Um club da Má-Lingua
Fyodor Dostoyevsky




Fyodor Mikhaylovich Dostoyevsky

Um club da Má-Lingua





I


Maria Alexandrovna Moskalev é com toda a certeza a dama de mais subida importancia em Mordassov, nem haverá quem o conteste. Ao contemplál-a, dirieis que não precisa seja de quem fôr, e que, antes pelo contrario, toda a gente lhe deve obrigações. Goza de poucas sympathias, na verdade, é cordialmente detestada, até: mas temida tambem universalmente, e é isso que ella quer. E não representará isto um rasgo de finura politica? Por que será que, por exemplo, apezar de nutrir paixão por mexericos e de não poder dormir descansada no dia em que não soube nada de novo, por que será, sim, que pela apparencia de Maria Alexandrovna, tal é a sua majestade, não occorre á mente, seja de quem fôr, o facto de ella ser a primeira coscovilheira d'este mundo, ou quando menos, de Mordassov? Dir-se-ia antes que assim que apparece deveriam cessar, acto-continuo, de todo os mexericos, as comadres tremerem como garotetes em presença do prefeito, e as conversas guindarem-se desde logo aos assuntos mais transcendentes. E todavia, ella, a respeito de uns certos Mordassovenses está em dia com umas chronicas tão escandalosas que, se as dissesse a proposito e provando-lhes – como ella o sabe fazer – a authenticidade, Mordassov em pêso tremeria tal qual tremeu Lisboa em tempos. Mas se ella quanto a segredos é o proprio tumulo; é necessario dar-se um concurso de circumstancias extraordinarias para que ella consinta em falar n'umas certas coisas, – e isto ainda entre amigos da maxima intimidade. Poderá arriscar uma allusão, dar a entender que "está em dia"; mas pella-se por manter a qualquer individuo – homem ou mulher – na sugestão de um temor perpetuo, em vez de o esmagar de um golpe. Isto é que é intelligencia, isto é que é tactica! Maria Alexandrovna sempre se distinguiu mercê do seu irreprehensivel comme il faut. É citada como modêlo. Lá quanto ao comme il faut não tem rival em toda Mordassov.

Poderá, com uma palavrinha, matar, esfacelar, anniquilar uma pessoa que lhe haja cahido no desagrado, – mas sem lhe tocar, sem suspeitar, dir-se-hia, a importancia da dita palavrinha. Semelhante traço de caracter assás trescala a alta sociedade.

Tem optimas relações. A Mordassov ainda não veiu pessoa que não ficasse penhorada com as recepções de Maria Alexandrovna. O maximo numero até de taes visitantes accidentaes ficaram-se carteando com ella. Houve até um poeta que lhe dedicou versos: Maria Alexandrovna exhibe-os com desvanecimento. Um litterato de arribação offereceu-lhe uma novélla da qual fizera leitura em casa da nobre senhora, durante um sarau: produziu optimo effeito. Um sabio allemão, vindo expressamente de Carlsruhe no intuito de estudar uma especie singular de vermezinhos chavelhudos que se encontram no nosso governo (o dito sabio escreveu ácerca do alludido vermezinho quatro volumes in-quarto) tão encantado ficou com a amabilidade de Maria Alexandrovna, que ainda hoje, lá de Carlsruhe, lhe escreve cartas respeitosas e moraes. Chegaram até a estabelecer parallelos entre Napoleão e Maria Alexandrovna. Foi brincadeira, facecia de ciumentos, e comtudo, apontando a estranheza de semelhante comparação, atrever-me-hei a fazer uma pergunta ingenua; por que seria que a Napoleão, no acume da sua gloria, o tomaria uma vertigem? Os legitimistas attribuem uma tal fraqueza á vilã extracção de Bonaparte, que nem era de estirpe realenga nem sequer de nobreza limpa. Por espirituosa que seja semelhante opinião, – pois tresanda á mais brilhante épocha da antiga côrte franceza, – atrever-me-hei ainda a perguntar: mas por que é que a Maria Alexandrovna não a tomaram nunca vertigens? Pois é um facto; veiu a ser e depois ficou sendo sempre a dama de mais subida importancia em Mordassov. Conheceu horas atribuladas, não ha duvida, e, em certas circumstancias, houve até quem dissesse lá comsigo: «Mas que é que ha de agora fazer Maria Alexandrovna?» E o obstaculo achava-se transposto como que por encanto.

Toda a gente estará lembrada da maneira porque o marido, o Aphanassi Matveich, perdeu a posição. Deu-se isso em seguida a uma inspecção aos fiscaes a quem esta achou tolos em demasia. E a cuidarem que Maria Alexandrovna não deixaria de perder o sizo, humilhar-se, supplicar, n'uma palavra, "rebaixar a sua linguarice." Longe d'isso! Percebendo que as supplicas nada adeantariam, houve-se de modo que a sua influencia não soffreu a minima quebra, e que a sua casa continuou a ser a primeira casa de Mordassov. Anna Nikolaievna Antipova, inimiga figadal de Maria Alexandrovna, a despeito das exteriorizações de mundana amizade, já cantava victoria. Mas não tardaram em perceber que era difficil atrapalhar Maria Alexandrovna, e que esta era mais fina do que a suppunham.

Aqui, vem ao pintar umas palavras a respeito de Aphanassi Matveich, marido de Maria Alexandrovna. É um homem muito bem parecido, a correcção em pessoa. Mas, nos casos criticos, assustava-se que nem um borrêgo que percebesse que lhe mudaram o que quer que fosse ao cancêlo do redil. Circumstancia que lhe não tolhia o ostentar ordinariamente uns ares de summa importancia, sobretudo nos jantares de apparato, quando punha a gravata branca. A majestade de taes sujeitos dura até ao momento de abrirem a bôca: mas então é tratar de metter rolha nos ouvidos. Semelhante homem, com toda a certeza, é indigno de pertencer a Maria Alexandrovna. É esta a opinião geral.

E d'ahi, é unicamente devido á genialissima esposa o facto de elle se conservar no seu posto. A meu ver, ha muito tempo que o deveriam ter espetado na horta á laia de espantalho para os pardaes.

Alli, e só alli, poderia ter sido de alguma utilidade. Maria Alexandrovna fez, pois, muito bem em exilar Aphanassi Matveich para a aldeia de cento e vinte almas que ella possuia a tres verstas de Mordassov. E de caminho, digamos que a dita propriedade representava a totalidade dos bens facultando a Maria Alexandrovna o custear tão bem, e com tamanho estadão, a sua casa. Facil foi pois o perceberem que havia supportado Aphanassi Matveich unica e exclusivamente por causa do seu cargo, dos respectivos ordenados e… e ainda de uns certos emolumentosinhos. Agora, que, velho, já nem representava ordenados nem emolumentos, não seria de justiça affastá-lo na qualidade de inutil trambolho?

Aphanassi Matveich leva no campo uma vida agradabilissima. Fiz-lhe uma visita e passei com elle uma hora encantadora. Ensaia ao espelho as gravatas brancas, engraxa as proprias botas, não por necessidade, mas sim por amor da arte, porque gosta de ver as botas a luzir muito. Toma chá tres vezes ao dia, vae a miudo ao banho e não se rala com coisa nenhuma…

Estão lembrados d'aquella nojenta historia, ha dezoito mêses, a proposito da Zinaida Aphanassièvna, filha unica, de Maria Alexandrovna e de Aphanassi Matveich? Zinaida é uma beldade, e uma menina muito bem educada, de mais a mais; mas tem vinte e trez annos e ainda está solteira. Uma das principaes causas a que atribuem o celibato da Zina, é o boato vago da estrambotica ligação que dizem haver tido, ha exactamente dezoito mêses, com um réles utchitel[1 - Mestre escola] – boato que ainda se não desvaneceu. – Citam uma missiva amorosa escrita pela Zina e que dizem ter corrido Mordassov de um extremo ao outro. Mas, por favor, não me dirão, leram a tal epistola? Não houve em Mordassov pessoa que a não visse. E então! onde pára ella actualmente? Toda a gente ouviu falar nella, mas quem foi que a viu? Eu, da minha parte, ainda não encontrei uma só pessoa que a tenha visto com seus proprios olhos.

Alluda alguem á tal epistola na presença de Maria Alexandrovna e aposto desde já que ella não perceberá sequer esse alguem. Mas supponhamos que tenha havido o que quer que fosse de verdade em semelhante atoarda, e que a Zina haja escrito a decantada epistola, (effectivamente, estou convencido de que a escreveu): admirem então a habilidade de Maria Alexandrovna.

Como se havia de atabafar caso tão escandaloso? – Pois bem, procurem, nem vestigios, prova, que é della? Maria Alexandrovna nem sequer se digna tomar conhecimento de calumnia tão soez, e comtudo, Deus sabe o trabalho que lhe custou conservar intacta a honra da filha unica! Que a Zina não tenha ainda casado, isso percebe-se, de mais, até: onde iria ella por aqui encontrar noivo? A Zina só pode casar com um principe reinante! Já alguem viu mais peregrina formosura? É soberba, lá isso é… Dizem que Mozgliakov a pedira em casamento, mas semelhante consorcio jámais se effectuará. Quem vem a ser esse tal Mozgliakov? É môço, assás bem parecido, elegante, peterburguense, proprietario de cento e cincoenta almas livres de hypotheca. Mas não fura paredes! Leviano, tagarélla, apaixonado pelas novas ideias… E que representarão cento e cincoenta almas com ideias novas? O casamento nunca se realizará.

