e entrou, entregaram-lhe um pacote de regras, regulamentos e informação que deveria ler mais tarde. Sentou-se entre cerca de vinte outros estagiários que aparentavam estar na sua faixa etária. Ela sabia que alguns, tal como ela, eram recém-licenciados; outros eram universitários que regressariam às faculdades no outono.

A maioria dos estagiários eram do sexo masculino e todos estavam bem vestidos. Sentiu-se um pouco insegura com o seu terno que comprara numa loja económica em Lanton. Era o melhor fato formal que ela tinha e esperava que parecesse suficientemente respeitável.

Dali a pouco, um homem de meia-idade postou-se em frente aos estagiários sentados.

Disse, “Sou o Diretor Adjunto Marion Connor e sou o responsável por vos dar as boas-vindas ao Programa de Estagiários de Verão. Todos devem estar orgulhosos de estar aqui hoje. São um grupo seleto e excecional, escolhido entre milhares de concorrentes…”

Riley engoliu em seco enquanto ele continuava a parabenizar o grupo.

Milhares de concorrentes!

Como parecia estranho. A verdade era que ela não concorrera a nada. Ela simplesmente fora escolhida para o programa logo na universidade.

Pertencerei realmente aqui? Perguntou-se.

O Diretor Adjunto Connor apresentou o grupo a um agente mais jovem – Hoke Gilmer, o supervisor de treino que ligara a Riley no dia anterior. Gilmer instruía os estagiários a levantarem-se e a erguerem as mãos direitas no momento do juramento do FBI.

Riley sentiu-se a engasgar-se quando começou a proferir as palavras…

“Eu, Riley Sweeney, juro solenemente que apoiarei e defenderei a Constituição dos Estados Unidos contra todos os inimigos, estrangeiros e domésticos…”

Teve que conter as lágrimas ao prosseguir.

Isto é real, Disse a si própria. Isto está mesmo a acontecer.

Não fazia a mínima ideia do que a aguardava dali para a frente.

Mas tinha a certeza de que a sua vida nunca mais seria a mesma.



*



Após a cerimónia, Hoke Gilmer levou os alunos a uma longa visita pelo Edifício J. Edgar Hoover. Riley estava cada vez mais surpreendida com o tamanho e complexidade do edifício, e com todas as atividades diferentes que ali decorriam. Havia várias salas de exercícios, um campo de basquetebol, uma clínica médica, uma loja de impressões, muitos laboratórios e salas de computadores, uma carreira de tiro e até uma morgue e uma oficina de reparação de viaturas.

Tudo a surpreendia.

Quando a visita terminou, o grupo foi levado para a cafetaria no oitavo piso. Riley sentia-se exausta ao colocar comida no tabuleiro – não tanto pelo que caminhara, mas por tudo o que vira e tentara absorver.

Ela queria aprender tudo o que conseguisse, o mais rapidamente que conseguisse.

E queria começar naquele instante.

Ao procurar um lugar para se sentar e comer, sentiu-se estranhamente deslocada. Os outros estagiários já pareciam estar a criar laços e a sentar-se em grupos, a conversar animadamente sobre as incidências do dia. Riley disse a si mesma que se deveria sentar junto dos seus jovens colegas, apresentar-se e misturar-se.

Mas sabia que não ia ser fácil.

Riley sempre se sentira uma intrusa e fazer amigos e enquadrar-se nunca fora algo natural para ela.

E naquele momento, sentia-se mais tímida do que alguma vez se sentira.

E era só sua imaginação ou alguns dos estagiários a olhavam e cochichavam sobre ela?

Decidira sentar-se sozinha quando ouviu uma voz ao seu lado.

“És a Riley Sweeney, não és?”

Virou-se e viu um jovem que lhe chamara a atenção no auditório e durante a visita. Não pode deixar de reparar que era incrivelmente bem parecido – um pouco mais alto do que ela, robusto e atlético, com cabelo curto encaracolado e um sorriso cativante. O seu fato parecia caro.

“Hum, sim,” Respondeu Riley, sentindo-se subitamente ainda mais tímida do que anteriormente. “E tu…?”

“John Welch. Prazer em conhecer-te. Apertava-te a mão, mas…”

Fez um gesto de cabeça na direção dos tabuleiros que ambos carregavam e riu-se.

“Queres sentar-te comigo?” Perguntou ele.

Riley esperava não estar a corar.

“Claro,” Disse ela.

Sentaram-se numa mesa e começaram a comer.

Riley perguntou, “Como é que sabias o meu nome?”

John sorriu de forma endiabrada e disse, “Estás a brincar comigo, não é?”

Riley ficou alarmada. Conseguiu impedir-se de dizer…

Não, não estou a brincar.

John encolheu os ombros e disse, “Quase toda a gente aqui sabe quem tu és. Acho que podes dizer que a tua reputação te precede.”

Riley olhou para alguns dos outros alunos. Não havia dúvidas de que alguns deles ainda olhavam para ela e trocavam comentários.

Riley começou a entender…

Devem saber o que se passou em Lanton.

Mas o que é que saberiam ao certo?

E seria algo positivo ou negativo?

Ela de certeza que não estava à espera de ter uma “reputação” entre os estagiários. A ideia fazia-a sentir-se extremamente autoconsciente.

“De onde és?” Perguntou Riley.

“Daqui de DC,” Disse John. “Licenciei-me em criminologia esta primavera.”

“Em que faculdade?” Perguntou Riley.

John corou ligeiramente.

“Hum… Universidade George Washington,” Disse ele.

Riley arregalou os olhos perante a referência de uma universidade tão dispendiosa.

Deve ser rico, Pensou ela.

Riley pressentiu que ele não estava completamente à vontade com aquilo.

“Uau, uma licenciatura em criminologia,” Disse ela. “Eu sou licenciada em psicologia. Não há dúvida que tens um avanço sobre mim.”

John riu-se.

“Sobre ti? Não me parece. Quero dizer, tu és provavelmente a única estagiária do programa com experiência de campo.”

Riley fora apanhada de surpresa.

Experiência de campo?

Ela não pensava no que acontecera em Lanton como “experiência de campo”.

John prosseguiu, “Quero dizer, tu ajudaste a apanhar um verdadeiro assassino em série. Nem consigo imaginar como terá sido. Podes crer que te invejo.”

Riley ficou em silêncio. Ela não o queria dizer, mas a inveja parecia ser uma emoção terrivelmente inapropriada para aquilo por que ela passara.

O que é que será que John pensava que teria acontecido durante aquelas terríveis semanas em Lanton? Será que tinha a noção do que era descobrir os cadáveres de duas das suas melhores amigas com as gargantas brutalmente cortadas?

Será que ele tinha a noção de como ela ficara horrorizada e pesarosa – e de como se sentira culpada?

Ainda era assombrada pelo pensamento de que Trudy, a sua companheira de quarto, ainda poderia estar viva se ela estivesse mais atenta.

E teria ele alguma ideia de como ela ficara assustada quando caíra nas garras do assassino?

Riley bebeu um gole de refrigerante e remexeu a comida com o garfo.

Depois disse, “Foi… bem, não foi como deves pensar que foi. Foi só algo que aconteceu.”

John agora olhava para ela com preocupação.

“Desculpa,” Disse ele. “Calculo que não queiras falar sobre isso.”

“Talvez noutra altura,” Disse Riley.

Seguiu-se um silêncio estranho. Não querendo ser mal-educada, Riley começou a fazer perguntas a John sobre ele. John parecia relutante em falar da sua vida e família, mas Riley conseguiu soltá-lo um pouco.

Os pais de John eram ambos advogados proeminentes envolvidos na cena política de DC. Riley ficou impressionada – não tanto pelo background abastado de John, mas pelo facto de ele ter escolhido um caminho diferente. Em vez de seguir uma carreira de prestígio na advocacia e na política, John tinha optado por uma vida mais humilde ao serviço do FBI.

Um verdadeiro idealista, Pensou Riley.

Deu por si a compará-lo a Ryan que tentava deixar o seu passado humilde para trás tornando-se num advogado de sucesso.

É claro que ela admirava a ambição de Ryan. Era uma das coisas que adorava nele. Mas não conseguia evitar admirar também John pelas escolhas que estava a fazer.

Ao continuarem a conversar, Riley pressentiu que John estava a atirar-se a ela.

Ele está a namoriscar comigo, Percebeu.

Ficou um tanto surpreendida com isso. A sua mão esquerda estava bem à vista em cima da mesa, por isso era inevitável que ele tivesse visto o seu anel de noivado.

Deveria referir que estava comprometida?

Sentiu que isso seria estranho naquele momento – sobretudo se estivesse enganada.

Talvez ele não esteja a namoriscar comigo.

Dali a nada John começou a fazer perguntas sobre Riley, mantendo-se longe do assunto assassinatos de Lanton. Como habitual, Riley evitou certos assuntos – a sua relação atribulada com o pai, a adolescência rebelde e sobretudo como vira a própria mãe a ser morta quando era criança.

Também ocorreu a Riley que ao contrário de Ryan ou John, ela não tinha muito a dizer sobre as suas expectativas em relação ao futuro.

O que é que isso diz sobre mim? Interrogou-se.

Por fim, falou da sua relação com Ryan e como estavam noivos desde o dia anterior – apesar de não mencionar que estava grávida. Não reparou em qualquer mudança de comportamento em John.

Calculo que ele seja naturalmente encantador, Pensou.

Sentiu-se aliviada por ter tirado conclusões precipitadas e ele não ter estado afinal a namoriscá-la.

Era simpático e ela gostaria de o conhecer melhor. Na verdade, tinha a certeza de que John e Ryan iam gostar um do outro. Talvez se pudessem encontrar todos um dia.

Quando os estagiários terminaram as suas refeições, Hoke Gilmer foi ter com eles e acompanhou-os até um balneário amplo que seria a sua sede para o programa de dez semanas. Um agente mais jovem ajudava Gilmer a atribuir um cacifo a cada estagiário. Então todos os estagiários se sentaram nas cadeiras que se encontravam em torno de uma mesa no centro do compartimento e o agente mais jovem começou a distribuir telemóveis.

