A mentira mora ao lado 
Blake Pierce


Um mistério psicológico de Chloe Fine #2
Uma obra-prima de suspense e mistério. Blake Pierce fez um trabalho magnífico criando personagens com lados psicológicos tão bem descritos que nos fazem sentir dentro de suas mentes, acompanhando seus medos e celebrando seu sucesso. Cheio de reviravoltas, este livro vai lhe manter acordado até que você chegue à última página. Books and Movie Reviews, Roberto Mattos (sobre Once Gone) A MENTIRA MORA AO LADO (Um Mistério de Chloe Fine) é o segundo livro da nova série de suspenses psicológicos do autor de best-sellers Blake Pierce, cujo sucesso número 1, Once Gone (baixe grátis), já recebeu mais de 1. 000 avaliações de cinco estrelas. A agente da Equipe de Evidências do FBI, Chloe Fine, de 27 anos, ainda se recuperando dos segredos de seu passado, encontra-se envolvida em seu primeiro caso: o assassinato de uma babá em um bairro suburbano aparentemente perfeito. Imersa em um mundo de segredos, de casais infiéis, fingimentos e esperteza, Chloe logo percebe que qualquer um – toda e qualquer pessoa – pode ser culpado. Ao mesmo tempo, com seu pai ainda preso, ela precisa lutar contra seus próprios demônios e desvendar seus próprios segredos, que ameaçam derrubá-la antes mesmo do início de sua carreira. Um suspense psicológico repleto de emoção com personagens robustos, em um ambiente de cidade pequena e que acelera o coração. A MENTIRA MORA AO LADO é o segundo livro de uma nova série fascinante, que o fará ler páginas e páginas noite adentro. O terceiro livro da série CHLOE FINE estará disponível em breve.







a m e n t i r a m o r a a o l a d o



(um suspense psicológico de Chloe Fine — livro 2)



b l a k e p i e r c e


Blake Pierce



Blake Pierce é autor do best-seller RILEY PAGE, série de mistérios, que conta com treze livros (e continua crescendo). Blake Pierce também é autor da série de mistérios MACKENZIE WHITE, de nove livros (que também continua crescendo); da série de mistérios AVERY BLACK, de seis livros, da série de mistérios KERI LOCKE, de cinco livros, da série de mistérios MAKING OF RILEY PAIGE, de três livros (que continua crescendo); da série de mistérios KATE WISE, de dois livros (que também segue crescendo), e da série de suspense psicológico CHLOE FINE, de três livros (que segue crescendo).



Um leitor ávido e fã de longa data dos gêneros de mistério e suspense, Blake ama ouvir opiniões. Então, por favor, sinta-se à vontade para visitar www.blakepierceauthor.com (http://www.blakepierceauthor.com) para saber mais e manter-se em contato.



Copyright © 2017 por Blake Pierce. Todos os direitos reservados. Exceto conforme permitido na Lei de Direitos Autorais dos Estados Unidos (US. Copyright Act of 1976), nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, distribuída ou transmitida de nenhuma forma e por motivo algum, ou colocada em um sistema de dados ou sistema de recuperação sem permissão prévia do autor. Este e-book está licenciado apenas para seu aproveitamento pessoal. Este e-book não pode ser revendido ou dado a outras pessoas. Se você gostaria de compartilhar este e-book com outra pessoa, por favor compre uma cópia adicional para cada beneficiário. Se você está lendo este e-book e não o comprou, ou ele não foi comprado apenas para uso pessoal, então por favor devolva-o e compre seu próprio exemplar. Obrigado por respeitar o trabalho árduo do autor. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, empresas, organizações, lugares, eventos e acontecimentos são obras da imaginação do autor ou serão usadas apenas na ficção. Qualquer semelhança com pessoas de verdade, em vida ou falecidas, é totalmente coincidência. Imagem de capa: Copyright emin kulirev, usada sob licença de Shutterstock.com.


LIVROS DE BLAKE PIERCE



SUSPENSES PSICOLÓGICOS CHLOE FINE

A PRÓXIMA PORTA (Livro 1)

A MENTIRA MORA AO LADO (Livro 2)

CUL DE SAC (Livro 3)



SÉRIE OS PRIMÓRDIOS DE RILEY PAIGE

ALVOS A ABATER (Livro #1)

ESPERANDO (Livro #2)



SÉRIE DE MISTÉRIO DE RILEY PAIGE

SEM PISTAS (Livro #1)

ACORRENTADAS (Livro #2)

ARREBATADAS (Livro #3)

ATRAÍDAS (Livro #4)

PERSEGUIDA (Livro #5)

A CARÍCIA DA MORTE (Livro #6)

COBIÇADAS (Livro #7)



SÉRIE DE ENIGMAS MACKENZIE WHITE

ANTES QUE ELE MATE (Livro nº1)

ANTES QUE ELE VEJA (Livro nº2)



SÉRIE DE ENIGMAS AVERY BLACK

MOTIVO PARA MATAR (Livro nº1)

MOTIVO PARA CORRER (Livro nº2)



SÉRIE DE MISTÉRIO KERI LOCKE

RASTRO DE MORTE (Livro 1)


ÍNDICE



PRÓLOGO (#ubfba9c11-6608-58c1-8dce-662ed591634a)

CAPÍTULO UM (#u6eb74116-76a2-5b83-9579-c83c6d6133e0)

CAPÍTULO DOIS (#u73e83a47-1cd5-552c-88f0-a7eaaf68ef9c)

CAPÍTULO TRÊS (#u139b731f-b192-5aa8-a1d2-108728302197)

CAPÍTULO QUATRO (#u5c001f63-8a36-5fa5-a069-c524c98f0f0f)

CAPÍTULO CINCO (#ub238d566-e2ee-5539-9fc0-04d6bc3030cf)

CAPÍTULO SEIS (#uebc0f7a7-c3fb-5d78-8615-c3d3be77679d)

CAPÍTULO SETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO OITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO NOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZ (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO ONZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DOZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TREZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUATORZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUINZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZESSEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZESSETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZOITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZENOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E DOIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E TRÊS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E QUATRO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E CINCO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E SEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E SETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E OITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E NOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E UM (#litres_trial_promo)




PRÓLOGO


Trabalhar como babá não era a vida que Kim Wielding havia sonhado para si mesma, mas era algo bem divertido. O que era um pouco surpreendente, considerando que, com vinte e poucos anos, ela havia corrido atrás da carreira de seus sonhos, em Washington, trabalhando em campanhas e escrevendo discursos para candidatos com poucas chances. E quase havia conseguido se dar bem.

Quase.

A vida prega peças engraçadas às vezes.

Agora, aos trinta e seis anos, aqueles sonhos de trabalhar na capital haviam ficado para trás. Ela havia os substituído por outro sonho: o de escrever uma incrível história americana nos horários livres de seu trabalho como babá. Ela havia, de certa forma, caído de paraquedas naquele emprego, depois de uma derrota horrível de um candidato promissor para quem havia trabalhado. Aquilo fora o necessário para que ela deixasse a ideia de lado por um tempo. E longe da política, uma nova oportunidade de emprego caíra em seu colo. Nunca havia pensado em cuidar de crianças, mas estava dando certo.

Kim refletia sobre seu primeiro emprego como babá enquanto estava sentada na cozinha, dentro da casa de Bill e Sandra Carver. Era difícil acreditar que mais de dez anos já haviam se passado. Essa década era período de tempo que, de alguma maneira, havia borrado as memórias de trabalhar na capital, escrevendo discursos de esperança com um leve toque de mentiras.

Seu notebook estava a sua frente. Ela havia chegado a marca de quarenta mil palavras em seu livro. Imaginou que estivesse mais ou menos na metade. Talvez, ela terminaria em mais ou menos seis meses. Tudo dependia da direção que as vidas dos três filhos dos Carver tomaria. O mais velho, Zack, estava na nona série naquele ano, encarando o futebol americano como um passatempo, mas levando a sério. O filho do meio, Declan, jogava futebol. E a mais nova, Madeline, praticava ginástica. Kim sabia que teria muito trabalho nos próximos meses.

Ela fechou seu notebook e olhou pela cozinha. Estava descongelando frango para a janta. A bancada já estava vazia, a louça estava limpa, e a quarta leva de roupas estava batendo na máquina de lavar. Até que as crianças chegassem, ela não teria mais o que fazer. E por isso estivera trabalhando em seu livro pelos últimos quarenta e cinco minutos.

Olhou para o relógio e viu que o dia havia passado muito rápido—algo que ela estava começando a entender que acontecia muito com as babás. Ela precisaria sair para pegar as crianças na escola em quinze minutos... e essa não era uma simples tarefa, já que os filhos dos Carver estavam crescendo em escadinha, com a mais nova no primário, o do meio no ginásio e o mais velho no ensino médio. Assim, ela levava pelo menos uma hora no trânsito para pegar todas as crianças e retornar para a casa delas. Mas a tarefa havia ficado mais fácil, agora que Kim recentemente descobrira quão úteis eram os áudio-books para matar tempo no carro.

Ela levantou-se e olhou o frango, quase descongelado na pia. Depois, colocou a roupa na secadora e pegou todos os temperos que precisaria para fazer a janta. Quando estava colocando a páprica na bancada, alguém bateu na porta da frente.

Aquilo era muito comum na casa dos Carver. Sandra Carver era viciada em comprar na Amazon e Bill Carver sempre tinha entregas da FedEx chegando em sua casa. Kim pegou sua bolsa, pensando em já sair para pegar as crianças depois de receber as encomendas.

Ela abriu a porta e olhou instantaneamente para o chão, procurando uma caixa da Amazon. Por isso seu cérebro levou um segundo para entender que havia a forma de uma pessoa à sua frente. Quando olhou para ver o rosto, seu olhar foi bloqueado por—algo.

Fosse o que fosse, a acertou na cabeça. Diretamente entre seus olhos, acima do nariz. O barulho do golpe entrou em sua cabeça, mas ela mal teve tempo para entender antes de sentir que estava caindo.

Quando caiu no chão de madeira dos Carver, a parte de trás de sua cabeça bateu com força no piso. Ela sentiu sangue saindo do nariz ao tentar rolar para trás.

A pessoa na entrada deu um passo à frente e fechou a porta. Kim tentou gritar, mas havia muito sangue em seu nariz, descendo pela garganta e pela boca. Ela tossiu, quase engasgada, e a pessoa deu mais um largo passo à frente.