Quanto acaba de ler o amavel leitor foi escrito, ha cinco mêses, unicamente por admiração. Devo convir em que nutro uma tal ou qual sympathia por Maria Alexandrovna. Quizera escrever o panegyrico de tão magnifica dama sob a forma de uma carta dirigida a um amigo, a exemplo d'aquellas que outrora publicavam as revistas, n'esses bons tempos que já lá vão, e que, louvôres a Deus! não voltam cá outra vez!

Mas se não tenho um unico amigo, e, graças á incuravel timidez que de mim se apodera assim que se trata de litteratura, a minha obra ficou na gaveta na qualidade de tentame sem seguimento.

Cinco mezes eram pois decorridos, quando em Mordassov se deu um acontecimento extraordinario.

Um dia, de madrugada, eis que chega o principe K… e vae hospedar-se em casa de Maria Alexandrovna.

As consequencias d'este acontecimento são incalculaveis. O principe passou apenas trez dias em Mordassov. Mas esses trez dias deixaram recordações fataes e inexpungiveis. Direi mais: o principe foi causa de uma verdadeira revolução n'esta nossa cidade. A narrativa da alludida revolução virá a ser, certamente, a pagina mais importante da historia de Mordassov. E é essa pagina que eu, após innumeras hesitações, me resolvi a offerecer, sob forma litteraria ao criterio do respeitavel publico.

A minha narrativa poder-se-ia intitular: "Grandeza e Decadencia de Maria Alexandrovna." Grande e seductor assumpto para um poeta.




II


Direi desde já que o principe K… não era um ancião centenario.

Á primeira vista, comtudo, ninguem podia deixar de pensar que ia reverter outra vez aos elementos, a tal ponto se achava gasto! Corriam em Mordassov as historias mais estranhas a respeito do dito principe. Affirmavam que estava um tanto ou quanto tinôco.

Effectivamente, parecia exquisito que um pomiestchik[2 - Proprietario territorial.] de uma das mais notaveis familias, dono de quatro mil almas, em posição de obter consideravel influencia na provincia, permanecesse enclausurado, tal qual um eremitão, na sua magnifica propriedade. Muitos que o tinham visto, seis ou sete annos atraz, por occasião da primeira vinda do principe a Mordassov, affirmavam que nesse tempo nem podia supportar a solidão nem tinha ainda aquelles seus costumes de eremita.

Eis os esclarecimentos que pude colher a seu respeito bebidos das mais seguras fontes.

Outrora – e onde irá isso! – o principe havia effectuado na sociedade um ingresso de aurora… Durante os annos todos da juventude levara vida airada, requestando as damas, esbanjando por vezes repetidas o seu dinheiro em viagens ao estrangeiro, cantando romanzas, fazendo trocadilhos; mas não se distinguia mediante uma intelligencia acima da marca. Em semelhante vida, não tardou em dar cabo do que tinha, e, quando chegaram os dias da senéctude, ficou sem um kopek. Aconselhou-lhe alguem que voltasse para a sua aldeia, que principiava já a ser vendida em hasta publica.

Aproveitou o conselho, e foi nessa occasião que veiu passar seis mêses em Mordassov. Agradou-lhe immenso a vida de provincia, e pelo espaço de seis mêses acabou de se "alimpar" em amorios com as mundanas provinciaes. Era aliás excellente pessoa, de um fausto principesco (em Mordassov o fausto é o signal caracteristico da mais alta aristocracia.)

As damas sobretudo não cessavam de se alegrar com um hospede encantador a tal ponto. Deixou entre nós curiosissimas recordações; entre outras exquisitices, contavam que o principe gastava a maxima parte do dia ao toucador. Parecia todo elle feito de pedacinhos enxertados. Scismavam onde e como fôra que elle se haveria decomposto d'aquella maneira. Usava chinó, bigode, suissas, e inclusivé uma pêra, tudo postiço até o minimo pellinho, e tudo preto como o proprio azeviche – uma lindeza! Levava todo o santo dia a pôr caio e carmim. Affirmavam que dispunha de um talento especialissimo em disfarçar as rugas do rosto por meio de umas mólazinhas escondidas com o chinó. Affirmavam ainda que trazia espartilho, havendo ficado sem uma costella ao saltar desastradamente de uma janella abaixo durante uma aventura amorosa, na Italia. Coxeava da perna esquerda, uma perna postiça de cortiça, affirmavam, havendo quebrado a verdadeira em Paris, em outra aventura. É possivel que houvesse exaggêro, mas o que é certo, é que o olho direito era de vidro: illudia completamente, aliás; ninguem diria que não era natural. Os proprios dentes eram artificiaes. Passava dias inteiros a lavar-se com aguas-garantidas, a perfumar-se, a encalamistrar-se. Ultimamente, comtudo, principiava a fazer-se velho e a tresler. Parecia estar prestes a terminar a sua carreira, e sabia toda a gente que se achava arruinado, – e eis que de repente lhe morre uma sua parenta muito chegada, senhora de muita edade, vivendo em Paris, e de quem não esperava herdar, em seguida a haver enterrado um mez, exactamente, antes de fallecer, o unico herdeiro. Eram quatro mil almas e uma soberba propriedade a sessenta verstas de Mordassov a reverterem no principe sem a minima partilha. Abalou desde logo para Petersburgo a fim de pôr em ordem seus negocios. Por occasião da partida, offereceram-lhe as damas um sumptuoso banquete por subscripção. Ha quem se lembre ainda de como, n'aquelle dia, o principe foi seductor e espirituoso! Era um tiroteio de calemburgos, de anecdótas extraordinarias. Prometeu voltar o mais breve possivel para a sua nova propriedade e jurou que na volta daria meza franca e uma festa – bailes e luminarias – que nunca havia de ter fim. Depois da sua partida, ficaram as senhoras um anno a falar da tal promettida festa e impacientes á espera do encantador velhinho. Organizavam até excursões a Dukhanovo, a aldeóla do principe, onde se admirava um antigo solar acastellado, um parque adornado de acacias a imitar leões, colinas artificiaes, lagos em que navegavam barquinhos tripulados por turcos de madeira, a tocar flauta, pavilhões de Mon-Plaisir, e quejandos attractivos.

Até que por fim veiu o principe, com grande espanto e não menor decepção de toda a gente, nem sequer passou por Mordassov e foi encerrar-se em absoluto isolamento em Dukhanovo. Correram boatos singularissimos. A datar d'esse momento, torna-se obscura e phantastica a historia do principe. A principio constou que lá por Petersburgo lhe não tinham corrido bem os negocios, que os herdeiros, em vista do seu estado senil, queriam nomear-lhe um conselho judicial receando que voltasse a esbanjar os seus bens. Ainda mais: accrescentavam que aquelles ávidos caçadores de heranças tinham querido internál-o n'uma casa de saude! Afortunadamente para o principe, um seu parente, personagem de summa importancia, saiu em sua defêsa, provando á evidencia que o pobre homem, semi-morto e todo elle artificial, não estava para muita dura, certamente. E que n'essa conformidade os seus bens viriam a reverter nos herdeiros sem que estes se vissem na necessidade de recorrer á casa de saude. Eis o que se diz. São compridinhas as linguas lá em Mordassov. Tudo isto havia assustado o principe, a tal ponto, que se lhe tinha demudado o genio, descambando em eremitão. Por mera curiosidade, vieram felicitál-o varios Mordassovenses: e ou não foram recebidos, ou se o foram foi de modo um tanto exquisito. O principe nem mesmo reconheceu, ou antes, não quiz reconhecer os seus amigos de outrora.

