Ascensão
Morgan Rice


“A TRANSMISSÃO é uma história fascinante, inesperada e firmemente enraizada em fortes perfis psicológicos apoiados em elementos de suspense e ficção científica: que mais poderiam os leitores desejar? (Apenas a publicação rápida do Livro Dois, Chegada.)”--Midwest Book ReviewDa autora de fantasia bestselling nº1 do mundo inteiro chega o terceiro livro numa nova série de ficção científica há muito esperada. Com o planeta Terra destruído, o que vai ser de Kevin, de 13 anos, e de Chloe na nave principal?Será que os alienígenas os vão escravizar? O que é que eles pretendem? Há alguma hipótese de fugir?E será que Kevin e Chloe alguma vez irão regressar à Terra?“Repleta de ação... A escrita de Rice é sólida e a premissa intrigante."--Publishers Weekly (referente a Uma Busca de Heróis)“Uma fantasia superior… Um vencedor recomendado para quem gosta de escrita de fantasia épica impulsionada por poderosos e credíveis protagonistas jovens adultos.”–Midwest Book Review (referente a Ascensão dos Dragões)“Uma fantasia repleta de ação que irá certamente agradar aos fãs das histórias anteriores de Morgan rice, juntamente com os fãs de trabalhos tais como O CICLO DA HERANÇA de Christopher Paolini…Os fãs de ficção para jovens adultos irão devorar este último trabalho de Rice e suplicar por mais.”--The Wanderer, A Literary Journal (referente a Ascensão dos Dragões)O livro #4 da série estará disponível brevemente.Também estão disponíveis muitas outras séries de Morgan Rice do género de fantasia, incluindo UMA BUSCA DE HERÓIS (LIVRO #1 da série o ANEL DO FEITICEIRO), com mais de 1.300 avaliações com 5 estrelas!







ASCENSÃO



(AS CRÔNICAS DA INVASÃO – LIVRO 3)



MORGAN RICE


Morgan Rice



Morgan Rice é a best-seller nº1 e a autora do best-selling do USA TODAY da série de fantasia épica O ANEL DO FEITICEIRO, composta por dezassete livros; do best-seller nº1 da série OS DIÁRIOS DO VAMPIRO, composta por doze livros; do best-seller nº1 da série TRILOGIA DA SOBREVIVÊNCIA, um thriller pós-apocalíptico composto por três livros; da série de fantasia épica REIS E FEITICEIROS, composta por seis livros; da série de fantasia épica DE COROAS E GLÓRIA, composta por oito livros; da série de fantasia épica UM TRONO PARA IRMÃS, composta por 8 livros (a continuar); e da nova série de ficção científica AS CRÓNICAS DA INVASÃO, composta por 3 livros (a continuar). Os livros de Morgan estão disponíveis em edições áudio e impressas e as traduções estão disponíveis em mais de 25 idiomas.



Morgan adora ouvir a sua opinião, pelo que, por favor, sinta-se à vontade para visitar www.morganricebooks.com e juntar-se à lista de endereços eletrónicos, receber um livro grátis, receber ofertas, fazer o download da aplicação grátis, obter as últimas notícias exclusivas, ligar-se ao Facebook e ao Twitter e manter-se em contacto!


Críticas Seletas a Morgan Rice



"Se pensava que já não havia motivo para viver depois do fim da série O ANEL DO FEITICEIRO, estava enganado. Em A ASCENSÃO DOS DRAGÕES Morgan Rice surgiu com o que promete ser mais uma série brilhante, fazendo-nos imergir numa fantasia de trolls e dragões, de valentia, honra, coragem, magia e fé no seu destino. Morgan conseguiu mais uma vez produzir um conjunto forte de personagens que nos faz torcer por eles em todas as páginas… Recomendado para a biblioteca permanente de todos os leitores que adoram uma fantasia bem escrita."

--Books and Movie Reviews, Roberto Mattos



“Uma fantasia repleta de ação que irá certamente agradar aos fãs das histórias anteriores de Morgan rice, juntamente com os fãs de trabalhos tais como O CICLO DA HERANÇA de Christopher Paolini…Os fãs de ficção para jovens adultos irão devorar este último trabalho de Rice e suplicar por mais.”

--The Wanderer, A Literary Journal (referente a Ascensão dos Dragões



"Uma fantasia espirituosa que entrelaça elementos de mistério e intriga no seu enredo. Uma Busca de Heróis tem tudo a ver com a criação da coragem e com a compreensão do propósito da vida que leva ao crescimento, maturidade e excelência… Para os que procuram aventuras de fantasia com sentido, os protagonistas, estratagemas e ações proporcionam um conjunto vigoroso de encontros que se relacionam com a evolução de Thor desde uma criança sonhadora a um jovem adulto que procura sobreviver apesar das dificuldades… Apenas o princípio do que promete ser uma série de literatura juvenil épica."

--Midwest Book Review, D. Donovan, eBook Reviewer



"O ANEL DO FEITICEIRO tem todos os ingredientes para um sucesso instantâneo: enredos, intrigas, mistério, valentes cavaleiros e relacionamentos que florescem repletos de corações partidos, deceções e traições. O livro manterá o leitor entretido por horas e agradará a pessoas de todas as idades. Recomendado para a biblioteca permanente de todos os leitores do género de fantasia."

--Books and Movie Reviews, Roberto Mattos.



"Neste primeiro livro repleto de ação da série de fantasia épica Anel do Feiticeiro (que conta atualmente com 14 livros), Rice introduz os leitores ao Thorgrin "Thor" McLeod de 14 anos, cujo sonho é juntar-se à Legião de Prata, aos cavaleiros de elite que servem o rei... A escrita de Rice é sólida e a premissa intrigante."

--Publishers Weekly


Livros de Morgan Rice



OLIVER BLUE E A ESCOLA DE VIDENTES

A FÁBRICA MÁGICA (Livro 1)

O ORBE DE KANDRA (Livro 2)



AS CRÔNICAS DA INVASÃO

TRANSMISSÃO (Livro 1)

CHEGADA (Livro 2)

ASCENSÃO (Livro 3)



O CAMINHO DA ROBUSTEZ

APENAS OS DIGNOS (Livro n.º 1)



UM TRONO PARA IRMÃS

UM TRONO PARA IRMÃS (Livro n.º 1)

UMA CORTE PARA LADRAS (Livro n.º 2)

UMA CANÇÃO PARA ÓRFÃS (Livro n.º 3)

UMA NÊNIA PARA PRÍNCIPES (Livro n.º 4)

UMA JOIA PARA REALEZAS (Livro n.º 5)



DE COROAS E GLÓRIA

ESCRAVA, GUERREIRA, RAINHA (Livro n.º 1)

VADIA, PRISIONEIRA, PRINCESA (Livro n.º 2)

CAVALEIRO, HERDEIRO, PRÍNCIPE (Livro n.º 3)

REBELDE, PEÃO, REI (Livro n.º 4)

SOLDADO, IRMÃO, FEITICEIRO (Livro n.º 5)

HEROÍNA, TRAIDORA, FILHA (Livro n.º 6)

GOVERNANTE, RIVAL, EXILADA (Livro n.º 7)

VENCEDORA, DERROTADA, FILHO (Livro n.º 8)



REIS E FEITICEIROS

A ASCENSÃO DOS DRAGÕES (Livro n.º 1)

A ASCENSÃO DOS BRAVOS (Livro n.º 2)

O PESO DA HONRA (Livro n.º 3)

UMA FORJA DE VALENTIA (Livro n.º 4)

UM REINO DE SOMBRAS (Livro n.º 5)

A NOITE DOS CORAJOSOS (Livro n.º 6)



O ANEL DO FEITICEIRO

EM BUSCA DE HERÓIS (Livro n.º 1)

UMA MARCHA DE REIS (Livro n.º 2)

UM DESTINO DE DRAGÕES (Livro n.º 3)

UM GRITO DE HONRA (Livro n.º 4)

UM VOTO DE GLÓRIA (Livro n.º 5)

UMA CARGA DE VALOR (Livro n.º 6)

UM RITO DE ESPADAS (Livro n.º 7)

UM ESCUDO DE ARMAS (Livro n.º 8)

UM CÉU DE FEITIÇOS (Livro n.º 9)

UM MAR DE ESCUDOS (Livro n.º 10)

UM REINADO DE AÇO (Livro n.º 11)

UMA TERRA DE FOGO (Livro n.º 12)

UM REINADO DE RAINHAS (Livro n.º 13)

UM JURAMENTO DE IRMÃOS (Livro n.º 14)

UM SONHO DE MORTAIS (Livro n.º 15)

UMA JUSTA DE CAVALEIROS (Livro n.º 16)

O DOM DA BATALHA (Livro n.º 17)



TRILOGIA DE SOBREVIVÊNCIA

ARENA UM: TRAFICANTES DE ESCRAVOS (Livro nº1)

ARENA DOIS (Livro n.º 2)

ARENA TRÊS (Livro n.º 3)



MEMÓRIAS DE UM VAMPIRO

TRANSFORMADA (Livro n.º 1)

AMADA (Livro n.º 2)

TRAÍDA (Livro n.º 3)

DESTINADA (Livro n.º 4)

DESEJADA (Livro n.º 5)

COMPROMETIDA (Livro n.º 6)

PROMETIDA (Livro n.º 7)

ENCONTRADA (Livro n.º 8)

RESSUSCITADA (Livro n.º 9)

COBIÇADA (Livro n.º 10)

PREDESTINADA (Livro n.º 11)

OBCECADA (Livro n.º 12)


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Copyright © 2018 por Morgan Rice. Todos os direitos reservados. Exceto conforme permitido pela Lei de Direitos de Autor dos EUA de 1976, nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, distribuída ou transmitida de qualquer forma ou por qualquer meio, ou armazenada numa base de dados ou sistema de recuperação, sem a autorização prévia da autora. Este e-book está licenciado para o seu uso pessoal. Este e-book não pode ser revendido ou cedido a outras pessoas. Se quiser partilhar este livro com outra pessoa, por favor, compre uma cópia adicional para cada destinatário. Se está a ler este livro e não o comprou, ou se ele não foi comprado apenas para seu uso pessoal, por favor, devolva-o e adquira a sua própria cópia. Obrigado por respeitar o trabalho árduo desta autora. Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, empresas, organizações, lugares, eventos e incidentes são produto da imaginação da autora ou foram usados de maneira fictícia. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou falecidas, é mera coincidência.


