O Prédio Perfeito
Blake Pierce


Em O PRÉDIO PERFEITO (livro #2), a estreante especialista em perfis criminosos, Jessie Hunt, de 29 anos, pega nos destroços de sua vida arruinada e deixa os subúrbios para começar uma nova vida no centro de Los Angeles. Mas quando uma socialite rica é assassinada, Jessie, encarregada do caso, se vê de volta ao mundo das perfeitas paisagens dos subúrbios, caçando um assassino demente no meio das falsas fachadas da normalidade e mulheres sociopatas.Jessie, prosperando novamente no centro de Los Angeles, tem a certeza de que está ultrapassando seu pesadelo suburbano. Pronta para colocar seu casamento fracassado para trás, ela consegue um emprego no departamento de polícia local, adiando sua entrada na Academia do FBI.É atribuído a Jessie um inequívoco assassinato em um bairro rico, um caso simples para iniciar sua carreira. Mas seus chefes não imaginam que este caso é mais complexo do que se suspeitava. Nada pode preparar Jessie para o primeiro caso, que a vai obrigar a investigar as mentes dos casais ricos e suburbanos que ela pensava ter deixado para trás. Por trás de suas fotos de família polida e sebes bem cuidadas, Jessie percebe que a perfeição não é o que parece.Um thriller psicológico em ritmo acelerado com personagens inesquecíveis e suspense de cortar a respiração, O PRÉDIO PERFEITO é o livro # 2 de uma nova série fascinante que vai fazer você ler pela noite dentro.Livro #3 na série Jessie Hunt—A CASA PERFEITA—está também agora disponível para pré-encomenda.







o p r é d i o p e r f e i t o



(um thriller psicológico de jessie hunt —livro 2)



b l a k e p i e r c e


Blake Pierce



Blake Pierce é a autora da série bestselling um mistério de RILEY PAGE, composta por quinze livros (a continuar). Blake Pierce é também a autora da série um mistério de MACKENZIE WHITE, composta por nove livros (a continuar); da série um mistério de AVERY BLACK, composta por seis livros; da série um mistério de KERI LOCKE, composta por cinco livros; da série um mistério dos PRIMÓRDIOS DE RILEY PAIGE, composta por três livros (a continuar); da série um mistério de KATE WISE, composta por dois livros (a continuar); da série um thriller psicológico de CHLOE FINE, composta por três livros (a continuar); série um thriller psicológico de JESSIE HUNT, composta por três livros (a continuar).



Uma leitora ávida e uma fã desde sempre dos géneros de mistério e thriller, Blake adora ouvir sua opinião, pelo que, por favor, sinta-se à vontade para visitar www.blakepierceauthor.com (http://www.blakepierceauthor.com) para saber mais e para se manter em contacto.



Copyright © 2018 por Blake Pierce. Todos os direitos reservados. Exceto conforme permitido pela Lei de Direitos de Autor dos EUA de 1976, nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, distribuída ou transmitida de qualquer forma ou por qualquer meio, ou armazenada numa base de dados ou sistema de recuperação, sem a autorização prévia da autora. Este e-book está licenciado apenas para seu uso pessoal. Este e-book não pode ser revendido ou cedido a outras pessoas. Se quiser partilhar este livro com outra pessoa, por favor, compre uma cópia adicional para cada destinatário. Se está a ler este livro e não o comprou, ou se ele não foi comprado apenas para seu uso pessoal, por favor, devolva-o e adquira sua própria cópia. Obrigado por respeitar o trabalho árduo desta autora. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, empresas, organizações, lugares, eventos e incidentes são produto da imaginação da autora ou foram usados de maneira fictícia. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou falecidas, é mera coincidência. Imagem da capa Copyright hurricanehank, usada com autorização da Shutterstock.com.


LIVROS DE BLAKE PIERCE



SÉRIE UM THRILLER PSICOLÓGICO DE JESSIE HUNT

A ESPOSA PERFEITA (Livro #1)

O PRÉDIO PERFEITO (Livro #2)

A CASA PERFEITA (Livro #3)

O SORRISO PERFEITO (Livro #4)



SÉRIE UM MISTÉRIO PSICOLÓGICO DE CHLOE FINE

A PRÓXIMA PORTA (Livro #1)

A MENTIRA MORA AO LADO (Livro #2)

BECO SEM SAÍDA (Livro #3)

VIZINHO SILENCIOSO (Livro #4)

VOLTANDO PRA CASA (Livro #5)



SÉRIE UM MISTÉRIO DE KATE WISE

SE ELA SOUBESSE (Livro #1)

SE ELA VISSE (Livro #2)

SE ELA CORRESSE (Livro #3)



SÉRIE OS PRIMÓRDIOS DE RILEY PAIGE

ALVOS A ABATER (Livro #1)

À ESPERA (Livro #2)

A CORDA DO DIABO (Livro #3)

AMEAÇA NA ESTRADA (Livro #4)



SÉRIE UM MISTÉRIO DE RILEY PAIGE

SEM PISTAS (Livro #1)

ACORRENTADAS (Livro #2)

ARREBATADAS (Livro #3)

ATRAÍDAS (Livro #4)

PERSEGUIDA (Livro #5)

A CARÍCIA DA MORTE (Livro #6)

COBIÇADAS (Livro #7)

ESQUECIDAS (Livro #8)

ABATIDOS (Livro #9)

PERDIDAS (Livro #10)

ENTERRADOS (Livro #11)

DESPEDAÇADAS (Livro #12)

SEM SAÍDA (Livro #13)

ADORMECIDO (Livro #14)



SÉRIE UM ENIGMA DE MACKENZIE WHITE

ANTES QUE ELE MATE (Livro #1)

ANTES QUE ELE VEJA (Livro #2)

ANTES QUE ELE COBICE (Livro #3)

ANTES QUE ELE LEVE (Livro #4)

ANTES QUE ELE PRECISE (Livro #5)

ANTES QUE ELE SINTA (Livro #6)

ANTES QUE ELE PEQUE (Livro #7)

ANTES QUE ELE CACE (Livro #8)



SÉRIE UM MISTÉRIO DE AVERY BLACK

RAZÃO PARA MATAR (Livro #1)

RAZÃO PARA CORRER (Livro #2)

RAZÃO PARA SE ESCONDER (Livro #3)

RAZÃO PARA TEMER (Livro #4)

RAZÃO PARA SALVAR (Livro #5)

RAZÃO PARA SE APAVORAR (Livro #6)



SÉRIE UM MISTÉRIO DE KERI LOCKE

RASTRO DE MORTE (Livro #1)

RASTRO DE UM ASSASSINO (Livro #2)

UM RASTRO DE IMORALIDADE (Livro #3)

UM RASTRO DE CRIMINALIDADE (Livro #4)

UM RASTRO DE ESPERANÇA (Livro #5)


Recapitulação do Livro #1 da série de Jessie Hunt



Em "A Esposa Perfeita", a candidata a mestrado em psicologia forense Jessie Hunt e seu marido banqueiro de investimentos, Kyle Voss, deixam seu apartamento no centro de Los Angeles para uma casa opulenta na comunidade de Westport Beach, em Orange County, depois que ele é transferido e promovido.

Enquanto Kyle está entusiasmado com sua nova vida, Jessie tem dúvidas e se sente desconfortável entre a elite. No entanto, ela tenta abraçar sua nova vida, fazendo amigos no bairro e se juntando ao clube de iate local com seus rituais secretos e aparentemente sinistros.

Na sala de aula, Jessie impressiona Ryan Hernandez, o professor visitante do Departamento de Polícia de Los Angeles, resolvendo um complicado estudo de caso. Para completar seu trabalho de campo, ela consegue ser designada para um hospital psiquiátrico estadual nas proximidades, onde o notório assassino em série Bolton Crutchfield está encarcerado.

Os crimes de Crutchfield lembram-na de um homem chamado de Executor de Ozarks, que sequestrou e matou dezenas de pessoas quando ela era criança no Missouri. Os sequestrados incluíam Jessie e sua mãe, que foi assassinada na frente dela. Jessie tem regularmente consultas com a Dra. Janice Lemmon para lidar com o trauma.

Em entrevistas, Crutchfield revela que é um admirador do Executor de Ozarks, que nunca foi pego, e que eles de alguma forma se comunicaram. Ele também sugere, baseado puramente em sua observação e suas conversas com Jessie, que as suspeitas dela sobre seu novo estilo de vida rico são legítimas.

À medida que suas habilidades de identificação de perfis criminais melhoram, Jessie, agora grávida, descobre que o iate clube é, na verdade, uma fachada para um círculo de prostituição da alta sociedade. Ela também descobre a verdade sombria sobre seu marido: Kyle é um sociopata que matou uma trabalhadora do clube com quem ele estava dormindo e tentou incriminar Jessie por isso. Jessie sofre um aborto espontâneo, resultado de ter sido drogada por Kyle. Apenas o raciocínio rápido de Jessie impede Kyle de a matar a ela e a dois vizinhos. Ela fica ferida, mas Kyle é preso.

Jessie retorna ao seu antigo bairro no centro de Los Angeles para reconstruir sua vida. Não muito depois, a chefe de segurança do hospital psiquiátrico, Kat Gentry, visita Jessie e passa uma mensagem de Crutchfield: o executor Ozarks está procurando por ela. Jessie revela a Kat seu mais profundo segredo: a razão pela qual o Executor de Ozarks a está perseguindo é porque ele é seu pai.



Jessie Hunt é uma aspirante a especialista em perfil criminais prestes a se divorciar.

Kyle Voss é seu marido sociopata, agora encarcerado e afastado.

Bolton Crutchfield é um brilhante assassino em série que idolatra o pai assassino de Jessie.

Kat Gentry é a chefe de segurança do hospital psiquiátrico, onde Crutchfield está encarcerado.

Dra. Janice Lemmon é psiquiatra de Jessie e ex-especialista em perfis criminais.

Lacy Cartwright é a amiga da faculdade de Jessie, com quem ela está morando por agora.

Ryan Hernandez é o detetive do Departamento de Polícia de Los Angeles que lecionou na aula de Jessie.

O Executante de Ozarks é um assassino em série muito conhecido e nunca capturado - e o pai de Jessie.


CONTEÚDO



CAPÍTULO UM (#u8da7d577-f2d7-5f09-b681-ee52849623db)

CAPÍTULO DOIS (#ue38acd0c-fa7e-5802-a41c-dde5e4d5711f)

CAPÍTULO TRÊS (#uc3cbf6fc-c38c-5062-a112-8fe78db6af50)

CAPÍTULO QUATRO (#u8e0ce46c-7eca-53f9-aeef-b5bb0d725fc7)

CAPÍTULO CINCO (#u56ff686f-19b6-56c2-8011-404aea61c141)

CAPÍTULO SEIS (#ub87ec7ea-2aba-5f57-8eb2-323ba6677693)

CAPÍTULO SETE (#u92c721a2-13f0-521f-9baa-33d7469b2adf)

CAPÍTULO OITO (#u020969bb-1e03-5898-bfb2-f2163909dcb2)

CAPÍTULO NOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZ (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO ONZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DOZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TREZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO CATORZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUINZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZESSEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZESSETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZOITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZENOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E DOIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E TRÊS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E QUATRO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E CINCO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E SEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E SETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E OITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E NOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E DOIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E TRÊS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TRINTA E QUATRO (#litres_trial_promo)




CAPÍTULO UM


Farpas de madeira se cravavam nos antebraços de Jessica Thurman, que estavam amarrados aos braços da cadeira por uma corda grossa. A pele de seus braços estava em carne viva e sangrando em vários lugares, por causa das suas constantes tentativas de se libertar.

Jessica era forte para uma criança de seis anos de idade. Mas não forte o suficiente para se libertar das cordas que seu seqüestrador havia usado para amarrá-la. Ela não podia fazer nada além de ficar sentada lá, com as pálpebras coladas com fita adesiva para ficarem abertas, enquanto observava a própria mãe impotente diante dela, com os braços algemados às vigas de madeira do teto da cabana isolada em Ozarks, onde ambas estavam sendo mantidas.

Ela podia ouvir os sussurros de seu seqüestrador, de pé atrás dela, instruindo-a a assistir, chamando-a suavemente de ‘Joaninha’. Ela conhecia bem a voz.

Afinal, pertencia ao pai dela.

De repente, com uma força inesperada que ela não achava ser possível, a pequena Jessica jogou o próprio corpo para o lado, mandando a cadeira - e ela junto - ao chão. Ela não sentiu o baque da queda, o que achou estranho.

Olhou para cima e viu que não estava mais caída na cabana. Em vez disso, ela estava no corredor de uma mansão impressionante e moderna. E já não era mais a Jessica Thurman, de seis anos de idade. Ela era agora Jessie Hunt, com vinte e oito anos de idade, caída no chão de sua própria casa, olhando para um homem segurando um atiçador de brasas de lareira, acima de sua cabeça, prestes a golpeá-la com aquele pesado objeto de ferro. Mas o homem não era mais seu pai.

Em vez disso, era o seu marido, Kyle.

