Rastro de um Assassino 
Blake Pierce


Um Mistério de Keri Locke #2
Uma história dinâmica que nos prende a partir do primeiro capítulo e não nos solta mais. Midwest Book Review, Diane Donovan (em relação a Sem Pistas) Do autor nº1 de bestsellers de mistério, Blake Pierce lança uma nova obra-prima de suspense psicológico. Em A RASTRO DE UM ASSASSINO (Livro 2 da série de mistério Keri Locke), Keri Locke, detetive do Departamento de Pessoas Desaparecidas na Divisão de Homicídio da LAPD, ainda é assombrada pelo rapto de sua própria filha. Encorajada por uma nova pista, a primeira em anos, ela a persegue com todas as forças, determinada e encontrar sua filha e trazê-la de volta com vida. Mas Keri, ao mesmo tempo, recebe uma ligação de um marido agitado, um famoso cirurgião plástico de Beverly Hills, relatando que sua esposa estava desaparecida há dois dias. Uma socialite rica sem inimigos e poucos motivos para abandonar sua vida, ele teme que o pior aconteceu com sua mulher. Keri assume o caso, designada para trabalhar com um novo parceiro que ela odeia, enquanto Ray ainda se recupera no hospital. Sua investigação a obriga a mergulhar no mundo dos ricos e ociosos que formam a elite de Beverly Hills, para encontros com donas de casa solitárias e com viciadas em compras, com vidas vazias. Keri, imersa nesse universo, se torna cada vez mais confusa com os sinais conflitantes: será que esta mulher, com um admirador e um passado sombrio e secreto, fugiu ou foi raptada? Ou algo muito mais sinistro aconteceu?Um sombrio thriller psicológico com suspense que fará os leitores perderem o fôlego, RASTRO DE UM ASSASSINO é o livro nº 2 numa nova série apaixonante – e com uma nova personagem muito querida – que lhe deixará com vontade de terminar o livro de uma só vez. Uma obra-prima de suspense e mistério! O autor fez um trabalho magnífico desenvolvendo personagens com um lado psicológico tão bem descrito que nos sentimos dentro de suas mentes, seguimos seus medos e torcemos pelo seu sucesso. A trama é muito inteligente e vai manter você entretido ao longo de todo o livro. Cheio de reviravoltas, você será fisgado até a última página. Books and Movie Reviews, Roberto Mattos (sobre Sem Pistas) O livro nº 3 da série Keri Locke estará disponível em breve.







R A S T R O D E U M A S S A S S I N O



(UM MISTÉRIO DE KERI LOCKE — LIVRO 2)



B L A K E P I E R C E


Blake Pierce



Blake Pierce é autor da série bestseller de mistérios RILEY PAGE, que inclui sete livros (e ainda há mais por vir). Ele também é o autor da série de mistério MACKENZIE WHITE, que inclui cinco livros (mais estão previstos); da série de mistério AVERY BLACK, composta por quatro livros (mais por vir); e da nova série de mistério KERI LOCKE.

Um leitor ávido e fã de longa data dos gêneros de mistério e suspense, Blake adora ouvir as opiniões de seus leitores. Então, por favor, sinta-se à vontade para visitar o site www.blakepierceauthor.com e manter contato.


Copyright © 2016 by Blake Pierce. Todos os direitos reservados. Exceto conforme permitido na Lei de Direitos Autorais dos Estados Unidos (US. Copyright Act of 1976), nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, distribuída ou transmitida de nenhuma forma e por motivo algum, ou colocada em um sistema de dados ou sistema de recuperação, sem permissão prévia do autor. Este ebook está licenciado apenas para seu uso pessoal. Este ebook não pode ser revendido ou dado a outras pessoas. Se você gostaria de compartilhar este livro com outra pessoa, por favor, compre uma cópia adicional para cada beneficiário. Se você está lendo este ebook e não o comprou, ou ele não foi comprado apenas para uso pessoal, então, por favor devolva-o e compre seu próprio exemplar. Obrigado por respeitar o trabalho árduo do autor. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, empresas, organizações, lugares, eventos e acontecimentos são fruto da imaginação do autor ou são usados de modo ficcional. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou falecidas, é mera coincidência. Imagem de capa: Copyright Anna Vaczi, usada sob licença de Shutterstock.com.


LIVROS DE BLAKE PIERCE



SÉRIE DE MISTÉRIOS RILEY PAIGE

SEM PISTAS (Livro 1)

ACORRENTADAS (Livro 2)



SÉRIE DE MISTÉRIOS MACKENZIE WHITE

ANTES QUE ELE MATE (Livro 1)

ANTES QUE ELE VEJA (Livro 2)



SÉRIE DE MISTÉRIOS AVERY BLACK

RAZÃO PARA MATAR (Livro 1)

RAZÃO PARA CORRER (Livro 2)



SÉRIE DE MISTÉRIOS KERI LOCKE

RASTRO DE MORTE (Livro 1)

RASTRO DE UM ASSASSINO (Livro 2)


ÍNDICE



CAPÍTULO UM (#ub1dfa778-82c5-5f14-b3a8-ebae13687841)

CAPÍTULO DOIS (#u4389d83a-4345-5a3a-a255-f1ed33a6a6ae)

CAPÍTULO TRÊS (#u0c86432b-1544-5339-9951-8ed24cfacc9b)

CAPÍTULO QUATRO (#u82203652-0257-513f-86da-1dda715cace2)

CAPÍTULO CINCO (#u4acdfc2e-9eee-51fd-a85a-52e3b7492f64)

CAPÍTULO SEIS (#u6c9a1f6e-1bf9-5e63-9317-615e3d4e0aeb)

CAPÍTULO SETE (#ue190d976-53ed-594c-a066-8b2f3e0d01f5)

CAPÍTULO OITO (#ub0c1f142-6a5f-5d79-9b29-8c5ba0564463)

CAPÍTULO NOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZ (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO ONZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DOZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TREZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO CATORZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUINZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZESSEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZESSETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZOITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZENOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E DOIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E TRÊS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E QUATRO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E CINCO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E SEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E SETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E OITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E NOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E DOIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E OITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E QUATRO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E CINCO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E SEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E SETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E OITO (#litres_trial_promo)




CAPÍTULO UM


O longo corredor estava escuro. Mesmo com a lanterna acesa, Keri mal conseguia enxergar três metros à frente. Ela ignorou a sensação de medo que sentia e continuou. Com uma mão segurando a lanterna e a outra em sua arma, ela avançava centímetro por centímetro. Finalmente, chegou na entrada do porão. Cada parte sua lhe dizia que finalmente havia encontrado o lugar. Era ali que sua pequena Evie estava sendo mantida presa.

Keri abriu a porta e pisou sobre o primeiro degrau de madeira, que cedeu um pouco, rangendo. A escuridão ali era ainda maior que no corredor. Enquanto ela descia lentamente as escadas, ocorreu-lhe como era estranho encontrar uma casa com um porão no sul da Califórnia. Esta era a primeira que havia visto. Então, ela ouviu algo.

Parecia uma criança chorando... uma garotinha, talvez com oito anos. Keri chamou-a e uma voz respondeu.

"Mamãe!"

"Não tenha medo, Evie, a mamãe está aqui!" Keri gritou de volta, descendo as escadas correndo. Mas, enquanto descia, sentia um incômodo, como se alguma coisa estivesse errada.

Foi só quando seus dedos engancharam num degrau, fazendo-a perder o equilíbrio e cair no nada, que percebeu o que a vinha incomodando. Evie estava desaparecida há cinco anos. Como sua voz poderia ser a mesma?

Mas era tarde demais para fazer algo a respeito agora, enquanto ela caía rapidamente. Ela abraçou o corpo, preparando-se para o impacto. Mas ele não veio. Para seu horror, ela percebeu que estava caindo num buraco aparentemente sem fundo, o ar ficando cada vez mais frio, uivando sem parar ao redor dela. Keri havia falhado com sua filha mais uma vez.

Ela acordou sobressaltada, sentando-se com as costas bem retas em seu carro. Levou um momento para perceber o que estava acontecendo. Não estava num buraco sem fundo. Nem em um porão assustador. Ela estava em seu velho Toyota Prius, no estacionamento da delegacia, onde havia adormecido enquanto almoçava.

O frio que ela havia sentido vinha da janela aberta. O uivo era na verdade a sirene de um carro de polícia saindo do estacionamento, para atender uma chamada. Ela estava encharcada de suor e seu coração batia rápido. Mas nada daquilo era real. Foi apenas mais um pesadelo terrível, para esmagar todas as suas esperanças. Sua filha, Evelyn, ainda estava desaparecida.

Keri balançou a cabeça, tomou um gole de água, saiu do carro e se dirigiu novamente para dentro da delegacia, lembrando a si mesma que ela não era mais apenas mãe: era também uma detetive da unidade de Pessoas Desaparecidas da LAPD, a Polícia de Los Angeles.

Suas várias lesões a forçavam a se mover desajeitadamente. Só haviam se passado duas semanas desde seu encontro brutal com um violento raptor de crianças. Pachanga, pelo menos, teve o que mereceu depois que Keri resgatou a filha do senador. Pensar nisso fez as dores agudas que ela ainda sentia por todo o seu corpo serem mais toleráveis.

Os médicos apenas a deixaram tirar o protetor facial acolchoado há poucos dias, depois de avaliar que sua órbita ocular fraturada estava cicatrizando bem. Seu braço ainda estava numa tipoia, depois que Pachanga quebrou sua clavícula. Disseram-lhe que poderia removê-la daqui a uma semana, mas Keri estava pensando em jogá-la no lixo antes, porque era incômoda. Não havia nada a ser feito sobre suas costelas quebradas a não ser usar uma cinta protetora acolchoada. Isso também a irritava, porque a fazia parecer uns cinco quilos mais gorda do que seu peso usual, 60 quilos. Keri não era vaidosa. Mas, aos 35 anos, ainda gostava de chamar a atenção dos homens. Mas, com a cinta acolchoada aparecendo sob a blusa na região da cintura e se sobressaindo da calça, ela duvidava que ainda fosse arrancar suspiros.

Por causa da folga que lhe deram para se recuperar, seus olhos castanhos não estavam tão injetados e exaustos como era o usual e seu cabelo loiro escuro, amarrado num rabo de cavalo simples, havia sido lavado com xampu. Mas a fratura em seu osso orbital causou um grande hematoma amarelado num dos lados do rosto, que só agora começava a desaparecer, e a tipoia também não ajudava a deixá-la muito bonita. Esse provavelmente não era o momento ideal para sair em um primeiro encontro.

A ideia de namorar a fez lembrar-se de Ray. Seu parceiro pelo último ano e amigo há seis anos antes dela entrar na polícia, Ray ainda estava se recuperando no hospital, após Pachanga lhe dar um tiro no estômago. Felizmente, sua recuperação ia bem, tanto que recentemente ele havia sido transferido do pequeno hospital próximo ao local do tiro para o Centro Médico Cedars-Sinai, em Beverly Hills. Ficava a apenas 20 minutos de carro da delegacia, então, Keri podia visitá-lo frequentemente.

Ainda assim, em nenhum momento durante essas visitas um deles mencionou a crescente tensão romântica que ela sabia que ambos estavam sentindo.

Keri inspirou fundo antes de fazer a familiar mas irritante caminhada pelo salão principal da delegacia. Parecia ser novamente seu primeiro dia. Ainda podia sentir todos os olhos voltados para ela. Toda vez que passava pelos seus colegas de trabalho, sentia seus olhares furtivos, de soslaio, e se perguntava no que estariam pensando.

Será que todos eles apenas achavam que ela era um canhão desgovernado e rebelde? Teria conquistado algum respeito invejoso por matar um assassino e raptor de crianças? Por quanto tempo ser a única detetive mulher do pelotão a faria sentir como uma estranha no ninho?

Enquanto caminhava por todos eles no alvoroço da delegacia e sentava-se em sua cadeira, Keri tentou controlar a onda de ressentimento subindo pelo seu peito e focar apenas no trabalho. Pelo menos, o local estava lotado e caótico como sempre, e, dessa maneira reconfortante, nada havia mudado. A delegacia estava repleta de civis prestando queixas, criminosos sendo fichados e detetives ao telefone, seguindo pistas.

Keri estava limitada a trabalho administrativo desde seu retorno. E sua mesa estava cheia. Desde que voltou, ela havia sido inundada por um mar de papelada. Havia dúzias de relatórios de prisões para revisar, mandados de busca para obter, depoimentos de testemunhas para avaliar e relatórios de evidências para examinar.