ÍNDICE



CAPÍTULO UM (#u3848ae7d-00b7-57d5-a96b-6289c5f5f606)

CAPÍTULO DOIS (#u2ab42086-3338-5a20-b1de-48568d2e6354)

CAPÍTULO TRÊS (#ufd846340-7784-583b-a9bb-8b2d1a63d879)

CAPÍTULO QUATRO (#u38f49790-4be6-5471-9015-1f53e5c865b5)

CAPÍTULO CINCO (#u0e4bf0a3-d847-57b8-bf48-c71ae392cc4e)

CAPÍTULO SEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO SETE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO OITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO NOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZ (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO ONZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DOZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO TREZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO CATORZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO QUINZE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZESSEIS (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZESSTE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZOITO (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO DEZENOVE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E UM (#litres_trial_promo)

CAPÍTULO VINTE E DOIS (#litres_trial_promo)




CAPÍTULO UM


Kevin assistiu, horrorizado, a pequena nave que arrastava ele e Chloe para dentro de si, completamente indefeso enquanto ela os levantava com seu feixe de luz. Eles balançaram no ar, se debatendo inutilmente e ainda assim sendo arrastados.

Tinha tido tanta certeza que iam derrotar os aliens usando o vírus tirado dos poços de alcatrão, mas os aliens tinham devolvido o frasco vazio, quase com desdém.

Mas essa não era a pior parte. A pior parte era que Luna se fora. Transformaram Luna em um deles, e doía mais do que Kevin jamais imaginou que qualquer coisa podia doer.

Chloe gritou ao seu lado enquanto subiam, tropeçando no ar que parecia ter se esquecido qual lado era pra baixo. Kevin podia escutar seu medo, mas também sua raiva.

Metal se fechou a sua volta, e eles despencaram juntos no chão da pequena nave que os havia sugado. Kevin lutou pra se levantar, se preparando, meio esperando ser atacado por alguma força alien.

Em vez disso, se viu de pé no meio de uma sala grande e redonda de paredes brancas. Havia um portal circular no chão que parecia poder se abrir e fechar como a lente de uma câmera, e nada mais.

Chloe andou até uma das paredes e bateu nela com o punho.

“Kevin, o que a gente vai fazer?”

Kevin queria poder responder. Mas depois de tudo que tinha acontecido lá embaixo, não achava que tinha respostas para mais nada.

“Eu não sei,” ele disse.

Chloe bateu na parede de novo, um soco de som surdo contra o interior.

“Chloe, isso não vai—”

De repente, eles estavam de pé sobre o ar. A parede agora era translucida como vidro, e Kevin tinha uma visão clara de Sedona desaparecendo sob seus pés, e a nave maior acima a qual estavam se dirigindo.

De tão perto, Kevin podia ver a porta—mais como uma boca cavernosa— aberta para recebê-los, deixando a nave entrar no que deveria ser um hangar. Alguma coisa ondulou quando eles a atravessaram, algum escudo ou membrana que deveria estar lá para manter a atmosfera presa.

“Incrível,” disse Chloe, arfando.

Kevin teve de concordar. O hangar era grande o suficiente para dúzias de naves, todas conectadas a passarelas. A nave deles se prendeu a uma delas.

Eles frearem subitamente, e uma seção da parede deslizou, revelando uma passagem aberta.

Kevin e Chloe se entreolharam. Por que não foram recebidos? Atacados?

“Eles querem que a gente saia andando?” Chloe perguntou. “Por que não nos mataram ainda?”

Kevin também se perguntava.

“Pode ser uma armadilha,” ele disse.

Ela começou a chorar.

Kevin pôs uma mão no seu braço. Ele sabia como as coisas podiam dar errado, e seus pensamentos se dividiram entre preocupação por ela e apreensão pelo que podia estar acontecendo ali. Por que estavam sozinhos? Por que não foram recebidos pelo equivalente alienígena da polícia ou soldados esperando por eles?

“A gente sai?” Kevin perguntou. “Ou ficamos aqui?”

Ela olhou para ele.

“Nenhuma opção parece segura,” disse.

Chloe deu um passo na direção da entrada, para surpresa de Kevin, e ele a seguiu. Mas ela parou de repente, esbarrando de cara com alguma coisa. Era uma ilusão—uma parede transparente que a impedia de passar, mas permitia que olhasse para fora.

Então a pequena nave deles começou a se mover de novo, lentamente, pelo gigantesco hangar.

Kevin chegou perto e olhou para fora com admiração. O hangar era enorme e arredondado, parecendo tão crescido quanto construído, as paredes pulsando fracamente com poder. Mas além das fileiras e fileiras de naves, o lugar estava vazio.

Não haviam outros prisioneiros, nem máquinas trabalhando, e nem alienígenas.

“Cadê todo mundo?” Chloe perguntou, ecoando seus pensamentos.

Kevin não respondeu, porque estava ocupado olhando para a Terra. Sedona estava abaixo deles, e parecia tão perto, mas tão dolorosamente longe.

“Por que não estamos caindo nessa direção?” ele se perguntou em voz alta.

Chloe franziu o rosto para ele, olhou em volta, e deu de ombros. “Não sei. Talvez a gravidade funcione diferente aqui. Mas ficou meio feliz de não cair.”

Kevin também estava feliz, porque teria sido uma queda muito longa. Demorou um momento para perceber que a cidade parecia estar cada vez mais longe a cada momento, recuando pouco a pouco, os prédios diminuindo até Kevin não poder mais distingui-los.

“Ainda estamos nos movendo!” ele disse. “Estamos indo pro espaço!”

Apesar de tudo, apesar dos horrores que haviam sido impostos ao seu mundo, e o perigo em que provavelmente se encontravam, apesar de terem falhado em destruir os alienígenas, Kevin teve que admitir uma parte de si estava animada. A ideia de finalmente ir para o espaço era quase incrível demais para acreditar.

“Seria legal se não fosse por onde estamos indo,” Chloe apontou.

Kevin pode escutar o medo dela, e até podia sentir um pouco ele mesmo. Se estavam subindo, só havia um lugar aonde poderiam estar indo, e seria um lugar perigoso para os dois. A nave planeta sobrevoava acima, sua superfície rochosa pontuada por torres pontudas como espigas, mas tirando isso, quase completamente lisa.

Era assustador, mas a questão era, também podia ser a melhor chance deles de realmente fazer alguma coisa sobre tudo aquilo.

“Eu sei que você está com medo,” Kevin disse. “Mas não tem nada que a gente possa fazer pra sair daqui. E olhe pelo lado bom: não tínhamos como impedi-los lá na Terra. Talvez a gente consiga aqui em cima.”

Chloe bufou. “De que jeito?”

Kevin deu de ombros. Não sabia ainda. Tinha que ter um jeito. Talvez houvesse uma maneira de desligar as coisas quando os aliens não estivessem olhando. Talvez houvessem meios de expulsá-los, ou lutar contra eles, ou até matá-los.

“Temos que tentar,” Kevin disse.

Não podia deixar de pensar em Luna. O que aconteceu com ela foi muito pior do que ser transportado em uma nave alienígena qualquer.

Eles permaneceram em silêncio, assistindo enquanto a Terra ficava menor e menor lá embaixo. Logo, era do tamanho de uma melancia, então uma bola de baseball, então uma bolinha de gude contra o céu noturno.

Kevin se virou e olhou para a nave mãe. Não tinha percebido direito quão grande o planeta alien era antes, e foi só quando a nave virou e se moveu no espaço que ele teve uma noção real de quão grande ele era.

“É um mundo de verdade,” Kevin disse, incapaz de conter o deslumbramento em sua voz.

“A gente sabia disso,” Chloe disse. “Estava lá em cima no céu.”

“Mas um mundo de verdade...”

Havia uma diferença muito grande entre ver alguma coisa de longe e estar lá. Como a lua, Kevin podia ter coberto a nave planeta com a palma da mão da Terra, mas agora que estavam ali, ela seguia tão longe quanto os olhos podiam ver em todas as direções. Havia estruturas na superfície, embora a maior parte parecesse estéril e vazia, apenas com torres gigantes espetadas como as espinhas de um ouriço do mar. Havia também aberturas como bocas, tão grandes que mesmo uma nave como a deles podia caber sem tocar os lados. Kevin não podia imaginar o que poderia ter talhado aberturas como essas em um mundo, mas no momento eles tinham coisas mais importantes com o que se preocupar.

“Acho que vamos entrar,” Kevin disse. Não apenas no mundo, mas dentro dele, além da casca exterior da superfície.

Chloe não pareceu feliz com isso. “Vamos ficar presos. Nunca vamos achar a saída.”

“Nós vamos,” Kevin assegurou.

Ele tinha que acreditar nisso. A alternativa é que eles se dirigiam as suas mortes conforme a nave que os carregava descia até a superfície do mundo...

...e através dela.

Kevin olhou ao seu redor. Todo interior da nave planeta era como uma casca vazia, e lá dentro havia tudo que Kevin podia esperar da superfície de um planeta. Havia oceanos e massas continentais, veículos andando pra lá e pra cá, e cidades tão enormes que pareciam tomar quase todo pedacinho de terra disponível, transformando a grande nave em uma colmeia gigante de atividade. Espirais se levantavam em pontos diferentes da vasta cidade, douradas e brilhando, parecendo palácios contrastando com o resto. Um grande orbe dourado-avermelhado pulsava no coração do planeta, emitindo calor e luz.

Kevin achou que podia ver figuras lá embaixo, mas ainda estavam muito distantes para distinguir os detalhes.

“Aliens,” Chloe disse, olhando para baixo. “Não pessoas controladas por eles, não mensagem, não só vozes... aliens.”

Kevin entendeu o que ela quis dizer. Todo esse tempo, eles só tiveram pistas dos aliens, visto só os efeitos do que eles podiam fazer. Agora estavam no mundo dos aliens, e ele era enorme.

Sentiram o impacto quando a nave que os carregava se fixou no planeta, estabilizando a vista de uma cidade ao seu redor em que criaturas de tamanhos e formas impossíveis andavam em ângulos estranhos, presos no lugar de lado e de cabeça para baixo, desafiando a gravidade. Ou talvez apenas controlassem a gravidade, de forma que qualquer direção podia ser “pra baixo.”