Seus olhos brilharam com intensidade frenética quando ele baixou o atiçador em direção ao rosto dela.

Ela levantou os braços para se defender, mas sabia que era tarde demais.



*



Jessie acordou de sobressalto. Suas mãos ainda estavam erguidas acima da cabeça como se quisessem bloquear um ataque. Mas ela estava sozinha no quarto do apartamento. Ela fez força com o abdômen e ficou sentada na cama. Seu corpo e os lençóis estavam todos cobertos de suor. Seu coração estava quase saindo pela boca.

Ela botou as pernas para fora da cama e colocou os pés no chão enquanto se inclinava, apoiando os cotovelos nas coxas e a cabeça nas palmas das mãos. Depois de dar ao corpo alguns segundos para se acostumar ao ambiente real - o apartamento da sua amiga Lacy, no centro de Los Angeles - ela olhou para o relógio de cabeceira. Eram 3:54 da manhã

Quando sentiu o suor começar a secar em sua pele, ela se tranquilizou.

Eu não estou mais naquela cabana. Eu não estou mais naquela casa. Eu estou segura. Estes são apenas pesadelos. Esses homens não podem mais me machucar.

Mas é claro que apenas metade disso era verdade. Enquanto seu futuro ex-marido, Kyle estava preso na cadeia, aguardando julgamento por vários crimes, incluindo a tentativa de assassiná-la, seu pai nunca havia sido capturado.

Ele ainda assombrava seus sonhos regularmente. Pior, ela havia descoberto recentemente que, apesar de ter sido colocada no programa de Proteção às Testemunhas quando criança, ter recebido um novo lar e um novo nome, ele ainda estava procurando por ela.

Jessie se levantou e foi para o chuveiro. Não havia sentido em tentar voltar a dormir. Ela sabia que seria inútil.

Além disso, uma ideia circulava em sua cabeça, uma que ela queria cultivar. Talvez fosse hora de ela parar de aceitar que esses pesadelos eram inevitáveis. Talvez ela precisasse parar de temer o dia em que seu pai a encontrasse.

Talvez agora fosse a hora de ir atrás dele.




CAPÍTULO DOIS


No momento em que sua antiga colega de faculdade e atual companheira de apartamento Lacy Cartwright chegou à sala do café da manhã, Jessie já estava acordada há mais de três horas. Ela tinha preparado um bule de café fresco e serviu uma xícara para Lacy, que se aproximou e aceitou com gratidão, exibindo um sorriso simpático.

“Outro sonho ruim?”, ela perguntou.

Jessie assentiu. Nas seis semanas em que Jessie estivera morando no apartamento de Lacy , tentando reconstruir sua vida, sua amiga se acostumara com os gritos semi-regulares a meio da noite e com os despertares. Isso já havia acontecido ocasionalmente na época da faculdade, pelo que não era uma surpresa total. Mas a frequência aumentara dramaticamente desde que o marido de Jessie tentara matá-la.

“Eu fiz muito barulho?”, Jessie perguntou se desculpando.

“Um pouco”, reconheceu Lacy. “Mas você parou de gritar depois de alguns segundos. Voltei a dormir de novo.”

“Eu realmente sinto muito, Lacy. Talvez eu deva comprar-lhe tampões de ouvido melhores até me mudar, ou uma máquina de abafamento de barulho. Eu juro que não vai demorar muito mais.”

“Não se preocupe com isso. Você está lidando com as coisas muito melhor do que eu estaria”, Lacy insistiu enquanto amarrava seus longos cabelos em um rabo de cavalo.

“Isso é simpático da sua parte.”

“Eu não estou apenas sendo educada, garota. Pense nisso. Nos últimos dois meses, seu marido assassinou uma mulher, tentou incriminar você pelo crime e tentou te matar quando você descobriu tudo. Sem falar também no seu aborto espontâneo.”

Jessie assentiu, mas não disse nada. A lista de horrores de Lacy não incluía seu pai assassino em série porque sua amiga não sabia sobre ele; quase ninguém sabia. Jessie preferia assim - por sua própria segurança e pela deles. Lacy continuou.

“Se fosse eu, ainda estaria enrolada em posição fetal. O fato de que você está quase terminando de fazer fisioterapia e prestes a entrar em um programa especial de treinamento do FBI me faz pensar se você é algum tipo de ciborgue.”

Jessie tinha que admitir que, quando as coisas eram colocadas assim, era mesmo impressionante que ela permanecesse tão funcional. Sua mão desceu involuntariamente para o local no lado esquerdo do abdômen, onde Kyle a perfurara com o atiçador da lareira. Os médicos haviam dito que ela tinha tido sorte por ele não ter atingido seus órgãos internos.

Ela tinha agora uma cicatriz feia no local do golpe. Era mais uma cicatriz inconveniente que se somava à que ela já tinha desde a infância, que atravessava sua clavícula. Ela ainda sentia uma pontada aguda em seu abdômen de vez em quando. Mas na maior parte do tempo ela se sentia bem. Ela tinha sido autorizada a abandonar a muleta há uma semana e seu fisioterapeuta tinha agendado apenas mais uma sessão de reabilitação, que era hoje. Depois disso, ela deveria fazer os exercícios necessários sozinha. Quanto à reabilitação mental e emocional, necessária depois de descobrir que seu marido era um assassino sociopata, ela estava longe de terminar.

“Eu acho que as coisas não são assim tão ruins”, ela finalmente respondeu de maneira pouco convincente enquanto observava sua amiga terminar de se vestir.

Lacy deslizava em seus saltos de oito centímetros, transformando-a de uma mulher alta em uma verdadeira Amazona. Com longas pernas e maçãs do rosto marcantes, ela parecia mais uma modelo de passarela do que uma aspirante a estilista. Seu cabelo estava amarrado em um rabo de cavalo alto que revelava seu pescoço. Ela estava meticulosamente adornada com uma roupa que ela própria desenhara. Ela podia ser uma compradora para uma grife de luxo agora. Mas ela tinha planos de abrir sua própria firma de design antes dos trinta anos e ser a estilista lésbica afro-americana de maior destaque no país logo depois disso.

“Eu não entendo você, Jessie”, ela disse enquanto vestia o casaco. “Você é aceita em um prestigiado programa do FBI na Quantico para promissores especialistas em perfis criminais e você parece pouco empolgada com isso. Eu acho que você deveria agarrar essa chance de mudar um pouco de ares. Além disso, são apenas dez semanas. Não é como se você tivesse que se mudar para lá.”

“Você está certa”, concordou Jessie enquanto tomava a última das suas três xícaras de café. “É que há muita coisa acontecendo agora. Não tenho certeza se é a hora certa. O divórcio de Kyle ainda não está totalmente resolvido. Ainda tenho que fechar a venda da casa em Westport Beach. Não estou a cem por cento fisicamente. E acordo gritando na maioria das noites. Não sei se já estou preparada para os rigores do programa de treinamento de análise de comportamento do FBI.”

“Bem, é melhor você decidir rapidamente”, disse Lacy enquanto se dirigia para a porta da frente. “Você não tem que dar uma resposta a eles até o final da semana?”

“Tenho.”

“Bem, depois me diga o que você decidir. Além disso, você poderia abrir a janela do seu quarto antes de sair? Sem ofensa, mas lá dentro está com um cheiro que parece de uma academia.”

Ela se foi antes que Jessie pudesse responder, embora não tivesse certeza do que dizer sobre isso. Lacy era uma grande amiga com quem sempre podia contar para dar sua opinião sincera. Mas tato não era o forte dela.

Jessie se levantou e foi para seu quarto para se trocar. Ela teve um vislumbre de si mesma de corpo inteiro no espelho na parte de trás da porta e não se reconheceu imediatamente. Na superfície, ela ainda parecia a mesma, com seus cabelos castanhos na altura dos ombros, seus olhos verdes, seu metro e setenta e sete de altura.

Mas seus olhos estavam avermelhados de cansaço e seu cabelo estava mal cuidado e oleoso, tanto que ela decidiu amarrá-lo num rabo de cavalo e usar um boné. E sentia-se permanentemente corcunda, resultado da preocupação constante de que seu abdômen pudesse pulsar inesperadamente de dor.

Eu voltarei a ser quem eu era? Será que aquela pessoa ainda existe?

Ela se livrou daquele pensamento, deixando a autopiedade para lá, pelo menos por um tempo. Ela estava ocupada demais para aquilo agora.

Era hora de se preparar para a sessão de fisioterapia, para o encontro com a corretora de imóveis, a consulta com a psiquiatra e depois uma com a ginecologista. Seria um dia inteiro fingindo ser um ser humano funcional.



*



A corretora de imóveis, uma pequena e agitada muçulmana usando um terninho, chamada Bridget, estava mostrando-lhe o terceiro apartamento da manhã quando Jessie começou a ter vontade de pular de uma sacada.

Tudo estava bem no começo. Ela estava ainda um pouco excitada com a sua última sessão de fisioterapia, que terminou com a notícia de que ela estava ‘razoavelmente equipada para as tarefas da vida diária’. Bridget mantivera as coisas em movimento enquanto elas visitavam os dois primeiros apartamentos, concentrando-se nos detalhes da unidade, nos preços e nas amenidades. Foi só quando chegaram à terceira opção, a única pela qual Jessie tinha algum interesse até agora, que as questões pessoais começaram.

“Tem certeza de que só está interessada em apartamento de um quarto?”, Bridget perguntou. “Vejo que você gosta desse aqui. Mas há um de dois quartos com praticamente a mesma planta no andar de cima. São apenas trinta mil dólares a mais e teria maior valor de revenda. Além disso, você nunca sabe qual será a sua situação daqui a alguns anos.”

“É verdade”, reconheceu Jessie, mentalmente constatando que há apenas dois meses ela estava casada, grávida e morava em uma mansão em Orange County. Agora ela estava separada de um assassino confesso, havia perdido o bebê, e estava morando com uma amiga da faculdade. “Mas eu fico bem com um de apenas um quarto.”

“Claro”, Bridget disse em um tom que demonstrava que ela não estava prestes a deixar o assunto para lá. “Você se importa se eu perguntar quais são as suas circunstâncias? Pode ser melhor para me ajudar a direcionar suas preferências. Eu não posso deixar de notar que a pele do seu dedo está mais clara onde um anel de casamento pode ter estado recentemente. Eu poderia mudar as opções de localização se eu soubesse que você está querendo superar e seguir em frente radicalmente ou... se manter escondida.”

“Estamos na área certa”, disse Jessie, engrossando a voz involuntariamente. “Eu apenas quero ver opções de um quarto por aqui. Essa é a única informação que você precisa agora, Bridget.”

“Claro. Desculpe”, disse Bridget, humildemente.

“Eu preciso ir ao banheiro por um momento”, disse Jessie, a tensão em sua garganta agora se expandindo para o peito. Ela não tinha certeza do que estava acontecendo. “Pode ser?”

“Claro. Não tem problema”, disse Bridget. “Você se lembra onde é, no final do corredor?”

Jessie assentiu e caminhou para lá o mais rápido que pôde sem efetivamente correr. Quando ela entrou e trancou a porta, temeu que fosse desmaiar. Parecia um ataque de pânico chegando.

O que diabos está acontecendo comigo?

Ela jogou água fria no rosto, depois pousou as palmas das mãos no balcão enquanto dizia a si mesma para respirar lenta e profundamente.

Imagens brotavam em sua cabeça sem continuidade ou sentido: ela aconchegando-se no sofá com Kyle, tremendo em uma cabana isolada nas montanhas Ozark, olhando para a ultra-sonografia de sua criança concebida e nunca nascida, lendo uma história na hora de dormir numa cadeira de balanço com seu pai adotivo, vendo como o marido despejava um corpo de um iate nas águas da costa, o som de seu pai sussurrando 'Joaninha' em seu ouvido.

O porquê de as perguntas inofensivas de Bridget sobre suas circunstâncias e sobre ‘se manter escondida’ a haviam afetado assim, Jessie não sabia. Mas tinham afetado e agora ela estava suando frio, tremendo involuntariamente, olhando no espelho uma pessoa que ela mal reconhecia.

Era uma coisa boa que a próxima parada fosse para ver sua terapeuta. O pensamento acalmou Jessie ligeiramente e ela respirou fundo mais algumas vezes antes de sair do banheiro e seguir pelo corredor até a porta da frente.

“Eu entro em contato”, ela gritou para Bridget enquanto fechava a porta atrás dela. Mas ela não tinha certeza se entraria mesmo. Agora ela não tinha certeza de nada.




CAPÍTULO TRÊS


O escritório da Dra. Janice Lemmon ficava a poucos quarteirões do prédio que Jessie havia acabado de visitar e ela estava contente pela oportunidade de caminhar e limpar a cabeça. Enquanto descia a Figueroa, ela quase agradecia ao vento forte e cortante que fazia seus olhos lacrimejarem e secarem imediatamente. O frio que a envolvia expulsava logo todos os pensamentos de sua cabeça, menos o que dizia ‘ande rápido’.

Ela fechou o casaco até o pescoço e abaixou a cabeça enquanto passava por um café, depois por uma lanchonete tão lotada que havia gente quase saindo pelas janelas. Era meados de dezembro em Los Angeles e as empresas locais estavam fazendo o melhor para que suas lojas parecessem festivas em uma cidade onde a neve era quase um conceito abstrato.