Ela suspeitava que, já que ainda não tinha permissão de sair para investigar casos, todos os seus colegas estavam empurrando suas tarefas para ela. Felizmente, poderia voltar ao campo amanhã. E a verdade oculta era que ela não se importava em estar presa no escritório por mais uma razão: os arquivos de Pachanga.

Quando os policiais fizeram uma busca na casa dele após o incidente, encontraram um laptop. Keri e o detetive Kevin Edgerton, o guru de tecnologia residente, haviam descoberto a senha de Pachanga, e aberto seus arquivos. Sua esperança era que os arquivos levariam à descoberta de várias crianças desaparecidas, talvez até de sua própria filha.

Infelizmente, o que, à primeira vista, parecia ser a veia principal de uma rede de informações sobre vários raptos, mostrou-se difícil de acessar. Edgerton havia explicado que os arquivos criptografados poderiam ser abertos apenas com o criptograma correto, que eles não tinham. Keri havia passado a última semana aprendendo tudo que podia sobre Pachanga, na esperança de descobrir o código. Mas, até agora, não havia conseguido nada.

Sentada, enquanto revisava os arquivos, os pensamentos de Keri se voltaram para algo que a estava corroendo desde que retornara ao trabalho. Quando Pachanga raptou a filha do senador Stafford Penn, Ashley, ele havia sido contratado pelo irmão do senador, Payton. Os dois homens vinham se comunicando na dark web há meses.

Keri não podia deixar de pensar como o irmão de um senador havia conseguido entrar em contato com um sequestrador profissional. Eles não pertenciam aos mesmos círculos. Mas tinham uma coisa em comum. Ambos eram representados por um advogado chamado Jackson Cave.

O escritório de Cave ficava num dos andares mais altos de um arranha-céu do centro da cidade, mas muitos de seus clientes eram muito mais rasteiros. Além de seu trabalho corporativo, Cave era conhecido por defender estupradores, sequestradores e pedófilos. Se Keri estava sendo generosa, suspeitava que era apenas porque ele sabia que podia ludibriar clientes tão desagradáveis. Mas parte dela pensava que ele ganhava alguma coisa por baixo dos panos. De todo modo, ela o desprezava.

Se Jackson Cave havia posto Payton Penn e Alan Pachanga em contato, fazia sentido que ele também soubesse como acessar todos os arquivos criptografados deles. Keri tinha certeza de que, em algum lugar daquele escritório chique dele, estava o criptograma de que ela precisava para quebrar o código e descobrir detalhes de todas aquelas crianças desaparecidas, talvez a dela mesma. Ela decidiu que, de um jeito ou de outro, legalmente ou não, entraria naquele escritório.

Enquanto começava a pensar sobre como isso poderia ser feito, Keri notou uma oficial uniformizada de vinte e poucos anos caminhando lentamente em sua direção. Ela acenou para que se aproximasse.

"Qual seu nome mesmo?" Keri perguntou, incerta se já deveria saber da resposta.

"Oficial Jamie Castillo", a jovem oficial de cabelos escuros respondeu. "Acabo de sair da academia. Fui transferida para cá na semana em que você estava no hospital. Originalmente, eu era da Divisão Oeste de LA".

"Então, eu não deveria me sentir muito mal por não saber quem você é?"

"Não, detetive Locke", Castillo disse, com firmeza.

Keri estava impressionada. A garota tinha confiança e olhos negros penetrantes que sugeriam uma inteligência afiada. Ela também parecia saber se cuidar. Com cerca de 1,73 m de altura, tinha uma estrutura atlética, vigorosa, que sugeria que confrontá-la não seria uma atitude muito perspicaz.

"Bom. Como posso ajudá-la?" Keri perguntou, tentando não parecer muito intimidante. Não havia muitas policiais mulheres na Pacific Division e Keri não queria espantar nenhuma delas.

"Fiquei responsável por atender as ligações de denúncias anônimas para a delegacia nas últimas semanas. Como pode suspeitar, muitas delas eram relacionadas a seu confronto com Alan Pachanga e com a declaração que você fez depois, sobre tentar encontrar sua filha".

Keri assentiu, lembrando. Depois dela resgatar Ashley, o departamento realizou uma grande coletiva de imprensa para celebrar o final feliz.

Ainda de cadeira de rodas, Keri elogiou Ashley e sua família antes de aproveitar a coletiva para mencionar Evie. Ela levantou a foto da filha e implorou ao público para oferecer qualquer informação que pudesse ajudar em sua busca. Seu supervisor imediato, o tenente Cole Hillman, ficou muito irritado ao vê-la usar uma vitória do departamento como ferramenta em sua cruzada pessoal, tanto que Keri pensou que ele a teria demitido na hora se pudesse. Mas como demitir uma heroína que resgatou uma adolescente, ainda por cima, de cadeira de rodas?

Quando estava no hospital, internada, Keri ouviu boatos de que ele teria ficado incomodado quando o departamento começou a ser inundado com centenas de ligações diariamente.

"Sinto muito por você ter sido obrigada a encarar essa tarefa", Keri disse. "Acho que eu só queria aproveitar ao máximo a oportunidade e não pensei em quem teria que lidar com o resultado. Imagino que todas as ligações eram pistas falsas?"

Jamie Castillo hesitou, como se ponderasse se estava tomando a decisão certa. Keri podia ver as engrenagens do cérebro da mulher mais jovem trabalhando. Ela assistiu enquanto Castillo calculava a atitude certa e não pôde deixar de gostar dela. Sentia que estava observando uma versão mais nova de si mesma.

"Bem", a jovem policial finalmente disse, "a maioria foram facilmente ignoradas, por serem de pessoas instáveis ou, simplesmente, brincadeiras de mau gosto. Mas recebemos uma ligação esta manhã, que era, de alguma forma, diferente. Era tão simples e direta que me fez levá-la mais a sério".

Quase imediatamente, a boca de Keri ficou seca e ela sentiu seu coração começar a bater forte.

Mantenha a calma. Provavelmente, não é nada. Não exagere.

"Posso ouvi-la?" ela perguntou, com mais calma do que pensou ser possível.

"Já a encaminhei para você", Castillo disse.

Keri olhou para seu celular e viu a luz piscando, indicando que tinha uma mensagem de voz. Tentando não parecer desesperada, tirou o telefone do gancho devagar e ouviu.

A voz na mensagem era rouca, quase metálica, e difícil de entender, ainda mais pelo barulho de batidas ao fundo.

"Vi você na TV falando sobre sua menina", dizia. "Quero ajudar. Há um armazém abandonado em Palms, do outro lado da estação geradora de energia Piedmont. Dê uma olhada".

Era apenas isso, uma grave voz masculina oferecendo uma pista vaga. Então, por que as pontas dos dedos dela estavam latejando de adrenalina? Por que ela estava com dificuldade para engolir? Por que seus pensamentos subitamente dispararam em possíveis imagens de como Evie poderia estar agora?

Talvez fosse porque a ligação não tinha nenhum dos indícios de ligações enganosas comuns. Não tentava chamar a atenção, o que claramente foi o que chamou a atenção de Castillo. E esse mesmo elemento — sua simplicidade — era a qualidade que agora fazia gotas de suor descerem pelas costas de Keri.

Castillo observava-a ansiosa.

"Você acha que é legítima?" ela perguntou.

"É difícil dizer", Keri respondeu calmamente, apesar dos batimentos cardíacos acelerados, entquanto ela pesquisava a estação elétrica no Google Maps. "Vamos checar a origem da ligação mais tarde e pedir a um especialista em tecnologia para examinar a mensagem e ver o que mais pode ser resgatado a partir da voz e barulho ao fundo. Mas duvido que possam descobrir muita coisa. Quem fez essa ligação foi cuidadoso".

"Foi o que pensei também", Castillo concordou. "Não deu nenhum nome, tentativa clara de mascarar a voz, barulho de distração ao fundo. Apenas parecia... diferente das outras".

Keri estava ouvindo apenas parcialmente enquanto olhava para o mapa em sua tela. A estação geradora se localizava na National Boulevard, que ficava ao sul da rodovia 10. Pelas imagens do satélite, ela verificou que havia um armazém do outro lado da rua. Se estava abandonado, não dava para saber.

Mas já vou descobrir.

Ela olhou para Castillo e sentiu uma onda de gratidão... e também algo que não sentia há muito tempo por um colega policial: admiração. Keri tinha um bom pressentimento sobre ela, e estava feliz por tê-la por perto.

"Bom trabalho, Castillo", ela disse para a jovem policial, que também estava olhando para a tela. "Tão bom que acho que é melhor eu ir conferir".

"Você precisa de companhia?" Castillo perguntou com expectativa, enquanto Keri se levantava e juntava suas coisas para ir até o armazém.

Mas antes que pudesse responder, Hillman colocou a cabeça para fora de seu escritório e gritou por todo o salão da delegacia até ela.

"Locke, preciso que você venha ao meu escritório agora". Ele a encarou. "Temos um novo caso".




CAPÍTULO DOIS


Keri ficou imóvel, congelada no mesmo lugar. Uma onda de emoções conflitantes a consumia por dentro. Tecnicamente, isso era uma boa notícia. Parecia que ela estava sendo posta novamente em campo um dia mais cedo, sinal de que Hillman, apesar das diferenças entre eles, sentia que ela estava pronta para retomar suas responsabilidades normais. Mas, naquele momento, parte dela só queria ignorá-lo e ir direto para o armazém.

"Ainda hoje, por favor", Hillman gritou, arrancando-a de sua indecisão momentânea.

"Estou indo, senhor", ela disse. Então, voltando-se para Castillo com um pequeno meio sorriso, ela acrescentou, "A saga continuará em breve".

Quando entrou no escritório, Keri notou que o cenho geralmente franzido de Hillman tinha mais vincos que o normal. Ela nunca sabia se ele não notava ou apenas não dava a mínima. O tenente estava usando um blazer, mas sua gravata estava frouxa e sua camisa mal ajustada não podia esconder uma barriga levemente protuberante.

Sentado na velha e surrada namoradeira contra a parede mais distante, estava o detetive Frank Brody. Brody tinha 59 anos e estava a menos de seis meses de se aposentar. Tudo em sua postura refletia isso. De sua polidez pouco convincente até sua camisa social amarrotada, manchada de ketchup, quase perdendo os botões por causa de sua formidável pança, cujos pneuzinhos pareciam querer vazar pela costuras, sempre na iminência de se romper a qualquer momento.

Keri nunca achou que Brody era um dos detetives mais dedicados e comprometidos, e recentemente ele parecia mais interessado em seu precioso Cadillac do que em resolver casos. Ele trabalhava no departamento de Roubos e Homicídios, mas havia sido transferido para Desaparecidos com o desfalque na unidade, por causa das lesões de Keri e de Ray.

A transferência o havia colocado num estado de mau humor permanente, apenas reforçado pelo desgosto que ele sentia por ter que trabalhar com uma mulher. Tratava-se realmente de um homem de outra geração. Ela até já tinha ouvido por alto ele dizer, "Prefiro trabalhar com um merdinha do que com uma fadinha". O sentimento, apesar de ser, talvez, expresso com palavas um pouco diferentes, era mútuo.

Hillman fez sinal para Keri se sentar na cadeira dobrável de metal em frente à sua mesa, então, tirou o telefone do mudo e falou.

Dr. Burlingame, estou aqui com os dois detetives que vou enviar para se encontrar com o senhor. Na linha estão os detetives Frank Brody e Keri Locke. Detetives, estou falando com o Dr. Jeremy Burlingame. Ele está preocupado com sua esposa, com quem está tentando falar há mais de 24 horas. Doutor, poderia por favor repetir o que me contou?"

Keri pegou sua caderneta e caneta para tomar notas. Ela começou imediatamente a ter suspeitas. Em qualquer caso de esposa desaparecida, o primeiro suspeito era sempre o marido e ela queria ouvir o timbre de sua voz na primeira vez que ele falasse.

"É claro", o médico falou. "Eu dirigi até San Diego ontem de manhã para ajudar numa cirurgia. A última vez que falei com Kendra foi antes de partir".

Cheguei em casa muito tarde na noite passada e terminei dormindo num quarto de hóspedes, para não acordá-la. Na manhã de hoje, dormi até mais tarde, pois não tinha nenhum paciente agendado".

Keri não sabia ao certo se Hillman estava gravando a conversa, então ela rabiscava furiosamente, tentando seguir o ritmo do Dr. Burlingame.

