Perseguida 
Blake Pierce


Um Mistério de Riley Paige #5
Uma obra-prima de thriller e mistério! O autor fez um trabalho magnífico no desenvolvimento das personagens com um lado psicológico tão bem trabalhado que temos a sensação de estar dentro das suas mentes, sentindo os seus medos e aplaudindo os seus sucessos. A história é muito inteligente e mantém-nos interessados durante todo o livro. Pleno de reviravoltas, este livro obriga-nos a ficar acordados até à última página. Books and Movie Reviews, Roberto Mattos (re Sem Pistas) PERSEGUIDA é o livro #5 na série de mistério de Riley Paige que começou com o bestseller SEM PISTAS (Livro #1) – um livro de download gratuito com mais de 100 opiniões com cinco estrelas! Uma fuga de uma prisão de segurança máxima. Chamadas desesperadas do FBI. O pior pesadelo da Agente Especial Riley Paige tornou-se realidade: um assassino em série que prendeu há anos fugiu da prisão. E o alvo principal é ela. Riley está habituada a ser ela a caçar, mas pela primeira vez, encontra-se numa situação – e a família – em que alguém a persegue. Enquanto a assedia, o assassino inicia um ciclo de homicídios e Riley tem que o parar antes que seja tarde demais – para as outras vítimas e para si própria. Mas este não é um assassino qualquer. Ele é demasiado inteligente e o seu jogo do rato e do gato demasiado doentio, conseguindo estar sempre um passo à frente de Riley. Desesperada para o parar, Riley compreende que apenas há uma forma de o conseguir: mergulhar no passado e analisar a mente doentia do assassino, as vítimas do passado e abarcar o que o motiva. Riley percebe que a única forma de o parar é enfrentando a escuridão que julgava já ter esquecido. Um thriller psicológico negro com suspense de cortar a respiração, ONCE HUNTED é o livro #5 de uma nova série alucinante – com uma inesquecível nova personagem – que o obrigará a não largar o livro até o terminar. O Livro #6 da série de Riley Paige estará em breve disponível.







PERSEGUIDA



(UM MISTÉRIO DE RILEY PAIGE – LIVRO 5)



BLAKE PIERCE


Blake Pierce



Blake Pierce é autor da série bestseller de mistérios RILEY PAGE, que inclui sete livros (e ainda há mais por vir). Ele também é o autor da série de mistério MACKENZIE WHITE, que inclui cinco livros (mais estão previstos); da série de mistério AVERY BLACK, composta por quatro livros (mais por vir); e da nova série de mistério KERI LOCKE.

Um leitor ávido e fã de longa data dos gêneros de mistério e suspense, Blake adora ouvir as opiniões de seus leitores. Então, por favor, sinta-se à vontade para visitar o site www.blakepierceauthor.com e manter contato.



Copyright© 2016 Blake Pierce. Todos os direitos reservados. Exceto como permitido sob o Copyright Act dos Estados Unidos de 1976, nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, distribuída ou transmitida por qualquer forma ou meios, ou armazenada numa base de dados ou sistema de recuperação sem a autorização prévia do autor. Este ebook está licenciado apenas para seu usufruto pessoal. Este ebook não pode ser revendido ou dado a outras pessoas. Se gostava de partilhar este ebook com outra pessoa, por favor compre uma cópia para cada recipiente. Se está a ler este livro e não o comprou ou não foi comprado apenas para seu uso, por favor devolva-o e compre a sua cópia. Obrigado por respeitar o trabalho árduo deste autor. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, empresas, organizações, locais, eventos e incidentes ou são o produto da imaginação do autor ou usados ficcionalmente. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou falecidas, é uma coincidência. Jacket image Copyright GongTo, usado sob licença de Shutterstock.com.


LIVROS ESCRITOS POR BLAKE PIERCE



SÉRIE DE MISTÉRIO DE RILEY PAIGE

SEM PISTAS (Livro #1)

ACORRENTADAS (Livro #2)

ARREBATADAS (Livro #3)

ATRAÍDAS (Livro #4)

PERSEGUIDA (Livro #5)



SÉRIE DE ENIGMAS MACKENZIE WHITE

ANTES QUE ELE MATE (Livro nº1)

ANTES QUE ELE VEJA (Livro nº2)



SÉRIE DE ENIGMAS AVERY BLACK

MOTIVO PARA MATAR (Livro nº1)

MOTIVO PARA CORRER (Livro nº2)



SÉRIE DE MISTÉRIO KERI LOCKE

RASTRO DE MORTE (Livro 1)


ÍNDICE



PRÓLOGO (#u6b742fb0-9d16-570c-bcf7-1e0e689b972e)

CAPÍTULO UM (#ubb27b381-73b0-5837-8afc-bf124f1f07f1)

CAPÍTULO DOIS (#ufd39e719-ed53-59aa-8e4a-1ca44b1a4bf5)

CAPÍTULO TRÊS (#u20fa9d27-1893-500e-9177-bf653c208d33)

CAPÍTULO QUATRO (#ubd9b5791-922f-537e-b453-ee2dedc44130)

CAPÍTULO CINCO (#u856f9aa3-874d-5f2f-86a9-15279b323c31)

CAPÍTULO SEIS (#ucaf8731e-1157-5541-bbf9-85793b58e538)

CAPÍTULO OITO (#u7e2ccb32-75ef-5c32-97f7-d6e6e22c70cb)

CAPÍTULO NOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZ (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO ONZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DOZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO CATORZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUINZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZASSEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZASSETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZOITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZANOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E DOIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E TRÊS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E QUATRO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E CINCO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E SEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E SETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E OITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E NOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E DOIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E TRÊS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E QUATRO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E CINCO (#litres_trial_promo)

CAPITULO TRINTA E SEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E SETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E OITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E NOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUARENTA (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUARENTA E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUARENTA E DOIS (#litres_trial_promo)




PRÓLOGO


O carro em alta velocidade da Agente Especial Riley Paige estilhaçou o silêncio das escuras ruas de Fredericksburg. A sua filha de quinze anos estava desaparecida, mas Riley estava mais furiosa do que assustada. Tinha quase a certeza do local onde se encontrava April – com o seu novo namorado, um rapaz de dezassete anos que tinha desistido da escola chamado Joel Lambert. Riley tinha tentado tudo para interromper aquela relação, mas não tinha conseguido.

Esta noite isso vai mudar, Pensou com determinação.

Estacionou o carro em frente à casa de Joel, uma pequena casa decrépita situada num bairro desagradável. Já lá tinha estado anteriormente, altura em que tinha feito um ultimato a Joel para se afastar da filha. Era óbvio que ele o tinha ignorado.

Não havia uma única luz acesa na casa. Talvez não estivesse ninguém. Ou talvez Riley ali encontrasse algo difícil de suportar. Não importava. Bateu à porta.

“Joel Lambert! Abra a porta!” Gritou Riley.

Seguiram-se alguns momentos de silêncio. Riley bateu novamente à porta. E por fim ouviu alguém a praguejar no interior da casa. A luz do alpendre acendeu-se. Ainda com a corrente, a porta abriu-se ligeiramente. À luz do alpendre, Riley deparou-se com um rosto desconhecido. Era um homem de barba e aspeto deprimido com cerca de dezanove anos.

“O que é que quer?” Perguntou o homem ainda ensonado.

“Estou à procura da minha filha,” Disse Riley.

O homem parecia intrigado.

“Está no lugar errado, minha senhora,” Disse.

Ele tentou fechar a porta, mas Riley deu-lhe um pontapé com tanta força que a corrente se partiu e a porta escancarou-se.

“Ei!” Gritou o homem.

Riley entrou pela casa adentro. A casa estava tal como da última vez que Riley lá estivera – uma confusão horrível repleta de odores suspeitos. O homem era alto e sólido. Riley apercebeu-se da semelhança entre ele e Joel, mas aquele homem não tinha idade para ser pai de Joel.

“Quem é você?” Perguntou Riley.

“Chamo-me Guy Lambert,” Respondeu o homem.

“É irmão de Joel?” Questionou Riley.

“Sim. E quem é você?”

Riley mostrou-lhe o distintivo.

“Agente Especial Riley Paige, FBI,” Disse.

Os olhos do homem abriram-se muito, alarmados.

“FBI? Deve haver algum engano.”

Riley não ficou surpreendida. Da última vez que ali estivera, suspeitara que os pais de Joel não existiam. Não fazia a mínima ideia do que que lhes poderia ter sucedido.

“Onde está a minha filha?” Perguntou Riley.

“Ouça, eu nem sequer conheço a sua filha.”

Riley avançou na direção da porta mais próxima. Guy Lambert tentou bloquear-lhe o caminho.

“Não é suposto ter um mandado de busca?” Perguntou o homem.

Riley empurrou-o.

“Agora quem dita as regras sou eu,” Rugiu Riley.

Riley entrou num quarto desarrumado. Ninguém estava ali. Abriu outra porta que lhe revelou uma casa de banho nojenta e outra ainda que fazia ligação a um segundo quarto. Ninguém.

E foi então que ouviu uma voz vinda da sala de estar.

“Não se mexa!”

Riley dirigiu-se à sala de estar onde encontrou o seu parceiro, Bill Jeffreys, na porta de entrada. Riley tinha-lhe ligado antes de sair de casa para a ajudar. Guy Lambert estava caído no sofá, desamparado.

“Este tipo parecia estar de saída,” Disse Bill. “Disse-lhe que devia esperar aqui por ti.”

“Onde é que eles estão?” Perguntou Riley. “Onde está o seu irmão e a minha filha?”

“Não faço ideia.”

Riley agarrou-o firmemente pela T-shirt.

“Onde está o seu irmão e a minha filha?” Repetiu.

Quando ele respondeu, “Não sei,”, Riley empurrou-o contra a parede. Bill libertou um som de insatisfação. Não havia dúvida que receava que Riley perdesse o controlo. Mas ela não queria saber.

Já em pânico, Guy Lambert atirou uma resposta.

“Estão mesmo no próximo quarteirão desta rua. 1334.”

Riley largou-o. Sem dizer mais uma palavra, saiu da casa com Bill no seu encalço.

Riley pegou na lanterna e com ela verificava os números das casas. “É por aqui,” Disse ela.

“Temos que pedir ajuda,” Disse Bill.

“Não precisamos de reforços.” Disse Riley enquanto corria pelo passeio.

“Não é isso que me preocupa.” Bill seguia-a.

Dali a instantes, Riley já se encontrava no quintal de uma casa de dois andares. Estava decrépita e obviamente condenada ao abandono, com terrenos vazios em ambos os lados – uma típica barraca para consumidores de heroína. Lembrou-lhe a casa onde um psicopata sádico chamado Peterson a tinha mantido cativa. Peterson tinha-a aprisionado numa jaula e tinha-a torturado com um maçarico de gás propano até ela conseguir fugir e ter rebentado a casa com o propano que ele lá armazenava.

Hesitou por um momento, abalada pela memória. Mas depois recordou-se:

A April está aqui.

“Prepara-te,” Disse a Bill.

Bill pegou na sua lanterna e na arma, e caminharam juntos na direção da casa.

Quando Riley chegou ao alpendre, viu que as janelas estavam vedadas com tábuas. Desta vez, não planeava bater à porta. Não queria dar a conhecer a sua presença a Joel ou a qualquer outra pessoa que estivesse dentro da casa.

Tentou a maçaneta. Rodou mas a porta estava fechada com uma lingueta. Riley sacou a arma e disparou, rebentando dessa forma com o que a impedia de entrar. Rodou novamente a maçaneta e a porta abriu-se.

Apesar da escuridão do exterior, os seus olhos tiveram que se ajustar ao entrar com Bill na sala de estar. A única luz existente provinha de algumas velas que iluminavam um sinistro cenário de lixo e escombros onde estavam incluídos sacos vazios de heroína, seringas e outra parafernália associada à droga. Conseguia ver sete pessoas – duas ou três tentavam pôr-se de pé vagarosamente depois do estrépito que Riley causara, os restantes estavam deitados no chão ou aninhados em cadeiras num estupor induzido pela droga. Todos pareciam devastados e doentes, e as suas roupas estavam sujas e esfarrapadas.