Dessa vez, a porta abriu de verdade. Kevin podia sentir a leve brisa no rosto, quente e amena, com um cheiro diferente de qualquer coisa que já tinha sentido.

Mas o que mais o surpreendeu foi o que os esperava do outro lado.

Um trio de figuras estava lá, esperando para recebê-los.

Eles eram quase idênticos, o que nesse lugar parecia impossível para Kevin. Eram altos e sem pelos, pálidos, com olhos que lembraram Kevin de uma vespa, exceto por serem de uma cor branca pura, leitosa. Usavam longas vestes por cima de pálidos macacões, e cada um parecia ter uma coleção de dispositivos de metal, e ocasionalmente de carne, ao longo do corpo.

O que estava no centro do trio falou. Suas palavras saíram em Inglês de um tradutor em seu braço, mas Kevin não precisava que traduzissem o tom chato e monótono. Seu cérebro fez isso por ele.

“Bem vindo, Kevin McKenzie. Esperávamos por você.”




CAPÍTULO DOIS


Kevin encarou o alien que tinha falado, tomado de horror.

O alien o encarou de volta com aqueles grandes olhos pálidos, e falou novamente enquanto os dois outros ao seu lado permaneceram em silêncio, as palavras se traduzindo na cabeça de Kevin antes que o tradutor o fizesse.

“Este aqui é Xan Mais Puro da Colmeia,” o alien disse. “Os dois ao lado deste aqui são Ix Mais Puro e Ull Mais Puro. E vocês são Chloe Baxter e Kevin McKenzie, os símios do planeta Terra.”

Kevin estava aturdido. Levaram vários segundos para se recuperar.

“Somos humanos,” Kevin disse, querendo corrigi-los, falar com eles, até persuadi-los. Afinal, estavam falando com ele de um modo que não tinham se dado ao trabalho de falar com mais ninguém.

“Como eu disse,” Xan Mais Puro retrucou, “símios. Criaturas inferiores, mas talvez criaturas de que valha a pena aprender alguma coisa.”

Não havia emoção no jeito que o alien disse isso, mas havia alguma coisa sobre o jeito em que falava sobre aprender deles que deu calafrios na espinha de Kevin.

“O que quer dizer?” Kevin exigiu. “O que vai fazer com a gente?”

“Nossas naves planeta viajam para reunir recursos,” Xan Mais Puro disse. “Tecnologia, minerais, mentes, corpos que possamos remodelar. Vamos testá-lo e estudá-los até que se provem inúteis. Então vamos descartá-los.”

Kevin viu o rosto de Chloe ficar pálido, e podia partilhar desse medo. A ideia de ser desmembrado para estudo e então descartado era aterrorizante.

“Não temos medo de vocês,” Chloe disse, lutando para colocar um tom de desafio na voz.

“Sim, vocês têm,” Xan Mais Puro disse. “Vocês são criaturas inferiores, com medos e necessidades, fraquezas e falhas. Não pertencem à Colmeia. Não são dos Mais Puros. Não temos tais fraquezas, apenas as melhorias dos nossos modeladores de carne.”

“Você acha que é perfeito?” Chloe exigiu. “Acha que com essa cara, você é perfeito?

“Ainda não,” Xan Mais Puro disse. “Mas seremos. Chega de falar com criaturas inferiores.”

O alien se virou para os outros que o acompanhavam, e Kevin sabia que a próxima coisa que ia dizer era agarre-os.

“Corre!” ele gritou para Chloe, e eles viraram para longe dos aliens, arrancando tão rápido quanto podiam para longe da praça. Kevin correu tanto o máximo que seu corpo permitiu, ignorando a dor e o esforço, ignorando o modo como sua doença tentava arrastá-lo a cada passo, e esperando que, se ele e Chloe pudessem ganhar chão o bastante, poderiam despistar Xan Mais Puro e os outros no caos da nave planeta.

“Aonde estamos indo?” Chloe perguntou.

“Não sei,” Kevin disse. Não tinha nenhum plano no momento, nenhuma ideia do que iriam fazer a seguir.

Ele continuou a correr, arriscando uma espiada rápida para ver se os aliens os estavam perseguindo. Eles só ficaram parados, aparentemente se concentrando. Um deles tocou alguma coisa em seu braço.

De repente, o mundo ficou mais pesado. Parecia que grandes pesos estavam pressionados em cima de Kevin, sólidos demais para levantar. Ele lutou para continuar de pé, e viu que Chloe estava fazendo a mesma coisa, empurrando como se pudesse levantar o céu acima de si. Mas não era o ar; parecia que os próprios ossos e músculos de Kevin estavam pesados demais, a gravidade o puxando pra baixo na direção do chão muito mais forte do que deveria ser.

“É o negócio que deixa eles andarem nas paredes,” Kevin disse, pensando no modo como os aliens podiam andar de lado e de cabeça pra baixo pelo interior da nave planeta. Se podiam controlar a gravidade bem o bastante para fazer uma coisa dessas, claro que fariam.

Chloe gritou, “Está me arrastando pra baixo. Estamos presos!”

Ela parecia prestes a entrar em pânico, assim como esteve na nave espacial.

A gravidade o colocou de joelhos, a pressão tornando difícil respirar. Ele caiu para frente, sentindo o peso do próprio corpo o prendendo no chão.

Um grito de frustração de Chloe o informou que a mesma coisa devia ter acontecido com ela. Kevin precisou de tudo que tinha só para conseguir virar de costas e olhar para onde ela estava, presa do mesmo modo.

“Não, me solta! Me solta!” ela gritou. Kevin podia vê-la chorando enquanto tentava se debater até estar livre da força que a prendia no lugar.

Então os três aliens estavam lá, e deviam ter enviado algum sinal para os outros, porque duas criaturas troncudas com carapaças feito armaduras saíram da espiral dourada, carregando o que pareciam ser duas grandes armações de metal. Eles as puseram perto de Kevin e Chloe, colocando-as de pé de modo que Kevin pode ver as folhas de vidro dentro delas, parecido com duas janelas que ficavam de pé sozinhas.

“A tentativa de fuga foi insensata,” Xan Mais Puro disse. O alien deu um sinal para as duas criaturas de armadura, e elas se inclinaram para agarrar Chloe do chão. Assim que a levantaram, ela começou a se debater e torcer, lutando para se livrar, mas eles a seguraram tão fácil quanto uma pena enquanto ela chorava.

“Para com isso,” Kevin disse. “Deixa ela em paz!”

Não pareceu fazer diferença nenhuma para eles. As criaturas eram tão implacáveis quanto máquinas, se movendo com o tipo de força que sugeria que podiam facilmente ter rasgado Chloe e Kevin em pedaços. Pegaram Chloe e a puseram contra uma das placas transparentes, e um dos Mais Puros pressionou alguma coisa no próprio braço de novo. Chloe grudou tão firmemente quanto se tivesse sido colada ali, ainda lutando, e ainda chorando quando nada aconteceu.

Vieram atrás de Kevin então, e grandes mãos se fecharam ao redor de seus braços, o levantando e pressionando contra o segundo painel de vidro sem lhe dar uma chance de lutar. Kevin os chutou, mas seu pé só quicou no couro blindado. Então o alien tocou em seu mecanismo, e Kevin grudou no vidro assim como Chloe.

Mas a sensação não era de estar colado a alguma coisa. Não era grudento. Era mais como estar deitado, exceto que não tinha chance nenhuma de se levantar por causa da gravidade o pressionando no lugar. Não era tão forte como no chão; era até bastante confortável se ele não tentasse lutar, mas Kevin não tinha como se livrar daquilo.

“Kevin,” Chloe disse, angustiada, presa na própria armação.

“Estou bem aqui, Chloe,” ele disse. Não tentou prometer que tudo ia ficar bem. Não era uma promessa que pudesse fazer agora. “Não vou a lugar nenhum.”

Mas parecia que eles iam para algum lugar, porque os aliens grandes e blindados levantaram as armações, carregando os dois como construtores colocando painéis de vidro em posição. Estranhamente, Kevin não teve a sensação de estar sendo levantando, porque para ele, pra baixo ainda parecia ser na direção da armação.

“Onde vocês estão nos levando?” Chloe exigiu. “Deixem a gente ir!”

“Tente ficar calma,” Kevin disse, torcendo para que nada do medo que sentia naquele momento aparecesse na sua voz. Ele estava com medo do que poderia acontecer com os dois, mas estava com muito mais medo por Chloe. Com o tanto que ela odiava ser presa, essa era a pior coisa possível que podia acontecer com eles.

Exceto que não era, e Kevin sabia disso. Ainda havia bastante coisas piores que podiam acontecer. Iriam acontecer, se eles não descobrissem como se livrar.

Os aliens os carregaram na direção de uma espiral dourada, através de uma larga porta que se abriu automaticamente para recebê-los. O interior era tudo que o resto da nave planeta não era: clara e brilhante e confortável, de modo que para Kevin tinha a aparência que um hotel luxuoso poderia ter, ou talvez um palácio. Também não havia a enorme variedade de ângulos e direções; ao contrário do resto da nave, todos pareciam ter concordado com qual lado era para cima.

Eles carregaram Kevin e Chloe até uma sala onde grandes máquinas em formato de domos se amontoavam, parecendo meio construídas, meio plantadas. Uma seção da parede tremulou com uma imagem da Terra abaixo, e Kevin não sabia se foi simplesmente para evitar que as paredes ficassem lisas, ou como um tipo adicional de crueldade.

Xan Mais Puro os seguiu para dentro da sala, se colocando entre eles, perto de um dos mecanismos em forma de domo. Ele retirou coisinhas pequenas, parecidas com lulas, de uma abertura no domo uma por uma, cada uma menor que a ponta dos dedos do alien. Xan Mais Puro as colocou na cabeça de Kevin, onde elas grudaram, quentes e gosmentas ao mesmo tempo.

“O que é isso?” Kevin exigiu. “O que vai fazer com a gente?”

“Vamos examiná-los,” Xan Mais Puro responeu. “Vamos determinar qual utilidade podem ter para a Colmeia. Será doloroso.”