Ela pegou o mesmo objeto novamente—um tubo. Kim refletiu vagamente enquanto a dor invadiu sua mente como um furação—e aquela foi a última cena que ela viu.

Antes do golpe final, sua mente chegou a um lugar estranho. Kim Wielding morreu pensando no que aconteceria com aquele frango, ainda descongelando na pia dos Carver.




CAPÍTULO UM


Por conta da maneira como sua vida começara—uma mãe morta, um pai preso e avós que sempre estiveram em volta dela—Chloe Fine geralmente preferia fazer as coisas por conta própria. As pessoas às vezes referiam-se a ela como alguém muito introvertida e, por ela, estava tudo bem. Era aquela personalidade que havia a levado a ter notas espetaculares na escola e a ajudado a ir muito bem nos estudos e treinamentos da academia do FBI.

Mas era também aquela personalidade que a fizera mudar-se para seu novo apartamento sem uma única pessoa para ajudá-la. Claro, ela poderia ter contratado uma empresa de frete, mas seus avós haviam a ensinado o valor do dinheiro. E já que tinha braços fortes, costas fortes e uma mente teimosa, ela havia escolhido se mudar por conta própria. Afinal de contas, tinha apenas dois móveis pesados. Todo o resto seria muito fácil de carregar.

Mas Chloe percebeu que esse não era o caso quando finalmente conseguiu arrastar sua cômoda escada acima—com a ajuda de um carrinho, várias catracas e degraus felizmente bem largos e que levavam a seu apartamento, no segundo andar. Sim, ela havia conseguido, mas tinha certeza de que havia machucado um ou dois pontos das costas no caminho.

Ela havia deixado a cômoda por último, sabendo que aquela seria a parte mais difícil da mudança. Intencionalmente, havia guardado as coisas em caixas leves, sabendo que faria o trabalho sozinha. Pensou que poderia ter ligado para Danielle pedindo ajuda, mas nunca fora do tipo que pedia favores familiares.

Chloe afastou algumas caixas de livros e cadernos e se jogou na poltrona que tinha desde o segundo ano da faculdade. Pensar em Danielle estando ali com ela para começar a organizar todas as coisas era algo atraente. As coisas não estavam tão tensas entre elas desde que Chloe havia descoberto a verdade sobre o que acontecera com os pais delas quando elas eram crianças, mas com certeza havia algo diferente. As duas sabiam muito bem do peso de seu pai em suas mentes—da verdade do que ele havia feito e dos segredos que estiveram guardados por muito tempo. Chloe sentia que as duas estavam lidando com aqueles segredos de suas próprias maneiras, e que elas sabiam que suas opiniões divergiam de um jeito quase psíquico, algo que acontecia apenas com irmãos muito próximos.

O que ela nunca ousara expressar a Danielle era o quanto ela sentira falta de seu pai. Danielle guardara muito rancor dele após sua prisão. Mas Chloe sentira a falta da figura de um pai em sua vida. Era ela quem sempre pensara que, talvez, os policiais estavam errados, e que era impossível que seu pai tivesse matado sua mãe.

E fora aquela esperança e crença que resultara na pequena aventura que elas haviam enfrentado juntas, culminando na prisão de Ruthanne Carwile e em um ponto de vista totalmente novo no caso Aiden Fine. O problema de aquilo tudo ser descoberto para Chloe, no entanto, é que ela havia começado a sentir a falta dele ainda mais. E ela sabia que Danielle poderia encarar aquilo como algo terrível, até mesmo masoquista.

Mesmo assim, apesar de tudo, ela queria ligar para Danielle para celebrar sua pequena vitória de se mudar para uma casa nova. Era um apartamento pequeno, de dois quartos, no bairro Mount Pleasant em Washington. Era pequeno e ela teria dificuldades de pagar, mas era exatamente o que estava procurando. Fazia quase dois meses desde a última vez em que elas haviam saído juntas—o que parecia estranho, dado tudo o que acontecera na última vez em que haviam compartilhado seu tempo. Elas haviam conversando por telefone algumas vezes e, mesmo sendo boas conversas, todas elas foram rasas. E Chloe não gostava de coisas rasas.

Foda-se, ela pensou, pegando seu telefone. O que poderia dar errado?

Ao procurar o número de Danielle, ela deu-se conta da realidade da situação. Claro, fazia apenas dois meses desde que tudo acontecera, mas elas eram pessoas diferentes agora. Danielle havia começado a ajeitar sua vida. Ela tinha um trabalho com chances de crescer muito—bartender e gerente assistente em um bar que estava crescendo muito em Reston, Virginia. Já Chloe ainda estava tentando descobrir como se transformar: de alguém que estivera recentemente noiva para alguém solteira, que aparentemente nem se lembrava como se fazia para conseguir alguém para um encontro.

Você não pode forçar algo assim, ela pensou. Especialmente com Danielle.

Com seu coração agitado, Chloe telefonou. Ela esperava que a ligação caísse na caixa de mensagens. Por isso, quando Danielle atendeu na segunda chamada, levou um momento para responder.

- Ei, Danielle.

- Chloe, como você está? – ela perguntou. Foi estranho ouvir a voz de Danielle com uma ponta de felicidade.

- Muito bem. Me mudei hoje. Pensei que seria legal celebrar com uma visita sua, uma garrafa de vinho e alguma comida nada saudável. Mas então lembrei do seu novo trabalho.

- É, estou trabalhando muito – Danielle disse, rindo.

- Você está gostando?

- Chloe, eu estou amando. Quer dizer, faz só três semanas, mas é como se eu tivesse nascido para esse trabalho. Eu sei que é só um emprego de bartender, mas...

- Bom, você é gerente assistente também, certo?

- Sim. Essa definição ainda me assusta.

- Fico feliz por você estar gostando.

- Bom, e você? Como é o apartamento? Como foi a mudança?

Chloe não queria que Danielle soubesse que ela havia feito a mudança sozinha, então deu uma resposta genérica—que também odiou.

Não foi tão ruim. Ainda tenho que tirar as coisas da caixas, mas estou feliz por estar aqui, sabe?

- Com certeza eu vou querer ir aí tomar o vinho e comer porcarias com você. Como vai o resto?

- Sinceramente?

- Danielle ficou em silêncio por um momento antes de responder.

- Hum... Sim.

- Estive pensando no pai. Estive pensando em ir até lá vê-lo.

- E por que diabos você faria isso?

- Eu queria ter uma boa resposta para te dar – Chloe disse. – Depois de tudo o que aconteceu, não sei, eu sinto que preciso. Quero dar um sentido a isso tudo.

- Meu Deus, Chloe. Deixe isso para lá. Seu novo trabalho não deveria ser sobre solucionar outros crimes? Cara... Pensei que era eu quem passava o tempo vivendo no passado.

- Por que isso te irrita tanto? – Chloe perguntou. – Digo, eu ir visitá-lo...

- Porque eu sinto que nós duas já demos muito das nossas vidas para ele. E eu sei que se você vê-lo, meu nome vai sair de uma das bocas de vocês e eu prefiro que isso não aconteça. Para mim, ele já era, Chloe. Eu queria que para você também.

Sim, eu queria a mesma coisa, Chloe pensou, mas segurou o comentário para si mesma.

- Chloe, eu te amo, mas se você está pensando em continuar nesse assunto eu vou ter que dizer tchau agora mesmo.

- Quando você vai trabalhar? – Chloe perguntou.

- Todas as noites essa semana, menos sábado.

- Quem sabe eu poderia ir ver você na sexta à tarde. Acho que você poderia me servir algum drink que você considere especial.

- É melhor você não querer voltar para casa dirigindo, então – Danielle disse.

- Anotado.

- E você? Quando começa no novo trabalho?

- Amanhã de manhã, na verdade.

- No meio da semana? – Danielle perguntou.

- Vai ser um tipo de orientação. Vários reuniões no dia.

- Estou animada por você – Danielle disse. – Eu sei o quanto você queria isso.

Era bom ouvir Danielle interessada em seu trabalho. Não só isso, mas também querendo demonstrar esse interesse.

Houve um silêncio profundo entre as duas, que felizmente terminou com Danielle dizendo algo que não era do tipo dela.

- Cuide-se, Chloe. Com o trabalho... com nosso pai... com tudo.

- Vou me cuidar – Chloe disse, percebendo que o comentário da irmã a surpreendera.

Danielle encerrou a ligação, e Chloe olhou em volta em seu apartamento. Era difícil ver o lugar inteiro por conta de todas as tralhas, mas ela já sentia aquele lugar como sendo sua casa.

Nada como uma conversa estranha com Danielle para fazer um lugar parecer sua casa, ela pensou.

Devagar, esticando as costas, Chloe saiu da poltrona e foi até a caixa mais próxima. Ela começou a tirar as coisas, pensando em como sua vida seria se ela não soubesse como reconciliar seus relacionamentos. Fosse com sua irmã, com seu pai ou com seu ex-noivo, ela não tinha o melhor histórico quando se tratava de manter as pessoas por perto.

Ao pensar em seu ex-noivo, Chloe deparou-se com vários fotos emolduradas no fundo da primeira caixa. Havia três fotos, dela e de Steven. Duas eram muito antigas, quando eles só queriam saber de namorar. Mas a terceira era uma foto de depois de que ele havia a pedido em casamento... depois de que ela havia dito sim quase chorando.

Ela juntou as fotos fora da caixa e colocou-as na bancada da cozinha. Olhou em volta e encontrou a lixeira no canto da sala, ao lado do colchão. Chloe pegou as fotos e jogou-as na lixeira. O som do vidro quebrando em pedaços foi um pouco agradável demais.

Fácil assim, ela pensou. Mal posso esperar para deixar isso para trás. Mas por que você não pode deixar essa história sem noção com seu pai para trás assim fácil também?

Ela não tinha resposta para aquela pergunta. E o que mais a assustou foi que ela sentia que a resposta poderia estar em uma conversa com ele.

Com esse pensamento, o apartamento pareceu mais vazio do que antes, e Chloe sentiu-se muito sozinha. Esse mero pensamento a fez ir até a geladeira e abrir a caixa de cerveja que havia comprado mais cedo. Ela abriu uma garrafa, um pouco assustada com quão bom havia sido o primeiro gole.

Fez o que pode para se ocupar naquela tarde e até à noite, não tirando as coisas da caixa, mas sim vagarosamente passando uma por uma e tentando decidir se precisava de cada item. O troféu que havia ganho no debate no ensino médio foi para a lixeira. O CD de Fiona Apple que escutara quando perdera sua virgindade no segundo ano do ensino médio, ela guardou.