O proprio governador o foi visitar, mas voltou pelo mesmo caminho dizendo que o principe estava tinôco. D'alli em deante notaram que o governador punha uma cara de palmo, assim que lhe falavam na jornada a Dukhanovo… Indignavam-se as senhoras. Até que por fim se veiu a saber uma coisa capital; o principe vivia submettido á tutella de uma figurona por nome Stepanida Matveiévna, – Deus sabe que casta de mulher! – que tinha vindo lá de Petersburgo, velha, obêsa, usando constantemente o mesmo vestido de cassa, e sempre com um mólho de chaves na mão. O principe obedece-lhe em tudo e por tudo e não se atreve a dar um passo sem a consultar. Ella, lava-o com suas proprias mãos, apaparica-o, passeia-o e entretem-n'o, como se fôra um néné; em conclusão, é ella quem bate com a porta na cara aos parentes que principiam a saber o caminho de Dukhanovo… Foi muito discutida, sobretudo entre as senhoras, tão incomprehensivel ligação. Accrescentavam que Stepanida Matveiévna regia com plenos poderes, e sem ter quem lhe fosse á mão, a totalidade dos bens do principe. Substitue feitores, creados, arrecada os rendimentos; é aliás boa a sua administração, e os camponêzes não vêem outra coisa. Com respeito ao principe, este nem já arreda um passo do toucador, a ensaiar chinós, pêras postiças, casacos. Uma vez por outra, joga ás cartas com Stepanida Matveiévna; de vez em quando, dá o seu passeio n'uma egua inglêsa muito mansa: Stepanida Matveiévna acompanha-o sempre em carruagem fechada, prompta á primeira voz, visto como o principe só monta a cavallo por garridice e mal se pode ter em cima do selim. Acontece-lhe tambem o sair a pé, embrulhado n'um sobretudo, com um chapéu de palha enterrado na cabeça, um lenço de mulher ao pescoço, um monoculo no olho e pendurado na mão esquerda um açafate para recolher cogumelos e flôres campestres. Stepanida Matveiévna, vae-lhe seguindo as pisadas, levando á tréla dois latagões de dois lacaios; e um pouco mais atráz, uma carruagem. Se calha encontrarem um mujik que pára e tira o bonné para lhe fazer a sua contumélia dizendo: "Bom dia, paezinho principe. Nossa Excellencia, nosso solzinho!" o principe assesta-lhe o monoculo, acêna-lhe com a cabeça com bom modo e diz-lhe em francêz: "Bom dia, amigo, bom dia!" Qual não foi porém o espanto de toda a gente quando, uma bella manhã, se espalhou o boato de como o principe, aquelle eremitão, aquelle original, tinha vindo em pessoa a Mordassov e se hospedara em casa de Maria Alexandrovna! Foi um reboliço por ahi além! Estavam á espera de uma explicação, e perguntavam uns aos outros: "Que quererá isto dizer?" Não faltou quem se estivesse enfeitando para ir a casa de Maria Alexandrovna. Carteavam-se as senhoras, visitavam-se, mandavam as creadas e os maridos colher informações. O que maior espectação causava era a circunstancia de se ter ido o principe hospedar em casa de Maria Alexandrovna, e não em qualquer outra parte. Anna Nikolaievna Antipova ficou mais escandalizada do que outra qualquer pessoa, visto o principe ser ainda seu parente, parente muito arredado, é verdade.




III


São dez horas da manhã. Estamos em casa de Maria Alexandrovna, na Rua Grande, no aposento que a dona da casa, nos dias duplices, enfeita com o titulo de sala. (Maria Alexandrovna, dispõe tambem de um camarim.) O papel das paredes é correctissimo. Os moveis, pouco commodos, arvoram com verdadeira predilecção a côr vermelha. Ha um fogão, e em cima do fogão um espelho; deante do espelho um relogio tendo por assunto um Cupido do mais execrando gosto. Nas paredes, no intervallo das janéllas, dois espelhos a que já tiraram as capas. Adeante dos espelhos, duas banquinhas, e ainda dois relogios. Toma a metade de um apainelado um piano de cauda. (Mandaram vir o dito piano para a Zina: cultiva a musica.) Ao pé do fogão, no qual arde uma bôa fogueira, estão dispostas umas poltronas em desalinho pinturesco a mais não poder ser. Ao meio outra banquinha. No outro extremo da casa, ainda outra mesa, tapada com uma toalha immaculada e em cima, um samovar de prata, a ferver, no meio de um lindissimo serviço para chá. Uma senhora, residente em casa de Maria Alexandrovna, a titulo de parenta affastada, Nastassia Petrovna Ziablova, está especialmente incumbida do chá.

Duas palavras ácerca da alludida senhora. É viuva, frescalhona, com uns olhos castanhos escuros muito vivos, assaz bem parecida; é alegre, velhaca, até; linguareira, escusado será dizê-lo, e sabendo levar agua ao seu moinho; tem dois filhos no collegio, para ahi, algures. Não se lhe daria de tornar a casar; vive com bastante independencia; o marido era official.

Maria Alexandrovna em pessoa está sentada ao pé do fogão: acha-se de boa catadura. Traja um vestido verde claro, assentando-lhe a primor. Está contentissima com a vinda do principe. N'este ensejo, o principe está lá em cima, todo elle entregue á tarefa de se infunicar.

Maria Alexandrovna nem sequer pensa em esconder o seu contentamento. Deante d'ella, um rapaz a fazer boquinhas e a cantar, muito animado, seja o que fôr. Percebe-se que se desvéla por agradar a quem o está escutando. Tem vinte e cinco annos. Se não fossem as suas exuberancias, se não fossem tambem as suas pretensões a engraçado, seria toleravel. Está bem vestido, é loiro e de agradavel presença. Já a elle nos referimos, é o senhor Mozgliakov, môço sobre quem se fundaram esperanças matrimoniaes. Maria Alexandrovna acha-lhe a cabeça um tanto ôca, mas nem por isso deixa de o receber muito bem. Diz elle que está loucamente apaixonado pela Zina. Dirige-se a esta continuamente, ancioso por alcançar um ar de riso a poder de bons ditos e de azoamento. Ella, comtudo, mantem-n'o a distancia, com extrema frialdade. A joven está de pé junto ao piano, a folhear um almanaque. É uma dessas mulheres que produzem effeito geral ao entrarem numa sala. É peregrinamente formosa: alta, morena, com uns immensos olhos quasi pretos, esbelta, com um collo magnifico, uns pésinhos encantadores, espaduas e mãos de molde classico, e um pisar de rainha. Está hoje um tanto descoráda, a pallidez, comtudo, torna-lhe mais conspicuo o rubido fulgor dos labios por entre os quaes lhe luzem, tal qual perolas em fio, uns dentinhos miudinhos e regulares. Era caso para qualquer de nós sonhar com elles, três dias a fio, só de lhes ter posto a vista em cima. É séria a sua expressão.

O senhor Mozgliakov dir-se-hia arrecear-se do olhar fito da Zina, pelo menos não ergue para esta os olhos sem um tal qual enleio.

É singelissimo o vestido da joven, de gaze branca: Está-lhe bem o branco, está-lhe lindamente o branco… E d'ahi, que haverá que lhe não fique bem? Traz enfiado n'um dedo um annel de cabello entrançado. A julgar pela côr, aquelles cabellos não são os da mamã. Mozgliakov nunca se afoitou a perguntar de quem seriam aquelles cabellos. Está taciturna, esta manhã, triste, até, ou preoccupada, pelo menos. Em compensação, Maria Alexandrovna acha-se em maré de dar á lingua. De vez em quando, esguêlha uns olhos desconfiados para a Zina, e olhos furtivos quanto possivel, como que não se arreceando menos da joven.

– Estou tão contente, Pavel Alexandrovitch, (dir-se-hia pipilar) que estou capaz de gritar da janella abaixo o meu contentamento a quem passa pela rua. Sem falarmos da agradabilissima surpreza que nos proporcionou, a mim e á Zina, com vir quinze dias mais cedo do que o esperavamos. É caso á parte. Mas o que mais me penhorou foi a attenção que teve comnosco trazendo comsigo o principe. Se soubesse como eu adoro aquelle encanto aquelle vélhinho! Não pode comprehender-me! As pessoas da sua edade seriam incapazes de semelhante affeição. Não sabe as circumstancias que entre mim e elle se deram, ha seis annos? Lembras-te, Zina? E eu sem me lembrar de que n'esse tempo estavas em casa de tua tia. Estou que me não acreditaria, Pavel Alexandrovitch, se eu lhe dissesse, que servi de guia ao principe, que fui para elle, irmã, mãe? Havia lhaneza, carinho, nobreza n'aquella nossa ligação. Era… pastoril!.. Nem eu sei como a hei de definir. Eis o motivo porque elle se lembrou da minha casa com tamanha gratidão, o pobre do principe! E se eu lhe disser, Pavel Alexandrovitch, que é possivel até que o salvasse trazendo-o para minha casa? Não podia evitar o confranger-se-me o coração, durante aquelles seis annos, sempre que me punha a pensar n'elle!.. Eu… quer acreditar?.. até sonhava com elle! Dizem que aquella creatura, a tal sua carcereira, o enfeitiçou, que o deitou a perder… mas, emfim, o senhor arrancou-o das garras d'aquella harpia! Urge aproveitar a occasião para o salvar completamente… Mas conte-me, mais uma vez, como foi que o conseguiu? Descreva-me, muito por miudos, o encontro de um e outro. Eu ainda agora fiquei tão sobresaltada! Não vi senão os traços geraes, mas não ha pormenor que não seja precioso a meus olhos. Se eu sou assim! Pello-me pelas minudencias, nos acontecimentos de maior vulto, são os pormenores que primeiramente me chamam attenção… e… emquanto elle se está arrebicando…

– Mas se eu já lhe contei tudo, apressa-se em responder Mozgliakov, prompto a recapitular a narrativa pela décima vez. Tinha viajado toda a noite… não tinha pregado olho; estava com tanta pressa de chegar ao meu destino! (Esta ultima phrase ia sobrescritada para a Zina.) Tive que aturar contendas, berreiros por occasião das mudas. Eu proprio, confesso, não fiz tambem pouca algazarra. É um poema moderno, sem tirar nem pôr. Mas vamos adeante. Ás seis horas da manhã, em ponto, eis que chêgo á ultima muda, em Ignichévo. Tranzido, mas, isso sim! nem sequer tiro uns minutos para me aquécer. Pégo a gritar: "Cavallos!" Estou em dizer, até, que metti um susto á mulher do capataz das mudas: tinha ao collo um néné, de peito, e estou com receio que se lhe talhasse o leite. – Era admiravel o despontar do sol! Sabe, aquelle pó da geada escarlate e prateada? E eu, sem attentar em coisa nenhuma, ia a vapor!