"Quando fui até o quarto, ela não estava lá. A cama estava feita. Imaginei que ela havia apenas saído de casa antes de eu acordar, então, enviei-lhe uma mensagem de texto. Não tive resposta... mas, novamente, não é incomum. Moramos em Beverly Hills e minha mulher participa de vários eventos e campanhas de instituições de caridade locais, geralmente deixando seu celular no silencioso. Às vezes, ela se esquece de reativar o toque".

Keri escreveu tudo, avaliando a veracidade de cada comentário. Até agora, nada que tinha ouvido pareceu alarmante, mas isso não significava muito. Qualquer um podia se controlar ao telefone. Ela queria ver o comportamento dele quando confrontado em pessoa por detetives da polícia de LA.

"Fui trabalhar e liguei para ela novamente no caminho... ainda sem resposta", ele continuou. "Por volta da hora do almoço, comecei a ficar preocupado. Nenhuma de suas amigas teve notícias dela. Liguei para nossa governanta, Lupe, que afirmou não ter visto Kendra nem ontem, nem hoje. Foi aí que eu realmente comecei a me preocupar. Então, liguei para o serviço de emergência".

Frank Brody se inclinou e Keri percebeu que ele ia interromper. Ela preferia que ele não fizesse isso, mas não havia nada que pudesse fazer para detê-lo. Ela geralmente preferia deixar um interrogado continuar o quanto quisesse. Às vezes, eles ficavam à vontade demais e cometiam erros. Mas, aparentemente, Brody não pensava da mesma forma.

"Dr. Burlingame, por que sua ligação não foi encaminhada para a polícia de Beverly Hills?" ele perguntou. Seu tom ríspido não demonstrava nenhuma simpatia. Para Keri, ele parecia estar se perguntando por que tinha que lidar com este caso.

"Acho que porque estou ligando para você do meu escritório, que fica em Marina del Rey. Isso realmente importa?" ele perguntou. Ele parecia perdido.

"Não, é claro que não", Hillman garantiu. "Estamos felizes em ajudar. E nossa unidade de pessoas desaparecidas provavelmente seria contactada pela polícia de Beverly Hills, de todo modo. O senhor pode voltar para sua casa e meus detetives o encontrarão lá por volta de uma e meia. Tenho seu endereço".

"Certo", Burlingame disse. "Estou saindo agora".

Depois que ele desligou, Hillman olhou para seus dois detetives.

"Alguma ideia?" ele perguntou.

"Provavelmente, ela apenas deu uma escapada para uma praia do México com alguma de suas amigas e esqueceu de dizer a ele". Brody disse, sem hesitar. "Isso ou ele a matou. Afinal, quase sempre é o marido".

Hillman olhou para Keri. Ela pensou por um segundo antes de falar. Algo sobre ater-se às regras gerais com esse cara não parecia certo, mas ela não sabia muito bem por quê.

"Estou tentada a concordar", ela disse, por fim. "Mas quero conversar frente a frente com esse cara antes de tirar qualquer conclusão".

"Bem, você vai ter sua chance agora mesmo", Hillman replicou. "Frank, pode ir na frente. Preciso falar um minuto com Locke".

Brody deu a ela um sorriso malicioso enquanto saía, como se ela tivesse ficado de castigo e ele, de alguma forma, tivesse escapado. Hillman fechou a porta atrás dele.

Keri se preparou, certa de que, seja lá o que estivesse vindo, não podia ser bom.

"Você pode ir também em um instante", ele disse, com um tom de voz mais brando do que ela havia antecipado. "Mas eu queria lembrá-la de algumas coisas antes de ir. Primeiro, acho que você sabe que eu não fiquei muito feliz com seu pequeno show na coletiva de imprensa. Você colocou suas próprias necessidades na frente do departamento. Entendeu isso, não foi?"

Keri assentiu.

"Dito isso", ele continuou, "gostaria que tivéssemos um novo começo. Sei que você estava muito mal naquele momento e viu aquilo como uma chance de lançar alguma luz sobre o desaparecimento da sua filha. Tem o meu respeito".

"Obrigada, senhor", Keri disse, um tanto aliviada mas suspeitando que um martelo ainda ia cair na sua cabeça.

"Ainda assim", ele acrescentou, "só porque a imprensa ama você, não significa que não vai se ferrar se inventar algumas de suas cagadas típicas, do tipo 'loba solitária'. Estou sendo claro?"

"Sim, senhor".

"Bom. Por último, por favor, vá com calma. Você saiu há menos de uma semana do hospital. Não faça nada que lhe leve de volta para lá, certo? Dispensada".

Keri saiu do escritório dele, levemente surpresa. Ela pensava que seria duramente repreendida. Mas não estava preparada para o leve traço de preocupação dele pelo seu bem-estar.

Olhou ao redor procurando por Brody, antes de perceber que ele já devia ter saído. Aparentemente, ele nem mesmo queria compartilhar o mesmo carro com uma detetive mulher. Normalmente, isso a aborreceria, mas hoje era uma bênção disfarçada.

Enquanto se dirigia a seu carro, ela conteve um sorriso.

Estou de volta à ativa!

Foi apenas quando lhe foi atribuído um novo caso que ela percebeu o quanto sentia falta daquilo. Uma excitação e antecipação familiares começaram a tomar conta dela e mesmo a dor em suas costelas parecia ter diminuído um pouco. A verdade era que, a menos que estivesse resolvendo casos, Keri se sentia como se uma parte sua estivesse faltando.

Ela também não podia deixar de sorrir sobre outra coisa... já planejava violar duas das ordens de Hillman. Daria uma de loba solitária e não ia pegar leve, ao mesmo tempo.

Porque ela ia fazer uma rápida parada no seu caminho para a casa do médico.

Para dar uma olhada naquele armazém abandonado.




CAPÍTULO TRÊS


Com a sirene no teto de seu Prius surrado, Keri costurava seu caminho no trânsito, seus dedos segurando firmemente no volante, a adrenalina subindo. O armazém de Palms ficava mais ou menos no caminho para Beverly Hills. Era assim que Keri justificava priorizar a busca pela sua filha, desaparecida há cinco anos na semana passada, sobre a caça por uma mulher que hava sumido há menos de um dia.

Mas ela tinha que andar rápido. Brody tinha uma vantagem para chegar na casa de Burlingame, de modo que ela podia chegar lá depois dele. Mas se aparecesse muito tarde, Brody com certeza iria dedurá-la para Hillman.

Ele usaria qualquer desculpa que pudesse para evitar que trabalhassem juntos. E dizer ao chefe que ela havia atrasado uma investigação chegando tarde para uma entrevista com uma testemunha era perfeito. Isso lhe dava apenas minutos para conferir aquele armazém.

Ela estacionou e se dirigiu ao portão principal. O armazém ficava entre uma empresa que alugava galpões de armazenagem e uma agência de locação de caminhões de mudança. O ruído da estação geradora do outro lado da rua era perturbadoramente alto. Keri se perguntou se corria o risco de desenvolver câncer só por estar parada ali.

O armazém estava protegido por uma cerca barata feita apenas para manter mendigos e drogados do lado de fora, e não foi difícil para Keri deslizar pelo vão entre os portões mal fechados. Enquanto se aproximava da entrada, ela notou a placa com o nome do armazém no chão, coberta de poeira. Dizia Preservação de Itens Inestimáveis.

Não havia nada inestimável dentro do armazém vazio, cavernoso. Na verdade, não havia absolutamente coisa alguma dentro, a não ser algumas poucas cadeiras dobráveis de metal viradas para cima, e algumas pilhas de placas de gesso quebradas. O lugar havia sido completamente esvaziado. Keri caminhou pelo complexo inteiro, procurando por alguma pista que pudesse estar relacionada a Evie, mas não conseguiu achar nada.

Ela se ajoelhou, esperando que uma perspectiva diferente pudesse oferecer algo novo. Não percebeu nada de extraordinário, apesar de haver algo um tanto estranho na extremidade mais distante do armazém. Uma cadeira dobrável de metal apoiava uma pilha de uns 30 centímetros de placas de gesso sobre o assento, delicadamente equilibradas. Era improvável que aquilo tenha sido criado sem ajuda.

Keri caminhou até lá e examinou mais de perto. Sentia como se estivesse buscando conexões onde não havia nenhuma. Ainda assim, moveu a cadeira para o lado, ignorado a pilha de gesso, que oscilou brevemente antes de cair no chão.

Ela ficou surpresa com o som que fez ao bater no concreto. Ao invés do baque esperado, houve um eco típico de algo oco por baixo. Com o coração batendo mais rápido, Keri afastou os restos com o pé e pisou forte no local onde o gesso havia caído — outro som de eco veio de um buraco oco. Ela passou a mão pelo chão e descobriu que o local que estava sob a cadeira dobrável de metal não era realmente concreto, mas madeira pintada de cinza para se misturar ao restante do piso.

Tentando não perder o fôlego, ela tateou pelo pedaço de madeira até sentir uma pequena saliência levantada. Então, empurrou-a, ouviu o som de um ferrolho se abrindo, e sentiu uma extremidade do tampo de madeira pular. Ela pôs a mão por baixo e puxou a cobertura quadrada, com o tamanho aproximado de uma tampa de bueiro, do seu local de encaixe.

Abaixo, havia um espaço de cerca de 25 centímetros de profundidade, sem nada dentro. Nenhum papel, nenhum equipamento. Era pequeno demais para conter uma pessoa. No máximo, podia ter abrigado um pequeno cofre.

Keri tateou pelas bordas, procurando por mais um botão escondido, mas não achou nada. Ela não tinha ideia do que poderia ter estado aqui antes, mas tinha sumido agora. Então, sentou-se no concreto duro ao lado do buraco, sem saber ao certo o que fazer.

Ela olhou para o relógio. Eram 13h15. Deveria estar em Beverly Hills em 15 minutos. Mesmo que saísse agora, chegaria em cima da hora. Frustrada, ela rapidamente colocou a cobertura de madeira de volta no lugar, deslizou a cadeira para o ponto em que estava e saiu do prédio, olhando mais uma vez para a placa no chão.

Preservação de Itens Inestimáveis. O nome da empresa é um tipo de pista ou algum idiota cruel está só brincando comigo? Alguém está me dizendo o que preciso fazer para preservar Evie, meu item mais precioso?

Esse último pensamento disparou uma onda de ansiedade pelo corpo de Keri. Ela sentiu os joelhos fraquejarem e caiu no chão desajeitadamente, tentando evitar mais lesões ao seu braço esquerdo, que estava aninhado, imóvel, na tipoia sobre seu peito. Ela usou a mão direita para evitar colapsar por completo.

Curvada, com uma nuvem de poeira subindo ao redor, Keri fechou os olhos com força e tentou afastar os pensamentos sombrios que tentavam envolvê-la. Uma breve visão de sua pequena Evie invadiu sua mente.

Em sua mente, ela ainda tinha oito anos, com rabos de cavalo loiros balançando em sua cabeça, seu rosto lívido de terror. Estava sendo jogada dentro de uma van branca por um homem loiro com uma tatuagem no lado direito do pescoço. Keri ouviu o baque quando seu pequeno corpo bateu contra a parede da van. Ela viu o homem loiro esfaquear um adolescente que tentou detê-lo. Viu a van arrancar e disparar pela rua, deixando-a muito atrás enquanto tentava alcançá-la com pés descalços e sangrando.

Ainda era tão vívido. Keri engoliu as lágrimas enquanto afastava a lembrança, tentando forçar-se a voltar ao presente. Após alguns momentos, conseguiu se controlar novamente e respirou fundo algumas vezes. Sua visão clareou e ela se sentiu forte o bastante para ficar de pé.

Foi o primeiro flashback que ela tinha em semanas, desde antes do confronto com Pachanga. Parte dela tinha a esperança de que tinham sumido para sempre... mas Keri não teve essa sorte.

Ela sentiu uma dor lancinante em sua clavícula quando esticou o braço para se proteger durante a queda. Frustrada, puxou a tipoia. Naquele momento, era mais um impedimento do que uma ajuda. Além disso, ela não queria parecer fraca quando se encontrasse com o Dr. Burlingame.

A entrevista com Burlingame... tenho que ir!

Ela conseguiu cambalear até seu carro e arrancou em direção ao tráfego, desta vez, sem a sirene. Ela precisava de silêncio para a ligação que ia fazer.