Todas as fotos de seu pai foram para o lixo. Doeu um pouco no começo, mas na quarta garrafa de cerveja, a tarefa tornou-se mais fácil.

Passou por duas caixas... e teria visto pelo menos mais uma se não tivesse ido até a geladeira e descoberto que, de alguma maneira, havia tomado a caixa inteira de seis cervejas. Olhou para o relógio acima do forno e suspirou ao ver a hora.

Eram quinze para uma da manhã. Muito tarde para dar tempo de descansar bem antes do meu primeiro dia, pensou.

Mas o mais preocupante era o fato de que ela estava mais triste com a caixa de cerveja vazia do que uma possível manhã “grogue” em seu primeiro dia no FBI. Chloe caiu na cama após escovar seus dentes, e o quarto girou um pouco. Então, percebeu que havia passado a noite inteira tentando fazer a si mesma não dar a mínima para a tentativa de apagar as memórias de seu pai.




CAPÍTULO DOIS


Chloe não sabia ao certo o que esperar quando chegou à sede do FBI na manhã seguinte. Mas o que ela com certeza não esperava era ser recebida por um agente mais velho na entrada. Ela viu quando ele notou sua presença, e não teve certeza do que fazer quando percebeu que ele estava vindo diretamente em sua direção. Por um momento, ela pensou que fosse o Agente Greene, o homem que havia sido seu instrutor e parceiro em seu “quase caso”, que a levara a descobrir a verdade sobre seu pai.

Mas quando olhou melhor para o rosto do homem, viu que tratava-se de alguém bem diferente. Ele parecia durão e feito de pedra, e sua boca era desenhada em uma linha apertada em sua mandíbula.

- Chloe Fine? – O agente perguntou.

- Sim?

- O diretor Johnson gostaria de falar com você antes das orientações.

Aquilo a animou e a assustou. O diretor Johnson havia aberto exceções para ela quando ela fora parceira de Greene. Talvez ele estava mudando de ideia? As ações dela no última caso teriam trazido problemas para ele? Teria ela chegado tão longe apenas para ter seus sonhos destruídos no primeiro dia?

- Para que? – Chloe perguntou.

O agente encolheu os ombros, sem se importar com a pergunta.

- Por aqui, por favor – ele disse.

Ele a levou até os elevadores e, por um momento, Chloe sentiu-se como se estivesse voltando no tempo. Ela pode se ver entrando nos mesmos elevadores um pouco mais de dois meses antes, com o mesmo nó de preocupação no estômago, sabendo que iria encontrar o Diretor Johnson. E como da última vez, aquele nó de preocupação tomou conta de seu corpo inteiro quando o elevador começou a subir.

O agente com cara de durão a levou para fora do elevador quando ele parou no segundo andar. Eles passaram por vários escritórios e salas antes que o agente parasse na porta da sala de Johnson. A secretária na mesa assentiu educadamente, e disse:

- Você pode entrar. Ele está esperando por você.

O agente também assentiu para Chloe – não de um jeito tão educado – e fez um gesto em direção à porta do escritório. Estava claro que ele não iria entrar.

Fazendo o possível para manter-se calma, Chloe caminhou até a porta do diretor Johnson. Por que estou com tanto medo? Ela pensou. Na última vez que foi chamada na sala dele, ganhei responsabilidades e tarefas que a maioria dos agentes novos como eu não ganham. Aquilo era verdade, mas não serviu para acalmá-la.

O Diretor Johson estava sentado em sua mesa, lendo atentamente algo em seu notebook quando Chloe entrou. Quando ele olhou para cima, toda sua atenção estava nela. Ele até fechou a tela do notebook.

- Agente Fine – ele disse. – Obrigado por vir. Vamos levar só um segundo. Não quero que você perca nada das orientações—que, vou me adiantar e te dizer—também são muito rápidas e tranquilas.

Ouvir Agente Fine era algo que a animava muito, mas Chloe tentou não demonstrar. Ela sentou-se na cadeira em frente à mesa do diretor e sorriu o mais normalmente possível.

- Sem problemas - ela disse. – Eu... bem... tem algo errado?

- Não, não, nada disso – ele disse. – Eu queria lhe apresentar uma opção sobre suas responsabilidades. Eu sei que você está começando uma carreira na Equipe de Evidências. Isso é algo que você sempre buscou?

- Sim, senhor. Tenho uma visão muito boa para encontrar detalhes.

- Sim, eu soube disso. O Agente Greene falou muito bem de você. E mesmo com alguns tropeços nas coisas que aconteceram meses atrás, tenho que admitir—também fiquei muito impressionado. Você carrega uma confiança em si mesma e uma certeza inabalável que não é comum em novos agentes. E é por causa disso e do feedback do Agente Greene e de outros instrutores da academia que eu gostaria que você repensasse no departamento que você quer seguir.

- Você tem algum departamento particular em mente? – Chloe perguntou.

- Você conhece o PaCV?

- O Programa de Apreensão de Crimes Violentos? Sim, eu conheço um pouco.

- O título já diz tudo, mas acho que esse programa também se encaixa no seu talento para encontrar provas. Além disso, sendo muito sincero, a Equipe de Evidências tem um grupo grande de agentes primeiro-anistas desta vez. Melhor do que se perder no meio de tantos, eu acho que você se daria bem no PaCV. Isso te interessaria?

- Sendo sincera, eu não sei. Nunca pensei sobre isso.

Johnson balançou a cabeça, mas Chloe tinha certeza que ele já estava decidido.

- Se você quiser, eu gostaria que você ao menos tentasse. Se depois de alguns dias você achar que não se encaixa, eu pessoalmente vou colocá-la de volta, sem problemas, em sua vaga atual nas Evidências.

Chloe realmente não estava certa do que dizer ou fazer. O que ela sabia, no entanto, era que estava se sentindo orgulhosa por ver que o diretor queria muito tê-la em um departamento específico por conta de suas habilidades e de feedbacks positivos.

- Tudo bem, posso trabalhar lá – ela finalmente respondeu.

- Fantástico. Já temos um caso em que quero te colocar. Você começaria amanhã de manhã. A polícia de Maryland State está cuidando disso, mas ligaram hoje de manhã pedindo ajuda. Vou colocar você com outra agente que está sem parceiro. O parceiro dela não aguentou a pressão e pediu demissão ontem.

- Posso perguntar por quê?

- No Programa de Apreensão de Crimes Violentos, alguns crimes tendem a ser um pouco sinistros. Isso acontece com novos recrutados... eles passam pelo treinamento, vendo casos-exemplo e até cenários da vida real. Mas no fim, quando percebem que vão viver no meio disso... Alguns acham que já é demais para eles.

Chloe não disse nada. Ela tentou entender como alguém poderia tomar uma decisão assim, mas não conseguiu. Ela queria aquele trabalho desde sempre—desde que aprendera a diferença entre o certo e o errado.

- Vou precisar fazer algum treinamento adicional?

- Eu recomendaria mais treinamentos de arma de fogo – Johnson disse. – Vou deixar tudo preparado para você. Suas notas na Equipe de Evidências no que diz respeito a armas de fogo são muito boas, mas você vai querer ter mais habilidade nessa área quando entrar de vez no PaCV—se você decidir ficar.

- Entendo.

- Bom, se você não tiver mais perguntas, acho que você pode seguir para a orientação, lá embaixo. Temos três minutos até começar.

- Sem mais perguntas por enquanto. E obrigado pela oportunidade. E pela confiança.

- Claro. Vou tomar conta da papelada e alguém vai te ligar para falar sobre as assinaturas até o fim do dia. E, Agente Fine... estou com um bom pressentimento nisso. Acho que você vai ser um reforço e tanto para o PaCV.

Foi então, quando levantou-se e saiu da sala, que Chloe percebeu que nunca fora boa em escutar elogios. Talvez fosse porque ela nunca recebera muitos durante sua juventude. Naquele momento, ela simplesmente sorriu de um jeito estranho e saiu. O nó de nervosismo que estivera em seu estômago havia ido embora, sendo substituído por uma sensação de como se seus pés não tivessem tocando o chão no caminho até o elevador.



***



A orientação foi praticamente como ela esperava. Tratava-se de uma lista do que se poderia e não poderia fazer, sendo dita por vários agentes. Havia exemplos de casos que haviam dado errado, casos tão ruins que os agentes haviam se demitido ou até cometido suicídio. Os instrutores contaram histórias horríveis de crianças assassinadas e de estupradores em série que, até aquele dia, ainda não havia sido presos.

Enquanto as histórias eram contadas, Chloe pode escutar alguns murmúrios entre os novos agentes. Dois lugares à sua esquerda, ela ouviu uma mulher murmurando para o homem a seu lado.

- Aparentemente, meu parceiro ouviu essas histórias antes de nós. Talvez por isso ele pediu para ir embora – Ela disse que um jeito sacana, em um tom malvado que irritou Chloe instantaneamente.

Com a sorte que tenho, essa é a parceira-sem-um-parceiro que Johnson vai colocar comigo, Chloe pensou.

A orientação parou para o almoço. Nesse momento, os instrutores separaram os novos agentes em departamentos específicos. Quando Chloe escutou a Equipe de Evidências sendo chamada, sentiu uma pequena pontada de tristeza. Ela viu cerca de vinte recrutados juntarem-se no canto direito da sala. Saber que ela poderia estar entre eles até menos de três horas antes a fez sentir-se um pouco isolada, especialmente quando viu que alguns dos agentes pareciam já ter começado algumas amizades.

Quando os agentes do Programa de Apreensão de Crimes Violentos foram chamados, Chloe levantou-se. O grupo com o qual ela caminhou era menor do que a Equipe de Evidências. Incluindo a si mesma, ela contou nove pessoas. E uma delas era, de fato, a mulher que havia feito o comentário maldoso sobre a demissão do parceiro.

Chloe estava tão focada naquela mulher que não percebeu o homem que aproximou-se dela enquanto eles caminhavam.

- Eu não sei você - ele disse, - mas eu sinto como se precisasse esconder meu rosto. Fazer parte de um programa com a palavra “Violento” nele... me faz pensar que as pessoas estão me julgando.

- Acho que eu nunca pensei desse jeito – Chloe disse.

- Bom, você tem tendência a ser violenta?

Ele perguntou com um sorriso sacana, e foi esse sorriso que a fez perceber que o homem era extremamente bonito. Claro, o comentário sobre a tendência a violência estragou um pouco sua aparência.

- Não que eu saiba – ela respondeu de um jeito estranho, quando eles chegaram ao andar onde o grupo se reuniu.