Riley guardou a arma. Não ia precisar dela – ainda não.

“Onde está a April?” Gritou. “Onde está Joel Lambert?”

Um homem que tinha acabado de se levantar disse numa voz nebulosa, “Lá em cima.”

Com Bill no seu encalço, Riley subiu a escadaria escura, apontando a lanterna à sua frente. Conseguia sentir os degraus podres a cederem sob o seu peso. Ela e Bill entraram num corredor no topo das escadas. Viram três entradas, uma das quais dava para uma casa de banho infecta, todas sem portas e visivelmente vazias. A quarta entrada ainda tinha porta e estava fechada.

Riley dirigiu-se à porta. Bill tentou alcançá-la para a impedir de entrar.

“Deixa-me entrar primeiro,” Disse Bill.

Riley passou por ele, ignorando-o, abriu a porta e entrou no quarto.

As pernas de Riley quase colapsaram perante o cenário que viu. April estava deitada num colchão, murmurando “Não, não, não” sucessivamente. April contorcia-se febrilmente enquanto Joel Lambert lutava para lhe tirar a roupa. Um homem com excesso de peso estava próximo, à espera que Joel terminasse a sua tarefa. Uma seringa e uma colher repousavam na vela que tremeluzia na mesa-de-cabeceira.

Riley compreendeu tudo. Joel tinha drogado April quase até à inconsciência e estava a oferecê-la como favor sexual àquele homem repulsivo – quer fosse a troco de dinheiro ou de outra coisa qualquer, Riley não sabia.

Riley sacou da arma e apontou-a a Joel. Era tudo o que conseguia fazer para evitar abatê-lo naquele momento.

“Afasta-te dela,” Disse Riley.

Joel percebeu de imediato o estado em que Riley se encontrava. Levantou as mãos e afastou-se da cama.

Indicando o outro homem, Riley disse a Bill, “Algema este filho da mãe. Leva-o para o carro. Agora já podes pedir reforços.”

“Riley, ouve-me…” A voz de Bill sumiu-se.

Riley sabia o que Bill deixara por dizer. Ele compreendia perfeitamente que tudo o que Riley queria era alguns minutos a sós com Joel. Bill sentiu relutância em permiti-lo.

Ainda com a arma apontada a Joel, Riley olhou para Bill com uma expressão implorativa. Bill anuiu lentamente, dirigiu-se ao homem, leu-lhe os direitos, algemou-o e levou-o para o exterior da casa.

Riley fechou a porta. Depois ficou silenciosamente a fitar Joel Lambert com a arma ainda erguida. Este era o rapaz por quem April se apaixonara. Mas não se tratava de um adolescente qualquer. Estava profundamente envolvido no negócio da droga. Ele tinha usado essas drogas na sua própria filha e tinha tentado vender o corpo de April. Esta pessoa não era capaz de amar ninguém.

“O que é que pensa que vai fazer, senhora chui?” Disse Joel. “Eu tenho direitos, sabe.” E presenteou-a com o mesmo sorriso de gozo que mostrara no seu último encontro.

A arma tremeu ligeiramente na mão de Riley. Ansiava premir o gatilho e rebentar com aquele verme de uma vez. Mas não se podia permitir fazê-lo.

Riley reparou que Joel se esgueirava na direção da mesa de apoio. Era robusto e um pouco mais alto do que Riley.Tentava alcançar um taco de basebol encostado à mesa, obviamente à mão para fins de autodefesa. Riley reprimiu um sorriso sinistro. Parecia que ele ia fazer exatamente aquilo que ela queria que ele fizesse.

“Estás preso,” Disse Riley.

Guardou a arma e pegou nas algemas. Tal como esperava, Joel pegou no taco de basebol e arremeteu-o contra Riley. Ela conseguiu desviar-se do golpe e preparou-se para a próxima investida.

Desta vez Joel ergueu o taco mais alto, pretendendo esmagar-lhe a cabeça com ele. Mas quando o braço desceu, Riley agachou-se e apanhou a extremidade do bastão. Agarrou-o e atirou-o para longe dele. Riley apreciou o olhar de surpresa no rosto de Joel quando perdeu o equilíbrio.

Joel tentou apoiar-se na mesa de apoio para evitar cair. Quando a mão se agarrou à mesa, Riley esmagou-a com o taco. Foi audível o som de ossos a partirem-se.

Joel soltou um grito patético e caiu no chão.

“Sua cabra maluca!” Gritou. “Partiu-me a mão.”

Tentando recuperar o fôlego, Riley algemou-o a um dos pés da cama.

“Não o consegui evitar,” Disse ela. “Tu resististe e eu, acidentalmente, entalei a tua mão na porta. Peço perdão.”

Riley algemou a mão sã ao pé de uma cama. Depois pisou a mão partida e apoiou todo o seu peso nela.

Joel gritou e contorceu-se. Esperneava indefeso.

“Não, não, não!” Gritava.

Ainda com o pé em cima da mão de Joel, Riley agachou-se próximo do seu rosto.

Riley repetiu, zombeteiramente, “’Não, não, não!’ Onde é que eu já ouvi estas palavras? Nos últimos minutos?”

Joel estremecia de dor e horror.

Riley pisou-o com mais força.

“Quem o disse?” Perguntou ela.

“A sua filha… ela disse-o.”

“Disse o quê?”

“’Não, não, não…’”

Riley libertou um pouco a pressão.

“E porque é que a minha filha disse isso?” Perguntou.

Joel mal conseguia falar por entre os violentos soluços que soltava.

“Porque… estava indefesa… e a sofrer. Eu percebo. Eu compreendo.”

Riley retirou o pé. Parecia-lhe que ele tinha percebido a mensagem – pelo menos por agora, embora talvez não de vez. Mas aquilo era o melhor – ou o pior – que podia fazer para já. Ele merecia a morte ou pior ainda. Mas ela não podia ser o instrumento dessa vontade. Pelo menos de uma coisa tinha a certeza: aquela mão nunca mais se recomporia.

Riley deixou Joel algemado e correu para junto da filha. Os olhos de April estavam dilatados e Riley sabia que ela não estava a conseguir vê-la bem.

“Mãe?” Disse April num queixume baixinho.

O som daquela palavra soltou um mundo de angústia em Riley. Desatou a chorar ao começar a ajudar April a vestir-se.

“Vou tirar-te daqui,” Disse entre soluços. “Vai correr tudo bem.”

Mas ao proferir aquelas palavras, Riley só rezava para que fossem verdadeiras.




CAPÍTULO UM


Riley rastejava na terra num espaço escuro debaixo de uma casa. Escuridão total a rodeava. Perguntava-se porque é que não tinha consigo uma lanterna. Afinal de contas, já tinha estado naquele lugar horrível.

Mais uma vez, ouviu a voz de April a chamá-la na escuridão.

“Mãe, onde estás?”

O desespero apoderou-se do coração de Riley. Ela sabia que April estava presa algures no meio daquela maléfica escuridão. E estava a ser torturada por um monstro horrível.

“Estou aqui,” Disse Riley. “Estou a ir. Continua a falar para te encontrar.”

“Estou aqui,” Disse April.

Depois a voz ecoou na escuridão.

“Estou aqui… Estou aqui… Estou aqui…”

Já não era apenas uma voz e já não era apenas uma rapariga. Muitas raparigas estavam a pedir a sua ajuda. E Riley não fazia a mínima ideia de como as encontrar a todas.



Riley acordou do seu pesadelo por alguém que lhe apertava a mão. Adormecera a segurar na mão de April e agora a filha começava a acordar. Riley sentou-se e olhou para a filha deitada na cama.

O rosto de April ainda estava algo pastoso e pálido, mas a sua mão estava mais forte e já não estava fria. Tinha muito melhor aspeto do que no dia anterior. A noite que passara na clínica fizera-lhe muito bem.

April conseguiu fixar o olhar em Riley. Depois vieram as lágrimas, tal como Riley previra.

“Mãe, e se tu não tivesses chegado?” Disse April com a voz sufocada.

Riley sentiu os olhos a arder. April já tinha feito aquela pergunta vezes sem conta e Riley nem conseguia imaginar a resposta, quanto mais verbalizá-la.

O telemóvel de Riley tocou. Era Mike Nevins, o psiquiatra forense e grande amigo que tinha ajudado Riley em muitas crises pessoais e que mais uma vez a auxiliava nesta.

“Só para saber se está tudo bem,” Disse Mike. “Espero não estar a ser inoportuno.”

Riley ficou feliz por ouvir a voz amigável de Mike.

“De maneira nenhuma, Mike. Obrigada por ligares.”

“Como é que ela está?”

“Melhor, acho eu.”

Riley não sabia o que teria feito sem a ajuda de Mike. Depois de Riley ter libertado April das garras de Joel, teve que recorrer a serviços de emergência, tratamentos médicos e relatórios de polícia. Na noite anterior, Mike tinha conseguido que April fosse admitida no Centro de Saúde e Reabilitação de Corcoran Hill.

Era muito mais agradável do que um hospital. Mesmo com todo o equipamento necessário, o quarto era agradável e confortável. Pela janela, Riley via árvores dispostas em terrenos bem tratados.

Naquele preciso momento, o médico de April entrou no quarto. Riley terminou a chamada assim que o Dr. Ellis Spears, um homem de aspeto bondoso e rosto jovem com algumas brancas, entrou.

Tocou na mão de April e perguntou, “Como te sentes?”

“Não muito bem,” Disse April.

“Bem, tens que dar algum tempo,” Disse ele. “Vais ficar bem. Senhora Paige, posso falar consigo?”

Riley acenou e seguiu-o até ao corredor. O Dr. Spears relanceou alguma informação que tinha na sua pasta.

“A heroína já quase saiu do sistema,” Disse ele. “O rapaz deu-lhe uma dose perigosa. Felizmente, abandona a corrente sanguínea rapidamente. O mais certo é não ter mais sintomas de dependência. O sofrimento por que está a passar agora é mais psicológico do que físico.”

“Ela terá…?” Riley não conseguiu terminar a pergunta.

Felizmente, o médico compreendeu o que ela queria saber.

“Uma recaída ou necessidade da droga? É difícil dizer. O uso da heroína pela primeira vez fá-los sentirem-se magníficos – como nada igual no mundo. Ela não é viciada, mas não é provável que se vá esquecer daquela sensação. Há sempre o perigo de ser atraída para a sensação fantástica que lhe proporcionou.”

Riley percebeu onde o médico queria chegar. A partir daquele momento, era de extrema importância manter April afastada da possibilidade de usar drogas. Era uma perspetiva terrificante. April agora admitia já ter fumado erva e tomado comprimidos – alguns eram analgésicos, opióides muito perigosos.

“Dr. Spears, eu…”

Por um instante, Riley não conseguiu formular a pergunta que tinha em mente.

“Não compreendo o que é que se passou,” Disse por fim. “Porque é que ela faria algo assim?”

O médico sorriu-lhe e Riley imaginou que o Dr. Spears já ouvira aquela pergunta muitas vezes.

“Fuga,” Disse ele. “Mas não estou a falar de uma fuga absoluta da vida. Ela não é esse tipo de consumidora. Na verdade, nem penso que seja uma consumidora por natureza. Tal como todos os adolescentes, tem dificuldade em controlar os seus impulsos. Trata-se unicamente de uma questão de imaturidade do cérebro. Ela gostava da sensação passageira que as drogas lhe davam. Felizmente, não consumiu durante tempo suficiente para sofrer efeitos a longo-prazo.”

O Dr. Spears pensou em silêncio durante um momento.