Mas nos túneis de vento criados pelos arranha-céus do centro, o frio estava sempre presente. Eram quase 11h da manhã, mas o céu estava todo cinza e a temperatura estava na casa dos dez graus. Esta noite ainda cairia para perto de cinco. Para Los Angeles, isso era assustador. Jessie, contudo, já havia enfrentado um clima muito mais gelado.

Quando criança no Missouri rural, antes de tudo desmoronar, ela brincava no minúsculo jardim à frente do trailer de sua mãe, que ficava estacionado no campo para caravanas, com os dedos e o rosto meio dormentes, formando bonecos de neve inexpressivos, mas felizes, enquanto a mãe observava, protetora, da janela. Jessie lembrava de se perguntar por que sua mãe nunca tirava os olhos dela. Olhando para trás agora, o motivo era claro.

Alguns anos depois, nos subúrbios de Las Cruces, Novo México, onde morou com sua família adotiva depois de entrar no programa de Proteção às Testemunhas, ela esquiava nas pequenas encostas de montanhas próximas com seu segundo pai, um agente do FBI. que agia sempre com muito profissionalismo e calma, não importava a situação. Ele estava sempre lá para ajudá-la quando ela caía. E ela geralmente podia contar com um chocolate quente quando saíam das colinas inóspitas e varridas pelo vento e voltavam para a cabana.

Aquelas lembranças frias a aqueceram enquanto ela contornava o último quarteirão até o consultório da Dra. Lemmon. Ela meticulosamente escolhia não pensar nas lembranças menos agradáveis que inevitavelmente se entrelaçavam com as boas.

Ela deu entrada na recepção e tirou as várias camadas de roupas enquanto esperava para ser chamada ao consultório da médica. Não demorou muito. Às 11h, a terapeuta abriu a porta e deu-lhe as boas vindas.

A Dra. Janice Lemmon estava na casa dos sessenta anos, mas não parecia. Estava em ótima forma e seus olhos, atrás de óculos grossos, eram perspicazes e focados. Seus cachos loiros encaracolados saltavam quando ela andava e sua intensidade não passava despercebida.

Elas se sentaram em cadeiras de pelúcia em frente uma da outra. A Dra. Lemmon deu-lhe alguns momentos para se acomodar antes de começar a falar.

“Como você está?”, ela perguntou daquele jeito indeterminado que sempre fazia Jessie ponderar genuinamente a questão mais a sério do que na sua vida diária.

“Eu já estive melhor”, ela admitiu.

“Por que?”

Jessie contou sobre seu ataque de pânico no apartamento e os flashbacks subsequentes.

“Eu não sei qual foi o estopim disso”, disse ela em conclusão.

“Eu acho que você sabe”, Dra. Lemmon cutucou.

“Pode me dar uma dica?”, Jessie respondeu.

“Bem, eu estou imaginando se você perdeu a calma na presença de um estranho, porque sentir que não tem outro lugar para liberar sua ansiedade. Deixe-me perguntar uma coisa: você tem algum evento ou decisão estressante para os próximos dias?”

“Você está se referindo a alguma coisa que não seja à consulta de ginecologia e obstetrícia que vou ter em duas horas, para ver se estou recuperada do aborto, à finalização do divórcio com o homem que tentou me matar, à venda da casa que compartilhamos, ao processamento do fato de que meu pai assassino em série está me procurando, à decisão se vou ou não à Virginia por dois meses e meio para que os instrutores do FBI riam de mim, e também ao fato de ter que sair do apartamento da minha amiga para que ela possa ter uma noite de sono decente? Além dessas coisas, eu diria que estou tranquila.”

“Isso parece muita coisa”, Dra. Lemmon respondeu, ignorando o sarcasmo de Jessie. “Por que não começamos com as preocupações imediatas e trabalhamos a partir daí, ok?”

“Você é a chefe”, Jessie murmurou.

“Na verdade, não sou. Mas me fale sobre o seu próximo compromisso. Por que isso te preocupa?”

“Não é bem que eu esteja preocupada”, disse Jessie. “A médica já me disse que parece que eu não tenho nenhum dano permanente e serei capaz de conceber novamente no futuro. A questão é que a consulta vai me lembrar o que perdi e como perdi.”

“Você está falando sobre como seu marido te drogou para que ele pudesse incriminar você pelo assassinato de Natalia Urgova? E como a droga que ele usou para isso induziu seu aborto espontâneo?”

“Sim”, disse Jessie secamente. “É disso que estou falando.”

“Bem, eu ficaria surpresa se alguém lá trouxesse esse assunto à tona”, disse Dra. Lemmon, com um sorriso gentil desenhado em seus lábios.

“Então você está dizendo que estou criando estresse para mim mesma sobre uma situação que não precisa ser estressante?”

“Eu estou dizendo que se você lidar com as essas emoções com antecedência, elas podem não ser grande coisa quando você estiver realmente lá na consulta.”

“É mais fácil falar do que fazer”, disse Jessie.

“Tudo é mais fácil falar do que fazer”, respondeu a Dra. Lemmon. “Vamos deixar isso de lado por enquanto e seguir em frente para o seu divórcio pendente. Como estão as coisas nesse assunto?”

“A casa está dada em garantia. Então, espero que isso seja concluído sem complicações. Meu advogado diz que meu pedido de divórcio rápido foi aprovado e que deve ser concluído antes do fim do ano. Há um bônus nessa situação - porque a Califórnia é um estado de propriedade da comunidade, eu recebo metade dos bens do meu cônjuge assassino. Ele também ganha metade dos meus, apesar de ser julgado por nove grandes crimes no início do ano que vem. Mas considerando que eu era apenas uma estudante até algumas semanas atrás, isso não significa muito.”

“Ok, como você se sente sobre tudo isso?”

“Eu me sinto bem com o dinheiro. Eu diria que eu mais do que o mereci. Você sabia que eu usei o seguro de saúde do trabalho dele para pagar a lesão que ele mesmo me provocou ao me perfurar com o atiçador da lareira? Há algo de poético nisso. Por outro lado, ficarei feliz quando tudo isso acabar. Eu realmente só quero seguir em frente e tentar esquecer que passei quase uma década da minha vida com um sociopata e nunca percebi isso.”

“Você acha que deveria ter percebido?”, Dra. Lemmon perguntou.

“Estou tentando me tornar uma profissional especialista em perfil criminal, Doutora. Quão boa posso ser quando não percebi o comportamento criminoso do meu próprio marido?”

“Nós já conversamos sobre isso, Jessie. Geralmente, é difícil até mesmo para os melhores profissionais desta área, identificar o comportamento ilícito naqueles próximos a eles. Frequentemente, a distância profissional é necessária para ver o que realmente está acontecendo.”

“Imagino que você esteja falando de sua experiência pessoal?”, Jessie perguntou.

Dra. Janice Lemmon, além de terapeuta comportamental, era uma consultora criminal altamente conceituada, que costumava trabalhar em tempo integral para o Departamento da Polícia de Los Angeles. Ela ainda prestava tais serviços de vez em quando.

Dra. Lemmon usou sua influência considerável para conseguir a permissão para Jessie visitar o hospital estadual em Norwalk, para que ela pudesse entrevistar o assassino em série Bolton Crutchfield como parte de seu trabalho de pós-graduação. E Jessie suspeitava que a médica também tinha sido parte integrante de sua aceitação no famoso programa da Academia Nacional do FBI, que normalmente levava apenas pesquisadores locais experientes, e não recém-formados com quase nenhuma prática nas costas.

“Estou”, disse a Dra. Lemmon. “Mas podemos deixar isso para outra hora. Gostaria de discutir como você se sente tendo sido enganada pelo seu marido?”

“Eu não diria que fui totalmente enganada. Afinal de contas, por minha causa, ele está na prisão e três pessoas que, de outra forma, estariam mortas, inclusive eu, estão andando por aí. Não recebo nenhum crédito por isso? Afinal de contas, eu finalmente descobri isso. Eu acho que os policiais jamais teriam descoberto.”

“Esse é um ponto justo. Graças ao seu sarcasmo, eu imagino que você prefere seguir em frente. Vamos discutir sobre seu pai?”

“Mesmo?”, Jessie perguntou, incrédula. “Temos que falar disso agora? Não podemos apenas falar sobre os problemas do meu apartamento?”

“Eu penso que eles estão relacionados. Afinal de contas, a razão pela qual sua colega de quarto não consegue dormir não é porque você tem pesadelos indutores de gritos?”

“Você não joga limpo, Doutora.”

“Só estou trabalhando com as coisas que você me diz, Jessie. Se você não quisesse que eu soubesse, você não teria mencionado isso. Posso presumir que os sonhos estão relacionados com o assassinato de sua mãe pelas mãos de seu pai?”

“Sim”, respondeu Jessie, mantendo o tom excessivamente confiante. “O Executor de Ozarks pode ter entrado na clandestinidade, mas ele ainda tem uma vítima em suas garras.”

“Os pesadelos pioraram desde a última vez que nos encontramos?”, Dra. Lemmon perguntou.

“Eu não diria que pioraram”, corrigiu Jessie. “Eles permaneceram praticamente ao mesmo nível de terrivelmente horríveis”.

“Mas eles se tornaram drasticamente mais frequentes e intensos quando você recebeu a mensagem, correto?”

“Suponho que estamos falando sobre a mensagem que Bolton Crutchfield me transmitiu revelando que esteve em contato com meu pai, que gostaria muito de me encontrar.”

“Essa é a mensagem que estamos falando.”

“Então sim, corresponde à época que eles pioraram”, Jessie respondeu.

“Deixando de lado os sonhos por um momento”, disse Dra. Lemmon, “queria reiterar o que lhe contei anteriormente.”

“Sim, Doutora, eu não esqueci. Na sua condição de assessora do Departamento de Hospitais Estaduais, Divisão de Não-Reabilitação, você consultou a equipe de segurança do hospital para garantir que Bolton Crutchfield não tenha acesso a nenhum pessoal externo não autorizado. Não há como ele se comunicar com meu pai para que ele conheça minha nova identidade.”

“Quantas vezes eu já disse isso?”, Dra. Lemmon perguntou. “Deve ter sido algumas para você memorizar assim.”

“Vamos apenas dizer que foi mais de uma vez. Além disso, me tornei amiga da chefe de segurança da instalação da DNR, Kat Gentry, e ela me disse basicamente a mesma coisa: eles atualizaram seus procedimentos para garantir que Crutchfield não tenha comunicação com o mundo exterior.”

“E ainda assim você não parece convencida”, observou Dra. Lemmon.

“Você estaria?”, Jessie perguntou. “Se seu pai fosse um assassino em série conhecido no mundo como o Executor de Ozarks e você pessoalmente o visse eviscerar suas vítimas e ele nunca fosse pego, sua mente ficaria tranquila por conta de algumas superficialidades?”

“Eu admito que provavelmente seria um pouco cética. Mas não tenho certeza de como seja produtivo insistir em algo que você não pode controlar.”

“Eu estava querendo abordar isso com você, Dra. Lemmon”, Jessie disse, deixando de lado o sarcasmo agora que ela tinha um pedido genuíno. “Temos certeza de que não tenho controle sobre a situação? Parece que Bolton Crutchfield sabe muito sobre o que meu pai tem feito nos últimos anos. E Bolton ... gosta da minha companhia. Eu estava pensando que outra visita para conversar com ele podia ser de mais valia. Quem sabe o que ele pode revelar dessa vez?”

A Dra. Lemmon respirou fundo ao considerar a proposta.

“Eu não tenho certeza se jogar jogos mentais com um notório assassino em série é o melhor próximo passo para o seu bem-estar emocional, Jessie.”

“Você sabe o que seria ótimo para o meu bem-estar emocional, Doutora?” Jessie disse, sentindo sua frustração aumentar apesar de seus melhores esforços. “Não temer que o meu pai psicótico possa pular de um canto qualquer e me esfaquear toda.”

“Jessie, se apenas conversando comigo sobre isso você fica tão irritada, o que vai acontecer quando Crutchfield começar a pisar nos seus calos?”

“Não é o mesmo. Eu não tenho que me censurar quando estou aqui com você. Com ele eu sou uma pessoa diferente. Sou profissional”, disse Jessie, certificando-se de que seu tom fosse mais medido agora. “Estou cansada de ser uma vítima e isso é algo tangível que posso fazer para mudar a dinâmica das coisas. Você vai pelo menos levar isso em consideração? Eu sei que sua recomendação é praticamente um ingresso de ouro nesta cidade.”

Dra. Lemmon olhou para ela por alguns segundos através de seus óculos grossos, seus olhos perfurando dentro dela.

“Eu vou ver o que posso fazer”, ela finalmente disse. “Falando em ingressos de ouro, você já aceitou formalmente o convite da Academia Nacional do FBI?”

“Ainda não. Ainda estou colocando minhas opções na balança.”