CAPÍTULO QUATRO


Keri sentiu um pouco de nervosismo enquando digitava o número do quarto de hospital de Ray e esperava chamar. Oficialmente, não havia motivo para ela se sentir nervosa. Afinal, Ray Sands era seu amigo e seu parceiro na Unidade de Desaparecidos da polícia de LA.

Enquanto o telefone continuava a tocar, sua mente divagou até a época antes deles serem parceiros, quando ela era profesora de criminologia na Universidade Loyola Marymount e prestava serviços como consultora para a polícia, ajudando em alguns casos. A parceria tinha dado certo desde o início e ele havia retribuído o favor profissional dando palestras nas aulas dela, ocasionalmente.

Depois que Evelyn foi raptada, Keri caiu num buraco negro de desespero. Seu casamento desmoronou, ela começou a beber muito e a dormir com vários estudantes da universidade, até que foi demitida.

Logo depois disso, quando ela estava quase quebrada, bêbada e vivendo numa casa-barco decrépita na marina, que Ray reapareceu. Ele a aconselhou a se inscrever na academia da polícia, como ele tinha feito quando sua própia vida havia se despedaçado. Ray ofereceu a ela uma corda salva-vidas, uma maneira de se reconectar com o mundo e encontrar sentido para existir. Ela aceitou.

Depois de se formar e servir como uma oficial fardada, ela foi promovida a detetive policial, e pediu para ser transferida para a Pacific Division, que cobria a maior parte do oeste de Los Angeles. Era onde ela morava e a área que mais conhecia. Era também a divisão de Ray. Ele solicitou que ela fosse sua parceira e eles vinham trabalhando juntos por um ano quando o caso Pachanga terminou levando-os ao hospital.

Mas não era a recuperação de Ray que deixava Keri nervosa. Era o status do relacionamento deles. Algo mais do que amizade havia se desenvolvido no último ano, enquanto trabalhavam tão próximos. Ambos sentiam, mas nenhum queria reconhecer em voz alta. Keri sentiu pontadas de ciúme quando ligou para o apartamento de Ray e uma mulher atendeu. Ele era um notório mulherengo e não se envergonhava disso, então não deveria ter sido uma surpresa para ela, mas o ciúme ainda estava lá, apesar dos melhores esforços de Keri.

E ela sabia que ele se sentia da mesma forma. Ela havia visto os olhos dele faiscarem quando ambos estavam num caso e uma testemunha deu em cima dela. Ela pôde quase sentir ele ficando tenso ao seu lado.

Mesmo depois dele ter sido baleado e corrido risco de vida, nenhum dos dois teve coragem de lidar com a questão. Parte de Keri pensou que era inadequado focar em tais trivialidades quando ele estava se recuperando de lesões tão graves. Mas outra parte estava simplesmente aterrorizada com o que aconteceria se as cartas fossem postas na mesa.

Então, ambos ignoraram seus sentimentos. E porque nenhum dos dois estava acostumado a esconder coisas um do outro, ficou estranho. Enquanto Keri ouvia o telefone tocar no quarto de hospital de Ray, metade dela esperava que ele atendesse e metade esperava que não. Ela precisava conversar com ele sobre a ligação anônima e sobre o que ela havia descoberto no armazém. Mas não sabia como começar uma conversa.

Acabou não importando. Após chamar dez vezes, ela desligou. O telefone do hospital não tinha secretária eletrônica, o que significava que Ray provavelmente não estava no leito. Ela decidiu não tentar o celular. Ele provavelmente estava no banheiro ou na sessão de fisioterapia. Ela sabia que ele estava ansioso para andar novamente e tinha finalmente conseguido a liberação para começar a fisio há dois dias. Ray era um ex-lutador de boxe profissional e Keri tinha certeza de que passaria cada momento disponível trabalhando para ficar em forma novamente, para lutar, ou, pelo menos, para trabalhar.

Apesar de ainda pensar em seu parceiro, Keri tentou afastar a ida até o armazém de sua mente e focar no caso que tinha nas mãos: Kendra Burlingame, pessoa desaparecida.

Com um olho na estrada e outro no GPS do celular, Keri rapidamente seguiu pelas tortuosas ruas de Beverly Hills até a parte mais reservada do bairro. Quanto mais ela subia as montanhas, mais as estradas ficavam sinuosas e mais afastadas as casas ficavam da rua. Ao longo do caminho, ela revisou o que sabia do caso até agora. Não era muito.

Jeremy Burlingame, apesar de sua profissão e de onde morava, não gostava de aparecer. Foi necessária uma investigação rápida de seus colegas na delegacia para descobrir que o homem de 41 anos era um renomado cirurgião plástico conhecido tanto por seu trabalho cosmético em celebridades quanto por oferecer cirurgias de graça para crianças com o rosto deformado.

Kendra Burlingame, 38 anos, já trabalhou como publicitária em Hollywood. Mas depois de se casar com Jeremy, havia criado e posto toda a sua energia numa organização sem fins lucrativos chamada All Smiles, que levantava fundos para as cirurgias das crianças e coordenava todo o cuidado pré e pós-operatório para elas.

Eles eram casados há sete anos. Nenhum dos dois tinha ficha criminal. Não havia histórico de brigas, nem de abuso de álcool ou de drogas. No papel, pelo menos, eram o casal perfeito. Keri achou imediatamente suspeito.

Após virar várias vezes no lugar errado, ela finalmente encostou o carro perto da casa, no final da Tower Road, às 13h41, onze minutos atrasada.

Chamar a residência de casa era pouco. Parecia mais um condomínio numa propriedade que cobria vários metros quadrados. Daquele ponto, ela podia ver toda a cidade de Los Angeles espalhada logo abaixo.

Keri levou um momento para fazer algo raro: colocar maquiagem extra. Remover a tipoia havia ajudado a sua aparência, mas o hematoma amarelado perto de seu olho ainda podia ser notado. Então, tentou disfarçá-lo com um pouco de corretivo até ficar quase invisível.

Satisfeita, chamou pelo interfone ao lado do portão de segurança. Enquanto esperava uma resposta, ela notou o Cadillac marrom e branco do detetive Frank Brody estacionado na entrada da casa.

Uma voz feminina veio do interfone.

"Detetive Locke?"

"Sim".

"Sou Lupe Veracruz, a governanta dos Burlingames. Por favor, entre e estacione ao lado do seu parceiro. Vou levá-la até ele e o Dr. Burlingame".

O portão se abriu e Keri entrou, estacionando ao lado do veículo imaculadamente bem cuidado de Frank. O Caddy era o bebê dele. Ele se orgulhava de seu esquema de cores ultrapassado, do fato do carro consumir muita gasolina, e de seu tamanho monumental. Para ele, era "um clássico". Para Keri, o veículo, como seu dono, era um dinossauro.

Quando abriu a porta do carro, uma mulher pequena com uns quarenta e tantos anos, de aparência hispânica, veio encontrá-la. Keri saiu rapidamente, sem querer que ela notasse sua dificuldade ao se movimentar com o ombro direito machucado. Daquele ponto em diante, Keri se considerava em território inimigo e numa potencial cena de crime. Não queria revelar qualquer senso de fraqueza para Burlingame ou qualquer um ao redor dele.

"Por aqui, detetive", Lupe disse, indo direto ao assunto e levando Keri ao longo de um caminho de pedras, margeado por flores extremamente bem cuidadas. Keri tentou acompanhar enquanto caminhava com cuidado. Com as lesões em seu olho, ombro e costelas, ela ainda se sentia insegura em terreno irregular.

Elas passaram por uma piscina enorme com dois trampolins e uma pista de corrida contornando-a. Bem perto havia um grande buraco, com uma imensa massa de terra ao seu lado. Uma mini-escavadeira Bobcat estava parada junto ao fosso. Lupe notou a curiosidade dela.

"Os Burlingames estão instalando uma banheira de hidromassagem. Mas o azulejo marroquino que eles encomendaram ainda não chegou, por isso, o projeto inteiro está atrasado".

"Estou tendo o mesmo problema", Keri disse. Lupe não riu.

Após vários minutos, elas chegaram até a entrada lateral da casa principal, que levava até uma grande e ventilada cozinha. Keri podia ouvir vozes masculinas. Lupe a dirigiu até o que parecia ser a sala de café da manhã. O detetive Brody estava de pé, voltado na direção de Keri, falando com um homem de costas para ela.

O homem parecia ter sentido a chegada dela e se virou antes de Lupe ter a chance de anunciá-la. Keri, entrando em seu modo investigativo, focou nos olhos dele enquanto Burlingame a avaliava. Seus olhos eram castanhos e acolhedores, levemente vermelhos nas bordas. Ou ele tinha sérias alergias ou havia chorado recentemente. Ele forçou um sorriso estranho no rosto, parecendo pego entre a responsabilidade inesperada de ser um bom anfitrião e a ansiedade da situação.

Sua aparência era agradável, mas não era muito bonito, apesar de ter um rosto simpático, que dava-lhe uma qualidade um tanto ansiosa, juvenil. Apesar dele estar usando um blazer esportivo, Keri podia ver que estava em boa forma. Ele não era muito musculoso, mas tinha a estrutura esbelta de um atleta de resistência, talvez um maratonista ou triatleta. Ele tinha uma altura média, talvez 1,77 m, e uns oitenta quilos. Seu cabelo castanho curto só agora começava a apresentar minúsculos traços grisalhos.

"Detetive Locke, obrigado por vir", ele disse, dando um passo à frente e estendendo a mão. "Estou conversando com seu colega".

"Keri", Frank Brody disse, cumprimentando-a brevemente com um aceno de cabeça. "Ainda não entramos nos detalhes. Estava esperando você chegar".

Era uma indireta sutil sobre o atraso dela, mascarado pelo que parecia polidez profissional. Keri, fingindo não notar, manteve o foco no médico.

"É um prazer conhecê-lo, Dr. Burlingame. Sinto muito por ser em circunstâncias tão difíceis. Se não se importa, por que não começamos imediatamente? Num caso de pessoa desaparecida, cada minuto é crucial".

Do canto do olho, Keri viu Brody fechar a cara, claramente aborrecido por ela ter assumido. Ela realmente não dava a mínima.

"É claro", Burlingame disse. "Por onde começamos?"

"O senhor nos deu um esboço do que houve ao telefone. Mas eu gostaria que nos conduzisse com mais detalhes, se puder. Por que não começa com a última vez em que viu sua esposa?"

"Certo, foi ontem de manhã e nós estávamos no quarto..."

Keri interrompeu.

"Desculpe interromper, mas pode nos levar até lá? Gostaria de estar no quarto enquanto você descreve os eventos que aconteceram no recinto".

"Sim, é claro. Lupe deve vir também?"

"Falaremos com ela separadamente", Keri disse. Jeremy Burlingame assentiu e foi guiando o caminho pelas escadas até o quarto. Keri continuava a observá-lo atentamente. Sua interrupção um momento antes era apenas em parte pela razão que ela deu.

Ela também queria avaliar como um médico poderoso, reconhecido, reagia ao receber repetidamente ordens de uma mulher. Pelo menos até agora, não parecia perturbá-lo. Ele estava disposto a fazer ou dizer o que quer que ela lhe pedisse, se fosse ajudar.

Enquanto caminhavam, ela fez mais perguntas.

"Sob circunstâncias normais, onde sua mulher estaria neste momento?"

"Aqui em casa, imagino, preparando-se para o evento de arrecadação de fundos de hoje à noite".

"Que evento é esse?" Keri perguntou, fingindo ignorância.

"Temos uma fundação que financia cirurgias reconstrutoras, principalmente para crianças com irregularidades faciais, mas, algumas vezes, para adultos se recuperando de queimaduras ou acidentes. Kendra dirige a fundação e realiza dois grandes jantares de gala por ano. Um estava agendado para hoje à noite, no Peninsula Hotel".

"O carro dela está na casa?" Brody perguntou enquanto começavam a subir um longo lance de escadas.

"Sinceramente, não sei. Nem acredito que não me ocorreu conferir. Deixe-me perguntar a Lupe".

Ele pegou seu celular e usou o que pareceu ser uma função do tipo walkie-talkie.

"Lupe, você sabe se o carro de Kendra está na garagem?"

A resposta foi quase imediata.

"Não, Dr. Burlingame. Eu conferi quando o senhor ligou mais cedo. Não está lá. Também, notei que uma de suas pequenas malas de viagem estavam faltando do armário quando eu fui pendurar algumas roupas".

Burlingame parecia perplexo.

"Isso é estranho", ele disse.

"O quê?" Keri perguntou.