Empalmo uns cavallos a um tal conselheiro de collegio, – com quem por um triz que não tenho um duéllo. Afiançam-me que um quarto de hora antes tinha abalado da dita muda um certo principe que viaja com cavallos proprios. Que pernoitara na muda. Quasi que nem lhes dou ouvidos, salto para a carruagem, vôo por ali fóra tal qual um prisioneiro escapulido. – Ha uma situação parecida em uma elegia de Fet[3 - Poeta russo.]. – Ora, a nove verstas da cidade, justamente, em vista do retiro de Svietozerskaia, avisto o que quer que seja de singular! Uma grande carruagem de jornada caída na estrada. O cocheiro e dois latagões de dois lacaios, de pé, junto da mesma, e muito atrapalhados. Lá do fundo da carruagem vinham uns bérros que me confrangiam a alma!.. Eu podia seguir por deante, não tinha nada com isso, mas levou a melhor a humanidade, pois, como diz Heine, mette o nariz em toda a parte. Paro, pois. Eu, o meu yamstchik Semene, e uma outra alma russa, accudimos a ajudar e entre nós seis pômos em pé a carruagem. Pômol-a de pé, – quero dizer, sobre os patins. – Uns mujiks que levavam uma carga de lenha para a cidade ajudaram-nos tambem, (apanharam bem boa gorgêta). E eu a dizer commigo: É o tal principe que passou a noite na muda. Ólho: Santo Deus! É o principe Gavrila! Que encontro este! "Principe! bradei: tiozinho!" Á primeira vista, não me conheceu; nem sei se me reconheceria á segunda: e agora mesmo não estou bem certo em que me reconhecesse. Creio que nem sequer já se lembra do nosso parentesco. Vi-o pela primeira vez, em Petersburgo. N'esse tempo era eu um garoto. Lembro-me muito bem, mas elle, podia-se lá lembrar de mim? Apresento-me: fica encantado! Beija-me, e depois pega a tremer de susto e, em conclusão, desata a soluçar. Por Deus! Vi-o com meus proprios olhos: até chorou! Palavra puxa palavra e, em conclusão, acabei por lhe propôr que viesse até Mordassov tomar um dia de descanso. Consentiu sem hesitações. Declarou-me que ia para o retiro de Svietozerskaia, para casa do arcypreste Missail a quem tem em grande conta; que a Stepanida Matvéina – qual de nós, parentes do Principe, não terá ouvido falar de Stepanida Matveiévna? O anno passado, escorraçou-me de Dukhanovo com o pau da vassoira!.. Que a Stepanida Matveiévna recebera pois uma carta exigindo a sua presença em Moscou pelo fallecimento de alguem, o pae ou a filha, nem sei nem quero saber, – talvez que pae e filha ao mesmo tempo, e ainda por cima para ahi qualquer segundo sobrinho empregado na fiscalização dos vinhos. N'uma palavra, tivera que conformar-se, desamparar o seu principe por uns dez dias e levantar vôo, a toda a pressa, para a capital.

O principe demóra-se um dia; dois dias, sem se mexer, a experimentar chinós, a encalamistrar-se, a pentear-se, a fazer paciencias: em conclusão, a solidão acabou por lhe ser pesada. Foi então que mandou pôr o trem e metteu a caminho do retiro de Svietozerskaia. Alguem do seu séquito, com medo do phantasma da Stepanida Matveiévna, atrevera-se a ir-lhe á mão. Mas o principe é cabeçudo e tinha abalado na vespera, depois de jantar, pernoitando em Ignichevo, largara da muda de madrugada, e, justamente na volta do caminho que vae ter á residencia do arcypreste, por pouco se não despenha com a carruagem n'uma barroca. Salvei-o e persuadi-o a vir para casa da nossa amiga commum, a dignissima Maria Alexandrovna. Diz elle que a senhora é a dama mais encantadora que tem encontrado em toda a sua vida, e cá estamos. O principe está a pôr em ordem os arrebiques com o criado particular de quem porfiou em não prescindir. Mais depressa se deixaria morrer do que apresentar-se em casa de uma senhora sem a roupa toda da ordem… E aqui tem a historia toda… é uma historia deliciosa!

– Que humorista, hein! Zina? exclama Maria Alexandrovna. Que captivante narrador! Escute, Pavel, uma pergunta: explique-me bem o seu parentesco com o principe. O senhor trata-o de tio.

– Por Deus! Maria Alexandrovna, se eu sou o proprio a não saber, como é que sou seu parente. Estou em dizer, até, que talvez seja preciso para ahi um cento de gravêtos para sermos do mesmo ramo. Mas eu cá trato-o de tiozinho, e elle responde-me. E ahi tem, até hoje, todo o nosso parentesco…

– Foi Deus em pessoa que o inspirou em m'o trazer para aqui. Arrepio-me só de pensar que poderia ter ido hospedar-se para outra qualquer parte. Devoravam-n'o! Atiravam-se a elle como quem se atira a um thesouro, a uma mina!.. Eram capazes de lhe tirar a camisa! Não põe na sua ideia o que por ahi vae de almas sofregas, vis e arteiras n'esta nossa Mordassov.

– Ah! meu Deus! mas para onde queria que o levassem a não ser para sua casa? Sempre tem cada uma, Maria Alexandrovna, interveiu Nastassia Petrovna, a incumbida do chá. Talvez quisesse que carregassem com elle para casa da Anna Nikolaievna!

– Mas com tudo isso, por que se demorará elle tanto? É exquisito! disse Maria Alexandrovna, erguendo-se, impaciente.

– O tio? Aquillo ainda é negocio para cinco horas! E d'ahi, bem sabe que está perdido da memoria; é capaz de se ter esquecido de que é seu hospede. É um homem extraordinario, Maria Alexandrovna. Se soubesse!

– Ora vamos! Que está a dizer?

– A verdade, Maria Alexandrovna. É um homem mecanico. Não o vê ha seis annos, mas sei o que ha a esse respeito. É a recordação de um homem, esquéceram-se de o enterrar. Tem olhos de vidro, pernas de cortiça; todo elle de engonços, a propria voz é artificial.

– Valha-nos Deus, sempre é um tal esturdio! exclamou Maria Alexandrovna com uns modos doridos. Não tem vergonha, o senhor, a falar assim de um veneravel ancião, que é seu parente? (A voz de Maria Alexandrovna, n'esta altura assume entonação tocante.) Sequer ao menos, lembre-se de que é uma reliquia da nossa aristocracia! Meu amigo, essas leviandades provêm-lhe das taes novas ideias em que está sempre a falar. Meu Deus! tambem eu participo dessas ideias; comprehendo que o principio que rege as suas opiniões é nobre, honrado. Presinto n'essas ideias novas o que quer que é de elevado, de sublime. Mas tudo isso não me impede de ver os lados praticos, por assim dizer – da questão. Tenho vivido na sociedade, conheço melhor que o senhor os homens e as coisas, pois que o senhor é apenas um rapaz. Este vélhinho afigura-se-lhe ridiculo lá por causa da edade. O senhor, ha dias, affirmava que queria dar alforria aos seus servos, que cada qual deve ir com o seu século. Tudo isso, sem duvida, lá por que o leu para ahi algures no tal seu Shakespeare! Acredite, Pavel Alexandrovitch, o seu Shakespeare já lá vae ha que tempos. Se elle resuscitasse, apezar de ser um génio, não percebia uma palavra do viver moderno. Se alguma coisa existe de majestoso, de cavalheiresco n'esta nossa sociedade contemporanea, é com certeza a aristocracia. Um principe é sempre um principe; faz um palacio ainda que seja de uma cabana. Ao passo que o marido da Natalia Dmitrievna, que mandou construir um palacio, fica sendo o marido da Natalia Dmitrievna, e mais nada, – e a Natalia Dmitrievna pode pôr em cima de si meio cento de crinólines, que nunca passará de ser a Natalia Dmitrievna como d'antes. Tambem o senhor, meu caro Pavel, é um representante da aristocracia, de lá veiu. Aqui onde me vê, ouso tambem ter-me na conta de não ser alheia á aristocracia. Pois bem! Ai do filho que chasqueia dos proprios antepassados! E d'ahi, não deixará de convir, d'aqui a nada, meu amiguinho, que é preciso pôr de lado o seu Shakespeare, sou eu que lh'o digo. Estou certa em que agora mesmo não é sincéro. Está armando ao effeito!.. Mas… eu para aqui a dar á lingua! Deixe-se estar, meu querido Pavel; vou saber noticias do principe. Talvez precise de alguma coisa, e com estes meus criados!.. E saiu apressada Maria Alexandrovna.