“Eu acho que você poderia aprender muito lá, Jessie. E não faria mal tê-lo em seu currículo quando você está tentando trabalhar aqui. Preocupa-me que deixar essa chance passar possa ser uma forma de auto-sabotagem.”

“Não é isso”, garantiu Jessie. “Eu sei que é uma ótima oportunidade. Só não tenho certeza se este é o momento ideal para eu me mudar para o outro lado do país por quase três meses. Estão mil coisas acontecendo na minha vida nesse momento.”

Ela tentou manter a agitação fora de sua voz, mas podia ouvi-la chegando aos poucos. Claramente a Dra. Lemmon também percebeu, porque logo mudou de foco.

“Ok. Agora que obtivemos uma visão geral de como as coisas estão indo, gostaria de aprofundar um pouco mais sobre alguns assuntos. Se bem me lembro, o seu pai adotivo veio aqui recentemente para ajudar você a se afastar um pouco. Eu quero conversar sobre isso em alguns instantes. Mas primeiro, vamos discutir como você está se recuperando fisicamente. Eu sei que você acabou de fazer sua última sessão de fisioterapia. Como foi isso?”

Os quarenta e cinco minutos seguintes fizeram Jessie se sentir como uma árvore tendo sua casca descascada. Quando acabou, ela estava feliz em sair, mesmo sabendo que a próxima parada seria a consulta para reconfirmar se ela poderia ou não ter filhos no futuro. Depois de quase uma hora com a Dra. Lemmon cutucando sua psique, ela achava que ter o seu corpo cutucado seria uma verdadeira brisa. Ela estava errada.

*



Não foram tanto as cutucadas que a desestabilizaram. Foi o resultado. A consulta em si foi bastante tranquila. A médica de Jessie confirmou que ela não tinha sofrido nenhum dano permanente e assegurou que ela deveria ser capaz de conceber no futuro. Ela também deu autorização para retomar a atividade sexual, algo que genuinamente não passava pela cabeça de Jessie desde que Kyle a tinha atacado. O médico disse que, salvo algo inesperado, ela deveria retornar a uma consulta para um acompanhamento daqui a seis meses.

Foi só quando ela estava no elevador no caminho para a garagem que ela se descontrolou. Ela não tinha certeza do porquê, mas sentiu como se estivesse caindo em um buraco escuro no chão. Ela correu para o carro e se sentou no banco do motorista arfando, deixando o choro nervoso tomar seu corpo.

E então, no meio das lágrimas, ela entendeu. Algo sobre a finalidade daquela consulta a atingiu duramente. Ela não teria que voltar nos próximos seis meses. Seria uma visita normal. Analisando o futuro próximo, o estágio em sua vida envolvendo uma gravidez havia efetivamente terminado.

Ela quase podia sentir uma porta emocional se fechar e era chocante. Somada ao seu casamento ter terminado da maneira mais chocante possível e à descoberta de que o pai assassino que ela pensava ter colocado no passado estava de volta ao presente, a percepção de que ela tinha tido um ser vivo dentro dela e agora ela não tinha mais, era demais para suportar.

Ela saiu da garagem, sua visão embaçada por olhos inundados de lágrimas. Ela não se importava. Ela se viu pressionando com força o acelerador na Robertson, indo na direção do sul. Era o começo da tarde e não havia muito tráfego. Ainda assim, ela entrava e saía loucamente das ruas.

À sua frente, em um semáforo, ela viu um grande caminhão em movimento. Ela pisou com força no acelerador e sentiu o pescoço ficar para trás quando acelerou. O limite de velocidade era de sessenta, mas ela estava passando acima de setenta, noventa, cem. Ela tinha certeza de que, se batesse no caminhão com força suficiente, toda a sua dor desapareceria em um instante.

Ela olhou para a esquerda e, enquanto passava, viu uma mãe caminhando pela calçada com seu filho criança. O pensamento daquele pequeno garoto vendo uma massa disforme de metal amassado, fogo crepitante e restos humanos carbonizados a fez voltar para a realidade.

Jessie freou com força, derrapando até parar a poucos metros da traseira do caminhão. Ela entrou no estacionamento do posto de gasolina à sua direita, estacionou e desligou o carro. Ela estava respirando pesadamente e a adrenalina percorria seu corpo, fazendo seus dedos das mãos e pés formigarem até o ponto de desconforto.

Após cerca de cinco minutos sentada lá imóvel com os olhos fechados, seu peito parou de arfar e sua respiração voltou ao normal. Ela ouviu um zumbido e abriu os olhos. Era o celular dela. O identificador de chamadas dizia que era o detetive Ryan Hernandez, do Departamento da Polícia de Los Angeles. Ele tinha dado uma palestra na sua aula de criminologia no último semestre, onde ela o tinha impressionado com a forma como tinha resolvido um caso de amostra que ele havia levado para a classe. Ele também a tinha visitado no hospital depois que Kyle tentou matá-la.

“Olá, olá”, disse Jessie em voz alta para si mesma, certificando-se de que sua voz soasse normal. Perto o suficiente. Ela atendeu a ligação.

“Aqui é a Jessie.”

“Olá, Menina Hunt. Aqui é o detetive Ryan Hernandez. Você se lembra de mim?”

“É claro”, disse ela, satisfeita por sua voz soar como habitual. “Que se passa?”

“Eu sei que você se formou recentemente”, disse ele, sua voz soando mais hesitante do que ela se lembrava. “Você já conseguiu alguma colocação no mercado?”

“Ainda não”, ela respondeu. “Estou avaliando minhas opções agora.”

“Se é assim, eu gostaria de falar com você sobre um trabalho.”




CAPÍTULO QUATRO


Uma hora depois, Jessie estava sentada na área da recepção da Delegacia Central da Polícia Comunitária do Departamento de Polícia de Los Angeles, ou como era mais comumente chamada, Divisão do Centro da Cidade, onde estava esperando que o detetive Hernandez saísse para encontrá-la. Ela se recusou expressamente a pensar sobre o que acontecera com o seu quase acidente. Era muito para processar naquele momento. Em vez disso, ela se concentrou no que estava prestes a acontecer.

Hernandez tinha sido cauteloso na ligação, dizendo que não podia entrar em detalhes - apenas que uma posição júnior estava se abrindo e ele havia pensado nela. Ele pediu-lhe que viesse discutir pessoalmente, já que queria avaliar o interesse dela antes de mencioná-la aos superiores.

Enquanto Jessie esperava, ela tentou lembrar o que sabia sobre Hernandez. Ela o conhecera naquele outono, quando ele havia visitado o curso de psicologia forense do seu mestre para discutir as aplicações práticas da identificação de perfis criminais. Ela ficou sabendo que quando ele era um policial de rua, ele tinha sido fundamental na captura de Bolton Crutchfield.

Na aula, ele havia apresentado um elaborado caso de assassinato para os estudantes e perguntou se alguém poderia determinar o responsável e o motivo. Somente Jessie havia descoberto. Na verdade, Hernandez havia dito que ela era apenas a segunda aluna a resolver o caso.

Na segunda vez que o viu, ela estava no hospital se recuperando do ataque de Kyle. Ela ainda estava um pouco drogada na época, então suas lembranças eram um pouco nebulosas.

Ele só estivera lá para visitá-la porque ela havia ligado anteriormente para ele, desconfiada sobre como tinha sido o passado de Kyle antes de conhecê-lo, aos dezoito anos, na esperança de conseguir qualquer pista que o detetive pudesse oferecer. Ela havia deixado uma mensagem de voz para Hernandez e, quando ele não conseguiu contatá-la depois de várias ligações - principalmente porque o marido a havia amarrado dentro de casa, ele havia rastreado o sinal do celular e descoberto que ela estava no hospital.

Ele deu uma ajuda quando a visitou, atualizando-a sobre o estado do caso pendente contra Kyle. Mas ele também tinha claramente desconfiado (com razão) que Jessie não tinha feito tudo o que podia para deixar tudo às claras depois que Kyle matou Natalia Urgova.

Era verdade. Depois que Kyle persuadira Jessie de que ela havia matado Natalia após um ataque de raiva, bêbada, que ela não conseguia lembrar, ele se havia oferecido para encobrir o crime, jogando o corpo daquela mulher no mar. Apesar de suas dúvidas na época, Jessie não tinha feito esforços para ir à polícia explicar o caso. Era algo que ela se arrependia até hoje.

Hernandez estava ciente daquilo, mas, até onde ela sabia, ele nunca disse nada a ninguém depois.Uma pequena parte dela temia que esse fosse o verdadeiro motivo pelo qual ele a chamara aqui hoje e que o trabalho era apenas uma desculpa para levá-la à delegacia. Ela imaginou que se ele a levasse para uma sala de interrogatório, ela saberia para onde as coisas estavam indo.

Depois de alguns minutos, ele saiu para cumprimentá-la. Ele parecia muito como ela se lembrava dele, cerca de trinta anos, bem apessoado, mas não excessivamente imponente. Com cerca de um metro e oitenta de altura e um pouco menos de 90 quilos, ele estava claramente em boa forma. Foi só quando ele se aproximou que ela se lembrou do quão musculoso ele era.

Ele tinha cabelos negros e curtos, olhos castanhos e um sorriso largo e caloroso que provavelmente fazia com que os suspeitos se sentissem à vontade. Ela se perguntou se ele cultivava aquele sorriso por esse mesmo motivo. Ela viu a aliança na mão esquerda e lembrou que ele era casado, mas não tinha filhos.

“Obrigado por ter vindo, Sra. Hunt”, disse ele, estendendo a mão.

“Por favor, me chame de Jessie”, disse ela.

“Ok, Jessie. Vamos para a minha mesa e vou te contar o que eu tinha em mente.”

Jessie sentiu uma onda de alívio mais forte do que o esperado quando ele não sugeriu a sala de interrogatório, mas conseguiu evitar tornar isso óbvio. Enquanto ela o seguia em direção ao escritório, ele falou baixinho.

“Tenho acompanhado seu caso”, ele admitiu. “Ou, mais precisamente, o caso de seu marido.”

“Em breve ex”, observou ela.

“Certo. Eu também ouvi isso. Sem planos para permancer com o cara que tentou incriminar você por assassinato e depois te matar, né? Não há mesmo lealdade nos dias de hoje.”

Ele sorriu para deixá-la saber que estava brincando. Jessie não pôde deixar de ficar impressionada com um sujeito disposto a fazer uma piada sobre assassinato para alguém que quase foi assassinada.

“A culpa é esmagadora”, disse ela, brincando.

“Aposto. Eu tenho que dizer, as coisas não parecem nada boas para o seu quase ex-marido. Mesmo que os promotores não peçam a pena de morte, duvido que ele saia da cadeia algum dia.”

“É o que você diz...”, Jessie murmurou, não precisando terminar a frase.

“Vamos para um assunto mais feliz, vamos?”, Hernandez sugeriu. “Como você pode ou não se lembrar da minha visita à sua sala de aula, eu trabalho para uma unidade especial em Roubos e Homicídios. Chama-se Seção Especial de Homicídios, ou SEH, abreviadamente. Somos especializados em casos de grande destaque - dos tipos que geram muito interesse da mídia ou escrutínio público. Isso pode incluir incêndios, assassinatos com várias vítimas, assassinatos de pessoas notáveis e, é claro, assassino em séries.”

“Como Bolton Crutchfield, o cara que você ajudou a capturar.”

“Exatamente”, disse ele. “Nossa unidade também emprega especialistas em perfis criminais. Eles não são exclusivos para nós. Todo o departamento tem acesso a eles, mas temos prioridade. Você já deve ter ouvido falar de nosso professor sênior, Garland Moses.”

Jessie assentiu. Moses era uma lenda na comunidade de especialistas em perfis criminais. Um ex-agente do FBI, ele se tinha mudado para a Costa Oeste para se aposentar no final dos anos 90, depois de ter passado décadas saltando pelo país em busca de assassinos em série. Mas o Departamento da Polícia de Los Angeles fez uma oferta e ele concordou em trabalhar como consultor. Ele era pago pelo departamento, mas não era funcionário oficial, então podia ir e vir como quisesse.

Ele tinha mais de setenta anos agora, mas ainda aparecia para trabalhar todos os dias. E pelo menos três ou quatro vezes por ano, Jessie lia uma história dele desvendando um caso que ninguém mais conseguia resolver. Ele supostamente tinha um escritório no segundo andar deste prédio, dentro do que se dizia ser um antigo depósito de vassouras.

“Eu vou conhecê-lo?”, Jessie perguntou, tentando manter seu entusiasmo sob controle.

“Hoje não”, disse Hernandez. “Talvez se você aceitar o trabalho e se instalar por um tempo, eu a apresentarei. Ele é um pouco mal-humorado.”

Jessie sabia que Hernandez estava sendo diplomático. Garland Moses tinha fama de ser um idiota taciturno e mal-humorado. Se ele não fosse ótimo em pegar assassinos, provavelmente estaria desempregado.

“Então, Moses é como se fosse o especialista emérito em perfis criminais do departamento”, continuou Hernandez. “Ele só aparece para pegar casos realmente grandes. O departamento tem um número de outros funcionários e especialistas em perfis criminais autônomos que usa para casos menos célebres. Infelizmente, nosso especialista júnior, Josh Caster, apresentou sua demissão ontem.”