“A experiência por que passou foi anormalmente traumática,” Disse. “Falo da forma como aquele rapaz a tentou explorar sexualmente. Só essa memória pode ser suficiente para a manter afastada das drogas para sempre. Mas também é possível que o sofrimento emocional seja um perigoso estímulo.”

Riley ficou desanimada ao ouvir aquelas palavras. O sofrimento emocional parecia ser um facto inevitável na sua família por aqueles dias.

“Temos que a vigiar durante alguns dias,” Disse o Dr. Spears. “Depois disso, vai precisar de imensos cuidados, descanso e ajuda psicológica.”

O médico despediu-se e continuou as suas visitas. Riley ficou no corredor, sentindo-se só e preocupada.

Foi isto o que aconteceu à Jilly? Perguntou-se. Poderia a April ter terminado como aquela criança desesperada?

Há dois meses em Phoenix, Arizona, Riley tinha salvado uma rapariga mais nova do que April da prostituição. Tinha-se formado entre as duas um estranho laço emocional e Riley tinha tentado manter o contacto com ela depois de a colocar num abrigo para adolescentes. Mas há alguns dias, Riley fora informada de que Jilly fugira. Impossibilitada de voltar a Phoenix, Riley pediu a ajuda de um agente do FBI. Ela sabia que o homem se sentia em dívida para com ela e esperava obter notícias naquele mesmo dia.

Entretanto, Riley estava onde tinha que estar: a apoiar April.

Quando se encaminhava para o quarto da filha ouviu uma voz a chamar o seu nome no fundo do corredor. Virou-se e viu o rosto preocupado do seu ex-marido Ryan, a ir ao seu encontro. Quando lhe ligara no dia anterior para lhe comunicar o sucedido, ele estava em Minneapolis a trabalhar.

Riley ficou surpreendida por vê-lo. A filha de Ryan encontrava-se no fundo da sua lista de prioridades – mais abaixo do seu trabalho como advogado e muito mais abaixo da liberdade que agora gozava enquanto homem solteiro. Riley até duvidara que ele aparecesse.

Mas agora Ryan apressou-se a juntar-se a Riley e abraçou-a com o rosto ensombrado pela preocupação.

“Como é que ela está? Como é que ela está?”

Ryan não parava de repetir a pergunta, tornando difícil a Riley responder.

“Vai ficar bem,” Disse Riley finalmente.

Ryan afastou Riley e olhou para ela com uma expressão angustiada.

“Peço desculpa,” Disse. “Peço tanta, tanta desculpa. Tu tinhas-me dito que a April estava com problemas, mas eu não ouvi. Eu devia ter estado aqui para vos apoiar.”

Riley não sabia o que dizer. As desculpas não eram propriamente o estilo de Ryan. Na verdade, esperava que ele desatasse a responsabilizá-la pelo que tinha acontecido. Essa sempre tinha sido a sua forma de lidar com crises familiares. Aparentemente, o que acabara de acontecer a April era demasiado terrível a ponto de o afetar. Com certeza que já tinha falado com o médico e soubera da terrível história completa.

Ele fez um gesto com a cabeça na direção da porta.

“Posso vê-la?” Perguntou.

“Claro que sim,” Disse Riley.

Riley ficou no corredor e observou Ryan a abeirar-se da cama de April, a abraçá-la com força durante algum tempo. Pareceu-lhe ver as costas a agitarem-se com um único soluço. Depois ele sentou-se ao lado de April e segurou-lhe na mão.

April recomeçou a chorar.

“Oh, papá, fiz uma asneira tão grande,” Disse. “Andava com um rapaz…”

Ryan tocou-lhe nos lábios para a silenciar.

“Shh. Não precisas de me dizer nada. Está tudo bem.”

Riley sentiu um nó na garganta. De repente, pela primeira vez em muito tempo, sentiu que os três eram uma família. Seria uma coisa boa ou má? Seria um sinal de que melhores tempos viriam ou outro desenvolvimento rumo à desilusão e à mágoa? Não sabia.

Riley observou da porta Ryan a afagar carinhosamente o cabelo da filha e April a fechar os olhos e a descontrair. Era uma cena comovente.

Quando é que tudo se desmoronou? Pensou Riley.

Deu por si a desejar poder voltar atrás no tempo até algum momento crucial em que cometera algum erro terrível e fazer tudo de forma diferente para que nada daquilo alguma vez tivesse acontecido. E ela tinha a certeza de que Ryan pensava da mesma forma.

Era um pensamento irónico e ela sabia-o. O assassino que prendera há poucos dias era um homem obcecado por relógios que criava poses e dispunha as vítimas como ponteiros do mostrador de um relógio. E agora ali estava ela com os seus próprios anseios sobre o tempo.

Se eu tivesse conseguido manter o Peterson afastado dela, Pensou Riley, estremecendo.

Tal como Riley, April tinha sido aprisionada e torturada por aquela monstro sádico e o seu maçarico. Desde essa altura que April sofria de SPT.

Mas a verdade era que Riley sabia que o problema era mais amplo.

Talvez se o Ryan e eu nunca nos tivéssemos divorciado, Pensou.

Mas como podiam tê-lo evitado? Ryan era distante e desligado enquanto marido e enquanto pai, para além de ser mulherengo. Não que ele fosse o único culpado. Também ela tinha cometido os seus erros. Nunca tinha conseguido encontrar o equilíbrio entre o trabalho no FBI e a maternidade. E não se tinha apercebido dos muitos sinais de aviso em relação a April.

Sentiu-se ainda mais triste. Não, ela não se lembrava de um momento específico onde pudesse ter mudado tudo. A sua vida fora demasiado plena de erros e oportunidades falhadas. Para além disso, ela sabia perfeitamente que não podia recuar no tempo. Não valia a pena desejar o impossível.

O telemóvel tocou e Riley foi para o corredor. O seu coração bateu com mais força quando se apercebeu que a chamada era de Garrett Holbrook, o agente do FBI que andava à procura de Jilly.

“Garrett!” Disse, atendendo a chamada. “O que se passa?”

Garrett respondeu no seu característico tom monótono.

“Tenho boas notícias.”

De imediato, Riley começou a respirar mais confortavelmente.

“A polícia encontrou-a,” Disse Garrett. “Tinha estado na rua a noite toda sem dinheiro ou lugar para ir. Foi apanhada a roubar numa loja de conveniência. Estou com ela aqui na esquadra de polícia. Eu pago a caução, mas…”

Garrett parou de falar. Riley não gostou do som daquela palavra, “mas.”

“Talvez seja melhor falares com ela,” Disse ele.

Uns segundos mais tarde, Riley ouviu a voz familiar de Jilly.

“Olá, Riley.”

Agora que o pânico a abandonara, Riley demonstrou o quão zangada estava.

“Não me venhas com ‘olás’. Onde é que tinhas a cabeça para fugir assim?”

“Não vou voltar para lá,” Disse Jilly.

“Vais sim.”

“Por favor, não me obrigues a voltar para lá.”

Riley não respondeu de imediato. Não sabia o que dizer. Ela sabia que o abrigo onde Jilly fora acolhida era um lugar bom onde era acarinhada. Riley tivera a oportunidade de conhecer alguns elementos do pessoal, pessoas muito prestáveis.

Mas Riley também compreendia como é que Jilly se sentia. Da última vez que tinham falado, Jilly tinha-se queixado que ninguém a queria, que os pais adotivos nem a consideravam.

“Não gostam do meu passado,” Dissera Jilly.

Aquela conversa acabara mal com Jilly desfeita em lágrimas a implorar a Riley para a adotar. Riley não conseguira explicar as milhares de razões que tornavam essa hipótese impossível. Esperava que aquela conversa não acabasse da mesma forma.

Antes de Riley conseguir pensar no que dizer, Jilly disse, “O teu amigo quer falar contigo.”

Riley ouviu outra vez a voz de Garrett Holbrook.

“Não para de dizer isso – não vai voltar para o abrigo. Mas tenho uma ideia. Uma das minhas irmãs, a Bonnie, está a pensar em adotar. Tenho a certeza de que ela e o marido adorariam acolher a Jilly. Isto é se a Jilly…”

Garrett foi interrompido pelos gritinhos de satisfação de Jilly que não parava de gritar, “Sim, sim, sim!”.

Riley sorriu. Era mesmo de uma coisa daquelas que ela precisava naquele momento.

“Parece-me fantástico, Garrett,” Disse. “Diz-me como corre. Muito obrigado pela tua ajuda.”

“Sempre que precisares,” Disse Garrett.

E terminaram a chamada. Riley dirigiu-se novamente à porta do quarto e viu que Ryan e April estavam a conversar despreocupadamente. De repente, tudo parecia correr tão melhor. Apesar das suas falhas e das de Ryan, a verdade era que tinham dado a April uma vida muito melhor do que aquela que muitas outras crianças tinham.

E precisamente naquele momento, Riley sentiu uma mão no ombro e ouviu uma voz.

“Riley.”

Virou-se e viu o rosto amigo de Bill. Ao afastar-se da porta para falar com ele, Riley não conseguiu evitar olhar para o seu parceiro e para o ex-marido repetidamente. Mesmo no seu atual momento de desespero, Ryan aparentava ser o advogado de sucesso que era. O seu aspeto e modos suaves abriam-lhe portas em todo o lado. Bill, como tantas vezes percebera, parecia-se mais consigo. O seu cabelo escuro já tinha brancas e era mais robusto e amarrotado do que Ryan. Mas Bill era competente nas suas áreas de aptidão e fora muito mais fiável na sua vida.

“Como é que ela tem passado?” Perguntou Bill.

“Melhor. O que se passa com o Joel Lambert?”

Bill abanou a cabeça.

“Aquele bandido é cá uma peça,” Disse ele. “Mas está a falar. Diz que conhece uns tipos que fizeram rios de dinheiro com jovens e ele pensou tentar. Não demonstra sinais de remorso, é um sociopata cuspido e escarrado. De qualquer das formas, vai ser condenado e vai passar algum tempo dentro. Mas é capaz de fazer um acordo.”

Riley ficou contrariada. Odiava aqueles acordos e aquele em particular era perturbador.

“Sei o que pensas a esse respeito,” Disse Bill. “Mas parece-me que ele vai despejar tudo e podemos conseguir prender uma data de filhos da mãe. Isso é bom.”

Riley concordou. Era bom saber que algo de positivo se podia retirar deste acontecimento terrível. Mas havia uma coisa que tinha que falar com Bill e não sabia muito bem como dizê-lo.

“Bill, quanto ao meu regresso ao trabalho…”

Bill deu-lhe uma palmadinha no ombro.

“Não é preciso dizeres nada,” Disse Bill. “Não podes trabalhar em casos durante algum tempo. Precisas de uma pausa. Não te preocupes, eu compreendo. E toda a gente vai compreender em Quantico. Tira o tempo que precisares.”

Bill olhou para o relógio.

“Desculpa ter que me ir embora, mas…”

“Vai,” Disse Riley. “E obrigada por tudo.”

Abraçou Bill e ele foi-se embora. Riley ficou no corredor, a pensar no futuro próximo.

“Tira o tempo que precisares,” Dissera-lhe Bill.

Isso podia não ser fácil. O que acabara de acontecer a April era uma recordação de todo o mal que andava à solta. O trabalho dela era impedir que acontecessem o máximo de coisas negativas que conseguisse. E se havia uma coisa que aprendera na vida, era que o mal nunca dormia.




CAPÍTULO DOIS


Sete semanas mais tarde



Quando Riley chegou ao gabinete da psicóloga, encontrou Ryan sozinho numa sala de espera.

“Onde está a April?” Perguntou.

Ryan fez um gesto de cabeça na direção da porta fechada.

“Está com a Dra. Sloat,” Disse, parecendo desconfortável. “Tinham qualquer coisa para falar a sós. Depois devemos entrar e juntar-nos a elas.”

Riley suspirou e sentou-se numa cadeira próxima. Ela, Ryan e April tinham passado muitas horas emocionalmente exigentes nas últimas semanas naquele local. Aquela era a última sessão com a psicóloga antes da pausa para as férias de Natal.