Disse isso como se não fosse nada, ou pelo menos como se não se importasse. Kevin podia escutar Chloe chorando de novo agora, e queria dizer alguma coisa, queria confortá-la. Então a dor chegou, e não houve tempo para fazer mais nada a não ser gritar.

A sensação foi de dedos frios inspecionando seus pensamentos, erguendo coisas e as botando de volta no lugar, ou talvez fossem os tentáculos das coisas grudadas na cabeça de Kevin. Ele tentou empurrá-las para fora, concentrando-se tanto quanto pode, mas não fez diferença; só doeu mais.

Kevin podia sentir outras presenças agora, dúzias de mentes, centenas, conectadas em uma forma de comunicação silenciosa, sua presença coletiva pressionando-se sobre ele e explorando cada canto de seu ser. Ele se escutou gritar, e escutou Chloe gritar também, sugerindo que exatamente a mesma coisa estava acontecendo com ela.

Kevin viu imagens então, inundando sua consciência e piscando ali. Eram imagens de seus amigos, sua família, de tudo que aconteceu recentemente. Kevin viu imagens dos Sobreviventes pulando em sua mente, e tentou pensar sobre outra coisa, qualquer outra coisa, para que os aliens não soubessem onde eles estavam. Mas podia sentir sua falta de interesse; não fazia diferença para eles.

Ele começou a ver outras coisas, visões piscando dentre o resto, mas a verdade era que não podia dizer se eram mesmo visões ou alguma coisa fluindo de volta pela conexão à coletiva da Colmeia. As imagens preencheram sua mente, obscurecendo a dor, a sensação de estar preso no lugar, até o medo pelo que estava acontecendo com Chloe.

Ele viu um planeta flutuando no espaço, grande e fosco. Luas giravam ao seu redor, mas mesmo enquanto Kevin assistia, percebeu que não eram luas naturais, e sim mais naves planeta. Ele viu uma se mover para fora de órbita, o espaço ao seu redor se dobrando e torcendo conforme ela se movia impossivelmente rápido para um objeto daquele tamanho.

Sentiu sua consciência sendo puxada para baixo na direção da superfície do planeta, e conforme a alcançava, viu que a superfície estava explodida e arruinada, poluída e inóspita. Apesar disso, haviam cidades, cheias de figuras curvadas que pareciam similares aos Mais Puros, mas dobradas e mudadas, sua carne torcida para viver no ambiente arruinado. Kevin achou difícil acreditar que qualquer um iria querer viver num ambiente desse tipo, mas através de sua conexão com a Colmeia, sabia que essas figuras não tinham escolha. Eram aqueles não escolhidos para a nave planeta.

Ele viu outras coisas lá. Viu os campos de criaturas roubadas de mundo após mundo. Viu as fábricas de carne onde elas eram testadas e reformadas, torturadas de todos os modos, com eletricidade e fogo e muito mais. Viu criaturas dissecadas vivas, ou forçadas a se reproduzir umas com as outras em combinações que produziam monstros. Dentre a desolação do planeta destruído, também viu pequenos domos verdes, como ilhas de perfeição no horror do resto. Kevin não ficou surpreso de ver torres douradas no coração de cada uma.

Ele voltou a si mesmo, engasgando, sentindo como se cada restinho de energia tivesse sido arrancado de dentro dele. Ficou deitado na plataforma, olhando em volta e vendo apenas Chloe no quarto agora. As visões pareceram ter durado apenas segundos, mas deve ter sido mais tempo, para dar Xan Mais Puro tempo de sair da sala.

“Chloe?” Kevin chamou.

Ele a escutou gemer, os olhos se abrindo quando olhou para ele. Eles estavam vermelhos de chorar quando ela o encarou.

“Eu vi... eu vi...”

“Eu sei,” Kevin disse. “Eu vi também.”

“Eles vão nos matar,” Chloe disse. “Vão nos abrir pra ver como a gente funciona. Vão fazer experimentos como uma criancinha puxando as asas de uma mosca.”

Kevin teria concordado com a cabeça se pudesse tê-la puxado para longe da armação tempo suficiente. Mas esse era o problema: eles podiam falar sobre como precisavam dar o fora dali, eles podiam ver tudo que estava para acontecer, mas ainda assim não podiam se mover. Tudo que podiam fazer era ficar deitados ali, encarando a tela à sua frente, e a Terra rodando devagar nela.

Demorou um ou dois segundos para perceber que estava ficando menor.

Foi gradual no começo, o planeta diminuindo um pouquinho de cada vez. Então começou a se mover mais rápido, e mais rápido ainda, recuando até ser apenas um ponto. Então não era nem isso, conforme o espaço ao redor da nave planeta se dobrou e disparou para longe pelo espaço.

Kevin encarou a tela, horrorizado. Ele não sabia aonde estavam indo, ou porque, mas qualquer coisa que pudesse persuadir os aliens a mover a nave toda para longe da Terra, ele sabia que não podia ser bom para ele, nem para Chloe.

Ou Luna.




CAPÍTULO TRÊS


Luna lutou. Com todo pedacinho de energia que conseguiu achar, ela tentou lutar contra a imobilidade se arrastando pelo corpo, tornando-a lenta, fazendo-a parar. Ela ficou de pé no centro de Sedona, no coração de um grupo de pessoas controladas, e sua mente gritava com o esforço ao tentar se impedir de virar um deles.

Parecia que seu corpo era de pedra, ou... não, mais como se seus membros estivessem dormindo, enquanto por dentro ela ainda estava acordada. Não podia sentir a ponta dos dedos, mas continuou a lutar. Mas podia se sentir caindo no estado de controle, se transformando cada vez mais e mais em uma prisioneira no próprio corpo. Como se estivesse presa atrás de vidro, sua personalidade e habilidade de controlar a si mesma apenas uma exibição em algum museu feito de sua própria carne e osso.

O mundo tinha até a aparência de ser visto através de algum tipo de vidro, estranhamente filtrado, as cores se movendo de forma que todas aquelas que Luna conhecia tinham uma opacidade leitosa, e cores novas se infiltravam nos cantos de sua visão. Luna não precisava de um espelho para saber que suas pupilas estariam de um branco vivido agora, e odiava isso.

Vou continuar a lutar, disse a si mesma. Não vou desistir. Kevin precisa de mim.

Apesar de sua determinação, era difícil ignorar o fato que suas pernas e braços não faziam o que os mandava fazer. Luna estava lá de pé, igual a todos os outros esperando em Sedona, tão parada quanto um boneco sem uso, incapaz de fazer mais que piscar e respirar por si mesma.

Luna lutou para fazer mais. Se focou no mindinho da mão direita, mandando que se endireitasse. Pareceu se mover dolorosamente devagar, mas se moveu. Se moveu! Ela tentou mover o próximo dedo, se focando em cada articulação, cada músculo...

Gritou por dentro quando nada aconteceu.

Pelo menos Kevin tinha escapado. Luna tinha visto ele passar pelas linhas de controlados e alcançar uma das naves. Ela tinha visto ele e Chloe serem sugados para uma delas também, e isso deixava Luna mais preocupada do que qualquer coisa que estava acontecendo com ela.

Você tem que lutar, disse a si mesma de novo. Kevin está preso numa nave alienígena sem você. Você sabe que ele só vai arranjar encrenca sozinho, e nem do tipo divertido.

Claro, Kevin não estava sozinho, mas essa ideia não melhorou a situação. Não era que Luna odiasse Chloe nem nada, mas era óbvio que ela gostava do Kevin, e... bom... Luna também. Estranho como isso era mais fácil de admitir quando sua mente estava ocupada sendo dominada por aliens, mas era, talvez porque soubesse que mais ninguém ia descobrir.

Ela tentou deixar na cara para ele um monte de vezes, mas ele nunca pareceu entender. Talvez fosse coisa de garoto, ou talvez fosse coisa do Kevin, capaz de compreender mensagens através da galáxia, mas nada que estivesse logo na sua cara. Agora ele estava em uma nave espacial com Chloe, e embora não estivessem exatamente sozinhos, Luna tinha bastante certeza que aliens não contavam. Mesmo que nada acontecesse, Luna ainda não tinha certeza se Chloe era uma boa opção para trazer Kevin de volta em segurança. Sim, ela tinha ajudado Luna no barco, e podia fazer ligação direta num automóvel, mas isso não era o mesmo que roubar uma nave alienígena, e Luna não confiava que ela não fosse entrar em pânico quando as coisas dessem errado.

Então as coisas deram errado, e Luna viu perfeitamente.

Em um momento, a nave planeta dos aliens pairava como uma lua no céu; no próximo, o céu ao redor dela ondulou e piscou, como se o espaço fosse um lago em quem alguém tivesse atirado uma pedra. A nave planeta começou a flutuar para longe, sua sombra passando pelo céu. Houve um momento em que o espaço pareceu se dobrar ao redor dela, e então se fora, movendo-se muito mais rápido do que Luna podia acompanhar.

Por um breve momento, esperança irrompeu dentro dela. Tinha acabado? Kevin tinha subido na pequena nave acima de Sedona, e essa nave entrou na nave planeta, e agora ambos tinham sumido. Ele tinha achado um jeito de acabar com tudo? Ele e Chloe tinham salvo todo mundo?

Luna tentou mover um braço, cheia de esperança, mas nada aconteceu. Nada tinha mudado.

Um latido ao seu lado chamou a atenção de Luna. Bobby estava lá, o pastor inglês correndo até Luna e empurrando suas pernas de um jeito que a teria derrubado antes dos controlados respirarem seu vapor sobre ela. Mas d jeito que as coisas estavam, ela permaneceu solida como pedra, sem ser movida ou se mover, sequer reagindo quando ele se tocou a mão dela, lambendo com sua língua grande e áspera.

Bom garoto, Luna pensou, e tentou dizer, mas não conseguiu fazer os sons saírem. Também não conseguiu esticar a mão para fazer carinho nele, e isso só era prova de quanto controle os aliens ainda tinham sobre ela. Bobby a empurrou de novo e depois correu como se esperasse que ela o seguisse, e quando não seguiu, ele se deitou e chorou, olhando para ela com grandes olhos tristes.

Sinto muito, Bobby, Luna pensou, mas também não conseguia dizer isso.