“Porquê?”

“Oficialmente?”, Hernandez disse. “Ele queria se mudar para uma área mais amiga da familia. Ele tem uma esposa e dois filhos que ele nunca conseguia ver. Então ele aceitou uma posição em Santa Bárbara.”

“E não oficialmente?”

“Ele não conseguia mais desvendar nada. Ele trabalhou no setor de roubo e homicídios meia dúzia de anos, foi para o programa de treinamento do FBI, voltou com pique máximo e entusiasmado e realmente trabalhou duro como um especialista em perfis criminais por dois anos depois disso. E então ele atingiu uma espécie de parede, não conseguia mais evoluir.”

“O que você quer dizer?”, Jessie perguntou,

“Este é um negócio feio, Jessie. Eu sinto que não preciso te dizer isso, considerando o que aconteceu com seu marido. Mas uma coisa é ter uma briga com violência ou morte. Outra é enfrentar isso todos os dias, ver as coisas sujas que os seres humanos podem fazer uns aos outros. É difícil manter sua humanidade sob o ataque dessas coisas. Isso te machuca. Se você não tem um lugar para se livrar dessa carga no final do dia, pode realmente mexer com você. Isso é algo para você pensar enquanto considera minha proposta.”

Jessie decidiu que agora não era a hora de contar ao detetive Hernandez que sua experiência com Kyle não tinha sido a primeira vez que ela vira a morte de perto. Ela não tinha certeza se ver seu pai matando várias pessoas quando criança, incluindo sua própria mãe, poderia prejudicar suas perspectivas de emprego.

“Qual é exatamente a sua proposta?”, ela perguntou, evitando completamente o assunto.

Eles haviam chegado à mesa de Hernandez. Ele fez sinal para ela se sentar em frente a ele enquanto continuava.

“Substituir Caster, pelo menos de forma provisória. O departamento ainda não está pronto para contratar um novo especialista em perfis criminais em tempo integral. Eles investiram muitos recursos no Caster e agora se sentem ressabiados. Eles querem fazer uma grande pesquisa de candidatos antes de contratar um substituto permanente. Enquanto isso, eles estão procurando alguém júnior, que não se importe de não ser contratado em tempo integral e não se importe de ser mal pago.”

“Isso é ótimo para atrair os candidatos mais bem preparados”, disse Jessie.

“Concordo. Esse é o meu medo - que, no interesse de manter os custos baixos, eles escolham alguém que não tenha capacidade. Eu? Eu prefiro tentar alguém que ainda não esteja maduro, mas tenha talento, em vez de um picareta que não consiga traçar um único perfil direito.”

“Você acha que eu tenho talento?”, Jessie perguntou, esperando que ela não soasse como se estivesse pescando por um elogio.

“Eu acho que você tem potencial. Você mostrou isso no cenário da sala de aula. Eu respeito seu professor, Warren Hosta. E ele me diz que você tem talento real. Ele não entrou em detalhes, mas disse que você recebeu permissão para entrevistar um detento de alto valor e que estabelecera um relacionamento que poderia ser proveitoso no futuro. O fato de ele não poder me dar detalhes sobre algo que uma graduada recém-formada está fazendo sugere que você não é tão crua quanto parece. Além disso, você conseguiu descobrir o elaborado plano de assassinato de seu marido e não ser morta no processo. Isso não é pouca coisa. Eu também sei que você foi aceita na Academia Nacional do FBI sem nenhuma experiência de aplicação da lei. Isso quase nunca acontece. Então, estou disposto a me arriscar por você e jogar seu nome na mesa. Assumindo que você esteja interessada. Você está interessada?”




CAPÍTULO CINCO


“Então você não vai fazer a coisa do FBI?”, Lacy perguntou incrédula enquanto tomava outro gole de vinho.

Elas estavam sentadas no sofá, a meio caminho de uma garrafa de vinho tinto e devorando a comida chinesa que acabara de ser entregue. Já passava das oito da noite e Jessie estava exausta depois do dia mais longo que se lembrava em meses.

“Eu ainda vou fazer, só não agora. Eles me concederam um adiamento. Eu posso me juntar a outra classe da Academia, desde que eu entre em algum momento nos próximos seis meses. Caso contrário, eu tenho que reaplicar a candidatura. Considerando que eu tive sorte de ser aceita dessa vez, isso praticamente significa que irei mesmo em breve.”

“E você está desistindo disso para fazer um trabalho pesado para o Departamento da Polícia de Los Angeles?”, Lacy perguntou, incrédula.

“Mais uma vez, não desisti”, Jessie apontou, tomando um grande gole de seu próprio copo, “apenas posterguei. Eu já estava hesitante com tudo o que estava acontecendo com a venda da casa e minha recuperação física. Este foi apenas o argumento decisivo. Além disso, parece legal!”

“Não, não”, disse Lacy. “Soa totalmente entediante. Até mesmo seu amigo detetive disse que você estaria fazendo tarefas rotineiras e lidando com casos de baixa relevância que ninguém mais queria pegar.”

“No início. Mas uma vez que eu tenha um pouco de experiência, tenho certeza que eles me lançarão algo mais interessante. Isso é Los Angeles, Lace. Eles não serão capazes de manter a loucura longe de mim.”



*



Duas semanas depois, quando a viatura da polícia deixou Jessie a uma quadra da cena do crime, ela agradeceu aos agentes e dirigiu-se ao beco onde viu a fita policial já colocada. Ao atravessar a rua, evitando os motoristas que pareciam mais dispostos a atropelá-la do que a desviarem, percebeu que esse seria seu primeiro caso de assassinato.

Recapitulando seu breve tempo na Delegacia Central, ela viu que tinha estado errada ao pensar que eles não poderiam manter a loucura longe dela. De alguma forma, pelo menos até agora, eles tinham mantido. Na verdade, a maior parte de seu tempo nesses dias era passada na delegacia, passando por casos abertos para garantir que a papelada que Josh Caster arquivara antes de sair estivesse em dia. Era penoso.

Não ajudava que a Delegacia Central parecesse uma rodoviária movimentada. A principal área de escritório era massiva. As pessoas cercavam Jessie o tempo todo e ela nunca tinha certeza se eram funcionários, civis ou suspeitos. Ela tinha que trocar de mesas repetidamente, já que especialistas emperfis criminais que não usavam a etiqueta “interino” reivindicavam as estações de trabalho que preferiam com base nas suas antiguidades. Não importava onde ela se sentasse, Jessie sempre parecia estar situada logo abaixo de uma trémula luz fluorescente.

Mas não hoje. Entrando no beco perto da East 4th Street, ela viu o detetive Hernandez no outro extremo e esperou que este caso fosse diferente dos outros que tinham sido designados a ela até agora. Para cada um desses casos, ela havia acompanhado alguns detetives, mas sua opinião nunca fora requisitada. Não tinha havido muita necessidade disso de qualquer maneira.

Dos três casos de campo que ela acompanhara, dois eram assaltos e um era incêndio criminoso. Em cada caso, os suspeitos confessavam minutos depois da prisão, um deles até mesmo confessou sem sequer ser questionado sobre nada. O detetive teve que ler os direitos do cara e fazê-lo voltar a confessar.

Mas hoje poderia finalmente ser diferente. Era segunda-feira, pouco antes do Natal, e Jessie esperava que o espírito da temporada pudesse deixar Hernandez mais generoso do que alguns de seus colegas. Ela se juntou a ele e seu parceiro naquele dia, um cara de quarenta e poucos anos, de óculos, chamado Callum Reid, enquanto investigavam a morte de um drogado encontrado no final do beco.

Ele ainda tinha uma agulha saindo do braço esquerdo e o policial responsável só havia chamado os detetives como uma formalidade. Enquanto Hernandez e Reid conversavam com o oficial, Jessie se abaixou sob a fita da polícia e se aproximou do corpo, certificando-se de não pisar em nenhum lugar sensível.

Ela olhou para o jovem que não parecia mais velho que ela. Ele era afro-americano, com corte de cabelo em estilo degradê. Mesmo deitado e descalço, ela poderia dizer que ele era alto. Algo sobre ele parecia familiar.

“Eu deveria saber quem é esse cara?”, ela gritou para Hernandez. “Eu sinto que já o vi em algum lugar antes.”

“Provavelmente”, gritou Hernandez de volta. “Você frequentou a USC, certo?”

“Sim”, ela disse.

“Vocês dois devem se ter cruzado lá por um ano ou dois. Seu nome era Lionel Little. Ele jogou basquete lá por alguns anos antes de se tornar profissional.”

“Ok, acho que me lembro dele”, disse Jessie.

“Ele tinha um lindo arremesso com a mão esquerda”, lembrou o detetive Reid. “Me lembrava um pouco de George Gervin. Ele era um novato altamente elogiado, mas acabou sumindo depois de alguns anos. Ele não podia jogar na defesa e não sabia como lidar com todo o dinheiro ou o estilo de vida da NBA. Ele só durou três temporadas antes de estar fora do campeonato inteiro. As drogas praticamente tomaram o controle nesse ponto. Em algum momento, ele acabou nas ruas.”

“Eu o via por aí de vez em quando”, acrescentou Hernandez. “Ele era um garoto doce - nunca o citei por mais do que ficar vadiando ou urinando em público.”

Jessie se inclinou e olhou mais de perto para Lionel. Ela tentou se imaginar na posição dele, um jovem perdido, viciado, mas sem muitos problemas, vagando pelos becos do centro de LA nos últimos anos. De alguma forma ele conseguira manter seu hábito sem overdose ou sem acabar na cadeia. E, no entanto, ali estava ele, deitado num beco, com a agulha no braço, descalço. Algo não parecia certo.

Ela se ajoelhou para ver de perto onde a agulha se projetava de sua pele. Estava encravada no fundo da pele macia dele.

A pele macia dele...

“Detetive Reid, você disse que Lionel tinha um bom arremesso com a mão esquerda, certo?”

“Uma coisa linda”, ele respondeu com apreciação.

“Então, posso supor que ele era canhoto?”

“Ah sim, ele era totalmente dominante na mão esquerda. Ele tinha problemas reais para jogar com a direita. Defensores sempre o atacavam para esse lado e o bloqueavam completamente. Foi outra razão pela qual ele nunca vingou nos profissionais.”

“Isso é estranho”, ela murmurou.

“O quê”, perguntou Hernandez.

“É só… vocês podem vir aqui? Há algo que não está fazendo sentido para mim sobre essa cena do crime.”

Os detetives se aproximaram e pararam logo atrás, onde Jessie estava ajoelhada. Ela apontou para o braço esquerdo de Lionel.

“Aquela agulha parece estar bem enfiada em seu braço e não está nem perto de uma veia.”

“Talvez ele tivesse uma mira ruim?”, Reid sugeriu.

“Talvez”, admitiu Jessie. “Mas olhe para o braço direito dele. Há uma linha precisa de marcas que acompanham suas veias. É muito meticuloso para um viciado em drogas. E isso faz sentido, porque ele era um esquerdista. É claro que ele injetaria seu braço direito com a mão dominante.”

“Isso faz sentido”, concordou Hernandez.

“Então eu pensei que talvez ele tivesse sido apenas mais desleixado quando usou seu braço direito”, Jessie continuou. “Como você disse, detetive Reid, talvez ele tivesse apenas uma mira ruim.”

“Exatamente”, disse Reid.

“Mas olhem”, disse Jessie apontando para o braço. “Além da marca dessa agulha de agora, seu braço esquerdo está liso - sem nenhuma outra marca.”

“O que isso lhe diz?”, Hernandez perguntou, começando a ver aonde ela estava indo.

“Isso me diz que ele não injetava em seu braço esquerdo, ou praticamente nunca. Pelo que eu posso dizer, este não é o tipo de cara que deixaria alguém injetar nele naquele braço também. Ele tinha um sistema. Ele foi muito metódico. Olhe para as costas da mão direita dele. Ele tem marcas lá também. Ele preferiae injetar na própria mão do que confiar em outra pessoa. Aposto que, se tirássemos as meias dele, encontraríamos marcas entre os dedos do pé direito também.”

“Então você está sugerindo que ele não teve overdose?”, Reid perguntou ceticamente.

“Estou sugerindo que alguém queria fazer com que parecesse que ele estava com overdose, mas fez um trabalho desleixado e apenas enfiou a agulha em algum lugar de seu braço esquerdo, tal como pessoas destras normalmente fariam.”

“Por que?”, Reid perguntou.

“Bem”, Jessie disse cautelosamente, “comecei a pensar sobre o fato de que os tênis dele não estão aqui. Nenhuma de suas outras roupas sumiu. Eu estou querendo saber se, por ele ter sido um ex-jogador profissional, seus tênis eram caros. Alguns deles não custam centenas de dólares?”

“Eles custam sim”, Hernandez respondeu, parecendo animado. “Na verdade, quando ele se uniu à liga e todos pensaram que ele seria um grande negócio, ele assinou um contrato de calçado com uma empresa iniciante chamada Hardwood. A maioria dos caras assinava com uma das grandes empresas de tênis - Nike, Adidas, Reebok. Mas Lionel foi com esses caras. Eles eram vistos como inovadores. Talvez inovadores demais porque eles faliram há alguns anos.”