A Dra. Sloat tinha insistido que toda a família participasse na recuperação de April. Tinha sido árduo para todos eles, mas para alívio de Riley, Ryan tinha participado de forma incondicional no processo. Viera a todas as sessões e até pusera o trabalho em segundo plano para ter mais tempo disponível. Hoje fora buscar April à escola.

Riley perscrutava o rosto do ex-marido enquanto ele olhava fixamente para a porta do gabinete. Parecia um homem mudado. Não há muito tempo, era tão desatento que chegara ao ponto de ser negligente enquanto pai. Sempre insistira que todos os problemas de April eram da responsabilidade de Riley.

Mas o consumo de drogas de April e a sua quase introdução no mundo da prostituição forçada, mudara algo em Ryan. Depois da sua permanência na clínica de reabilitação, April já estava em casa com Riley há seis semanas. Ryan visitava-a com frequência e estivera presente no Dia de Ação de Graças. Por vezes até pareciam uma família normal.

Mas Riley não parava de se lembrar de que eles nunca tinham sido uma família normal.

Poderia isso agora mudar? Perguntava-se Riley. Quero que mude?

Riley sentia-se dividida, até um pouco culpada. Há muito que tentava aceitar o facto de que o seu futuro não incluiria Ryan. Talvez até houvesse outro homem na sua vida.

Sempre existira uma atração entre ela e Bill. Mas também se digladiavam e discutiam de vez em quando. Para além disso, a sua relação profissional era suficientemente exigente sem a parte romântica.

O seu vizinho bondoso e atraente, Blaine, parecia coadunar-se melhor com as suas necessidades, sobretudo porque a sua filha Crystal e April eram grandes amigas.

Ainda assim, em momentos como aquele, Ryan quase parecia o mesmo homem por quem ela se tinha apaixonado há tantos anos. Que rumo tomava a sua vida? Não sabia.

A porta do gabinete abriu-se e a Dra. Lesley Sloat saiu.

“Agora já podem entrar,” Disse com um sorriso estampado no rosto.

Riley sempre gostara da psicóloga baixinha, robusta e bondosa, e April também gostava muito dela.

Riley e Ryan entraram no gabinete e sentaram-se numas poltronas confortáveis. Estavam de frente para April que estava sentada no sofá ao lado da Dra. Sloat. April sorria debilmente. A Dra. Sloat fez um gesto com a cabeça para ela começar a falar.

“Aconteceu uma coisa esta semana,” Disse April. “É um pouco difícil falar sobre isso…”

A respiração de Riley acelerou e sentiu o coração bater com mais força.

“Está relacionado com a Gabriela,” Disse April. “Talvez ela também devesse aqui estar para falar sobre isto, mas como não está…”

April calou-se.

Riley estava surpreendida. Gabriela era uma mulher Guatemalteca corpulenta de meia-idade que trabalhava para a família há anos. Mudara-se com Riley e April, e era como um membro da família.

April respirou fundo e continuou, “Há alguns dias atrás, ela disse-me uma coisa que eu não vos disse. Mas penso que devem saber. A Gabriela disse que tinha que se ir embora.”

“Porquê?” Articulou Riley.

Ryan parecia confuso. “Não lhe pagas o suficiente?” Perguntou.

“É por minha causa,” Disse April. “Ela disse que não podia continuar. Disse que era demasiada responsabilidade para ela ter que impedir que eu me magoasse ou que me magoassem.”

April parou de falar. Uma lágrima cintilou no canto do olho.

“Ela disse que era demasiado fácil eu esgueirar-me de casa sem que ela se apercebesse. Não conseguia dormir à noite com medo que eu estivesse em perigo. Disse que agora que estou bem novamente, vai-se embora imediatamente.”

Riley ficou alarmada. Ela não sabia que Gabriela pensava dessa forma.

“Pedi-lhe para não ir,” Disse April. “Eu chorei e ela também chorou, mas não consegui que mudasse de opinião e fiquei apavorada.”

April conteve um soluço e limpou os olhos com um lenço.

“Mãe,” Disse April, “Eu cheguei a ajoelhar-me. Prometi que nunca a faria sentir-se assim novamente. Por fim… por fim ela abraçou-me e disse que não se iria embora desde que eu cumprisse a minha promessa. E vou cumprir. Vou mesmo. Mãe, pai, nunca mais vos vou preocupar ou à Gabriela ou a qualquer outra pessoa daquela forma.”

A Dra. Sloat deu uma palmadinha na mão de April e dirigiu um sorriso a Riley e Ryan.

Disse, “O que a April está a tentar dizer é que está a recuperar.”

Riley viu Ryan a tirar um lenço e a limpar os olhos. Raramente o vira chorar. Mas percebia como é que ele se estava a sentir. Ela própria estava comovida. Fora Gabriela – não Riley ou Ryan – a mostrar a luz a April.

Ainda assim, Riley sentiu-se incrivelmente grata por a sua família estar junta e bem no Natal. Ignorou o medo que se esgueirava dentro de si, a pavorosa sensação de que os monstros da sua vida iam transtornar o seu Natal.




CAPÍTULO TRÊS


Quando Shane Hatcher entrou na biblioteca da prisão no dia de Natal, o relógio de parede indicava que faltavam dois minutos para a hora certa.

Timing perfeito, Pensou.

Dali a alguns minutos ele ia evadir-se.

Estava divertido por ver decorações de Natal penduradas por todo o lado – todas feitas de esferovite, claro, nada duro ou afiado ou que pudesse ser utilizado como corda. Hatcher passara muitos períodos natalícios em Sing Sing e a ideia de tentar evocar o espírito natalício ali sempre lhe parecera absurdo. Quase ria quando via Freddy, o taciturno bibliotecário da prisão, a usar um barrete vermelho de Pai Natal.

Sentado na sua secretária, Freddy virou-se para ele e lançou-lhe um sorriso cadavérico. Aquele sorriso dizia a Hatcher que tudo corria como planeado. Hatcher silenciosamente assentiu com a cabeça e devolveu-lhe o sorriso. Depois Hatcher caminhou entre duas prateleiras e esperou.

Assim que o relógio bateu a hora certa, Hatcher ouviu o som da porta de carregamentos a abrir no extremo oposto da biblioteca. Dali a momentos, o motorista da carrinha surgiu empurrando um grande recipiente de plástico com rodas. A porta fechou-se ruidosamente atrás dele.

“Qué que tens pra mim esta semana, Bader?” Perguntou Freddy.

“O que é que achas que tenho?” Questionou o condutor. “Livros, livros, livros.”

O condutor espreitou rapidamente na direção de Hatcher e depois virou-se. O condutor, como era evidente, estava a par do plano. Daquele momento em diante, tanto o condutor como Freddy trataram Hatcher como se ele não estivesse ali.

Excelente, Pensou Hatcher.

Juntos, Bader e Freddy descarregaram os livros para uma mesa metálica com rodas.

“Que tal um café no comissariado?” Perguntou Freddy ao condutor. “Ou talvez um eggnog quente? Estão servi-lo nesta altura,”

“Parece ótimo.”

Os dois homens conversavam normalmente quando desapareceram pelas portas da biblioteca.

Hatcher permaneceu sossegado por um momento, estudando a exata posição do contentor. Tinha pago a um guarda para desviar uma câmara de vigilância aos poucos durante vários dias até haver um local não vigiado na biblioteca – um local que os guardas que olhavam para os monitores não tinham reparado. Parecia que o condutor tinha acertado em cheio.

Hatcher saiu silenciosamente de entre as estantes e saltou para dentro do contentor. O condutor deixara um cobertor grosso e pesado no fundo. Hatcher tapou-se com o cobertor.

Aquele era o momento do plano de Hatcher em que alguma coisa podia correr mal. Mas mesmo que alguém entrasse na biblioteca, duvidava que se dessem ao trabalho de espreitar para dentro do contentor. Os que inspecionariam o camião também tinham sido pagos.

Não que estivesse preocupado ou nervoso. Não sentia tais emoções há três décadas. Um homem que nada tinha a perder na vida não podia sentir ansiedade ou desconforto. A única coisa que podia suscitar o seu interesse era a promessa do desconhecido.

Permaneceu debaixo do cobertor, escutando atentamente. Ouvia o relógio de parede a emitir o seu ruído à passagem dos minutos.

Mais cinco minutos, Pensou.

E aquele era o plano. Aqueles cinco minutos dariam a Freddy um álibi. Poderia dizer com toda a sinceridade que não vira Hatcher a trepar para o contentor. Poderia dizer que pensara que Hatcher já saíra da biblioteca. Quando terminassem os cinco minutos, Freddy e o condutor voltariam e Hatcher seria transportado para fora da biblioteca e da prisão.

Entretanto, Hatcher deixou os seus pensamentos divagarem para o que faria com a sua liberdade. Ouvira recentemente umas notícias que faziam o risco valer a pena – até o tornavam interessante.

Hatcher sorriu quando pensou noutra pessoa que ficaria muito interessada com a sua fuga. Desejava ver a cara de Riley Paige quando descobrisse que ele fugira.

Riu-se deste pensamento.

Ia ser um prazer vê-la novamente.




CAPÍTULO QUATRO


Riley observava April enquanto esta abria a caixa com o presente de Natal de Ryan. Perguntou-se quão a par dos gostos da filha ele estaria por aqueles dias.

April sorriu quando pegou numa pulseira de prata.

“É linda, papá!” Disse April, dando-lhe um beijo na bochecha.

“Ouvi dizer que é o que está na moda,” Disse Ryan.

“E é!” Disse April. “Obrigada!”

Depois piscou ligeiramente o olho a Riley. Riley conseguiu conter uma risada. Há apenas alguns dias, April tinha-lhe dito o quanto detestava aquelas pulseiras disparatadas que todas as raparigas agora usavam. Apesar disso, April estava perfeita em parecer entusiasmada.

É evidente que Riley sabia que não era só fingimento. Era-lhe possível perceber que April estava contente com o facto de o pai ter feito um esforço para lhe comprar um presente de Natal de que gostasse.

O sentimento de Riley em relação à mala cara que Ryan lhe tinha oferecido era semelhante. Não era o estilo dela e ela nunca a usaria – Exceto quando soubesse que Ryan estaria por perto. E tinha a certeza de que Ryan sentia o mesmo em relação à carteira que ela e April lhe tinham comprado.

Estamos a tentar ser uma família novamente, Pensou Riley.

E naquele dia pareciam estar a conseguir.

Entretanto era manhã de Natal e Ryan acabara de chegar para passar o dia com elas. Riley, April, Ryan e Gabriela estavam sentados junto à aconchegante lareira a beber chocolate quente. O delicioso odor do jantar de Natal de Gabriela pairava no ar vindo da cozinha.

Riley, April e Ryan usavam cachecóis que Gabriela lhes fizera, e Gabriela usava umas pantufas fofas que April e Riley lhe tinham oferecido.

A campainha tocou e Riley foi ver quem era, deparando-se com o vizinho, Blaine e a filha adolescente Crystal.

Riley estava simultaneamente encantada e desconfortável por vê-los. Ryan já demonstrara ciúmes de Blaine – e não sem razão, Riley tinha que admitir. A verdade era que Riley considerava Blaine um homem muito atraente.

Não conseguia deixar de o comparar mentalmente a Bill e Ryan. Blaine era um pouco mais novo do que ela, estava magro e em forma, e Riley gostava que ele assumisse que estava a ficar sem cabelo.

“Entrem!” Disse Riley.

“Peço desculpa mas não posso,” Disse Blaine. “Tenho que ir para o restaurante, mas trouxe a Crystal para ficar.”

Blaine era dono de um popular restaurante no centro da cidade. Riley percebeu que não devia ficar espantada por estar aberto no dia de Natal. O jantar de Natal no Blaine’s Grill devia ser delicioso.