- Ok – o instrutor, um senhor mais velho vestido de jeans e camiseta preta, disse. – Primeiro vamos almoçar, depois vamos nos encontrar na Sala de Conferências Três para analisar alguns detalhes e fazer uma sessão de perguntas e respostas. Mas antes de tudo... – Ele pausou e olhou um pedaço de papel, analisando-o com um de seus dedos. – Chloe Fine está aqui?

- Sou eu – Chloe disse, quase suando por ter sido escolhida em meio a um grupo de pessoas que não conhecia.

- Preciso falar com você por um momento, por favor.

Chloe caminhou até o instrutor e viu que o senhor também estava chamando outra agente à frente.

- Agente Fine, estou vendo aqui que você é um reforço para o PaCV, recomendada diretamente pelo Diretor Johnson.

- Está certo.

- Bom ter você. Agora, gostaria que você conhecesse sua parceira, a Agente Nikki Rhodes.

Ele apontou para a outra agente que vinha em sua direção. De fato, era a mulher maldosa de antes. Nikki Rhodes sorriu para Chloe de um jeito que deixava claro que ela sabia que era bonita. E até Chloe tinha que admitir. Alta, pele perfeitamente bronzeada, olhos azuis brilhantes, cabelo loiro impecável.

- Prazer em conhecê-la – Rhodes disse.

- Igualmente – Chloe respondeu.

- Agora, você duas, aproveitem o almoço – o instrutor disse. – Pelo que sei, vocês terão um caso amanhã cedo. Vocês duas estão no topo da lista desse grupo, então espero ouvir muitas coisas boas de vocês.

Rhodes sorriu e Chloe pode sentir a falsidade naquele sorriso. Ela odiava achar automaticamente que alguém não era uma pessoa autêntica, mas sua intuição sempre percebia coisas assim. O instrutor havia se virado para se juntar ao resto do grupo, deixando as duas mulheres sozinhas. Percebendo que os olhos do superior já não estava nelas, Rhodes virou-se e se afastou, sem dizer uma só palavra.

Chloe seguiu distante do restante do grupo por um momento, tentando focar na situação. Ela havia acordado naquela manhã animada para começar sua carreira como membro da Equipe de Evidências. No entanto, tudo o que ela havia planejado havia mudado. E agora ela estava ali, em um departamento com o qual não era muito familiar, com uma parceira que prometia ser um pé no saco.

- Ela não parece exatamente uma pessoa, parece? – Alguém disse por trás dela.

Chloe virou-se e viu o homem que havia caminhado com ela até aquele andar—o cara bonito que havia perguntado sobre as tendências violentas.

- Não, não parece.

- Imagine passar a maioria dos cursos da academia com ela – ele disse. – Foi horrível. Falando nisso... eu não lembro de você em nenhum curso ou módulo.

- É... eu sou meio que nova. Fui colocada no departamento hoje de manhã.

Uma expressão um tanto quanto em choque tomou conta do rosto dele.

- Ah, ok... Bem, bem-vinda ao PaCV. Eu sou Kyle Moulton e se sua nova parceira não quer almoçar com você, eu gostaria de tomar o lugar dela.

- Sem problemas – Chloe disse, finalmente indo junto com o grupo. – Isso combina com o meu dia, para ser sincera.

- Como assim?

- Porque nada está saindo como planejado.

Moulton apenas balançou a cabeça enquanto eles saíam do auditório. Mesmo que Moulton fosse um estranho (um estranho lindo, era verdade), ela bom tê-lo a seu lado enquanto eles caminhavam até o local do almoço, em outro ponto do prédio. Ela estava com medo de ter que encarar o futuro incerto completamente sozinha, e a companhia dele poderia fazê-la repensar nisso.

- Mas enfim, as pessoas ligam muito para os planos. – Moulton disse.

- Eu não acho. Planos significam estrutura. Significam previsibilidade.

- Eu não acho que previsibilidade está na descrição de trabalho nos nossos cargos – Moulton brincou.

Chloe sorriu e assentiu, mas nunca havia pensado daquela forma. Na verdade, aquilo a assustava um pouco. O que não fazia nenhum sentido. Sua vida nunca fora nada previsível, então por que sua carreira seria diferente?

Felizmente, ela havia aprendido a lidar com os golpes da vida. E se pessoas como Nikki Rhodes quisessem atrapalhá-la, sua nova parceira teria duas opções: adaptar-se a seu jeito ou sair de seu caminho.




CAPÍTULO TRÊS


Na manhã seguinte, Chloe percebeu de forma rude como sua carreira seria estruturada dali para frente. Seu telefone tocou às 5:45, por conta de uma ligação de um dos diretores assistentes do Diretor Johnson. Ela mal conseguiu dizer um simples “Alô” antes que o homem começasse a falar.

- Aqui é o Diretor Assistente Garcia. Agente Chloe falando?

- Sim. – Ela levantou-se na cama, com seu coração batendo forte e a adrenalina subindo, mandando embora o resto de sono.

- Você precisa encontrar a Agente Rhodes em Bethesda às sete. Vocês vão trabalhar juntas no que acreditamos ser um caso aberto de violência de gangues, provavelmente do MS-13. Qualquer pergunta deve ser feita diretamente a mim, nesse número. A Agente Rhodes vai receber as mesmas informações. Após essa chamada, o endereço será enviado ao seu telefone. Você tem alguma pergunta, Agente Fine?

- Não, senhor.

- Bom. Cuide-se e fique atenta por lá, Agente Fine.

E foi isso. Assim Chloe recebeu sua primeira missão. Ela sabia que não seria sempre assim no futuro. Eles já haviam recebido muitas orientações no dia anterior. Ainda assim, aquela era uma maneira muito efetiva de começar seu primeiro dia no trabalho.

Ela já havia separado suas roupas e tomado banho na noite anterior, fazendo o possível para não se atrasar para seja lá o que fosse fazer em seu primeiro dia. Vestiu-se, pegou um pão com queijo e uma garrafa de café, que havia programado para ser preparada às 5 da manhã. Enquanto fazia isso, a mensagem do Diretor Garcia chegou, informando o endereço em Bethesda. Quando Chloe entrou no carro, apenas quinze minutos haviam se passado desde a ligação.

Chloe já havia estado em Bethesda, Maryland, muitas vezes, e por isso sabia que o caminho era curto—levaria um pouco menos de meia hora, especialmente saindo tão cedo e fugindo o trânsito da manhã. Quando saiu das ruas centrais da capital e chegou a estradas mais largas, colocou o endereço no GPS e viu que estava a apenas vinte minutos de lá.

Deu-se conta de que queria ligar para Danielle. Sentiu-se dirigindo em direção a mais um dos momentos importantes e memoráveis de sua vida, e precisava compartilhar aquilo com alguém. Mas ela sabia que Danielle ainda estaria dormindo e que provavelmente sua irmã não entenderia toda sua animação. E Chloe não via problemas nisso. Elas tinham interesses e paixões diferentes, e nenhuma das duas era muito boa em fingir entusiasmo.

Chloe chegou ao endereço dois minutos antes do que o GPS havia previsto. Era uma construção de apenas um andar, do tipo que geralmente era visitada pela polícia com frequência no final de semana por denúncias de violência, drogas, abuso sexual e tudo o que se poderia imaginar.

Chloe esperava muito ter chegado antes Rhodes, mas decepcionou-se um pouco ao ver que a outra agente não só já estava lá, como já estava subindo os degraus em direção à cena do crime.

Irritada, Chloe estacionou na rua se apressou pela calçada. Chegou aos degraus quando Rhodes abriu a porta para entrar.

- Bom dia – Rhodes disse, claramente sem querer de fato desejar bom dia.

- Bom dia. Você... veio voando?

Rhodes apenas encolheu os ombros.

- Eu não levo muito tempo para me arrumar de manhã. Tudo bem, Agente Fine. Isso não é uma corrida.

Ao entrarem, elas viram um homem em pé no centro de uma pequena sala. Ele virou-se para elas e seus olhos pareceram se fixar na Agente Rhodes por um momento. Ela estava vestindo uma calça preta bem simples e um top branco conservador. Seu cabelo fora alisado, e ainda que ela tivesse dito que levava pouco tempo para se arrumar, era óbvio que ela havia se maquiado naquela manhã.

- Vocês são do FBI? – O homem perguntou.

- Sim – Chloe disse rapidamente, como se quisesse se certificar de que o homem sabia que haviam duas agentes ali, e não só a loira bonita.

- Agentes Rhodes e Fine – Rhodes disse. – E você é?

- Detetive Ralph Palace, Departamento de Homicídios de Maryland. Estou só fazendo algumas últimas anotações, já que pelo que sei o caso agora é de vocês.

- O que você pode nos dizer para nos ajudar a começar? – Chloe perguntou.

- É muito simples. Um assassinato com relação com gangues. MS-13 é uma gangue grande por aqui, e é com isso que estamos lidando. Os corpos de um marido, mulher e de um filho de 13 anos foram levados ontem à tarde, cerca de sete horas depois da ligação para a polícia. Temos relatos de tiros, e o lugar acabou assim. – Ele apontou com os braços em volta, indicando a bagunça no apartamento. – Uma rápida pesquisa da polícia revelou que o pai já teve laços com uma gangue rival, os Binzos.

- Se o MS-13 está envolvido, porque a agência de imigração ainda não está nessa? – Chloe perguntou.

- Porque ainda não temos provas – Palace disse. – Quando se trata de crimes de gangues com relação com imigrantes, temos que ter muita certeza. Do contrário, podemos esperar processos de tratamento injusto com grupos étnicos. – Ele balançou a cabeça e suspirou. – Então, se vocês conseguirem encontrar provas aqui de um jeito ou de outro, será ótimo.

Ele seguiu para a porta da frente, pegando um cartão de visitas da carteira. Não foi nenhuma surpresa ele ter entregue o cartão diretamente a Rhodes.

- Me ligue se você precisar de algo mais.

Rhodes nem se preocupou em responder ao guardar o cartão. Chloe imaginou que ela fosse o tipo de garota que já estava acostumada a ter caras olhando sempre para ela, desde o colégio ou a faculdade. Essa cena com o Detetive Palace havia sido, com certeza, apenas mais um desses momentos cansativos.

Chloe olhou em volta do lugar por um momento. A mesa de café na frente do sofá estava virada. Algo—um refrigerante escuro ao que parecia—havia sido derramado da mesa durante a briga. O líquido escuro estava misturado com o que claramente era sangue seco no tapete branco que cobria a sala inteira, até a cozinha anexa. Havia mais sangue espalhado pelas paredes. Havia também algumas manchas no chão de linóleo da cozinha.