"Não entendo por que ela levaria uma mala a algum lugar. Ela tem uma bolsa que usa quando vai à academia e uma bolsa protetora em que coloca vestidos de festa, quando planeja se trocar no local de um evento de gala. Mas só usa as malas quando realmente estamos viajando".

Depois de subir o lance de escadas e caminhar por um longo corredor, eles chegaram até o quarto principal. Brody, sem fôlego pelo longo trajeto, colocou as mãos nos quadris, inflou o peito e respirou com dificuldade.

Keri deu uma olhada no quarto. Era enorme, maior que sua casa-barco inteira. A cama king size com dossel estava arrumada. Um tecido leve e delicadamente decorado a envolvia, fazendo-a parecer uma nuvem quadrada. A varanda grande, com a porta bem aberta, era voltada para o oeste, com vista para o Oceano Pacífico.

Uma imensa TV de tela plana, com cerca de 75 polegadas, pendia da parede. As outras paredes eram decoradas com bom gosto com pinturas e fotos do feliz casal. Keri caminhou até uma delas.

Eles pareciam estar de férias, em algum lugar tropical, com o mar ao fundo.

Jeremy usava uma camisa de botões rosa fora da calça, impecável, com uma bermuda xadrez combinando. Ele usava óculos de sol e seu sorriso era um pouco amarelo e forçado, o sorriso de um homem desconfortável ao tirar uma foto.

Kendra Burlingame usava uma canga turquesa com sandálias de salto, amarradas ao redor dos tornozelos. Sua pele bronzeada se destacava contra o tecido. Seu cabelo negro estava amarrado num rabo de cavalo frouxo e seus óculos escuros descansavam sobre a cabeça. Ela tinha um sorriso largo, como se tivesse acabado de conter uma risada. Era tão alta quanto o marido, com pernas longas e olhos azuis que combinavam com o mar atrás de si. Os braços dele envolviam casualmente a cintura da esposa, apoiando-a. Kendra era incrivelmente bonita.

"Então, qual a última vez em que viu sua mulher?" Keri perguntou. Ela estava de costas para Burlingame mas podia ver seu reflexo na moldura de vidro.

"Aqui", ele disse, seu rosto preocupado sem esconder nada, pelo que ela podia dizer. "Foi ontem de manhã. Tinha que sair mais cedo para ir até San Diego supervisionar um procedimento complicado. Ela ainda estava na cama quando lhe dei um beijo de despedida. Era provavelmente por volta de 6h45".

"Ela estava acordada quando você saiu?" Brody perguntou.

"Sim. A TV estava ligada. Ela estava assistindo ao noticiário local para ver como estaria o tempo para o evento de hoje à noite".

"E essa foi a última vez em que a viu, ontem de manhã?" Keri perguntou novamente.

"Sim, detetive", ele disse, parecendo levemente aborrecido pela primeira vez. "Já respondi a isso várias vezes. Posso fazer uma pergunta?"

"É claro".

"Sei que temos que pasar por tudo metodicamente aqui. Mas, enquanto isso, você poderia pedir ao seu pessoal para checar o GPS no celular e no carro de Kendra? talvez isso possa ajudar a localizá-la".

Keri estava esperando que ele fizesse essa pergunta. É claro que Hillman havia ordenado que os especialistas em tecnologia na delegacia começassem o processo no momento em que abriram ocaso. Mas ela vinha segurando esse detalhe para este momento. Queria avaliar a reação dele à sua resposta.

"É uma boa ideia, Dr. Burlingame", ela disse, "tanto que já fizemos isso".

"E o que descobriram?" Burlingame perguntou, esperançoso.

"Nada".

"Como assim, nada?"

"Parece que o GPS foi desligado, tanto no telefone quanto no carro".

Keri, completamente, alerta, observava a reação de Burlingame de perto.

Ele ficou olhando para ela, atônito.

"Desligado? Como isso é possível?"

"Só é possível se foi feito intencionalmente, por alguém que não queria que o celular ou que o carro fossem encontrados".

"Isso significa que foi um sequestrador que não queria que ela fosse encontrada?"

"É possível", Brody respondeu. "Ou pode ser que ela não quisesse ser encontrada".

A expressão de Burlingame passou de atônita para incrédula.

"Você está sugerindo que minha mulher foi embora por conta própria e tentou esconder aonde estava indo?"

"Não seria a primeira vez", Brody disse.

"Não. Isso não faz nenhum sentido. Kendra não é o tipo de pessoa que faz isso. Além do mais, ela não tinha motivos. Nosso casamento é bom. Amamos um ao outro. Ela adora o trabalho na fundação. Ama aquelas crianças. Não iria apenas fugir e abandonar tudo. Eu saberia se houvesse algo errado. Eu saberia".

Para o ouvido de Keri, ele parecia quase suplicar, como um homem tentando convencer a si mesmo. Parecia totalmente perdido.

"Tem certeza disso, doutor?" ela perguntou. "Às vezes, escondemos coisas, mesmo daqueles que amamos. Haveria mais alguém em quem ela confiasse, além de você?"

Burlingame parecia não estar ouvindo-a. Ele sentou na borda da cama, meneando lentamente a cabeça, como se, de alguma forma, isso fosse afastar a dúvida de sua mente.

"Dr. Burlingame?" Keri perguntou novamente, com calma.

"Hã... sim", ele disse, voltando a si. "Sua melhor amiga é Becky Sampson. Elas se conhecem desde a faculdade. Foram a um encontro de ex-alunos do ensino médio juntas há umas duas semanas e Kendra voltou um pouco perturbada, mas não disse por quê. Ela mora perto da Robertson Boulevard. Talvez, tenha mencionado algo para ela".

"Certo, vamos entrar em contato", Keri garantiu. "Enquanto isso, uma unidade designada para a cena do crime virá fazer uma busca minuciosa em sua casa. Vamos entrar em contato sobre a última localização conhecida do carro e celular de sua esposa antes do GPS ser desligado. Está me ouvindo, Dr. Burlingame?"

O homem parecia ter entrado num torpor, olhando para um ponto à frente. Ao ouvir seu nome, ele piscou e pareceu voltar a si.

"Sim, unidade fará uma busca pela casa, conferir GPS. Eu compreendo".

"Também precisaremos verificar tudo sobre seu paradeiro ontem, incluindo seu período em San Diego", Keri disse. "Vamos contactar todo mundo com quem o senhor falou enquanto esteve lá".

"É apenas parte do nosso trabalho", Brody acrescentou, numa tentativa desajeitada de ser diplomático.

"Eu compreendo. Tenho certeza de que o marido é geralmente o principal suspeito quando uma mulher desaparece. Faz sentido. Farei uma lista de todo mundo com quem interagi e darei a vocês seus números de telefone. Vocês precisam disso agora?"

"Quanto antes, melhor", Keri disse. "Não quero ser grosseira, mas você está certo, doutor, o marido é, geralmente, o principal suspeito. E quanto antes pudermos eliminar essa possibilidade, mais rápido podemos passar para outras teorias. Alguns policiais virão isolar toda a área. Enquanto isso, gostaria que o senhor e Lupe se juntassem a nós no pátio onde o detetive Brody e eu estacionamos. Vamos esperar lá até a chegada de reforço e que a CSU possa começar a processar a cena do crime".

Burlingame assentiu e saiu vacilante do quarto. Então, de repente, levantou a cabeça e fez uma pergunta.

"Quanto tempo ela tem, detetive Locke, supondo que tenha sido raptada? Eu sei que cada segundo conta nesses casos. Realisticamente, quanto tempo você acha que ela tem?"

Keri o encarou. Não havia malícia na expressão dele. Ele parecia estar sinceramente querendo algo racional e factual no qual se agarrar. Era uma boa pergunta e uma que ela precisa responder para si mesma.

Keri fez um rápido cálculo mental. Os números que encontrou não eram bons. Mas ela não podia ser tão franca com o marido de uma vítima em potencial. Então, suavizou um pouco sem mentir.

"Veja, doutor. Não vou mentir para você, cada segundo conta. Mas ainda temos uns dois dias antes do rastro de evidências começar a ficar frio. E vamos dedicar nossos principais recursos para encontrar sua esposa. Ainda há esperança".

Mas, internamente, os cálculos eram desencorajadores. Geralmente, 72h era o limite máximo. Supondo que ela tivesse sido levada em algum momento da manhã de ontem, eles tinham pouco menos de 48h para encontrá-la. E isso era uma estimativa otimista.




CAPÍTULO CINCO


Keri caminhava pelo corredor do Centro Médico Cedars-Sinai o mais rápido que seu corpo dolorido permitia. A casa de Becky Sampson ficava a poucas ruas de distância do hospital, então, ela não sentiu muita culpa por fazer uma rápida parada e checar como Ray estava.

Mas ao se aproximar do quarto dele, podia sentir o recente nervosismo familiar crescendo dentro de si. Como eles fariam as coisas voltarem ao normal entre eles, quando havia esse silêncio secreto que compartilhavam, mas não podiam assumir? Enquanto chegava ao quarto, Keri decidiu pelo que ela esperava ser uma solução temporária. Ela iria fingir.

A porta estava aberta e ela podia ver que Ray estava dormindo. Não havia mais ninguém no quarto. O mais recente contrato com a prefeitura estipulava que policiais hospitalizados ficariam em apartamentos sempre que estivessem disponíveis, então, ele estava confortável.

O quarto tinha uma vista para as montanhas de Hollywood e uma grande TV de tela palna, que estava ligada, mas no mudo. Algum filme antigo com Sylvester Stallone lutando num ringue enchia a tela.

Agora eu sei por que ele caiu no sono.

Keri se aproximou e estudou seu parceiro adormecido. Deitado na cama, vestido com uma bata floral de hospital, Ray Sands parecia muito mais frágil. Normalmente, o afro-americano com mais de 1,90 m de altura, pesando pouco mais de cem quilos, era intimidante, com sua cabeça completamente careca. Ele mais que merecia o apelido de "Big".

Com os olhos fechados, seu olho direito de vidro, o que ele havia perdido numa luta de boxe há anos, não era possível de notar. Ninguém iria imaginar que o homem de 40 anos que agora estava deitado num leito de hospital com uma tigela intocada de gelatina vermelha ao lado já foi um dia Ray "The Sandman" Sands, um medalhista olímpico de bronze e competidor profissional peso-pesado considerado um dos favoritos para ganhar o título. É claro, isso foi antes de um subestimado canhoto com um gancho de esquerda brutal ter destruído seu olho e encerrado sua carreira aos 28 anos, com um único soco.

Após se debater por um tempo, Ray encontrou a carreira policial e foi progredindo até se tornar um dos mais reconhecidos investigadores de Pessoas Desaparecidas do departamento. E com a aposentadoria iminente de Brody, ele estava na fila para assumir sua posição no departamento de Roubos e Homicídios.

Keri olhou para as montanhas a distância, se perguntando como estaria a situação deles em seis meses, quando não fossem mais parceiros ou nem mesmo colegas trabalhando na mesma unidade. Ela afastou esse pensamento, sem querer imaginar viver sem a única influência sólida em sua vida desde que Evie foi levada.

Subitamente, sentiu que estava sendo observada. Ela olhou para baixo e viu que Ray estava acordado, olhando para ela em silêncio.

"Como está indo, Smurfete?" ele perguntou, brincalhão. Eles adoravam provocar um ao outro sobre sua dramática diferença de tamanho.

"Bem, como está se sentindo hoje, Shrek?"

"Um pouco cansado, para ser honesto. Eu fiz uma bateria intensa de exercícios há pouco. Caminhei até o fim do corredor inteiro e voltei. Usain Bolt tem que se cuidar, porque estou logo atrás dele".

"Eles deram alguma previsão de quando você terá alta?" ela perguntou.

"Disseram que talvez no final desta semana, se as coisas continuarem a progredir. Então, seriam duas semanas de repouso em casa. Se isso der certo, poderei desempenhar tarefas administrativas numa base limitada. Supondo que me mate de tédio antes disso".

Keri ficou em silêncio por um momento, avaliando como continuar. Parte dela queria dizer a Ray para ir devagar, não se esforçar demais para voltar ao trabalho. É claro, dizer isso seria hipócrita, já que foi exatamente o que ela havia feito. E ela sabia que ele chamaria sua atenção sobre esse ponto.

Mas ele havia levado um tiro enquanto ajudava a salvar a vida dela. Keri se sentia responsável. Queria protegê-lo. E sentia outras coisas sobre as quais não estava bem preparada para pensar no momento.

Por fim, decidiu que dar a ele uma distração na qual se focar poderia ser uma maneira melhor de proceder do que lhe dar um sermão.