– Maria Alexandrovna parece estar contentissima pelo facto de o principe não se ter ido hospedar para casa da elegante Anna Nikolaievna; e comtudo, a Anna Nikolaievna tem pretensões a ser parente do principe. É capaz de estoirar de raiva! – observou Nastassia Petrovna.

Mas, notando que lhe não respondem, Madame Ziablova, depois de haver esguelhado uma olhadéla para a Zina e para Pavel Alexandrovitch, percebe que é alli de mais e sae, tambem, como quem vae procurar qualquer coisa. E d'ahi, desforra-se da propria discreção deixando-se ficar atráz da porta, de ouvido á escuta.

Pavel Alexandrovitch trata logo de se approximar da Zina; está commovidissimo, com a voz a tremer:

– Zinaida Aphanassievna! Não está zangada commigo? diz timidamente e com modo supplice.

– Com o senhor? Mas por quê? pergunta a Zina um tanto ruborizada, erguendo sobre elle os esplendidos olhos.

– Pela minha vinda prematura, Zinaida Aphanassievna, já não podia supportar mais longo apartamento. Ainda mais quinze dias! E eu a vêl-a sempre em sonhos! Vim para saber a minha sorte… Mas por que franze as sobrancelhas, está zangada? Com que então, ainda hoje não apanho resposta decisiva?

Á Zinaida, effectivamente, carregou-se-lhe o parecer.

– E eu antevia que me havia de falar a esse respeito, encetou ella em voz rispida com uns vislumbres de despeito. (Declina a vista.) E como semelhante apprehensão me maguou em extremo, acho melhor cortar de vez toda e qualquer indecisão… mais vale assim… O senhor exige, quero dizer, pede uma resposta? Seja assim. A minha resposta será a mesma que já lhe dei: espere. Repito-lhe, ainda não estou resolvida, não lhe posso prometter o ser sua mulher… Não é coisa que se obtenha por exigencia, Pavel Alexandrovitch; mas, para o tranquillizar accrescentarei que o não rejeito definitivamente. E comtudo, note que, se o deixo esperar uma decisão favoravel, é por dó da sua inquietação. Repito-lhe que quero tomar em plena liberdade a minha decisão, e se eu em conclusão lhe declarar que o rejeito, nem por isso depois me deve increpar por lhe ter dado esperanças. E fique isto assente por uma vez!

– Mas então, então! exclamou Mozgliakov em voz de mais em mais supplice, será isso uma esperança? Poderei fundar uma qualquer esperança n'essas suas palavras, Zinaida Aphanassievna?

– Lembre-se de tudo que lhe tenho dito e funde tudo que quiser: é livre. E nada mais acrescentarei. Não o rejeito, digo-lhe, tão somente: Espere! Reservo-me o direito de o rejeitar se assim o julgar necessario… Far-lhe-hei ainda notar o seguinte, Pavel Alexandrovitch: se veiu mais cedo do que tinha dito com o sentido em operar por meios indirectos, esperançado em fazer valer a sua influencia, a da mamã, por exemplo, enganou-se nos seus calculos. Se assim fôra, rejeitál-o-hia de vez, entendeu? E agora, basta, se me faz favor! Até que eu proprio lhe torne a falar n'isso, nem palavra a semelhante respeito.

Foi proferido em tom firme, sêcco, o conjuncto d'este discurso, sem hesitações, como se fôra decorado de antemão. E Pavel sente o nariz a crescer-lhe. N'este comenos eis que entra Maria Alexandrovna. Logo atráz d'esta entra madame Ziablova.

– Já ahi vem, Zina! Quer-me parecer que não tarda ahi! Nastassia Petrovna, avie-se… o chá!

E Maria Alexandrovna n'uma azafama, toda ella.

– A Anna Nikolaievna já mandou saber noticias; a Aniutka, a creada, até já veiu pedir informações á copa. Ha de estar como uma bicha! disse a Nastassia Petrovna, investindo com o samovar.

– E a mim que me importa? responde Maria Alexandrovna, a desfechar as palavras por cima do hombro a madame Ziablova. Como se me interessasse o que poderá pensar Anna Nikolaievna! Tenho a certeza em como não serei eu que mande seja quem fôr á sua copa. E demais, fique sabendo, muito me admiro de que me façam passar por inimiga da Anna Nikolaievna, coitada! Pois é opinião corrente em Mordassov. Ora seja juiz, Pavel Alexandrovitch. Conhece-nos a ambas: por que é que eu havia de ser sua inimiga? Para lhe disputar a supremacia? Sou indifferente a essas coisas! Ella que seja a primeira, eu lhe irei dar os parabens! Emfim, é injusto, e quero defendêl-a. É meu dever. Mas para que é que a calumniam, para que hão de andar a malhar assim na pobre da creatura? É nova, gosta de se enfeitar: será por isso? Quanto a mim, acho que vale mais gostar dos trapos do que um certo numero de coisas de que tanto gosta a Natalia Dmitrievna, das taes coisas que nem sequer se podem nomear. Será ainda lá porque a Anna Nikolaievna gosta de visitas e não pode parar em casa? Mas, santo Deus! Se ella não tem instrucção de qualidade nenhuma, e com certeza que lhe havia de ser difficil o abrir um livro e entreter-se dez minutos a fio fosse com o que fosse. É garrida, dá de olho, da janella abaixo, a todo e qualquer que passa pela rua. E d'ahi?.. Mas para que será que andam para ahi a apontál-a como uma beldade? É macilenta, que até mete medo! Dansa que é um riso vê-la, chega a ser comica, convenho, mas por que será que dizem que a polkar é um portento? Usa uns chapeus inconcebiveis! E d'ahi, ella terá culpa de lhe faltar o gosto? Affirme-lhe que faz bem em pregar na cabeça um papel de rebuçado, e verá que o faz. É linguareira, mas se por aqui não haverá quem o não seja. O senhor Suchilov, com aquellas suas enormes suissas, está pregado em casa della de manhã até á noite, e de noite até manhã, tenho a certeza. E d'ahi, santo Deus! para que é que o marido joga as cartas até ás cinco horas da madrugada? Se o que se vê por ahi são maus exemplos! E demais, não deixará de ser talvez mais outra calumnia. N'uma palavra, hei de sair sempre, sempre, sempre, sempre a defendêl-a… Mas! ai, Senhor! Ahi vem o principe! É elle! é elle! conheci-lhe os passos! Era capaz de os distinguir entre mil. Até que o vejo, afinal, meu principe!..




IV


Á primeira vista, ninguem confundiria o principe com um velho, mas examinado de mais perto, ninguem deixaria de verificar que é um cadaver movido por mólas; empregaram toda a casta de artificios para disfarçar n'um adolescente semelhante mumia. Um chinó estupendo, suissas, bigodes postiços, mais pretos que o proprio ébano, lhe tapam metade do rosto. As faces estão pintadas com singular pericia; nem uma ruga: que é d'ellas?.. Vestido no rigor da moda, dir-se-hia saído de um figurino de alfaiate. Traz assim a modos de uma visite, isto é, qualquer coisa elegantissima feita expressamente para as visitas matutinas. Luvas, gravata, collete, tudo isso de brancura deslumbrante e do mais requintado gosto. O principe manqueja um tudo-nada, mas tão levemente! Dir-se-hia mais um tempêrozinho exigido pela móda.

Um monoculo no olho, – n'aquelle, exactamente, que é de vidro, – vem saturado de perfumes. Quando fala, arrasta umas certas palavras, talvez por impotencia senil, ou por serem postiços os dentes, ou ainda por elegancia. Pronuncia umas certas syllabas com doçura extraordinaria e accentua a letra e. Tem uma pontinha de não se-me-dá que lhe ficou da sua vida de homem feliz em amores. Se não perdeu de todo a transmontana, pelo menos está sem memoria. Engana-se a cada instante, fica-se a mascar e a metter os pés pelas mãos. É necessario ter um certo dom de opportunismo para sustentar com elle uma conversa. Maria Alexandrovna, todavia, tem a consciencia dos proprios recursos, e a presença do principe léva-a ao auge do enthusiasmo.

– Mas não o acho nada mudado, nada, nada! exclama ella agarrando em ambas as mãos ao hospede e amesendando-o n'uma commoda poltrona. Sente-se! sente-se, principe! Seis annos! seis annos, inteirinhos e integrados sem nos vermos, e nem uma carta, nem uma linha, durante todo o tempo! Oh! quantas culpas não tem para commigo, principe! Se soubesse o quanto eu estava zangada comsigo, meu caro principe! Mas, e esse chá! esse chá! Ah! meu Deus! Nastassia Petrovna, o chá!

– Obrigado… ô – ôbrigado!.. sou cul… cul… pado… gaguejou o principe.

(Esqueceu-nos dizer que gaguejava um tanto; e d'ahi, é moda.)

– Cul… culpado! Ora imagine que, o anno passado, quiz abs… absolutamente vir aqui, acrescentou a mirar a casa através da luneta.