- Como você quer dividir isso aqui? – Rhodes perguntou.

- Não sei. Se houve tiros, tem uma boa chance de alguma bala ter acertado a parede ou o chão. E pelo bagunça que temos aqui, não foi um simples tiro. Teve briga. E isso me diz que provavelmente vamos encontrar digitais em algum lugar também.

Rhodes assentiu.

- Também precisamos descobrir como o assassino entrou. Você olhou a porta da frente? Não tem sinais de entrada forçada. Isso significa que um dos membros da família deixou o cara entrar—talvez fosse alguém que eles conheciam bem e confiavam.

Chloe concordou com tudo e encontrou-se impressionada com Rhodes pelo fato dela já ter analisado a porta da frente antes mesmo de ter entrado na casa.

- Por que você não olha lá fora e procura sinais de entrada forçada? – Rhodes sugeriu. – Vou ver se há algum sinal de qualquer tipo de arma que tenha sido usada aqui... procurar algum fragmento de bala ou algo assim.

Chloe assentiu concordando, mas já estava sentindo que Rhodes estava fazendo o possível para se colocar como líder da investigação. No entanto, levou aquilo na boa. Baseado no que Palace havia lhes dito—e no fato do caso ter sido entregue a duas novas agentes com a supervisão de um diretor assistente—ela sabia que aquela era considerada uma tarefa pequena em um esquema bem maior. Então, se Rhodes já queria mostrar certa força, isso não era algo com o que se preocupar. Pelo menos não por enquanto.

Chloe saiu do apartamento, imaginando cenários em sua mente. Se o assassino fosse alguém que a família conhecia, por que a luta? Se o assassino havia usado uma arma, três tiros um atrás do outro não teriam dado muito tempo para qualquer tipo de reação ou luta. Mas a porta de fato não tinha sinais de ter sido aberta a força. Então, realmente, encontrar algum sinal de entrada forçada era mais provável do que imaginar que o assassino havia entrado livremente. Mas se não fora pela porta da frente, então por onde?

Ela caminhou vagarosamente em volta do prédio, percebendo que chamar aquilo de prédio era um exagero. A cada passo, percebia mais e mais que se tratava de uma casa urbana, talvez oferecida por algum plano do governo. A casa estava na ponta de um grupo de quatro construções idênticas, separadas por uma listra de grama morta entre cada uma.

O lado esquerdo não tinha nada. Havia apenas um pequeno tanque da gás e uma torneira com uma mangueira de água inutilmente enrolada no chão. Mas quando chegou aos fundos, ela viu várias oportunidades. Primeiro, havia três janelas. Uma dava para a cozinha, e as outras duas para os quartos. Havia também degraus de concreto que levavam à porta dos fundos. Chloe checou essa porta e encontrou-a destrancada. Ela levava a uma área muito pequena, que parecia servir como um lugar para deixar os sapatos e casacos. Alguns poucos pares de sapatos sujos estavam no chão e um casaco sujo e velho estava pendurado em um gancho na parede. Ela checou a porta e a maçaneta e, pelo que pode ver, não havia nenhum sinal de entrada forçada em um passado recente.

Então ela foi até cada janela, procurando por algo suspeito, e não se decepcionou. Na terceira janela, que dava ao que parecia ser o quarto principal, havia dois pedaços removidos do quadro. Eles haviam sido removidos com força, e pareciam estar lascados. Um estava na parte de baixo, onde estava o quadro, encostado. O outro ficava na parte de cima do quadro. O mesmo objeto usado para quebrar o quadro havia danificado também o vidro, ainda que não com força o suficiente para quebrá-lo.

Chloe não queria tocar em nada, com medo de danificar qualquer digital que pudesse ter sido deixada ali. Mas, na ponta dos pés, pode ver um pedaço particular de madeira, que teria permitido que alguém do lado de fora empurrasse a trava da janela.

Ela voltou para dentro da casa pela porta dos fundos e foi até o quarto principal. Não havia nenhum sinal claro de que alguém entrara pela janela. Mas ela sabia que uma varredura completa poderia contar uma história diferente.

- O que você está fazendo?

Chloe virou-se e viu Rhodes parada na porta do quarto. Ela tinha uma expressão cética no rosto, como se estivesse estudando Chloe.

- Alguém mexeu nessa janela pelo lado de fora – Chloe disse. – Precisamos encontrar digitais.

- Você tem luvas de evidências? – Rhodes perguntou.

- Não – Chloe disse. Ela achou aquilo irônico. Se tivesse começado o dia como membro da Equipe de Evidências, como planejara, ela teria as luvas consigo. Mas depois de Johnson ter mudado seu departamento, ela não havia pensado em trazer equipamentos básicos de evidência para o caso.

- Eu tenho no meu carro – Rhodes respondeu. Ela então jogou um molho de chaves para Chloe com um olhar irritado. – No porta-luvas. E por favor tranque quando sair.

Chloe murmurou um “obrigada” ao passar por Rhodes e deixar o quarto. Ela tentou imaginar porque Rhodes tinha luvas de evidências em seu carro. Pelo que Chloe sabia, cada agente ganharia seus próprios equipamentos e materiais do FBI em cada caso. Rhodes havia utilizado os fornecedores corretos? A entrada tardia no PaCV já estaria começando a lhe trazer problemas?

Chloe saiu e encontrou uma caixa de luvas de látex no porta-luvas de Rhodes. Havia também um kit de evidências, que ela também pegou. Era um pequeno kit de emergência, mas melhor do que nada. E ao mesmo tempo em que aquilo mostrava que Rhodes era preparada, também mostrava que ela não estava muito afim de ajudar Chloe. Por que manter em segredo que ela tinha luvas e um kit de evidências no carro?

Determinada a não se irritar com detalhes assim, Chloe colocou as luvas ao voltar para a casa. Ao passar novamente por Rhodes, entregou a ela o kit de evidências.

- Achei que isso pudesse nos ajudar também.

Chloe então seguiu para a janela dos fundos. Ela checou a área que fora mexida e descobriu que seu palpite estava certo. Alguém do lado de fora fizera força suficiente para abrir a janela.

- Agente Fine? – Rhodes disse.

- Sim?

- Eu sei que nós não nos conhecemos, então vou dizer isso do jeito mais educado possível: você pode por favor cuidar com o que você está fazendo?

Chloe virou-se para Rhodes e a olhou com olhos desafiadores.

- Desculpe?

- Olhe o tapete debaixo dos seu pés, pelo amor de Deus!

Chloe olhou para baixo e seu coração disparou. Havia uma pegada ali, algo parcial, mas claramente tratava-se da parte superior de uma pegada. Era feita do que parecia ser poeira e lama.

E ela havia pisado em cima.

Merda...

Ela recuou rapidamente. Rhodes veio até a janela, ajoelhando-se para analisar a pegada.

- Tomara que você não tenha tornado isso aqui inútil – Rhodes disse.

Chloe segurou a resposta que veio à ponta de sua língua. Afinal de contas, Rhodes estava certa. Ela havia deixado passar algo muito óbvio como um pegada. É porque eu estou me cobrando demais, ela pensou. Talvez o fato de Johnson ter me trocado de departamento está me afetando mais do que eu imaginei.

Mas ela sabia que aquela era uma desculpa idiota. Afinal de contas, até aquele momento, a cena do crime não havia sido nada mais do que coleta de evidências—que era o que ela queria fazer desde o começo.

Sentindo-se envergonhada e com raiva, Chloe saiu do quarto para respirar e refletir.

- Senhor – Rhodes disse ao olhar a pegada. – Fine... Por que você não tenta encontrar mais uma dessa que possamos utilizar? Tem buracos feitos por balas na cozinha que eu não consegui ver enquanto você estava lá fora. Vou resolver isso aqui... se for possível ainda.

Novamente, Chloe segurou seus comentários. Ela estava errada, e isso significava ter que aguentar o comportamento de Rhodes. Então, ficou quieta e voltou para a área central do apartamento, esperando encontrar algo que a fizesse se redimir.

Chloe foi até a cozinha e viu os buracos de balas que Rhodes havia mencionado. Ela viu as carcaças em cada buraco, com vários centímetros de profundidade. Tinha certeza que seria possível descobrir que tipo de arma havia sido usada baseando-se somente naquilo. Até onde Chloe sabia, os buracos de balas eram uma excelente pista, que lhes daria informações suficientes para seguir com o caso.

Mas talvez haja algo a mais, ela pensou.

Ela caminhou novamente até a entrada e parou na junção com a sala. Se o assassino de fato tivesse entrado pela janela do quarto principal, ali provavelmente seria onde os tiros haviam começado. A falta de sangue ou sinais de caos no quarto indicavam que nada violento havia acontecido lá.

Chloe olhou o sofá e viu um pouco de sangue no chão em frente a ele. Provavelmente o primeiro tiro, pensou. Ela observou o lugar e pode ver tudo em sua mente. O primeiro tiro havia matado alguém no sofá. Isso havia feito outra pessoa no sofá pular rapidamente, talvez derrubando a mesa de café. Talvez ela tentou reagir. Independentemente, o sangue e o refrigerante do outro lado da mesa de café virada indicavam que a pessoa não havia conseguido fugir.

Ainda assim, aquilo a fez pensar. Ela caminhou devagar até a sala, seguindo o caminho que imaginava que as balas tinha feito. A quantidade de sangue seco atrás do sofá a deu evidências suficientes de que a pessoa sentada ali havia morrido imediatamente. Ela não conseguiu encontrar buracos no sofá, o que significava que a bala deveria ter ficado alojada na cabeça da vítima.

Chloe viu facilmente dois buracos de balas na parede da cozinha, a cerca de 10 centímetros uma da outra. Ela pode vê-los do sofá. Mas se havia duas marcas de tiros ali, talvez houvesse mais em outro lugar. E se houvesse, ela poderia criar uma cadeia de eventos mais precisa.

Ela foi até a mesa de café e se abaixou. Se alguém houvesse batido ali antes de ser acertado por um tiro, o assassino teria que ter mirado para baixo. Ela procurou algum outro sinal de tiro e não viu nada. O assassino havia, aparentemente, acertado seu alvo.

No entanto, Chloe viu algo que não estava esperando. Havia uma pequena mesa encostada na parede à sua direita. Havia um vaso decorativo e uma foto emoldurada nela. Entre as pernas da mesa, havia uma cesta de vime velha, com correios e livros velhos. Entre a cesta e as pernas de trás havia um celular.