Crystal reuniu-se ao grupo junto da lareira. Aos risinhos, ela e April abriram os presentes que ofereceram uma à outra.

Riley e Blaine trocaram de forma discreta postais de Natal e depois Blaine foi-se embora. Quando Riley se juntou novamente ao grupo, Ryan parecia algo azedo. Riley guardou o cartão sem o abrir. Esperaria até que Ryan se fosse embora.

A minha vida é mesmo complicada, Pensou. Mas começava a parecer uma vida quase normal, uma versão da vida que ela apreciaria.



*



Os passos de Riley ecoavam no compartimento grande e escuro. De repente, o ruído de um interruptor a invadir o silêncio. As luzes agora ligadas cegaram-na durante alguns segundos.

Riley estava agora no corredor do que parecia ser um museu de cera repleto de peças aterradoras. À sua direita estava o corpo nu de uma mulher colocado junto a uma árvore. À esquerda, estava uma mulher morta envolta em correntes e pendurada num poste de eletricidade. Uma outra peça expunha vários corpos de mulheres com os braços amarrados atrás das costas. Para lá dessa peça, viam-se cadáveres esfomeados com os membros grotescamente dispostos.

Riley reconheceu cada uma daquelas cenas. Eram casos em que ela tinha trabalhado. Estava a entrar na sua câmara de horrores pessoal.

Mas o que é que estava ali a fazer?

De repente, ouviu uma voz jovem e aterrorizada a gritar.

“Riley, ajuda-me!”

Riley olhou em frente e viu a silhueta de uma jovem a erguer os braços num apelo desesperado.

Parecia Jilly. Estava novamente metida em sarilhos.

Riley desatou a correr na sua direção, mas então surgiu outra luz que mostrou que não se tratava de Jilly.

Era um homem velho envergando o seu uniforme de Coronel da Marinha.

Era o próprio pai de Riley. E ria-se do erro de Riley.

“Não estavas à espera de encontrar ninguém vivo, pois não?” Dizia. “Só és útil a quem já está morto. Quantas vezes é que tenho que te dizer isto?”

Riley estava intrigada. O pai tinha morrido há meses. Não sentia a sua falta. Fazia os possíveis para nunca pensar nele. Sempre fora um homem duro que só lhe tinha provocado dor.

“O que é que estás aqui a fazer?” Perguntou Riley.

“Só estou de passagem.” Riu. “Para ver como estás a estragar a tua vida. O mesmo de sempre, segundo me parece.”

Riley queria atirar-se a ele. Queria bater-lhe com toda a força que conseguisse. Mas ficou congelada sem se conseguir mexer.

Depois surgiu um som ensurdecedor.

“Gostava que pudéssemos conversar,” Disse ele. “Mas tens assuntos para tratar.”

O som tornou-se cada vez mais ruidoso e o pai virou-se e desapareceu.

“Nunca fizeste nada de bom a ninguém,” Disse ainda. “Nem a ti própria.”



Os olhos de Riley abriram-se. Percebeu que o telefone estava a tocar. O mostrador do relógio indicava que eram 06:00.

Riley viu que a chamada era de Quantico. Uma chamada àquela hora só podia significar algo grave.

Atendeu o telefone e ouviu a voz firme do seu chefe de equipa, o Agente Especial Responsável Brent Meredith.

“Agente Paige, preciso que venha ao meu gabinete agora mesmo,” Disse ele. “Isto é uma ordem.”

Riley esfregou os olhos.

“De que é que se trata?” Perguntou.

Seguiu-se uma curta pausa.

“Temos que falar sobre isso pessoalmente,” Disse ele.

E terminou a chamada. Durante um breve momento, Riley pensou se o que a esperava era uma reprimenda pelo seu comportamento. Mas não, já estava de licença há vários meses. Uma chamada de Meredith só podia significar uma coisa.

É um caso, Pensou Riley.

Ele não lhe ligaria no Natal por outra razão que não essa.

E pelo tom de voz de Meredith, parecia algo grave – talvez algo que transformasse a sua vida.




CAPÍTULO CINCO


A apreensão de Riley aumentou quando entrou no edifício da UAC. Quando penetrou no gabinete de Brent Meredith, o chefe encontrava-se sentado à secretária à sua espera. Meredith, um homem Afro-Americano de feições angulares, era sempre uma presença intimidante. Naquele momento também parecia estar preocupado.

Bill também lá estava. Riley percebeu pela sua expressão que ainda não tinha conhecimento do assunto da reunião.

“Sente-se, Agente Paige,” Disse Meredith.

Riley sentou-se numa cadeira disponível.

“Peço desculpa por interromper as suas férias,” Disse Meredith a Riley. “Há muito tempo que não falamos. Como tem passado?”

Riley foi apanhada de surpresa. Não fazia parte do estilo de Meredith dar nício a uma reunião daquela forma – com um pedido de desculpas e uma pergunta sobre o seu bem-estar. Geralmente ia direto ao assunto. Era evidente que ele sabia que ela estava de licença devido ao problema de April e Riley percebeu que Meredith estava genuinamente preocupado. Ainda assim, pareceu-lhe estranho.

“Estou melhor, obrigada,” Disse Riley.

“E a sua filha?” Perguntou Meredith.

“Está a recuperar bem, obrigada,” Disse Riley.

Meredith fixou o olhar no de Riley em silêncio durante alguns instantes.

“Espero que esteja preparada para regressar ao trabalho,” Disse Meredith. “Porque se há um caso em que precisamos de si, é neste.”

Riley estava confusa enquanto aguardava pela explicação do chefe.

Por fim, Meredith disse, “Shane Hatcher fugiu da Prisão de Sing Sing.”

As palavras de Brent Meredith atingiram-na como uma tonelada de tijolos e ficou contente por estar sentada.

“Meu Deus,” Disse Bill, igualmente surpreendido com a notícia.

Riley conhecia bem Shane Hatcher – demasiado bem para o seu gosto. Hatcher cumpria uma pena de prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional há várias décadas. No tempo que passara na prisão, tornara-se num perito em criminologia. Publicara artigos em revistas académicas e dera aulas nos programas académicos da prisão. Riley já o tinha visitado várias vezes na prisão em busca de conselho em casos em que estava a trabalhar.

As visitas sempre haviam sido perturbadoras. Hatcher parecia sentir uma afinidade especial por ela. E Riley sabia que, bem no fundo, também ela estava mais fascinada por ele do que era suposto. Para ela, ele era muito possivelmente o homem mais inteligente que já conhecera – e talvez também o mais perigoso.

Após cada visita, Riley jurava sempre nunca mais o ver. Agora lembrava-se bem da última vez que estivera na sala de visitas de Sing Sing.

“Não vou voltar,” Dissera-lhe ela.

“Pode não ter que cá voltar para me ver,” Respondera Hatcher.

Naquele momento, aquelas palavras pareciam perturbadoramente proféticas.

“Como é que ele fugiu?” Perguntou Riley a Meredith.

“Não sei muitos pormenores,” Disse Meredith. “Mas como provavelmente sabe, ele passava muito tempo na biblioteca da prisão e trabalha lá frequentemente como assistente. Ele estava lá ontem quando chegou um carregamento de livros. Deve-se ter escapado para a carrinha que trazia os livros. Quando os guardas deram pela falta dele ontem à noite, a carrinha foi encontrado abandonada a alguns quilómetros de Ossining. Não havia sinais do condutor.”

Meredith calou-se novamente. Riley não tinha qualquer dificuldade em acreditar que Hatcher tinha gizado tal plano de fuga. Quanto ao condutor, Riley nem queria pensar no que lhe sucedera.

Meredith inclinou-se sobre a secretária na direção de Riley.

“Agente Paige, você conhece o Hatcher melhor do que ninguém. O que nos pode dizer sobre ele?”

Ainda a recuperar do impacto que a notícia lhe causara, Riley respirou fundo e disse, “Na sua juventude, Hatcher foi membro de um gang em Syracuse. Era invulgarmente cruel até para um criminoso calejado. As pessoas chamavam-lhe ‘Shane the Chain’ porque gostava de espancar até à morte rivais de outros gangs com correntes.”

Riley fez uma pausa, tentando recordar-se do que Shane lhe dissera.

“Um determinado polícia assumiu como missão pessoal prender Hatcher. Hatcher retaliou pulverizando-o com correntes a ponto de ficar irreconhecível. Deixou o seu corpo desfigurado no alpendre da sua casa para a família o encontrar. E foi aí que Hatcher foi apanhado. Está na prisão há trinta anos. Nunca de lá sairia.”

Outro silêncio se seguiu.

“Neste momento tem cinquenta e cinco anos,” Disse Meredith. “Seria de pensar que após trinta anos na prisão, ele não fosse tão perigoso como era quando jovem.”

Riley abanou a cabeça

“Pensaria mal,” Disse ela. “Naquela altura, ele era apenas um bandido ignorante. Não tinha conhecimento do seu próprio potencial. Mas com o passar dos anos adquiriu muitos conhecimentos. Ele sabe que é um génio. E nunca demonstrou qualquer arrependimento. E desenvolveu uma personalidade polida ao longo dos anos. E comportou-se bem na prisão, o que lhe dá acesso a privilégios, mesmo que a pena não seja reduzida. Mas tenho a certeza de que ele é, neste momento, mais cruel e perigoso do que nunca.”

Riley pensou por alguns instantes. Algo a incomodava, mas não sabia bem o quê.

“Alguém sabe porquê?” Perguntou Riley.

“Porquê o quê?” Disse Bill.

“Porque é que ele fugiu.”

Bill e Meredith trocaram olhares intrigados.

“Por que é que alguém foge da prisão?” Perguntou Bill.

Riley percebeu quão estranha soava a sua pergunta. Lembrava-se de uma altura em que Bill fora com ela falar com Hatcher.

“Bill, tu conheceste-o,” Disse ela. “Pareceu-te alguém insatisfeito? Inquieto?”

Bill franziu o sobrolho enquanto pensava.

“Não, na verdade ele parecia…”

E não prosseguiu.

“Quase satisfeito, talvez?” Disse Riley, terminando o pensamento que Bill deixara incompleto. “A prisão parece assentar-lhe bem. Nunca tive a sensação de que ele desejasse a liberdade. Há quase qualquer coisa de zen a respeito dele, o seu desprendimento em relação a tudo na vida. Que eu saiba, não tem desejos. A liberdade não tem nada a oferecer-lhe. E agora está em fuga, um homem procurado. Porque é que ele decidiu fugir? E porquê agora?”

Meredith tamborilou os dedos na secretária.

“Como ficaram as coisas da última vez que esteve com ele?” Perguntou. “Despediram-se sem problemas?”

Riley mal conseguiu suprimir um sorriso irónico.

“Nunca nos despedimos sem problemas,” Disse ela.

Depois, após uma pausa, acrescentou, “Compreendo onde quer chegar. Está a pensar se eu serei o seu alvo.”

“É possível?” Perguntou Bill.

Riley não respondeu. Mais uma vez se lembrou do que Hatcher lhe tinha dito.

“Pode não ter que cá voltar para me ver.”

Seria uma ameaça? Riley não sabia dizer.

Meredith disse, “Agente Paige, não preciso de lhe dizer que este caso é de grande importância e vai implicar muita pressão. Enquanto falamos, a notícia já está em todos os meios de comunicação social. As fugas de prisões são sempre notícias de grande relevo. Até podem causar pânico generalizado. Seja o que for que ele pretenda, temos que o localizar rapidamente. Tenho pena que tenha que voltar a um caso tão perigoso e difícil como este. Sente-se preparada? Sente-se à altura?”

Riley sentiu uma estranha dormência ao ponderar aquela pergunta. Era uma sensação que se apoderava dela antes de aceitar um caso. Demorou um instante a perceber que a sensação era medo, puro e simples medo.