Mas tinham-me mettido medo: disseram-me que por aqui andava a có… cólera…

– Não, principe, não a tivemos por cá, affirmou Maria Alexandrovna.

– Tinhamos a morrinha, meu tiozinho, interrompeu Mozgliakov, que se quer tornar conspicuo.

Maria Alexandrovna méde-o com olhar sevéro.

– Ha de ser isso… a mo… mo… rrinha ou coisa que o valha. E vae, eu então deixei-me ficar. E seu marido, minha que.. querida Maria Nikolaievna, ainda está na ma… a… gistratura?

– Não, principe, diz Maria Alexandrovna, meu marido não está na ma… a… gistratura.

– Iá apostar que o tiozinho a está confundido com a Anna Nikolaievna Antipova! exclama o perspicaz Mozgliakov.

Acto continuo, porém, mordeu o beiço, percebendo que nem por isso está muito á vontade Maria Alexandrovna:

– Pois é isso, é… A Anna Nikolaievna, e… e… e eu sempre a esquecer-me… e então! Antipovna, exactamente, An… ti… povna, confirma o principe.

– Não, principe, está equivocado! disse Maria Alexandrovna com um rizinho azêdo. Eu não me chamo Anna Nikolaievna, e, confesso, nunca suppuz que se esquecesse de mim. Estou espantada, principe, sou a sua velha amiga, a Maria Alexandrovna Moskalieva. Não se recorda, principe, da Maria Alexandrovna?

– Maria Ale… lexan… xandrovna! Ora vejam! E eu a confundi-la com a Anna Vassiliévna… é delicioso!.. Dizia eu, pois, que me não fui hospedar em casa da… E eu, amigo, a cuidar que me levavas exactamente para casa da tal Anna Matveina!

É impagavel! E dahi, acontece-me isto tanta vez! Quanta vez não vou eu parar onde não quizéra!.. Em geral, fico sempre contente, sempre contente, aconteça o que acontecer. Com que então não é a Nastassia Vassiliévna!

É interessante!

– Maria Alexandrovna, principe! Maria A – lex – androvna! Se é coisa que se faça! Esquecer-se assim da sua melhor amiga!

– Melhor amiga, sim, é verdade! Perdão, pe… er… dão! silva o principe fixando a attenção na Zina.

– A minha filha Zina! O principe ainda a não conhece! Não estava em minha casa quando aqui veiu pela ultima vez; lembra-se?

– Sua filha! É um encanto! um encanto! murmura o principe assestando ávido a luneta na Zina. – Mas que belleza; disse com visivel sobresalto.

– Serve-se de chá, principe? pergunta Maria Alexandrovna desviando a attenção do jarreta para um groom, parado defronte d'elle com uma bandeja.

O principe serve-se de uma chavena de chá e contempla o groom de bochechas rochonchudas e rosadas.

– Ah! ah! ah! É seu filho? Perfeito, muito perfeito! e… e… e… bem comportado, já se vê?

– Perdão, principe… accode pressurosa Maria Alexandrovna. Ainda estou toda a tremer… Com que, então, deu uma quéda? Não se magoaria? Não é prudente arriscar a sua pessoa em semelhantes aventuras!..

– Virou-se! virou-se! O cocheiro virou a carruagem commigo dentro! exclama o principe com extraordinaria animação. E eu, a pensar que era o fim do mundo ou coisa parecida. Os santos me perdoem: apanhei um susto… vi as estrellas ao meio dia, eu esperava lá!.. eu es… pera… va lá!.. E tudo aquillo, por culpa do meu cocheiro, do Pamphilio: entrego-te este negocio, meu amigo, has de tratar do inquerito… Estou convencido de que attentou contra a minha vida!

– Muito bem! muito bem, tiosinho! responde Pavel Alexandrovitch, fica a meu cuidado. Mas oiça lá; se lhe perdoasse por esta vez, hein, que lhe parece?

– Por caso nenhum! Tenho a certeza de que quiz dar cabo de mim, elle e mais o Lavrenty, que eu deixei lá em casa. Ora imaginem, encasquetaram-se-lhe as taes ideias novas, uma negação… que eu sei lá… e era um communista em toda a extensão da palavra. Quando me vejo a sós com elle… fico logo em suores frios.

– Ah! que verdade, principe! Não pôe na sua ideia o que eu tambem tenho aturado a esta sucia! Já despedi por duas vezes toda a creadagem. Que gente tão estupida! Anda uma pessoa a ralhar com elles de manhã até á noite.

– E… stá claro! Gosto de ver um lacaio que não fure paredes, observou o principe, satisfeito, como aliás succede aos velhos, de que lhes escutem com respeito a tagarelice, – é até a principal qualidade de qualquer lacaio… uma to… leima sincera… em certas occasiões. Incute-lhes uma certa imponencia… solemnidade! N'uma palavra, é mais distincto, e eu, a primeira qualidade que exijo a um serviçal é a distincção. É por isso, que conservo o Tarenty, estás lembrado do Tarenty, meu amigo? Assim que o vi, percebi-lhe a vocação: Has de ser porteiro. É phe… e-nome-nalmente es… tupido. Com aquelles olhos de carneiro mal morto: Mas que boa presença! que solemnidade! Em pondo a gravata branca, faz um figurão! Gosto d'elle deveras! Eu, ás vezes, ponho-me a olhar para elle, e não me canço de o ver: ali onde o vêem, está escrevendo um livro… É um verdadeiro philosopho a… al… lemão, o proprio Kant, ou antes, um, perú gordo e bem comido, um ser incompleto, tal qual cumpre a todo e qualquer se… er… viçal.

Maria Alexandrovna ri ás gargalhadas e bate palmas; Pavel Alexandrovitch faz côro: acha immensa graça ao tio. A Nastassia Petrovna ri tambem; e a propria Zina dá um ar de riso.

– Mas que graça, principe! que alegria! exclama Maria Alexandrovna. Que preciosa faculdade de observar ridiculos… E desappareceu o senhor da sociedade! Privar assim de um talento o mundo durante cinco annos inteiros!.. Mas podia até escrever comedias, principe! Podia muito bem restituir-nos Visine, Griboiedov, Gogol!

– É verdade, é verdade!.. confirma encantado o principe… eu podia restituir… Quer crêr? Eu d'antes tinha muita graça, até escrevi para o theatro um vô… ô… deville. Com umas coplas que eram uma delicia! Por signal que nunca foi representado.

– Que pena! Como havia de ser divertido? Sabes o que te digo, Zina, que vinha mesmo a proposito. Nós, justamente, principe, andamos a combinar umas récitas de amadores com um fim de beneficencia patriotica, em favor dos feridos… Vinha mesmo ao pintar o seu vaudeville.

– E… stá claro, estou prompto a escrevêl-o. De mais a mais, já nem me lembra uma palavra, mas tenho de memoria um ou dois trocadilhos que… (O principe beija as pontas dos dedos.) Eu, em geral, quando estava no estrangeiro… fazia um verda… deiro furor… Lembro-me de mylord Byron… fomos muito intimos… Dansava á maravilha a krakoviak no congresso de Vienna…

– Mylord Byron, meu tio? Ora vamos, que está para ahi a dizer!

– Está claro!.. Byron. E d'ahi, talvez fosse outro. Exactamente, era um polaco, lembro-me agora muito bem; um grande original, o tal polaco! Intitulava-se conde, e porfim, veiu-se a saber que era cozinheiro.

Mas dansava lindamente a krakoviak. Quebrou uma perna. Foi n'essa occasião, até, que lhe fiz estes versos:

		O nosso conde polaco
		Dansava a krakoviak

E d'ahi… já me esqueceu… ah!

		Desde que partiu a perna,
		Nunca mais pôde dansar.

– Sim, sim, deve de ser isso, rico tiozinho! exclama Mozgliakov, pôdre de riso!

– Está c-claro! Quer-me parecer que seria isto ou coisa que o valha. E d'ahi é possivel que não seja. O que lhes sei dizer é que os versos me saíram muito bons. Escapam-me certas coisas, tenho tanto que fazer!

– Mas, não me dirá, principe, pergunta com muito interesse Maria Alexandrovna, em que é que se occupa n'aquella sua solidão? Lembrava-me tanta vez do principe! Estou a arder de impaciencia por saber tudo por miudos…

– Em que é que me occupo! Ora essa… immensa coisa em que me occupar… em geral. Umas vezes descanso, outras vezes dou o meu passeio… a imaginar cá umas coisas…

– Deve de ter muita imaginação, rico tiozinho.

– Muita, meu caro. Ás vezes, acontece-me imaginar coisas de que eu proprio fico pasmado. Quando eu estava em Kadnievo… A proposito, tu não foste vice-governador em Kadnievo?

– Eu, tiozinho? Que está dizendo! Pelo amor de Deus! exclama Pavel Alexandrovitch.

– E eu a confundir-te com elle…

E dizia eu commigo: Por que será que elle está tão mudado?.. Porque o outro tinha uma phisionomia imponente, espirituosa… um homem extra-a-ordina… ria… mente intelligente. Compunha sempre versos… a proposito… De perfil, era tal qual um rei de copas.