Ela pegou o celular e viu que era um iPhone. Apertou o botão para ligar e a tela se acendeu. A tela bloqueada mostrava uma foto do Pantera Negra. Ela apertou o botão principal, esperando que a tela da senha aparecesse. No entanto, para surpresa de Chloe, o celular abriu sem mais problemas.

Deve ser o celular do filho, ela pensou. E talvez os pais deixaram sem senha para ter acesso a ele sempre.

Ela levou alguns momentos para entender o que estava vendo. Viu o rosto de um jovem garoto, com algumas características de zumbi desenhadas nele. Olhou as bordas da tela e viu a indicação do aplicativo Snapchat. O que ela estava vendo era um vídeo (ou um “snap”) que não fora enviado.

- Puta merda – murmurou.

Então, percebeu como o telefone estava quente. Procurou o indicador de bateria no canto direito superior e viu que estava no vermelho.

Correu para a entrada, segurando o telefone.

- Rhodes, você encontrou algum carregador de telefone por aí? – Ela gritou.

Houve uma pausa antes da resposta de Rhodes.

- Sim, no criado mudo.

Mesmo antes de responder, Chloe já estava entrando no quarto novamente. Ela viu o carregador do qual Rhodes havia falado e foi até ele no mesmo momento.

- O que é isso? – Rhodes perguntou.

Chloe não pode deixar de pensar: Você não vai querer saber, vai, vadia? Mas ela manteve-se quieta ao conectar o celular no carregador.

- Acho que o filho estava no Snapchat quando o assassino entrou. E acho que ele estava mandando um snap para um amigo. Mas ele não conseguiu enviar a tempo.

Ela apertou o play no vídeo que estava na tela quando encontrara o telefone. Era um jovem, talvez de doze ou treze anos. Ele estava mostrando a língua, e seu rosto tinha uma animação de zumbi. Em dois segundos, ouviu-se o primeiro tiro. O telefone foi jogado e pode-se ouvir mais um tiro. O garoto pareceu cair no chão, assim como o telefone, e então a tela ficou preta—aparentemente parando embaixo da pequena mesa.

Aí o vídeo terminava. Tudo durava cerca de cinco segundos.

- Dê o play de novo – Rhodes disse.

Chloe colocou o vídeo novamente, dessa vez prestando mais atenção. Em cerca de um quarto de segundo, havia a forma de uma figura parada na entrada, vindo para a sala. Era rápido, mas havia. E por conta de o telefone ser de um modelo novo, mesmo em movimentos frenéticos, a imagem era muito clara. Chloe não conseguiu imaginar um rosto a olho nu, mas tinha certeza de que o FBI não teria problemas em fazer uma análise frame a frame daquela filmagem.

- Isso aqui é importante demais – Rhodes disse. – Onde você encontrou o telefone?

- Debaixo da mesa encostada na parede da sala.

Chloe podia ver que Rhodes estava animada com a descoberta, mas não queria dar muito crédito a ela. Ela apenas assentiu em aprovação e voltou a trabalhar, procurando digitais na janela.

As duas sentiram que, graças ao vídeo no Snapchat, seu trabalho estava prestes a terminar ali. Elas tinham a evidência perfeita e tudo o que fizessem depois seria mera metodologia ou rotina.

Chloe imaginou que poderia colaborar e não causar nenhuma outra tensão entre as duas. Ela pegou o telefone e voltou à sala. Caminhou pela cozinha e viu as marcas das balas na parede. Mas ela sabia que a chave para o caso estava no telefone que estava carregando, esperando para fazer o assassino daquela família pagar pelo que fez. E, em sua mente, ela não pode deixar de pensar que aquilo fora fácil demais. Ela tinha certeza que Rhodes pensava a mesma coisa e aquilo, de alguma forma, diminuiu sua animação.




CAPÍTULO QUATRO


Elas voltaram à sede do FBI duas horas depois, e Chloe sentia que já havia evidências mais do que suficientes para que houvesse um suspeito sob custódia até o fim do dia. O vídeo do Snapchat era o que de mais poderoso elas haviam encontrado, mas elas também acabaram encontrando duas digitais, a pegada no tapete do quarto e dois fios de cabelo grudados na janela do quarto.

Elas apresentaram suas descobertas ao Diretor Assistente Garcia, em uma pequena mesa de reuniões nos fundos do escritório dele. Quando Chloe mostrou a ele o que havia encontrado no telefone, viu que ele tentou esconder um pequeno sorriso de satisfação. Ele também parecia feliz em ver quão profissionalmente e dentro das normas Rhodes havia empacotado e catalogado cada uma das evidências encontradas.

Talvez ela também devesse mudar de departamento, Chloe pensou com um pouco de maldade.

- Trabalho incrível - Garcia disse, levantando-se da mesa e as cumprimentando como se fossem estudantes sendo premiadas. – Vocês trabalharam rápido, minuciosamente, e não vejo como não ser possível conseguirmos uma prisão concreta com isso tudo.

As duas agentes agradeceram. Chloe sentiu-se um pouco melhor ao ver que Rhodes não sabia como lidar com elogios, tanto quanto ela.

- Agora, Agente Fine, recebi uma ligação do Diretor Johnson antes de vocês entrarem. Ele quer encontrar com você em cerca de quinze minutos. Agente Rhodes, por que você não vai ao laboratório e vê o que acontece com todas as evidências que vocês trouxeram?

Rhodes assentiu, ainda como se fosse uma boa aluna. Enquanto isso, Chloe sentiu-se em pânico novamente. Quando ela visitara Johnson, no dia anterior, ele havia lhe dado uma notícia que mudara tudo. O que ele teria planejado agora?

Guardando suas perguntas para si, ela caminhou em direção ao escritório dele. Quando entrou na pequena área de recepção, viu que a porta estava fechada. A secretária do diretor apontou para uma das cadeiras encostadas na parede enquanto falava com alguém ao telefone. Chloe sentou-se e finalmente tirou um momento para refletir sobre o que aquele dia significava para ela e para sua carreira.

De um lado, ela havia descoberto uma evidência importante que provavelmente levaria à prisão de um membro de uma gangue que havia matado uma família inteira. Mas ao mesmo tempo, ela havia cometido um erro de principiante ao provavelmente ter estragado o que seria uma pegada. Imaginou que, no longo prazo, a pegada não interessaria, graças à prova do Snapchat. Ainda assim, estava muito envergonhada por ter tido a atenção chamada por Rhodes daquela maneira. Imaginou que, na melhor das hipóteses, as duas coisas ficariam “quites”: sua descoberta incrível balanceando com seu erro terrível.

Quando a porta do escritório de Johnson abriu, seus pensamentos foram interrompidos. Ela olhou para a porta e viu Johnson colocar a cabeça para fora. Ele a viu e sequer disse algo. Apenas a chamou para seu escritório. Era impossível saber se aquela era uma demonstração simples de pressa ou de raiva.

Chloe entrou no escritório e, quando o diretor fechou a porta, apontou para a cadeira no outro lado de sua mesa—um lugar que estava se tornando cada vez mais familiar para Chloe. Quando ele sentou, Chloe finalmente pode ler sua expressão. Ela tinha certeza de que ele estava irritado com algo.

- Você deve saber – ele disse, - que eu acabei de falar com a Agente Rhodes no telefone. Ela me contou que você basicamente destruiu uma pegada na cena do crime.

- É verdade.

Ele assentiu, desapontado.

- Estou decepcionado, porque por um lado, ela é tão nova quanto você. E o fato de ela ter me ligado basicamente para falar mal de você me deixa puto. Mas ao mesmo tempo, estou feliz por ela ter me contado. Porque mesmo esse sendo seu primeiro dia, é importante fica atento a esse tipo de coisas. Você sabe, é claro, que eu não chamo todos os agentes que cometem um erro no meu escritório para falar com eles sobre isso. Mas com você, achei que eu deveria te chamar, já que eu mudei seus planos no último minuto. Você acha que isso te tirou do lugar certo?

- Não. Eu simplesmente não vi. Eu estava muito focada em analisar a janela e não vi a pegada.

- É compreensível, mas um pouco tosco. Mas o Diretor Assistente Garcia me disse que você encontrou uma evidência que deve nos levar a uma prisão—um celular com uma aba do Snapchat aberta. Correto?

- Sim senhor. – E por razões que não entendia, Chloe queria completar: mas qualquer um poderia ter encontrado, sinceramente. Foi meio que sorte.

- Eu me considero um cara que perdoa muito – ele disse. – Mas saiba que mais erros como esse da pegada podem resultar em consequências sérias. Por enquanto, no entanto, quero você e a Agente Rhodes em outro caso. Você tem algum problema em trabalhar com ela?

A palavra sim veio até a ponta da língua, mas Chloe não queria parecer mesquinha.

- Não, eu posso lidar com isso.

- Eu olhei os relatórios dela. Os instrutores dela dizem que ela é muito esperta, mas tem uma tendência a tentar as coisas sozinha. Então, meu conselho é que você não deixe que ela tome o controle total do caso.

Sim, eu já percebi isso, Chloe pensou.

- E sendo honesto, eu já a avisei sobre isso - ele prosseguiu. – Eu também disse a ela que não gosto quando novos agentes tentam ferrar com outros. Então, espero que ela seja mais esperta no próximo caso. Eu e o Diretor Garcia vamos supervisionar isso daqui para frente, só para ter certeza de que tudo está nos conformes.

- Tudo bem, eu agradeço.

- Fora a pegada destruída, você fez um excelente trabalho hoje. Eu gostaria que você passasse o restante do dia escrevendo um relatório da cena do crime e de sua relação com a Agente Rhodes.

- Sim, senhor. Algo mais?

- Por enquanto é isso. Só... como eu disse... se você começar a sentir que essa mudança de última hora está atrapalhando seu trabalho, me diga.

Chloe assentiu e se levantou. Ao sair do escritório, sentiu como se tivesse desviado de uma bala—como uma criança quando é chamada na sala do diretor, mas é liberada apenas com um pequeno tapa no punho. Ainda assim, o fato de Johnson ter elogiado a maior parte de seu trabalho no dia a deixou mais à vontade.

Ela voltou à sua pequena estação de trabalho—um cubículo, mais especificamente—com sua mente disparada. Imaginou se já haveria existido algum novo agente que fora chamado duas vezes no escritório do Diretor em menos de quarenta e oito horas. Sentiu-se importante e, ao mesmo tempo, que estava sendo minuciosamente examinada a todo momento.