"Falando nisso, você poderia me ajudar num caso que acabo de assumir. Que tal misturar um pouco de análise com sua gelatina?" ela perguntou.

"Primeiro que tudo, parabéns por voltar à ativa. Em segundo lugar, e se pulássemos a gelatina e fossemos direto ao caso?"

"Certo. Aqui está o básico. Kendra Burlingame, socialite de Beverly Hills, esposa de um cirurgião plástico bem-sucedido. Não dá notícias desde a manhã de ontem..."

"Quando foi ontem mesmo?" Ray interrompeu. "Os analgésicos me deixam um pouco confuso quando se trata de... você sabe... dias da semana".

"Ontem foi segunda-feira, Sherlock", Keri disse, irônica. "O marido diz que a viu pela última vez às 6h45 da manhã, antes de partir para San Diego para supervisionar uma cirurgia. Agora, são 14h40 da terça-feira, então, já são cerca de 32 horas desaparecida".

"Supondo que o marido está dizendo a verdade. Você conhece a primeira regra quando se trata de esposas desaparecidas: foi o marido".

Keri estava irritada porque todo mundo, incluindo seu parceiro aparentemente iluminado, parecia constantemente lembrá-la disso. Quando ela respondeu, não pôde evitar o tom de sarcasmo em sua voz.

"É mesmo, Ray, essa é a primeira regra? Vou escrever isso porque é a primeira vez que ouço. Alguma outra pérola de sabedoria que você queira me oferecer, oh, grande sábio? Talvez, que o sol é quente? Ou que couve tem gosto de papel alumínio?"

"Só estou dizendo..."

"Acredite, Ray, eu sei. E o cara é, atualmente, o suspeito número um. Mas ela também pode ter simplesmente fugido. Acho que, como um profissional da lei, pode ser válido perseguir outras teorias, não acha?"

"Acho. Assim, você terá argumentos quando for prendê-lo".

"É bom vê-lo usar suas afiadas habilidades investigativas ao invés de apenas tirar conclusões infundadas", Keri disse, zombeteira, tentando não sorrir.

"É assim que funciono. Então, o que mais?"

"Estou indo ver a melhor amiga de Kendra quando sair daqui. A casa dela fica perto. O marido disse que Kendra estava estranha depois que as duas voltaram de um encontro de ex-alunos do ensino médio".

"Alguém está conferindo a viagem do médico a San Diego?"

"Brody está indo para lá agora".

"Você foi designada para ser parceira de Frank Brody nesse caso?" Ray disse, tentando abafar o riso. "Não surpreende que prefira passar seu tempo com um inválido. Como está lidando com isso?"

"Por que você acha que não reclamei quando ele se ofereceu para ir a San Diego? Os caras de lá poderiam muito fazer o serviço, mas ele insistiu e eu imaginei que isso poderia manter tanto ele quanto aquela atrocidade marrom que ele chama de carro fora do meu caminho por um tempo. Prefiro passar meu tempo na companhia de um triste saco surrado, fraco e acamado como você do que com Brody, sempre".

O desabafo brincalhão havia deixado Keri à vontade demais e ela percebeu, muito tarde, que o último comentário dela havia enviando os dois diretamente de volta para aquela sensação desconfortável. Ray ficou em silêncio por um momento, então, abriu a boca para falar, mas Keri se adiantou.

"De toda forma, tenho que ir. Deveria estar me encontrando com a amiga de Kendra neste momento. Volto para cá mais tarde. Pegue leve, entendeu?"

Ela saiu sem esperar por uma resposta. Enquanto caminhava apressada pelo corredor para pegar o elevador, ela continuou repetindo a mesma palavra várias vezes.

Idiota. Idiota. Idiota.




CAPÍTULO SEIS


Ainda sentindo o rosto arder levemente de vergonha, Keri dirigiu a curta distância até a casa de Becky Sampson. Ela viu o rubor do seu rosto no retrovisor e desviou o olhar rapidamente, tentando pensar em qualquer outra coisa a não ser sobre como tinha encerrado a conversa com Ray. Ocorreu-lhe que ela havia saído tão rápido que esqueceu de contar a ele sobre a ligação anônima em relação a Evie e sua ida ao armazém abandonado.

Este caso, Keri. Mantenha a concentração neste caso.

Pensou em ligar para o detetive Kevin Edgerton, o especialista em tecnologia que estava rastreando a localização mais recente do GPS de Kendra, para ver se tinha tido alguma sorte.

Parte dela achava irritante o fato de Edgerton estar trabalhando nisso ao invés de tentando descobrir o código para revelar os dados no laptop de Pachanga. Novamente, a frustração tomou conta dela enquanto lembrava como eles pensaram, no início, que haviam acessado uma rede inteira de raptores, apenas para esbarrar em novos obstáculos no caminho.

Keri tinha certeza de que o criptograma de que precisava estava em algum lugar nos arquivos do advogado de Pachanga, Jackson Cave. Ela decidiu que faria uma visita a Cave hoje, com ou sem caso.

Enquanto fazia essa promessa, ela estacionava o carro em frente à casa de Becky Sampson.

Hora de colocar Cave de lado por ora. Kendra Burlingame precisa de minha ajuda. Mantenha o foco.

Ela saiu do carro e avaliou a vizinhança por um momento enquanto subia até a porta principal do condomínio. Becky Sampson morava num prédio de três andares no estilo Tudor. A rua inteira, North Stanley Drive, estava repleta de construções ornamentadas de maneira igualmente afetada.

Essa parte de Beverly Hills, logo ao sul do Cedars-Sinai e da Burton Way e a oeste da Robertson Boulevard, ficava, tecnicamente, dentro dos limites da cidade. Mas como era cercada pelos distritos comerciais e ao lado da cidade de Los Angeles, o aluguel era bem mais barato. Ainda assim, o endereço continha o nome Beverly Hills, e isso tinha suas vantagens.

Keri interfonou para o apartamento de Becky e sua passagem foi imediatamente permitida. Depois de entrar, tornou-se aparente que o CEP era o maior diferencial do lugar. Certamente, não era o prédio em si. Enquanto caminhava até o elevador, Keri observou a pintura rosa claro descascando nas paredes e o carpete grosso, manchado. Tudo cheirava a mofo.

O elevador fedia ainda mais, como se tivesse passado por vários incidentes com vômito ao longo dos anos e não pudesse mais esconder o mau cheiro. Ele subiu aos solavancos até chegar ao terceiro andar e as portas se abriram com ruído. Keri saiu do elevador decidida a descer pelas escadas, mesmo que suas costelas e ombro não fossem gostar nada disso.

Ela bateu na porta do apartamento 323, destravou sua arma, descansou a mão sobre ela discretamente e esperou. O som de pratos sendo jogados sem cerimônia numa pia foi fácil de identificar, assim como o baque surdo de seja lá o que fosse que estivesse espalhado pelo chão sendo jogado num armário.

Agora, ela está conferindo sua aparência num espelho perto da porta. Aí está a sombra através do olho-mágico enquanto ela me avalia, e a porta deve se abrir em três, dois...

Keri ouviu uma fechadura girar e a porta se abriu para revelar uma mulher magra, meio acabada. Ela deveria ter aproximadamente a mesma idade de Kendra, se elas foram para uma reunião juntas, mas parecia muito mais velha, mais perto dos cinquenta do que dos quarenta anos. Seu cabelo tingido era de um castanho pardacento e seus olhos castanhos eram tão injetados quanto os de Keri, normalmente. A palavra que imediatamente veio à mente para descrevê-la era nervosa.

"Becky Sampson?" Keri perguntou, mais pelo protocolo, apesar da foto da carteira de habilitação que lhe enviaram no caminho claramente batesse. Sua mão direita continuou a descansar no cabo da arma.

"Sim. Detetive Locke? Entre".

Keri entrou, mantendo certa distância entre ela e Becky. Mesmo magricelas de Beverly Hills que querem ser o que não são podiam causar estragos se você baixar a guarda. Ela tentou não franzir o nariz com o cheiro de mofo que dominava o lugar.

"Posso lhe oferecer alguma coisa?" Becky perguntou.

"Um copo de água", Keri respondeu, menos por sede do que para ter a chance de avaliar mais demoradamente o apartamento, enquanto sua anfitriã estivesse na cozinha.

Com as janelas fechadas e as persianas repuxadas, o apartamento era sufocante. Tudo parecia ter uma camada de poeira por cima, das mesas laterais até as estantes, e também o sofá. Keri entrou na sala de estar e notou que estava enganada.

Uma parte da mesa de centro estava brilhando, como se fosse usada constantemente. No chão na frente desse ponto, Keri notou várias partículas do que parecia um pó branco. Ela se ajoelhou, ignorando a intensa dor em suas costelas, e olhou sob a mesa. Viu uma nota de um dólar parcialmente enrolada, coberta com um resíduo esbranquiçado. Ela ouviu a torneira da pia ser fechada e ficou de pé antes de Becky entrar novamente na sala, com dois copos de água.

Claramente surpresa ao ver Keri tão distante da porta da frente, Becky lhe deu um olhar suspeito antes de, involuntariamente, olhar para o ponto limpo sobre a mesa.

"Posso me sentar?" Keri perguntou, casualmente. "Uma de minhas costelas está quebrada e doi ficar de pé por muito tempo".

"Claro", Becky disse, aparentemente aplacada. "Como aconteceu?"

"Numa briga com um sequestrador de menores".

Os olhos de Becky se arregalaram, em choque.

"Ah, mas não se preocupe", Keri a tranquilizou. "Eu o matei depois disso".

Com confiança suficiente por ter baixado a guarda de Becky, ela pisou fundo.

"Eu lhe falei ao telefone que precisava conversar sobre Kendra Burlingame. Ela está desaparecida. Tem alguma ideia de seu paradeiro?

Apesar de parecer improvável, os olhos de Becky se abriram ainda mais do que antes.

"O quê?"

"Ela não dá notícias desde a manhã de ontem. Quando foi a última vez que falou com ela?"

Becky tentou responder, mas, subitamente, começou a tossir e a arquejar. Após alguns instantes, ela se recuperou o suficiente para falar alguma coisa.

"Fomos fazer compras na tarde de sábado. Ela estava procurando um vestido novo para o jantar de gala beneficente de hoje à noite. Tem certeza de que ela está desaparecida?"

"Temos certeza. Notou algo no comportamento dela no sábado? Parecia ansiosa sobre algo?"

"Na verdade, não", Becky respondeu, enquanto fungava e buscava um lenço. "Quero dizer, houve alguns contratempos com o responsável pela arrecadação de fundos com o qual ela estava tratando, ligações para o bufê e coisas assim. Mas nada que ela não tenha lidado um milhão de vezes antes. Ela não parecia estar tão incomodada".

"Como foi para você, Becky, ouvi-la fazer aquelas ligações sobre um elegante jantar de gala enquanto ela comprava um vestido caro?"

"O que quer dizer?"

"Quero dizer, você é a melhor amiga dela, certo?"

Becky assentiu. "Por quase vinte e cinco anos", ela disse.

"E ela mora numa mansão no alto das montanhas e você vive neste quarto-e-sala. Nunca sentiu inveja?"

Ela observou Becky atentamente enquanto a mulher respondia. Ela tomou um gole de água, mas tossiu como se um pouco tivesse descido pelo tubo errado. Após alguns segundos, respondeu.

"Eu tenho sim inveja algumas vezes. Admito isso. Mas não é culpa de Kendra as coisas não terem dado tão certo para mim. Na verdade, é difícil até se chatear com ela. É a pessoa mais amável que conheço. Eu tive alguns... problemas e ela sempre esteve ao meu lado quando as coisas ficaram difíceis".

Keri suspeitou o que poderiam ser esses "problemas", mas não disse nada. Becky continuou.

"Além disso, ela é muito generosa, sem querer mandar em mim. A linha que separa as duas coisas é muito delicada. Ela até comprou o vestido que vou usar para o jantar de gala desta noite, supondo que ainda vá acontecer. Você sabe se vai?"

"Não sei", Keri respondeu, ríspida. "Fale-me sobre o relacionamento dela com Jeremy. Como era o casamento deles?"

"Era bom. Eles eram ótimos parceiros, uma equipe realmente eficiente".

"Isso não soa muito romântico. É um casamento ou uma empresa?"

"Não acho que eles eram um casal super apaixonado. Jeremy é um cara muito centrado, prático. E Kendra passou pela fase de se sentir atraída por caras sexy e selvagens nos seus vinte anos. Acho que ela estava feliz em ter um cara estável, gentil, com o qual podia contar. Eu sei que ela o ama. Mas não são como Romeu e Julieta, se é isso que você quer dizer".