Gilmer explicou, “Estaremos em breve no século XXI e o FBI não gosta de se atrasar no que diz respeito à mais recente tecnologia. Este ano não distribuímos pagers. Alguns de vocês já terão telemóveis, mas queremos que tenham um apenas para uso no FBI. Encontram as instruções no vosso pacote de orientação.”

Então Gilmer riu-se ao acrescentar, “Espero que vos seja mais fácil aprender a usar isso do que foi para mim.”

Alguns dos estagiários também se riram ao receberem os seus novos brinquedos.

O telemóvel de Riley parecia estranhamente pequeno na sua mão. Ela estava habituada a telefones fixos maiores e nunca antes usara um telemóvel. Apesar de ter usado computadores em Lanton e alguns dos seus amigos terem telemóvel, ela ainda não tinha um. Ryan já tinha um telemóvel e um computador, e às vezes metia-se com Riley por causa da sua forma antiquada de estar.

Ela não gostava muito disso. A verdade era que a única razão pela qual ainda não tinha um computador ou um telemóvel era financeira.

Aquele era muito parecido com o de Ryan – muito simples, com um pequeno ecrã para mensagens de texto, um teclado numérico e só mais três ou quatro outros botões. Ainda assim, parecia estranho que ela ainda não soubesse sequer fazer uma chamada telefónica com ele. E sabia que também seria estranho estar sempre contactável por telemóvel, estivesse onde estivesse.

Lembrou a si própria…

Estou a começar uma vida nova.

Riley reparou que um grupo de pessoas de aspeto oficial, a maioria homens, acabara de entrar no balneário.

Gilmer disse, “Todos vocês terão ao vosso lado um agente especial experiente durante estas semanas. Eles começarão por vos ensinar as suas especialidades – análise de dados de crimes, trabalho forense, trabalho laboratorial de computador e tudo o mais. Vamos apresentar-vos a eles agora e eles assumirão as coisas a partir daqui.”

Quando o agente mais jovem começou a juntar os estagiários com o seu agente supervisor, Riley percebeu…

Há menos um agente do que estagiários.

E de facto, depois dos estagiários se retirarem com os seus mentores, Riley deu por si sem um mentor. Olhou para Gilmer perplexa.

Gilmer sorriu ligeiramente e disse, “Vai encontrar o agente que a acompanhará ao fundo do corredor no gabinete dezanove.”

Sentindo-se um pouco inquieta, Riley saiu do balneário e caminhou pelo corredor até encontrar o gabinete certo. Abriu a porta e viu que um homem de meia-idade baixo estava sentado à mesa.

Riley foi apanhada de surpresa ao reconhecê-lo.

Era o Agente Especial Jake Crivaro – o agente com quem trabalhara em Lanton e que lhe salvara a vida.




CAPÍTULO TRÊS


Riley sorriu ao reconhecer o Agente Especial Jake Crivaro. Ela passara a manhã entre estranhos e estava especialmente satisfeita por ver uma cara conhecida.

Acho que não devia estar surpreendida, Pensou.

Afinal de contas, lembrava-se do que ele lhe dissera em Lanton quando lhe entregara os papéis para o Programa de Honra…

“Estou à beira da reforma, mas sou capaz de ficar mais algum tempo para ajudar alguém como tu a começar.”

Ele devia ter solicitado para ser mentor de Riley no estágio.

Mas o sorriso de Riley rapidamente se desvaneceu quando percebeu…

Ele não me está a sorrir.

Na verdade, o Agente Crivaro não parecia minimamente satisfeito por vê-la.

Ainda sentado à mesa, cruzou os braços e acenou a um homem desconhecido mas de aspeto amigável na casa dos vinte que estava em pé. Crivaro disse…

“Riley Sweeney, quero apresentar-lhe o Agente Especial Mark McCune daqui de DC. Ele é o meu parceiro num caso em que estou agora a trabalhar.”

“Prazer em conhecê-la,” Disse o Agente McCune sorrindo.

“Igualmente,” Disse Riley.

McCune parecia muito mais amigável do que Crivaro.

Crivaro levantou-se da mesa. “Considere-se com sorte, Sweeney. Enquanto os outros estagiários estão fechados no edifício a aprender coisas banais, você vai já para o terreno. Acabei de chegar de Quantico para trabalhar num caso de droga. Vai juntar-se ao Agente McCune e a mim – vamos agora mesmo para a cena.”

O Agente Crivaro saiu do gabinete.

Enquanto Riley e o Agente McCune o seguiam Riley pensou…

Ele tratou-me por “Sweeney”.

Em Lanton, ela habituara-se a que a tratasse por “Riley”.

Riley segredou a McCune, “O Agente Crivaro está aborrecido com alguma coisa?”

McCune encolheu os ombros e sussurrou-lhe, “Esperava que me pudesse dizer. Este é o meu primeiro dia a trabalhar com ele, mas sei que já trabalhou num caso com ele. Dizem que ele ficou muito impressionado consigo. Ele tem a reputação de ser algo brusco. Sabe, o seu último parceiro foi despedido.”

Riley quase disse…

Na verdade, não sabia.

Nunca ouvira Crivaro fazer referência a um parceiro em Lanton.

Apesar de Crivaro ter sido duro, nunca o vira como alguém “brusco”. Na verdade, acostumara-se a ver nele uma carinhosa figura de pai – bastante diferente do seu próprio pai.

Riley e McCune seguiram Crivaro até um carro no parque des estacionamento do edifício do FBI. Ninguém falou enquanto Crivaro os conduziu para o exterior do edifício e prosseguiu para norte pelas ruas de DC.

Riley começou a pensar se Crivaro lhes iria o que iriam fazer no lugar para onde estavam a ir.

Acabaram por chegar a um bairro de aspeto duvidoso. As ruas estavam bordejadas com casas alinhadas que pareciam a Riley já ter sido casas agradáveis mas que se haviam degradado com o passar do tempo.

Ainda a conduzir, o Agente Crivaro finalmente lhe dirigiu a palavra.

“Dois irmãos, Jaden e Malik Madison, controlam o correio da droga neste bairro há alguns anos. Eles e o seu gang têm vindo a tornar-se cada vez mais descarados – a vender diretamente na rua como se fosse um mercado a céu aberto. Os polícias locais não conseguiram fazer nada para os parar.”

“Porque não?” Perguntou Riley.

Crivaro respondeu, “O gang tem cuidado para não ser apanhado pela polícia. Por outro lado, aterrorizaram todo o bairro com tiroteios e esse tipo de coisa. Dois miúdos foram atingidos só por estarem onde não deviam estar. Ninguém se atreveu a falar com a polícia sobre o que se estava a passar.”

Olhando para as filas de casas, Crivaro prosseguiu.

“O FBI foi chamado para ajudar há alguns dias. Esta manhã um dos nossos homens à paisana conseguiu prender Jaden. O seu irmão, Malik, ainda está à solta e o gang dispersou. Não será fácil apanhá-los. Mas devido à prisão, conseguimos um mandado de busca na casa onde estavam.”

Riley perguntou, “Se o gang ainda anda por aí, não começarão tudo de novo?”

McCune disse, “É aí que a polícia local pode fazer alguma coisa. Montam uma mini esquadra no passeio – só uma mesa de piquenique e cadeiras com alguns polícias que trabalharão com os locais para se assegurarem de que o mesmo não volta a acontecer.”

Riley quase perguntou…

Não começarão noutro bairro?

Mas ela sabia que era uma pergunta estúpida. É claro que o gang retomaria as suas atividades ilícitas noutro local – pelo menos se não fossem apanhados. E então a polícia e o FBI teriam que recomeçar do zero onde quer que isso sucedesse. Era a natureza daquele tipo de trabalho.

Crivaro parou o carro e apontou para a casa mais próxima.

“As buscas já começaram naquela,” Disse ele. “E nós estamos aqui para ajudar.”

Ao saírem do carro, Crivaro disse a Riley com firmeza.

“Por ‘nós’ referia-me ao Agente McCune e a mim. Você está aqui para ver e aprender. Por isso desampare a loja e não mexa em nada.”

Riley sentiu um arrepio perante as suas palavras, mas anuiu obedientemente.

Um polícia de uniforme conduziu-os ao interior da casa. Riley de imediato viu que uma grande operação estava já em progresso. O corredor estreito estava a abarrotar com polícia e agentes envergando coletes do FBI. Estavam a empilhar armas e sacos de droga no meio do chão.

Crivaro parecia agradado. Disse a um dos homens do FBI, “Parece que vocês encontraram aqui um autêntico filão.”

O homem do FBI riu e disse, “Temos a certeza que é só a ponta do icebergue. Tem que haver muito dinheiro por aqui, mas ainda não o encontrámos. Há muitos lugares para esconder coisas numa casa como esta. Os nossos homens estão a esquadrinhar todos os recantos.”

Riley seguiu Crivaro e McCune por um lanço de escadas no segundo andar.

Podia ver que a casa, e aparentemente as outras que a rodeavam, era maior do que parecia vista do exterior. Apesar de ser estreita, tinha profundidade com muitos compartimentos ao longo do corredor. Para além dos dois andares, Riley calculou que também tivesse um sotão e uma cave.

No topo das escadas, quatro agentes quase colidiram com Crivaro ao saírem de um dos quartos.

“Nada aqui,” Disse um dos agentes.

“Tens a certeza?” Perguntou Crivaro.

“Procurámos por todo o lado,” Disse o outro agente.

Então ouviu-se uma voz vinda do interior do quarto do outro lado do corredor…

“Ei, acho que temos alguma coisa aqui!”

Riley seguiu Crivaro e McCune pelo corredor. Antes que os pudesse seguir até ao quarto, Crivaro agarrou-lhe na mão e parou-a.

“Huh.uh,” Disse ele. “Podes ver a partir do corredor.”

Riley ficou no exterior do compartimento e viu cinco homens a fazerem buscas lá dentro. Aquele que chamara Jake estava ao lado de uma forma retangular na parede.