– Acredite, principe, interrompeu Maria Alexandrovna, essa vida ha de deitál-o a perder, lhe juro eu! Encerrar-se durante cinco annos n'um ermo! Não ver, não ouvir pessoa alguma!.. Sabe o que lhe digo, o principe é um homem perdido! Pergunte a algum dos seus amigos, que lhe sejam fieis, e todos lhe dirão isto mesmo: é um homem perdido!

– De… de… vé-éras? arrasta o principe.

– Com certeza… Digo-lh'o como se fôra uma irmã, porque sou muito sua amiga, – pois que as recordações do passado, para mim são sagradas. Que interesse poderia eu ter em o enganar? Nada, nada, é preciso absolutamente mudar de vida, aliás, não resiste?..

– Valha-me Deus! pois eu hei de morrer, assim, tão depressa? exclama o principe, assustadissimo. E caso é que adivinhou: as minhas humorroides dão cabo de mim, e ha uns tempos para cá, principalmente… e quando me atacam as crises, tenho sin-tó-ó-mas es… espan… tosos… Eu já lhe vou contar tudo… por miudos…

– Deixe lá, tiozinho, contará isso tudo, para outra vez. Agora, não será tempo de irmos dar o nosso passeio?

– Pois, sim, vá lá, ficará para outra vez; e d'ahi talvez não interésse… Mas com tudo isso… é uma doença… extrê-ê-mamente interessante. Com uma tal variedade de episodios! Vê se me lembras, meu caro, contar esta noite, com todos os pormenores, uma certa particularidade das humorroides.

– Ora, escute, principe, atalhou ainda Maria Alexandrovna. Devia ir ao estrangeiro, para ver se se curava.

– É isso, é! Ao estrangeiro, absolutamente. Lembro-me de que, ahi por 1820, a gente divertia-se im-men-sa-mente no estrangeiro. Estive para casar com uma viscondessa, e era francêsa. Eu estava apaixonado por ella, e queria consagrar-lhe toda a minha vida. Que ella, aliás, casou com outro… Caso exquisito!.. Tinha estado em casa della não havia ainda duas horas, e foi n'este meio tempo que um barão allemão a conquistou. Veiu a acabar n'um hospital de doidos.

– Mas, caro principe, estavamos falando na sua saúde, e dizia-lhe eu que devia pensar n'isso muito a sério. Ha grandes medicos lá pelo estrangeiro. De mais a mais a mudança de ar, já por si, é importantissima. Terá que renunciar a Dukhanovo, por uns tempos, quando menos.

– Abso-o-lu-tamente! Já me conformei, tenciono tratar-me pela hy-dro… the… rapia.

– Pela hydrotherapia?

– Está claro! Foi isso mesmo que eu disse, pela hy… dro… the… rapia. Já me tratei pela hy… drotherapia. Estava eu nas aguas. Tambem lá estava uma senhora de Moscou, varreu-se-me o nome, uma mulher muito poetica, com setenta annos, ou coisa assim; tinha uma filha com uns cincoenta annos, e com uma belida n'um olho. Falavam ambas sempre em verso. Aconteceu-lhe um desastre! N'um fogacho de genio, matou o criado. Teve seus da-res e to… mares com a justiça. E como eu ia dizendo, puzeram-me no regimen da agua; que eu, ainda assim, não estava doente: mas se não faziam senão dizer-me "Trate de si! trate de si!" E eu, por delicadeza, puz-me a beber a agua e, effectivamente, senti allivio. Bebi, bebi, e tornei a beber! Acho que bebi um lago inteiro… É optima coisa a tal hy-dro-the-rapia. Dou-me muito bem. Eu, se não tivesse caído de cama, tinha passado lindamente.

– Lá isso é verdade, rico tio. Ora dize-me, rico tio, aprendeste logica?

– Valha-o Deus! Que pergunta? observa Maria Alexandrovna, escandalizada.

– Está c-claro, meu amigo… ha muito tempo, aqui para nós. Estudei philosophia, na Allemanha. Frequentei os cursos todos mas d'ali a pouco esqueceu-me tudo… Mas… confesso, metteu-me um tal susto no corpo com as taes do… enças que… fiquei atarantado… Eu volto já. Dêem-me licença!

– Aonde vae, principe? exclama, pasmada, Maria Alexandrovna.

– Não tardo aqui. Não me demoro… Vou apenas… assentar um pensamento… Até já…

– Que tal lhe pareceu? exclama Pavel Alexandrovitch, á gargalhada.

Maria Alexandrovna perde de todo a paciencia.

– Eu não o entendo, na verdade, não posso comprehender de que é que se ri! – começa ella com animação. Rir de um ancião respeitavel, de um parente! Rebentar a rir a cada palavra que elle solta da bôcca! Abusar d'aquella bondade evangelica! Tenho até vergonha de o ouvir, Pavel Alexandrovitch! Mas não me dirá o que é que lhe encontra de ridiculo? Ainda não fui capaz de lhe notar o lado ridiculo.

– Mas se nunca conhece ninguem, se não faz senão metter os pés pelas mãos!

– Ahi tem as consequencias do tal sequestro de cinco annos entregue á guarda d'aquella megéra! Devemos antes ter dó d'elle, em vez de rirmos á sua custa. Veja lá, nem a mim mesmo me conheceu, até! O senhor foi testemunha. Pois não é terrivel! É preciso salvá-lo. Eu, se lhe propuz ir ao estrangeiro, foi na esperança de que se resolva a largar de mão aquella… regateira.

– Sabe o que lhe digo, é preciso casál-o, Maria Alexandrovna.

– E o senhor a dar-lhe! É incorrigivel, senhor Mozgliakov.

– Não sou, acredite, Maria Alexandrovna, eu, d'esta vez, estou falando até muito a sério. Por que é que o não havemos de casar? É uma ideia como outra qualquer. Em que é que isso o pode prejudicar? No estado a que elle chegou, é um expediente que o pode salvar, creio eu. A lei ainda lhe permitte casar. D'esse modo, vê-se livre d'aquella desavergonhada, desculpe a expressão. Escolherá para ahi qualquer menina, ou qualquer viuva honesta, intelligente, carinhosa e pobre, sobretudo, que não deixará de o tratar como filha e que comprehenderá que lhe deve ser grata. Que coisa melhor lhe poderia acontecer? Um coração terno e fiel, em vez d'aquella… moita! Está claro que convem que seja bonita, pois o tio professa ainda o culto da belleza. Não viu os olhos que elle deitava á Zinaida Aphanassievna?

– E onde irá desencantar semelhante ideal? pergunta Nastassia Petrovna toda ella ouvidos.

– Não está má pergunta? A senhora, por exemplo, sem irmos mais longe… se me dá licença, perguntar-lhe-hei por que é que não ha de casar com o principe? Primeiro e segundo, porque é bonita, e viuva, ainda por cima. Terceiro, por que é fidalga. Quarto, por que é honestissima. Ha de amá-lo, amimá-lo, pôr na rua a tal carcereira, carregar com o principe para o estrangeiro, dar-lhe papinha e goloseimas… tudo isto até que chegue o dia em que elle diga adeus a este mundo de amarguras, o que tardará para ahi um anno, quando muito, ou um mez ou dois, quem sabe; depois fica sendo princesa, viuva, rica e, para compensar o trabalho, casa para ahi com um marquez qualquer, ou um general. É bonito, pois não acha?

– Ai! Deus meu! Que amor eu lhe havia de ter, por gratidão, quando por mais não fosse, se elle pedisse a minha mão! exclama Madame Ziablova.

Os olhos feriram-lhe lume, até.

– Mas, isso sim!.. são sonhos!..

– Sonhos? Tem empenho em que se realisem? Experimente, peça-me que lhe alcance essa pechincha. E corto desde já este dedo se hoje mesmo não fôr noiva do principe. Não ha nada mais facil do que persuadir o meu tio. Diz sempre a tudo, que sim. A senhora bem o ouviu, ha boccado. Casamol-o sem elle dar por isso. Enganamol-o, é verdade, mas se é para seu bem, pois não acha? Em todo o caso, a senhora do que devia tratar era de ir arranjando uma toilette á altura das circumstancias, Nastassia Petrovna.

A animação de Mozgliakov transforma-se em enthusiasmo. A Madame Ziablova, com o seu tino todo, está-lhe a crescer até agua na bôcca.

– Eu bem sei; nem é preciso que m'o lembre, que estou para aqui uma trapalhona… Pareço até uma cozinheira, pois não pareço?

Maria Alexandrovna está com um cara de palmo. Afoito-me a affirmar que ouviu a proposta de Pavel Alexandrovitch com uma pontinha de terror. Quer sim quer não, teve mão em si.

– Tudo isso é muito bonito, mas é um chorrilho de futilidades sem pés nem cabeça, e que não vem nada a proposito! disse, com sequidão, dirigindo-se ao Mozgliakov.

– Então por quê, minha querida Maria Alexandrovna? Por que é que diz que são futilidades fóra de proposito?