Enquanto esperava pelo elevador, viu outro agente vindo. Chloe quase não reconheceu seu rosto, do pequeno grupo de agentes que fora incluído no programa PaCV no dia anterior.

- Você é a Agente Fine, certo? – Ele disse, sorrindo.

- Sou – ela respondeu, sem saber para onde aquela conversa iria.

- Sou Michael Riggins. Soube sobre o caso que você e Rhodes receberam. Assassino de uma família relacionado a gangues. Rumores dizem que já tem uma prisão a caminho. Isso deve ser meio que um recorde, certo?

- Não faço ideia – ela disse, ainda que sentisse que tudo havia acontecido muito rápido.

- Ei, sabe, nem todos os agentes vão para campo já no primeiro dia atualmente – Riggins disse. – Alguns são mandados para pesquisas ou para mexer com a papelada. Estão falando que alguns de nós vão se reunir para tomar uma hoje. Você deveria vir. O lugar fica a duas quadras daqui, se chama Reed’s Bar. Poderíamos usar uma bela história de sucesso para renovar nossos espíritos. Mas acho melhor não convidar a Rhodes. Todo mundo... quer dizer, ninguém parece ligar muito para ela.

Chloe sabia que não deveria, mas não conseguiu deixar de sorrir ao ouvir aquele comentário.

- Pode ser que eu vá – ela disse. Foi a melhor resposta que ela poderia dar... muito melhor do que explicar que ela era introvertida e não era do tipo que ia a um bar com pessoas que não conhecia.

O elevador chegou e suas portas se abriram. Chloe entrou e Riggins acenou com um tchau. Era bizarro ver alguém invejando sua situação, especialmente depois da conversa com Johnson. Aquela sensação, de certa maneira, a fez querer ir ao bar, mesmo se fosse para tomar apenas um drink e ficar lá por meia hora. A outra alternativa era voltar para seu apartamento e continuar tirando as coisas das caixas. E aquilo era algo que, definitivamente, não a animava.

O elevador a levou para cima, até o terceiro andar, onde seu espaço ficava, ao lado de lugares idênticos de outros agentes. Ao caminhar pelo andar, passou por Rhodes na entrada. Pensou em dizer “olá” ou em agradecer ironicamente pela reunião com Johnson. Mas no fim, decidiu passar por cima disso. Era melhor não cair nos joguinhos de Rhodes.

Ainda assim, apenas passar por aquela mulher e trocar olhares sórdidos foi o suficiente para que Chloe tomasse uma decisão: sim, ela iria ao bar naquela noite. E a não ser que seu dia mudasse completamente, ela provavelmente tomaria mais do que apenas um drink.

Parece que isso está acontecendo tarde demais, ela disse a si mesma.

Aquele pensamento a perseguiu pelo restante do dia, mas assim como aconteceu com os recorrentes pensamentos sobre seu pai, ela conseguiu enviá-lo para os cantos mais profundos e escuros de sua mente.




CAPÍTULO CINCO


Quando chegou ao bar, às 6:45, Chloe percebeu que o local era quase como ela imaginara. Ela viu vários rostos familiares, mas nenhum que conhecia bem. Isso porque, de fato, ela não conhecia ninguém. Outra desvantagem de Johnson tê-la trocado de departamento na última hora era que pouquíssimas pessoas do PaCV haviam feito os mesmos cursos ou treinamentos que ela.

Os dois rostos que Chloe reconheceu eram de homens. Primeiro, Riggins. Ele estava sentado com outro agente, conversando animadamente sobre algo. E havia também Kyle Moulton, o agente boa pinta que havia se oferecido para almoçar com ela no primeiro estágio da orientação—o homem que havia perguntado sobre suas tendências violentas. Chloe ficou um pouco desanimada ao ver que ele estava conversando com outras duas mulheres. Mas não surpresa. Moulton era muito bonito. Ele parecia um pouco com Brad Pitt no passado.

Ela decidiu não interrompê-lo e foi sentar com Riggins. Por mais pretencioso que pudesse ser, Chloe gostava da ideia de sair com alguém que havia encarado seu trabalho daquele dia como algo a ser admirado.

- Tem alguém nesse banco? – Ela perguntou ao tomar um lugar ao lado dele.

- Não – Riggins disse. Ele parecia feliz de verdade em vê-la, e suas bochechas um pouco gordas sorriram. – Fico feliz por você ter vindo. Posso te pagar uma bebida?

- Claro. Pode ser uma cerveja, por enquanto.

Riggins chamou o bartender e pediu que ele trouxesse a primeira cerveja de Chloe. Riggins estava tomando Rum com Coca, e aproveitou para pedir a segunda dose.

- Como foi seu primeiro dia? – Chloe perguntou.

- Foi legal. Passei a maior parte do tempo pesquisando sobre um caso envolvendo um corredor interestadual de drogas. Parece chato, mas eu gostei muito na verdade. E você, como foi passar um dia inteiro com Rhodes a seu lado? – Riggins perguntou. – Claro, resolver o caso deve ter sido ótimo, mas ela tem fama de ser difícil se lidar.

- Foi tenso. Ela é uma ótima agente, mas...

- Diga – Riggins disse. – Eu não posso dizer que ela é uma vadia porque eu não gosto de chamar uma mulher de vadia na frente de outra mulher.

- Ela não é uma vadia – Chloe disse. – Ela só é muito direta e meticulosa.

A conversa se estendeu por mais alguns minutos e foi muito casual. Chloe olhou discretamente algumas vezes para o Agente Moulton. Uma das mulheres havia saído, deixando-o falando com apenas mais uma. Ele se inclinava para perto dela e sorria. Chloe tendia a ser um pouco ingênua quando se tratava de relacionamentos, mas ela estava certa de que Moulton estava afim daquela mulher.

Aquilo a decepcionou de uma maneira que ela não esperava. Fazia apenas dois meses desde que ela e Steven haviam terminado. Ela imaginou que estava interessada em Moulton apenas porque ele fora o primeiro a se importar em conversar com ela depois da mudança imposta por Johnson. Além disso, a ideia de voltar para seu novo apartamento completamente sozinha não era nada interessante. O fato dele ser muito bonito também contava.

É, foi um erro sair. Posso beber gastando muito menos em casa.

- Você está bem? – Riggins perguntou.

- Sim, eu acho. Só que foi um longo dia. E amanhã tem tudo para ser também.

- Você vai voltar a pé ou dirigindo?

- Dirigindo.

- Humm... Melhor não te oferecer outro drink então, né?

Chloe sorriu e respondeu:

- Muito responsável da sua parte.

Ela olhou novamente para Moulton e para a mulher com quem ele estava conversando. Os dois estavam se levantando. Quando saíram em direção à porta, Moulton colocou gentilmente sua mão na cintura da mulher.

- Posso perguntar como você entrou num caminho que te levou a uma carreira dessas? – Riggins perguntou.

Chloe sorriu de um jeito nervoso e terminou sua cerveja.

- Problemas na família – ela respondeu. – Obrigada por me convidar, Riggins. Mas preciso ir para casa.

Ele assentiu, como se entendesse. Chloe percebeu que ele olhou em volta e viu que seria a única pessoa restante no bar. Aquilo a faz pensar que talvez Riggins também tivesse seus próprios fantasmas para lutar contra.

- Cuide-se, agente Fine. Que amanhã seja tão bom quanto hoje.

Chloe saiu, já fazendo planos para o seu fim de noite. Ela ainda tinha algumas caixas para esvaziar, uma cama para montar, e uma muda de roupas e coisas da cozinha para organizar.

Não é a vida mais animadora que eu poderia imaginar, ela pensou, com ironia.

Ao ir em direção a seu carro, ainda estacionado no terreno da sede do FBI, seu telefone tocou. Quando viu o nome na tela, a raiva tomou conta de seu corpo, e Chloe quase ignorou totalmente a chamada.

Steven. Ela não tinha ideia do porquê ele estaria ligando. E exatamente por isso resolveu atender. Ela sabia que, se não atendesse, a dúvida a deixaria louca.

Ela atendeu a chamada, sem transparecer o quão nervosa estava se sentindo.

- Oi, Steven.

- Chloe. Ei!

Ela esperou, querendo que ele dissesse logo o que quer que fosse. Mas Steven nunca fora muito de ir direto ao ponto.

- Está tudo bem? – Ela perguntou.

- Sim, está sim. Desculpe... Eu nem pensei no que você poderia achar de eu te ligar...

Ele parou por aí, lembrando Chloe de um dos pequenos defeitos que ele nunca percebera que tinha.

- Do que você precisa, Steven?

- Eu quero te encontrar para conversar – ele disse. – Apenas algo para nos reconectarmos, sabermos um do outro, sabe?

- Acho que não. Não seria a melhor ideia.

- Não tenho segundas intenções – ele disse. – Prometo. Eu só... só acho que preciso pedir desculpas por algumas coisas. E eu preciso... bom, nós precisamos encerrar as coisas, sabe?

- Fale por você. Está tudo muito bem encerrado por mim. Não preciso de nada.

- Tudo bem. Então considere isso como um favor. Só preciso de meia hora. Tem alguns pesos que quero tirar das costas. E sendo sincero... só queria ver você mais uma vez.

- Steven... eu ando ocupada. Minha vida está uma loucura e...

Chloe parou, sem saber o que dizer a seguir. E, na verdade, ela não tinha um calendário tão cheio que a impedisse de vê-lo. Ela sabia que, para Steven, fazer aquela ligação era algo enorme. Ele estava tendo que ser humilde, o que não era algo que ele fazia muito bem.

- Chloe...

- Tudo bem. Meia hora. Mas eu não vou até você. Se você quiser me ver, vai ter que vir até Washington. As coisas estão uma loucura por aqui e eu não posso—

- Eu vou. Quando é um bom horário para você?

- Sábado. No almoço. Vou te mandar uma mensagem com o local.

- Parece ótimo. Obrigado mesmo, Chloe.

- Por nada. – Ela sentiu que precisava dizer algo mais, algo para aliviar a tensão. Mas, no fim, disse apenas: - Tchau, Steven.

Chloe encerrou a ligação e guardou o celular no bolso. Ela não pode deixar de pensar que havia aceitado o encontro apenas por estar se sentindo solitária. Pensou no Agente Moulton e imaginou onde ele e sua amiga estariam agora. Mais do que isso, pensou em porque estava pensando tanto naquilo.