“Então os tênis não seriam tão valiosos assim”, disse Reid.

“Na verdade, é o oposto”, corrigiu Hernandez. “Porque eles foram à falência, os tênis se tornaram bens raros e procurados. Há apenas uns tantos em circulação, então cada um é bastante valioso para colecionadores. Como porta-voz da empresa, Lionel provavelmente conseguiu um caminhão deles quando assinou pela primeira vez. E eu estaria disposto a apostar que era um desses que ele estava calçando esta noite.”

“Então”, Jessie continuou, “alguém o viu usando os tênis. Talvez eles estivessem desesperados por dinheiro. Lionel não é visto como um cara durão. Ele é um alvo fácil. Então essa pessoa mata o Lionel, rouba os tênis e enfia uma agulha no braço dele, esperando que nós consideremos isso apenas como mais uma overdose.”

“Não é uma teoria maluca”, disse Hernandez. “Vamos ver se podemos fazer uma busca por alguém na área usando um par de Hardwoods.”

“Se Lionel não sofreu uma overdose, então como o assassino o matou?”, Reid pensou. “Eu não vejo nenhum sangue.”

“Eu acho que é uma ótima pergunta... para o médico-legista”, disse Hernandez, sorrindo enquanto voltava para o outro lado da fita da polícia. “Por que não ligamos para um e almoçamos?”

“Eu tenho que correr para o banco”, disse Reid. “Talvez eu encontre você de volta na delegacia.”

“Ok. Parece que somos só você e eu, Jessie”, disse Hernandez. “O que você acha de um cachorro-quente vendido na carrocinha? Eu vi um cara do outro lado da rua mais cedo.”

“Eu sinto que vou me arrepender, mas vou de qualquer maneira, porque não quero parecer uma covarde.”

“Você sabe”, ele apontou, “se você diz que está fazendo isso para que você não se pareça com uma covarde, todo mundo sabe que você está apenas comendo isso pelo crédito. Isso é meio covarde. Apenas uma dica profissional.”

“Obrigado, Hernandez”, respondeu Jessie. “Estou aprendendo todos os tipos de coisas novas hoje.”

“É chamado de treinamento no trabalho”, disse ele, continuando a implicar com ela enquanto caminhavam pelo beco até a rua. “Agora, se você colocar as cebolas e os pimentos no cachorro, poderá ganhar algum crédito na rua.”

“Uau”, disse Jessie, fazendo uma careta. “Como sua esposa gosta de se deitar ao seu lado à noite quando você cheira a essas coisas?”

“Não é um grande problema”, disse Hernandez, e, em seguida, virou-se para o vendedor para fazer seu pedido.

Algo na resposta de Hernandez lhe pareceu estranho. Talvez sua esposa simplesmente não se incomodasse com o cheiro de cebola e pimento na cama. Mas seu tom sugeria que talvez não fosse um grande problema, porque ele e sua esposa não estavam dividindo a cama hoje em dia.

Apesar de sua curiosidade, Jessie deixou para lá. Ela mal conhecia esse homem. Ela não ia interrogá-lo sobre o estado de seu casamento. Mas ela desejava poder, de alguma forma, descobrir se seu instinto estava longe ou se suas suspeitas estavam corretas.

Falando em coragem, o vendedor estava olhando para ela com expectativa, esperando que ela fizesse seu pedido. Ela olhou para o cachorro de Hernandez, transbordando de cebolas, pimentões e o que parecia ser salsa. O detetive estava olhando para ela, claramente pronto para zombar dela.

“Eu vou querer o mesmo que ele”, disse ela. “Exatamente o mesmo.”



*



De volta à delegacia, algumas horas depois, ela estava saindo do banheiro feminino pela terceira vez, quando Hernandez se aproximou com um largo sorriso no rosto. Ela se forçou a parecer casual e ignorou o desconfortável som que vinha da sua barriga.

“Boas notícias”, disse ele, felizmente sem perceber o seu desconforto. “Fomos informados de que alguém foi pego alguns minutos atrás usando Hardwoods que combinam com o tamanho do pé de Lionel, que era tamanho quarenta e oito. A pessoa que está usando os tênis tem pés de tamanho 41. Portanto, isso é - você sabe - algo suspeito. Bom trabalho.”

“Obrigada”, disse Jessie, tentando parecer como se não fosse grande coisa. “Alguma palavra do legista sobre a possível causa da morte?”

“Nada oficial ainda. Mas quando eles viraram Lionel, eles encontraram uma marca maciça no lado de trás de sua cabeça. Portanto, um hematoma subdural não é uma hipótese maluca. Isso explicaria a falta de sangue.”

“Ótimo”, disse Jessie, feliz que sua teoria parecia ter dado certo.

“Sim, exceto que não é tão ótimo assim para a família. A mãe dele estava lá para identificar o corpo e aparentemente ela está totalmente destruída. Ela é mãe solteira. Lembro-me de ler em algum artigo sobre ele que ela chegou a trabalhar em três empregos ao mesmo tempo quando Lionel era criança. Ela devia pensar que seria capaz de ter um descanso uma vez que ele alcançasse o sucesso. Mas não foi bem assim.”

Jessie não sabia o que dizer em resposta, então simplesmente assentiu e ficou em silêncio.

“Estou encerrando o dia”, disse Hernandez abruptamente. “Alguns de nós estão saindo para uma bebida, se você quiser se juntar. Você definitivamente merece eu que te pague uma.”

“Eu iria, mas devo ir a um clube hoje à noite com minha colega de apartamento. Ela acha que é hora de eu voltar ao namoro.”

“Você acha que é hora?”, Hernandez perguntou, levantando as sobrancelhas.

“Eu acho que ela é implacável e não vai deixar isso para lá a menos que eu saia pelo menos uma vez, mesmo que seja em uma noite de segunda-feira. Isso deve me dar algumas semanas de paz antes de ela começar a insistir de novo.”

“Bom, divirta-se”, disse ele, tentando parecer otimista.

“Obrigada. Tenho certeza que não vou me divertir.”




CAPÍTULO SEIS


O clube estava barulhento e escuro e Jessie podia sentir uma dor de cabeça chegando.

Uma hora atrás, quando ela e Lacy estavam se preparando, as coisas pareciam muito mais promissoras. O entusiasmo de sua amiga era contagiante e ela se viu quase ansiosa pela noite, enquanto elas colocavam os vestidos e se penteavam.

Quando elas saíram do apartamento, Jessie não podia dizer que discordava da afirmação de Lacy de que ela estava “super gata”. Ela estava usando a saia vermelha com a fenda na coxa, a que ela nunca conseguira usar em sua breve mas tumultuada existência suburbana em Orange County. Ela usava um top preto sem mangas que acentuava o tônus muscular que havia adquirido durante a fisioterapia.

Ela até se dignou a colocar um par de saltos altos negros, de oito centímetros, que oficialmente a colocava a mais de um metro e oitenta e no clube de mulheres Amazonas ao lado de Lacy. Originalmente ela usava o cabelo castanho para cima, mas sua companheira de apartamento especialista em moda a convenceu a deixá-lo cair, de modo que ele passava em cascata pelos ombros até a parte superior das costas. Olhando no espelho, ela não achou totalmente ridículo quando Lacy disse que elas pareciam uma dupla de modelos aproveitando a noite.

Mas uma hora depois, seu humor havia azedado. Lacy estava se divertindo muito, brincando de flertar com caras que ela não estava interessada e flertando seriamente com garotas que ela efetivamente estava. Jessie se viu no bar conversando com o barman, que obviamente estava bem treinado em entreter garotas que não estavam acostumadas com aquilo tudo.

Ela não sabia quando havia se tornado tão sem graça. Era verdade que ela não sabia o que era ser solteira em quase uma década. Mas ela e Kyle saíam exatamente para esse tipo de clube quando moravam aqui, antes da mudança para Westport Beach. Ela nunca havia se sentido fora do lugar.

Na verdade, ela adorava conferir o novo centro de Los Angeles - “CLA” para os locais - clubes, bares e restaurantes, alguns dos quais pareciam abrir a cada semana. Os dois costumavam entrar e dominar os locais, experimentando o item de menu ou bebida menos convencional, dançando no meio do clube, ignorando os olhares duvidosos. Ela não sentia falta de Kyle, mas ela tinha que admitir que sentia falta da vida que eles haviam compartilhado juntos antes de tudo ter ido por água abaixo.

Um rapaz, provavelmente com menos de vinte e cinco anos, aproximou-se dela e sentou no banco vazio à sua esquerda. Ela deu uma rápida olhada pelo espelho do bar, discretamente avaliando-o.

Fazia parte de um jogo particular que ela gostava de brincar consigo mesma. Ela informalmente o chamava de 'Previsão de Pessoas'. Nele, ela tentaria adivinhar o máximo possível sobre a vida de uma pessoa, com base apenas em como eles pareciam, agiam e falavam. Ela sub-repticiamente deu ao cara um olhar de lado, e ficou encantada ao perceber que o jogo agora tinha benefícios profissionais. Afinal de contas, ela era uma especialista de perfis criminais júnior. Isso era como um trabalho de campo.

O cara era moderadamente atraente, com cabelo loiro e desgrenhado que se espalhava pelo lado direito da testa. Ele estava bronzeado, mas não de um jeito de praia. Era demasiado uniforme e perfeito. Ela suspeitou que ele frequentava um salão de bronzeamento periodicamente. Ele estava em boa forma, mas parecia quase estranhamente magro, como um lobo que não comia há algum tempo.

Ele claramente vinha do trabalho, pois ainda estava de 'uniforme' - roupa, sapatos brilhantes, gravata levemente solta para mostrar que estava relaxado. Estava chegando às dez da noite e se aquela era a hora que ele saía do trabalho, dava a entender que ele trabalhava em uma função que exigia longas horas no escritório. Talvez finanças, embora isso geralmente significasse iniciar o trabalho mais cedo em vez de sair tarde da noite.

Ele provavelmente seria um advogado. Mas não para o governo; talvez um associado em seu primeiro ano em alguma empresa chique em um arranha-céu próximo, onde o estavam fazendo trabalhar até a morte. Ele era bem pago, como mostrava o terno sob medida. Mas ele não tinha muito tempo para aproveitar os frutos de seu trabalho.

Ele parecia estar decidindo qual cantada usar nela. Ele não podia lhe oferecer uma bebida, pois ela já tinha uma que ainda estava meio cheia. Jessie decidiu dar-lhe uma mão.

“Que empresa?”, ela perguntou, virando-se para encará-lo.

“O que?”

“Com que empresa de advocacia você está?”, ela repetiu, quase gritando para ser ouvida sobre a música pulsante.

“Benson & Aguirre”, ele respondeu em um sotaque da Costa Leste que ela não conseguia identificar. “Como você sabia que eu era advogado?”

“Palpite de sorte; parece que eles estão realmente exigindo de você até o osso. Você acabou de sair?”

“Cerca de meia hora atrás”, disse ele, sua voz com um sotaque mais da região do médio-Atlântico do que Nova York. “Estou ansioso por uma bebida há cerca de três horas. Eu poderia realmente virar um copo de raspinhas de gelo, mas acho que isso aqui vai ter que cumprir o trabalho.”

Ele tomou um gole de sua garrafa de cerveja.

“Como Los Angeles se compara à Filadélfia?”, Jessie perguntou. “Eu sei que faz menos de seis meses, mas você sente que está se ajustando bem?”

“Eita, que diabos? Você é algum tipo de detetive particular? Como você sabe que eu sou da Filadélfia e só me mudei para cá em agosto?”

“É um tipo de talento que eu tenho. Eu sou Jessie, a propósito”, ela disse, estendendo a mão.

“Doyle”, disse ele, cumprimentando de volta. “Você vai me dizer como você faz esse truque? Porque eu estou meio que pirando aqui.”

“Eu não gostaria de estragar o mistério. O mistério é muito importante. Deixe-me fazer mais uma pergunta, apenas para completar o cenário. Você foi para Temple ou Villanova para estudar Direito?”

Ele olhou para ela com a boca aberta. Depois de piscar algumas vezes, ele se recuperou.

“Como você sabe que eu não fui para Penn?”, ele perguntou, fingindo insulto.

“Não, você não pediu nenhuma raspadinha de gelo na Penn. Qual foi?”

“'Nova com orgulho, baby!”, ele gritou. “Vamos, Wildcats!”

Jessie assentiu apreciativamente.

“Eu sou uma Trojan”, disse ela.

“Oh, caramba. Você foi para a USC? Você ouviu falar sobre aquele cara Lionel Little - ex-jogador de basquete lá? Ele foi morto hoje.”

“Eu ouvi”, disse Jessie. “Triste história.”

“Ouvi dizer que ele foi morto por causa dos tênis”, disse Doyle, balançando a cabeça. “Você pode acreditar nisso?”

“Você deveria cuidar dos seus sapatos, Doyle. Eles não parecem baratos também.”

Doyle olhou para baixo, depois se inclinou e sussurrou no ouvido dela: “Oitocentos dólares.”