Disse, “Isto parece ter sido um elevador para comida. Quanto queres apostar em como vamos encontrar alguma coisa ali dentro?

“Abre,” Disse Crivaro.

Riley deu um passo em frente para ver o que estavam a fazer.

Jake olhou para ela e gritou…

“Ei, Sweeney. O que é que acabei de lhe dizer?”

Riley estava prestes a explicar que não tinha a intenção de entrar quando Jake ordenou a um polícia…

“Fecha o raio da porta.”

A porta foi batida com estrondo na cara de Riley que permaneceu no corredor a sentir-se chocada e envergonhada.

Porque é que o Agente Crivaro está tão zangado comigo? Interrogou-se.

Agora ouvia-se muito ruído vindo do interior do compartimento. Parecia que alguém estava a utilizar um pé-de-cabra no local da parede onde tinha existido o elevador. Riley queria ver o que se estava a passar, mas abrir a porta novamente estava fora de questão.

Caminhou ao longo do corredor e entrou no compartimento do outro lado, aquele que os agentes tinham dito já ter sido vasculhado. Cadeiras e mobília estavam virados do avesso, e um tapete estava enrodilhado de ter sido puxado e atirado novamente para o lugar.

Ali sozinha, Riley foi até à janela que dava para a rua.

No exterior viu algumas pessoas a caminharem apressadamente.

Não se sentem seguras lá fora, Percebeu. Aquilo pareceu-lhe incrivelmente triste.

Interrogou-se quanto tempo passara desde que aquele bairro passara de um lugar agradável onde se viver para a situação atual.

Também se perguntou…

Será que realmente fazemos a diferença?

Riley tentou imaginar como seria a vida após a instalação da “mini esquadra” que o Agente McCune mencionara. Será que as pessoas se sentiriam realmente mais seguras porque dois polícias estavam presentes numa mesa de piquenique?

Riley suspirou enquanto as pessoas continuavam a passar apressadas na rua e direção aos seus destinos.

Apercebeu-se de que estava colocar a si própria a pergunta errada.

Não existe “nós” – pelo menos ainda não.

Riley não estava envolvida naquela operação. E o Agente Crivaro não mostrava qualquer confiança nela.

Afastou-se da janela e dirigiu-se novamente para a porta. Ao passar pelo tapete enrodilhado, reparou num som estranho debaixo dos seus pés. Parou e ficou ali durante alguns momentos. Depois bateu com o calcanhar no chão.

Parecia estranhamente oco no local onde ela se encontrava.

Dirigiu-se à borda do tapete e retirou-o do chão.

Não viu nada fora do normal, apenas um chão de madeira vulgar.

Calculo que estivesse apenas a imaginar coisas, Pensou.

Lembrou-se do que um dos agentes dissera ao sair daquele compartiento.

“Procurámos por todo o lado.”

Com certeza que ela não iria encontrar algo que tivesse escapado a quatro agentes do FBI.

E no entanto, ela tinha a certeza de que ouvira algo estranho. Não teria reparado naquilo se mais alguém estivesse a movientar-se no compartimento.

Deu alguns passos para o lado e bateu com o calcanhar no chão. O chão parecia sólido novamente. Então ela baixou-se e tocou no local em que reparara com os nós dos dedos.

Não havia a mínia dúvida, parecia mesmo oco ali. Não via qualquer sinal da existência de uma abertura mas…

E se?

Conseguiu ver que uma das tábuas era mais curta do que as outras. Tinha um ponto escuro numa das pontas que parecia um nó vulgar.

Riley pressionou o nó com um dedo.

E qual não foi o seu espanto quando a tábua se soltou um pouco naquela ponta.

Encontrei alguma coisa! Pensou.

Encontrei mesmo alguma coisa!




CAPÍTULO QUATRO


Riley puxou a ponta da tábua que se tinha soltado um pouco.

E a tábua soltou-se completamente. Colocou-a de lado.

E claro como água, deparou-se com uma abertura que dava para um espaço debaixo do chão.

Riley espreitou com mais atenção. Enfiado debaixo das tábuas num local escondido estavam pacotes de notas.

Riley gritou, “Agente Crivaro! Encontrei algo!”

Enquanto esperava por uma resposta, Riley reparou em algo mais ao lado dos pacotes. Era a ponta de um objeto de plástico.

Riley tentou alcançar o objeto e apanhou-o.

Era um telemóvel – um modelo mais simples do que aquele que lhe fora dado há pouco. Apercebeu-se que deveria ser um daqueles pré-pagos que não podia ser atribuído a um dono.

Um telefone descartável, Pensou. Deve ser muito útil para uma operação de droga.

De repente, ouviu uma voz a gritar da entrada…

“Sweeney! O que é que pensa que está a fazer?”

Riley virou-se e viu o Agente Crivaro com o rosto vermelho de raiva. O Agente McCune estava logo atrás dele.

Riley segurou no telefone e disse, “Encontrei algo, Agente Crivaro.”

“Estou a ver,” Disse Crivaro. “E os seus dedos estão bem em cima do que encontrou. Dê-me isso.”

Riley entregou o telefone a Crivaro que o segurou cuidadosamente com um polegar e indicador, e o largou num saco de provas. Ela viu que tanto ele como o Agente McCune usavam luvas.

Sentiu-se enrubescer de vergonha.

Fiz mesmo asneira.

McCune ajoelhou-se e olhou para o espaço debaixo do chão.

Disse, “Ei, Agente Crivaro! Veja isto!”

Crivaro ajoelhou-se ao lado de McCune que disse, “É o dinheiro por que andávamos à procura pela casa.”

“Pois é,” Disse Crivaro.

Virando-se novamente para Riley, Crivaro perguntou…

“Tocou neste dinheiro?”

Riley abanou a cabeça.

“Tem a certeza?” Questionou-a Crivaro.

“Tenho a certeza,” Disse Riley timidamente.

“Como é que encontrou isto?” Perguntou Crivaro, apontando para a abertura.

Riley encolheu os ombros e disse, “Estava a passar por aqui e ouvi um som oco debaixo do chão, por isso tirei o tapete e…”

Crivaro interrompeu-a, “E arrancou esta tábua.”

“Bem, não foi propriamente arrancar. Soltou-se quando lhe toquei num certo ponto.”

Crivaro disse, “Tocou-lhe. E no telefone também. Nem dá para acreditar. As suas impressões estão por todo o lado.”

Riley gaguejou, “Eu… eu lamento.”

“Bem pode lamentar-se,” Disse Crivaro. “Vou tirá-la daqui antes que lixe mais alguma coisa.”

Levantou-se do chão e limpou as mãos.

Disse, “McCune, mantém a equipa de busca a trabalhar. Quando acabarem de verificar os compartimentos deste andar, continuem a procurar no sótão. Não me parece provável que encontremos mais alguma coisa, mas temos que ser exaustivos.”

“Assim farei,” Disse McCune.

Crivaro desceu as escadas com Riley e conduziu-a até ao carro.

À medida que se afastavam daquele cenário, Riley perguntou, “Vamos voltar para a sede?”

“Não hoje,” Disse Crivaro. “Talvez nunca mais. Onde é que vive? Vou levá-la a casa.”

Com a voz embargada pela emoção, Riley disse-lhe a morada.

Ao seguirem em silêncio, Riley deu por si a lembrar-se de como Crivaro ficara impressionada com ela em Lanton e lhe dissera…

“O FBI precisa de jovens como tu – sobretudo mulheres. Darias uma excelente agente da UAC.”

Como tudo se tinha alterado!

E ela sabia que não era apenas devido ao erro que cometera. Desde o início do dia que Crivaro fora frio consigo.

Naquele momento, Riley apenas desejava que ele dissesse alguma coisa – qualquer coisa.

Perguntou timidamente, “Encontrou alguma coisa no outro compartimento? Quero dizer, onde o elevador estivera?”

“Nada,” Respondeu Crivaro.

Seguiu-se mais um momento de silêncio. Agora Riley começava a se sentir confusa.

Sabia que cometera um tremendo erro, mas…

O que é que eu podia fazer?

Tivera um pressentimento de que algo estava escondido debaixo do chão.

Deveria simplesmente ter ignorado essa sensação?

Reuniu toda a sua coragem e disse…

“Senhor, eu sei que fiz asneira, mas não encontrei uma coisa importante? Quatro agentes revistaram aquele compartimento e não encontraram aquele esconderijo. Estavam à procura do dinheiro e eu o descobri. Será que outra pessoa o teria encontrado se não fosse eu?”

“Não é isso,” Disse Crivaro.

Riley conteve a necessidade de perguntar…

Então o que é?

Crivaro conduziu em silêncio durante vários minutos. Depois disse com um tom de voz baixo e amargo, “Puxei muitos cordelinhos para que entrasse neste programa.”

Seguiu-se outro momento de silêncio. Mas Riley detetou um mundo de significado naquelas palavras. Começou a compreender que Crivaro arriscara muito em seu benefício, não só para que entrasse no programa, mas também para ser seu mentor. E o mais certo era ter deixado alguns colegas zangados, talvez por excluir candidatos internos que eles considerariam mais aptos e promissores do que Riley.

Agora que via as coisas naquela perspetiva, o comportamento frio de Crivaro começou a fazer sentido. Ele não queria mostrar qualquer inclinação ou tratamento preferencial em relação a ela. Na verdade, comportava-se de forma oposta. Contava que ela se mostrasse digna sem qualquer encorajamento dele, apesar das dúvidas e ressentimento dos colegas.

E a julgar pelos olhares e sussurros dos outros estagiários no decorrer daquele dia, os colegas de Crivaro não eram os únicos a ter ressentimentos. Ela enfrentara uma subida árdua para apenas conseguir um sucesso modesto.

E estragara tudo numa única tarde graças a um erro estúpido. Crivaro tinha razão em estar desiludido e zangado.

Riley respirou fundo e disse…

“Peço desculpa. Não voltará a acontecer.”

Crivaro não respondeu de imediato.