"Certo, mas ela já ansiou por essa paixão? Ela poderia, talvez, ter ido atrás disso, digamos, num encontro com a turma da escola?" Keri perguntou.

"Por que pergunta?"

"Jeremy disse que ela parecia um pouco perturbada depois de voltar da reunião".

"Ah, isso", Becky disse, fungando novamente antes de irromper num outro curto acesso de tosse.

Enquanto ela tentava recuperar o controle, Keri notou uma barata rastejando pelo chão e tentou ignorar. Quando Becky se recuperou, continuou a falar.

"Acredite, ela não estava aprontando nenhuma. Na verdade, foi o oposto. Um ex-namorado dela, um cara chamado Coy Brenner, ficou dando em cima dela o tempo todo. Kendra foi educada, mas ele foi bem insistente".

"Insistente como?"

"Ao ponto de ser desconfortável. Ele era um daqueles caras meio selvagens dos quais lhe falei. Enfim, simplesmente não aceitava um não como resposta. No final do encontro, ele disse algo sobre encontrar-se com ela na cidade. Acho que isso realmente a incomodou".

"Ele mora aqui?"

"Morou em Phoenix por muito tempo. O encontro foi lá. Todos crescemos lá. Mas ele mencionou algo sobre se mudar para San Pedro recentemente, disse que estava trabalhando no porto".

"Quando foi esse encontro?"

"Há duas semanas", Becky disse. "Você acha realmente que ele tem algo a ver com isso"

"Eu não sei. Mas vamos averiguar. Onde posso encontrá-la, se precisar entrar em contato novamente?

"Eu trabalho numa agência de casting na Robertson, do outro lado do restaurante The Ivy. Fica a uns dez minutos a pé daqui. Mas eu sempre estou com o celular. Por favor, não hesite em ligar. Qualquer coisa que eu puder fazer para ajudar, é só pedir. Ela é como uma irmã para mim".

Keri encarou Becky Sampson, tentando decidir se mencionava o elefante branco na sala. O fungado e tosse constantes, a total falta de interesse de manter um lar habitável, o resíduo branco e a nota enrolada no chão, tudo sugeria que a mulher estava viciada em cocaína.

"Obrigada pelo seu tempo", ela disse, por fim, decidindo não dizer nada no momento.

A situação de Becky poderia se mostrar útil mais tarde. Mas não havia necessidade de usar isso ainda, quando não tinha nenhuma vantagem tática. Keri saiu do apartamento e desceu as escadas, apesar dos lances de dor em seu ombro e costelas.

Ela se sentiu um pouco culpada por manter o vício de Becky como uma carta na manga, com o potencial de ser usada mais tarde. Mas a culpa esmaeceu rapidamente quando ela deixou o prédio e respirou o ar fresco. Ela era uma detetive, não uma assistente social que ajudava drogados. Qualquer coisa que pudesse ajudá-la a resolver o caso seguia as regras do jogo.

Enquanto entrava no tráfego e se dirigia para a rodovia, ela ligou para a delegacia. Precisava saber tudo o que eles tinham sobre o ex-namorado agressivamente interessado de Kendra, Coy Brenner. Keri estava prestes a lhe fazer uma visita surpresa.




CAPÍTULO SETE


Keri tentou manter a calma enquanto sentia sua pressão sanguínea subir. A hora do rush no trânsito se aproximava enquanto ela seguia para o sul na 110 até o porto de Los Angeles, em San Pedro. Passava das quatro horas da tarde e, mesmo dirigindo na "faixa solidária" e com a sirene ligada, o progresso era lento.

Ela saiu da rodovia e dirigiu lentamente pelas complicadas estradas das docas até o prédio administrativo, na Palos Verdes Street. Lá, Keri iria se encontrar com o representante da polícia portuária, que designaria dois policiais para lhe dar cobertura quando ela fosse interrogar Brenner. A participação da polícia portuária era necessária, já que ela estava na jurisdição deles.

Normalmente, Keri se irritava com esse tipo de requisito burocrático, mas, pela primeira vez, não se importou em ter cobertura. Ela geralmente se sentia bem confiante em enfrentar qualquer suspeito possível, por ser treinada em Krav Maga e até ter tido algumas aulas de boxe com Ray. Mas com seu ombro comprometido e costelas quebradas, ela não estava tão confiante em si mesma, como geralmente acontecia. E Brenner não parecia ser fácil de lidar.

De acordo com o detetive Manny Suarez, que puxou a ficha de antecedentes para Keri enquanto ela dirigia, Coy Brenner era uma figura. Havia sido preso pelo menos meia dúzia de vezes, duas vezes por dirigir alcoolizado, uma vez por roubo, duas por assalto, e, o mais impressionante: uma vez por fraude, o que havia resultado em seu período mais longo atrás da grades — seis meses. Isso foi há quatro anos e, como ele não tinha permissão de deixar o Estado por cinco anos, estava, tecnicamente, violando sua liberdade condicional.

Agora, ele era um trabalhador das docas no píer 400. Ainda que tenha dado a entender a Becky e a Kendra que tinha acabado de se mudar para San Pedro há poucas semanas, os registros mostravam que Brenner vinha morando num apartamento de Long Beach há mais de três meses.

O representante da polícia portuária, sargento Mike Covey, e seus dois oficiais, estavam esperando por ela. Covey era um homem alto, levemente calvo, no final dos 40 anos, com uma expressão séria. Keri havia falado com ele sobre o caso pelo telefone e ele, obviamente, havia repassado as informações para seus homens.

"O turno de Brenner termina às 16h30", Covey disse a ela, depois de trocarem apresentações. "Já são 16h15, então, eu liguei para o gerente do píer e disse a ele para não liberar a equipe mais cedo. Ele é conhecido por fazer isso".

"Agradeço. Acho que deveríamos ir para lá imediatamente. Quero dar uma olhada no cara antes de interrogá-lo".

"Entendido. Se quiser, podemos ir na frente no seu carro, para levantar menos suspeitas. Os oficiais Kuntsler e Rodriguez podem seguir separadamente no carro de patrulha. Patrulhamos os píers constantemente, então, a presença deles na área não vai parecer estranha para seu suspeito. Mas se ele vir um rosto não familiar sair de um de nossos veículos, pode causar alguma surpresa".

"Concordo", Keri falou, agradecida por não estar numa queda de braço; provavelmente porque, como ela sabia, a polícia portuária odiava publicidade negativa. Eles ficariam felizes em lidar com o caso discretamente, mesmo que isso significasse ceder autoridade a outro órgão.

Keri seguiu as instruções do sargento Covey, passando pela ponte Vincent Thomas até o estacionamento para visitantes do píer 400. Levou mais tempo do que esperava, e eles chegaram às 16h28. Covey falou com o gerente do píer pelo rádio, avisando que já podia liberar a equipe.

"Brenner deve aparecer caminhando bem na nossa linha de visão para o estacionamento dos funcionários, a qualquer momento", ele disse. Enquanto falava, o carro de patrulha passou por ele e começou a contornar lenta e casualmente a entrada que circulava o píer. Parecia uma movimentação completamente normal.

Keri observava os trabalhadores das docas saindo do armazém. Um cara percebeu que havia saído com seu capacete e correu de volta para devolvê-lo. Dois outros correram pelo amplo pátio, competindo para ver quem chegava primeiro ao seu carro. O restante caminhava num grupo grande, aparentemente sem pressa.

"Ali está o cara que você procura", Covey disse, apontando com a cabeça na direção do único homem caminhando sozinho. Coy Brenner guardava apenas uma vaga semelhança com o homem na foto de sua ficha policial quando foi preso no Arizona, há quatro anos. Aquele homem tinha um aspecto magro e faminto, com longos cabelos castanhos despenteados, e uma barba rala.

Já o cara que caminhava pesadamente pelo estacionamento agora tinha engordado uns dez quilos de lá para cá. Seu cabelo era curto e a barba era cheia. Ele usava jeans azul e uma camiseta xadez no estilo lenhador, e caminhava com uma expressão fechada. Coy Brenner não dava a impressão de ser um homem feliz com sua sorte na vida.

"Poderia ficar um pouco a distância, sargento Covey? Quero ver como ele reage quando confrontado por uma mulher policial sozinha".

"Claro. Vou até o armazém. Direi aos garotos para ficarem um pouco afastados também. Acene quando quiser que nos juntemos a você".

"Farei isso".

Keri saiu do carro, vestiu um blazer para esconder sua arma, e seguiu Brenner a distância, sem querer se fazer notar no momento. Ele parecia alheio a ela, perdido em seus próprios pensamentos. No momento em que chegou na sua velha caminhonete, ela estava bem perto dele. Ela sentiu seu celular vibrar ao receber uma mensagem de texto e ficou tensa. Mas ele obviamente não ouviu.

"Como vai, Coy?" ela perguntou, coquete.

Ele se virou, claramente pego de surpresa. Keri tirou os óculos escuros, abriu uma largo sorriso e colocou uma mão sobre o quadril, brincalhona.

"Oi?" Ele falou, mais como uma pergunta do que como uma exclamação.

"Não me diga que não se lembra de mim? Faz apenas uns 15 anos. Você é Coy Brenner, de Phoenix, não é?"

"Sim. Frequentamos o mesmo colégio, ou coisa assim?"

"Não. Nosso tempo juntos foi educativo, mas não de uma maneira escolar, se é que você me entende. Estou começando a ficar um pouco ofendida".

Acho que passei do ponto. Talvez eu tenha perdido o jeito.

Mas o rosto de Coy suavizou-se e Keri notou que tinha conseguido o que queria.

"Desculpe... foi um dia longo e já se passaram muitos anos", ele falou. "Ficaria feliz em sermos reapresentados. Qual o seu nome mesmo?" Ele parecia genuinamente perplexo.

"Keri. Keri Locke".

"Estou surpreso por não me lembrar de você, Keri. Você parece o tipo de garota de quem eu me lembraria. O que lhe fez vir de tão longe até aqui?"

"Não aguento o calor lá do Arizona. Eu trabalho para a prefeitura agora. Trabalho social... meio chato. E você?"

"Você está vendo o que eu faço".

"Um filho do deserto que terminou trabalhando perto do mar. O que levou isso a acontecer? Sonha em ser uma estrela do cinema? Queria aprender a surfar? Está atrás de uma garota?"

Ela manteve o tom leve, mas observou de perto a reação dele ao fazer a última pergunta. Sua expressão surpresa, mas intrigada, imediatamente desapareceu, substituída pela cautela.

"Estou realmente com dificuldade de me lembrar de onde a conheço, Keri. Poderia me dizer novamente quando saímos juntos?" Havia uma rispidez no tom dele que não estava lá um momento atrás.

Keri podia sentir que seu disfarce estava ruindo e decidiu cutucá-lo de maneira um pouco mais agressiva.

"Talvez você não se lembre de mim porque não me pareço com Kendra. É isso, Coy? Você só tem olhos para ela?"

A expressão nesses olhos passou rapidamente de cautelosa para irritada e ele deu um passo à frente. Keri observou seus pulsos se fecharem de forma involuntária. Ela não recuou.

"Quem diabos é você?" ele perguntou. "O que é isso?"

"Estou apenas puxando conversa, Coy. Por que ficou tão grosseiro de repente?"

"Eu não conheço você", ele disse, agora, abertamente hostil. "Quem lhe enviou, o marido dela? Você é algum tipo de detetive particular?"

"E se fosse? Teria algo para investigar? Há alguma coisa que você queira confessar, Coy?"

Ele deu mais um passo na direção dela. Seus rostos estavam a menos meio metro de distância agora. Ao invés de se encolher, Keri endireitou os ombros e levantou seu queixo, desafiadora.

"Acho que você cometeu um erro terrível vindo até aqui, moça", Coy rosnou. Ele estava de costas para o carro de patrulha, que havia lentamente se aproximado e estava parado, uns seis metros atrás dele.

Do canto do olho, Keri pôde ver o sargento Covey saindo cautelosamente do armazém, parando também atrás de Coy. Ela sentiu um impulso súbito de acenar na direção deles, mas se conteve.

É agora ou nunca.

"O que você fez com Kendra, Coy?" ela perguntou, sem qualquer traço de brincadeira na voz. Ela o encarou, com a mão novamente sobre o punho de sua arma, pronta para tudo.