Não era a única coisa pela qual sentia. Ao seu redor, Luna podia ver os motoqueiros de Dustside de pé e tão parados quanto todo o resto. Podia ver Bear acima de todos, todo senso de força e comando drenado dele pela transformação. Podia ver Cub só um pouquinho mais longe, o menino encarando-a com o olhar vazio, quantes antes tinha sido confiante e obviamente interessado nela.

Você ainda está aí? Luna se perguntou da prisão de sua mente. Será que todo mundo que foi transformado estava preso desse jeito? Sentados por trás do branco puro de suas pupilas, horrorizados enquanto os aliens controlavam todo movimento que faziam? Luna não sabia se queria que Cub não estivesse sofrendo desse jeito, ou se queria que estivesse, porque pelo menos assim ele ainda estaria lá, e pelo menos haveria uma chance de trazê-lo de volta.

Que chance? Luna pensou. Que esperança havia para qualquer um deles? Ninguém tinha voltado até agora. Os aliens tinham transformado quase todo mundo, e quem se transformou permaneceu transformado. Não era como gostar da banda errada; não era como se o efeito fosse passar se você esperasse o bastante.

Ela podia ouvir sons agora, no fundo de sua mente. Reconheceu os guinchos e os cliques, a estática e o zumbido, porque já havia escutado várias vezes antes quando Kevin estava traduzindo os sinais alienígenas. Luna reconheceu que era a língua deles, mas ainda não tinha ideia do que significava.

Ela podia não saber, mas parecia que seu corpo sabia. Luna percebeu que estava se movendo, se juntando as outras pessoas por ali como algum tipo de unidade militar. Não sabia quem estava dando ordens se a nave alienígena principal se fora. Talvez alguns dos aliens estivessem na superfície.

Não importava; quem quer que estivesse lhe dando ordens, Luna se viu obedecendo. Começou a marchar com os outros, se espalhando com eles pelas ruínas de Sedona, levantando os escombros e examinando as casas.

Luna sentiu que estava vendo tudo de longe, assistindo a si mesma levantar pedras e puxar pedaços de madeira com as mãos nuas. Viu a si mesma se movendo junto com Cub e os outros, limpando a cidade com a eficiência de formigas cortando folhas ou abutres estripando uma carcaça de carne.

Escutou Bobby latindo de novo, e então estava novamente ao seu lado, chamando e correndo ao redor dela como se pudesse distraí-la do que estava fazendo. Lambeu sua mão de novo, e fechou os dentes no seu braço. Não com força, mas como se estivesse manejando um filhote escapulido e o colocando de volta na linha.

Bobby era forte, e provavelmente tão pesado quanto ela, mas Luna se livrou dele como se nem estivesse lá. Continuou a trabalhar, reunindo materiais e os juntando em pilhas, classificando eficientemente, como uma máquina.

Luna viu cortes e arranhões surgindo em seus braços do esforço de mover os materiais, mas não os sentiu. Eles estavam tão adormecidos como se estivessem no gelo por horas, a dor insulada pelas camadas de controle alienígena.

Agora Luna podia sentir esse controle, enquanto Bobby continuava a latir e correr ao seu redor. Podia sentir o que queria que ela fizesse, e lutou, a pequena parte de si que ainda era ela horrorizada pela ideia, mesmo enquanto o resto de si levantava uma pedra.

Não! comandou a si mesma. Não vou fazer. Não vou fazer isso!

Lutou contra os impulsos com cada fibra de seu ser, puxando o braço de volta com uma força de vontade que tinha resistido a tudo, desde as instruções dos pais até o oceano raivoso. Por um momento ou dois, pareceu que até conseguiu fazer o corpo hesitar, congelado na beira de uma ação. Mas era demais, como tentar segurar o peso de uma avalanche com as mãos nuas. Com um grito interno de desespero, Luna sentiu a avalanche soterrá-la.

Se virou e atirou a pedra em Bobby, chorando enquanto o fazia.

Ele ganiu, então gemeu e saiu correndo, mancando um pouco de uma pata. Não importava quanto sua mente se jogasse contra os limites da jaula que a prendia, a prisão de seu corpo continuava a trabalhar, levantando e rasgando, separando recursos e os empilhando em ordem para coleção, apesar da nave sobre Sedona não estar mais lá.

Ela tentou contar os minutos que passavam, tentou acompanhar o tempo que ia se esvaindo, mas não havia jeito fácil de fazê-lo. Seu corpo mantinha os olhos no trabalho, não no progresso do sol, e se ela ficou cansada ou com fome, não sentiu. Nos recessos mais profundos de sua mente, Luna entendia agora como os controlados eram tão rápidos e fortes: eles não se importavam com a dor ou o cansaço que teria impedido pessoas normais. Enquanto a maior parte das pessoas parava com folga dentro dos limites do que seus corpos podiam fazer, os controlados eram forçados o tempo todo pelos aliens que os comandavam.

Que nos comandam, Luna se corrigiu.

Não queria pensar em si mesma como um deles, mas Luna não sabia como se distrair de nada daquilo. Não podia fechar os olhos para bloquear o mundo. Não podia se impedir de fazer nada. O melhor que podia fazer era tentar se agarrar às memórias de sua vida antes disso: sentada com Kevin na margem do lago onde ele contou de sua doença, indo para escola e... e...

Ela se agarrou numa lembrança, pensando em um dia quando ia se encontrar com Kevin depois da escola. Tinham combinado de ir em uma pizzaria de esquina não muito longe de casa. Podia se lembrar da sensação, como tinha sido caminhar pela cidade, até um lugar que tinha sido só deles, de que ninguém mais sabia, atrás de uma das cercas de madeira ao redor de uma casa velha no caminho, onde ninguém tinha vivido por anos.

Para chegar lá, tinha que escalar pela forquilha de uma árvore velha que era uma abertura entre uma pilha de lixo velho, e então correr pelas tábuas de um telhado baixo do jeito certinho para que os pés não se enfiassem na madeira, o tempo todo vigiando para que ninguém que pudesse gritar com ela por estar onde não deveria a visse.

Em outras palavras, era exatamente o tipo de rota pela qual Luna adorava correr. Passava por ela com o tipo de velocidade e disposição de se enlamear que provavelmente teria feito os pais suspirarem se a vissem. Enquanto corria, se viu pensando em Kevin, se perguntando se hoje era o dia em que ele finalmente ia pedir um beijo.

Talvez não fosse; ele podia ser bem sem noção com as coisas às vezes.

Passou pelos jardins, até o lugar onde ela e Kevin iam se encontrar. Escutou um barulho do outro lado da cerca, e viu Kevin e uns garotos que nunca tinha visto antes.

“O que tá fazendo aí atrás?” um deles perguntou. “Se escondendo pra ninguém te encontrar?”

“Não estou me escondendo,” Kevin insistiu, o que Luna adivinhou ser apenas a pior coisa que podia ter feito.

“Tá dizendo que eu sou mentiroso?” o menino perguntou. Ele empurrou Kevin, de modo que Kevin colidiu com a parede atrás. “Tá me chamando de mentiroso?”

Luna deslizou pela abertura da cerca. “Eu estou,” declarou. “Estou dizendo que você é um mentiroso, e um valentão, e se me der uns segundinhos, provavelmente vou pensar em mais um monte de coisas pra te chamar.”

Ele se virou para ela. “É melhor você correr. Isso é entre eu e ele.”

“E seu amigo, não vamos esquecer,” Luna disse.

“Tá sendo bocuda porque acha que eu não bato em garota! Bom—”

Luna o socou no nariz, tanto porque estava com tédio esperando ele fazer alguma coisa quanto por qualquer outro motivo. Ele urrou e saiu correndo atrás dela enquanto Luna disparava.

Ela não o guiou de volta por onde tinha vindo, porque essa era a rota dela, mas conhecia várias outras. Só por diversão, correu por um jardim onde a piscina estava sempre cheia, escutando um splash quando um dos meninos errou a curva. De lá, escalou um dos telhados, e então cortou pelo parque, e atravessou para o jardim onde o cachorro grande e zangado vivia, cuidando para pisar só fora do alcance da correia dele. Um rosnado e um berro de raiva atrás de Luna a informou que o segundo dos meninos tinha ficado para trás.

“Vou te pegar por isso!” ele gritou.

Luna riu. “Não vai não, a não ser que queira explicar pro pessoal como eu consegui te socar e me safar.”

Ela correu de volta na direção de Kevin, que estava esperando lá com a confiança de quem já tinha visto essa história antes.

“Sabe, eu podia ter encarado,” disse, tentando parecer durão.

Luna conseguiu não dar risada. “Mas é mais divertido desse jeito. Vamos lá, você pode me pagar uma pizza por te salvar.”

“Mas você não me salvou. Eu podia ter encarado...”



***



Luna sorriu com a memória, ou teria, se conseguisse mover o rosto. Tentou se lembrar do nome do garoto, porque tinha certeza que costumava saber. Mas que garoto? No que ela estava pensando? O fato de não conseguir se lembrar fez Luna travar de horror. Estava pensando nisso há só um segundo e agora tinha desaparecido, como... como...

Luna tentou segurar as memórias, realmente tentou. Ela sabia que tinha memórias; uma vida inteira delas. Tinha amigos, e uma vida, e pais... definitivamente tinha pais, então por que não conseguia lembrar de seus rostos? Talvez não tivesse pais. Talvez tudo isso fosse só uma piada doentia. Talvez ela sempre tivesse sido assim, e só estivesse com algum defeito, sentindo que era diferente como uma distração do trabalho que os aliens precisavam que fizesse...

Não, Luna pensou ferozmente, eu sou eu. Sou Luna. Eles me transformaram, e eu tenho memórias de verdade... em algum lugar.

Mas não tinha certeza. Toda vez que tentava agarrar o que parecia ser o começo de uma memória, ela sumiu em uma grande névoa de pensamentos que parecia estar consumindo toda parte dela. Luna tentou se arrastar para longe da névoa, mas esta estava se alastrando mais e mais nas bordas de quem ela era, preenchendo tudo, levando embora pequenos pedaços de memórias, de palavras, de personalidade.

De repente, ela viu alguma coisa. Era diferente o bastante para captar sua atenção, mesmo que só por um segundo.

Havia um homem se aproximando. Se movendo sem medo. Um homem de verdade. Não um controlado.