Por fim disse, “Calculo que queira uma segunda oportunidade. Bem, deixe-me dizer-lhe que o FBI não é fértil em dar segundas oportunidades. O meu último parceiro foi despedido por cometer o mesmo tipo de erro – e sem dúvida que o mereceu. Um erro assim tem consequências. Por vezes é o suficiente para arruinar um caso e deixar um mau da fita escapar. Às vezes, custa a vida de alguém. Pode custar a sua própria vida.”

Crivaro fixou-a.

“O que acha que devo fazer?” Perguntou.

“Não sei,” Disse Riley.

Crivaro abanou a cabeça. “De certeza que eu também não sei. Talvez ambos devamos dormir sobre o assunto. Tenho que decidir se não julguei devidamente as suas capacidades. Você tem que decidir se tem o que é preciso para continuar neste programa.”

Riley sentiu um nó na garganta e uma vontade incontrolável de chorar.

Não chores, Disse a si mesma.

Chorar só tornaria tudo ainda pior.




CAPÍTULO CINCO


Ainda a acusar a repreensão de Crivaro, Riley chegou a casa duas antes de Ryan. Quando Ryan apareceu, pareceu surpreendido por vê-la ali tão cedo, mas estava demasiado entusiasmado com o seu dia para reparar no aborrecimento de Riley.

Ryan sentou-se à mesa da cozinha com uma cerveja enquanto Riley aquecia o jantar. Ela percebeu que ele estava muito satisfeito com tudo o que estava a fazer na firma e ansioso por lhe contar. Ela tentou dar-lhe atenção.

Tinham-lhe sido atribuídas mais tarefas do que ele estava à espera – muita pesquisa e análise complexa, escrita de relatórios, preparação para litigação e outras tarefas que Riley mal entendia. Até se ia apresentar pela primeira vez num tribunal no dia seguinte. Apenas iria dar apoio aos advogados de proa é claro, mas já era um avanço para ele.

Ryan parecia nervoso, assustado, talvez um pouco amedrontado, mas acima de tudo radiante.

Riley tentou continuar a sorrir ao sentarem-se para jantar. Ela queria estar feliz por ele.

Então Ryan finalmente perguntou…

“Uau, olha só para mim a falar. E tu? Como correu o teu dia?”

Riley engoliu em seco.

“Podia ter corrido melhor,” Disse ela. “Na verdade, correu pessimamente.”

Ryan agarrou na mão de Riley com uma expressão de sincera preocupação.

“Lamento,” Disse ele. “Queres falar sobre isso?”

Riley interrogou-se se falar sobre aquilo a faria sentir-se melhor.

Não, só vou começar a chorar.

Para além disso, o Ryan podia não ficar muito satisfeito com o facto de ela ter realizado trabalho de campo naquele dia. Ambos tinham a certeza de que ela faria o treino de forma segura nas instalações do FBI. Não que ela tivesse estado em verdadeiro perigo…

“Preferia não entrar em pormenores,” Disse Riley. “Mas lembras-te do Agente Especial Crivaro, o homem do FBI que me salvou a vida em Lanton?”

Ryan anuiu.

Riley prosseguiu, “Bem, ele é o meu mentor, mas está com dúvidas se eu deveria estar no programa. E… acho que também eu tenho dúvidas. Talvez isto tudo não tenha passado de um erro.”

Ryan apertou-lhe a mão e não falou.

Riley gostava que ele dissesse alguma coisa. Mas o que é que queria que ele dissesse?

O que é que esperava que ele dissesse?

A verdade era que Ryan nunca se mostrara entusiasmado com a entrada de Riley no programa. Talvez ficasse satisfeito por ela desistir – ou até ser expulsa.

Por fim Ryan disse, “Ouve, talvez este não seja o momento ideal para fazeres isto. Quero dizer, estás grávida, acabámos de nos mudar e eu estou a começar na Parsons and Rittenhouse. Talvez devesses esperar até…”

“Esperar até quando?” Perguntou Riley. “Até ser mãe e ter um filho para criar? Como é que isso vai funcionar?”

Ryan mostrou perplexidade ante o tom amargo de Riley. Até Riley ficou alarmada com o som da sua própria voz.

“Peço desculpa,” Disse ela. “Não queria dizê-lo daquela forma.”

Ryan disse tranquilamente, “Riley, tu vais ser uma mãe a criar uma criança. Nós vamos ser pais. É uma realidade com a qual temos que lidar, quer continues o treino este verão ou não.”

Agora Riley lutava para não chorar. O futuro parecia tão obscuro e misterioso.

Perguntou, “O que é que vou fazer se não estiver no programa? Não me posso limitar a ficar sentada no apartamento o dia todo.”

Ryan encolheu ligeiramente os ombros.

“Bem, sempre podes procurar um emprego, ajudar com as despesas. Talvez uma espécie de trabalho temporário – qualquer coisa que te permita desistir quando estiveres farta. Tens a vida toda à tua frente. Há muito tempo para chegares a uma conclusão quanto ao que queres realmente fazer. Mas daqui a pouco tempo eu posso suficientemente bem-sucedido para que não tenhas que trabalhar se não quiseres.”

Ambos ficaram em silêncio durante alguns momentos.

Então Riley disse, “Então pensas que devo desistir?”

“O que eu penso não importa,” Disse Ryan. “A decisão é tua. E decidas o que decidires, vou dar o meu melhor para te apoiar.”

Não falaram muito mais durante o resto do jantar. Quando terminaram, viram televisão. Riley não se conseguia concentrar no que estava a ver. Não parava de pensar no que o Agente Crivaro dissera…

“Tem que decidir se tem o que é necessário para continuar neste programa.”

Quanto mais Riley pensava naquilo, mais dúvidas e incertezas a assolava.

Afinal, ela tinha que pensar não só nela própria. Havia o Ryan, o bebé e até o Agente Crivaro.

Lembrou-se de outra coisa que o seu mentor dissera…

“Puxei muitos cordelinhos para a ter neste programa.”

E mantê-la no programa não ia tornar a vida de Crivaro mais fácil. O mais certo era ouvir críticas de colegas que consideravam que Riley não pertencia àquele lugar, sobretudo se ela não se apresentasse à altura das expetativas.

E era óbvio que ela não estivera à altura das expetativas naquele dia.

Entretanto, Ryan tomou banho e foi-se deitar. Riley ficou sentada no sofá a pensar nas suas escolhas.

Por fim, pegou em papel e caneta, e começou a redigir uma carta de demissão dirigida a Hoke Gilmer, o supervisor de treino. Ficou surpreendida por se sentir muito melhor à medida que ia escrevendo a carta. Quando a terminou, sentiu que tinha sido libertada de um fardo.

Esta é a opção certa, Pensou.

Calculou que se levantaria cedo na manhã seguinte, comunicaria a sua decisão a Ryan, digitaria a carta no computador, imprimi-la-ia e enviá-la-ia no correio da manhã. Também ligaria ao Agente Crivaro que certamente ficaria aliviado.

Por fim foi para a cama, sentindo-se muito melhor. Não teve qualquer dificuldade em adormecer.



Riley deu por si a caminhar na direção do edifício J. Edgar Hoover.

O que é que estou a fazer aqui? Interrogou-se.

Então reparou no papel na sua mão escrito com a sua letra.

Ah, sim, Compreendeu.

Vim entregar isto ao Agente Gilmer pessoalmente.

Desceu três andares pelo elevador e depois dirigiu-se ao auditório onde os estagiários se tinham reunido no dia anterior.

Para seu espanto, todos os estagiários estavam sentados no auditório a observá-la atentamente, O Agente Gilmer estava de pé a olhar para ela com os braços cruzados.

“O que é que quer, Sweeney?” Perguntou Gilmer, parecendo mais rígido do que no dia anterior quando se dirigira ao grupo.

Riley olhou para os estagiários que a fixavam em silêncio com expressões acusatórias.

Então ela disse a Gilmer, “Não vou roubar o seu tempo. Só preciso de lhe entregar isto.”

Entregou-lhe o papel por si escrito.

Gilmer colocou os óculos de leitura.

“O que é isto?” Perguntou ele.

Riley abriu a boca para dizer…

“É a minha carta de demissão do programa.”

Mas em vez disso, saíram outras palavras da sua boca…

“Eu, Riley Sweeney, juro solenemente que apoiarei e defenderei a Constituição dos Estados Unidos…”

Para sua surpresa, apercebeu-se…

Estou a recitar o juramento do FBI.

E não conseguia parar.

“… que serei leal…”

Gilmer apontou para o papel e perguntou novamente…

“O que é isto?”

Riley queria explicar de que se tratava, mas as palavras do juramento continuavam a jorrar…

“… assumo esta responsabilidade de livre vontade, sem qualquer reserva mental ou propósito de evasão…”

O rosto de Gilmer estava a transformar-se noutro rosto.

Era Jake Crivaro e parecia zangado. Agitou o papel à frente do seu rosto.

“O que é isto?” Perguntou.

Riley ficou surpreendida por ver que nada lá estava escrito afinal.

Ouviu todos os outros estagiários a murmurarem audivelmente, a reproduzirem o mesmo juramento mas numa mistura confusa de vozes.

Entretanto, chegava ao fim do juramento…

“… Cumprirei com zelo e fidelidade os deveres do cargo que assumirei. Que Deus me ajude.”

Crivaro agora parecia ainda mais aborrecido.

“Que raio é isto?” Perguntou ele, apontando para o papel vazio.

Riley tentou explicar-lhe, mas as palavras não saíam.



Riley abriu os olhos quando ouviu um som incomodativo.

Estava deitada na cama ao lado de Ryan.

Foi um sonho, Compreendeu.

Mas aquele sonho tinha um significado. Na verdade, significava tudo. Ela fizera um juramento e não o podia trair. Ela não se podia demitir do programa. Não era um problema legal. Era pessoal. Era uma questão de princípio.

Mas e se for expulsa?

O que faço então?

Entretanto, perguntou-se que som seria aquele que não parava de retinir nos seus ouvidos?

Ainda meio a dormir, Ryan disse…

“Atende o raio do teu telefone, Riley.”