Jessie assobiou com espanto falso. Ela estava perdendo rapidamente o interesse por Doyle, cuja exuberância juvenil começava a ser dominada por sua auto-satisfação infantilizada.

“Então, qual é a sua história?”, ele perguntou.

“Você não quer tentar adivinhar?”

“Oh cara, eu não sou tão bom nisso.”

“Experimente, Doyle”, ela persuadiu. “Você pode se surpreender. Além disso, um advogado precisa ser perceptivo, certo?”

“Isso é verdade. Ok, vou tentar. Eu diria que você é uma atriz. Você é bonita o suficiente para ser uma. Mas o centro de Los Angeles não é realmente um território de atriz. Isso é mais parecido com Hollywood e fica para oeste. Modelo talvez? Você poderia ser. Mas você parece muito inteligente para ser essa sua principal coisa, em sua carreira. Talvez você tenha feito sido uma modelo quando era adolescente, mas agora você está fazendo algo mais profissional. Oh, eu entendi, você está em relações públicas. É por isso que você é tão boa em ler as pessoas. Estou certo? Eu sei que estou.”

“Bastante perto, Doyle. Mas não é bem assim.”

“Então o que você faz?”, ele perguntou.

“Eu sou uma especialista em perfis criminais no Departamento da Polícia de Los Angeles.”

Ela gostou de dizer isso em voz alta, especialmente quando ela viu os olhos dele se arregalarem em choque.

“Como aquele programa de TV, Mindhunter?”

“Sim, tipo isso. Eu ajudo a polícia a entrar na cabeça dos criminosos para que eles tenham mais chances de pegá-los.”

“Uau. Então você caça assassinos em série e essas coisas?”

“Já há algum tempo”, disse ela, deixando de mencionar que sua busca era por um assassino em série em particular e que não tinha nada a ver com o trabalho.

“Fantástico. Que trabalho legal.”

“Obrigado”, disse Jessie, sentindo que ele finalmente havia construído a coragem para perguntar o que já estava em sua mente há algum tempo.

“Então qual é o seu negócio? Você é solteira?”

“Divorciada, na verdade.”

“Mesmo?”, ele perguntou. “Você parece muito jovem para ser divorciada.”

“Eu sei, certo? Circunstâncias incomuns. Não deu certo.”

“Eu não quero ser rude, mas posso perguntar - o que era tão incomum? Quero dizer, você parece um ótimo partido. Você é uma psicopata ou algo assim?”

Jessie sabia que ele não estava perguntando por mal. Ele estava genuinamente interessado tanto na resposta quanto nela, mas ele simplesmente tinha acabado horrivelmente com todas as chances. Ela sentiu todo o seu interesse restante em Doyle escorrer para longe dela naquele momento. No mesmo instante, o peso do dia e o desconforto de seus saltos altos se fizeram presentes. Ela decidiu encerrar a noite repentinamente.

“Eu não me chamaria de psicopata, Doyle. Estou definitivamente danificada, ao ponto de acordar gritando na maioria das noites. Mas psicopata? Eu não diria isso. Basicamente nos divorciamos porque meu marido era um sociopata que assassinou uma mulher com quem ele estava dormindo, tentou incriminar-me e, finalmente, tentou matar a mim e a dois dos nossos vizinhos. Ele realmente abraçou a coisa de 'até que a morte nos separe'.”

Doyle olhou para ela, sua boca tão aberta que poderia ter pego moscas. Ela esperou que ele se recuperasse, curiosa para ver o quão suavemente ele se retiraria dali. Não muito suavemente, como se viu logo.

“Oh, isso realmente é uma droga. Gostaria de perguntar mais sobre isso, mas acabei de me lembrar que tenho um depoimento bem cedo amanhã. Eu provavelmente deveria chegar em casa. Espero ver você por aí alguma outra vez.”

Ele já estava fora do banquinho e a meio caminho da porta antes que ela pudesse dizer um “Tchau, Doyle”.



*



Jessica Thurman puxou o cobertor para cobrir seu pequeno corpo meio gelado. Ela estava sozinha na cabana com a mãe morta há três dias. Ela estava tão delirante por falta de água, calor e interação humana que às vezes pensava que sua mãe estava falando com ela, mesmo enquanto o seu cadáver permanecia caído, imóvel, com os braços no ar presos por algemas às vigas do telhado de madeira.

De repente, houve pancadas na porta. Alguém estava do lado de fora da cabana. Não poderia ser o pai dela. Ele não tinha razão para bater. Ele entraria em qualquer lugar que quisesse quando quisesse.

O barulho veio de novo, só que desta vez parecia diferente. Havia um som de sineta misturado. Mas isso não fazia sentido. A cabana não tinha uma campainha. A sineta veio de novo, desta vez sem nenhuma pancada.

De repente, os olhos de Jessie se abriram. Ela estava lá deitada na cama, permitindo que seu cérebro processasse por um segundo que o toque de sineta que ouvira tinha vindo de seu celular. Ela se inclinou para pagá-lo, notando que apesar de seu coração estar acelerado e sua respiração ser curta e rápida no peito, ela não estava tão suada como de costume após um pesadelo.

Era o detetive Ryan Hernandez. Quando atendeu a chamada, ela olhou para a hora: 2:13 da madrugada.

“Olá”, disse ela, quase sem embaralhos em sua voz.

“Jessie. É Ryan Hernandez. Desculpe ligar, mas recebi uma ligação para investigar uma morte suspeita em Hancock Park. Garland Moses não faz mais as chamadas noturnas e todos os outros já estão ocupados. Você está interessada?”

“Claro”, respondeu Jessie.

“Se eu lhe enviar o endereço, você consegue estar aqui em trinta minutos?”, ele perguntou.

“Consigo estar aí em quinze.”




CAPÍTULO SETE


Quando Jessie parou em frente à mansão em Lucerne Blvd. às 2h29 da madrugada, já havia vários carros da polícia, uma ambulância e um veículo de um médico legista na frente. Ela saiu e caminhou em direção à porta da frente, tentando parecer o mais profissional possível, dadas as circunstâncias.

Os vizinhos estavam na calçada, muitos envoltos em roupões para se proteger do frio da noite. Esse tipo de coisa não era típico de um bairro rico como Hancock Park. Aninhado entre Hollywood ao norte e o distrito de Mid-Wilshire ao sul, era um enclave tradicionalmente rico de Los Angeles; ou pelo menos tão tradicional como qualquer coisa em uma cidade tão despreocupada com a tradição histórica poderia ser.

As pessoas que moravam aqui não eram as estrelas de cinema ou os magnatas de Hollywood que se poderiam encontrar em Beverly Hills ou Malibu. Essas eram as casas dos herdeiros ricos, que poderiam ou não ter um emprego. Se o tivessem, muitas vezes era apenas para evitar o tédio. Mas eles não precisavam se preocupar em ficar entediados esta noite. Afinal, um deles estava morto e todos estavam curiosos para saber quem.

Jessie sentiu um pouco de emoção ao subir as escadas até a porta da frente, que estava marcada com fita amarela da polícia. Esta era a primeira vez que ela chegava a uma cena de crime desacompanhada por um detetive. E isso significava que era a primeira vez que ela teria que mostrar suas credenciais para acessar uma área restrita.

Ela se lembrava de ter ficado super animada quando tinha recebido as credenciais. Ela até treinou exibi-las para Lacy algumas vezes no apartamento. Mas agora, enquanto procurava atrapalhada as credenciais no bolso do casaco, tentando encontrá-las, ela se sentia surpreendentemente nervosa.

Ela não precisava daquele nervosismo, afinal. O oficial no topo da escada mal olhou para as credenciais quando puxou a fita da polícia e a deixou passar.

Jessie encontrou Hernandez e outro detetive dentro do hall de entrada da casa. O homem mais jovem parecia que estava ali somente por obrigação. A antiguidade do detetive Reid deve ter permitido que ele recusasse esse chamado. Jessie se perguntou por que Hernandez também não havia usado sua patente para se livrar daquilo. Ele a viu e acenou para ela entrar.

“Jessie Hunt, não sei se você já conhece o detetive Alan Trembley. Ele era o detetive de plantão esta noite e ele estará trabalhando no caso comigo.”

Enquanto Jessie apertava a mão dele, ela não pôde deixar de notar que, com seu desgrenhado e encaracolado cabelo loiro e os óculos pela metade do nariz, ele parecia tão disperso quanto ela.

“Nossa vítima está na casa da piscina”, disse Hernandez enquanto começava a andar, liderando o caminho. “O nome dela é Victoria Missinger. Trinta e quatro anos de idade. Casada. Sem filhos. Ela está em um canto pequeno e oculto da sala principal, o que pode ajudar a explicar por que demorou tanto para encontrá-la. Seu marido ligou esta tarde, dizendo que ele não tinha sido capaz de contatá-la por horas. Havia alguma preocupação de que poderia ter sido uma situação de sequestro, então uma busca dentro da casa não foi feita até algumas horas atrás. Seu corpo foi encontrado por um cão farejador de cadáveres.”

“Jesus”, Trembley murmurou baixinho, fazendo Jessie se perguntar o quão experiente ele era para ser desencadeado pela noção de um cão farejador de cadáver.

“Como ela morreu?”, ela perguntou.

“O legista ainda está no local e nenhum trabalho de sangue foi feito ainda. Mas a teoria inicial é uma overdose de insulina. Uma agulha foi encontrada perto do corpo. Ela era diabética.”

“Você pode morrer de uma overdose de insulina?”, Trembley perguntou.

“Claro, se não for tratada”, disse Hernandez enquanto caminhavam por um longo corredor da casa principal em direção à porta dos fundos. “E parece que ela esteve sozinha na casa da piscina por horas.”

“Parece que estamos lidando com muitos incidentes relacionados a agulhas ultimamente, detetive Hernandez”, observou Jessie. “Você sabe, eu gostaria de lidar com algum tiroteio de vez em quando.”

“Coincidência pura, asseguro-lhe”, respondeu ele, sorrindo.

Eles saíram e Jessie percebeu que a enorme casa escondia um quintal nos fundos ainda maior. Uma enorme piscina ocupava metade do espaço. Depois da piscina, ficavaa casa da piscina. Hernandez foi para lá e os outros dois seguiram.

“O que faz você suspeitar que não foi apenas um acidente?”, Jessie perguntou a ele.

“Ainda não tirei nenhuma conclusão”, respondeu ele. “O médico poderá nos contar mais pela manhã. Mas a Sra. Missinger teve diabetes toda sua vida e, de acordo com o marido, ela nunca tinha sofrido um acidente como esse antes. Parece que ela sabia como cuidar de si mesma.”

“Você já falou com ele?”, Jessie perguntou.

“Não”, respondeu Hernandez. “Um policial recebeu sua declaração inicial. Ele está atualmente recebendo cuidados na sala de café da manhã. Conversaremos com ele depois que eu te mostrar a cena.”

“O que sabemos sobre ele?”, Jessie perguntou.

Michael Missinger, trinta e sete anos de idade. Herdeiro da fortuna da Petrolífera Missinger. Ele vendeu seu quinhão há sete anos e criou um fundo multimercado de cobertura que investe exclusivamente em tecnologias amigas do ambiente. Ele trabalha no centro da cidade, em uma cobertura de um desses prédios que você tem que esticar o pescoço para ver o topo.”

“Algum antecedente?”, Trembley perguntou.

“Você está de brincadeira?”, Hernandez zombou. “No papel, esse cara é tão santo quanto o Papa. Nenhum escândalo pessoal. Sem problemas financeiros. Nem mesmo uma multa de trânsito. Se ele tem segredos, eles estão bem escondidos.”

Eles chegaram à casa da piscina. Um policial uniformizado puxou a fita de isolamento para que eles pudessem entrar. Jessie seguiu Hernandez, que assumiu a liderança. Trembley acompanhou na retaguarda.

Quando Jessie entrou, tentou limpar a cabeça de todo pensamento estranho. Este era seu primeiro caso de assassinato em potencial e ela não queria distrações que a tirassem do trabalho. Ela queria se concentrar exclusivamente naquele entorno.

A casa da piscina estava toda decorada com glamour do velho mundo. Parecia com as cabanas que Jessie imaginava que as estrelas de cinema da década de 1920 usavam quando visitavam a praia. O longo sofá na parte de trás da sala principal tinha uma estrutura de madeira, mas tinha almofadas luxuosas que pareciam extremamente confortáveis para um cochilo.

A mesa de café parecia ter sido feita à mão a partir de madeira recuperada. Alguma dessa madeira parecia ser de antigas seções de cascos de barcos. A arte nas paredes parecia ser de origem Polinésia. No canto mais distante da sala havia uma mesa de sinuca. A TV de tela plana estava escondida atrás de uma cortina bege espessa e sedosa que Jessie suspeitava que poderia custar mais do que seu Mini Cooper estacionado na frente. Não havia sinal de que algo desagradável tivesse acontecido aqui.

“Onde está o recanto escondido?”, ela perguntou.