Mas não era medo por si. Era algo mais. Era algo inominável e irracional. Talvez fosse o facto de que Hatcher a conhecia demasiado bem. Pela sua experiência, todos os prisioneiros sempre queriam algo em troca de informações, mas Hatcher não estava interessado em banalidades como whiskey ou cigarros. O seu quid pro quo tinha tanto de simples como de profundamente perturbador.

Hatcher queria que Riley lhe contassse coisas a seu respeito.

“Algo que não queira que os outros saibam,” Dissera ele. “Algo que não quer que ninguém saiba.”

Riley tinha cumprido, talvez com demasiada facilidade. Agora Hatcher sabia todo o tipo de coisa a seu respeito – que era uma mãe com falhas, que odiava o pai e que não fora ao seu funeral, que havia tensão sexual entre ela e Bill, e que às vezes – tal como o próprio Hatcher – retirava prazer da violência e da morte.

Ela lembrava-se do que ele dissera na sua última visita.

“Eu conheço-a. Em alguns aspetos, conheço-a melhor do que você própria.”

Conseguiria ela ser tão perspicaz como aquele homem? Meredith aguardava pacientemente a resposta à sua pergunta.

“Estou tão pronta quanto me é possível estar,” Disse Riley, tentando soar mais confiante do que na realidade se sentia.

“Ótimo,” Disse Meredith. “Como devemos proceder?”

Riley pensou por alguns instantes.

“O Bill e eu temos que averiguar toda a informação que o FBI tem sobre Shane Hatcher,” Afirmou Riley.

Meredith anuiu e disse, “Já tomei a liberdade de pedir ao Sam Flores para começar a preparar tudo.”



*



Alguns minutos mais tarde, Riley, Bill e Meredith já se encontravam na sala de conferências da UAC a observar as informações multimédia que Sam Flores tinha reunido. Flores era um técnico laboratorial com óculos de aros escuros.

“Penso que tenho aqui tudo aquilo que desejam ver,” Disse Flores. “Certificado de nascimento, registos de detenções, transcrições de tribunal, tudo.”

Riley tinha que admitir que era uma compilação impressionante que não deixava muito espaço à imaginação. Havia várias fotos horríveis das vítimas de Shane Hatcher, incluindo o polícia desfigurado deixado no alpendre da sua própria casa.

“Que informações temos sobre o polícia que Hatcher assassinou?” Perguntou Bill.

Flores mostrou um conjunto de fotos que mostravam um polícia de aspeto amável.

“Trata-se do agente Lucien Wayles que tinha quarenta e seis anos quando morreu em 1986,” Disse Flores. “Era casado e tinha três filhos, fora condecorado, todos gostavam dele e era respeitado. O FBI colaborou com polícias locais e apanharam Hatcher poucos dias depois da morte de Wayles. O que é incrível é que não reduziram Hatcher a um monte ensanguentado no momento em que o apanharam.”

Olhando para a apresentação, Riley ficou atónita com as fotos do próprio Hatcher. Mal o reconhecia. Apesar do homem que conhecia poder ser intimidante, conseguia projetar uma atitude respeitável, até de académico com uns óculos de leitura sempre pendurados na ponta do nariz. O jovem Afro-Americano que surgia nas fotos de 1986 tinha um rosto duro e um olhar cruel e vazio. Riley quase tinha dificuldade em acreditar que se tratava da mesma pessoa.

Por muito detalhada e completa que a apresentação fosse, Riley sentiu-se insatisfeita. Ela pensava que conhecia Shane Hatcher melhor do que qualquer outra pessoa, mas a realidade era que ela não conhecia aquele Shane Hatcher – o cruel jovem bandido a quem deram a alcunha de “Shane the Chain.”

Tenho que o conhecer, Pensou.

Caso não o fizesse, duvidava que o conseguisse apanhar.

De alguma forma, sentia que a sensação fria e digital que a apresentação lhe transmitia trabalhava em seu desfavor. Precisava de algo mais tangível – fotografias reais com vincos e pontas dobradas, relatórios e documentos amarelados e frágeis.

Perguntou a Flores, “Posso ter acesso aos originais?”

Flores manifestou alguma incredulidade.

“Lamento, Agente Paige – mas nem pensar. O FBI destruiu todos os ficheiros em papel em 2014. Agora está tudo digitalizado. O que vê é o que temos.”

Riley libertou um suspiro de desilusão. Sim, ela lembrava-se da destruição de milhões de ficheiros em papel. Outros agentes se tinham queixado, mas na altura não lhe parecera um problema. Agora bem que desejava a antiga sensação de palpabilidade.

Mas naquele momento, o mais importante era tentar adivinhar qual o próximo passo de Hatcher. E ocorreu-lhe uma ideia.

“Quem foi o polícia que prendeu Hatcher?” Perguntou Riley. “Se ainda for vivo, o mais certo é ser o primeiro alvo de Hatcher.”

“Não foi um polícia local,” Disse Flores. “E não foi um polícia.”

Mostrou uma foto antiga de uma agente.

“Chama-se Kelsey Sprigge. Era Agente do FBI no departamento de Syracuse – na altura tinha trinta e cinco anos. Agora tem setenta, está aposentada e vive em Searcy, uma cidade perto de Syracuse.”

Riley ficou surpreendida com o facto de Sprigge ser uma mulher.

“Ela deve-se ter juntado ao FBI…” Começou Riley.

Flores continuou o seu pensamento.

“Entrou em 1972, quando o cadáver de J. Edgar mal tinha arrefecido. Foi nessa altura que as mulheres foram finalmente autorizadas a serem agentes. Anteriormente tinha sido polícia.”

Riley estava impressionada. Kelsey Sprigge tinha vivido muita história.

“O que me podes dizer sobre ela?” Perguntou Riley a Flores.

“Bem, é viúva, tem três filhos e três netos.”

“Liguem ao departamento do FBI de Syracuse e digam-lhes para mantê-la em segurança a todo o custo,” Disse Riley. “Ela está em perigo.”

Flores assentiu.

Depois voltou-se para Meredith.

“Vou precisar de um avião.”

“Porquê?” Perguntou Meredith, confuso.

Riley respirou fundo.

“Shane pode estar a caminho de matar Sprigge,” Disse ela. “E eu quero estar com ela antes que isso possa acontecer.”




CAPÍTULO SEIS


Quando o avião do FBI aterrou na pista do Syracuse Hancock International Airport, Riley lembrou-se de algo que o pai lhe tinha dito no sonho da noite anterior.

“Só és útil a quem já está morto.”

Riley ficou afetada com a ironia. Este era provavelmente o primeiro caso que lhe fora atribuído onde alguém ainda não tinha sido assassinado.

Mas é provável que mude em breve, Pensou.

Estava particularmente preocupada com Kelsey Sprigge. Riley queria conhecer aquela mulher pessoalmente e certificar-se de que estava bem. Depois, dependeria de Riley e de Bill que assim continuasse; e isso implicava localizar Shane Hatcher e prendê-lo novamente.

À medida que o avião se aproximava do terminal, Riley viu que tinham viajado até um mundo invernoso. Apesar da pista estar limpa, enormes montanhas nevadas mostravam a quantidade de trabalho que os equipamentos de limpeza tinham tido recentemente.

Era uma mudança de cenário abrupta em relação à Virginia – e uma mudança bem-vinda. Riley compreendeu naquele momento o quanto precisava de um novo desafio. Ligara a Gabriela de Quantico a explicar que estaria fora a trabalhar num caso. Gabriela ficara feliz por ela e garantiu-lhe que tomaria conta de April.

Quando o avião parou, Riley e Bill pegaram nos seus haveres e desceram as escadas rumo à pista gelada. Quando sentiu o choque do frio extremo no seu rosto, Riley não escondeu a sua satisfação por lhe terem dado um casaco bem quente em Quantico.

Dois homens abordaram-nos e apresentaram-se como Agentes McGill e Newton do departamento de Syracuse.

“Estamos aqui para ajudar no que for preciso,” Disse McGill a Bill e Riley enquanto se apressavam rumo ao terminal.

Riley fez a primeira pergunta que lhe veio à cabeça.

“Têm pessoal a vigiar Kelsey Sprigge? Têm a certeza de que ela está em segurança?”

“Alguns polícias estão à porta da sua casa em Searcy,” Disse Newton. “Temos a certeza de que está bem.”

Riley desejava ter tanta certeza.

Bill disse, “Ok, neste momento só precisamos de uma viatura para irmos até Searcy.”

McGill disse, “ Searcy não fica muito longe de Syracuse e as estradas estão limpas. Trouxemos um SUV que podem usar mas… estão habituados a conduzir condições destas?”

“Sabem, é que Syracuse ganha sempre o Prémio de Golden Snowball,” Acrescentou Newton com orgulho imoderado.

“Golden Snowball?” Perguntou Riley.

“É o prémio do estado de Nova Iorque para quem tem mais neve,” Disse McGill. “Nós somos os campeões. Temos um troféu que o comprova.”

“Talvez um de nós devesse conduzir-vos até lá,” Disse Newton.

Bill deu uma risada, “Obrigado, mas acho que conseguimos. Tive um trabalho de inverno no Dakota do Norte há alguns anos atrás. Fartei-me de conduzir por lá.”

Apesar de não se manifestar, Riley também se sentia preparada para aquele tipo de condução. Aprendera a conduzir nas montanhas da Virginia. A neve lá nunca era tão profunda como aqui, mas as estradas secundárias nunca estavam desimpedidas rapidamente. O mais certo era demorar o mesmo tempo que qualquer outra pessoa a circular naquelas estradas geladas.

Mas não se importava que Bill conduzisse. Naquele momento, estava preocupada com a segurança de Kelsey Sprigge. Bill pegou nas chaves e partiram.

“Devo dizer que me sabe bem estarmos a trabalhar outra vez juntos,” Disse Bill enquanto conduzia. “É capaz de ser egoísta da minha parte. Gosto de trabalhar com a Lucy mas não é a mesma coisa.”

Riley sorriu. Também ela se sentia bem em trabalhar novamente com Bill.

“Ainda assim, por um lado não queria que o teu regresso fosse com este caso,” Acrescentou Bill.

“Porque não?” Perguntou Riley surpreendida.

Bill abanou a cabeça.

“Tenho um mau pressentimento,” Disse ele. “Lembra-te, eu também conheci o Hatcher. É preciso muito para me assustar mas… bem, ele é qualquer coisa de diferente.”

Riley não respondeu, mas não conseguia discordar. Ela sabia que Hatcher tinha alarmado Bill no decorrer daquela visita Com o seu instinto excecional, Hatcher tinha feito observações astutas sobre a vida pessoal de Bill.

Riley lembrava-se de Hatcher apontar para o dedo anelar de Bill e dizer:

“Não vale a pena conciliar-se com a sua mulher. Não é possível.”

Hatcher tinha razão e Bill estava agora a meio de um divórcio tudo menos amigável.

No fim da mesma visita, ele dissera algo a Riley que ainda a assombrava.

“Pare de o combater.”

Até hoje, ela não sabia a que Hatcher se referia. Mas Riley sentia o pavor inexplicável de que um dia descobriria.



*



Um pouco mais tarde, Bill estacionou a viatura junto a uma pilha de neve no exterior da casa de Kelsey Sprigge em Searcy. Riley viu um carro da polícia estacionado ali próximo com dois polícias desfardados no seu interior. Mas dois polícias num carro não lhe inspiravam muita confiança. O criminoso cruel e brilhante que fugira de Sing Sing podia tratar deles em dois tempos se a isso se dispusesse.

Bill e Riley saíram do carro e mostraram os seus distintivos aos polícias. Depois caminharam no passeio limpo em direção à casa. Era uma casa tradicional de dois andares com um prático telhado de duas águas e alpendre fronteiro, e estava coberta de luzes de Natal. Riley tocou à campainha.

Uma mulher abriu a porta com um sorriso encantador. Era magra e estava em forma, usando equipamento de jogging. A sua expressão era luminosa e alegre.

“Bem, devem ser os Agentes Jeffreys e Paige,” Disse ela. “Chamo-me Kelsey Sprigge. Entrem. Saíam deste frio horrível.”