Como pode ser?

Enquanto que Luna e os outros se moviam em sincronia quase mecânica, ele se movia em pequenas corridas e pulos furtivos, segurando o que parecia algum tipo de arma nos braços.

Mas não se parecia com um soldado. Parecia mais com um pirata, misturado com um professor. O cabelo era selvagem e espetado, meia dúzia de brincos cobriam uma orelha, e ele tinha vestígios de uma barba mal cuidada. Estava usando uma jaqueta de lã e uma camisa de botões por cima de jeans e botas de escalada. Ele não estava usando uma máscara, o que não fazia nenhum sentido.

Luna se moveu na sua direção, levantando as mãos para agarrá-lo tão rápido que ele não pode nem pensar em pular para trás, ou talvez só não quisesse tentar. Apesar de ser um adulto e ela apenas uma criança, ainda tinha força o bastante para segurá-lo enquanto sua boca se abria cada vez mais, uma grande nuvem de vapor fervendo na sua garganta, querendo ser liberta. Sentindo-se quase culpada, ela respirou na direção do homem, o envolvendo em uma nuvem de vapor grossa o suficiente para deixá-lo tossindo.

Luna deu um passo pra trás, os aliens que a controlavam obviamente esperando que ele se transformasse. Mas ele ficou lá parado, levantando a arma que segurava, e Luna sentiu uma pontada de medo. Ela podia não sentir dor, mas tinha quase certeza que se alguém a danificasse o bastante, ainda podia morrer. Por um momento, se viu desejando que o vapor que respirara tomasse o controle antes que ele tivesse a chance de atirar. Não queria morrer. Então se sentiu culpada por pensar assim. Não desejaria isso para ninguém.

Mas a arma não disparou.

Em vez disso, uma nuvem de vapor azul-esverdeado saiu do cano, inundando os pulmões de Luna com cada respiração. Ela avançou para ele para quebrar a arma no meio, e provavelmente quebrá-lo também, mas a coisa mais estranha aconteceu quando seus braços estavam a meio caminho.

Ela parou.

Em um único momento, ela congelou no lugar, seu coração batendo mais e mais rápido. Sentiu seu mundo inteiro girar.

Luna caiu de joelhos sem querer. Sentiu eles arranhando na calçada, realmente sentiu, e a sensação retornando era como sangue correndo de volta para um braço ou perna adormecido. Doeu e ela gritou.

Não podia acreditar.

Estava de volta.

De volta a si mesma. Não mais controlada.

Ela se cravou em suas memórias, se certificando que ainda estavam lá; que não tinham apenas se perdido para sempre. Pensou no rosto de Kevin, e seus pais como eles eram no primeiro aniversario de que podia lembrar. Soltou um suspiro de alívio, e não só por si mesma. Isso significava que as pessoas que tinham sido transformadas não estavam perdidas.

Queria berrar de alegria. Se levantar e abraçar esse homem e nunca soltar.

Olhou para ele admirada.

Ele sorriu de volta de um jeito curioso, acadêmico.

“Ora,” ele disse, “você parece estar respondendo muito mais rápido do que nos outros sujeitos em que eu tentei. Ah, perdão, e as minhas maneiras? Meu nome é Ignatius Gable. O vapor que você acabou de respirar é a vacina que eu criei para combater os efeitos do controle alienígena. Deve sentir o controle completo do seu corpo retornado. Agora, tenho certeza que têm muitas questões sobre o que está acontecendo, mas não podemos ficar papeando aqui. Então, a não ser que nós dois queiramos morrer de vez, sugiro que venha comigo.”

Ela piscou, surpresa, e seguiu o olhar dele para ver inúmeros controlados se aproximando.

“AGORA!” ele gritou.

Os controlados desceram sobre eles como um enxame. Luna só pode assistir enquanto eles se amontoavam, tentando agarrá-los. Ignatius usou o spray de sua arma, mas para os outros, não parecia funcionar.

Luna saiu correndo, se jogando na multidão e passando pelos espaços vazios com toda vantagem que tinha por ser menor que a maior parte das pessoas ali. Se atirou debaixo de braços e correu por entre pernas, agarrando o braço de Ignatius e segurando forte.

Luna viu Cub, e Bear, e o resto deles, agarrou a arma e se virou.

“O que você está fazendo?” Ignatius gritou alarmado.

Ela espirrou uma nuvem que começou a desacelerar os controlados a sua volta, mirando em Cub e Bear e todo o resto.

“Anda,” ela disse, o dedo preso no gatilho. “Muda!”

Luna viu Cub começar a piscar na luz do sol, esticando as mãos e encarando os dois.

Olhou em volta até ver Bobby nas sombras de um prédio e ergueu a mão para ele.

Então ela se virou com os outros e correu.

E não parou de correr.




CAPÍTULO QUATRO


Kevin se encolheu quando Xan Mais Puro entrou na sala em que ele e Chloe estavam. Ficar lá parado sozinho e esquecido já era ruim o bastante, mas de algum modo ele sabia que não seria tão ruim quanto qualquer coisa que o alien quisesse fazer agora.

“Medo é uma fraqueza,” Xan Mais Puro disse, as palavras saindo um momento depois através do tradutor. “Apenas uma das muitas que superamos.”

“O que quer dizer?” Kevin perguntou. Tentou segurar o medo que sentia também, porque não queria que o alien visse.

Chloe parecia assustada o bastante pelos dois, mas também com raiva. Se a gravidade retorcida não estivesse lá, segurando os dois nas armações, Kevin suspeitava que ela teria atacado o alien.

“Uma vez, fomos seres mais fracos,” Xan Mais Puro disse, gesticulando de forma que uma sessão da parede se transformou em uma tela, mostrando coisas que eram e não eram como os Mais Puros, ao mesmo tempo. Não tinham a pele tão lisa, ou a mesma graça ou aparência de perfeição, e certamente não tinham o senso de implacabilidade fria dos Mais Puros. Pareciam com o tipo de coisa que os Mais Puros podiam ter sido há muito, muito tempo.

“Nós lutamos e guerreamos uns com os outros. Transformamos nosso planeta natal em um lugar praticamente inabitável com as armas que usamos.”

A imagem na tela mudou, exibindo um mundo que começou verde e bonito, apenas para toda vida vegetal murchar e morrer, explosões cascateando pela superfície, fogo e vento se espalhando em ondas do que pareciam ser os corações das cidades.

“Tivemos que nos adaptar.”

“Atacando os mundos de outras pessoas,” Kevin disse. “Nos enganando pra te deixarmos entrar e tomar a mente das pessoas.”

“Vocês são malignos,” Chloe acrescentou. “São todos monstros.”

Xan Mais Puro olhou para eles sem um pingo de emoção. Kevin duvidava que a criatura era capaz de sentir, e de certa forma isso era mais assustador do que se Chloe estivesse certa. Essas criaturas não eram maliciosas, nem cheias de ódio, ou determinadas a destruir tudo que temiam. Agiam de forma tão fria e calma quanto uma geleira passando por uma cidade, sem se importar com as vidas lá dentro.

“Seus mundos não são importantes,” Xan Mais Puro disse. “Vocês não são da Colmeia. Não são dos Mais Puros.”

“Você acha mesmo que são as únicas coisas que importam no universo?” Chloe exigiu.

“Somos os Mais Puros,” Xan retrucou, como se isso explicasse tudo. “Criamos a Colmeia para resolver as guerras do nosso mundo. Ao nos unirmos, aprendemos a nos colocar acima da fraqueza de emoções. Aprendemos dos mundos mais próximos como transformar os inferiores em tudo que precisamos que sejam. Construímos as naves da Colmeia para nos transportar e juntar materiais com os quais regenerar nosso mundo para os Mais Puros.”

“Então você só pega e pega e não dá nada de volta,” Kevin disse.

“Tudo mais é inferior,” Xan Mais Puro disse. “Tudo é nosso.”

“Até a gente te impedir,” Chloe disse, lutando contra a gravidade que a segurava. Se fosse parecida com a gravidade que segurava Kevin no lugar, ele sabia que ela não tinha chance de se livrar, mas imaginou que dizer isso para ela não fosse fazê-la parar. Na verdade, provavelmente ia piorar as coisas.

“Você é fraca. Não pode impedir a Colmeia,” Xan Mais Puro disse.

“Então por que ainda estamos aqui?” Kevin perguntou. “Se acha que somos tão fracos e inúteis, por que não nos matou assim que chegamos na sua... nave?”

“Não destruímos o que é útil,” Xan Mais Puro disse. “Coletamos. É nosso propósito.”

Útil. Kevin não sabia se gostava da ideia de ser útil para um negócio desses. Pelo que tinha visto das criaturas que os aliens consideravam úteis, eles saíam remodelando sua carne, as transformando. Já tinha sentido a dor envolvida só dos aliens examinarem seus pensamentos. As visões que teve do planeta dos aliens foram ainda piores.

“Não quero ser útil pra você,” Kevin disse.

“Não tem escolha,” Xan Mais Puro disse. “Deveria ser grato. Os escolhidos de um planeta são tipicamente destruídos, para que não sejam... uma ameaça para nós. Você sobreviveu porque o permitimos.”

“Por quê?” Kevin insistiu.

Xan Mais Puro não respondeu por alguns momentos. Em vez disso, o alien se movimentou pela sala, ajustando alguns dos maquinários.

“Vão olhar nossos pensamentos de novo, Kevin,” Chloe disse, aterrorizada pela ideia. “Vão usar aqueles tentáculos de novo.”

“Não em você,” Xan Mais Puro disse, quase desdenhoso. “Será intrigante o bastante dissecá-la e remodelá-la. Sua mente é bastante interessante, mas você não é digna de mais.”

“Não pode dissecar a Chloe!” Kevin gritou, lutando contra a gravidade que o prendia. Ela o segurou na armação com facilidade, não importava o quanto lutasse. A pressão o achatava, como um peso pressionado no peito.

“Podemos fazer o que quisermos,” Xan Mais Puro disse. “Se esse é o melhor uso da fêmea para a Colmeia, é o que será feito. Mas seremos generosos. Você poderá escolher o que acontecerá com ela.”

“Então eu escolho que não seja dissecada!” Kevin disse.

“Depois que terminarmos,” Xan Mais Puro disse. “Quando você se juntar a Colmeia.”