Então Riley lembrou-se do telemóvel que lhe fora dado no dia anterior no edifício do FBI. Tateou na mesa de cabeceira até o encontrar, depois levantou-se da cama, saiu do quarto e fechou a porta atrás de si.

Demorou um momento para perceber qual o botão que deveria pressionar para atender a chamada. Quando finalmente conseguiu, ouviu uma voz familiar.

“Sweeney? Acordei-a?”

Era o Agente Crivaro, soando nada aigável.

“Não, é claro que não,” Disse Riley.

“Mentirosa. São cinco da manhã.”

Riley suspirou profundamente. Apercebeu-se que estava mal-disposta.

Crivaro disse, “Quanto tempo leva a acordar e vestir-se?”

Riley pensou por um momento, depois disse, “Hmm, acho que quinze minutos.”

“Estou aí daqui a dez minutos. Encontramo-nos fora do seu prédio.”

Crivaro terminou a chamada sem dizer mais nada.

O que é que ele quer? Interrogou-se Riley.

Vem cá para me despedir pessoalmente?

De repente, sentiu uma náusea apoderar-se de si. Sabia que era um enjoo matinal – o pior que experimentara até ali.

Soltou um grunhido e pensou…

Era mesmo disto que precisava agora.

E correu para a casa de banho.




CAPÍTULO SEIS


Quando Jake Crivaro parou em frente ao prédio de Riley, ela já estava à sua espera. Jake notou que ela estava bastante pálida ao entrar no carro.

“Não se sente bem?” Perguntou.

“Estou bem,” Disse Riley.

Não parece nada bem, Pensou Jake.

Jake pensou que fosse a consequência de alguma festa da noite anterior. Aqueles jovens estagiários manifestavam alguma tendência para aquele tipo de atividade. Ou talvez tivesse bebido demais em casa. Não havia dúvidas de que parecia desencorajada quando a deixara em casa no dia anterior – e não admirava, depois da descasca que ele lhe dera. Talvez tivesse tentado afogar as mágoas.

Jake esperava que a sua protegida não estivesse demasiado ressacada para reagir.

Assim que se afastaram do prédio, Riley perguntou…

“Para onde vamos?”

Jake hesitou por um instante.

Depois disse, “Ouça, hoje vamos começar do zero.”

Riley olhou para ele com uma expressão de vaga surpresa.

Ele prosseguiu, “A verdade é que o que fez ontem – bem, não foi um disparate absoluto. Encontrámos o dinheiro da droga dos irmãos Madison. E aquele telefone descartável revelou-se muito útil. Tinha alguns números importantes que tornaram possível a polícia abordar alguns membros do gang – incluindo Malik Madison, o irmão que ainda estava à solta. Foram estúpidos em comprar um telefone pré-pago e não se livrarem dele depois de o utilizarem. Mas calculo que não estivessem à espera que alguém o encontrasse.”

Jake olhou para Riley e acrescentou, “Estavam enganados.”

Riley continuou a olhar para ele como se não compreendesse o que ele estava a dizer.

Jake resistiu ao impulso de dizer…

“Peço desculpa por ter sido tão rígido.”

Em vez disso disse, “Mas tem que seguir as instruções. E tem que respeitar os procedimentos.”

“Eu compreendo,” Disse Riley. “Obrigada por me dar uma segunda oportunidade.”

Jake grunhiu algumas palavras impercetíveis. Sabia que não podia encorajar em demasia a miúda.

Mas sentia-se mal pela forma como a tratara no dia anterior.

Estou a exagerar, Pensou.

Ele aborrecera alguns colegas de Quantico ao abrir as portas para Riley entrar no programa. Um agente em particular, Toby Wolsky, queria que o sobrinho Jordan entrasse para o programa naquele verão, mas Jake encaixara Riley em vez dele. Empenhara as suas consideráveis credenciais para o conseguir e pedira alguns favores que lhe deviam.

Jake não tinha Wolsky em grande consideração enquanto agente e não tinha qualquer razão para pensar que o sobrinho tivesse potencial. Mas Wolsky tinha amigos em Quantico que agora estavam insatisfeitos com Jake.

De certa forma, Jake compreendia porquê.

Tanto quanto sabiam, Riley era apenas uma licenciada e psicologia que nunca pensara em integrar o FBI.

E a verdade era que Jake também não sabia muito mais a seu respeito – exceto que tinha visto os seus instintos em ação. Lembrava-se nitidamente de como Riley entrara tão facilmente nos pensamentos do assassino em Lanton apenas co uma pequena ajuda sua. À parte ele próprio, Jake raramente encontrara alguém com aquele tipo de instinto – perceções que poucos agentes sequer compreendiam.

É claro que ele não podia descartar a possibilidade de que o que ela fizera em Lanton fosse pouco mais do que um acaso.

Talvez naquele dia conseguisse ter uma ideia mais aproximada daquilo de que ela era capaz.

Riley perguntou novamente…

“Para onde vamos?”

“Para uma cena de crime,” Disse Jake.

Não lhe queria dizer mais nada até lá chegarem.

Queria observar como é que ela reagia a uma situação bastante bizarra.

E pelo que ouvira, esta cena de crime era do mais bizarro que podia haver. Fora chamado há pouco e ainda lhe custava acreditar no que lhe tinha sido relatado.

Vamos ver o que há para ver.



*



Riley começava a sentir-se melhor.

Ainda assim, gostava que ele lhe tivesse dito de que se tratava.

Uma cena de crime, Dissera ele.

Isso era muito mais do que desejava para o programa de verão – quanto mais logo no segundo dia. O dia anterior já tinha sido suficientemente inesperado.

Não sabia muito bem como reagir.

Mas tinha a certeza de que a ideia não agradaria a Ryan.

Ela apercebeu-se que ainda não tinha dito a Ryan que estava a observar Jake Crivaro. Ryan tabé não gostaria disso porque desconfiara de Crivaro desde o início, sobretudo pela forma como ajudara Riley a entrar na mente do assassino.

Lembrou-se o que Ryan dissera sobre um desses episódios…

“Estás-me a dizer que o tipo do FBI – Crivaro – entrou em jogos mentais contigo? Porquê? Só pelo divertimento?”

É claro que Riley sabia que Crivaro não o fizera só por “divertimento”.

Ele levara aquilo muito a sério. Aquelas experiências tinham sido absolutamente necessárias.

Tinham ajudado a apanhar o assassino.

Mas em que é que estou metida agora? Interrogou-se Riley.

Crivaro parecia estar a ser deliberadamente críptico.

Quando estacionou o carro com casas de um lado e um campo aberto do outro, Riley viu alguns carros de polícia e uma carrinha oficial estacionados nas imediações.

Antes de saírem do carro, Crivaro disse-lhe…

“Agora não se esqueça das regras. Não toque em nada. E não fale a não ser que lhe dirijam a palavra. Está aqui apenas para observar os outros a trabalhar.”

Riley anuiu. Mas algo na voz de Crivaro fê-la suspeitar que ele esperava algo mais dela do que apenas passividade.

Ela gostava de saber o que seria.

Riley e Crivaro saíram do carro e caminharam na direção do campo. Tinha imensos destroços espalhados como se ali tivesse decorrido algum grande acontecimento público.

Havia outras pessoas no local, algumas de uniforme, junto a um aglomerado de árvores e arbustos. Uma vasta área à sua volta estava circunscrita com fita amarela.

Quando Riley e Crivaro se aproximaram do grupo, ela apercebeu-se que os arbustos escondiam algo que se encontrava no chão.

Riley nem acreditou no que viu.

E novamente foi acometida por uma intensa náusea.

Deitado no chão estava um palhaço de circo morto.




CAPÍTULO SETE


Riley sentiu-se tão tonta que temeu desmaiar.

Conseguiu manter-se de pé, mas depois começou a ter a sensação de vómito tal como tivera no apartamento.

Isto não pode ser verdade, Pensou.

Isto tem que ser um pesadelo.

Os polícias e outras pessoas estavam à volta do corpo vestido com um fato de palhaço. O fato era inchado e colorido com grandes pompons no lugar de botões. Um par de sapatos enormes completava o traje.

O duro rosto branco tinha um sorriso bizarro pintado, um nariz vermelho, olhos e sobrancelhas exagerados. O rosto era emoldurado por uma grande peruca vermelha. Uma lona encontrava-se ao lado do corpo.

Ocorreu a Riley que o corpo seria de uma mulher.

Agora que começava a recuperar do choque inicial, reparou num cheiro evidente e desagradável no ar. Ao observar a área, duvidou que o odor viesse do corpo – ou pelo menos não a sua totalidade. Havia lixo espalhado por todo o lado. O sol da manhã fazia sobressair o cheiro de vários tipos de resíduos humanos.

Um homem com um casaco branco estava ajoelhado junto ao corpo, estudando-o cuidadosamente. Crivaro apresentou-o como sendo Victor Dahl, o médico-legista de DC.

Crivaro abanou a cabeça e disse a Dahl, “Isto ainda é mais estranho do que eu estava à espera.”

Levantando-se, Dahl disse, “Pois é, estranho. E é tal como a última vítima.”

Riley pensou…

A última vítima?

“Acabei de ser informado há pouco,” Disse Crivaro a Dahl e aos polícias. “Talvez possam colocar a minha estagiária a par do que se passa. Eu próprio não tenho conhecimento de todos os detalhes deste caso.”

Dahl olhou para Riley e hesitou durante um momento. Riley perguntou-se se pareceria tão agoniada como se sentia. Mas então o médico-legista começou a explicar.

“Na manhã de sábado, foi encontrado um corpo no beco atrás de um cinema. A vítima era uma jovem mulher chamada Margo Birch – e estava vestida e maquilhada de forma muito semelhante a esta vítima. A polícia calculou que se tratasse de um homicídio estranho, mas único. E foi quando este corpo apareceu a noite passada. Outra jovem mulher pintada e vestida desta fora.”

Então Riley percebeu. Não se tratava de um palhaço de verdade. Era uma mulher normal vestida de palhaço. Duas mulheres tinha sido vestidas e maquilhadas desta forma bizarra, e assassinadas.

Crivaro acrescentou, “E foi aí que se tornou num caso do FBI e nós fomos chamados.”