– O senhor está em minha casa, e o principe é meu hospede. Não consinto que ninguem se esqueça do respeito que se deve á minha casa! Tomo as suas palavras como mera brincadeira, Pavel Alexandrovitch; mas, ahi vem o principe, graças a Deus!

– Eu… c… cá… es… tou, guincha o principe ao entrar. É espantoso, querida amiga… que fecundidade com que acordou hoje este m… meu espirito! Ás vezes – talvez não acredites – mas acontece-me estar um dia inteiro sem me accudir um pensamento a esta cabeça…

– Seria a tal queda d'inda agora que lhe abalou os nervos…

– Tambem me quer parecer, meu amigo, ach… acho util, até, o tal accidente, tanto assim que estou resolvido a perdoar ao meu Pheophilo. Queres que te diga? – Palpita-me que não premeditará attentar contra os meus dias. E demais… já está bem castigado, cortaram-lhe as barbas.

– Cortaram-lhe as barbas! – Que me diz? Elle, que tinha umas barbas mais compridas que um principado allemão.

– Es… tá c-claro!.. sim… um principado. Em geral, meu amigo, são muito acertadas as tuas conclusões. Mas as barbas d'elle são postiças. Ora imaginem: Mandaram-me um catalogo: acabam de chegar do estrangeiro umas optimas barbas quer para cocheiros quer para gentlemen: suissas, barbas á hespanhola, pêras á império, etc.; tudo de primeira qualidade, por preços muito mó-mó-di… cos. E eu, então, encommendei umas barbas para cocheiro. Mandaram-m'as: Ma-a… gnificas! Mas a do Pheophilo era duas vezes mais comprida. E eu muito atrapalhado: que hei de eu fazer? Recambiar as barbas postiças, ou mandar rapar as do Pheophilo? Reflecti maduramente e resolvi em favôr das barbas postiças.

– Prefere a arte á natureza, rico tiozinho?

– Pois está claro!.. E que desgosto que elle teve quando se viu de cara rapada. Cada pêllo que lhe cortavam era um dia de vida que lhe tiravam. Mas não serão horas de sair, meu caro?

– Estou ás suas ordens, tio.

– Principe, ouso esperar que só irá a casa do governador! exclamou Maria Alexandrovna, muito sobresaltada. O principe, pertence-me, faz parte da minha familia, por todo o dia. Escusado é dizer, que não tenho nada que ensinar-lhe, pelo que diz respeito a Mordassov. Talvez queira ir fazer a sua visita á Anna Nikolaievna, e não tenho direito de o dissuadir de dar semelhante passo. Tanto mais que estou persuadida de que a sua propria experiencia lhe servirá de guia. Lembre-se de que, hoje, sou sua irmã, sua mãe e sua aia por todo o dia… Ah! Estou toda a tremer por sua causa, principe!.. O principe não conhece esta gente, não conhece, digo-lho eu… Não, que elle é preciso tempo para os conhecer.

– Deixe o caso por minha conta, Maria Alexandrovna, disse Mozgliakov; tudo se passará conforme lhe prometti.

– Entregar-me nas suas mãos, eu?.. O senhor é um estouvado? Cá o espero para jantar, principe. Costumamos jantar cedo. Que pena que eu tenho de que, n'esta occasião, meu marido esteja no campo! Havia de gostar tanto de o ver! Estima-o tanto! Dedica-lhe tão sincera amizade!

– Seu marido? – Com que então… tem marido? —

– Valha-me Deus! Que pessima memoria é a sua, principe? Pois esqueceu o passado a esse ponto? E meu marido, o Aphanassi Matveich, querem ver que tambem se não lembra d'elle? Está no campo, mas o principe, em tempos, viu-o, até, muita vez. Veja lá se se lembra; o Aphanassi Matveich?

– Aphanassi Matveich! No campo? Ora vejam lá! Mas é delicioso! Tem então marido! Que ratice! Existe um vô… ô… de ville versando sobre o mesmo assunto: O marido á porta e a mulher na… Conceda-me licença!.. já me não lembro lá muito bem… a mulher safa-se para Tula… ou para Yoroslav!..

O marido á porta e a mulher em Tver, rico tio, sopra-lhe o Mozgliakov.

– Está c-claro, sim, é isso! Obrigado, caro amigo, exa… cta… mente… em Tver… É um encanto… um en… can… to… É assim… é!.. a mulher em Koxtroma… quero dizer… em conclusão… safou-se… Um encanto! um encanto! Mas já não sei o que é que eu ia dizendo!.. Ah! sim! vamo-nos embora, hein? Até á vista! minha rica senhora! Adeus… minha linda menina!

O principe beija as pontas dos dedos á Zinaida.

– O jantar! O jantar, principe!

– Demore-se o menos que puder! brada Maria Alexandrovna deitando a correr atráz d'elle.




V


– Nastassia Petrovna, não seria mau ir deitar a sua rabisáca pela cozinha, disse ella apóz de haver acompanhado o principe. Palpita-me que aquelle traste do Nikitka é capaz de se tomar da pinga e deita-nos a perder o jantar.

Obedeceu Nastassia Petrovna. Á saída, olhou para Maria Alexandrovna e percebeu que estava animadissima a digna senhora. Em vez de ir vigiar o tratante do Nikitka, Nastassia Petrovna dirige-se a uma saleta contigua, d'alli, enfiando pelo corredor, vae ao quarto, e esgueira-se para um cubiculo de despejos, atulhado de bahús, de vestidos velhos e de roupa suja de toda a familia. Nos bicos dos pés, acerca-se de uma porta fechada, sustendo a respiração, e espreita pelo buraco da fechadura: Aquella porta é uma das três que abrem para a sala (está condemnada). Maria Alexandrovna sabe que a Nastassia Petrovna é velhaca, pouco delicada, de poucos escrupulos, e muito capaz de escutar ás portas. N'este momento, comtudo, Madame Moskalieva está tão preoccupada, que se descuida de toda e qualquer cautélla.

Senta-se n'uma poltrona e despede significativa olhadela á Zina. E a Zina a sentir o pêso d'aquelle olhar. Dá-lhe um pulo o coração!

– Zina!

A Zina volta com muito vagar para a mãe o descorado semblante e aquelles olhos sonhadores.

– Zina, tenho que te falar em negocio importante.

Está de pé a Zina; cruza os braços e espera. Deslisa-lhe pelo semblante expressão fugaz de despeito e de ironia.

– Quero perguntar-te qual é a tua opinião a respeito d'este tal Mozgliakov?

– Está farta de saber a conta em que o tenho, responde a Zina com modo constrangido.

– Pois sim, filha, mas está-me parecendo que se vae tornando um tanto ou quanto impertinente, atrevido; e em conclusão, aquella sua insistencia…

– Diz elle que me ama; se assim fôr, acho perdoavel a sua insistencia.

– Admiro-me de uma circumstancia: tu, d'antes, não o desculpavas, assim, tanto;… antes pelo contrario, eras, até, muito rispida para com elle, sempre que eu a elle me referia.

– E a mim, o que me causa admiração é outra circumstancia: A mamã, d'antes, estava sempre a defendêl-o, e é agora a propria a condemnál-o.

– Confesso que me sorria este casamento. Custava-me vêr-te assim sempre, tão triste. – Avaliava bem a tua tristeza, – pois sou capaz de a comprehender, seja qual fôr o juizo que faças a meu respeito. – Chegou até a tirar-me o somno! Em summa, estou convencida de que só uma mudança radical na tua vida te poderia salvar, e essa mudança, ha de ser o casamento. Não somos ricos, não podemos ir dar a nossa volta pelo estrangeiro. Os asnos que povoam esta cidade espantam-se de te ver ainda solteira aos vinte e três annos e inventam fabulas a tal respeito. Mas poderei eu dar-te por marido para ahi um conselheiro d'esta estupida cidade ou o Ivan Ivanovitch, nosso procurador? Haverá por aqui marido á altura dos teus merecimentos? É certo que o Mozgliakov é apenas um peralvilho, e com tudo isso, de todos elles, é ainda o mais acceitavel. É de boa familia, dôno de cincoenta mil almas: sempre valerá mais que um procurador que vive de propinas e á custa Deus sabe de que tranquibernias. E eis o motivo porque me lembrei d'elle. Tanto menos verdadeira simpathia me merecia, e tanto mais me convenço hoje de que era o Suprêmo Senhor quem me enviava semelhante desconfiança como advertencia. Pensa bem! Se porventura se offerecesse agora um partido mais vantajoso, não serias tu a propria a louvar-me de não ter até hoje dado a tua palavra a ninguem? Pois, ouso crer, Zina, que tu hoje, nada lhe terás dito de positivo. – Pois não é verdade?

– Para que servirão tantos rodeios, mamã? quando podia muito bem ter-me dito tudo isso em duas palavras, replica a Zina com modo resoluto.

– Rodeios, Zina! Serão coisas que se digam a tua mãe? Ah! Vejo que de modo nenhum te mereço confiança! Consideras-me como inimiga muito mais do que como mãe!




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notes



1


Mestre escola




2


Proprietario territorial.




3


Poeta russo.