Kelsey Sprigge conduziu Riley e Bill até uma confortável sala de estar com uma lareira acolhedora.

“Gostariam de beber alguma coisa?” Perguntou. “É claro, estão de serviço. Vou buscar café.”

Foi para a cozinha e Bill e Riley sentaram-se. Riley observou as decorações de Natal e as inúmeras fotografias penduradas nas paredes e pousadas na mobília. Eram fotos de Kelsey Sprigge em vários momentos da sua vida adulta com filhos e netos à sua volta. Em muitas das fotografias, um homem sorridente estava a seu lado.

Riley lembrava-se de Flores ter dito que Kelsey era viúva. Pelas fotografias, Riley percebeu que fora um casamento longo e feliz. De alguma forma, Kelsey Sprigge tinha conseguido alcançar o que sempre escapava a Riley. Ela tinha vivido uma vida familiar plena ao mesmo tempo que trabalhava como agente do FBI.

Riley não se importaria nada de lhe perguntar como o tinha conseguido. Mas é claro que aquele não era o momento adequado.

A mulher regressou rapidamente trazendo um tabuleiro com duas chávenas de café, natas e açúcar, e – para surpresa de Riley – um whiskey com gelo para ela.

Riley estava espantada com Kelsey. Para uma mulher com setenta anos, era extremamente enérgica e cheia de vida, e mais dura do que a maior parte das mulheres que conhecera. De alguma forma, Riley sentia que era quase como olhar para o seu próprio futuro e ver a mulher em que ela se tornaria.

“Bem, então,” Disse Kelsey, sentando-se e sorrindo. “Gostava que o nosso clima fosse mais acolhedor.”

Riley estava espantada com a sua descontraída hospitalidade. Nas circunstâncias em que se encontravam, pensava que encontraria uma mulher alarmada.

“Senhora Sprigge…” Começou Bill.

“Kelsey, por favor,” Interrompeu a mulher. “E sei porque é que estão aqui. Estão preocupados que o Shane Hatcher venha atrás de mim, que eu seja o seu primeiro alvo. Pensam que ele me quer matar.”

Riley e Bill entreolharam-se, sem saber muito bem o que dizer.

“E é claro que é por esse mesmo motivo que aqueles polícias estão lá fora,” Disse Kelsey, ainda sorrindo de forma adorável. “Disse-lhes para entrarem e se aquecerem mas eles não quiseram. Nem me deixaram sair para a minha corrida da tarde! Uma pena, eu simplesmente adoro correr com este tempo vigoroso. Bem, não estou preocupada em ser assassinada e não me parece que me deva preocupar. Não penso que o Shane Hatcher pretenda fazer isso.”

Riley quase perguntou, “Por que não?”

Mas em vez disso, disse cautelosamente, “Kelsey, você apanhou-o. Levou-o à justiça. Ele estava na prisão por sua causa. Você pode ser o motivo por que ele fugiu.”

Kelsey não disse nada por alguns instantes. Olhava a arma no coldre de Riley.

“Qual é a sua arma, querida?” Perguntou.

“Uma Glock de calibre quarenta,” Disse Riley.

“Boa!” Disse Kelsey. “Posso vê-la?”

Riley entregou a sua arma a Kelsey. Kelsey retirou a munição e examinou a arma. Manuseava-a com a delicadeza de um connoisseur.

“As Glocks chegaram tarde para mim,” Disse Kelsey. “Mas gosto delas. A armação polimérica é boa – muito leve, equilíbrio excelente. Adoro a disposição da mira.”

Voltou a colocar a munição na arma e entregou-a a Riley. Depois dirigiu-se a uma secretária e dali tirou a sua pistola semiautomática.

“Atingi o Shane Hatcher com esta preciosidade,” Disse, sorrindo. Entregou a arma a Riley e depois voltou a sentar-se. “Smith and Wesson Modelo 459. Feri-o e desarmei-o. O meu parceiro queria matá-lo no local – vingança pelo polícia que tinha assassinado. Bem, eu não o podia permitir. Disse-lhe que se matasse Hatcher, haveria mais do que um corpo para enterrar.”

Kelsey corou um pouco.

“Oh,” Disse. “Gostava que essa história não se divulgasse. Por favor, não contem a ninguém.”

Riley devolveu-lhe a arma.

“De qualquer das formas, sabia que a minha atitude teve a aprovação de Hatcher,” Disse Kelsey. “Sabem, ele tinha um código rígido, mesmo enquanto membro de um gang. Ele sabia que eu só estava a fazer o meu trabalho. Penso que ele respeitou isso. E que também ficou grato. De qualquer das formas, nunca demonstrou qualquer interesse por mim. Eu até lhe escrevi algumas cartas, mas ele nunca me respondeu. Provavelmente nem se lembra do meu nome. Não, tenho a certeza que ele não me quer matar.”

Kelsey olhou para Riley com interesse.

“Mas Riley – posso tratá-la por Riley? – disse-me ao telefone que o visitou na prisão, que o chegou a conhecer. Ele deve ser uma personalidade fascinante.”

Riley pensou detetar uma nota de inveja na voz da mulher.

Kelsey levantou-se da cadeira.

“Mas olhem só para mim a falar enquanto vocês têm um bandido para apanhar! E quem sabe o que ele está a planear neste preciso momento. Tenho algumas informações que vos podem ajudar. Venham daí, vou mostrar-vos tudo o que tenho.”

Kelsey conduziu Riley e Bill por um corredor até à porta de uma cave. Riley ficou subitamente nervosa.

Porque é que tem que ser numa cave? Pensou

Riley tinha uma ligeira mas irracional fobia por caves há algum tempo – vestígios do SPT de estar presa no espaço exíguo em que Peterson a mantivera e mais recentemente por ter apanhado um outro assassino numa cave completamente escura.

Mas ao seguirem Kelsey pelas escadas, Riley não viu nada de sinistro. A cave era usada como sala de recreio. A um canto estava uma área de escritório bem iluminada com uma secretária coberta de pastas manila, um quadro com velhas fotografias e recortes de jornais, e algumas gavetas de arquivo.

“Aqui está – tudo o que querem saber sobre ‘Shane the Chain’ e a sua carreira e a sua queda,” Disse Kelsey. “Estejam à vontade. Perguntem alguma coisa que não entendam.”

Riley e Bill começaram a percorrer as pastas. Riley estava surpreendida e entusiasmada. Era informação arrojada e fascinante, muita da qual nunca tinha sido digitalizada para a base de dados do FBI. A pasta que agora percorria estava pejada com items aparentemente pouco relevantes, incluindo guardanapos de restaurante com notas escritas à mão e esboços relacionados com o caso.

Abriu outra pasta que continha relatórios e outros documentos fotocopiados. Riley divertia-se por saber que Kelsey não os devia ter fotocopiado ou guardado. Os originais há muito que deviam ter sido destruídos depois de digitalizados.

Enquanto Bill e Riley revolviam o material, Kelsey observou, “Devem estar a pensar porque é que não me livrei destas coisas. Às vezes eu própria penso nisso.”

Ficou a pensar durante alguns instantes.

“Shane Hatcher foi o meu único contacto com o mal,” Disse. “Durante os meus primeiros catorze anos no FBI, quase só fazia trabalho administrativo no departamento de Syracuse – a mulher simbólica. Mas trabalhei neste caso desde a raiz, falei com membros de gangs nas ruas, liderei a equipa. Ninguém pensou que eu pudesse apanhar o Hatcher. Na verdade, ninguém tinha a certeza que alguém o pudesse apanhar. Mas eu consegui.”

Agora Riley percorria uma pasta com fotos de má qualidade que o FBI não se devia ter dado ao trabalho de digitalizar. É claro que Kelsey não as deitara fora.

Uma mostrava um polícia a falar com o membro de um gang. Riley imediatamente reconheceu o jovem como sendo Shane Hatcher. Demorou mais um pouco para reconhecer o polícia.

“Este é o agente que o Hatcher matou, não é?” Perguntou Riley.

Kelsey anuiu.

“Agente Lucien Wayles,” Disse ela. “Eu é que tirei essa foto.”

“O que faz ele a conversar com o Hatcher?”

Kelsey sorriu.

“Bem, isso é algo interessante,” Disse. “Suponho que tenham ouvido dizer que o agente Wayles era um polícia exemplar, condecorado. Isso é o que a polícia local ainda quer que todos pensem. Na verdade, ele era corrupto. Nesta foto, tinha-se encontrado com Hatcher para fazer um acordo com ele – uma partilha dos lucros da droga para não interferir no território de Hatcher. Hatcher recusou-se. E Wayles tentou forçá-lo a aceitar.”

“Como sabem, a coisa não resultou favoravelmente para o agente Wayles,” Disse Kelsey.

Riley começou a compreender. Era exatamente este tipo de material que ela procurava. Colocara-a muito, mas muito mais próxima da mente do jovem Hatcher.

Ao olhar para a foto de Hatcher e do polícia, Riley sondou a mente do jovem. Imaginou os pensamentos e sentimentos de Hatcher no momento em que a foto foi tirada. Também se lembrou de algo que Kelsey acabara de dizer.

“Sabem, ele tinha um código rígido, mesmo para membro de um gang.”

Das conversas que entabulara com Hatcher, Riley sabia que ainda hoje isso era verdade. E agora, olhando para a foto, Riley sentia o nojo visceral de Hatcher perante a proposta de Wayles.

Ofendeu-o, Pensou Riley. Soou-lhe a insulto.

Não admirava que Hatcher tivesse feito de Wayles um exemplo. De acordo com o código distorcido de Hatcher, era a coisa certa a fazer.

Dedilhando mais fotos, Riley encontrou uma de outro membro de gang.

“Quem é este?” Perguntou Riley.

“Smokey Moran,” Disse Kelsey. “O tenente em quem Shane the Chain mais confiava – até eu o prender por vender droga. Apanhou uma pena muito longa por isso não tive dificuldade em que ele cooperasse contra Hatcher em troca de alguma clemência. E foi assim que finalmente acabei com o Hatcher.”

Ao entregar a foto, Riley sentia um formigueiro na pele.

“O que foi feito de Moran?”

Kelsey abanou a cabeça.

“Ainda anda por aí.” Disse. “Muitas vezes penso que não devia ter feito aquele acordo. Há anos e anos que lidera todo o tipo de atividades de gang. Os membros mais jovens olham para ele e admiram-no. Ele é esperto e esquivo. Os polícias locais e o FBI nunca o conseguiram apanhar.”

Aquela sensação de formigueiro aumentou. Riley entrou na cabeça de Hatcher, cismando na prisão durante décadas a respeito da traição de Moran. No universo moral de Hatcher, um homem desses não merecia viver. E a justiça já era tardia.

“Tem a sua morada atual?” Perguntou Riley a Kelsey.

“Não, mas tenho a certeza que o departamento tem. Porquê?”

Riley respirou fundo.

“Porque o Shane vai lá matá-lo.”


CAPÍTULO SETE



Riley sabia que Smokey Moran estava em grande perigo. Mas a verdade era que Riley não morria de amores pelo bandido de carreira.

Só Shane Hatcher importava.

A sua missão era prender Hatcher novamente. Se o apanhassem antes de matar Moran pela antiga traição, tudo bem. Ela e Bill iriam à morada de Moran sem qualquer aviso prévio. Ligariam para o departamento local do FBI para que reforços fossem lá ter com eles.

Era uma viagem de meia hora a partir da casa de Kelsey Sprigge situada numa Searcy de classe média até aos bairros sinistros de gangs de Syracuse. O céu estava nublado, mas não caía neve e o trânsito fluía normalmente nas estradas limpas.

Enquanto Bill conduzia, Riley acedeu à base de dados do FBI e fez uma pesquisa rápida no seu telemóvel. Concluiu que a situação local com os gangs era grave. Os gangs tinham-se formado e reagrupado nesta área desde começos dos anos 80. Na época de Shane the Chain eram sobretudo gangs locais. Desde essa altura, os gangs de dimensão nacional tinham entrado em cena, trazendo consigo níveis de violência mais exacerbados.