Ela chegou ao carro e foi para casa, com as ruas da capital sendo tomadas pela escuridão da noite. Washington era uma cidade singular. Mesmo com o trânsito e a estranha mistura entre história e comércio, o lugar era lindo. Esse pensamento a levou a outro, mais melancólico, no caminho para o apartamento—um apartamento novo, vazio, em um lugar que ela achava ter sorte de ter encontrado, mas que agora parecia uma ilha isolada que ela precisava chamar de casa.



***

Quando seu telefone a acordou na manhã seguinte, Chloe teve seu sonho interrompido. Ela tentou lembrar e não deixá-lo ir embora, mas parou, decidindo que não valeria apena. Seus últimos sonhos vinham sendo todos sobre seu pai, sozinho na prisão.

Ela podia inclusive ouvir a voz dele cantarolando alguma música antiga de Johnny Cash, que ele sempre cantava no apartamento quando ela era criança. A Boy Named Sue, Chloe pensou. Ou talvez não. Todas as músicas pareciam ser a mesma.

Ainda assim, “A Boy Named Sue” estava em sua cabeça quando ela pegou o celular. Tirou-o do carregador e viu que o relógio marcava 6:05—vinte e cinco minutos antes do horário programado para o alarme.

- Agente Fine – ela atendeu.

- Agente Fine, aqui é o Diretor Assistente Garcia. Preciso de você no meu escritório agora. O quanto antes. Temos um caso e preciso de você e da Agente Rhodes aqui o mais rápido possível.

- Sim, senhor – ela disse, sentando-se. – Estarei aí já, já.

Nesse momento, ela não se importou em ter que passar mais um dia com Rhodes. Tudo o que ela sabia, até agora, é que já havia solucionado um caso, e que estava ansiosa para resolver o segundo.




CAPÍTULO SEIS


Chloe chegou ao escritório do Diretor Assistente Garcia três minutos depois. Ele estava sentado à frente da pequena mesa de reuniões no fundo da sala, olhando alguns papeis. Ela viu que ele já havia preparado e colocado duas xícaras de café, preto e forte, em cada lado da mesa.

- Bom dia, Agente Fine – ele disse ao entrar. – Você viu ou falou com a Agente Rhodes?

- Ela estava entrando quando eu peguei o elevador.

Garcia pareceu pensar naquilo por um momento, talvez confuso por não entender porque ela não havia esperado no elevador por Rhodes. Chloe, então, imaginou o quanto Johnson havia contado a ele sobre a pequena briga por poder que estava acontecendo na parceria entre as duas.

Tendo finalizado seu próprio café no carro, Chloe sentou-se em frente a uma das xícaras e tomou um gole. Ela preferia com leite e açúcar, mas não queria parecer chata. Quando deu o primeiro gole, Rhodes entrou na sala. A primeira coisa que ela fez foi lançar um olhar irritado para Chloe. Então, sentou-se em frente à outra xícara de café.

Garcia olhou para as duas, aparentemente percebendo a tensão, mas depois encolheu os ombros.

- Temos um assassinato em Landover, Maryland. É um caso que parecia bem normal no começo. A polícia de Maryland está cuidando dele, mas eles nos pediram ajuda. Também vale mencionar que Jacob Ketterman, do Departamento de Assuntos Públicos da Casa Branca, conhece a vítima. Ele já trabalhou com ela. Ele pediu que nós cuidássemos disso também, como um favor. E quando se trata da Casa Branca, temos que manter tudo em silêncio. Deve ser um caso simples. Um homicídio bem simples, pelo que parece. Essa é uma das razões pelas quais estamos colocando agentes novas nisso. Vai ser um bom teste e parece que não temos tanta urgência, mas é claro que seria ótimo resolver isso o quanto antes.

Ele então entregou duas cópias de seu relatório a elas. Os detalhes eram curtos e diretos. Enquanto Chloe lia, Garcia disse o que já sabia.

- A vítima tinha trinta e seis anos, Kim Wielding. Ela estava trabalhando como babá para a família Carver quando foi morta. Pelo que podemos ver, alguém entrou na casa e a matou. Ela foi golpeada na cabeça duas vezes com algo muito forte, e depois estrangulada. Havia dois ferimentos bem feios na cabeça. Ainda não foi determinado qual deles a matou. Precisamos que vocês duas descubram quem fez isso.

- O assassino foi até lá só para matar? – Chloe perguntou.

- Parece que sim. Nada foi roubado, ao que parece. A casa parece exatamente a mesma da última vez que os Carver a viram... com exceção de uma babá morta. O endereço está aí nos papeis – Garcia continuou. – Acabei de falar no telefone com o xerife de Landover. O casal Carver e os três filhos estão em um hotel desde que o crime aconteceu, dois dias atrás. Mas eles vão encontrar vocês na casa hoje pela manhã para responder quaisquer perguntas. E é isso, agentes. Saiam daqui para buscar mais uma vitória para nós. Vocês devem ir até o RH e pegar um carro para as duas. Vocês conhecem o procedimento?

Chloe não conhecia, mas assentiu mesmo assim. Ela imaginou que Rhodes já soubesse o que fazer. Depois do que acontecera no dia anterior, Chloe imaginava que Rhodes soubesse de todos os procedimentos do FBI.

Chloe e Rhodes levantaram-se da mesa. Chloe tomou um último gole de café antes de sair do escritório de Garcia. Elas caminharam pelo corredor até o elevador sem dizerem uma palavra.

Vai ser um dia longo se eu e ela não deixarmos essa rivalidade idiota para trás, Chloe pensou.

Ao apertar o botão no elevador, Chloe virou-se para Rhodes e fez o possível não só para quebrar o gelo, mas para eliminá-lo.

- Agente Rhodes, vamos tratar as coisas abertamente. Você tem algum problema comigo?

Rhodes deu um pequeno sorriso e levou um segundo para pensar na resposta.

- Não – ela finalmente disse. – Não tenho nenhum problema com você, Agente Fine. Mas estou um pouco hesitante em trabalhar com alguém que foi colocada no PaCV no último minuto. Isso me faz pensar se alguém está fazendo um favor para você—e favores são algo injusto com outros agentes que trabalharam muito para fazer parte desse programa.

- Isso não é da sua conta, mas eu fui chamada para entrar nesse programa. Eu estava totalmente feliz em continuar meu caminho na Equipe de Evidências.

Rhodes deu de ombros quando a porta do elevador se abriu.

- Não sei se a Equipe de Evidências teria ficado tão animada com você depois do que você fez ontem com aquela pegada.

Ao ouvir aquilo, Chloe ficou em silêncio. Ela poderia seguir com aquela pequena guerra de palavras com Rhodes, mas isso só pioraria a relação entre as duas. Se ela queria que aquilo acabasse, ela simplesmente teria que provar seu valor a Rhodes.

Além disso, ela tinha mesmo estragado a pegada no dia anterior. E a única forma de consertar isso era fazendo diferente nesse novo caso.



***



Quando Rhodes escolheu dirigir sem nenhum tipo de conversa sobre isso, Chloe deixou passar. Não valia a pena se irritar com aquilo. No caminho para Landover, Chloe começou a pensar se algo havia acontecido na trajetória de Rhodes para deixá-la daquele jeito—tão mandona e difícil de lidar. Ela teve muito tempo para refletir sobre isso durante o caminho de meia hora até Landover, já que Rhodes não estava fazendo nenhum esforço para conversar.

Elas chegaram à casa dos Carver às 8:05. Era uma casa linda, em um excelente bairro, onde todos os gramados eram perfeitamente cortados, mostrando todas as linhas das calçadas. Havia uma minivan nova estacionada em frente à garagem. Rhodes parou atrás dela e desligou o motor. Ela então olhou para Chloe e perguntou:

- Estamos bem?

- Acho que não, mas não importa. Vamos focar no caso.

- Isso que eu quis dizer – Rhodes respondeu ao abrir a porta e sair.

Chloe juntou-se a ela e, então, um homem e uma mulher saíram da minivan—os Carver, Chloe imaginou. Introduções rápidas revelaram que eles de fato eram os Carver, Bill e Sandra. Bill parecia do tipo que nunca dormia o suficiente. Sandra era linda, o tipo de mulher que nem precisava se arrumar muito. Mas ela também parecia cansada, especialmente quando olhou para a casa.

- Vocês estão ficando em um hotel, certo? – Chloe perguntou.

- Sim – Sandra disse. – Quando isso aconteceu, Bill estava viajando a negócios. A polícia ficava entrando e saindo da casa e tinha... bem, tinha muito sangue. Então eu peguei as crianças na escola, levei elas para jantar e depois fomos para um hotel. Eu contei a elas o que tinha acontecido, e não me pareceu certo voltar para cá naquela hora.

- Eu voltei para casa ontem pela manhã – Bill disse. – Por volta do meio-dia ontem, a polícia nos deu o ok para voltar para casa. Mas Sandra e as crianças ainda estão muito assustados.

- Pode ser melhor assim – Rhodes disse. – Gostaríamos de entrar, se for possível.

- Claro, o xerife nos disse que vocês viriam – Sandra disse. – Ele nos pediu para dizer a vocês que tem um arquivo com todas as informações no balcão da cozinha.

- Antes de entrarmos - Chloe disse, - acho que vocês poderia nos contar um pouco sobre Kim.

- Ela era tão querida – Sandra disse.

- E excelente com as crianças – Bill disse. Ao dizer isso, sua voz oscilou. Era como se só agora a ficha de tudo o que acontecera estivesse começando a cair.

- Vocês sabem se ela tinha muitos problemas com alguém? – Chloe perguntou.

- Não que a gente saiba – Sandra respondeu. – Nós estivemos nos perguntando isso pelos últimos dois dias... e não faz nenhum sentido.

- Algum relacionamento que deu errado? – Rhodes perguntou. – Talvez um ex-namorado estranho ou algo assim?

- Ela tinha um ex, sim – Bill disse. – Mas quase não falava dele.

- Mas ela chegou a falar dele em algum momento? – Chloe perguntou.

Algo que parecia ser uma ideia brilhou nos olhos de Sandra.

- Sabe, ela disse que foi algo do qual ela teve que escapar. E acho que não era brincadeira. Digo... ela nunca falava dele mesmo.

- Vocês sabem o nome? – Rhodes perguntou.

- Não – Sandra disse. Então, ela olhou para Bill esperando que ele respondesse, mas ele apenas balançou a cabeça.

- Kim chegou a dormir aqui? – Rhodes perguntou.

- Sim. Quando eu e Bill saíamos para nossas mini-férias, ela ficava. Temos um quarto de hóspedes que sempre brincávamos dizendo que era da Kim. Ela também ficava algumas vezes quando as crianças tinham muita tarefa da escola.




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