“O quê?” Kevin disse. Balançou a cabeça. “De jeito nenhum.”

O alien se moveu na sua direção, o aparelho com tentáculos em seus dedos.

“Seu cérebro tem capacidades que são necessárias para a Colmeia,” Xan Mais Puro disse. “De forma que vai se juntar a nós.”

O alien fez soar como se fosse um fato inegável, simplesmente o jeito que o mundo funcionava. Fez a ideia soar tão óbvia e natural quanto água molhada, ou sol quente. Mas não havia nada natural sobre a coisa com tentáculos que Xan Mais Puro segurava.

“E daí?” Kevin exigiu, mais porque qualquer momento que pudesse adiar essa história parecia uma boa ideia. “Vai me transformar num dos Mais Puros que nem você? E aí eu perco todo meu cabelo e fico com esses olhos bizarros?”

Talvez se Kevin irritasse o alien o bastante, poderia distraí-lo do que estava para fazer. Claro, ele podia decidir fazer uma série toda de coisas muito piores, mas naquele momento, Kevin não podia imaginar nada pior do que se transformar num deles.

“Você não é dos Mais Puros,” Xan Mais Puro disse. “Mas pode ser transformado em um da Colmeia. Vai se transformar em nosso emissário, um de nossos escolhidos. Deveria se felicitar com a honra.”

“Acha que é uma honra pro Kevin ter o cérebro invadido?” Chloe exigiu.

“Não será uma invasão,” Xan Mais Puro disse. “Kevin irá nos receber. Irá concordar em ser um dos nossos.”

“Por que eu tenho que concordar?” Kevin exigiu. “Por que não faz isso logo se vai mesmo fazer, em vez de ficar com joguinhos?”

O alien pareceu quase ofendido, embora Kevin duvidasse que pudesse sentir essa emoção. Duvidava que pudesse sentir qualquer coisa.

“Não jogamos,” disse. “Mas os cérebros da sua espécie são delicados, e necessitamos do seu intacto para as tarefas que a Colmeia tem para você. Se lutar demais durante o processo, existe a possibilidade que ele seja... danificado.”

“Eu vou lutar,” Kevin prometeu. “Prefiro morrer do que fazer qualquer coisa pra te ajudar.”

O alien ficou parado o encarando, aparentemente sem compreender o que ele tinha dito. Franziu o rosto levemente, inclinando a cabeça para um lado como se escutasse algo que só ele podia ouvir. Kevin sentiu que estava tentando decifrá-lo, e decidir o que devia fazer no meio tempo.

“Sua declaração é tola,” Xan Mais Puro disse. “Render-se é do seu interesse. Poderá continuar a existir.”

“Já estou morrendo mesmo,” Kevin disse, lembrando-se do momento que o médico o diagnosticara com sua doença, explicado quão pouco tempo ele tinha para viver. “Acha que eu me importo com essas ameaças?”

O alien o encarou por mais alguns momentos, e de novo, e Kevin sentiu que recebia conselhos dos outros de sua espécie.

“Podemos salvá-lo,” ele disse, soltando as palavras como pesos de chumbo.

O choque que correu por Kevin era como água gelada. Os melhores cientistas que a Terra tinha para oferecer tinham tentado e falhado em ajudar. E agora aqui estavam os aliens, oferecendo sua saúde como se não fosse nada.

“É mentira,” ele disse. Tinha que acreditar que estava mentindo. “Você já mentiu sobre tanta coisa, acha que eu vou acreditar nisso?”

Pensou em todos os jeitos que eles tinham mentido para fazê-lo ajudar com a invasão da Terra. Tinham dito que eram refugiados procurando abrigo em outro planeta. Tinham dito que estavam fugindo da destruição, não a causando.

“Você viu o que podemos fazer,” Xan Mais Puro disse. “Podemos manipular a carne em modos que sua mente humana não pode imaginar. Os Mais Puros da Colmeia são preservados quase indefinidamente. Para nós faz todo sentido mantê-lo vivo. Poderíamos curá-lo, se fosse da Colmeia.”

O que Kevin poderia dizer a esse tipo de tentação? Era tudo que ele queria desde que o médico explicou o que estava acontecendo. Quando estava no instituto da NASA, secretamente tinha tido esperanças que um dos cientistas ali podia achar um jeito de ajudá-lo, acabar com os tremores e a dor. Tinha pensado que daria quase qualquer coisa para ficar bem de novo. Kevin precisou de tudo que tinha para sacudir a cabeça.

“Se preciso morrer pra que você não consiga o que queira, é isso que eu vou fazer,” Kevin disse. E era sério. Ele queria viver, tinha tido esperanças de se curar, mas nessa altura já tinha tido bastante tempo de aceitar o que ia acontecer com ele. Se morrer podia impedir os aliens... bom, ele não queria, mas faria.

“E quanto ao resto que a Colmeia pode oferecer?” Xan Mais Puro disse. “Estamos cientes que sua espécie valoriza amigos e família. Como um de nós, poderia decidir o que fazer com aqueles que controlamos.”

Kevin engoliu em seco, pensando em sua mãe, pensando em Luna. Havia tantas pessoas que ele conhecia na Terra, tão longe que não era mais visível no monitor. Se pudesse ajudá-los... não, se os aliens queriam alguma coisa dele, isso não ajudaria ninguém.

“E existe a questão da sua amiga aqui,” Xan Mais Puro disse. “Como este aqui disse, como membro da Colmeia, você poderia determinar o seu destino. Se não aceitar, realizaremos experimentos na fêmea enquanto você assiste.”

Kevin congelou, olhando do alien para Chloe e de volta.

“Não, Kevin. Não faz isso,” Chloe disse. Kevin podia ouvir seu desespero. “Deixa eles me matarem. O que for preciso!”

Kevin podia ouvir a sinceridade em sua voz, mas... não podia fazer isso. Não podia ficar lá e assistir enquanto Chloe morria. Sabia que iam fazer isso. Havia alguma coisa a respeito do modo frio e sem emoção em que Xan fez sua ameaça que a transformava em algo mais. Não exatamente uma ameaça, mas uma simples declaração do que aconteceria.

“Vamos transformá-lo de qualquer jeito,” Xan Mais Puro disse. “É simplesmente uma questão de quanto você lutará e quanto irá doer. Faça sua decisão, Kevin McKenzie.”

“Lute contra eles, Kevin,” Chloe disse. “Não desiste!”

Kevin olhou para ela, tentando não pensar em todas as coisas que os aliens podiam fazer com ela. Mas era impossível fazer qualquer coisa além de imaginar o que poderia acontecer se fizessem experimentos nela. Ele podia mesmo ficar parado assistindo se eles começassem a abri-la para descobrir como funcionava, ou transformá-la em alguma coisa que não era humana? Podia mesmo fazer isso, quando tudo que conseguiria era ser transformado a força?

Não podia, e sabia disso.

“Ok,” ele disse, odiando cada momento. “Pode fazer.”

“Teríamos feito de qualquer modo,” Xan Mais Puro assegurou. “Doerá mais quanto mais você resistir.”

“Kevin,” Chloe disse. “Por favor lute. Você tem que ficar você mesmo. Tem que ser forte.”

Essa, Kevin percebeu, era a única esperança. Eles não podiam se soltar. Não podiam lutar fisicamente. Sua única chance era se juntar a Colmeia, e de alguma forma conseguir manter suficiente de si mesmo...

Nem terminou o pensamento antes de Xan Mais Puro aplicar os tentáculos em seu crânio, e a Colmeia invisível perfurar seu cérebro.

Kevin gritou com a dor, veloz e súbita, como uma lança de gelo apunhalando os fundos de sua mente. Pensou que estava acostumado à dor; com sua doença, achou que sabia o que era sentir dor, mas agora percebia que não era nada comparado ao que estava acontecendo. Podia sentir os tentáculos explorando seus pensamentos e memórias, a sensação desconfortável e familiar demais, da última vez que os aliens tinham examinado sua mente.

Mas era diferente, porque os aliens não estavam só olhando dessa vez.

Kevin podia sentir a Colmeia dentro de seus pensamentos, mentes e mais mentes, interligadas e poderosas. Era frio e quente e doloroso ao mesmo tempo. Pareciam cacos de vidro raspando seus pensamentos. Podia sentir as massas de controlados nas beiradas, nem sequer uma parte verdadeira do todo. Podia sentir as bordas afiadas das criaturas de guerra, e os pensamentos mais lentos, mais macios das bestas de carga. E ali estavam os Mais Puros e seus servidores, fios brilhantes dentre a teia completa.

Venha para nós, eles urgiam, vozes profundas e sedutoras. Torne-se nós.

Kevin tentou se afastar, e o esforço doeu mais do que podia imaginar. Se escutou gritando, mas o som parecia vir de muito longe. Eram como garras prendendo-o no lugar, enganchadas em seu cérebro, poderosas demais para ignorar.

Mesmo assim, Kevin lutou. Podia sentir a Colmeia se movendo dentro dele, conquistando partes de sua mente como um exército invasor conquista campos e cidades. Kevin começou a esconder pedaços de si mesmo, lembrando como tentou esconder quão assustado estava pelo bem da mãe, tentando ocultar tudo que podia enquanto os aliens continuavam a avançar em sua mente. Se conseguisse esconder o suficiente, poderia ser capaz de se manter a parte da Colmeia. Podia continuar a ser ele mesmo.

Sentiu o momento quando foi conectado, quando passou de ver todos os fios a se tornar um deles. Podia escutar as mensagens e os pensamentos dos outros, os comandos dos Mais Puros e a obediência do resto.

Uma mente que descontrói, um dos Mais Puros pensou em sua direção.

Uma mente que é tudo que precisamos, outro concordou.

Kevin podia sentir a presença de Xan Mais Puro ao seu lado. Acorde, Kevin, junte-se a sua nova vida.

Kevin abriu os olhos, e não podia lembrar de tê-los fechado. O mundo ao seu redor parecia estranho, coberto em um verniz de cores novas, detalhes que nunca teria percebido antes saltando aos seus olhos. Como se pudesse se focar em cada partícula de pó e frações de mudança de cor.