As drogas que alimentavam esta violência com os seus lucros haviam-se tornado mais estranhas e muito mais perigosas. Agora incluíam cigarros ensopados em fluído de embalsamamento e cristais que induziam paranoia chamados de “sais de banho”. Quem poderia adivinhar as substâncias ainda mais mortíferas que surgiriam de seguida?

Quando Bill estacionou em frente ao prédio degradado onde vivia Moran, Riley viu dois homens com casacos do FBI a saírem de outro carro – os Agentes McGill e Newton que os haviam recebido no aeroporto. Percebeu pelo volume que usavam coletes Kevlar debaixo dos casacos. Ambos traziam consigo espingardas de sniper Remington.

“A casa de Moran fica no terceiro andar,” Disse Riley.

Quando o grupo de agentes entrou no prédio pela porta da frente, depararam-se com vários membros de gang na entrada fria e degradada. Limitavam-se a estar ali com as mãos enfiadas nos bolsos dos casacos e pareciam não prestar atenção ao esquadrão armado que acabara de entrar.

Guarda-costas de Moran?

Não parecia a Riley que tentassem parar o seu pequeno exército de agentes, apesar de poderem avisar Moran de que alguém ia a caminho.

McGill e Newton pareciam conhecer aqueles jovens. Os agentes deram-lhes umas palmadas rápidas nas costas.

“Viemos ver Smokey Moran,” Disse Riley.

Nenhum dos jovens abriu a boca. Apenas fitavam os agentes com uma expressão estranha e vazia. Pareceu um comportamento estranho a Riley.

“Saiam,” Disse Newton e os tipos assentiram e saíram pela porta da frente.

Com Riley à frente, os agentes percorreram três lanços de escadas. Os agentes locais mostraram o caminho, verificando cada corredor cuidadosamente. No terceiro andar pararam à porta do apartamento de Moran.

Riley bateu com força na porta. Quando não obteve resposta, gritou.

“Smokey Moran, sou a Agente do FBI Riley Paige. Os meus colegas e eu queremos falar consigo. Não lhe queremos fazer mal. Não estamos aqui para o prender.”

Mais uma vez, nenhuma resposta.

Riley virou a maçaneta. Para sua surpresa, a porta não estava trancada e a porta abriu-se sem dificuldade.

Os agentes entraram num apartamento bem cuidado e desinteressante com total ausência de decoração. Não havia uma televisão, aparelhos eletrónicos ou sequer um computador. Riley percebeu que Moran conseguia exercer uma tremenda influência no submundo do crime apenas com ordens diretas. Ao nunca estar online ou usar um telefone, permanecia fora do radar da polícia.

Definitivamente um cliente astuto, Pensou Riley. Às vezes, a forma mais antiquada de fazer as coisas funciona melhor.

Mas dele nem sinal. Os dois agentes locais revistaram todos os quartos e armários. Ninguém se encontrava no apartamento.

Desceram as escadas. Quando chegaram à entrada, McGill e Newton ergueram as suas espingardas, prontos para a ação. Os jovens do gang esperavam-nos no fundo das escadas.

Riley observou-os. Compreendeu que era óbvio que tinham ordens para deixar Riley e os colegas revistar o apartamento vazio. Agora parecia que tinham algo a dizer.

“O Smokey disse que calculava que viessem,” Disse um deles.

“Disse-nos para vos deixarmos uma mensagem,” Disse outro.

“Ele disse para irem ter com ele ao velho armazém Bushnell na Dolliver Street,” Disse ainda um terceiro.

Depois, sem proferirem mais uma palavra, os jovens afastaram-se, deixando espaço aos agentes para passarem.

“Ele estava sozinho?” Perguntou Riley.

“Estava quando saiu daqui,” Respondeu um dos jovens.

Pairava no ar uma espécie de presságio. Riley não sabia como o interpretar.

McGill e Newton não tiraram os olhos dos jovens enquanto os agentes saíam do prédio. Uma vez lá fora, Newton disse, “Sei onde fica esse armazém.”

“Eu também,” Disse McGill. “Fica a poucos quarteirões daqui. Mas não estou a gostar disto. Aquele lugar é perfeito para montar uma emboscada.”

Pegou no telemóvel e pediu mais reforços para lá irem ter.

“Temos que ter cuidado,” Disse Riley. “Mostrem-nos o caminho.”

Bill conduzia seguindo o SUV local. Ambos os carros estacionaram em frente a um decrépito edifício de tijolo de quatro andares com uma fachada em ruínas e janelas estilhaçadas. Logo a seguir, outro veículo do FBI chegou.

Observando o edifício, Riley percebeu o que McGill quisera dizer e por que quisera mais reforços. O lugar era enorme e decrépito com três andares de janelas escuras e partidas. Qualquer uma daquelas janelas podia facilmente esconder um atirador com uma espingarda.

Toda a equipa estava armada com armas de cano longo, mas Riley e Bill apenas tinham pistolas. Podiam transformar-se em alvos fáceis num tiroteio.

Ainda assim, uma cilada era algo que não fazia sentido para Riley. Depois de evitar astutamente ser preso durante três décadas, por que é que um tipo como Smokey Moran faria algo tão imprudente como abater agentes do FBI?

Riley comunicou com os outros agentes pelo rádio.

“Ainda estão a usar o Kevlar?” Perguntou.

“Sim,” Responderam.

“Ótimo. Fiquem quietos no carro até vos dizer para saírem.”

Bill já tinha chegado às traseiras do SUV bem abastecido onde encontrara dois coletes Kevlar. Ele e Riley colocaram-nos. Depois Riley encontrou um megafone.

Baixou a janela e falou na direção do edifício.

“Smokey Moran, somos do FBI. Recebemos a sua mensagem. Viemos vê-lo. Não lhe queremos fazer mal. Saia do edifício com as mãos no ar e vamos falar.”

Riley esperou um minuto. Nada aconteceu.

Riley falou outra vez pelo rádio a Newton e McGill.

“O Agente Jeffreys e eu vamos sair do veículo. Quando sairmos, vocês saiem também – com as armas em riste. Encontramo-nos na porta de entrada. Mantenham o olhar para cima. Se virem algum movimento no edifício, protejam-se imediatamente.”

Riley e Bill saíram do SUV, e Newton e McGill saíram do seu carro. Outros três agentes armados até aos dentes saíram do veículo que chegara e juntaram-se a eles.

Os agentes moviam com cautela em direção ao edifício, olhando para as janelas com as armas prontas. Por fim, atingiram a segurança relativa da enorme porta de entrada.

“Qual é o plano?” Perguntou McGill, parecendo bastante nervoso.

“Prender Shane Hatcher se aqui estiver,” Disse Riley. “Matá-lo se necessário. E encontrar Smokey Moran.”

Bill acrescentou, “Temos que vasculhar todo o edifício.”

Riley percebeu que os agentes locais não tinham gostado muito deste plano. Não os podia censurar.

“McGill,” Disse Riley. “comece no rés-do-chão e depois vá subindo. O Jeffreys e eu vamos para o último andar e vamos descendo. Encontramo-nos a meio.”

McGill assentiu. Riley vislumbrou um sinal de alívio no seu rosto. Sabiam que era menos provável encontrar perigo na parte inferior do edifício. Bill e Riley estariam a colocar-se num perigo muito maior.

Newton disse, “Vou subir com vocês.”

Riley percebeu a firmeza das suas palavras e não colocou objeções.

Bill abriu as portas e os cinco agentes entraram. Um vento gelado assobiava nas janelas do andar inferior, um espaço vazio com postes e portas para várias salas adjacentes. Deixando McGill e mais três a começar por ali. Riley e Bill dirigiram-se para a mais ameaçadora escadaria. Newton seguia-os de perto.

Apesar do frio, Riley sentia o suor nas luvas e na testa. Sentiu o coração bater e era com dificuldade que mantinha a respiração sob controlo. Não importava quantas vezes já tinha passado por aquilo, nunca se habituaria. Ninguém poderia.

Finalmente entraram no vasto último andar.

O cadáver foi a primeira coisa que chamou a atenção de Riley.

Estava atado direito a um poste com fita adesiva, tão desfigurado que já não parecia humano. Correntes estavam enroladas em redor do seu pescoço.

A arma preferida de Hatcher, Recordou Riley.

“Tem que ser o Moran,” Disse Newton.

Riley e Bill entreolharam-se. Sabiam que ainda não deviam recolher as armas – ainda não. O corpo podia muito bem ser o isco de Hatcher para os atrair para o espaço aberto.

Ao aproximarem-se do homem morto, Newton tinha a espingarda pronta.

Ao aproximar-se do corpo, poças geladas de sangue prendiam-se às solas dos sapatos de Riley. O rosto estava espancado de tal forma que era impossível reconhecê-lo, só através de ADN ou registos dentários seria possível chegar a uma identificação. Mas Riley não tinha dúvidas de que Newton tinha razão; tinha que ser Smokey Moran. Grotescamente, os olhos ainda estavam bem abertos e a cabeça estava de tal forma presa ao poste com fita adesiva que parecia estar a fitar Riley.

Riley olhou à sua volta outra vez.

“O Hatcher não está aqui,” Disse ela, guardando a arma.

Bill fez o mesmo e caminhou ao lado de Riley em direção ao corpo. Newton permaneceu vigilante, segurando a sua espingarda em posição de disparo e virando-se constantemente para vigiar todos os ângulos.

“O que é isto?” Perguntou Bill, apontando para um pedaço de papel dobrado que saía do bolso do casaco da vítima.

Riley tirou o pedaço de papel onde estava escrito:

“Um cavalo encontra-se preso a uma corrente de 24 elos e come uma maçã que se encontra a 8 metros de distância. Como é que o cavalo chegou à maçã?”

Riley ficou tensa. Não a surpreendia que Shane Hatcher tivesse deixado um enigma. Entregou o papel a Bill. Bill leu-o, depois olhou para Riley com uma expressão intrigada.

“A corrente não está presa a nada,” Disse Riley.

Bill anuiu. Riley sabia que ele compreendera o significado do enigma:

Shane the Chain estava agora liberto.

E começava a desfrutar da sua liberdade.




CAPÍTULO OITO


Sentada na companhia de Bill no bar do hotel naquela noite, Riley não conseguia tirar da cabeça a imagem do homem desfigurado. Nem ela nem Bill conseguiram chegar a uma conclusão do que sucedera. Ela não queria creditar que Shane Hatcher tivesse fugido de Sing Sing só para matar Smokey Moran. Mas não havia dúvidas de que ele tinha morto o homem.

As luzes de Natal do bar pareciam mais berrantes do propriamente um sinal de celebração.

Riley segurava o copo vazio na direção de uma empregada do bar. “Quero outro,” Pediu-lhe, entregando-lhe o copo.

Riley viu que Bill olhava para ela com algum desconforto e ela compreendia porquê. Aquele era o seu segundo bourbon com gelo. Bill sabia da história de Riley com a bebida.

“Não te preocupes,” Disse-lhe. “É o meu último esta noite.”

Não lhe apetecia embebedar-se. Só queria relaxar um pouco. O primeiro copo não ajudara e ela duvidava que o segundo cumprisse esse propósito.

Riley e Bill tinham passado o resto do dia a lidar com as consequências do assassinato de Smokey Moran. Enquanto ela e Bill tinham ficado a trabalhar com a polícia local e com a equipa do médico-legista, tinham enviado os Agentes McGill e Newton ao prédio onde Moran vivera. Deviam falar com os membros do gang que estavam de guarda na entrada. Mas já não encontraram esses jovens. O apartamento de Moran permanecia destrancado e desprotegido.

Quando a empregada colocou a bebida fresca à frente de Riley, ela lembrou-se daquilo que os jovens tinham dito na entrada:




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