Hernandez conduziu-os além do bar que corria ao longo da parede próxima. Jessie viu mais fita policial na frente do que parecia ser um closet para panos e toalhas. Hernandez retirou-a e abriu a porta do closet com uma mão enluvada. Então ele entrou e parecia que havia sumido.

Jessie seguiu e viu que o closet, de fato, tinha prateleiras com toalhas e alguns produtos de limpeza. Mas quando se aproximou, viu uma abertura estreita à direita entre a porta e as prateleiras. Parecia haver uma porta de correr feita de madeira que deslizava para dentro da parede.

Jessie colocou um par de luvas e a deslizou, fechando a tal porta. Para um olho sem discernimento, aquilo parecia apenas outro painel na parede. Ela a abriu de novo deslizando e entrou na pequena sala onde Hernandez estava esperando.

Não havia muito lá - apenas um pequeno sofá e uma pequena mesa de madeira ao lado. No chão havia uma lâmpada que aparentemente fora derrubada. Alguns cacos tinham quebrado e se acomodado no carpete branco e macio.

Victoria Missinger estava desmoronada no sofá em uma pose relaxada que poderia ser facilmente confundida com estar dormindo. E uma agulha estava na almofada ao lado dela.

Mesmo morta, Victoria Missinger era uma mulher bonita. Era difícil avaliar sua altura, mas ela era elegante, com a aparência de uma mulher que se encontrava regularmente com seu treinador. Jessie fez uma nota mental para investigar mais sobre isso.

Sua pele era sedosa e vibrante, mesmo quando o rigor mortis estava se instalando. Jessie só podia imaginar como era sua pele quando ela estava viva. Ela tinha longos cabelos loiros que cobriam parte do rosto, mas não o suficiente para obscurecer sua perfeita estrutura óssea.

“Ela era bonita”, Trembley disse, sem qualquer empolgação.

“Você acha que houve uma luta?”, Jessie perguntou a Hernandez, apontando com a cabeça para a lâmpada quebrada no carpete.

“É difícil ter certeza. Ela poderia ter apenas esbarrado tentando se levantar. Ou pode significar que houve algum tipo de briga.”

“Eu sinto que você tem uma opinião, mas está se segurando”, Jessie pressionou.

“Bem, como eu disse, detesto tirar conclusões cedo demais. Mas achei isso um pouco estranho”, disse ele, apontando para o carpete.

“O que?”, ela perguntou, incapaz de discernir qualquer coisa notável além de quão grosso o carpete era.

“Vocês vêem como os nossos passos fazem marcas fundas nesse carpete?”

Jessie e o detetive Trembley assentiram.

“Quando chegamos pela primeira vez depois que o cachorro a encontrou, não havia pegadas.”

“Nem mesmo dela?”, Jessie perguntou, começando a entender.

“Não”, respondeu Hernandez.

“O que isso significa?”, Trembley perguntou, não entendendo ainda.

Hernandez o esclareceu.

“Isso significa que ou o luxuoso carpete aqui tem capacidades únicas de voltar à forma ou alguém o aspirou depois do fato, com o intuito de esconder a existência de pegadas além das de Victoria.”

“Isso é interessante”, disse Jessie, impressionada com a atenção do detetive Hernandez aos detalhes. Ela se orgulhava de ler as pessoas, mas nunca teria percebido uma pista física como essa. Lembrou-se de que aquele era o homem que ajudara a pegar Bolton Crutchfield e que ela não deveria subestimar suas habilidades. Ela poderia aprender muito com ele.

“Você achou algum aspirador?”, Trembley perguntou.

“Não aqui”, disse Hernandez. “Mas os caras estão verificando a casa principal.”

“É difícil imaginar que qualquer um dos Missingers tenha feito um monte de tarefas domésticas”, concluiu Jessie.”Eu me pergunto se eles sabem até mesmo onde o aspirador fica guardado. Eu suponho que eles têm uma empregada doméstica?”

“Eles tem, realmente”, disse Hernandez. “O nome dela é Marisol Mendez. Infelizmente, ela está fora da cidade durante toda a semana, de férias em Palm Springs, aparentemente.”

“Portanto, a empregada está fora”, disse Trembley. “Alguém mais trabalha por aqui? Eles devem ter uma tonelada de funcionários.”

“Não tanto quanto você pode pensar”, disse Hernandez. “Seu paisagismo é em grande parte resistente à seca, então eles só têm um jardineiro vindo duas vezes por mês para manutenção. Eles têm uma empresa de gerenciamento de piscinas e Missinger diz que vem uma pessoa uma vez por semana, às quintas-feiras.”

“Então, quem é que sobra?”, Trembley perguntou, com medo de expressar a resposta clara por medo de ser óbvia demais.

“Isso nos deixa com a mesma pessoa com quem começamos”, disse Hernandez, sem medo de dizer. “O marido.”

“Ele tem um álibi?”, Jessie perguntou.

“Isso é exatamente o que vamos descobrir”, Hernandez respondeu enquanto puxava o rádio e falava nele. “Nettles, levem o Missinger para a delegacia para ser questionado. Não quero que ninguém mais lhe faça nenhuma pergunta até o levarmos até uma sala de interrogatório.”

“Desculpe, detetive”, veio uma voz estupefata e apreensiva sobre o rádio. “Mas alguém já fez isso. Ele está a caminho agora.”

“Droga”, Hernandez amaldiçoou quando desligou o rádio. “Nós temos de ir agora.”

“Qual é o problema?”, Jessie perguntou.

“Eu queria estar lá esperando quando Missinger chegasse à delegacia - para ser o bom policial, sua tábua de salvação, sua caixa de ressonância. Mas se ele chegar lá primeiro e vir todos os uniformes azuis, armas de fogo e luzes fluorescentes, vai se assustar e pedir para ver seu advogado antes que eu possa perguntar qualquer coisa. Quando isso acontecer, nunca conseguiremos nada útil dele.”

“Então é melhor nos mexermos”, disse Jessie, passando por ele e saindo pela porta.




CAPÍTULO OITO


Quando chegaram à delegacia, Missinger já estava lá há dez minutos. Hernandez ligou antecipadamente e ordenou que o sargento da recepção o levasse para a sala da família, destinada a vítimas de crimes e famílias do falecido. Era um pouco menos estéril que o resto da delegacia, com dois sofás velhos, algumas cortinas nas janelas e algumas revistas já de alguns meses na mesinha de centro.

Jessie, Hernandez e Trembley correram para a porta da sala da família, onde um policial alto estava de guarda do lado de fora.

“Como ele está se saíndo lá dentro?”, perguntou Hernandez.

“Bem. Infelizmente, ele exigiu o advogado assim que atravessou a porta da frente.”

“Ótimo”, cuspiu Hernandez. “Há quanto tempo ele está esperando para fazer a ligação?”

“Ele já fez, senhor”, disse o policial, claramente desconfortável.

“O que? Quem deixou ele fazer isso?”

“Eu deixei, senhor. Eu não deveria?”

“Há quanto tempo você está na polícia... Beatty?”, Hernandez perguntou, olhando para o crachá na camisa do cara.

“Quase um mês, senhor.”

“Ok, Beatty”, disse Hernandez, claramente tentando manter sua frustração sob controle. “Não há nada que possa ser feito agora. Mas no futuro, você não precisa levar imediatamente um suspeito em potencial ao telefone no momento em que ele o solicitar. Você pode colocá-lo em uma sala e dizer a ele que você vai arranjar isso. “Arranjar isso” pode demorar alguns minutos, talvez até uma ou duas horas. É uma tática para nos dar tempo para desenvolver uma estratégia e manter o suspeito inseguro. Por favor, tente se lembrar disso no futuro?”

“Sim, senhor”, disse Beatty timidamente.

“Ok. Por enquanto, leve-o para uma sala de interrogatório aberta. Nós provavelmente não temos muito tempo antes que seu advogado chegue aqui. Mas eu gostaria de usar o que temos para pelo menos ter uma noção do cara. E Beatty, quando você estiver levando ele, não responda a nenhuma de suas perguntas. Basta colocá-lo em uma sala e sair, entendeu?”

“Sim senhor.”

Quando Beatty entrou na sala da família para pegar Missinger, Hernandez levou Jessie e Trembley para a sala de descanso.

“Vamos dar-lhe um minuto para se instalar”, disse Hernandez. “Trembley e eu vamos entrar. Jessie, você deveria assistir atrás do espelho. É tarde demais para fazer perguntas importantes, mas podemos tentar estabelecer algum tipo de relacionamento com o cara. Ele não precisa nos dizer nada. Mas nós podemos dizer muito. E isso pode ter um efeito sobre ele. Precisamos que ele se sinta tão inseguro quanto possível antes que seu advogado chegue e comece a deixá-lo à vontade. Precisamos plantar pequenas dúvidas na mente dele, de modo que ele se pergunte se talvez sejamos melhores aliados para ele do que seu advogado bem pago. Nós não temos muito tempo para fazer isso, portanto vamos entrar lá.”

Jessie foi até a sala de observação e sentou-se. Era sua primeira chance de dar uma olhada em Michael Missinger, que estava em pé desajeitadamente em um canto. Verdade seja dita, ele era mais bonito que a esposa dele tinha sido. Mesmo às três da manhã, vestindo jeans e um moletom que ele deve ter vestido no último minuto, ele parecia ter acabado de sair de uma sessão de fotos.

Seu cabelo loiro curto e descolorido pelo sol estava desgrenhado o suficiente para parecer despretensioso, mas não tanto para parecer desleixado. Sua pele estava bronzeada em partes, mas branca em outras, sinal de um surfista regular.

Ele era alto e magro, com a aparência de um cara que não precisava se esforçar muito para conseguir isso. A vermelhidão e o inchaço de seus olhos azuis - provavelmente do choro - não os deixavam menos lindos. Jessie tinha que admitir, apesar de tudo, que se esse cara tivesse se aproximado dela no bar na noite anterior, ela não teria sido tão arrogante com ele. Mesmo o fato de ele estar nervosamente mudando seu pé de apoio, de um para o outro, era frustantemente cativante.

Depois de alguns segundos, Hernandez e Trembley entraram. Eles pareciam menos impressionados.

“Sente-se, senhor Missinger “, disse Hernandez, fazendo a instrução soar quase acolhedora. “Nós sabemos que você pediu seu advogado, o que é bom. Julgo ele está a caminho. Nesse ínterim, queríamos lhe atualizar sobre o andamento da nossa investigação. Deixe-me primeiro começar oferecendo minhas condolências pela sua perda.”

“Obrigada”, Missinger disse em uma voz ligeiramente rouca que Jessie não tinha certeza se era permanente ou um resultado do estresse da noite.

“Então, ainda não sabemos se isso foi um crime”, continuou Hernandez, sentando-se em frente a ele. “Mas julgo que você disse a um dos nossos policiais que Victoria era extremamente proficiente em controlar a diabetes e que você não tem memória de um incidente como este no passado.”

“Eu ...”, Missinger começou.

“Não precisa responder, senhor Missinger”, interrompeu Hernandez. “Eu não quero ser acusado de violar seus direitos, que eu entendo terem sido lidos para você, correto?”

“Sim.”

“Claro, isso é tudo normal. E embora não o vejamos como suspeito, você está correto em exercer seu direito de solicitar seu advogado. Mas, do nosso ponto de vista, estamos tentando nos mover o mais rápido possível para chegar ao fundo disso. Tempo é essencial. Então, quanto mais detalhes pudermos confirmar, como o que você compartilhou sobre a habilidade de Victoria com a automedicação, menor a probabilidade de irmos a becos sem saída. Isso faz sentido?”

Missinger assentiu. Trembley estava em silêncio ao lado, como se não tivesse certeza se ou quando deveria entrar.

“Então”, Hernandez continuou, “também apenas confirmando, você disse que sua governanta, Marisol, está de férias esta semana em Palm Springs. Você deu o número de celular dela para um policial e acredito que estamos entrando em contato com ela. A propósito, sem formalmente responder, se você achar que estou afirmando algo impreciso, talvez você possa me alertar de tal fato. Não há necessidade de responder a quaisquer perguntas, é claro. Apenas me guie na direção certa se eu sair do curso. Justo?”

“Justo”, concordou Missinger.

“Ótimo. Estamos fazendo progresso aqui. Sabemos que você tentou entrar em contato com Victoria várias vezes ao longo da tarde e ela nunca respondeu. Pelo que sei,você chegou em casa no final da tarde de ontem para vocês irem juntos jantar a um restaurante que haviam reservado. Você avistou o carro de Victoria, mas não ela, e se preocupou o suficiente para chamar a polícia. Se eu estou entendendo errado, basta tocar com o dedo na mesa ou algo para me avisar.”

Hernandez continuou a percorrer os acontecimentos cronologicamente, mas Jessie não estava mais ouvindo com total atenção. Ela notara alguma coisa durante a última fala e se perguntou se o que ela vira tinha sido real ou imaginado. Bem no momento em que Hernandez disse ‘ao longo da tarde’, Michael Missinger se encolheu um pouco, quase de forma reflexiva. Não quando Hernandez disse ‘você tentou entrar em contato’. Não quando ele disse ‘ela nunca respondeu’. Apenas com as palavras ‘ao longo da tarde’.




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