Olhou em volta para as máquinas, e a Colmeia dentro de si o informou para que cada uma servia. Tinha conseguido guardar uma parte de si mesmo? Kevin não sabia. Se sentia como si mesmo, embora todo o resto do mundo parecesse estranho. Parecia mais vivo e mais conectado do que ele jamais tinha imaginado.

Xan Mais Puro se moveu em sua direção, para os controles da armação. O alien os operou, e Kevin sentiu a gravidade que o prendia no lugar se mover de volta para o chão.

“Bem vindo a Colmeia, Emissário Kevin,” Xan Mais Puro disse.




CAPÍTULO CINCO


Luna e os motoqueiros correram dos controlados que os cercavam, disparando para suas motos, tentando chegar lá antes que a velocidade superior daqueles que os aliens controlavam os trouxessem perto demais. Luna correu na direção de onde tinha parado sua própria moto, deitada de lado com o banco de passageiro no ar, obviamente tombada no caos que se seguiu ao momento em que a agarraram.

Ela lutou para levantá-la, empurrando com o corpo todo, o peso fazendo parecer que estava empurrando uma parede sólida. Luna sentiu a moto se mover levemente enquanto empurrava, e finalmente virou, levantando uma pequena nuvem de pó ao bater no chão ao lado da estrada.

“Sobe, Bobby,” ela chamou o cachorro, que ainda estava ocupado rosnando para a horda de controlados que avançava, como se pudesse espantá-los. “Depressa!”

Ela apontou para o banco de carona, e o cachorro entendeu, pulando para dentro e sentando lá, olhando em volta com os dentes de fora. Olhando para trás, Luna viu o motivo: os controlados estavam se aproximando, correndo daquele modo em que estavam mais próximos do que deveriam toda vez que piscava. Luna foi dar partida na moto, determinada a se afastar tanto dos controlados quanto pudesse...

Não queria ligar.

“Agora não,” Luna rosnou entre os dentes, enquanto o motor tossia e cuspia. “Vai logo!”

Ela jogou o peso todo na partida uma vez, e de novo. Podia ver os controlados se aproximando, a apenas vinte metros, depois dez. Luna podia sentir o medo crescendo dentro de si. Não queria saber o que os controlados fariam com alguém que não era mais um deles.

Pisou na partida de novo, com o peso todo em cima dela, e a moto rugiu de volta à vida. Luna não hesitou, acelerando tão rápido quanto se atreveu, para longe da multidão rompante de controlados. Sentiu o peso quanto uma mão dormente prendeu sua moto, uma mulher com pupilas cegas segurando com tanta força que a moto a arrastou junto, fazendo-a quicar no chão quando mesmo sua velocidade acentuada não foi o bastante para acompanhar.

Luna se viu tentando lembrar se tinha visto essa mulher enquanto eram obrigados a trabalhar. Se viu pensando na pessoa que ainda podia estar presa por trás desses olhos, aquela que podia estar lutando para se impedir mesmo enquanto avançava para Luna. Agora Luna sabia exatamente quão horrível era ser um dos controlados, e sabia que não havia nada que a pessoa lá dentro podia fazer para resistir.

Por outro lado, sabia que eles não sentiam dor.

“Desculpa,” Luna disse, chutando a mulher de seu assento na moto até que ela caiu de volta na estrada, permitindo que a moto de Luna se atirasse para frente tão forte que ela teve que se agarrar para não cair.

Ao seu redor, Luna viu os membros do Clube de Motocicletas de Dustside agarrando suas motos e se afastando em formação, as motos em V como se pudessem derrubar qualquer coisa em seu caminho. Ela viu Ignatius pular atrás da moto de Bear, ainda agarrado a sua preciosa arma de vapor.

Agora haviam mais controlados saindo das ruas laterais, se atirando nas motos de todas as direções. A única escolha parecia ser continuar avançando o mais rápido possível, na esperança de que a pura velocidade pudesse levá-los para além da massa de controlados antes que eles pudessem cercá-los, como água derramada em uma vasilha. Luna estava feliz de acelerar. Ter medo da velocidade era melhor do que pensar na chance de ser desmembrada por controlados.

“Não parem!” Luna gritou para os outros, tão alto quanto pode para ser ouvida por cima do barulho das motos. “A gente precisa fugir.”

Continuaram a correr, o mais rápido que podiam. Com os controlados chegando atrás e pelos lados, as motos pularam para longe da massa como rolhas de uma garrafa. Em um instante, estavam em campo limpo, correndo por Sedona, tentando se afastar o máximo possível da horda. Agora estavam se movendo mais rápido do que os controlados podiam acompanhar, na direção da periferia da cidade.

“Acho que é seguro,” Cub chamou, com um sorriso que dizia o quanto estava feliz por estar livre do controle dos aliens.

Luna sorriu de volta para ele, porque estava igualmente feliz de ter fugido. Estava feliz que ele foi salvo também. Não teria gostado da ideia de Cub ficar para trás enquanto ela fugia com os outros. Se aproximou dele, prestes a responder, embora não soubesse muito bem o que falar. Talvez que estava feliz por ele estar lá, talvez mais que isso.

O que quer que fosse, as palavras morreram na garganta quando o brilho de alguma coisa no céu chamou sua atenção, crescendo a cada momento.

“Uma nave!” Luna gritou, olhando de frente para ela.

A nave era uma das menores, mas parecia mais elegante do que as outras, e mais perigosa. Enquanto as outras eram abelhas operárias construídas para levar cargas até as naves maiores, essa parecia mais com uma vespa, de bordas afiadas e mortífera, projetada para matar o que estivesse em seu caminho.

“Está vindo pra cá!” Luna gritou.

Avançou rapidamente, e Luna se perguntou de onde tinha visto. A nave grande acima de Sedona se fora. Até a nave planeta parecia ter partido, desparecendo do céu tão rápido quanto veio. Essa aí devia ter vindo de uma das outras naves, pairando sobre outras cidades para recolher o que pudessem. Pela velocidade com que avançava, devia ter disparado na direção deles tão rápido quanto os motores aguentaram.

“Eles mandaram uma nave de outra cidade por causa da gente?” Cub gritou.

Não fazia sentido que uma nave pudesse alcançá-los tão rápido, ou que eles fossem importantes assim para os aliens. Mas não podia pensar em nenhum outro motivo para uma nave como aquela estar avançando em sua direção tão rápido, ou tão baixo, apenas algumas dezenas de metros acima do chão. Voltar a si mesmos depois de serem controlados parecia ter irritado os aliens mais do que qualquer outra coisa que fizeram.

“Devem ter sentindo pessoas se libertando do controle,” Luna disse.

“Eu percebi que os controlados sempre vem correndo atrás do que eu faço,” Ignatius explicou, de trás da moto de Bear. “Acho que querem me impedir de ajudar as pessoas.”

Luna pensou nos aliens que a haviam controlado. Como reagiriam a pessoas se libertando? Como reagiriam a qualquer perda de controle, quando tudo que pareciam querer era tomar mais e mais?

Luna achou que viu alguma coisa começar a brilhar na frente da nave, um laranja queimado que fazia parecer que alguém botou fogo no nariz do casco. Tentou decidir se era um truque da luz, e então um pensamento muito mais horrível lhe ocorreu.

“Sai da frente!” ela gritou, arrancando a moto para o lado tão rápido que precisou de toda força que tinha para se segurar.

A estrada a frente de seu pequeno comboio explodiu em uma onda de energia que rasgou o asfalto, espirrando terra e pedras para todo o lado. Luna viu uma das motos derrapar e capotar, o motorista rolando pelo chão quando a estrada despareceu sob suas rodas.

Luna saiu da estrada, ignorando os pulos e trancos do chão desigual enquanto pedras e bueiros ameaçam derrubá-la. A sua volta, podia ver os outros motoqueiros seguindo atrás, se dirigindo ao terreno menos liso, se afastando das linhas retas da estrada enquanto a nave alienígena zunia acima. Outra bolha de terra e rochas saiu voando quando a nave atirou, e então passou por eles, tombando num ângulo afiado quando começou a virar de volta.

Eram alvo fácil ao ar livre. Luna podia ver a nave alienígena se afastando, preparando outro ataque. Se atirasse à distância, teria bastante tempo para mirar e acertar todos eles. Precisavam encontrar abrigo, e tinha que ser agora.

Luna olhou em volta e a pontou para um dos vales de rocha vermelha perto de Sedona.

“Ali!” ela gritou. “É nossa única chance.”

Ela forçou o motor, a moto acelerando para frente com as outras seguindo em seu encalço. Terra explodiu a sua volta quando a nave passou de novo, e por um momento ou dois, Luna não podia ver nada a sua frente. Quando a nuvem de pó passou o bastante para enxergar de novo, teve que se jogar para esquerda para evitar os restos de uma árvore, despedaçada pelo último ataque. Luna só torcia para estar guiando os outros na direção certa.

Eles se dirigiram ao vale, mergulhando em sua boca e acelerando para dentro. Relâmpagos de energia explodiram contra as paredes, levantando pó e lançando rochas de modo que Luna teve que guinar e desviar para evitá-las. Elas rugiram e quicaram enquanto caíam, zunindo ao passar por sua cabeça, tão próxima que teve que se abaixar para desviar.

“A nave está baixando!” Cub chamou de algum lugar perto de Luna. Luna sabia que era melhor manter os olhos no caminho a frente através do vale, mas não pode se impedir de arriscar uma olhada para trás.

A nave alienígena estava voando praticamente a nível do chão, se movendo pelo vale em seu encalço enquanto tentava mirar os próximos tiros.

“Mais rápido,” Luna disse.

“Não dá pra despistar essa coisa,” Cub retrucou.

“Não precisamos despistar,” Luna gritou. “Só descobrir quão rápido faz a curva.”

Ela viu Cub sorrindo quanto entendeu, e seu grupo de motoqueiros acelerou, avançando pelo vale.

“Segura aí, Bobby,” Luna disse.

Luna se agarrou a motocicleta, passando pelos cantos e curvas tão rápido quanto se atrevia, e então mais rápido. As rochas vermelhas dos penhascos se agigantavam à sua volta em pilhas desiguais, as pedras que rolavam quando atingidas pelos raios de energia uma lembrança de quão facilmente tudo podia dar errado. Uma curva muito rápida, um toque do guidão para o lado errado, e ela e Bobby iam ser jogados nas paredes do vale, rápido demais para sobreviver.




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