“Exatamente,” Disse Dahl, olhando à sua volta para os destroços espalhados pelo campo. “Decorreu uma festa de carnaval aqui durante alguns dias. Saiu no sábado. É daí que vem todo este lixo – o campo ainda não foi limpo. Ontem à noite, um homem da vizinhança veio para aqui com um detetor de metais à procura de moedas. Encontrou o corpo que estava coberto por aquela lona na altura.”

Riley virou-se e viu que Crivaro a observava com atenção.

Estaria apenas a certificar-se de que ela não faria nada de errado?

Ou estaria ele a monitorizar as suas reações?

Riley perguntou, “Esta mulher foi identificada?”

Um dos polícias disse, “Ainda não.”

Crivaro acrescentou, “Estamos concentrados numa participação de pessoa desaparecida em particular. Ontem de manhã, uma fotógrafa profissional chamada Janet Davis foi dada como desaparecida. Tinha estado a tirar fotografias no Parque Lady Bird Johnson na noite anterior. A polícia pensa que poderá ser ela. O Agente McCune está com o marido neste momento. Talvez nos consiga ajudar a identificá-la.”

Riley ouviu o som de veículos a parar. Olhou e viu que um par de carrinhas de estações de televisão tinha estacionado.

“Raios,” Disse um dos polícias. “Tínhamos conseguido esconder a questão das vestes de palhaço em relação ao outro crime. Será que a devemos cobrir?”

Crivaro soltou um grunhido de aborrecimento ao ver uma equipa de notícias a sair de uma das carrinhas com uma câmara. A equipa apressou-se na direção do campo.

“É demasiado tarde para isso,” Disse ele. “Eles já viram a vítima.”

Quando outros veículos dos meios de comunicação social se aproximaram, Crivaro e o médico-legista mobilizaram os polícias para tentarem manter os jornalistas o mais longe possível da fita amarela.

Entretanto, Riley olhou para a vítima e questionou-se…

Como é que ela morreu?

Não podia perguntar a ninguém naquele momento. Todos estavam ocupados a lidar com os jornalistas que faziam perguntas de forma ruidosa.

Riley inclinou-se cuidadosamente sobre o cadáver, ao mesmo tempo que repetia para si…

Não toques em nada.

Riley viu que os olhos e boca da vítima estavam abertos. Já vira antes aquela mesma expressão de medo.

Lembrava-se demasiado bem do aspeto das suas duas amigas mortas em Lanton. Acima de tudo, lembrava-se da imensa quantidade de sangue no chão dos quartos quando encontrara os corpos.

Mas ali não havia sangue.

Viu o que parecia serem pequenos cortes no rosto e pescoço da mulher, discerníveis debaixo da maquilhagem branca.

Qual o significado daqueles cortes? Não eram suficientemente amplos para terem sido fatais.

Também reparou que a maquilhagem estava aplicada de um modo atabalhoado e estranho.

Ela não se pintou a si própria, Pensou.

Não, outra pessoa o havia feito, talvez contra a vontade da vítima.

Então Riley sentiu uma estranha mudança na sua consciência – algo que não sentia desde aqueles dias terríveis em Lanton.

Arrepiou-se ao perceber o significado daquela sensação.

Estava a ter acesso à mente do assassino.

Ele vestiu-a assim, Pensou.

Provavelmente vestiu-lhe o fato depois de morta, mas ainda estava consciente quando lhe pintara o rosto. A julgar pelos seus olhos abertos, tivera consciência do que lhe estava a acontecer.

E ele gostara disso, Pensou. Ele gostara do seu terror ao pintá-la.

Riley agora também compreendia o porquê daqueles pequenos cortes.

Ele provocou-a com uma faca.

Ele atormentou-a – fê-la pensar na forma como a ia matar.

Riley ergueu-se. Sentiu outra vaga de náusea acompanhada de uma tontura e quase caiu, mas alguém a agarrou pelo braço.

Virou-se e viu que Jake Crivaro a impedira de cair.

Olhava diretamente para os seus olhos. Riley sabia que ele compreendia exatamente o que ela acabara de experimentar.

Numa voz rouca e horrorizada, Riley disse-lhe…

“Ele pregou-lhe um susto de morte. Ela morreu de medo.”

Riley ouviu Dahl soltar um som de surpresa.

“Quem lhe disse isso?” Perguntou Dahl, caminhando na direção de Riley.

Crivaro respondeu-lhe, “Ninguém lhe disse. É verdade?”

Dahl encolheu ligeiramente os ombros.

“Talvez. Ou pelo menos algo semelhante se for como a outra vítima. A corrente sanguínea de Margo Birch estava cheia de anfetaminas, uma dose fatal que fez com que o coração colapsasse. Aquela pobre mulher deve ter vivido momentos de terror mesmo até ao suspiro final. Teremos que fazer exames de toxicologia nesta nova vítima, mas…”

Suspendeu o que ia dizer e então perguntou a Riley, “Como é que soube?”

Riley não fazia ideia do que dizer.

Crivaro disse, “É o que ela faz. É por isso que está aqui.”

Riley estremeceu perante aquelas palavras.

Será que isto é algo em que quero ser boa? Perguntou a si própria.

Pensou se não deveria afinal ter mesmo entregue aquela carta de demissão.

Talvez não devesse estar ali.

Talvez não devesse participar daquilo.

Tinha a certeza de uma coisa – Ryan ficaria horrorizado se soubesse onde ela se encontrava naquele momento e o que estava a fazer.

Crivaro perguntou a Dahl, “Seria muito complicado o assassino ter acesso a esta anfetamina em específico?”

“Infelizmente,” Respondeu o médico-legista, “seria fácil comprá-la na rua.”

O telefone de Crivaro tocou. Olhou para o visor. “É o Agente McCune. Tenho que atender.”

Crivaro afastou-se para atender a chamada. Dahl continuou a olhar para Riley como se ela fosse alguma espécie de aberração.

Talvez tenha razão, Pensou.

Entretanto, Riley conseguia ouvir algumas das perguntas que os jornalistas colocavam.

“É verdade que o assassinato de Margo Birch foi igual a este?”

“Margo Birch estava vestida e pintada da mesma forma?”

“Porque é que o assassino veste as suas vítimas como palhaços?”

“Trata-se de um assassino em série?”

“Haverá mais crimes semelhantes?”

Riley lembrou-se do que um dos polícias acabara de dizer…

“Tínhamos conseguido esconder a questão das vestes de palhaço em relação ao outro crime.”

Era óbvio que os rumores já circulavam ainda assim. E agora não havia forma de esconder a verdade.

A polícia tentava dizer o mínimo possível em resposta às perguntas. Mas Riley recordava-se da agressividade dos jornalistas em Lanton. Ela compreendia porque é que Jake e a polícia não estavam satisfeitos com o aparecimento dos jornalistas. A publicidade não ia facilitar o seu trabalho.

Crivaro voltou para junto de Riley e Dahl ao mesmo tempo que guardava o telemóvel no bolso.

“O McCune acabou de falar com o marido da mulher que desapareceu. O pobre coitado está muito preocupado, mas disse ao McCune algo que pode ser útil. Ele disse que ela tem um sinal atrás da orelha direita.”

Dahl baixou-se e espreitou atrás da orelha da vítima.

“É ela,” Disse ele. “Como é que disse que ela se chamava?”

“Janet Davis,” Disse Crivaro.

Dahl abanou a cabeça. “Bem, pelo menos temos a identificação da vítima. Já a podemos retirar daqui. Gostava que não tivéssemos que lidar com o rigor mortis.”

Riley observou a equipa de Dahl a transportar o corpo para uma maca. Era um esforço desastrado. O corpo estava rígido como uma estátua e os membros estendidos em todas as direções, mostrando-se debaixo do lençol branco que os cobria.

Também estupefactos, os jornalistas olhavam fixamente para a maca que atravessava o campo na direção da carrinha do médico-legista com a sua grotesca carga.

Quando o corpo foi colocado na carrinha, Riley e Crivaro passaram pelos jornalistas e dirigiram-se ao seu veículo.

Quando Crivaro arrancou, Riley perguntou para onde iam de seguida.

“Para a sede,” Disse Crivaro. “O McCune disse-me que alguns polícias estavam a fazer buscas no Parque Lady Bird Johnson onde Janet Davis desapareceu. Encontraram a máquina dela. Deve tê-la deixado cair quando foi raptada. A máquina encontra-se agora na sede do FBI. Vamos ver o que é que o pessoal da tecnologia descobriu. Talvez tenhamos sorte e nos dê alguma pista.”

Aquela palavra ressoou de forma estranha a Riley…

“Sorte.”

Parecia uma palavra estranha de se usar quando se estava a falar de algo tão singularmente desafortunado como o assassinato de uma mulher.

Mas a intenção de Crivaro fora literal. Riley começou a pensar no quanto aquele trabalho o endurecera ao longo dos anos.

Estaria ele completamente imune ao horror?

Não conseguia perceber pelo seu to de voz enquanto prosseguia…

“E o marido de Janet Davis deixou o McCune ver as fotos que ela tirara nos últimos meses. O McCune encontrou algumas fotos que ela tirou numa loja de disfarces.”

Riley ficou interessada naquela dica.

Perguntou, “Quer dizer o tipo de loja que poderá vender fatos de palhaço?”

Crivaro anuiu. “Parece interessante, não é?”

“Mas o que é que significa?” Perguntou Riley.

Crivaro disse, “É difícil dizer para já – exceto que Janet Davis estava suficientemente interessada em disfarces para querer tirar fotos deles. O marido recorda-se dela falar sobre isso, mas não disse onde tirara as fotos. O McCune está neste momento a tentar localizar a loja onde as fotografias poderão ter sido tiradas. Ele depois liga-me. Não deve demorar muito tempo.”

Crivaro calou-se por um momento.

Depois olhou para Riley e perguntou, “Como é que se está a aguentar?”

“Bem,” Disse Riley.

“Tem a certeza?” Perguntou Crivaro. “Parece pálida, como se não se estivesse a sentir bem.”