Ao ouvir a pergunta, seus olhos passaram de raivosos para surpresos e ela notou que ele não tinha a menor ideia do que ela estava falando. Brenner recuou um passo.

"O quê?"

Ela imediatamente sentiu que ele não era o culpado, mas continuou a pressionar, só para ter certeza.

"Kendra Burlingame está desaparecida e ouvi falar que você a persegue. Então, se fez algo a ela, agora é o momento de esclarecer as coisas. Se cooperar, posso ajudá-lo. Se não, as coisas podem ficar muito ruins para você."

Coy estava olhando para Keri, mas não parecia estar processando completamente o que ouviu. Ele não percebeu a aproximação do sargento Covey, que estava só alguns passos atrás. O oficial veterano descansava a mão na arma em seu quadril. Ele não parecia feliz com a possibilidade de atirar, apenas preparado.

"Kendra está desaparecida?" Coy perguntou, parecendo uma criança que acabou de saber que seu cão tinha sido sacrificado.

"Quando foi a última vez que a viu, Coy?"

"No encontro... eu disse a ela que a procuraria aqui em LA. Mas notei que ela não queria nada comigo. Parecia envergonhada por mim. Eu não queria ver aquele olhar no rosto dela novamente, então, deixei para lá".

"Você não quis punir a mulher que lhe fez sentir dessa forma?"

"Ela não me fez sentir daquela forma. Estou envergonhado de quem me tornei sem nenhuma ajuda dela. Simplesmente, ver o quanto eu havia caído na visão dela... realmente abriu meus olhos, sabe? Tenho mentido para mim mesmo sobre ser esse cara descolado, durão, por um longo tempo. Foi preciso reencontrar Kendra para perceber o fracassado que eu me tornei realmente".

Ele olhou desesperadamente para Keri, esperando fazer algum tipo de conexão. Mas ela não queria conhecer os demônios internos desse cara. Tinha vergonha de si mesma o bastante para não querer lidar com a de outra pessoa.

"Pode prestar contas sobre seu paradeiro ontem, Coy?" ela perguntou, mudando de assunto. Percebendo que não conseguiria nenhuma simpatia da parte dela, ele assentiu.

"Estava aqui o dia todo. Tenho certeza de que meu chefe pode confirmar".

"Podemos conferir isso", o sargento Covey disse. Coy teve um leve sobressalto ao ouvir a voz inesperada atrás dele. Ele se virou, surpreso ao ver Covey a alguns metros de distância e o carro da patrulha com Kuntsler e Rodriguez não muito longe.

"Então, suponho que você é uma policial?" Coy disse, parecendo subjugado.

"Eu sou... Desaparecidos da polícia de LA".

"Espero que a encontre. Kendra é uma ótima garota. O mundo é um lugar melhor por causa dela e merece ser feliz. Sempre torci por ela. Mas sabia que estava fora do meu alcance, então, nunca tive muita esperança. Se houver mais alguma coisa que eu possa fazer, é só dizer".

"Detetive Locke", o sargento Covey interveio, "a menos que você tenha mais perguntas, ficarei feliz em averiguar o álibi dele. Sei que tem outras rotas de investigação que quer explorar. Além disso, precisamos preencher a papelada para processar o Sr. Brenner por violar a condicional. Ele mentiu em sua candidatura ao emprego sobre a sua situação e isso é um motivo para demissão".

Keri viu a expressão de Brenner afundar ainda mais. Ele era realmente patético. E agora, estava desempregado, para completar. Ela tentou afastar o sentimento de que era parcialmente responsável por isso.

"Eu agradeceria, sargento. Preciso mesmo voltar e parece que isso não vai dar em nada. Obrigada pela sua ajuda".

Enquanto Covey e os policiais levavam Coy Brenner de volta ao armazém para ser interrogado, Keri entrou em seu carro e conferiu a mensagem que havia recebido mais cedo.

Era de Brody. Ele dizia:



JANTAR DE GALA AINDA DE PÉ. ÓTIMA CHANCE PARA INTERROGATÓRIOS. ENCONTRO VOCÊ LÁ. USE UMA ROUPA SEXY.



Brody continuava a surpreendê-la com sua falta de noção e profissionalismo. Além de ser um sexista inveterado, ele não parecia entender que um evento de arrecadação de fundos cuja anfitriã estava desaparecida não era o lugar ideal para fazer seus amigos e colegas desnudarem a própria alma.

Além disso, eu não tenho nada para vestir.

É claro que essa não era a única razão. Se fosse honesta consigo mesma, Keri tinha que admitir que parte de seu medo era porque esse era exatamente o tipo de evento que ela frequentava na época em que era uma professora universitária respeitada, a esposa de um agente de talentos bem-sucedido, e a mãe de uma garotinha adorável. Ir para esse evento seria um lembrete brilhante, luminoso, doloroso de sua vida antes de perder Evie.

Às vezes, ela odiava este trabalho.




CAPÍTULO OITO


Com o estômago revirando de ansiedade, Keri aguardava sentada na recepção do escritório de advocacia de Jackson Cave. Já fazia vinte minutos que ela estava esperando, tempo suficiente para refletir continuamente se havia tomado uma boa decisão.

Durante o caminho de volta de San Pedro, ela vinha calculando quanto iria levar para chegar à casa-barco, colocar um vestido de festa e então voltar a Beverly Hills, para o evento da All Smiles. Mas enquanto se dirigia para o norte, viu os arranha-céus do centro de Los Angeles a distância e um impulso poderoso tomou conta dela. Keri se viu dirigindo até o escritório de Cave, sem nenhum tipo de plano no qual se apoiar.

No caminho, havia ligado para Brody, para que pudessem repassar as informações que tinham até agora. Após tê-lo informado de que a pista de Coy Brenner não havia dado em nada, ele falou com ela sobre San Diego.

"O álibi de Jeremy Burlingame confere. Ele ficou em cirurgia o dia todo ontem. Aparentemente, estava supervisionando alguns médicos na cidade, ensinando-os um novo procedimento de reconstrução facial".

"Certo, ouça, o trânsito está horrível", Keri disse. Era parcialmente verdade, mas também uma desculpa para ela parar em Cave. "Então, se você chegar no jantar de gala antes de mim, por favor, só avalie o lugar. Não comece a interrogar as pessoas".

"Está me dizendo como fazer meu trabalho, Locke?"

"Não, Brody. Mas estou sugerindo que ir para um lugar assim como um touro numa loja de porcelanas pode ser contra-produtivo. Algumas dessas socialites provavelmente se abririam mais para outra mulher num vestido do que para um cara cujo relacionamento mais longo foi com seu carro".

"Vá se danar, Locke. Vou falar com quem eu quiser", Brody retrucou, indignado. Mas ela podia ouvir no tom hesitante dele que tinha lhe deixado em dúvida.

"Como quiser", Keri replicou. "Vejo-o lá".

Agora, trinta minutos depois, ela ainda não tinha conseguido encontrar-se com Cave. Eram quase 17h30. Decidiu tirar vantagem do intervalo para dar uma olhada no lugar. Ela caminhou até a recepção.

"Você sabe por mais quanto tempo o senhor Cave vai demorar?" ela perguntou à secretária, que meneou a cabeça, como quem pede desculpas. "Então, poderia me dizer onde fica o banheiro, por favor?"

"No final do corredor, à esquerda".

Keri se dirigiu até lá, seus olhos alertas para qualquer detalhe que pudesse lhe dar alguma vantagem. Bem em frente ao banheiro feminino, estava uma porta com uma placa de Saída. Ela a abriu e viu que ia dar no mesmo corredor que ela havia percorrido para chegar até a entrada principal da firma.

Olhando ao redor e não vendo ninguém no corredor, ela pegou um lenço da bolsa e o enfiou no orifício da trava da porta, de modo que não pudesse travar automaticamente. Em seguida, entrou no banheiro por pouco tempo, para checar sua aparência.

Quando voltou ao lobby, uma mulher bonita num terninho impecável estava esperando para levá-la ao escritório de Jackson Cave. Enquanto seguia a mulher, Keri tentou evitar que seu coração pulasse para fora do peito. Estava prestes a encontrar o homem que poderia ter a chave para obter informações cruciais sobre o paradeiro de Evie e ela não tinha nenhuma estratégia.

A única vez que viu Jackson Cave foi na delegacia de uma pequena cidade nas montanhas. Ele havia vindo tentar libertar seu cliente sob fiança, Payton Penn, o irmão do senador da Califórnia, Stafford Penn. No fim das contas, Keri descobriu que Penn havia contratado Alan Pachanga para raptar sua sobrinha, Ashley. As coisas aconteceram a favor de Keri lá naquela cidadezinha, mas agora ela estava em território inimigo e podia sentir isso.

Jackson Cave era conhecido na maior parte da cidade por sua reputação de representar grandes clientes corporativos. Mas, para a polícia, seu trabalho voluntário defendendo estupradores, pedófilos, e sequestradores de crianças era infame.

Keri suspeitou imediatamente de um homem como esse. Uma coisa era defender um suspeito de assassinato que podia ser condenado à morte, ou algum cara desesperado que roubou um banco para sustentar sua família. Mas representar exclusivamente e com entusiasmo os piores perpetradores de violência sexual que a cidade tinha a oferecer, de graça, parecia-lhe uma escolha estranha.

No entanto, Keri esperava tirar vantagem do trabalho dele. Ela sabia que Cave escondia o criptograma que podia revelar os dados no computador de Alan Pachanga. Se ela pudesse encontrá-la, isso poderia levá-la a informações de uma rede inteira de sequestradores de aluguel. Poderia até revelar algo sobre o homem que havia levado Evie, um homem que ela acreditava atender pelo nome de "Colecionador".

Tudo naquele lugar era feito para intimidar. A firma em si consumia o 70º andar inteiro do prédio do US Bank, de 73 andares. Havia janelas que iam do chão ao teto em toda parte, com vista para a vastidão de Los Angeles. Obras de arte caras cobriam as paredes. Todos os móveis eram de couro e mogno.

Elas finalmente chegaram a um escritório sem placa na porta, no final do corredor, e a mulher fez sinal para que Keri entrasse. Estava vazio. Keri foi direcionada até uma cadeira macia e cara na frente da mesa de Cave, que era imaculada.

Deixada sozinha, a policial olhou em volta, tentando captar algo sobre o homem a partir de seu ambiente. Não havia fotos pessoais sobre a mesa, nem credenciais. Na parede, algumas fotos de Cave com pessoas influentes, como o prefeito, vários conselheiros municipais e algumas celebridades. Os diplomas de sua Universidade (USC) e Faculdade de Direito (Harvard) também estavam exibidos. Mas nada revelava muito sobre o homem e suas paixões.

Antes que Keri pudesse avaliar a sala mais a fundo, Jackson Cave entrou. Ela se levantou rápido. Seu cabelo preto como carvão estava lambido para trás como Gordon Gekko, no filme Wall Street. Seus dentes reluzentes de tão brancos enchiam uma boca torcida num sorriso falso, de plástico. Sua pele bronzeada brilhava sob o terno Michael Kors azul-marinho. E seus olhos azuis penetrantes brilhavam com uma ferocidade que lembrava a de uma águia caçando sua presa.

Então, num flash, ela soube que curso de ação tomar. Jackson Cave, com suas fotos com poderosos e sua roupa e penteado imaculados, era um homem que se importava sobre como era percebido. Ele ganhava a vida seduzindo as pessoas — políticos, juris e a mídia. E Keri sabia que ele queria conquistá-la também. Era a natureza dele.

Tenho que minar esse objetivo. Tenho que abordá-lo de maneira dura e rápida, frustrar suas expectativas, prejudicar seu equilíbrio. A única maneira de encontrar brechas em sua armadura e fazê-lo cometer um deslize é apunhalando-o em vários pontos. Talvez então ele diga algo sem notar que possa me levar a decifrar o criptograma.

Se ela conseguisse aborrecê-lo, ou até ao menos irritá-lo, talvez ele cometesse um engano e revelasse, sem querer, algo importante. Considerando que já desprezava o homem, não seria tão difícil. Ela só tinha que amplificar esse desprezo e procurar por falhas naquela fachada perfeita. Ela não sabia exatamente quais eram essas falhas, mas, se permanecesse alerta, tinha certeza de que encontraria algo.

"Detetive Keri Locke", ele disse, enquanto passava por ela até seu lado da mesa, "que visita inesperada. Faz apenas algumas semanas que batemos um papo no ar fresco das montanhas. E agora você se propôs a me visitar aqui, na selva de pedra. A que devo essa honra?"




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