É claro que era verdade. Uma combinação de enjoo matinal e o choque pelo que acabara de ver, tinham-na afetado. Mas a última coisa no mundo que queria dizer a Crivaro era que estava grávida.

“Estou bem,” Insistiu Riley.

Crivaro disse, “Presumo que teve alguma sensação relacionada com o assassino há bocado.”

Riley anuiu em silêncio.

“Devo saber mais alguma coisa – para além da possibilidade dele ter assustado a vítima terrivelmente?”

“Não muito,” Disse Riley. “Exceto que ele é…”

Hesitou, depois encontrou a palavra que procurava para o descrever. “Sádico.”

O silêncio instalou-se novamente e Riley deu por si a lembrar-se do espetáculo do corpo em cima da maca. O terror reapareceu ao pensar que a vítima sofrera tal humilhação e indignidade mesmo na morte.

Perguntou-se que tipo de monstro faria aquilo a alguém.

Por muito que ela tivesse sentido o assassino próximo, Riley sabia que não conseguiria compreender a forma doentia como a sua mente funcionava.

E tinha a certeza que não queria.

Mas seria aquilo que lhe estaria reservado antes do caso estar encerrado?

E depois?

É assim que vai ser a minha vida?




CAPÍTULO OITO


Quando Riley e Crivaro entrara no arejado e fresco Edifício J. Edgar Hoover, Riley ainda se sentia contaminada pelo que vira na cena do crime. Era como se o horror se tivesse infiltrado nos seus poros. Como é que se iria libertar daquilo – sobretudo do odor?

Durante a viagem até ali, Crivaro assegurara a Riley que o odor que encontrara no campo não era do cadáver. Tal como Riley adivinhara, era apenas do lixo deixado espalhado. O corpo de Janet Davis não estava sem vida há tempo suficiente para produzir aquele odor – nem os corpos das amigas assassinadas de Riley em Lanton.

Riley ainda não se deparara com o fedor de um cadáver em decomposição.

Crivaro dissera na viagem…

“Saberá de que se trata quando sentir o odor.”

Não era algo que Riley antecipasse com entusiasmo.

Mais uma vez interrogou-se…

O que é que eu estou aqui a fazer?

Ela e Crivaro entraram no elevador e saíram num piso ocupado por dezenas de laboratórios forenses. Ela seguiu Crivaro por um corredor até chegarem a uma sala com um sinal que dizia “SALAESCURA”. Um jovem de cabelo comprido e magro estava inclinado junto à porta.

Crivaro apresentou-os ao homem que acenou e disse, “Eu sou Charlie Barrett, técnico forense. Chegaram mesmo a tempo. Fiz uma pausa depois de processar os negativos da máquina que encontraram no Parque Lady Bird Johnson. Estava agora a voltar para fazer algumas impressões. Entrem.”

Charlie levou Riley e Crivaro até um pequeno corredor banhado numa luz difusa. Depois passaram por uma segunda porta até uma sala mergulhada na mesma luz estranha.

A primeira coisa em que Riley reparou foi no cheiro acre e intenso a químicos.

Curiosamente, ela não considerou o cheiro completamente desagradável.

E vez disso, parecia quase…

Purificante, Considerou Riley.

Pela primeira vez desde que deixara o campo onde encontraram o corpo, aquele fedor azedo a lixo desapareceu.

Até o horror se desvaneceu um pouco e a náusea de Riley desapareceu.

Era um verdadeiro alívio.

Riley observou com fascínio todo aquele equipamento elaborado por entre a luz difusa e estranha.

Charlie segurou numa folha de papel com filas de imagens e examinou-a na luz.

“Aqui estão as provas,” Disse ele. “Parece que ela era uma grande fotógrafa. Foi uma pena o que lhe aconteceu.”

Quando Charlie pousou pedaços de filme na mesa, Riley percebeu que nunca antes estivera numa sala escura. Sempre levara os seus rolos a uma loja de fotografia para serem revelados. Ryan e alguns dos seus amigos tinham comprado máquinas digitais há pouco tempo, e não precisavam de rolo.

O marido de Janet Davis dissera a McCune que a sua mulher usava os dois tipos de máquina. Tendia a usar uma máquina digital para o seu trabalho, mas considerava as fotos que tirava no parque arte e para isso preferia máquinas de rolo.

Riley pensou que Charlie também parecia ser um artista, um verdadeiro mestre no que fazia. Isso fê-la pensar…

Isto é uma arte em vias de extinção?

Será que este trabalho de precisão com rolos, papel, instrumentos, termómetros, temporizadores, válvulas e químicos, um dia seguiria o mesmo caminho da ferraria?

Se fosse esse o caso, era triste.

Charlie começou a imprimir uma a uma – primeiro aumentando o negativo para um pedaço de papel de fotografia, depois lentamente ensopando o papel numa bacia de líquido, seguido de mais mergulhos a que Charlie dava o nome de “banho de paragem” e “banho de reparação”. Depois vinha o enxaguamento num lavatório de alumínio debaixo de água corrente. Por fim, Charlie pendurou as fotos com clips numa bancada rotativa.

Era um processo lento e silencioso. O silêncio foi apenas quebrado pelos sons de líquido, pelo som de pés em movimento e algumas palavras trocadas em sussurros quase reverenciais. Não parecia certo falar alto naquele local.

Aquela quietude e lentidão era calmante para Riley, sobretudo depois da ruidosa desordem na cena do crime quando a polícia se debatia para manter os jornalistas à distância.

Riley observou arrebatadamente as imagens a revelarem-se sozinhas ao longo de vários minutos – fantasmagóricas e indistintas de início, por fim nítidas.

As fotografias a preto e branco captava uma tarde tranquila e pacífica no parque. Uma delas mostrava uma pequena ponte de madeira sobre uma estreita passagem de água. Outra parecia ser de um bando de gaivotas a levantar voo, mas quando a imagem se tornou mais nítida, Riley percebeu que os pássaros faziam parte de uma grande estátua.

Outra foto mostrava um obelisco de pedra com o Monumento Washington encimando à distância. Outras imagens eram de caminhos para andar de bicicleta e caminhar que passavam por áreas arborizadas.

As fotos tinha sido claramente tiradas quando o por do sol já se aproximava, criando leves sombras cinzentas, auréolas brilhantes e silhuetas. Riley percebeu que Charlie tinha razão ao dizer que Janet Davis fora “uma grande fotógrafa”.

Riley também teve a sensação de que Janet conhecia bem o parque e escolhera os locais com antecedência – e também o momento do dia, quando os passeantes eram em menor número. Riley não via uma única pessoa em qualquer foto. Era como se Janet tivesse o parque só por sua conta.

Finalmente, surgiram fotos de uma marina, das docas e barcos e água a brilhar enquanto o sol se punha. A calma da cena era verdadeiramente tangível. Riley quase conseguia ouvir o delicado ruído da água e o grasnar dos pássaros, quase conseguia sentir a carícia de ar fresco no seu rosto.

Então, por fim, apareceu uma imagem dissonante.

Também era da marina – ou pelo menos Riley pensou que seria graças às sombras dos barcos e docas. Mas tudo estava desfocado e caótico e emaranhado.

Riley percebeu o que deveria ter acontecido no momento em que aquela fotografia fora tirada…

A máquina foi-lhe arrancada das mãos.

O coração de Riley começou a bater descompassadamente.

Ela sabia que a imagem tinha captado o preciso instante em que o mundo de Janet Davis mudara para sempre.

Numa fração de segundo, a tranquilidade e a beleza tinham-se convertido em fealdade e terror.




CAPÍTULO NOVE


Ao olhar para a imagem desfocada, Riley interrogou-se…

O que é que aconteceu a seguir?

Depois de a máquina ter sido arrancada das mãos da mulher, o que é que lhe aconteceu?

O que é ela experimentou?

Terá lutado contra o agressor até ele ter conseguido subjugá-la e atá-la?

Manteve-se consciente durante toda a situação? Ou já estava inconsciente quando a foto foi tirada?

Será que depois acordou para o horror dos seus momentos finais?

Talvez não tenha importância, Pensou Riley.

Lembrou-se o que o médico-legista dissera acerca da probabilidade de Janet ter morrido de uma overdose de anfetaminas.

Se isso fosse verdade, ela teria ficado tremendamente assustada.

E agora Riley observava o momento parado no tempo em que aquele terror fatal tinha começado.

Estremeceu perante aquele pensamento.

Crivaro apontou para a foto e disse a Charlie, “Aumenta tudo. Não só esta, todas as fotos, cada centímetro quadrado.”

Charlie coçou a cabeça e perguntou, “Estamos à procura de quê?”

“Pessoas,” Disse Crivaro. “Qualquer pessoa que encontres. Janet Davis parecia pensar estar sozinha, mas estava enganada. Alguém estava à espreita à espera. Talvez – apenas talvez – o tenha apanhado numa foto sem se aperceber. Se encontrar alguém, queremos uma imagem o mais nítida possível dessa pessoa.”

Apesar de não o dizer em voz alta, Riley estava cética.

Será que Charlie encontrará alguém?

Ela tinha um pressentimento acerca do assassino – de que ele era demasiado sorrateiro para se deixar fotografar acidentalmente. Ela duvidava que sequer uma busca microscópica das fotos revelasse qualquer traço dele.

Naquele momento, o telefone de Crivaro tocou. Disse, “Tem que ser o McCune.”

Riley e Crivaro saíram da sala escura, e Crivaro afastou-se para atender a chamada. Parecia estar entusiasmado pelo que quer que McCune lhe estava a dizer. Quando terminou a chamada, disse a Riley…

“O McCune localizou a loja de disfarces onde Janet Davis tirou algumas fotos. Estava a caminho e diz que nos encontramos lá. Vamos embora.”



*

Quando Crivaro parou na loja Costume Romp, o Agente McCune já lá se encontrava à espera no seu próprio veículo. Saiu e juntou-se a Riley e Crivaro quando se aproximaram da loja. A princípio pareceu a Riley uma modesta loja de rua. As janelas das montras estavam repletas de disfarces, é claro – desde um vampiro e uma múmia, até fatos que sugeriam séculos passados. Também havia um fato de Tio Sam para o Quatro de Julho que se aproximava.

Quando Riley seguiu Crivaro e McCune ao interior, ficou alarmada com a amplidão do interior, preenchido com prateleiras carregadas do que pareciam ser centenas de disfarces, máscaras e perucas.

Riley ficou sem fôlego com tudo o que a rodeava. Os disfarces incluíam piratas, monstros, soldados, príncipes e princesas, animais selvagens e domésticos, extraterrestres e muitas mais personagens que se possa imaginar.

Riley ficou confusa. Afinal, o Halloween só acontecia uma vez por ano. Haveria realmente mercado durante todo o ano para aqueles disfarces? Em caso afirmativo, para que é que as pessoas precisavam deles?

Calculo que se devam realizar muitas festas do género.

Ocorreu-lhe que não deveria estar surpreendida, tendo em consideração os horrores de que começava a ter conhecimento agora. Num mundo onde aconteciam coisas tão horríveis, não era de admirar que as pessoas quisessem fugir para mundos de fantasia.

Também não era surpreendente que uma fotógrafa talentosa como Janet Davis gostasse de tirar fotos naquele local, no meio de uma tão rica gama de imagens. Não havia dúvida de que ali utilizava rolo e não uma máquina digital.

As máscaras e disfarces e monstros lembravam Riley de um programa de televisão a que assistira nos últimos anos – a história de uma adolescente que combatia e matava vampiros e outros tipos de demónios.

Contudo, nos últimos tempos achara o programa menos apelativo.

Depois de ter conhecimento da sua capacidade de entrar na mente dos assassinos, a saga de uma rapariga com super poderes e super obrigações começou a parecer-lhe demasiado familiar e desconfortável.

Riley, Crivaro e McCune olharam à sua volta mas não viram ninguém.

McCune chamou, “Olá… está aqui alguém?”

Um homem surgiu por trás de uma das prateleiras.

“Posso ajudar-vos?” Perguntou.

O homem tinha uma figura impressionante. Era alto e extremamente magro, usava uma T-shirt de manga comprida com a impressão de um smoking. Também usava óculos à “Groucho” – daqueles com um enorme nariz branco, óculos de armação preta e sobrancelhas abundantes e um bigode.

Obviamente apanhado algo desprevenido, Crivaro e McCune mostraram os seus distintivos e apresentaram-se.

Parecendo nada surpreendido por receber a visita do FBI, o homem apresentou-se como sendo Danny Casal, o dono da loja.

“Tratem-me por Danny,” Disse ele.

Riley deu por si a esperar que ele tirasse aqueles óculos. Mas ao olhar mais atentamente para ele percebeu…

São óculos graduados.

As lentes eram muito grossas. Danny Casal usava sempre aqueles óculos e certamente que sem eles era completamente míope.

McCune abriu uma pasta.

“Temos fotos de duas mulheres,” Disse ele. “Precisamos de saber se alguma vez as viu.”

As sobrancelhas, nariz e bigode falsos sacudiram-se quando Danny anuiu. Pareceu a Riley um homem peculiarmente sério para estar a usar tal traje.

McCune mostrou uma foto e segurou-a para que o dono da loja a visse.

Danny olhou para a foto através dos seus óculos.

Disse, “Não é uma cliente habitual. Não posso garantir que nunca tenha estado na loja, mas não a reconheço.”

“Tem a certeza?” Perguntou McCune.

“Absoluta.”

“O nome Margo Birch diz-lhe alguma coisa?”

“Uh, talvez das notícias. Não tenho a certeza.”

McCune mostrou outra foto. “E esta mulher? Cremos que veio à sua loja tirar fotografias.”

Também Riley observou a fotografia atentamente. Aquela devia ser Janet Davis. Era a primeira vez que via o seu rosto vivo e sem pinturas – sorridente, alegre e inconsciente do terrível destino que a esperava.

“Ah, sim,” Disse Casal. “Ela esteve cá não há muito tempo. Janet qualquer coisa.”

“Davis,” Disse Crivaro.”

“Exatamente,” Disse Casal com um aceno de cabeça. “Uma senhora simpática com uma bela máquina – eu próprio sou apreciador de fotografia. Ela ofereceu-se para pagar para tirar as fotos, mas eu não aceitei. Fiquei lisonjeado por ela considerar a minha loja digna da sua máquina.”

Casal inclinou a cabeça e olhou para os visitantes.

“Mas suponho que não têm boas notícias para me dar sobre ela,” Disse ele. “Ela tem algum problema?”

Crivaro disse, “Receio que tenha sido assassinada. Ambas estas mulheres foram assassinadas.”

“A sério?” Perguntou Casal. “Quano?”

“Margo Birch foi encontrada morta há cinco dias. Janet Davis foi assassinada anteontem.”

“Oh,” Disse Casal. “Lamento saber.”

Riley mal notou qualquer alteração no seu tom de voz ou expressão facial.

McCune mudou de tática. Perguntou, “Vende fatos de palhaço aqui?”

“Claro,” Disse Casal. “Porque é que pergunta?”

McCune tirou outra foto da capa abruptamente. Riley mal conseguia acreditar no que via.

Mostrava outra mulher morta vestida com um fato de palhaço. Estava num chão de cimento junto a um caixote do lixo. O fato era semelhante ao que Janet Davis, a vítima encontrada no parque naquela manhã, usava – tecido macio com grandes botões em forma de pompom. Mas as cores e os padrões eram ligeiramente diferentes, e a maquilhagem também.

Margo Birch, Percebeu Riley. A forma como ela foi encontrada.

McCune perguntou a Casal, “Vende fatos como este?”

Riley reparou que Crivaro olhava McCune com desconfiança. Era óbvio que McCune estava a testar a resposta de Casal à foto, as Crivaro parecia não estar de acordo com a sua abordagem ousada.

Mas tal como McCune, Riley tinha curiosidade em ver como é que o homem ia reagir.

Casal virou-se e olhou para Riley. Ela simplesmente não conseguia ler a sua expressão. Para além das sobrancelhas e bigode, agora também via como as lentes eram grossas. Apesar de estar a olhar diretamente para ela, não dava essa sensação. Recolhidos atrás das lentes, os seus olhos pareciam estar direcionados para outro lugar.~É como se usasse uma máscara, Pensou Riley.

“Esta é a senhora Davis?” Perguntou Casal a Riley.

Riley abanou a cabeça e disse, “Não. Mas o corpo de Janet Davis foi encontrado em condições semelhantes esta manhã.”

Sem qualquer alteração no seu tom de voz, Casal disse a McCune…

“Em resposta à sua pergunta – sim, vendemos esse tipo de fato.”

Conduziu as visitas até uma longa prateleira repleta de fatos de palhaço. Riley ficou espantada com a variedade.

Ao colocar-se junto aos fatos, Casal disse, “Como podem ver há vários tipos de fatos de palhaço. Por exemplo, temos aqui o vagabundo com chapéu e sapatos gastos, maquilhagem suja de fuligem, uma expressão triste e uma pera pintada. O equivalente feminino é frequentemente uma sem-abrigo.”

Dirigiu-se para um grupo de fatos mais heterogéneos.

“De alguma forma relacionado com o vagabundo está o ‘Auguste’, um tipo tradicional europeu, mais um vigarista do que um vagabundo, um inferior. Usa u nariz vermelho, roupa desencontrada e alterna entre a falta de jeito e a astúcia.”

Depois começou a mexer em alguns fatos que pareciam ser sobretudo brancos, alguns decorados e com enfeites coloridos.

Ele disse, “E aqui temos o rosto branco tradicional europeu, o Pierrot – composto, gracioso, inteligente, sempre no controlo. A sua maquilhagem é simples – completamente branca com feições regulares pintadas a vermelho ou preto, como um mimo, e geralmente usa um chapéu em forma de cone. É uma figura autoritária, geralmente o patrão de Auguste – e não um patrão muito simpático. Não admira já que muitas das piadas de Auguste são à sua custa.”

Passou por dezenas de fatos diferentes a dizer…

“Aqui temos imensas personagens de palhaços diferentes, baseados em tipos familiares à vida quotidiana – polícias, criadas, mordomos, médicos, bombeiros, esse tipo de coisa. Mas aqui está o tipo que procuram.”

Mostrou aos visitantes uma fila de fatos coloridos que lembravam a Riley as vítimas da foto e do campo.

“Este é o ‘rosto branca grotesco’” Disse ele.

Aquela palavra chamou a atenção de Riley.

Grotesco.

Sim, não havia dúvida de que descrevia o que fora feito ao corpo de Janet Davis.

Tocando nos fatos, Casal prosseguiu, “Este é o tipo de palhaço mais comum, pelo menos aqui na América. Não reflete nenhum tipo particular ou profissão ou estatuto. O rosto branco grotesco tem um aspeto de palhaço normal, ridículo e tolo. Pensem no Palhaço Bozo ou Ronald McDonald – ou na ‘Coisa’ de Stephen King, para citar um exemplo mais assustador. O grotesco usa um fato colorido, sapatos gigantes e maquilhagem branca com traços exagerados, incluindo uma grande peruca e um nariz vermelho luzidio.”

Crivaro parecia estar genuinamente interessado no que Casal estava a dizer.

Perguntou, “Vendeu algum destes fatos de tipo grotesco ultimamente?”

Casal pensou durante alguns instantes.

“Não que me recorde – pelo menos não nos últimos meses,” Disse ele. “Podia ver nos recibos, mas isso pode demorar algum tempo.”

Crivaro entregou-lhe o seu cartão do FBI e disse, “Agradecia que o fizesse e entrasse em contacto comigo.”

“Farei isso,” Disse Casal. “Mas lembre-se, o fato grotesco é extremamente comum. Pode ter sido comprado em qualquer loja de disfarces da cidade.”

McCune sorriu ligeiramente e disse, “Pois, mas esta não é uma loja de disfarces qualquer. Uma das vítimas esteve aqui há pouco tempo a tirar fotografias.”




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